26 de abril de 2015

R. K. HARRISON - O Período Patriarcal

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O Período Patriarcal 

CRONOLOGIA DESTE CAPÍTULO 

Meados da Idade do Bronze................................................................. 1959-1550 a.C. 

Última Fase da Idade do Bronze........................................................... 1500-1200 a.C. 

A Era de Mari 

DESDE OS TEMPOS DE SARGÃO, DE AGADE, UMA CONTÍNUA CORRENTE de povos semitas continuava chegando à Mesopotâmia, do deserto ocidental. Eram principalmente amorreus, e durante o período que se seguiu ao colapso da Terceira Dinastia de Ur, se instalaram na região norte do Crescente Fértil. Esta área tornou-se conhecida, posteriormente, como Assíria, e embora permanecesse, no aspecto políti­co, independente de Acade e Sumer, compartilhava das mesmas tradições culturais. Enquanto Babilônia e Larsa lutavam pela dominação na Mesopotâmia, os amorreus estabeleceram o controle sobre a extremidade norte do Crescente Fértil, e a sua capi­tal, Mari, tornou-se uma das mais brilhantes cidades do Oriente Médio. Sob Shamshi- Adad I (1813-1781 a.C.), um destacado contemporâneo de Hamurabi, o poder dos amor­reus foi dominante na Assíria, e somente foi contido depois de alguns anos de hábil atividade política, quando Hamurabi derrotou Zimri-Lim e destruiu Mari. 

A era de Mari foi um período de considerável importância política e cultu­ral para a Assíria. A partir do século XX a.C., os amorreus conseguiram remover os acadianos dos elevados cargos políticos por toda a Mesopotâmia. Isto foi feito de modo tão eficiente que cerca de trezentos anos mais tarde, os amorreus mo­nopolizavam praticamente todas as posições de importância política no Oriente Médio. Escavações arqueológicas em Mari deixam claro que as suas realizações culturais acompanhavam suas ambições militares e políticas. Parrot descobriu ali uma civilização altamente desenvolvida, que estava prosperando antes dos tempos de Sargão de Agade. Um templo dinástico antigo de Ishtar foi escavado na extremidade noroeste do local de Mari, e uma das estátuas que foram recuperadas trazia a seguinte inscrição. 

Lamgi-Mari, rei de Mari, sumo sacerdote de Enlil, dedicou a sua estátua a Ishtar. 

As colunas deste edifício e os pátios que o rodeavam seguiam o padrão arqui­tetônico tradicional sumério. Outro templo em Mari estava rodeado por imensos leões de guarda, feitos em bronze, um precursor das shedu ou gigantescas criaturas aladas que eram destacadas nos edifícios assírios de um período muito posterior. O palácio real, quando escavado, cobria mais de seis acres, e continha mais de duzentas e cinquenta salas e pátios. Os drenos de cerâmica que desciam profundamente sob as fundações foram encontrados em bom funcionamento depois de três mil e quinhentos anos, e um banheiro que foi escavado continha duas banheiras de terracota; além dele, havia banheiros simples. 

Ainda mais importante foi a descoberta de mais de vinte mil tábuas de argila em várias salas do palácio. Tais tábuas incluíam correspondência entre Hamurabi e Zimri-Lím, o último rei de Mari, além de uma imensa coletânea de documentos de negócios, cuidadosamente inseridos nos arquivos reais. Outras tábuas estavam es­critas no idioma babilônio antigo, ao passo que algumas continham rituais relacio­nados com a adoração a Ishtar. O lugar que a mágica e a adivinhação ocupavam na vida diária dos amorreus foi ilustrado de maneira impressionante com a recuperação das tábuas de Mari, que tratavam de técnicas de adivinhação. Um método favorito era o da hepatoscopia, ou exame do fígado, e modelos de argila reais eram fornecidos como guia aos adivinhadores. Foram encontrados cerca de trinta e dois destes mo­delos, que continham inscrições relativas aos tipos de eventos que tinham ocorrido depois da inspeção de um fígado com a mesma forma e aparência. 

A adivinhação era, obviamente, importante no momento das batalhas, e os exércitos tinham alguns astrólogos como parte do seu grupo genérico. Se as pro­fecias não fossem favoráveis, somente o mais ousado deixaria de levá-las em consi­deração, como parece indicar a tábua a seguir: 

Eu e Ibbi-Aniumi estivemos nos preparando para a campanha de Warad- Uishu em Agdamatum, mas as profecias não nos foram favoráveis. Estas profecias eu enviei a meu senhor. Que o meu senhor possa prestar muita atenção a estas profecias. 

Embora fossem de uma natureza indeterminada, algumas tábuas continham referências aos habiru. O rei de Mari tinha uma carta que o informava sobre um amorreu chamado Yapakh-Adad: “Ele construiu a cidade de Zallul deste lado do Eufrates, e está residindo nesta cidade com dois mil soldados dos habiru da região”. 

Tais referências meramente indicam que os habiru estavam vivendo em algumas localidades, com alguma concentração populacional, e não fornecem nenhuma in­formação adicional quando à sua natureza e à sua condição no reino. 

Este período da história dos amorreus é de grande importância, porque abran­ge a era patriarcal, e esclarece, de forma considerável, as narrativas do livro de Gênesis que descrevem as vidas e os tempos de Abraão, Isaque e Jacó, progenitores dos israelitas. O período patriarcal corresponde, aproximadamente, à Média Ida­de do Bronze (1950-1550 a.C.), época que foi marcada pelo movimento de vários grupos de povos nômades no Oriente Médio, e que foi caracterizada pelos padrões culturais e sociais retratados nas narrativas patriarcais. 

Terá, o pai de Abraão, migrou com sua família de Ur para Harã, aproximada­mente no ano 70 do século XX a.C, período no qual a região provavelmente estava sob o controle dos amorreus. Alguns dos nomes de lugares que sobreviveram na região do rio Balikh parecem ter a sua origem nos ancestrais de Abraão. As cidades dos personagens bíblicos Serugue, Terá e Naor se localizavam nas proximidades de Harã, e as cartas de Mari mencionam a cidade de Naor, a terra de Rebeca, com gran­de frequência, citando-a como Nakhur, um lugar próspero onde viviam alguns dos habiru. Os nomes Abraão, Isaque, Labão, Jacó e José parecem ter sido de uso bas­tante comum durante este período, pois no segundo milênio a.C., Abraão apare­cia como A-ba-am-m-tm, A-ba-am-ra-am, e A-ba~m-m, ao passo que Jacó (Ya-’íqub’-ef) estava em uso como nome de um lugar na Palestina já em 1740 a.C. Em tábuas de Chagar Bazar, no norte da Mesopotâmia, que foram datadas de, aproximadamen­te, 1725 a.C., uma forma alternativa de Jacó (Ya-ah-qu-ub-il) era usada como nome pessoal. Até o presente, no entanto, não foram descobertos indícios dos próprios patriarcas, e pela natureza do caso não é razoável esperar algo diferente. 

As tábuas de Mari continham uma interessante referência a uma tribo de amorreus nômades e guerreiros, conhecida como Banu-Yamina, ou “Filhos do lado direito” Provavelmente eram originários das áreas desérticas ao sul do rio Eufrates, mas como outros semitas daquela época, haviam migrado para as áreas férteis que ficavam ao norte, Estes homens turbulentos eram uma fonte de em­baraço para os governantes de Mari, e uma das tábuas registrou o ano no qual Zimri-Lim “matou o capitão dos Baru-Yamina em Sagaratum, e capturou seus príncipes”. Outra tábua dos arquivos reais falou sobre a natureza predatória dos Banu-Yamina: 

Uma vez eles desferiram um ataque, e levaram ovelhas... Em uma segunda vez, desferiram outro ataque, e levaram ovelhas, e eu mandei tropas de socorro que os capturaram e mataram seu capitão, e trouxeram de volta as ovelhas que eles tinham levado. 

Alguns estudiosos se sentiram atraídos por uma possibilidade de conexão en­tre estes nômades beduínos e os Benjamitas da narrativa bíblica. As atividades da tribo Banu-Yamina, como retratadas nas tábuas de Mari, estão notavelmente de acordo com o teor da bênção de Jacó a respeito da descendência de Benjamim: “Benjamim é lobo que despedaça; pela manhã, comerá a presa e, à tarde, repartirá o despojo” (Gn 49.27; cf. Jz 20.17; 1 Cr 12.2). 

Os arquivos de Mari também mencionam os correspondentes geográficos dos Banu-Yamina, em termos de Banu-Sim’al, ou '“Filhos do lado esquerdo”, cuja pá­tria original ficava ao norte do rio Eufrates. Estas tribos eram partes de um número maior de nômades amorreus, que estavam peregrinando pelo Oriente Médio, de Babilônia a Canaã, atacando comunidades civilizadas e ocasionalmente entrando em conflito entre si. Não se sabe, na atualidade, se os ancestrais dos israelitas mais recentes tinham alguma conexão com essas tribos de saqueadores. 

Quando os textos de Mari foram publicados pela primeira vez, observou-se que diversos deles se referiam aos vários líderes dos saqueadores Banu-Yamina como dawidum. Supondo que este termo signifique “capitão”, diversos estudiosos sustentaram que havia uma nova interpretação quanto à origem do nome pessoal “Davi”. No entanto, com base em estudos posteriores, agora se acredita que a pa­lavra dawidum, que aparece mais de vinte vezes em textos publicados até hoje, na verdade não tem nada a ver com o nome “Davi”, como se pensava anteriormente. O significado exato do termo não foi estabelecido, de forma indiscutível, na época em que este livro foi escrito, embora possa descrever alguém “adorado”, ou talvez seja uma derivação de uma palavra que significa “tio”, como afirmam alguns es­tudiosos mais antigos. 

Em comum com outros povos orientais, os amorreus do período de Mari con­sideravam a matança de um jumento, ou khayaram qatahm, como está escrito nas tá­buas, como uma característica essencial no estabelecimento de uma aliança entre indivíduos ou povos. Assim, um oficial de governo escreveu a Zimri-Lim: 

Eu enviei esta mensagem a Bina-Isbtar, (e) Bina-Ishtar respondeu da se­guinte maneira: “Eu matei o jumento com Qarni-Lim e assim falei a Qar- ni-Lim sob o juramento dos deuses: ‘Se você desprezar (?) Zimri-Lim e seus exércitos, eu ficarei do lado do seu adversário’ ”. 

Esta carta indica que o juramento de aliança era acompanhado pelo sacrifício de um jumento, que ratificava o acordo. A frase, “matar um jumento”, registrada nas tábuas, é completamente semita, e o fato de estas palavras aparecerem nesta co­nexão em hebraico, traz uma interessante informação complementar sobre os cos­tumes que existiam entre os nômades que peregrinavam sobre jumentos nos tem­pos patriarcais e posteriores. A tradição de selar uma aliança por meio do sacrifício de um jumento parece ter sobrevivido entre os descendentes cananeus de Siquém, cujo antepassado epônimo tinha alimentado uma paixão por Diná, filha de Jacó (Gn 34.2 e versículos seguintes). Os siquemitas eram conhecidos como “Bene Hamor”, ou “Filhos do jumento" (Js 24.32), e declaravam aliança à divindade Baal-Berite, ou “Senhor da Aliança” Durante a conquista de Canaã, os Benê-Hamor foram incor­porados aos israelitas, provavelmente por meio de um tratado. 

Escavações em Nuzu 

Descobertas arqueológicas na cidade de Nuzu, dos horeus, no nordeste da Mesopotâmia, também têm uma importante relação com as condições que existiam na era patriarcal. Embora uma grande quantidade das tábuas que foram desenterradas ainda necessite ser divulgada e estudada, as partes que já foram interpretadas mos­traram o substancial valor histórico das sagas patriarcais, indicando, de uma manei­ra indireta, a maneira como estas narrativas estão em consonância com o cenário do período, conforme representado em tábuas e inscrições cuneiformes. Os horeus eram o grupo étnico dominante no Oriente Médio durante o segundo milênio a,C., e como tal estavam próximos, em tempo e lugar, dos patriarcas bíblicos. Tábuas de argila recuperadas de arquivos nas ruínas de Nuzu, por Chiera e outros, preserva­ram um registro excelente do cenário social e cultural do período, revolucionando o conhecimento anterior do período patriarcal e esclarecendo alguns dos problemas relacionados com a vida de Abraão e de seus sucessores. 

Embora alguns dos textos sejam de natureza legal, a maior parte consiste de documentos privativos, tratando principalmente de assuntos pessoais. Por esta ra­zão, muitos deles se relacionavam de uma ou outra maneira, com a adoção, que era uma das instituições sociais em Nuzu. Como a lei proibia a venda direta de terra, tinha se tornado um costume que tais transações fossem íeitas sob uma aparência de adoção. Escravos eram frequentemente adotados com este mesmo propósito, e parece que um mesmo indivíduo podia ser adotado por mais de um casal. No entanto, as adoções genuínas eram também comuns em Nuzu, especialmente no caso de casais sem filhos, que frequentemente recorriam a esta prática para obter um filho. Em retribuição à herança assim concedida, esperava-se que o filho ado­tado desempenhasse os deveres filiais normais. Mas se os pais adotivos tivessem um filho seu, depois da adoção, o filho adotado era obrigado, por lei, a ceder ao filho natural o direito da herança. Estas circunstâncias formam o fundamento da adoção, por Abraão, de seu escravo, Eliézer, como seu suposto herdeiro (Gn 15.2 e versículos seguintes), um procedimento que aparentemente foi realizado em con­formidade com o costume local predominante. O fato de que esta não seria uma situação permanente, no entanto, foi revelado por Deus, quando Ele prometeu a Abraão que seu escravo, afinal, não seria seu herdeiro, uma vez que lhe nasceria um filho para herdar as suas propriedades, e dar continuidade ao seu nome, à sua descendência. 

Desta maneira, um documento de casamento diz o seguinte: 

Se Gilimninu (a esptw) não tiver filhos, Gilimninu deverá tomar uma mu­lher de N/Lullu-land (de onde se obtinham as mellmes escravas) como esposa para Shennima (o espm). 

Em conformidade com este costume, Sara deu Agar, uma escrava egípcia, a Abraão (Gn 16,2), e, duas gerações mais tarde, Raquel deu Bila a Jacó (Gn 30.3,4). Segundo a lei de Nuzu, qualquer criança que resultasse de tal união deveria per­manecer na família e a sua expulsão era estritamente proibida. Este fator explica a apreensão que Abraão sentiu (Gn 21,11), quando Sara decidiu expulsar Agar e Ismael, depois que este tinha zombado de Isaque, o filho pequeno de Abraão e Sara, no dia de seu desmame. Apesar da dispensação Divina que justificava a aquiescência de Abraão na questão (Gn 21,1, e versículos seguintes), teria sido legalmente possível justificar a ação de Sara por uma apelação à seção 25 do código sumério de Lipit-lshtar (1850-1840 a.C.), que dispunha o princípio de que o ato da expulsão era compensado pela liberdade resultante que os expulsos obtinham. 

De acordo com os costumes em Nuzu, o “direito de primogenitura”, ou título à posição de primogênito, era negociável entre os membros da família, e em um caso os privilégios foram transferidos a uma pessoa que tinha sido adotada como irmão. Outra tábua falava de um homem chamado Tupkitilla, que dispunha, de comum acordo, de seu direito de primogenitura: 

Naquele dia, eles dividirão o bosque... Tupkitilla o dará a Kurpazah como a sua parte na herança. E Kurpuzah terá de levar três ovelhas a Tupkitilla, em troca de sua parte na herança. 

Uma vez que estas transações eram bastante comuns em Nuzu, não haveria nada particularmente incomum no fato de que Jacó se aproveitasse de seu irmão faminto para obter seu direito de primogenitura (Gn 25.31 e versículos seguintes). 

O relacionamento que existia entre Jacó e Labão tem uma correspondência, até certo ponto, com um texto de Nuzu, que fala de um homem que adotou um filho, dando-lhe sua filha como esposa, e nomeando a ele, e à sua descendência, como seus herdeiros. Foi acrescentada a condição usual a respeito do nascimento de um filho natural aos pais adotivos, mas neste exemplo o filho adotivo teve uma parte igual à do filho natural na herança. Os termos da adoção também estabeleciam que o filho adotivo estivesse proibido de ter um casamento adicional, sob pena de perder seus direitos à propriedade. Além disso, se os pais adotivos tivessem filhos posteriores à adoção, os filhos do filho adotivo não poderiam reivindicar a propriedade. 

A narrativa do livro de Gênesis (29.6 e versículos seguintes) não dá nenhum indício de que Labão tivesse qualquer filho quando Jacó entrou em sua família, mostrando que Jacó foi aceito como um filho adotivo, e não como um genro. Este fato é ainda mais fundamentado pela maneira como Labão proclamou seus direi­tos patriarcais (Gn 31,43). Embora, sob circunstâncias normais, as mulheres casa­das fossem propriedades de seus maridos, Raquel e Léia não tiveram permissão de deixar a casa paterna porque ainda pertenciam a Labão, uma situação que pode ser explicada considerando Jacó, esposo de ambas, como filho adotivo. Desta maneira, era lícito que Labão punisse os três conspiradores pela sua culpa, por fugirem da sua autoridade. Porém, em vez disto, ele se contentou em fazer um acordo com Jacó, em que o advertiu, de acordo com os costumes da época, a não ter outros contratos maritais (Gn 31.50). 

Onde era necessário que a herança fosse dividida, a Lei de Nuzu reconhecia como líder da família, aquele que tivesse possessão dos ídolos da casa. Estes ídolos eram, evidentemente, as imagens, ou “terafins” que Raquel roubou (Gn 31.19), e uma boa quantidade de estátuas similares foram recuperadas em Nuzu. Como, aparentemente, estes ídolos estavam associados com certos direitos de liderança ou herança, o seu roubo era uma questão séria, porque Labão tinha tido filhos (Gn 31.1) depois sua sua aparente adoção de Jacó, de modo que a eles pertenciam, segundo a lei, os direitos de primogenitura. 

As bênçãos que foram elaboradas e transmitidas nas narrativas patriarcais, era uma característica comum da sociedade de Nuzu; na verdade, eram a última vontade e o testamento da pessoa que as proferisse, e como tal, eram obrigatórias, legalmente, quer estivessem ou não por escrito. Uma tábua de Nuzu registra um caso judicial em que, fundamentado neste preceito, o queixoso conseguiu confir­mar o seu direito de casar-se com determinada mulher, que tinha sido designada a ele, O seu relato da situação foi o seguinte: 

Meu pai, Huya, estava doente, em seu leito de morte, e ele tomou minha mão e disse-me o seguinte: Meus outros filhos mais velhos têm esposas, mas você não tem uma esposa, então eu lhe dou Zululishtar como esposa. 

Como ainda é o caso em alguns países orientais, as duas pessoas que se ca­savam não tinham sido consultadas previamente sobre o arranjo do qual iriam participar. 

Um costume bastante curioso, mencionado nas tábuas de Nuzu, estava relacio­nado com a transmissão de calçados, ou botas, entre pessoas que faziam algum tipo de contrato. Em alguns dos textos a transação parece ter beirado a ilegalidade, como em um caso, onde, aparentemente, houve uma tentativa de venda de terras. Uma vez que todas as propriedades pertenciam aos deuses, eram consideradas inaliená­veis, e como tal não poderiam ser compradas nem vendidas. No entanto, por meio de algum procedimento especial que envolvia a transmissão de um par de calçados, e outros itens, a transferência da propriedade adquiriu a aparência da legalidade. Posteriormente, em Israel, determinadas obrigações morais eram dispensadas, da mesma maneira. Isto ocorreu, por exemplo, em relação à ocasião em que Rute foi redimida por Boaz (Rt 4.7 e versículos seguintes), e parece também ter sido usado por proprietários, inescrupulosos, de terras no século VIII a.C., que desta maneira privaram os pobres de determinados direitos legais (Am 2.6; 8.6). 

Embora os textos de Mari e Nuzi tenham um grande e inegável valor, forne­cendo um cenário histórico autêntico para as narrativas que tratam de Abraão, Isaque e Jacó, uma fonte de informação ainda mais importante para este mesmo período foi descoberta, na Turquia, por Sir Leonard Woolley. Escavando imedia­tamente antes e imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial em Tell el’- Atshana (Alalakh) naquilo que originalmente era o norte da Síria, ele descobriu dois estratos que continham palácios reais, um dos quais pertencente ao período 1900-1780 a.C., e o outro ao século XV a.C. Muito mais de quatrocentos e cinquenta textos foram recuperados das ruínas, e são considerados aproximadamente con­temporâneos aos de Mari e Nuzi. No entanto, são de um valor consideravelmente maior para o período patriarcal, uma vez que são mais próximos daquele tempo, tanto cronológica quanto geograficamente. 

Estas tábuas fornecem informações adicionais sobre o status preferencial que podia ser dado a qualquer filho de uma mulher em particular, como exemplifica o contrato de casamento entre um homem chamado Irihalpa e sua esposa Naidu: 

Se Naidu não der à luz a um filho... a filha de seu irmão... será dada (a irihal­pa)... se (outra esposa) Irihalpa der à luz a um filho antes, e depois disto Naidu der à luz a um filho, somente o filho de Naidu será o primogênito. 

A posição de filho primogênito na família normalmente implicava que a pes­soa interessada podia reivindicar uma dupla participação na herança por ocasião da morte do patriarca da família. No entanto, as tradições de Alalakh reforçam determinados casos tanto em Mari quanto em Ugarit, para mostrar que o pai ti­nha liberdade de desconsiderar as sequências naturais da primogenitura e, em vez delas, escolher o seu próprio primogênito entre os seus filhos. Este costume, ob­viamente, influenciou o caso de Manasses e Efraim (Gn 48.13-20), a reputação de Rúben (Gn 49.3 e versículos seguintes), e a promoção de José (Gn 48.22). 

Com base neste costume, fica evidente que as instituições sociais registra­das nas narrativas patriarcais são abundantemente representativas da vida no segundo milênio a.C. A forma literária básica dos relatos do livro de Gênesis su­gere enfaticamente que as atividades destes antigos personagens hebreus foram registradas em tábuas, em conformidade com o costume do Oriente Médio, e não foram preservadas oralmente, corno foi sugerido por muitos estudiosos. Ár­vores genealógicas familiares, como as que são apresentadas no livro de Gênesis, eram de grande importância nas culturas de Mari e Nuzu, e não há razão para pensar que os antepassados dos israelitas mais recentes fossem menos interessa­dos em suas genealogias do que seus equivalentes da Mesopotâmia. 

Até recentemente, os estudiosos afirmavam, de modo geral, que a menção a camelos nas narrativas dos patriarcas hebreus era um anacronismo. Embo­ra exista, na realidade, pouca dúvida de que os jumentos foram domesticados antes que os camelos; seria incorreto achar que os últimos não eram usados nas caravanas de comércio orientais em um período muito antigo. Quando Parrot estava escavando Mari, descobriu restos de ossos de camelos nas ruínas de uma casa que pertencia ao período pré-sargônico (2400 a.C). Selos cilíndricos recentemente descobertos no norte da Mesopotâmia, que podem ser datados do período dos patriarcas hebreus, retratam cavaleiros sobre camelos. Um relevo encontrado em Biblos, na Fenícia, atribuído pelos arqueólogos ao século XVIII a.C., mostrava, na verdade, um camelo ajoelhado, indicando seu uso como ani­mai de carga naquele período, 

Outro testemunho da domesticação do camelo, também do século XVIII a.C., desta vez de Alalakh, no norte da Síria, consistia de uma tábua cuneiforme, contendo uma lista de animais domésticos que mencionava especificamente o camelo, sob a designação GAM. MAL. Escavações arqueológicas no norte da índia também mostraram que o camelo tinha sido domesticado no início do se­gundo milênio a.C., e ao julgar pela sua escassez comparativa, deve ter sido um animal de carga extremamente valioso. Uma obra um pouco posterior, de evi­dência com probatória, veio de Tell Halaf, há aproximadamente 9ó quilômetros a leste de Harã. Esta obra consistia de uma placa esculpida, aproximadamente no século XI a.C., e retratava um dromedário ao qual tinha sido preso, por meio de correias cruzadas, um palanquim, parecido com uma caixa de madeira, em cujo topo estava sentado o cavaleiro. 

Estas e outras descobertas arqueológicas sustentam a exatidão da tradição hebraica que rastreia as origens dos patriarcas até o vale do rio Balikh. Os docu­mentos de Nuzu e Mari mostram que as narrativas patriarcais refletem as leis e os costumes sociais que eram correntes no século XIX e nos que se seguiram da his­tória da Mesopotâmia. À correspondência em linguagem e nomes próprios entre os registros de Mari e as tradições do livro de Gênesis, indica a existência de ante­cedentes culturais comuns, e colocam a tradição israelita em uma base histórica relativa à cultura homogênea do Oriente Médio. 

A Idade Média do Bronze Palestina 

A topografia essencial das sagas dos patriarcas também está em harmonia com a arqueologia da Idade Média do Bronze. Escavações em Siquém, Betel, Gerar e outros locais provaram que estas cidades eram habitadas na era patriarcal. O tra­balho de Gfueck no reino Hashemita da Jordânia revelou que a Palestina esteve no meio de uma sublevação nômade durante a Terceira Dinastia de Ur, e os lugares da Idade Média do Bronze que foram escavados forneceram evidências de destrui­ção de grande escala e do abandono de cidades. Antes do final do século XX a,C., a cultura material deteriorada e os ataques esporádicos de nômades beligerantes do leste e do sul levaram a um rápido declínio na densidade populacional. Depois desta época, os ataques dos grupos nômades forçaram a retirada de praticamente toda a ocupação sedentária da área do sul da Transjordânia, uma situação que perdurou por cerca de sete séculos. Segundo fontes egípcias, a Palestina e o sul da Síria abandonaram a organização em tribos, substituindo-a por uma cultu­ra sedentária em desenvolvimento no início do século XIX a.C., e dentro de um período comparativamente curto, a sua civilização se organizou em termos de cidades-estados, ao passo que a Transjordânia continuou a perder população, e acabou revertendo a um sistema tribal, 

Um pouco antes de 1900 a.C, Terá morreu, em idade avançada, e pouco tempo de­pois, Abraão, seu filho, migrou para o oeste, precisamente em Canaã. No entanto, ainda havia contato com Harã, pois Abraão enviou um servo a Naor, para procurar uma esposa para seu filho Isaque, e foi também desta mesma região que Jacó obteve suas esposas. Os textos de Mari registram que tribos de amorreus estavam ativas da região de Harã no início do segundo milênio a.C., e pode ter acontecido que seus movimentos coincidissem com as migrações de Abraão e seus dependentes. A vida que Abraão e seus descendentes viviam era característica do nomadismo contemporâneo, com a diferença de que suas peregrinações limitaram-se à região montanhosa e pouco habitada, e ao árido território ao sudoeste do mar Morto. 

Durante a Idade Média do Bronze, e depois dela, esta região meridional foi conhecida como o Neguebe, que é imprecisamente traduzido como “o Sul” em algumas versões da Bíblia. Na verdade, a palavra hebraica negeb significa “seco” ou “árido” e se referia, originalmente, às condições climáticas em vez de uma região geográfica específica. A importância estratégica e econômica do Neguebe já era evidente desde o início do segundo milênio a.C., e a rota geralmente seguida pelos grupos nômades era governada, em grande parte, pela localização de poços e nascentes. A Síria meridional, a Palestina e o Neguebe provaram ser áreas convenientes para o assentamento destes elementos populacionais que tinham sido expulsos do Crescente Fértil a partir do século XIX a.C., por pressões políticas e outras. A presença de minério de cobre na região oriental do Neguebe deu grande importância à rota comercial que saía do Sinai central e seguia para o nordeste, para a Judéia, e recentes escavações em Megido, Gezer, Ugarit e outras cidades mostraram que o controle que os egípcios exerciam sobre a Canaã antiga permitia que as caravanas passassem livremente, entrando e saindo do Egito. 

Na Idade Média do Bronze, as regiões montanhosas da Palestina central eram den­samente arborizadas, e por haver pouca terra cultivável, toda a área era inadequada para fins agrícolas, No entanto, estas condições eram ideais para tribos nômades, e foi neste lugar, e mais ao sul, que Abraão e seus descen­dentes peregrinaram durante alguns anos. A topografia refletida nas narrativas do livro de Gênesis é bastante digna de crédito, uma vez que se sabe que os lugares visitados por Abraão estão em uma região cuja média de chuvas anuais está entre dez e vinte polega­das, o que é bastante adequado para as exigências da criação de ovelhas. O local de Manre estava associado com as peregrinações dos patriarcas, e depois dos tempos de Abraão, ali foi fundada a cidade de Hebrom (1700 a.C). Duas notas explicativas no livro de Gênesis (13.18; 23.19) indicam o lugar original de Manre. As cinco cidades da planície do Jordão, ao sul do mar Morto também toram comunidades prósperas nos tempos de Abraão, mas no fim do século XX a.C., o vaie de Sidim, no qual se localizavam as cidades de Sodoma, Gomorra, Admá, Zoar e Zeboim foi vítima de um terremoto e um incêndio calamitoso. A diminuição da população desta região está descrita no capítulo 19 do livro de Gênesis, e os fatos desta situação são plenamente evidenciados por escavações arqueológicas.’" 

A presença de Abraão na Palestina em uma data mais antiga parece ser in­dicada pela evidência relacionada à destruição de Sodoma (Gn 19.2.4 e versículos seguintes). Esta cidade, provavelmente localizada, próxima à extremidade sul do vale de Sidim, uma faixa de terra que agora está submersa ao sul da península do mar Morto, lugar conhecido como el-Lisan (“a Língua’'). Com base na descrição de Gênesis 19.24, que menciona uma pesada cortina de fumaça escura, parece que a catástrofe ocorreu, em parte, pela ignição de gases dos depósitos de asfalto e petró­leo, próximos a He bei IJsdum ('‘Monte de Sodoma”), uma grande montanha de sal cristalino, com mais de duzentos metros de altura e oito quilômetros de extensão, que está situada junto à extremidade sul do lado oeste do mar Morto. 

Pode-se estimar a data aproximada desta catástrofe a partir das evidências fornecidas pela cerâmica escavada em Bab edh-Dhra‘. Este local, aparentemente, era usado no final do terceiro milênio a.C., pelas pessoas que viviam nas “cidades do vale”, como um centro de celebrações, sendo ocupado com este objetivo entre aproximadamente 2300 e 1900 a.C. Como as visitas de peregrinos e outras pessoas a este lugar cessaram aproximadamente em 1900 a.C., pode ser que o término do interesse pelo lugar com propósitos religiosos e outros tenha coincidido com a destruição de Sodoma e as demais “cidades do vale'. Se esta data para a destruição de Sodoma e Gomorra estiver correta, indicaria que Abraão estava vivo no fina) do século XX a.C,, e estava na Palestina por volta de 1900 a.C. 

Provavelmente, o mais intrigante documento de todo o conjunto de documentos patriarcais é o capítulo 14 do livro de Gênesis, que narra a invasão da Palestina por uma aliança de reis da Mesopotâmia, e a sua derrota, por Abraão. Até recentemente, este material era considerado, por críticos, como sendo lendário e não histórico, mas graças ao resultado do trabalho de Albright, Jirku e Glueck, ficou cada vez mais claro que este capítulo é um documento muito antigo que, quando incorporado à história do Gênesis, já necessitava ser explicado por meio de observações dos escribas (como em 14.2,3,7,17). Embora as identidades dos quatro invasores reais ainda não tenham sido estabelecidas pela nossa arqueologia, as circunstâncias da narrativa mostraram ser correspondentes às evidências apresentadas por escavações no vale do Jordão. Sabe- se que os refains viveram antes do século XV a.C, na Síria, e nas regiões a leste e ao sul do mar Morto, porque são mencionados em textos administrativos daquela data, que foram recuperados da antiga Ugarit (Ras Shamra).Juntamente com os zuzins e emins eles faziam parte da população da Palestina pré-israelita, e eram famosos pela sua impressionante estatura. Os refains eram conhecidos por diferentes nomes locais (cf Dt 2.11,20 e versículos seguintes), e parecem ter estado entre os primeiros povos que se assentaram em Moabe e Amom. 

Os locais de Astarote e Carnaim foram ocupados no período patriarcal, embora um pequeno sepulcro da Idade do Bronze em Gileade oriental tenha sido identificado com Hã. Os invasores entravam por Basã, uma região ao sul do rio Farpar e a leste do mar da Galiléia, onde viviam alguns dos refains, e se dirigiam para o sul passando por Gileade oriental e Moabe. AIbright e Glueck mostraram que estes lugares ainda esta­vam densamente povoados no século XX a.C., e a descoberta de uma série de locais das Idades Antiga e Média do Bronze ao longo da extremidade oriental de Gileade e Moabe, indicou que os invasores mesopotâmios seguiam uma rota comercial já es­tabelecida. Este caminho, na verdade, se estendia, ao sul, até Eziom-Geber, que está junto à entrada do Golfo de Acaba (ou Aqaba), e posteriormente ficou conhecido como a estrada real (Nm 20.17). 

Pode-se supor que a razão para as suas intenções agressivas estivesse no rico prêmio do cobre, asfalto, manganês e outros depósitos minerais ao sul do mar Morto. ‘‘Anrafel, rei de Sinar" costumava ser identificado, pelos estudiosos, com Hamurabi da Babilônia, mas já não mais se aceita esta hipótese.“ A cronologia do período patriarcal seria estabilizada se fosse possível fazer uma identificação con­fiável dos quatro reis mesopotâmios invasores. Isto pode surgir como resultado de futuras escavações na área, por enquanto, a cronologia do período em considera­ção deve ser colocada entre o século XX e o final do século XVII a.C. 

Um toque final à realidade e natureza da vida patriarcal foi fornecido a partir de duas fontes egípcias. A primeira é uma cena pintada na parede do sepulcro de Khnumhotep II um poderoso nobre da Décima Segunda Dinastia Egípcia, que foi sepultado em Beni-Hasan, no Médio Egito. O quadro retratava trinta e sete palestinos, semi-nômades, do período patriarcal, visitando o Egito para trazer estíbina, a popular tinta negra para maquiagem dos olhos. Os nômades eram típicos semitas barbados, que usavam roupas compridas com listras alegres e calçavam sandálias. Eles levavam como armas dardos, lanças, arcos e flechas, e um deles é retratado tocando uma lira, andando com dificuldade atrás de seu jumento. O fato de que o mural retratasse foles portáteis nos equipamentos dos semitas, sugere que o grupo incluía pelo menos um latoeiro itinerante, e propicia um cenário autêntico para Gênesis 4.20 e versículos seguintes. 

A segunda fonte que transmite a atmosfera social do período patriarcal é uma narrativa egípcia das aventuras de Sinuhe, um nobre que viveu no século XX a.C. Este homem teve uma alta posição no governo de Amenemés I, fundador da Dé­cima Segunda Dinastia Egípcia, e quando o velho faraó morreu, Sinuhe fugiu para a Palestina em busca de asilo político. O “conto de Smuhe” narra suas dificul­dades para cruzar a fronteira egípcia, e a maneira como foi resgatado da morte no deserto por um bondoso capitão beduíno. Quando Sinuhe chegou à Síria, um importante governante amorreu fez amizade com ele, e deu-lhe a sua filha mais velha como esposa. Sinuhe tornou-se governante de uma grande tribo de amorreus, que liderou em campanhas de saques e pilhagem. A sua descrição das regiões montanhosas da Palestina lembra a passagem de Deuteronômio 8.8: 

Ali havia figos e vinhas 

Mais abundante que a água era o seu vinho, 

Copioso era o seu mel, abundante o seu azeite; 

Nas suas árvores havia todos os tipos de frutas. 

Havia cevada, e espelta, e sem fim era todo o gado,21 

Depois da morte de Terá, Abraão recebeu um chamado de Deus, para deixar sua terra natal, e obedecendo ao chamado migrou, com Sara, sua esposa, e Ló, seu sobrinho, à terra de Canaã. Uma fome os obrigou a avançar mais a sudoeste, entrando em território egípcio mais fértil, e enquanto ali estavam a beleza de Sara atraiu a atenção do Faraó. Ele a levou para sua casa, com intenção de casar-se com ela, tendo entendido que Sara era irmã de Abraão, 

Quando, entretanto, Faraó descobriu que ela era, na realidade, esposa de Abraão, devolveu-a sem demora e permitiu que eles deixassem o Egito. 

Uma repetição desta circunstância iria ocorrer posteriormente, quando Abraão, mais uma vez, deu a impressão de que Sara era sua irmã, desta vez a Abimeleque, rei da cidade-estado de Gerar (Gn 20.2 e versículos seguintes). E evidente, a partir destes dois incidentes, que os costumes matrimoniais da era patriarcal diferiam de maneira considerável, dos de épocas posteriores. Sara era, na verdade, meia-irmã de Abraão, sendo filha de seu pai, mas não de sua mãe (Gn 20.12), o que indica que, nesta época, era bastante aceitável que meios irmãos e irmãs, não nas­cidos do mesmo ventre, se casassem. Se, no entanto, tais parentes próximos não fossem nascidos de mães diferentes, não se admitia o casamento entre eles. 

Depois de regressar a Canaã, Abraão entrou em um acordo, ou aliança, com Deus (Gn 17.2 e versículos seguintes), no qual ficou claro que o Senhor faria dele uma grande nação e seria o Deus protetor de seus descendentes em Canaã. A circuncisão foi insti­tuída para comemorar a ocasião, e os nomes originais, Abrão e Sarai, foram alterados para Abraão e Sara para indicar as suas novas responsabilidades na aliança. Até esta ocasião, Sara não havia tido filhos, e em conformidade com o costume da época, tinha dado sua serva Agar a Abraão, de modo que pudessem nascer crianças em sua casa, 

Apesar do fato de que Sara tinha idade avançada, o primeiro passo para o cumprimento da aliança com Abraão foi cumprido com o nascimento de Isaque. Assim ela se tornou a primeira das quatro matriarcas hebréias, e confirmou a sua autoridade ao expulsar Agar e Ismael, seu filho adolescente, ao deserto. Embora Sara pudesse ter sido, até certo ponto, justificada em sua ira quando Ismael zom­bou do pequeno Isaque durante a festa do seu desmame, o seu ato ao expulsar Agar e seu filho não era permitido pela lei babilónica contemporânea. No devido tempo, Ismael tornou-se o antepassado epônimo de doze tribos, que se espalha­ram pela Transjordânia e o território fronteiriço ao Golfo de Acaba. 

Quando Sara morreu em Hebrom, Abraão negociou com Efrom, o heteu, a cova de Macpela, na qual Sara foi sepultada. A transação seguiu procedimentos típicos mesopotâmicos, como exemplificados em numerosos contratos babilônios e assí­rios. e o preço da compra foi pesado, em conformidade com o costume da época, Muitos séculos iriam passar antes que a cunhagem aparecesse na cena histórica. 

A descoberta do código legal heteu em Boghazkôy tornou possível um entendi­mento mais pleno da compra feita por Abraão da cova de Macpela. Agora parece que, segundo a lei dos heteus, quando o título da terra fosse definitivamente transferido, aquele que comprasse toda a propriedade se encontrava sob certo tipo de obrigação de realizar alguns serviços feudais não especificados para o proprietário original. Po­rém, se somente uma porção da propriedade disponível fosse adquirida, os tais ser­viços já não mais eram obrigatórios. Embora os procedimentos normais de cortesia fossem observados durante a transação, a narrativa deixa claro que Abraão estava tão ansioso por evitar estas obrigações legais quanto Efrom estava por impô-las. A menção a árvores na narrativa (Gn 23,17,18), está em conformidade com práticas con­temporâneas dos heteus que exigiam que o número exato de árvores que cresces­sem em cada porção de terreno vendido fosse devidamente relacionado. 

Os Heteus (ou Hititas) 

A menção aos Filhos de Hete, ou heteus, nesta narrativa, não representa, de maneira nenhuma, o primeiro reconhecimento bíblico dos heteus. No capítulo 10 do livro de Gênesis, a descendência do progenitor epônimo Hete foi incluída no grupo de nações que compunham a população de Canaã. É difícil determi­nar, com exatidão, qual era a conexão que este povo tinha com o poderoso grupo indo-europeu não-semita que vivia na Ásia Menor central no terceiro milênio a.C. Speiser e outros sugeriram que, uma vez que o antigo império heteu jamais se estendeu a Canaã, os autores bíblicos falam de forma imprecisa sobre habitantes não semitas de Canaã, como sendo heteus, quando deveriam tê-los designado, de modo mais exato, pelo termo “humano”. 

Parte da confusão emerge do fato de que o movimento dos heteus indo-europeus na Ásia Menor coincidiu, grosso modo, com a entrada dos hurrianos na Alta Mesopotâmia, vindos de algum lugar indo-iraniano. Os hurrianos nâo-semitas, ou horeus, como são chamados nas narrativas bíblicas, se espalharam mais para o oeste, no entan­to, e entraram na antiga Canaã. Por volta do segundo milênio a.C. estavam espalha­dos por todo o Oriente Médio, e bem estabelecidos em Canaã nos tempos de Abraão. Os hurrianos foram conquistados pelos poderosos heteus, aproximadamente em 1370 a.C., no auge do período do Novo Império, e foram absorvidos no reino dos heteus. 

Mas, em todo caso, a migração humana em Canaã fazia parte de um movimento de povos mais amplo, que incluía os heteus e talvez os heveus, assim como os habiru e os hicsos semitas. Embora isto possa ser contemporâneo à ocupação da Ásia Menor pelos heteus, na Idade Média do Bronze, os seus resultados são bastante diferentes. Os heteus da Ásia Menor foram os primeiros indo-europeus a entrar na Armênia e na Capadócia, vindos da região do Cáucaso. Eles se misturaram com os Khatti (ou Hatti) da Anatólia, de cujo território se apossaram, e estabeleceram inúmeras cidades-estado. Algumas delas existiam em uma época consideravelmente anterior ao período em que as colônias assírias de comércio foram fundadas na Capadócia, a leste do território Khatti (ou Hatti), durante o século em que os assírios exerceram um controle militar temporário na Alta Mesopotâmia (1850-1750 a.C.). O Antigo Império foi estabelecido aproximadamente em 1800 a.C., por Pitkhanas, rei de Kussar, e depois de duzentos anos o reino heteu se estendia, do mar Negro até a Síria. 

Mas, sob Mursilis I (1600 a.C,), o império heteu se enfraqueceu pelas lutas internas, e isto abriu o caminho para um aumento da influência dos hurrianos, que ampliaram o reino Mitani no norte da Mesopotâmia, Os do reino de Mitani, provavelmente, vi­nham da mesma região que os hurrianos, e há razões para que se acredite que ocupa­ram a Alta Mesopotâmia pouco tempo antes da época de Hamurabi. Eles dominaram a região entre a Média e o Mediterrâneo durante o período patriarcal, conservando um equilíbrio de poder entre os heteus, a Assíria e o Egito. Mas um renascimento do poder dos heteus, sob Suppiluliuma (1395-1350 a.C.) reduziu o reino Mitani à posição de um país intermediário entre a Ásia Menor e a Assíria, aproximadamente em 1370 a.C., e, como resultado, a influência dos heteus foi levada, ao sul, até a região do Líbano. 

Cerca de dez mil tábuas recuperadas por Winckler, em 1906, de Boghazkõy, no centro-leste da Ásia Menor, incluíam os arquivos reais do império heteu. 

Este era o local de Khattusas, que, durante quatro séculos (1600-1200 a.C.) tinha sido a cidade capital do reino dos heteus. A extensão da cultura dos heteus foi efe­tivamente retratada por estas tábuas, e agora se sabe que estes povos antigos eram cavaleiros renomados, que reivindicavam a distinção de terem introduzido o cavalo e, igualmente, o carro puxado por cavalos no Oriente Médio. Também foram im­portantes no desenvolvimento da Idade do Ferro (aproximadamente no século XII a.C.) na Palestina, pois textos heteus cuneiformes mostraram que eles monopoliza­ram a fundição e a manufatura de ferro, para todos os propósitos comerciais, até a época em que o poder heteu foi fragmentado, por volta de 1200 a.C. 

A religião dos heteus tinha uma natureza altamente sincretista, e emprestava divindades de Sumer, Acade, Nínive e do Egito. Uma tábua falava sobre Marduque, deus da Babilônia, deixando a Mesopotâmia e vivendo na Ásia Menor por vinte e quatro anos. Isto pode, talvez, ser uma referência à campanha de Mursilis I contra a Babilônia, que resultou na destruição da cidade e na grande imagem de Mardu­que sendo levada entre os espólios. 

Descobriu-se que os códigos legais dos heteus continham decretos que são cor­respondentes a leis seculares nos códigos de Hamurabi e de Moisés, As indicações gerais são de que os mesmos conceitos de justiça, lei e ordem prevaleceram em todo o Oriente Médio durante o segundo milênio a.C. A lei dos heteus reconhecia a natu­reza inviolável dos juramentos, alianças e tratados, e uma característica animadora do seu sistema legal, em comparação com o de outros países orientais, era o notável respeito que havia pela condição das mulheres. Enquanto o princípio de retaliação, ou lex taüoties era comum à legislação de Hamurabi e à de Moisés, um espírito mais humanitário prevalecia na lei dos heteus.“ Em particular, era proibido que mutila­ções físicas severas fossem feitas como punição àqueles que infringiam a lei, com a possível exceção dos escravos, um contraste agudo com algumas das punições que eram prescritas como sentenças máximas no código de Hamurabi. 

Os Patriarcas na Palestina 

Enquanto o Antigo reino dos heteus ganhava força e influência, os patriarcas hebreus davam continuidade à sua existência nômade em Canaã. Abraão não de­sejava permitir que seu filho Isaque se casasse com uma mulher hetéia, isto é, uma nativa de Canaã, e por isto enviou seu servo Eliézer a Harã, para dali conseguir uma esposa entre os seus parentes de Harã. Foi feito um contrato de casamento em nome de Rebeca (a noiva em potencial), por seu irmão Labão, que agiu em nome de seu pai idoso, Betuel, e assim Rebeca chegou a Canaã. 

Pouco tempo depois, Abraão morreu e foi sepultado com Sara, na cova de Macpe­la, A união de Isaque e Rebeca, que, a princípio, não produziu descendência, foi enri­quecida com o nascimento de gêmeos, Esaú e Jacó. O primeiro reivindicava o direito de primogenitura. Esaú era o filho favorito de Isaque. e mostrava interesse por atividades agrícolas. Isto pode, talvez, ser interpretado como uma indicação de que Isaque assinala a transição do modo de vida nômade para o semi-nômade entre os patriarcas,’' A nar­rativa do livro de Gênesis retrata as relações entre os vários membros da família com uma abordagem de percepção e delicadeza. Com típica astúcia oriental, Jacó conseguiu comprar o direito de primogenitura de Esaú, e então enganou seu pai cego levando-o a uma declaração equivocada da sua bênção final. Como esta bênção era considerada obrigatória, de acordo com o costume contemporâneo, a trapaça despertou a ira de Esaú, e Jacó foi enviado a se refugiar em Harã, onde viveu com seu tio, Labão. 

Durante a sua viagem, Jacó teve uma manifestação Divina (Gn 28.11 e versículos seguintes), que confirmou a aliança feita com Abraão, e assegurou-lhe a continuidade da bênção Divina. Quando chegou a Fadã-Arã, Jacó, aparentemente, foi adotado por Labão, e concordou em servi-lo durante sete anos, para obter a mão de Raquel, uma das filhas de Labão. No final deste período, Jacó foi ludibriado e casou-se com Léia, a irmã mais velha de Raquel, e foi forçado a trabalhar outros sete anos, sem receber pagamento, para conseguir Raquel como sua esposa. Enquanto isto, Labão teve filhos, que mudaram toda a situação de Jacó (se é que tinha sido realmente ado­tado por Labão, o que parece muito provável), privando-o de seus direitos de herdei­ro. Uma vez que a sua posição na família agora tinha se deteriorado, Raquel e Léia conspiraram, com Jacó, planejando tugir de casa, e antes da partida Raquel roubou os ídolos da casa, que, segundo a lei de Nuzu, eram propriedade do filho natural, e não do adotivo. Durante a fuga, foram alcançados por Labão, que protestou e exigiu de volta os deuses ou terafins da casa que, mesmo depois de uma busca, tinha sido incapaz de recuperar, 

A luz dos costumes que conhecemos da época, Jacó, suas esposas e todos os seus bens ainda pertenciam, legalmente, a Labão (se Jacó estivesse na posição de um filho adotivo, que tinha deveres filiais para com os pais adotivos). Este impasse foi solucionado com um gesto magnânimo por parte de Labão, que permitiu que suas filhas partissem com Jacó depois de terem feito um acordo solene, segundo o qual Jacó se comprometia a não contrair novos casamentos, e prometia respeitar os limites territoriais de Labão. 

A caminho de Canaã, Jacó encontrou-se com seu irmão, Esaú, perto do ro­choso cânion (vale de Jaboque), no leste da Palestina. Os dois homens se comportaram com dignidade, e Esaú graciosamente perdoou a Jacó, que se inclinou a terra sete vezes, como exigiam os costumes da época em tais ocasiões. Esaú foi viver em Edom, onde obteve considerável autoridade local como um patriar­ca, enquanto Jacó viajava em Siquém e Hebrom. Em sua chegada a Siquém, Jacó comprou terras de Bene-Hamor, estabeleceu-se no lugar e passou a dedicar-se a atividades agrícolas. Quando Diná, uma de suas filhas, foi objeto de um interlú­dio amoroso nas mãos de um príncipe siquemita, dois dos filhos de Jacó, Simeão e Levi, realizaram um ato enganoso contra Bene-Hamor. A resultante matança dos siquemitas aborreceu Jacó, porque ele não tinha aliados na época e estava em uma posição econômica vulnerável, devido à sua chegada recente ao local. O incidente não teve represália, e pode ter resultado, de maneira indireta, no prestígio de Jacó. 

Ao receber uma ordem Divina para residir em Betel, depois de assegurar que todos os seus ídolos domésticos tinham sido enterrados, ele mudou a sua casa para lá (Gn 35.4). Isto é uma evidência do fato de que os patriarcas ainda se apegavam, de alguma maneira, aos seus deuses domésticos mesopotâmios tradicionais. 

Em Betel, Deus renovou a sua aliança com Jacó e, como uma comemoração, concedeu-lhe o seu novo nome, “Israel”. A família então se mudou outra vez de Betel para a vizinhança de Jerusalém, e foi aqui que Raquel morreu, ao dar à luz ao seu segundo filho, Benjamim. Pouco tempo depois, ocorreu outro luto na família, com a morte de Isaque, já em idade avançada, e foi enterrado junto a Esaú e Jacó, na cova de Macpela (Gn 35.29). 

As Narrativas a Respeito de José 

Neste ponto, as narrativas dos patriarcas dão início às histórias sobre José, o filho mais velho de Raquel, e o favorito de Jacó. O ressentimento com que seus meios-irmãos recebiam sua popularidade com seu pai, aumentou quando José teve dois sonhos que indicavam que seria muito superior a eles, em posição e au­toridade. Por maldade, seus irmãos o venderam como escravo a uma caravana de midianitas que viajavam para o Egito, mas deram ao idoso Jacó a impressão de que José tinha sido devorado por animais selvagens. A delicadeza com que é retratada a reação de Jacó é característica da beleza e do drama primorosos destas narrativas, que estão entre as mais impressionantes de toda a Bíblia. 

Quando José chegou ao Egito, tornou-se escravo de Potifar, um oficial militar egípcio, e logo era responsável por toda a casa, Quando a esposa de Potifar alimen­tou uma paixão por José, ele resistiu às suas adulações, até que, como vingança, a mulher frustrada caluniou José a seu marido, que mandou prendê-lo imediata­mente. Este infeliz incidente tem um correspondente em um conto do século XIII a,C. da vida egípcia, intitulado “Conto dos dois irmãos”. Esta composição român­tica fala da sedução pretendida contra um homem virtuoso chamado Bata pela esposa de seu irmão mais velho, Anubis. 

Depois de admirar a constituição física de Bata, a apaixonada esposa, 

levantou-se e agarrou-o... quando o rapaz (ficou) como um leopardo, com (grande) ira pela perversa sugestão que ela lhe tinha feito; então ela ficou muito, muito assustada, Então ele discutiu com ela, dizendo: “Veja, você é como uma mãe para mim, e seu marido é como um pai para mim*** O que é este grande crime que você me propôs? Não o mencione outra vez!’ 

Como José, Bata foi caluniado pela sua virtude, mas foi forçado a suportar um grau de humilhação física muito maior do que aconteceu com José. José desfrutou do favor Divino, até mesmo na prisão, e a sua habilidade de interpretar sonhos não somente assegurou a sua libertação do cativeiro, mas o levou a uma posição de grande importância na vida política egípcia. 

Quando Faraó foi incapaz de interpretar um sonho que anunciava fome, José foi trazido diante dele, para uma audiência real, vestido com roupas limpas e com a barba feita à maneira egípcia. Quando José aconselhou Faraó a guardar a produ­ção de grãos que resultasse do período de fartura, antecipando a fome que viria a seguir, recebeu a tareia de supervisionar o projeto. Com esta responsabilidade vinha o elevado cargo de vizir, ou ministro, que o tornava, na verdade, o admi­nistrador principal do país, e supervisor da economia nacional. De acordo com a tradição egípcia, José recebeu de Faraó um anel com sinete, vestes de honra e um colar dourado, Quando viajava pelo país, somente era superado, em dignidade e autoridade, pelo rei do Egito, e tinha servos que precediam o seu carro, gritando, “Prestem atenção”.'" José, a seguir, se casou com a filha de um sacerdote de Heliópolis e posteriormente teve dois filhos, Manasses e Efraim. 

A fome que José tinha predito, e para a qual havia feito amplas provisões, se estendeu aos semi-nômades semitas na Palestina, e em outros lugares, e estes po­vos vinham periodicamente ao Egito, para comprar grãos. Os irmãos mais velhos de José foram enviados, pelo idoso Jacó, com o mesmo propósito, e foram reco­nhecidos por José, embora não se dessem conta da sua identidade. A narrativa que descreve a maneira como ele lidou com seus irmãos consiste de habilidosos exemplos de drama e suspense, que culminaram com a feliz reunião de toda a fa­mília no Egito. O faraó os tratou com hospitalidade, e os instalou em Gósen, uma região do delta do Nilo, bastante adequada à pastagem e a determinados tipos de agricultura. O quadro de Benè-Hasã, ao qual já se fez referência, retratou a che­gada no Egito de um grupo de nômades semitas ocidentais do período patriarcal, que fornece um cenário autêntico da migração de Israel e de seus filhos ao Egito. Uma inscrição egípcia do século XIV a.C. confirma isto, mostrando que os oficiais de fronteira estavam acostumados a permitir que os habitantes de territórios sob controle egípcio entrassem na região de Gósen, durante os tempos da fome.

A medida que a fome no Egito crescia e ficava cada vez pior, José gradativa- mente convertia a terra, seus habitantes e seus pertences em propriedade real. O povo tinha que cultivar a terra e entregar um quinto da produção ao Faraó, mas os sacerdotes eram isentos desta obrigação, uma vez que o Faraó já tinha designado terras da coroa para o uso deles. 

Muitos estudiosos associaram o assentamento israelita no Egito com as con­quistas dos hicsos (1720-1570 a.C.) naquela região. Os hicsos faziam, provavelmente, parte do grande movimento nômade da Mesopotâmia, que tornou-se pronunciado por volta de 1900 a.C. Estes “governantes de terras estrangeiras”, como os egípcios os descreviam, eram um grupo mesclado de povos asiáticos, com um elemento semita predominante que provavelmente incluía alguns habiru nômades M No século XVIII, os hiscos estabeleceram um reino poderoso na Síria e em Canaã, que tinha estado anteriormente sob controle egípcio. Eles fortificaram a terra em pontos estratégicos (um dos quais era Jericó), por meio de fortes cercados de proteções de terra batida (terre ptsée), que eram conhecidas pelos hebreus como “hhaserim” (Dt 2.23— “caftorins" na ARC). Por volta de 1720 a.C., eles entraram no próprio Egito, e por aproximada­mente dois séculos controlaram a maior parte do país, da sua capital em Avaris, que também foi chamada de Tânis, no delta do Nilo. Os hicsos eram um povo guerreiro de considerável prosperidade material, e foram os primeiros a introduzir o cavalo e o carro puxado por cavalos, no Egito como armas militares.

Se houvesse alguma conexão entre os hicsos e os hebreus nômades, a entrada destes últimos no Egito teria sido menos difícil sob governantes hiscos do que sob uma dinastia egípcia uma vez que os egípcios nativos não eram particularmen­te toierantes aos estrangeiros, especialmente se houvesse oportunistas políticos entre eles, Mas antes que as implicações desta situação possam ser examinadas um pouco mais, é necessário inserir todo este período no cenário mais amplo da história antiga egípcia.

Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.