11 de abril de 2015

R. K. HARRISON - Recuperando a Antiguidade: do Oriente Médio

recuperando-antiguidade-oriente-medio
Recuperando a Antiguidade: do Oriente Médio 

O Conteúdo Cultural do Antigo Testamento 

EM TODOS OS PERÍODOS DA HISTÓRIA DO ANTIGO TESTAMENTO, os antigos hebreus estiveram em contato com outras nações no Oriente Médio. Abraão mudou-se, com sua família e os seus bens, da Mesopotãmia para Canaã, durante o segundo milênio a.C„ e visitou rapidamente o Egito antes de se fixar no local que viria a ser a terra de seus descendentes. Nos tempos de Moisés, os israelitas, que aproximadamente dois séculos antes tinham se fixado na região de Gósen, junto ao delta do rio Nilo. se encontraram vivendo em condições de escra­vidão no Egito, e antes que ocupassem a Terra Prometida, tiveram conflitos com as nações da Transjordânia e com os habitantes pagãos da própria Canaã. 

Durante os tempos de Davi, os filisteus, que tinham emigrado anteriormente para o sul da Palestina, saindo da região do Egeu, representaram uma grave ame­aça à existência da nação israelita, e somente foram dominados depois de uma luta prolongada. Nos dias do rei Salomão, houve um grande contato — cultural e comercial — com os fenícios, no noroeste da Palestina, e a sua influência foi parti­cularmente evidente na atividade de construções daquela época. O reino do norte, Israel, mal tinha se tornado uma entidade independente, depois da morte de Salo­mão, quando o poder ascendente do regime sírio começou a desafiar a existência deste reino, enquanto o sul, Judá, tornou-se uma vítima involuntária da agressão militar dos egípcios. 

Com o passar do tempo, o império sírio rendeu-se ao poder ameaçador dos assírios, e esta reviravolta de eventos finalmente resultou na destruição do reino do norte. O reino de Judá, embora mais distante geograficamente que o das “dez tribos", também teve contatos periódicos com os governantes sírios de Damasco, e, como Israel, foi invadido algumas vezes pelos exércitos dos assírios. Parcialmen­te, como resultado das intrigas egípcias, o reino do sul chegou a um calamitoso fim, pela mão das forças dos babilónios e dos caldeus, e os seus cidadãos mais pro­eminentes foram levados em cativeiro à Babilônia. Depois de aproximadamente setenta anos, os sobreviventes retornaram à Palestina, sob o governo persa, para começar a viver outra vez, entre vizinhos que não tinham nenhuma simpatia por eles, entre os quais os mais problemáticos eram os árabes. A ascensão de Ale­xandre, o Grande, provocou a rápida disseminação da cultura grega pelo antigo Oriente Médio, e com ela, de muitos costumes e tradições que influenciaram to­das as partes do império grego, incluindo a judéia. Essa situação persistiu até que os romanos incorporaram as províncias gregas da Síria e do Egito ao seu próprio império, e neste processo trouxeram os judeus sob o domínio imperial. 

Na verdade, não foi por mero acidente que os hebreus encontraram essas e outras nações menores durante a sua longa e diversificada história, pois a terra que Deus lhes tinha dado era, na realidade, uma importante ligação entre as várias áreas culturais do Oriente Médio, O antigo império heteu, na Anatólia, chegava até o noroeste, ao passo que para o sudeste se estendia a terra fértil do Egito, Mais para o leste, entre os rios Tigre e Eufrates, estava o agitado território da Babilônia, ao passo que para o norte e leste se situavam algumas das importantes cidades do império assírio. 

Rotas comerciais para caravanas se estendiam, na antiguidade, desde o norte da Índia até as cidades sumérias do sul da Mesopotâmia, e dali partiam ao longo do serpenteante rio Eufrates até a Síria, o norte da Palestina e a terra dos heteus, ou cruzavam o deserto árabe para o oeste, e chegavam ao norte, passando pelo sul de Canaã, ou então ao sudeste, no Egito. No mundo agitado e próspero dos tempos do Antigo Testamento, os israelitas foram colocados em uma posição fun­damentalmente importante e geograficamente estratégica. Qualquer viajante que desejasse passar de uma região a outra do Oriente Médio, geralmente descobria que a sua jornada o levava, com facilidade, à Palestina, se não, efetivamente, ao território israelita. 

Os cidadãos da terra da Palestina eram, assim, membros de uma vida vigorosa do Oriente Médio, estivessem ou não cientes disso, pois havia um constante inter­câmbio de formas culturais, de uma maneira ou de outra. Por exemplo, determi­nadas técnicas fundamentais de construção desenvolvidas pelos sumérios foram utilizadas pelos egípcios, na construção das pirâmides, no período do Velho Rei­no. A cerâmica da Era Minoana, em Creta, circulava amplamente entre as nações do Oriente Médio, no segundo milênio a.C., fato que permitiu que Sir Flinders Petrie, um importante arqueólogo, formulasse um sistema de cerâmica datando de determinados períodos da história do Oriente Médio. Mais uma vez, a descoberta, pelos heteus de Anatólia, de técnicas para a fundição de minério de ferro apresen­tou a Idade do Ferro para Israel e seus vizinhos, e isto acabou trazendo consigo muitos progressos no comércio, nas artes de guerra e na vida diária. 

A partir do século VII a.C. quando as forças vitoriosas de Alexandre, o Grande, varreram de maneira muito dramática o Oriente Médio, no século IV a.C., os gregos tinham fornecido soldados mercenários, em quantidades variadas, aos exércitos dos babilônios, egípcios e dos persas. Por causa disso, os costumes que trouxeram rapidamente produziram frutos, Esses e muitos outros exemplos de in­terdependência cultural e política deixam claro que, do ponto de vista da geogra­fia, da história e da vida em geral, o mundo do Antigo Testamento coincidia com o do antigo Oriente Médio. Devido a essa situação, fica evidente o fato de que os povos e os tempos do Antigo Testamento não podem, e não devem ser estudados de forma isolada do amplo cenário do Oriente Médio. Qualquer informação que possa ser obtida, sobre a história, a religião, as línguas, a literatura e as culturas dos antigos povos orientais, necessariamente terão uma importante influência em aspectos comparáveis do Antigo Testamento. 

Embora muitas facetas do cenário cultural tivessem apenas interesse inci­dental para os diversos autores cujas obras foram preservadas ou refletidas no Antigo Testamento, as narrativas das Escrituras, apesar disso, podem ser esclareci­das de modo vantajoso, em muitos pontos, sendo introduzidas de modo apropriado no contexto amplo de todo o material do antigo Oriente Médio que está disponível. Esse procedimento tem a vantagem inegável de permitir que o leitor moderno con­temple o cenário do Antigo Testamento de uma maneira que não era possível até anos comparativamente recentes, e, consequentemente, lhe dará um sentimento de participação nos trabalhos, aspirações, tentações e triunfos dos homens e mulheres cujas vidas fizeram parte da corrente da história do Antigo Testamento. 

Registros do Passado 

Como a grande maioria dos povos do antigo Oriente Médio estava envolvi­da ativamente em escrever a história, assim como em fazer parte dela, há uma grande quantidade de fontes escritas, de variados tipos, que sobreviveram para nos fornecer uma interessante e fidedigna imagem do passado dos antigos. Estes materiais emergem de muitas e diferentes situações, e embora algumas delas sejam somente de natureza local, outras têm influência sobre aspectos muito mais amplos da vida antiga no Oriente Médio. 

Registros Literários 

O elevado grau de alfabetização obtido na Mesopotâmia e na Palestina desde o início do segundo milénio a,C, resultou em uma grande variedade de criações escritas, algumas das quais não mais existem. Algumas dessas criações eram re­gistros, no melhor sentido que fossem de questões domésticas, pessoais, nacionais ou internacionais. Outras, no entanto, eram produções literárias por si mesmas, e variadas, desde a poesia épica religiosa da Suméria e da Babilônia até os textos médicos cuidadosamente escritos do período do Velho Reino do Egito. Nada incomuns, por todas as terras do Oriente Médio, eram os stdae (ou stela), ou grandes mo­numentos erigidos, geralmente feitos de diorito, pedra calcária, granito ou alguma outra pedra de boa durabilidade, na qual se gravava uma inscrição comemorando pessoas e eventos específicos. Assim, quando Meneptá do Egito (aproximadamente 1224-1215 a.C.) derrotou uma invasão de Povos do Mar e líbios, no quinto ano do seu reinado, registrou o seu feito notável em uma série de hinos, inscritos no verso de um bloco negro de granito stela que tinha sido originalmente erigido quase cen­to e cinquenta anos antes, por Amenotep III. Este monumento foi então colocado na sua câmara mortuária, em Tebas, enquanto, ao mesmo tempo, uma duplicata da inscrição era gravada nos muros do sólido templo de Karnak, que infelizmente somente sobreviveu à passagem dos séculos em lorma fragmentada. 

As biografias também eram encomendadas, de tempos em tempos, e geral­mente eram executadas durante a vida do indivíduo interessado. Por exemplo, o terrível general Uni, que comandou os exércitos egípcios da Sexta Dinastia, aproximadamente em 2300 a,C., ordenou que a sua biografia fosse esculpida em pedra, de modo a divulgar as suas proezas militares em Canaã. Esta obra, que foi ideali­zada, criada e concluída dentro de alguns poucos meses, no máximo, tratava de várias fases de sua carreira, da qual um aspecto importante era o reconhecimento dos seus sucessos pelo Faraó; a obra também incluiu o canto de triunfo que ele e seus homens entoaram durante o seu retorno da Palestina. 

Uma grande quantidade de inscrições foi encontrada em construções de todos os reis, por todo o Oriente Médio, e tanto em natureza como em conteúdo fre­quentemente são semelhantes às suas equivalentes modernas. Os sumérios foram os primeiros povos a colocar inscrições nas pedras fundamentais de templos, pa­lácios e outras estruturas. Quando escavadas, muitas delas foram de considerável utilidade, auxiliando a esclarecer problemas de datas e cronologia em geral, uma vez que invariavelmente continham os nomes dos governantes da época, e conse­quentemente são ansiosamente procuradas por arqueólogos. Quando Sir Leonard Woolley estava escavando a superfície de al Ubaid, nos arredores de Ur dos caldeus, a pátria de Abraão, descobriu uma pequena tábua retangular de pedra calcária branca, que trazia uma inscrição. Depois de decifrada, a inscrição revelou que a estrutura tinha sido erigida por certo governante sumério, chamado A-anne-pad-da, filho do fundador da Primeira Dinastia de Ur. Esta fonte contemporânea esta­beleceu a autenticidade histórica das listas dos antigos reis sumérios, e ao mesmo tempo preservou o nome de A-anne-pad-da, que de alguma maneira tinha esca­pado a todos os outros registros antigos da dinastia real na Suméria. 

As inscrições, algumas vezes, eram colocadas em altares de sacrifício, para celebrar a divindade que era adorada ou designar a função deste altar particular. Nesta última conexão, um problema menor da tradução do hebreu foi esclareci­do pela descoberta, em Palmira, no norte da Síria, de um altar de pedra calcária, com projeções ou “pontas” em cada canto. No altar estava inscrita a palavra, até então obscura, hawmamm, ou “altar de incenso”, e esta agora deve ser reconhecida como a tradução correta para as “imagens” (versão KJV em inglês), ou “imagens do sol” (versão ARC) de Levítico 26.30; 2 Crônicas 14.5; 34.4,7; Isaías 17.8; 27.9 e Ezequiel 6.4,6. 

Diferentemente dos egípcios, os antigos mesopotâmios faziam abrangen­tes coletâneas de leis, que são fundamentalmente importantes, tanto para uma compreensão moderna na estrutura social contemporânea, como também para a tarefa de reconstruir uma história da jurisprudência. O mais famoso código le­gal da Mesopotâmia foi o de Hamurabi, o último grande governante da Primeira Dinastia da Babilônia. Este corpus baseou-se em material legislativo anterior dos sumérios, como os códigos de Eshnunna e Lipit-Ishtar, e diversas cópias dele foram feitas sob a forma de stela, de modo a divulgar o seu conteúdo ao público em geral. Embora a data precisa do código de Hamurabi ainda seja incerta, quanto à época em que foi escrito, não pode haver dúvida de que o código refletia as condições so­ciais que havia no início do segundo milênio a.C., se não antes disto — e legislava sobre elas. 

Textos médicos e científicos, tanto da Babilônia como do Egito, datam, pelo menos, do final do tetceiro milênio a.C. Tábuas que foram encontradas em sítios arqueológicos da antiga Suméria foram consideradas como contendo importante material, relativo a assuntos científicos como astronomia, matemática, geografia, farmácia e medicina, demonstrando claramente o quanto a cultura suméria era avançada. Os costumes (ou tradições) médicos do antigo Egito parecem ter sur­gido no final do terceiro milênio a.C., e em sua maioria, foram copiados em um período posterior, com alguns acréscimos e modificações, para adotar a forma de manuais médicos ou cirúrgicos, ou históricos de casos. 

Os mais importantes desses papiros egípcios foram descobertos a partir de 1862, e incluem o papiro de Edwin Smith, de Tebas; o papiro de Ebers, que trata de ciência farmacêutica e medicina, também descoberto em Tebas, aproximada­mente em 1862; o papiro de Hearst, que foi recuperado no Alto Egito em 1899, e que constitui uma cópia muito próxima do papiro de Ebers; e os papiros médicos de Kahun, descobertos em 1889 por Sir Flinders Petrie em Fayum, no Egito. A essa impressionante lista, pode-se acrescentar o grande papiro de Berlim, que, embora seja de data mais recente que o papiro de Ebers, aparentemente derivou de fontes ainda mais respeitáveis. 

As listas de reis foram compiladas a partir de um período muito antigo na Me­sopotâmia, e as da Suméria, em particular, têm grande importância para ajudar a estabelecer as sequências cronológicas adequadas. Alguns desses documentos apre­sentam problemas bastante inesperados, com relação à duração dos reinados atribu­ídos aos vários reis. Um deles, o chamado prisma de Weld-Blundell, preservou uma lista de reis que evidentemente tinha sido compilada durante a próspera Terceira Dinastia de Ur, e embora apresente uma lista de oito governantes de cidades sumérias em ordem cronológica, atribuíram reinados de duração completamente irreal a cada um deles. De fontes antigas do Egito veio uma pequena tábua de marfim que relacionava os governantes das duas primeiras dinastias, e devido à sua natureza é extremamente valiosa, pela informação que apresenta sobre aquele período remoto da história do Egito, As seis primeiras dinastias do Egito foram descritas de maneira mais abrangente sob a forma de anais, na famosa Pedra de Paíermo, que pode ser datada, com razoável precisão, como sendo de aproximadamente 2400 a.C. 

Depois dessa época, o registro de acontecimentos sob a forma de anais tornou-se amplamente difundido no antigo Oriente Médio, Consequentemente, alguma coisa que fosse de importância nos reinados de monarcas, em particular, era gra­vada nos muros dos palácios, nas câmaras mortuárias, nas pirâmides e stehn, ou então era preservada para a posteridade de alguma outra maneira considerada igualmente adequada. Este costume tinha a vantagem indiscutível de dar um tipo de durabilidade especial aos registros escritos, e tornou disponíveis aos estudantes modernos os feitos de governantes famosos do Oriente Médio, como Tutmés III, Ramsés II e III, Sisacjue, Salmaneser III, Senaqueribe, Sargâo II, Esar-Hadom, Ciro, o grande, e Dario, o Grande. 

Epopéias religiosas eram comuns na Mesopotâmia, e estas composições forne­cem muita informação a respeito das crenças e dos costumes religiosos da antigui­dade. Uma grande epopéia da criação, baseada em materiais mitológicos antigos dos sumérios, foi compilada durante a Primeira Dinastia da Babilónia, e original­mente compreendia sete tábuas, de uma extensão média de 150 linhas, cada uma, tratando da história da origem dos deuses; da batalha entre Marduque, principal divindade da Babilônia, e Tiamat, o oceano salgado; e a criação do homem, em um universo ordenado divinamente. Mas outro famoso ciclo literário da Primei­ra Dinastia da Babilônia foi a Epopéia de Gilgamesh, que também se baseou em antigas tradições mitológicas sumérias que descreviam as aventuras do lendário Gilgamesh, que foi governante de Uruk no final do quarto milênio a.C. A décima primeira tábua desta composição é importante, por ter preservado a história babi­lónica de um dilúvio devastador, cujos detalhes têm numerosas características em comum com o relato correspondente registrado no livro de Gênesis. 

Outras fontes de informação a respeito das crenças da antiga Mesopotâmia incluíam hinos às divindades; panteões ou listas de deuses, juntamente com seus parentescos e funções; e uma grande variedade de textos que contêm os rituais que deveriam ser seguidos nas diferentes formas de adoração. Do Egito, vieram obras como o famoso Book of ún Dead (Livro dos Mortos), uma coletânea aleatória de palavras mágicas que se julgava que fossem importantes para os mortos quando confrontassem Osíris, o juiz e governante do reino dos mortos. 

Este material, na verdade, era a coletânea dos Textos dos Sarcófagos que, a par­tir do período do Médio Império vinham sendo escritos em papiros e colocados no sarcófago, juntamente com o corpo do morto. Os Textos dos Sarcófagos, na verdade, compreendiam algumas palavras mágicas poderosas, que eram recitadas durante os funerais no Egito antigo, e receberam este nome porque também eram escritas na parte interior do sarcófago, de modo a estar ao alcance do morto, se ele necessitasse delas em algum momento após a vida. 

Os Textos dos Sarcófagos, por sua vez, faziam parte de um grupo maior de palavras mágicas e encantamentos, conhecidos como os Textos das Pirâmides. Es­tas inscrições eram escritas nas paredes internas das pirâmides, para o benefício dos mortos que ocupassem estes monumentos funerários, e deixavam abundan­temente claro que os mortos eram considerados como necessitados da ajuda de mágica, a um nível ainda maior do que os deuses ou os seres humanos vivos. Com base neste tipo de material, fica evidente que no antigo Egito alguns atos “religio­sos”, como os esforços, por parte dos adoradores, de contatar seus deuses, tinham, na verdade, uma natureza mágica. Na realidade, a língua egípcia não possui uma palavra específica para “religião", não mais do que os hebreus, e como resultado disto, o mais próximo que os egípcios podiam chegar desta idéia era por meio do uso da palavra hike, “mágica”, ou “poder mágico". 

De uma natureza muito diferente eram os antigos Textos de Execração egípcios, que se originaram no Médio Império, provavelmente durante a Décima Segunda Dinastia. Tais textos compreendiam os meios pelos quais os faraós reinantes amal­diçoavam cerimonial e magicamente, todos os seus inimigos, tanto atuais como potenciais. Os textos foram recuperados de duas formas, ou como vasilhas de cerâ­mica vermelha, ou como estatuetas humanas grosseiras de argila, todas elas com a inscrição de maldições especificas, que eram, então, ritualmente esmagadas, de acordo com os princípios da mágica favorável que indicava como deveria ser despe­daçada toda a oposição aos faraós. Os textos têm uma importante influência sobre a geografia e topografia do antigo Oriente Médio, uma vez que nas listas asiáticas há nomes de cidades cuja identificação ainda está longe de estar correta. Os nomes pessoais também são interessantes, uma vez que mostram, entre outras coisas, que os habitantes assentados da Palestina e da Síria estavam tendo que acomodar estra­nhas nações em seu meio, durante o período do Médio Império no Egito, 

Composições literárias como estas, vindas do Oriente Médio, também escla­recem consideravelmente as condições políticas e sociais da época, como podemos exemplificar mencionando as Fábulas de Sinuhe. Esta interessante história egípcia narrava as aventuras de um nobre do século XX a.C., que teve que fugir para a Palestina para procurar asilo político, quando o idoso faraó Amenemés I morreu. As mesmas considerações se aplicam a uma época posterior da história egípcia, re­fletida na narrativa que descrevia as fornadas de Wen-Atmn. Esta composição mostra a baixa estima em que tinha caído o poder egípcio, aos olhos das nações vizinhas, por volta de 1100 a.C., descrevendo as frustrações e humilhações que um sacerdote egípcio encontrou na sua missão na Fenícia, para obter cedro para o barco sagrado do deus Re. 

Outras fontes valiosas de informação sobre os tempos antigos do Oriente Mé­dio incluem correspondência diplomática, ou a recuperada dos dias de Hamurabi, ou as mais conhecidas cartas de Amarna, do século XIV a.C. Documentos de negócios de todos os tipos foram encontrados em inúmeros sítios arqueológicos mesopotâmios, e possibilitaram uma inesperada imagem de um avançado desenvolvimento social no terceiro e no segundo milénio a.C. Descobertas de fontes, como listas de nomes, têm grande importância no estabelecimento de conexões entre áreas geográficas em diferentes períodos da história, como também para mostrar, pelo menos até certo ponto, a tendência geral de movimentos migrató­rios no Oriente Médio. Particularmente importante para os mesopotâmios eram as árvores genealógicas e familiares, de que muitos exemplos foram encontrados em Mari e Nuzu. Embora houvesse tanto calendários civis como religiosos em uso no Oriente Médio, pelo menos no início do segundo milênio a.C., dos quais seria possível fazer cálculos, o método favorito de registrar as histórias pessoais das famílias, de forma individual, era independente do uso de calendários, e envolvia a formulação de uma árvore familiar ou genealógica. Nestas listas não havia refe­rências aos reinados dos reis, ou outras características objetivas de calendários ou cronologias, com exceção de tentativas de uma datação no colofão, ou na conclu­são, da tábua; em vez disto as listas se concentravam em indivíduos proeminentes das várias famílias e seus descendentes. Para muitas pessoas, este delineamento das diferentes gerações, em ordem descendente, era a única história com a qual tiveram contato, e esta mesma situação é prontamente observada no Antigo Testamento, onde as listas genealógicas são, na verdade, um tipo de composição his­tórica antiga. Com exceção de considerações puramente pessoais, no entanto, as árvores genealógicas recuperadas de Mari e Nuzu são importantes pela natureza das informações que fornecem a respeito de determinados costumes sociais da época, especialmente o da adoção, assunto de que trataremos mais adiante. 



Fontes Arqueológicas 

Ficou claro, com base no esquema precedente dos registros disponíveis do an­tigo Oriente Médio que grande parte daquilo que constitui o material literário é, na verdade, também de natureza arqueológica. Embora algumas das fontes de informação anteriormente mencionadas existissem muito tempo antes do surgi­mento da arqueologia moderna, como disciplina científica, muitas chegaram ao alcance dos estudiosos como resultado de escavações relativamente recentes em lugares muito distantes entre si, no Oriente Médio. Alguns destes materiais são ilustrados com gravuras, como no caso dos baixos relevos esculpidos em palácios e templos babilônios e assírios, ou das pinturas magnificamente executadas que decoravam o interior de palácios, templos, pirâmides e câmaras mortuárias 110 Egito. 

Ainda assim, há muitas outras, de diferentes naturezas, que somente foram recuperadas depois de um trabalho meticuloso entre as ruínas de culturas enterradas há muito tempo. Aqui, a habilidade do arqueólogo tem uma enorme impor­tância, uma vez que ele frequentemente se depara não somente com a delicada e precisa tarefa de escavar artefatos danificados, mas também com a responsabili­dade de tentar reconstruí-los de certa forma antes que possa ser feita alguma ava­liação significativa das descobertas. Embora os arqueólogos profissionais de hoje disponham de auxílios espetaculares, como aparelhos de detecção eletromagné­tica, e máquinas de datação por rádio carbono, uma grande parte da habilidade da arqueologia continua a depender da paciente remoção e peneiraçâo da areia ou da terra; da cuidadosa reconstrução de artefatos — muitas vezes quebrados — de cerâmica; da correta decifração de inscrições terrivelmente desgastadas pelo cli­ma que, num primeiro momento, poderiam parecer terem sido inscritas em uma língua obscura; do estabelecimento das sequências cronológicas adequadas, com base na cerâmica e outras evidências, e também da correlação das informações colhidas no local em escavação com aquilo que já se conhece do período, em geral, de outras fontes ou de outros locais correlatos. 

Obviamente, existe um ponto no qual toda esta atividade começa a transcen­der as funções específicas do arqueólogo, cuja tarefa básica, afinal, é a de recupe­rar os restos materiais do passado do homem, e entra no campo do estudioso do Oriente Médio, que tem a responsabilidade de avaliar o material que foi recuperado e estimar a sua importância na e para a vida, do antigo Oriente Médio, como um todo. Devido aos contínuos contatos que as várias nações tiveram umas com as outras, as descobertas arqueológicas específicas provam, e isto não é raro, ter uma influência maior sobre a cultura do Oriente Médio do que poderia parecer à primeira vista. 

Assim, a descoberta das cartas de Tell el-Amarna forneceu aos estudiosos o primeiro grande exemplo de correspondência diplomática internacional, em es­crita cuneiforme, e demonstrou, entre outras coisas, o ponto ao qual tinha che­gado o idioma acadiano, para ser reconhecido como a língua da diplomacia, no segundo milênio a.C. Tratados heteus do mesmo período, que foram recuperados da Boghazkoy destruída, demonstraram a estrutura clássica de tratados interna­cionais entre suseranos e vassalos, e tratados de paridade, sendo os primeiros de grande importância para uma interpretarão correta da forma literária e do signifi­cado teológico do livro de Deuteronômio. As tábuas cuneiformes de Mari e Nuzu fornecem uma quantidade considerável de informarão a respeito das condições da vida no período dos patriarcas hebreus, e esta informação foi complementada pelas escavações em Alalak, onde os textos são, na realidade, relativamente mais próximos, em termos de cronologia e geografia, à era patriarcal, do que o material coletado de Mari e Nuzu. 

O arqueólogo é particularmente feliz quando descobre os arquivos de um palácio real ou um templo, particularmente se, como aconteceu em Mari e em outros lugares, este evento acontece praticamente no início de uma expedição. Igualmente auspiciosa é a recuperação de uma biblioteca que tinha sido edificada meticulosamente por algum governante de gosto por antiguidades, como foi o caso, em 1853, com as escavações em Nínive, por Rassam, onde a biblioteca de Assurbanipal foi descoberta entre as ruínas do palácio real. 

Esta valiosa e enorme coleção de aproximadamente cem mil tábuas tinha sido ajuntada durante o reinado do fino e erudito monarca que foi o último grande go­vernante do império assírio. Com base na natureza cias escavações, ficou evidente que Assurbanipal tinha ordenado que seus escribas coletassem e copiassem uma vasta quantidade de material, em campos diversos como história, gramática, leis, literatura, medicina e astrologia. Além de tudo isto, Assurbanipal tinha consegui­do adquirir um grande número de cartas, poemas, hinos, feitiços, dicionários e contratos comerciais de todos os tipos, juntamente com centenas de outras tábuas que tratavam de assuntos de interesses gerais e particulares. 

Complementando esta descoberta, outros diversos arquivos cuneiformes im­portantes foram escavados em vários locais, que somaram muito às fontes mate­riais dos estudos do antigo Oriente Médio. A escavação da biblioteca de Assurbani­pal e seus artefatos correlatos em Nínive, de 1853, foram seguidos pela descoberta das tábuas de Amarna, de 1887; pela coletânea de textos cuneiformes de Nipur, de 1889, que ainda estão em processo de avaliação pelos estudiosos; a descoberta dos arquivos heteus de Boghazkoy, de 1906; o grupo de tábuas em Nuzu, encontradas em 1925; os importantes textos literários de Ugarit que foram descobertos em 1929; os vastos arquivos de Mari, escavados desde 1936; e a maravilhosa descoberta dos pergaminhos (ou rolos) do mar Morto, em 1947. A estas descobertas podemos adi­cionar centenas de artefatos secundários, que vão desde cilindros e prismas cuneiformes a tijolos inscritos, escaravelhos, selos de vários tipos, óstracos, stelas, docu­mentos em papiros, esculturas e itens menos espetaculares da vida cotidiana. 

Em algumas ocasiões notáveis, o arqueólogo é capaz de ampliar o horizonte da história antiga de uma maneira surpreendente. Por exemplo, a enorme antigui­dade do local onde existiu a cidade de Jericó (Tell es-Sultan) foi demonstrada em 1952, por Kathleen M. Kenyon, cujo trabalho ali mostrou que Jericó era uma das mais antigas localidades no Oriente Médio e tinha uma história ocupacional que retrocedia até o quinto milênio a.C. A natureza da fase anterior à cerâmica, em Jericó, ficou evidente pelas escavações, que revelaram, entre outras coisas, a pre­sença de um fosso de defesa gigantesco, de aproximadamente 9 metros de largura. Os habitantes originais deste local tinham escavado este fosso, aprofundando-se até aproximadamente 2,5 metros no leito rochoso, com terramentas manuais, e o tinham cercado com um muro de 5,5 metros. Um baluarte circular de pedra foi erigido no topo desta estrutura, e provou ser o primeiro exemplo conhecido de uma cidade fortificada no antigo Oriente Médio. Descobertas dessa importância retrocedem as fronteiras do conhecimento a respeito das origens da cultura do Oriente Médio, e exigem uma revisão, não simplesmente das noções atuais sobre a pré-história, mas também sobre as considerações cronológicas envolvidas. 

Tão importante quanto a maneira como as escavações arqueológicas serviram para esclarecer o cenário contemporâneo no Oriente Médio, é o fato de que muitas descobertas auxiliaram, direta ou indiretamente, na confirmação da historicidade de determinados eventos mencionados no Antigo Testamento, cuja natureza fica­rá evidente nos capítulos seguintes. O leitor deve tomar cuidado com a tentação de supor que tudo o que é necessário, para que a historicidade de determinadas seções do Antigo Testamento fiquem evidentes para todos, é que o arqueólogo coloque a sua pá no solo. Este ponto de vista é tão imprudente quanto infeliz, uma vez que é meramente uma questão de registro que faz que o quadro histórico, em determinadas ocasiões, se torne mais confuso do que era previamente, como con­sequência de atividade arqueológica em locais específicos. Desta maneira, as várias escavações na antiga Jericó, acabaram tornando praticamente impossível, para o estudioso moderno, afirmar qualquer coisa com absoluta certeza sobre a natureza da cidade nos tempos de Josué, um resultado que naturalmente estava longe das intenções daqueles que trabalharam nas escavações do local. 

Apesar deste e de outros problemas, tais como as divergentes interpretações do mesmo material arqueológico, não há dúvida de que o teor geral das descobertas serve para confirmar a historicidade dos relatos bíblicos, em vez de depreciá-los ou desprezá-los, na maneira adotada por uma geração anterior de estudiosos liberais. Assim, a Pedra Moabita, descoberta em Díbom, em 1868, forneceu confirmações independentes de fontes moabitas, do fato de que Onri, rei de Israel (885/4-874/3 a.C.), conquistou o controle da parte norte de Moabe, e exigiu pesados tributos da região, por todo o seu reinado. 

Por outro lado, quatro tábuas adicionais da Crônica Babilônia, que foram di­vulgadas pela primeira vez por D. J. Wiseman, em 1956, não somente comprova­vam a tradição do Antigo Testamento, relativa à queda de Jerusalém, em 597 a.C,, como também continham um relato de uma batalha jamais registrada antes, en­tre os babilônios e os egípcios, em 601 a.C., na qual os dois lados sofreram pesadas baixas de homens e perdas de equipamentos. Estes e outros exemplos similares da maneira como o nosso conhecimento sobre o passado antigo enriqueceu, mos­tram que é lícito esperar que as descobertas arqueológicas esclareçam — ao menos um pouco — os aspectos puramente históricos do Antigo Testamento, assim como os elementos sociais, políticos e religiosos da vida dos hebreus. 

Textos Bíblicos 

No entanto, deve-se admitir que não se possa, e não se deve esperar nem exigir que a arqueologia, por si só, prove a “verdade” do Antigo Testamento. A verdadeira função das fontes em consideração é fornecer informações sobre a vida e a estrutu­ra da sociedade do antigo Oriente Médio que capacite os estudantes das Escrituras, na atualidade, a verem o registro sagrado sob uma perspectiva cultural e histórica adequadas. Somente a partir deste ponto, o interesse do arqueólogo ou do estudio­so do Oriente Médio pode transformar-se em um interesse teológico, pois então estaria disponível alguma quantidade das informações materiais mais necessárias pata a compreensão e interpretação corretas das Escrituras inspiradas. 

Mais uma vez, deve-se enfatizar que não mais é lícito ou desejável estudar o conteúdo do Antigo Testamento isoladamente de outros aspectos da vida antiga do Oriente Médio, ainda que fosse somente pela razão de que, como observado anteriormente, o mundo do Antigo Testamento coincidiu, em todos os perío­dos, com o do Oriente Médio. O exame das Escrituras hebraicas contra o cenário cultural apropriado, no qual Deus falou aos homens, também irá servir a outro propósito importante: estabelecer especificamente, na mente do estudioso sobre a antiguidade do Oriente Médio, um sentido cronológico apropriado, em relação à revelação Divina. Isto, então, irá evitar que o intérprete das Escrituras aplique categorias inapropriadas de moralidade ou interpretação cristã a situações ou acon­tecimentos que eram regidos por um ethos completamente diferente, e irá funda­mentar as suas explicações em uma sequência historicamente legítima. 

A luz do que se conhece agora, a respeito do elevado grau de alfabetização obtido no antigo Oriente Médio, durante o segundo milênio a.C., é possível atri­buir o material bíblico escrito, com confiança, a uma fase muito anterior de de­senvolvimento cultural do que anteriormente se supunha. Devido ao fato de que eventos importantes eram invariavelmente registrados pelos escribas da antigui­dade na época em que realmente ocorriam, ou muito pouco tempo depois, agora é desnecessário propor um prolongado grau de transmissão oral do material antes que ele assumisse uma forma escrita. Na realidade, agora se sabe que a princi­pal função da transmissão oral no Oriente Médio era disseminar o material na sociedade contemporânea, e não, essencialmente, preservá-lo para a posteridade, uma vez que já existiriam, de algum modo, registros escritos dos acontecimentos importantes. 

O fato de que a maior parte do material de fonte de alguns dos mais antigos li­vros do Antigo Testamento é muito antiga, é algo indiscutível. E provável que mui­tos dos registros da vida pré e pós-diluviana, no livro de Gênesis, eram de natureza contemporânea, ou pelo menos aproximadamente, e parecem ter sido trazidos da Mesopotâmia (onde, tudo indica que podem ter sido originados, ao menos, em sua maior parte) para Canaã, como resultado das migrações dos patriarcas. As narrativas a respeito de José se encaixam naturalmente em um período histórico claramente definido da vida egípcia antiga, especificamente o dos faraós hicsos, que reinaram desde aproximadamente 1720 a.C. até aproximadamente 1570 a.C. 

Mais uma vez, grande parte do material-fonte que dá suporte aos livros de Êxodo, Levítico e Números, reflete um cenário específico de deserto, tal como o obtido por uma geração que seguiu o Êxodo, saindo do Egito. Alusões a fontes lite­rárias antigas que não sobreviveram à passagem dos séculos são vistas na menção ao Livro do Reto [ou Livro dos justos (versão ARA), ou ainda Livro de Jasar, (versão TB)], feita nos livros de Josué (10.13) e Samuel, enquanto que outro documento, conhecido como o Livro das Guerras do Senhor é citado em Números. A objetividade e seletividade dos historiadores hebreus ficam evidentes pela maneira controlada com que lida­vam com as fontes que lhes estavam disponíveis, para a compilação de obras como os livros de Reis e Crônicas. Lima vez que muito mais se conhece, na atualidade, a respeito dos seus princípios de compilação, do que anteriormente, os seus escritos agora são interpretados como sendo historicamente prováveis e merecedores de confiança. 

A grande variedade de produção literária que existia no Oriente Médio é am­plamente refletida nas histórias, poemas, coletâneas de provérbios, antologias de discursos proféticos e crônicas de eventos que podem ser encontradas no Antigo Testamento. Na verdade, este conjunto de textos espelha o seu ambiente, com tal fidelidade que se pode afirmar, com grande segurança, que os escritos do Antigo Testamento são, na realidade, um microcosmo da vida no Oriente Médio, e da atividade literária que ali havia. Existe, no entanto, uma diferença significativa, que envolve o ethos espiritual dos diversos autores bíblicos. Enquanto os escribas de todas as nações vizinhas viviam e escreviam em um ambiente profundamente politeísta, os escritores de Israel tinham uma visão essencialmente monoteísta, adorando a um único Deus e negando tanto a existência quanto a autoridade popularmente atribuídas às imagens de madeira e pedra que eram veneradas pelos povos pagãos. 

Além disto, a vocação dos israelitas como povo escolhido trazia consigo a responsabilidade de dar testemunho às nações vizinhas, a respeito da natureza ética e moral de Deus, e da sua vontade para a humanidade. O fato de que os israelitas jamais se prendessem a este ideal evangelista, de nenhuma maneira diminuiu a importância da tarefa à qual eles tinham sido chamados em seu relacionamento de concerto com Deus. No final, a maioria dos personagens dos tempos do Antigo Testamento se encontrava plenamente ocupada com o problema interno de tentar voltar a convocar os israelitas para as exigências da sua vocação, e como mostram os oráculos proféticos anteriores ao exílio, o esforço deparou-se com enormes pre­conceitos, desde o início. Somente depois que o pecado da nação tinha sido punido pelo exílio em uma terra estrangeira, foi que os judeus começaram a fazer algum esforço para cumprir com suas responsabilidades espirituais, mas o testemunho assim produzido era, em grande parte, passivo e parece não ter havido nenhum esforço para converter as nações pagãs à adoração do Deus de Israel. As fontes que tratam desta fase prolongada da história dos hebreus refletem, com grande fideli­dade, as dificuldades que os servos de Deus encontraram, em diferentes gerações, enquanto se esforçavam para promover os ideais do concerto do Sinai na vida is­raelita, e ao mesmo tempo, demonstram claramente a singularidade da revelação Divina, transmitida por Deus aos patriarcas hebreus, e seus sucessores espirituais. 

Descrevendo o Passado do Oriente Médio 

Quando os escritores da antiguidade da Mesopotâmia compilavam suas listas de reis, árvores genealógicas e outros documentos históricos, tentavam, como historia­dores responsáveis, atribuir as datas conforme as conheciam. Mas, ao mesmo tempo, eles estavam frequentemente preocupados em apresentar a sua informação de ma­neira a preservar um adequado e relativo equilíbrio interno da autenticidade. Este princípio, que de maneira alguma morreu com o final do período da antiguidade do Oriente Médio, significava que, por exemplo, indivíduos sem grande importância das listas genealógicas ou árvores familiares podiam ser omitidos, se o compilador assim julgasse desejável. Também era permitido um grau de liberdade no uso de termos de descendência, tais como “filho” ou “filha”, que, entre os semitas, eram frequentemente empregados significando “neto” e “neta'’, quando a ocasião exigisse, um costume que confundiu muitos estudantes desavisados. Isto queria dizer, também, que podiam ser usados números, não meramente para indicar dados fatuais concretos, mas também para indicar avaliações de valores por parte dos antigos autores de história. 

Assim, parece provável que os compiladores, ao atribuir longos reinados a indi­víduos, especificamente em algumas listas de reis da Mesopotâmia — algo que, para nós leitores ocidentais, parece ser impossível — na realidade estavam comentando sobre o significado ou a importância de indivíduos específicos, por meio do uso simbólico de números, um costume que não é desconhecido em conexões diferentes no mundo ocidental. Parece claro, com base nos textos cuneiformes e outros anais, que os escribas antigos se sentiam livres para descrever eventos muito importantes com os termos que eram apropriados para as ocasiões em discussão. Um método comumente usado era o de empregar números grandes nos cálculos em geral. Outro uso simbólico dos números estava relacionado à idade das pessoas. Alguns entendem que, no Egito antigo, o mais alto elogio que podia ser feito sobre uma vida próspera, produtiva e benéfica era o epitáfio: “Ele morreu com a idade de cento e dez anos”. 

Uma grande quantidade de observações precipitadas toi feita no passado por estudiosos, a respeito das cronologias de governantes dos livros de Reis e Crônicas, Esforços para correlacionar os vários reinados, sobre a base da metodologia ociden­tal, provaram ser continuamente infrutíferos, e coube a Edwin Thiele demonstrar a natureza dos princípios subjacentes de cálculo e compilação que os antigos escribas hebreus, seguindo certas tradições confirmáveis do Oriente Médio, tinham empre­gado em suas cronologias. Agora parece evidente que os escribas de Israel e de Judá usavam um sistema de datação com base na ascensão ao trono, tal como o encon­trado na Assíria, na Babilônia e na Pérsia, e também o método de “não-ascensão” preferido pelos egípcios. O sistema do ano de ascensão, ou “pós-data” considerava o ano em que o novo monarca ascendia ao trono de seu reino como sendo o seu “ano de ascensão’’, e o seu primeiro ano de reinado somente começava no primeiro dia do primeiro mês do ano seguinte. Por outro lado, nos sistemas de “não-ascensão” o reinado do rei era computado a partir da ocasião em que ele ascendia ao trono. 

O que é complicado, com relação aos registros dos reis de Israel e Judá, é o fato de que, sem aviso, os escribas ocasionalmente mudavam o sistema de cálculo cronológico e, para tornar as coisas ainda mais difíceis para os estudantes da atu­alidade, houve ocasiões nas quais os escribas de cada reino empregaram métodos diferentes de cálculo cronológico. O quadro fica ainda mais complexo pelo uso de artifícios tais como sincronismos ou a presença de co-regências. No entanto, uma vez compreendido o padrão básico, as cronologias de Reis e de Crônicas tornam-se claras, e podem ser usadas como fonte-material historicamente confiável. 

Em um esforço para compreender como o passado do Oriente Médio era descrito, é importante lembrar-se que os escritores profissionais antigos seguiam determinadas tradições bem estabelecidas. O treinamento pelo qual os escribas passavam tinha uma natureza muito exigente, geralmente envolvendo proficiên­cia em diversas línguas, além de um amplo conhecimento das mais importantes áreas de cultura nacional. Os escribas, normalmente, vinham de famílias de classe média e alta, e quando qualificados, ocupavam um lugar importante na comu­nidade. A transmissão do material com precisão era essencial para os ideais do ofício dos antigos escribas, como pode ser exemplificado por um papiro funerário egípcio de aproximadamente 1400 a.C., cujo colofão incluía a seguinte certificação: “A obra está completa, do início ao fim, tendo sido copiada, revisada, comparada e verificada, símbolo por símbolo”. 

A cópia precisa de textos era enfatizada constantemente na Mesopotâmia, espe­cialmente na Suméria, onde as epopéias antigas e outros materiais venerados eram copiados sem nenhuma modificação significativa, por gerações de escribas. A edição ou a revisão, de qualquer tipo era desencorajada na Suméria, de modo que os textos que eram copiados, passavam pelos séculos, praticamente imutáveis. Por outro lado, os escribas egípcios revisavam regularmente a literatura mais antiga, substituindo formas gramaticais e ortográficas contemporâneas por formas mais arcaicas, atuali­zando nomes antigos, e introduzindo um vocabulário mais moderno sem prejudi­car, simultaneamente, a autenticidade ou a autoridade da composição original. 

Da mesma maneira, os escribas israelitas tomavam o maior cuidado na transmis­são de seus textos sagrados, como agora fica evidente, pelas descobertas dos manuscri­tos em Qumran. No entanto, eles não eram, de maneira alguma, tão conservadores na sua ótica como os sumérios, e assim, com a finalidade de atualizar material antigo, sentiam-se à vontade para empregar técnicas tais como observações explicativas e ou­tras formas de revisão. A luz dos costumes dos escribas egípcios, portanto, seria perfei­tamente lícito que os escribas hebreus adotassem tais procedimentos, inserindo algum material em uma obra, como o Pentateuco, para revisá-la ou atualizá-la sem alterar, ainda que fosse minimamente, a Mosaicidade do trabalho como um todo. 

Quando nos esforçamos para compreender o passado do Oriente Médio, é im­portante ter em mente as diferenças de enfoque que os autores antigos emprega­vam na sua tarefa de composição e transmissão, Ainda assim, por serem os autores bíblicos, em todos os sentidos, indivíduos responsáveis, que tinham um profundo sentido de vocação que influenciava as suas atividades, não é esperar demais que os historiadores, entre si, coletassem, avaliassem e interpretassem os registros do passado, frequentemente incompletos e conflitantes, com o mesmo grau de cons­ciência que caracteriza o historiador ocidental moderno. 

Recentes descobertas arqueológicas deixaram claro que os hebreus, juntamen­te com os heteus (ou hititas) de Anatólia, eram, de longe, os escritores de história dotados de melhor técnica, no antigo Oriente Médio. Os egípcios, por outro lado, parecem ter tido muito pouco interesse na escrita da história, apesar da abundân­cia de material de fonte, uma vez que não há histórias que tenham sobrevivido do período dinástico. Devido à objetividade comparativa dos registreis dos hebreus, é possível empregá-los como material de controle, em ocasiões apropriadas, como meios de reduzir gradualmente as inflamadas declarações de fontes como os anais assírios e babilónicos, e as inscrições egípcias ocasionais. 

Uma vez que era prática regular, no Oriente Médio, exagerar as vitórias e igno­rar completamente as derrotas, é importante que o estudante moderno se acau­tele contra possíveis preconceitos, sejam acidentais ou deliberados, em suas fontes da antiguidade. É desnecessário dizer que, para este objetivo, dados de controle tais como os apresentados regularmente nos materiais dos escritores heteus (ou hititas) e hebreus, é de valor incalculável na avaliação do passado antigo. De ma­neira similar, é importante evitar o tipo de embaraço causado em alguns círculos eruditos, pela suposição de que as fontes históricas egípcias eram tão confiáveis, fatualmente, como pareciam ser à primeira vista. Agora se sabe que a maior parte deste material é mais propaganda que história, e que foi escrito para apresentar às futuras gerações uma visão “correta’' do que acontecia. Por isto, é muito menos confiável, como descrição de eventos, do que se tinha suposto anteriormente. 

Na avaliação de registros do antigo Oriente Médio que pretende ser históri­cos, o leitor deve também ter em mente que os fatos podem, possivelmente, ter sido um pouco modificados, ou até mesmo falsificados, para satisfazer a algum objetivo específico. Novamente, nos interesses de uma metodologia crítica apro­priada, é necessário investigar se o escritor original dependia de fontes primárias ou secundárias, e verificar, se possível, se o seu material era autêntico, equivocado ou mesmo falsificado. Igualmente importante é a questão de o relato ser, verda­deiramente, tão objetivo como pretende ser, ou se, na verdade, foi governado por alguma consideração subjetiva oculta. Neste último aspecto, no entanto, as pres­suposições morais do escritor não precisam ter nenhuma influência particular so­bre a objetividade da narrativa, uma vez que as distinções ou avaliações morais são uma preocupação bastante legítima de uma disciplina como a história, que lida com acontecimentos nas vidas de seres morais. 

Problemas muito mais sérios são ocasionados pela presença de aparentes discrepâncias em registros históricos. Neste aspecto, é importante enfatizar o princípio da determinação da medida básica de concordância que dê suporte aos registros existentes, compreendendo que, por toda a história antiga, as fontes so­breviventes são necessariamente incompletas, e, em alguns casos, até mesmo exageradamente sucintas. Além disto, em registros originais ainda é possível que dis­crepâncias aparentes tenham sido causadas pela presença de erros fatuais na época em que o material foi escrito, embora haja claramente outros exemplos onde a suposta discrepância, na verdade, resultava de um tipo incomum de técnica de es­crita dos escribas. Neste último aspecto, as várias inscrições do reinado de Sargão II parecem apresentar explicações contraditórias desta regra, tanto a respeito de eventos específicos como de suas datas. Mas quando todos os textos relevantes são estudados em conjunto, para obter-se um quadro global da situação, as aparentes discrepâncias são consideradas como sendo o produto de um tipo particular de cálculos e escrita de escribas. 

O Oriente Médio e o Antigo Testamento 

Devido à harmonia existente entre o antigo Oriente Médio e o mundo do Anti­go Testamento, é óbvio que as descobertas que têm uma influência sobre o primeiro também terão alguma importância para o entendimento do Antigo Testamento. Nos capítulos seguintes, será feito algum esforço para correlacionar as descobertas mais significativas dos estudos sobre o Oriente Médio com as fases apropriadas da história do Antigo Testamento, De modo geral, pode-se esperar que este procedimento sirva ao duplo propósito de esclarecer o ambiente do Antigo Testamento e conforme determi­nados detalhes específicos da história e da cultura de Israel. Isto não quer dizer, natu­ralmente, que nenhum crédito deve ser dado a nenhuma seção do Antigo Testamen­to, até que ela tenha sido autenticada, sem sombra de dúvida, por meios de descobertas linguísticas, arqueológicas ou outras. O enfoque considerado, no entanto, garante um importante grau de controle sobre o tipo de especulação desenfreada que prejudicou o conhecimento do Antigo Testamento por um número grande demais de gerações, exigindo um relacionamento mais íntimo entre teoria e fatos. 

Um dos maiores enganos que resultou de isolar o conhecimento do Antigo Tes­tamento dos estudos sobre o Oriente Médio, foi a insistência sobre a supremacia da teoria, na ausência de um enfoque metodológico apropriado. Já não mais é admissí­vel, ou desejável, que os estudiosos formulem algum conceito de desenvolvimento, seja de ordem biológica ou não, e então procurem encaixar os fatos em tal estrutura, independentemente do resultado. Em vez disto, todo o material fatual relevante, que atualmente existe em abundância, deve ser considerado, em primeiro lugar, e sobre esta base algumas conclusões cuidadosas podem, então, ser adotadas, com a condição de que se sujeitem a mudanças à luz de qualquer evidência material apro­priada que seja descoberta posteriormente. Os estudos linguísticos, arqueológicos, históricos e outros, terão uma participação fundamentalmente importante no en­foque metodológico, que terá como seu objetivo, o mais completo conhecimento da vida e dos tempos dos quais vieram os textos do Antigo Testamento. 

Embora ainda haja muitas lacunas no nosso conhecimento a respeito do an­tigo Oriente Médio, também existe uma quantidade crescente de material que se torna disponível para exame dos estudiosos, e uma parte deste material frequen­temente esclarece, de maneira inesperada, as narrativas bíblicas. Um dos maiores benefícios do conhecimento dos textos do Antigo Testamento, em comparação com o cenário do Oriente Médio contemporâneo, será a percepção de que as Es­crituras Sagradas hebraicas foram dadas por Deus aos homens e mulheres que se envolveram na luta de enfrentar os problemas apresentados pela sociedade do seu tempo. A Palavra de Deus, assim, encontrou seus ouvintes em sua situação de vida, e ao falar-lhes, em termos contemporâneos inteligíveis, fez com que a sua própria vitalidade os influenciasse no processo de revelar a mensagem da salvação eterna, por meio da graça divina. O cenário histórico geral desta revelação será considerado, nos capítulos seguintes. 

Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.