17 de abril de 2015

R. K. HARRISON - A Mesopotâmia Antiga

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A Mesopotâmia Antiga 

Esboço da Geografia

AQUILO QUE SE RECONHECE, GERALMENTE, COMO SENDO O BERÇO DA civilização humana, consiste de uma imensa porção de terra que, na terminologia moderna, é chamada de Oriente Médio. Uma breve investigação geográfica desta região nos mostra que as suas fronteiras são, ao norte, as montanhas do Cáucaso e a Ásia propriamente dita, enquanto que a leste se estendem os montes Zagros da Pérsia, levando ao Afeganistão e ao Baluquistão. No extremo sudeste deste terri¬tório quadrangular, está o Golfo Pérsico, e ao sul se encontram as enormes terras desérticas da Arábia. A Península do Sinai forma a conexão sudoeste com a África, e as fronteiras ocidentais se completam com o mar Mediterrâneo e o terreno montanhoso da Ásia Menor.

Durante alguns séculos, historiadores e geógrafos, igualmente, chamaram a atenção à existência, no Oriente Médio, daquilo que tem sido chamado de “Cres-cente Fértil". A extensão deste território pode ser avaliada se traçarmos uma linha imaginária para o norte e para o oeste, partindo do Golfo Pérsico, acompanhando o curso dos rios Tigre e Eufrates, e então para o sul, passando pela Síria e Canaã, terminando no Egito, Esta rica porção de terra viu o desenvolvimento da atividade humana na Nova Idade da Pedra (aprox. 6000-4500 a.C.), e deste berço tradicional da humanidade emergiu toda a variedade da antiga civilização, até o século V a.C., quando o florescimento da Idade do Ouro grega marcou o surgimento de uma cultura européia específica.


O arco oriental do Crescente Fértil era conhecido como Mesopotâmia, uma designação que foi adquirida depois dos tempos de Alexandre, o Grande, e que, para os geógrafos dos impérios grego e romano, indicava, de um modo geral, a ex¬tensão de terra que ficava entre os sinuosos rios Tigre e Eufrates. A Mesopotâmia antiga não incluía as regiões montanhosas do norte e leste, onde se encontram as nascentes destes dois rios, nem se considerou jamais que as vastas áreas do deserto Sírio Árabe, para o sudoeste, fizessem parte da região. Os hebreus se referem à parte norte deste território como Mesopotâmia, que significa Entre-rios, ou "Síria entre os dois rios” (Gn 24.10 - ou ainda Arã-Naaraim, em hebraico - conforme nota da versão NVI). Ele incluía a maior parte da expansão territorial do antigo império assírio. Para o sul de Arã-Naaraim, se estendiam as ricas terras baixas alu¬viais, daquilo que mais tarde viria a ser conhecido como Babilônia.

Os Natufianos

O período mesolítico é representado, no Oriente Médio, por outros depósitos na Palestina, pertencentes a uma cultura que foi chamada de natufiana, e que sur-giu aproximadamente em 8000 a.C, A partir de esqueletos que foram recuperados, parece que os natufianos eram de constituição delgada e tinham pouco mais de um metro e meio de altura. Eles têm algumas coisas em comum com os egípcios pré-dinásticos, e provavelmente pertenciam aos ancestrais do grupo semito-ha- mítico. Os natufianos normalmente são considerados responsáveis pela institui¬ção das primeiras fases da atividade agrícola no Oriente Médio, e a descoberta de uma grande variedade de artefatos de pedra mostrou que obtinham uma parcela do seu alimento do cultivo de grãos como o painço, que colhiam com foices de pedra, e trituravam em vasilhames de pedra. Embora não fabricassem cerâmicas, seus talentos artísticos se estendiam aos trabalhos com ossos de animais e à escul¬tura de pequenas imagens. A posição dos esqueletos mostra que normalmente en¬terravam seus mortos segundo a maneira encolhida dos egípcios pré-dinásticos, com os joelhos levados ao queixo e os braços dobrados sobre o peito. 

O Período Neolítico

Durante a Antiga Idade da Pedra, aquela porção do Crescente Fértil que fi¬cava ao norte do Golfo Pérsico consistia integralmente de pântanos. Não se sabe ao certo até que extensão, ao norte, prevalecia tais condições, mas com base em evidências disponíveis parece que deve-se esperar poucas ligações — se é que há alguma — com a Idade da Pedra nesta parte do Oriente Médio. Mas no extremo norte da Mesopotâmia, a cultura neolítica (aproximadamente 6000-4500 a.C.) é representada por inúmeros vilarejos, e, de forma especial, aqueles que foram escavados em Tell Hassuna, um lugar um pouco ao sul da moderna Mosul, na antiga Nínive, e em Tepe Gawra, dezenove quilômetros a nordeste de Nínive.

Esses locais estão todos na mesma área, e indicam que os vilarejos primitivos provavelmente surgiram, lado a lado, por razões econômicas. As escavações do professor M. E. L. Mallowan em Nínive em 1931 se aprofundaram até quase seis metros, onde se descobriu que as camadas mais baixas da cultura assíria deram lugar aos restos dos vilarejos pré-históricos. As cabanas de madeira deste período tinham sido reduzidas a fragmentos, e misturadas com os resíduos foram encon-tradas peças quebradas de cerâmica de qualidade inferior, feitas à mão, que exi¬biam padrões grosseiramente desenhados sob a forma de marcas.

As camadas inferiores do terreno em Tepe Gawra revelaram a existência de objetos de cerâmica decorada de delicada estrutura, e alguns destes objetos foram encontrados em uma cova que continha os esqueletos dos colonizadores do perí¬odo Neolítico. Na Síria, este tipo de cultura de vilarejo antigo estava representado na planície de Antioquia, pelos estratos inferiores em TeU-ej-Judeideh, ao passo que na Palestina as escavações de Garstang em jerico revelaram a existência de estratos neolíticos que, examinados, mostraram que aí tinha se instalado uma das mais antigas comunidades do Oriente Médio. Como em outros vilarejos ante¬riores â cerâmica, no início do período neolítico, um santuário religioso era uma característica eminente da comunidade. As casas eram construídas de terra batida ou pequenos tijolos de barro, ao passo que o santuário tinha uma câmara externa e uma interna, de consideráveis dimensões. Foram descobertos objetos de culto de natureza sexual, juntamente com estátuas de seres humanos, moldadas em calcário argiloso, cujo propósito e importância são desconhecidos.

A cultura neolítica, do norte da Mesopotâmia e dos planaltos da Assíria, é provavelmente anterior ao início do quinto milênio a.C., fato que faz da constru¬ção de casas e da introdução da cerâmica uma questão de grande antiguidade, e mostra que os povos da Idade da Pedra estavam longe de serem não civilizados. 

O Período Calcolítico: Fase Halafiana

A “Idade do Cobre” ou período calcolítico (4500-3000 a.C.) sucedeu ao período neolítico, trazendo o uso crescente do metal para utensílios. Esta época é caracte¬rizada por um avançado grau de cultura que frequentemente é considerado como marcando a transição entre a vida primitiva e as grandes civilizações da antigui¬dade. O melhor representante do período calcolítico no noroeste da Mesopotâmia é Tell Halaf, que deu nome a esta fase da civilização assíria. Deve-se observar, por sinal, que os arqueólogos julgaram conveniente classificar os diferentes estágios de desenvolvimento nas culturas pré-dinásticas com os nomes dos locais onde foram descobertos originalmente, e esta é agora uma prática estabelecida.

A idade de Tell Halaf foi descoberta pelo trabalho de um empreendedor ar-queólogo alemão, o Barão Von Oppenheim, que passou dois anos neste lugar, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, e prosseguiu com suas escavações em 1927 e 1929. Neste lugar, ele encontrou uma cultura que era muito superior à dos assentamentos neolíticos encontrados em outras regiões da Assíria. Os depósitos de ocupação halafianos foram descobertos em muitos outros lugares espalhados peia Mesopotâmia e Síria, notavelmente em Tell Chagar Bazar, há cerca de oitenta quilômetros' a leste de Tell Halaf, em Tell Arpachiyah, próximo de Nínive, em Carquemis e outros lugares.

As casas que caracterizaram este período eram construídas principalmente sobre fundações de pedra, e tinham forma retangular. Escavadores descobriram que edifícios posteriores, construídos com projeto mais circular, eram proeminen¬tes nos vilarejos calcolíticos, e verificaram que estas construções eram santuários. As mais antigas variedades consistiam de uma única câmara circular, mas as posteriores, refletindo a fase pré-cerâmica neolítica de Jericó, tinham uma ante-sala retangular acrescentada à estrutura. Descobriu-se que os santuários continham modelos grosseiros de animais domésticos, assim como algumas estátuas huma¬nas, que em geral retratavam o corpo feminino nu com características sexuais exageradas, de uma maneira remanescente do costume aurignaciano anterior. 

A arte doméstica da tecelagem tinha alcançado um alto nível nesta época, e a manufatura de tapetes estava bem estabelecida. A tecelagem de tapetes se ori¬ginou na Mesopotâmia, em um período remoto da história humana, e os nós ca-racterísticos, Sehna (ou Senneh) e Ghiordes, dos tapetes persas posteriores, são extremamente antigos. Desde o extremo oeste do antigo império heteu, na Ásia Menor, até as amplas áreas da China, os mesmos métodos eram empregados para preparar os materiais e tecê-los em padrões vastamente variados, característicos dos tapetes orientais. Até a atualidade, a variedade “persa’' de nós é predominante na tecelagem básica dos tapetes chineses, e reflete a longa história da influência da Mesopotâmia em algo que é um dos mais antigos artesanatos humanos.

Mas o que era mais característico da cultura halafiana era a elegante cerâmica, de pintura distinta, que foi descoberta nos estratos mais inferiores. Em estilo, ela não era diferente das pinturas geométricas e policromáticas da Gassul calcolidca na Palestina, que são aproximadamente da mesma época. A cerâmica, por si só, tinha uma natureza fina, ou melhor, frágil, feita à mão e queimada em fornos fechados que produziam um calor intenso, prontamente controlado. A cerâmica resultante tinha um bom acabamento e era adornada com uma variedade de padrões e dese¬nhos de tipo geométrico. As tigelas eram frequentemente decoradas no interior com representações de plantas, animais e seres humanos. O que é de especial interesse para os arqueólogos é a representação de um veículo com rodas, provavelmente um carro, encontrada em um dos vasos halafianos, A roda é do tipo com raios, e a sua representação, sob tais circunstâncias, confirma a grande idade do transporte por rodas. Os estudiosos têm sido unânimes no seu veredito de que o padrão de ma¬nufatura e desenho da cerâmica halafiana é inigualável em termos de antiguidade. Como se observou acima, a data desta antiga cultura é aproximadamente a mesma da gassuíiana, da Palestina, e deve ser considerada bem anterior a 4000 a.C.

O Período Calcolítico: A Fase de al Ubaid

Durante este período, a extremidade sul da Babilônia terminava nas terras pantanosas do delta dos rios Tigre e Eufrates, e, como consequência, aí se sentiu o impacto da habitação humana um pouco mais tarde do que nos planaltos da Assíria, onde a cultura halafiana estava representada de maneira muito forte. A primeira tarefa com que se depararam os colonizadores pré-históricos do sul da Mesopotâmia, portanto, foi a drenagem e a irrigação da terra de modo que fosse possível cultivá-la. Esta foi uma tarefa formidável, pois as inundações repentinas eram comuns e os cursos dos rios sinuosos podiam variar, de tempos em tempos. Imensos depósitos de lama aluvial, das planícies da Babilônia, gradativamente al¬teraram a forma da costa no Golfo Pérsico, com o resultado de que lugares como Ur e Eridu ficavam consideravelmente mais próximos do mar, na antiguidade, do que estão agora. Depois que o rico solo aluvial tinha sido drenado e a terra ir¬rigada, por meio de canais e barragens, a grande riqueza das planícies baixas da Mesopotâmia atraiu uma sucessão de culturas que formaram a base da civilização histórica no Oriente Médio.

A cultura mais claramente definida, do período pré-histórico, na Babilônia, é encontrada em al Ubaid, uma região baixa situada a pouco mais de seis quilô¬metros a noroeste de Ur. O local foi investigado pela primeira vez por Campbell Thompson, em 1918, escavado no inverno seguinte por H. R. Hall, e posterior¬mente, para ser mais preciso, a partir de 1923, por C. L. Woolley. A cultura que veio â luz foi descoberta como sendo aquela dos mais antigos assentamentos no delta do Eufrates, e foi datada em aproximadamente 4000 a.C. Depósitos da variedade de al Ubaid foram relatados, de inúmeros outros antigos locais da Mesopotâmia, in¬cluindo os de Eridu, Ereque, Ur e Uruk, que nesta época eram pequenas comuni¬dades. Devido à ausência de pedra, todas as casas nestes assentamentos primitivos no pântano eram construídas de juncos, selados com barro, ou, em um período um pouco posterior, de tijolos de barro secos ao sol.

Embora estas construções não fossem nada sólidas, elas se tornaram prati-camente impermeáveis pela aplicação de mosaicos de argila decorada às paredes seladas, um costume que, diversos séculos mais tarde, ainda estava em uso. O final deste período, no entanto, produziu construções mais sólidas na Assíria, e uma camada recente (XIII) de al Ubaid, escavada por Speiser em Tepe Gawra, em 1936, revelou a existência de três templos retangulares bem projetados, dispostos em três lados de um pátio. Uma série de nichos abertos verticalmente nas paredes marcava um tipo de construção que teve início no final do quinto milênio a.C. e dominou a arquitetura de templos da Mesopotâmia por muitos séculos.

Exemplos da cerâmica de al Ubaid foram recuperados em quantidade, e mos¬tram considerável afinidade em estilo e desenho com a cerâmica escavada nas camadas inferiores do terreno em Susã (ou Susa), na Pérsia, que é aproximada-mente contemporânea. Os oleiros de al Ubaid produziram grandes quantidades de tigelas, vasos e outros recipientes, que decoravam com padrões geométricos, em pintura escura. A textura da cerâmica é bastante elegante e a roda parece ter sido empregada, de certa forma, na sua produção. Em comparação com o estágio halaliano anterior, no entanto, a cerâmica do período al Ubaid é definitivamente inferior, tanto em desenho quanto em apelo estético. Armas e utensílios feitos de pedra foram encontrados em depósitos deste período, e a presença de contas de lápis-lazúli e amazonita indicam um contato com a Ásia central e a índia, onde estas pedras decorativas eram usadas como enfeites na época. 

O Período Calcolítico: A fase de Uruk

Um dramático passo à frente, na civilização, caracterizou a fase cultural se¬guinte, conhecida como o período de Uruk, que normalmente é datado no final do quarto milênio a.C. O local da antiga Uruk, a Ereque de Gênesis 10.10, foi esca¬vado por arqueólogos alemães, que descobriram evidências do mais antigo ztgurate da Babilônia. O zigumte consistia de uma colina ou um monte de pouca altura, formado artificialmente pelo acúmulo de argila e ruínas, em cujo topo ficava um santuário. A palavra zigurate descreve, na realidade, as torres enfileiradas que for¬mavam os templos erigidos nestes montes, mas é frequentemente usada em um sentido mais amplo, de modo a incluir também o monte. Este tipo de construção refletia o desejo dos construtores de proteger das inundações os templos das suas divindades patronas, quando as enchentes súbitas ameaçassem a comunidade. O zigurate em Ereque era um quadrado que tinha aproximadamente quarenta e um metros de lado, e cerca de nove metros de altura, ao passo que os edifícios do tem¬plo eram erigidos em volta de um pátio estreito, à maneira das estruturas de Tepe Gawra, e ocupavam uma área total aproximada de duzentos e noventa metros quadrados. As paredes e colunas internas do edifício eram decoradas em padrões geométricos com cones de argila colorida inseridos na argamassa macia, à maneira das encontradas no período al Ubaid.“

Inúmeras tábuas de argila foram encontradas em Ereque, nas quais um texto pictográfico grosseiro tinha sido impresso por meio de uma espécie de estilete. Os pictogramas, como o nome indica, eram representações grosseiramente desenha¬das na formado objeto sob consideração. Esta escrita pictográfica foi gradualmen¬te simplificada em grupos equivalentes de linhas e quando o estilete triangular foi introduzido, os pictogramas assumiram a forma de caracteres bem desenhados, ou cuneíformes. O desenvolvimento da escrita, no entanto, foi precedido, em Uruk, pela invenção do selo cilíndrico de pedra, que era usado, originalmente, para estabelecer a posse de bens ou propriedades. Este instrumento, que no final da época de Uruk gradualmente substituiu os selos decorados do período al Ubaid, con¬sistia de um cilindro de pedra, no qual tinha sido gravado um padrão distinto. Quando rolado em uma superfície macia, como argila úmida, deixava impresso um desenho que era claramente reconhecível.

À medida que a escrita era desenvolvida, as inscrições cuneiformes apareciam como parte do padrão, juntamente com outras decorações, algumas das quais ainda não têm explicação. Uma vez estabelecido o princípio do selo, não havia limites para o talento artístico que podia ser empregado no seu desenho e na sua fabricação. Os selos que datam do início do período dinástico são bastante primitivos por natureza, e geralmente são marcados por linhas ondulantes agrupadas em um padrão grosseiro. Mas os selos que emergiram de períodos posteriores retratam motivos complexos de seres humanos e animais, e são notáveis pela beleza e pelos detalhes de seu desenho. Tais selos eram largamente usados em transações comerciais, e a sua popularidade espalhou-se até o Egito e a índia, onde foram usados por muitos séculos.’

A fase de Uruk continuou, até o final do quarto milênio a.C, na localização de Jemdet Nasr, no norte da Mesopotâmia, Os artefatos que foram recuperados ali indicam que a civilização estava se tornando cada vez mais complexa. Metais, especialmente o bronze, entraram em uso, enquanto a escultura fazia a sua primei-ra aparição em alguns lugares da Babilônia. A cerâmica pintada de Jemdet Nasr é considerada, de modo geral, como inferior àquela dos primeiros estágios do perí¬odo calcolítico. As localidades antigas de Quis e Surupak toram descobertas nesta época, e foi dali, assim como dos estratos contemporâneos em Ur e Uruk, que a cultura do final do período calcolítico na Mesopotâmia foi recuperada.

O Crescimento da Cultura Suméria

O período pré-letrado do sul da Mesopotâmia foi, em todos os sentidos, uma cultura em irrigação. As terras baixas da planície de Sinar eram formadas pelos constantes depósitos de lama vindos do Tigre e do Eufrates. Este processo ainda está em operação hoje em dia, com o resultado de que as cidades como Ur, que estiveram anteriormente junto à costa, agora estão a uma distância considerável do Golfo Pérsico. Somente depois que os canais tinham sido escavados, para dre¬nar o rico solo aluvial e barragens foram construídas para controlar as constantes enchentes, é que a riqueza agrícola da Suméria pôde desenvolver-se. Isto foi alcan¬çado com tal sucesso, que no final do quarto milênio a.C. os povos do sul da Me-sopotâmia tinham uma grande variedade de cereais, frutas e legumes, incluindo trigo, painço, gergelim, cebolas, feijões, tâmaras, azeitonas, uvas e figos.

Os pequenos vilarejos que tinham caracterizado o período de al Ubaid se desenvolveram em um número comparativamente menor de cidades-estado, que exerciam um monopólio sobre o território ao seu redor. Cada uma destas cidades-estado era dedicada a uma divindade-patrona, que era venerada como o dono ausente da terra, O seu templo era o edifício dominante da comunidade, e os sacerdotes eram seus servos, e a eles era confiada a responsabilidade de cuidar da terra. Em todo o período de al Ubaid os sacerdotes já tinham introduzido o prin¬cípio de uma revolução urbana, pela sua meticulosa organização do trabalho da comunidade para a drenagem e o cultivo da terra. Nesta época, o templo tornou- se o centro da economia local, e o principal dos sacerdotes, ou ensi era reconhecido como ura governador civil que era geralmente chamado de isfiakiui ou ‘'lavrador arrendatário”.

Este arranjo representava uma antecipação da regra patriarcal, pois dava san¬ção a um estado teocrático e permitia que os sacerdotes se organizassem de tal maneira que pudessem administrar as terras da divindade de maneira eletiva, e também supervisionar o desenvolvimento da vida comunitária. Estas responsa¬bilidades necessitavam da preservação de registros e explicações, que pudessem ser preservadas nos arquivos do templo para futura referência. Isto é considerado, pelos arqueólogos, como o início de um sistema de expressão que evoluiu na es¬crita, e pode ter sido estimulado pelos desenhos simbólicos dos selos do período al Ubaid. Descobriu-se que as tábuas recuperadas dos estratos de Uruk em Ereque consistiam de relatos primitivos, escritos pelos sacerdotes do templo como parte de suas tarefas administrativas.

O relacionamento que existia entre a cidade e o santuário era de interdepen-dência. Como estado, a cidade englobava a unidade política, ao passo que o templo proporcionava o impulso material e religioso para o funcionamento do estado. Durante o período dinástico, algumas cidades tiveram diversos templos, cada um dos quais reivindicava certa porção de terra como sua, da qual parte era cultivada pela comunidade do templo para seu próprio uso. Os templos também exerciam outras funções, além das de natureza religiosa ou ritual, pois eram os armazéns e as oficinas de toda a comunidade. As corporações sacerdotais foram criadas para administrar os assuntos de uma sociedade em desenvolvimento, e para regula¬mentar o tipo e a quantidade de trabalho que tinha que ser feito na cidade e à sua volta. Os diques e canais de irrigação precisavam de manutenção constante, e era necessário repartir este trabalho entre os membros da comunidade, e supervisio¬nar os trabalhadores em suas tarefas. Uma proporção da produção agrícola era doada, todos os anos, ao templo, e segundo tábuas dinásticas antigas que foram re¬cuperadas, os armazéns continham uma grande variedade de produtos agrícolas e outros, dos quais um registro detalhado era mantido. O templo parece ter sido o fator regulador da vida social nas cidacies-estado, e assim exercia uma importante influência sobre todas as facetas da vida da comunidade.

Os povos que se estabeleceram na região pantanosa do delta, em aproximada¬mente 4000 a.C., formaram as primeiras comunidades históricas civilizadas do sul da Mesopotâmia. Eram conhecidos como sumérios, nome extraído da sua capital, Sumer, e introduziram a clássica idade suméria, que iria exercer uma influência profunda sobre todo o desenvolvi mento cultural subsequente. Os sumérios eram uma raça mesclada semita, não indo-européia, que falavam uma língua aglutinativa. Na aparência, eram escuros, com cabelos também escuros e ondulados, e barbas espessas que justificavam amplamente a descrição que faziam de si mesmos como “os de cabeça preta'1. Mas eram pessoas de capacidade intelectual superior, e isto permitiu que obtivessem o domínio cultural no Oriente Médio desde uma época muito antiga.

Considera-se que tenham chegado à planície fértil de Sinar vindos das regi¬ões montanhosas do leste, embora alguns estudiosos sejam de opinião de que eles sejam originários das montanhas do Cáucaso. Com os sumérios estava incluído outro grupo não semita, os elamitas, que podem ter feito parte da população pré- Suméria no sudeste da Mesopotâmia. Esta conjetura se baseia, em parte, no fato de que a cerâmica elamita encontrada em Susâ, a sua capital, é mais antiga do que a cerâmica decorada suméria de al Ubaid. Os elamitas vieram do outro lado dos montes Zagros, e a sua ocupação da planície da Mesopotâmia foi, por muito tempo, uma questão de disputa pelos sumérios. Eram, de modo geral, conside¬rados como invasores, e em um estágio inicial no período histórico, os sumérios começaram a expulsá-los de volta à sua terra original. Ataques de retaliação caracterizaram as relações entre elamitas e sumérios por alguns séculos, e houve pe¬ríodos da história suméria em que uma dinastia elamita tinha o controle militar da planície de Sinar, Mas qualquer que seja a importância política dos elamitas, é evidente que a sua cultura influenciou muito pouco os sumérios, que, em todos os aspectos, eram superiores a qualquer forma contemporânea de civilização.

Os sumérios adotaram e ampliaram o sistema de cídades-estado que vinha existindo desde o período al Ubaid. Cada comunidade reivindicava uma divin¬dade em particular (ou divindades), e seguia o seu próprio padrão de ritual de adoração. O deus local era reconhecido como o governante supremo de uma so-ciedade teocrática, e somente dele derivavam o poder e a autoridade. No início do período dinástico, que de modo geral é considerado como a primeira metade do terceiro milênio a.C., os deuses da Suméria estavam organizados em um panteão que era reconhecido por toda a nação. Grande importância se atribuía às ativi¬dades religiosas, e uma considerável parcela do tempo era devotada à formação de conceitos teológicos e tradições rituais. Os templos cresceram em tamanho, e eram construídos de acordo com padrões que os sumérios acreditavam terem sido revelados aos homens em visões. As terras da comunidade eram divididas entre as divindades locais, e uma proporção da produção era devolvida ao templo, sob a forma de aluguel. O tamanho global das cidades-estado também tendia a crescer, e neste período Ur ocupava uma área muito superior a duzentos acres, ao passo que a população de Lagash era pouco inferior a vinte mil habitantes.

Um resultado do desenvolvimento dos templos das cidades foi o surgimento de uma grande variedade de artesãos especializados. A riqueza da Suméria urba¬na tornou possível que fossem importados todos aqueles materiais que não eram nativos da planície aluvial. Pedras semí-preciosas tais como lápis-lazúli c obsidiana estavam sendo usadas antes da fase Jemdet Nasr, e no terceiro milênio a.C, houve um aumento do comércio sumério com as nações vizinhas. O cobre era impor¬tado da Anatólia, das regiões montanhosas iranianas e provavelmente do oeste da índia. As pedras eram transportadas de Omã, no Golfo Pérsico, ao passo que o estanho era obtido do Irã, da Ásia Menor e da Síria. Prata, ouro e pinho já eram usados na fase de Uruk, e os artesãos em cobre daquele período tinham se tornado proficientes em moldar uma liga de cobre e chumbo. Novos instrumentos eram projetados para o trabalho agrícola, e eram vastamente aclamados além das fron-teiras da Suméria. Os artesãos em ouro e prata voltaram sua atenção à manufatura de uma grande variedade de artigos de toalete e ornamentos pessoais. Alfinetes, brincos, conjuntos de toalete e outros artigos de delicado talento artístico e execu¬ção eram muito procurados no início do período dinástico, e os gostos dos ricos e dos pobres, igualmente, eram satisfeitos por meio de produtos de diferentes quali-dades. Recipientes de metal gradualmente substituíram a cerâmica decorada de uma época anterior, que agora era considerada adequada somente para os pobres. Magníficos vasilhames modelados em ouro, prata, bronze e pedras semi-preciosas eram produzidos em quantidade, em uma vasta variedade de formatos e tamanhos. O talento artístico exibido na decoração destes artigos reflete a habilidade e a arte do quarto milênio a.C., quando a arte suméria estava em seu auge.

A Ascensão da Realeza

Os templos das cidades do início do período dinástico não escaparam incó-lumes ao desenvolvimento da sociedade, pois a sua própria autoridade passou por certo grau de modificação pela transferência do poder de uma assembleia de anciãos ao personagem de um indivíduo. No entanto, os anciãos não foram substituídos no processo, pois a ideia original de uma única jurisdição surgiu da necessidade de que um membro da assembleia assumisse a responsabilidade de liderar em uma emergência. A função de governante ou lugal era temporária, por definição, mas em determinados casos uma sucessão de crises locais tendia a dar- lhe uma forma mais duradoura. Originalmente, não havia nada de uma natureza hereditária conectada à função de rei ou governante, pois ele agia em nome da assembléia de anciãos, e, no final das contas, como um auxiliar da divindade pa¬trona da cidade, uma vez que a realeza era, de qualquer forma, uma questão de escolha divina. Se um filho sucedesse ao seu pai como higal, isto só poderia ser interpretado como uma indicação de aprovação divina, uma vez que os sumérios acreditavam que os deuses podiam retirar as bênçãos e os privilégios da realeza a qualquer tempo.

A medida que a sociedade adquiria uma natureza mais complexa, a organi¬zação das comunidades do templo também tendia a expandir-se. Um sacerdote executivo, conhecido como ensi era responsável por organizar e integrar o traba¬lho da comunidade, e por isso seu local de trabalho estava situado no templo prin-cipal da cidade, Ele delegava alguns de seus poderes a outros membros da classe sacerdotal, e quando a guerra os ameaçava, tornava-se a autoridade responsável pela disposição das unidades militares e a mobilização do povo. Tal posição estava aberta a considerável abuso, pois quando o bem-estar da comunidade estivesse subordinado à ambição pessoal, como acontecia ocasionalmente, a fraqueza de todo o sistema se tornava aparente.

O acúmulo de riqueza por indivíduos não era impossibilitado pelo socialismo teocrático do início do período dinástico. Uma vez que a cota especificada de bens tivesse sido entregue ao templo, o indivíduo tinha liberdade de dispor de qualquer excedente conforme julgasse adequado. Alguns se aproveitavam da maneira como o ensi organizava o fluxo de bens que entravam e saíam do país, para adquirir uma vasta variedade de bens importados, muitos dos quais vinham do vale iraniano. Restos destes bens importados foram encontrados em Ur, Susa e Mari, incluindo selos da variedade hindu e vasos de pedra do tipo que resultou das culturas Kulli no oeste da índja, na Idade do Bronze, Em sua maioria, no entanto, as importações consistiam das matérias-primas das quais os artesãos sumérios manufaturavam artigos destinados à exportação assim como ao mercado doméstico. A delicadeza e a beleza de alguns destes artigos é evidente, com base em escavações nos cemité¬rios em Ur e Quis, que possibilitaram eloquente testemunho do domínio que os sumérios exerciam sobre todas as outras culturas.

Já perto do final do período Jemdet Nasr, estabeleceu-se o cargo de iugai pelo desenvolvimento de uma sucessão real, ou dinastia. Segundo as tradições religio-sas de épocas mais recentes, a realeza “desceu do céu” e estabeleceu-se em Eridu, O prisma de Weld-Blundell, cujo conteúdo foi divulgado em 1923 pelo professor Langdon, preservava um texto quase completo de uma antiga lista de reis sumé¬rios, que parece ter sido escrita durante a próspera Terceira Dinastia de Ur, A lista fornecia os nomes de oito reis, em ordem cronológica, e lhes atribuía reinados de duração exageradamente longa, nas cidades de Eridu, Radribira, Larak, Sippar e Surupak; Berosso, um sacerdote de Marduque na Babilônia, no século III a.C, aumentou a lista de reis para dez, e aumentou para mais do que o dobro a soma de seus reinados individuais. E possível que a mesma tradição fundamente os dez reis antediluvianos de Berosso e os dez patriarcas que existiram, a partir de Adão, até a época de Noé, mas é difícil dizer até onde existe uma conexão genuína entre eles. 

A Tradição Suméria a Respeito do Dilúvio

Esta antiga realeza chegou a um abrupto fim, por uma enchente devastadora que aparentemente inundou Surupak e as cidades vizinhas, inclusive Quis. O fato de que o dilúvio fizesse parte importante da antiga tradição suméria é evidente com base na declaração que vem em seguida à lista dos monarcas antediluvianos, e que dizia que “depois que veio o dilúvio, a realeza desceu do alto”, e foi restabele¬cida em Quis. A crise que este dilúvio ocasionou encontrou expressão em inúme¬ras outras formas literárias, e tornou-se uma parte popular da tradição religiosa suméria. Algumas versões até mesmo mencionavam Surupak como a própria ci¬dade sobre a qual veio o dilúvio, e um fragmento de tábua suméria, encontrado em Nipur, praticamente no meio do caminho entre Quis e Surupak, e datado do terceiro milênio a.C., descrevia o cenário do evento.

Depois de terem criado animais e homens, e terem estabelecido as cinco ci¬dades antediluvianas, aparentemente os deuses se arrependeram de seus atos. A terceira coluna da tábua, então, apresentava a ideia de um dilúvio que engoliria a humanidade. O piedoso rei-sacerdote Ziusudra, o equivalente sumério a Noé, foi avisado do plano por Enki, a poderosa divindade da água:

Ziusudra, em pé... ouviu (uma voz)...

‘‘Eu vou lhe dizer uma coisa...

Pela nossa mão, um dilúvio (...) será (enviado);

Para destruir a semente da humanidade...

Esta é a decisão, a palavra da assembléia. 

A quinta coluna descrevia a terrível tempestade que surgiu depois que Ziusu-dra tinha construído um grande barco:

Todas as tempestades de ventos, extremamente poderosas, atacaram de

uma só vez...

Depois, durante sete dias e sete noites,

O dilúvio tinha devastado a terra,

E o gigantesco barco tinha se agitado sobre as grandes águas,

Apareceu Utu, que ilumina o céu e a terra.

Ziusudra abriu uma janela do grande barco...

Diante de Utu, prostrou-se

O rei mata um boi, mata um carneiro. 

Depois da tempestade, o piedoso rei recebeu a bênção da imortalidade, e foi transferido para o monte de Dilmun, uma residência paradisíaca que agora é iden-tificada com a ilha de Barein, no Golfo Pérsico.

O Dilúvio assim celebrado na tradição religiosa deve ter sido consideravel-mente mais devastador do que a maioria das inundações que eram constantes na antiguidade no vale do Tigre e Eufrates. Descobriu-se que a última fase de Jem-det Nasr em Surupak continha um depósito aluvial que indicava que, certa vez, uma enchente de considerável magnitude varreu a área. Uma camada similar de cerca de dezoito polegadas de profundidade (quase 46 centímetros), pouco acima das camadas Jemdet Nasr em Quis, marcou o depósito deixado por uma enchen¬te posterior. Este estrato aluvial foi descoberto por Langdon, que o interpretou como sendo o depósito do Dilúvio Bíblico, enquanto que uma conclusão similar foi obtida por Woollev, que encontrou um estrato de dois metros e quarenta cen¬tímetros de argila aluvial limpa quando escavava os níveis intermediários de al Ubaid em Ur. 

Estudiosos de escolas de pensamento muito diferentes agora reconhecem que a identificação destes depósitos de enchente com o Dilúvio de Noé do livro de Gênesis é tanto equivocada quanto improvável. Em primeiro lugar, os níveis aluviais em Ur e Quis não são contemporâneos, um fato que Woolley reconheceu quan¬do apresentou o primeiro como sendo o verdadeiro depósito do Dilúvio. Quando Quis foi posteriormente escavada por Watelin, descobriu-se que havia diversas ca¬madas de lama, e delas, duas importantes camadas eram separadas por uma ou¬tra de quase seis metros de ruínas. Além disto, Woolley não conseguiu encontrar nenhuma camada formada por água quando escavou Tell el-Obeid, que fica há so¬mente seis quilômetros e meio de Ur. Descobertas de depósitos aluviais nos Locais de Quis, llruk, Surupak e Lagash mostram que nenhum deles é contemporâneo ao estrato da enchente em Ur. 

Uma indicação de que a história do Dilúvio já era conhecida em Quis foi for¬necida pela descoberta de impressões cilíndricas de Gilgamesh, o lendário herói da literatura épica da Babilônia, em níveis inferiores àquele que Langdon afirmava ser idêntico ao do Dilúvio do livro de Gênesis. Provavelmente a explicação mais satisfatória desta situação é o fato de que Ur, Quis e outras cidades sofriam inun¬dações periódicas de diversas intensidades sempre que os cursos dos rios no delta eram alterados por causa de obstruções de lama e por causa de enchentes. Watelin considerou que chuvas torrenciais fossem a causa da inundação em Quis, em vez de uma onda descomunal, enquanto Parrot julgou que, para a produção de gran¬des depósitos de lama, as enchentes foram um fator importante, combinadas com a característica violência das tempestades na Mesopotâmia.

Seguindo o catastrófico dilúvio que atingiu a Suméria, a realeza foi retomada com a Primeira Dinastia de Quis, de acordo com a lista de reis, e teve continuidade em outras dinastias, algumas delas provavelmente contemporâneas, nas cidades de Uruk, Ur, Mari e outros lugares. O lendário rei pastor Etana foi um dos primei¬ros governantes de Quis, e a história de sua subida ao céu à procura da '‘planta do nascimento’' foi preservada na mitologia suméria,2’

O Governo Dinástico em Ur

Os primeiros estágios do crescimento da realeza neste importante centro cul-tural sumério culminaram na Primeira Dinastia de Ur, durante a qual reinaram quatro reis, por um período de cento e setenta e sete anos, de acordo com a lis¬ta de reis. Uma pequena tábua de calcário desenterrada por Woolley em Tell el- Obeid e datada de 2700 a.C. provou ser contemporânea da Primeira Dinastia de Ur. Nela está escrito, “A-Anne-pad-da, rei de Ur, filho de Mes-Anne-pad-da, rei de Ur, construiu isto para sua Senhora, Nin-kharsag", o que imediatamente confirmou a afirmação da lista de reis sumérios de que Mes-Anne-pad-da foi o fundador da Primeira Dinastia. 

O templo, em cujas fundações foi encontrada a tábua, tinha estado por muito tempo em ruínas, mas apresentou evidências impressionantes do nível elevado que a cultura tinha alcançado na Primeira Dinastia de Ur. Fragmentos de touros de cobre foram desenterrados juntamente com colunas decoradas e frisos em mosaicos retratando a vida rural. Uma indicação ainda mais impressionante do esplendor deste período resultou da escavação de um cemitério em Ur, que no seu nível inferior continha o que parecia ser as sepulturas de figuras da realeza. As sepulturas eram construídas com blocos de calcário, que provavelmente ti¬nham sido trazidos do deserto há cerca de quarenta e oito quilômetros de dis-tância. Quando a terra superficial tinha sido removida, viu-se que as sepulturas continham duas câmaras abobadadas com pedra. Embora alguns destes sepulcros tivessem sido saqueados, um deles, que tinha permanecido incólume, continha os restos de uma mulher identificada como rainha Shub-ad. Ela tinha sido sepultada com vestes cerimoniais, que incluíam uma coberta para a cabeça com ornamentos em ouro e lápis-lazúli. Perto de seu ataúde foram encontrados alguns vasos de ouro decorados com caneluras e outras ornamentações.

Debaixo da sepultura de Shub-al está a de A-bar-gi, identificado a partir de um selo cilíndrico encontrado em sua câmara mortuária. Woolley julgou que A-bar-gi fosse esposo da rainha Shu-ad, e a descoberta posterior de uma grande cova funerária adjacente à sepultura indicou que os dois personagens eram de uma importância incomum. A escavação da cova revelou que mais de sessenta pessoas tinham sido sepultadas com A-bar-gi, enquanto a rainha Shub-ad tinha um grupo mais modesto de acompanhantes — de cerca de vinte e cinco pessoas. Com base na aparência dos restos, ficou evidente que os acompanhantes tinham ido voluntariamente ao encontro da morte, pois não se observaram sinais espe¬ciais de violência nos esqueletos. Eles pareciam ter se vestido cerimonialmente para a ocasião, e ter sido acompanhados na morte por uma procissão de bois e carros. Os corpos estavam dispostos de maneira ordenada, trajando roupas e jóias bem arrumadas. Woolley concluiu que o amargo ritual de sacrifício deve ter tido considerável esplendor e pompa, e sido restrito à honra dos personagens mortos da realeza. 

Uma grande quantidade de artefatos interessantes foi recuperada da se-pultura, incluindo uma magnífica harpa, intrincadamente decorada com tra¬balhos de mosaico, uma grande variedade de recipientes em metal e pedra, ornamentos de ouro e prata com desenhos complicados, e alguns artigos com incrustação de lápis-lazúli, obsidiana, e outras pedras semi-preciosas. O pa¬drão do artesanato alcançado na execução dos artigos em prata e ouro é tão avançado como qualquer outro que o mundo tenha conhecido como exem¬plifica bem o maravilhoso talento artístico exibido no famoso capacete dou¬rado de Ur. Este espécime magnífico de arte em metal foi recuperado de um sepulcro cujo ocupante, segundo as inscrições, era “Mes-kalam-dug, Herói da Boa Terra”. Ele foi confeccionado em ouro batido e moldado na forma de uma peruca, com as mechas separadas de cabelo simetricamente em relevo, enquanto que os fios eram representados individualmente por meio de linhas gravadas com precisão. 




Habilidosa restauração de painel em mosaico encontrado em um sepulcro real em Ur forneceu novos exemplos do gosto e do talento artístico dos sumérios, enquanto, ao mesmo tempo, retratou a natureza dos equipamentos militares nas dinastias mais antigas. O painel é o “Estandarte” de Ur, assim chamado porque provavelmente era le¬vado como bandeira nas procissões. Dois painéis principais retratam os temas de Guerra e Paz, por meio de três fileiras de figuras em conchas com lápis-lazúli. A fileira inferior do lado que representava a guerra continha diversos carros de quatro rodas, cada um deles puxado por quatro jumentos, e conduzindo o cocheiro e um guerreiro, ambos armados com lanças leves. O painel do meio retratando a infantaria completamente armada e ordenada mostrava soldados usando pesadas túnicas e capas. Eles levavam machados nas maos, e nas cabeças, capacetes de cobre. Precedendo-os, iam soldados da infantaria com armas leves, levando cimitarras, adagas, machados e lanças curtas.

O painel superior mostrava um personagem real em pé, diante do seu carro, para receber os prisioneiros, enquanto o outro lado do Estandarte usava a cena de um suntuoso banquete real para ilustrar o tema da Paz. O painel restaurado indica que o elevado grau de inteligência que possuíam os sumérios era aplicado a inte¬resses militares, tanto quanto a culturais, e esta era, provavelmente, a razão pela qual os sumérios foram capazes de sobreviver por tanto tempo como uma torça militar. O seu uso de carros nas guerras estabeleceu o padrão para outras nações, enquanto a existência de infantaria indica um considerável grau de conhecimento e habilidade táticos. Nos sepulcros sumérios foram encontrados muitos tipos de pontas de flechas de pedra, levando os estudiosos à suposição de que agrupamen¬tos de arqueiros faziam parte da força militar do início do período dinástico.

Uma das cidades-estado que travou guerra com Ur nesta época foi Lagash {Tello), que se localizava a aproximadamente oitenta quilômetros ao norte. Seu governante, Eannatum. lutou contra Quis, Man, Ur, Umma e Uruk, e retratou suas vitórias em monumentos de pedra. Mas quando Lugalzaggesi tornou-se go¬vernador de Umma, recuperou a honra da cidade, derrotando Urukagina, rei de Lagash, e mais tarde estendeu suas conquistas a Uruk e Ur. A lista de reis registra que o seu reinado formou a terceira Dinastia de Uruk, e ele foi sem dúvida uma das figuras mais proeminentes da história suméria.




A Ascensão de Acade (ou Akkad)




Aproximadamente nesta época, o poder sumério começou a ser desafiado pe¬los habitantes semitas da região norte da planície de Sinar. Durante a metade do quarto milênio a,C., a região norte da planície tinha se tornado a terra de um grupo de tribos semitas semi-nômades, que consolidaram sua posição durante a primeira metade do terceiro milênio, e estabeleceram comércio com a Suméria. Os membros destas tribos eram distinguidos pela sua linguagem, que pertencia ao ramo oriental da grande família linguística dos semitas. E embora não repre¬sentassem uma ameaça militar pronunciada à Suméria antes do final do terceiro milênio, vinham gradualmente crescendo em poder, e alguns nomes semitas já tinham encontrado a sua porta de entrada na lista de reis sumérios. No século XXIV a.C., eles se tornaram mais notórios sob uma dinastia de governadores se¬mitas, iniciada por Sargão. Ele foi um homem de origem humilde, provavelmente um filho ilegítimo, e, assim como Moisés quando bebê, colocado em um cesto de juncos e posto para boiar no Eufrates, mas foi resgatado e, de acordo com a lenda suméria, foi criado por "Akki o irrigador”

Sargão estabeleceu a cidade de Agade, que na forma Acade deu seu nome ao território ao seu redor, e aos seus habitantes, que ficaram conhecidos como acadianos. Sargão organizou cuidadosamente suas forças, e por volta do ano 2355 a,C., que é o início do antigo período Acadiano, derrotou o poderoso Lugalzaggesi da Suméria e ocupou esta região. Sua filha foi nomeada sacerdotisa principal de Nan-na, o deus da lua, que era a divindade patrona de Ur, ao passo que ele mesmo dedicou-se a transformar o território recentemente adquirido em um campo semita. Este propósito foi perseguido com tal sucesso que o seu império babilónico acabou se estendendo de Ela, no leste, até a Síria e a costa do Mediterrâneo, ultrapassando, e muito, suas expectativas originais.

Os acadianos rapidamente apreciaram o valor e as realizações da cultura sumé-ria, embora instituíssem uma grande modificação, substituindo a língua nativa pelo seu próprio dialeto semita, fazendo, desta forma, do sumério uma língua clássica. A sua consolidação dos reinos de Acade e Sumer uniu a totalidade do território situado entre os dois rios, tornando possível a ascensão de uma cultura acadiana dissemina¬da, que tinha como base a rica herança do período sumério clássico.

Os acadianos aplicaram as suas novas aquisições culturais a todos os departa-mentos da vida social com considerável entusiasmo, de modo que os negócios e a cultura floresceram, de igual maneira, no antigo período acadiano. Escavações do lugar da antiga Gasur testemunharam a prosperidade desta época, e as tábuas que foram recuperadas incluem contas mercantis e registros de transações comerciais. Com Naram-Sin, “o Poderoso, Deus de Agade, Rei dos Quatro Quadrantes”, houve um importante desenvolvimento de tendências artísticas anteriores, que resulta¬ram em um alto nível de habilidade e que foi preservado, em parte, no Museu da Vitória de Naram-Sin. 

O que é particularmente importante no desenvolvimento da cultura acadiana, no entanto, é a maneira como adotou os conceitos religiosos sumérios e os usaram como a base das suas próprias crenças e práticas religiosas. É difícil supe¬restimar a importância que se dava, na antiga Mesopotâmia, ao lugar que os deu¬ses ocupavam no universo. A tradição suméria tinha lhes concedido supremacia desde os meados do quarto milênio a.C., e no terceiro milênio os deuses tinham sido organizados em um panteão, sob Ami, o deus do céu, e En-lil, a divindade das tempestades. Este conclave celestial tinha completo controle sobre o cosmos, e considerava o homem como uma criatura particularmente insignificante, o que resultou praticamente em uma reflexão tardia sobre a criatividade Divina, Consequentemente, o homem era um servo, de quem se exigia invariável e inquestioná¬vel obediência enquanto servia à vontade dos seres celestiais. 

No terceiro milênio a.C. já existia uma extensa mitologia em cidades como Nippur, o centro de cultos de En-lil, e Surupak. Esta coletânea de tradição religiosa espalhou-se rapidamente por toda a antiga Babilônia, e o número comparativamen¬te pequeno de cidades-estado que floresciam naquela terra apertada no terceiro mi¬lênio, tornou a transmissão das ideologias religiosas uma questão de pouca dificul¬dade. A mente dos mesopotâmios parecia estar satisfeita com as antigas explicações sumérias das divindades e suas atividades, embora a força numérica dos deuses às vezes aumentasse e a sua adoração fosse modificada, segundo as tradições locais.

O conservadorismo religioso destes povos se reflete no fato de que as divinda¬des catalogadas nas tábuas do segundo milênio, recuperadas de Lagash e Surupak, foram consideradas canônicas até o fim da história da Babilônia, Na realidade, uma das mais significativas características da religião na Babilônia semita é a sua quase completa dependência da tradição suméria anterior e a sua perpetuação da¬quela tradição por séculos sucessivos. Da mesma forma, as composições literárias dos acadianos seguiram muito de perto os mitos litúrgicos da Suméria, embora a genialidade nativa dos escribas acadianos fosse tal que as epopeias acabadas prova¬ram ser vastamente superiores em seu conteúdo e sua forma dramática.

O Renascimento em Ur

O império semita que Natam-Sín tinha estabelecido foi invadido, na época de seu filho, por uma raça conhecida como gutianos, que vieram da região dos Cáucasos. Eles foram a força dominante em Acade e Sumer por aproximadamente um século (2180-2070 a.C.) e o seu declínio coincidiu com o governo de Gudéia, em Lagash. Este homem era um rasi, ou governador, piedoso e bondoso, que teve uma visão que lhe ordenou restaurar o templo de Eninnu, fundado durante o final do período Jemdet Nasr. Foi este tipo de atividade, por parte dele, que preparou o caminho para um dramático renascimento da cultura suméria durante a esplên¬dida terceira Dinastia de Ur (2070-1960 a.C.). Lh-Nammu, “Rei de Sumer e Acade", foi o primeiro governante desta dinastia, e seguiu a tendência que Gudéia tinha estabelecido, erigindo o sólido zigurate em Ur.

Woolley escavou este local em 1923, e encontrou uma grande quantidade de tijolos que traziam o selo e o nome de Ur-Nammu. O projeto do zigurate empregava curvas para transmitir a ideia de delicadeza combinada com resistência, enquanto a declividade do lance triplo de escadas em relação ao ângulo das paredes ajudava a chamar a atenção ao patamar superior, onde o santuário da divindade patrona da lua, Nanna, proporcionava uma coroa adequada a toda a construção. As redon¬dezas do templo eram consideradas solo sagrado, e era aqui que grande parte dos negócios da cidade era realizada. Os bens e a produção eram guardados nos arma¬zéns do templo, que também continham oficinas para a manufatura de objetos de madeira e para a fundição de metais. 

Uma stela de calcário, de um metro e meio de lado e aproximadamente três metros de altura, comemorando os acontecimentos do reino de Ur-Nammu, foi encontrado nas ruínas de Ur. Embora tenham sobrevivido somente fragmentos dele, está claro que o stefa retratava o progresso alcançado durante esta dinastia, em assuntos como irrigação e empreendimentos agrícolas. Diversos painéis da tá¬bua retratavam vários estágios da construção do zigurute, desde a época em que Ur-Nammu recebeu a ordem para erigir o templo. O próprio rei foi retratado como um operário, carregando bússolas, uma colher de pedreiro e uma picareta. 

E provável que os toques finais tenham sido colocados no zigutate por Shulgi, o filho e sucessor de Ur-Nammu, que reinou por cinquenta e oito anos. Ele conso¬lidou o império que tinha herdado e incentivou a renascença cultural e naciona¬lista da Terceira Dinastia, Fundou e restaurou muitos templos em Sumer e Acade, conferindo atenção particular à antiga cidade suméria de Eridu. Tábuas que foram recuperadas de Lagash demonstraram sua capacidade e cuidadosa organização política. Toda a administração estava centralizada em Ur, e os governantes locais, ou enisís das províncias, recebiam suas incumbências do rei. Era parte de sua função enviar relatórios regulares de informações à capital, fosse por meio de emissários, ou pessoalmente, um procedimento que reduzia a possibilidade de atividade mi¬litar independente por parte dos ensis. Cada governante era responsável por arre¬cadarem impostos e despachar tributos à autoridade central, e um dos resultados dessa prática foi o estabelecimento de um sistema uniforme de pesos e medidas em todo o império. A. Terceira Dinastia de Ur foi um período de grande prosperi¬dade, como mostraram as tábuas contemporâneas, e não é provável que os níveis de comércio, negócios, agricultura e atividade doméstica em geral tenham sido excedidos nos dias que se seguiram.




O Declínio da Suméria

Os últimos anos do reinado de Shulgi testemunharam o primeiro indício de uma Babilônia semita revivida, o que tornou necessário que ele dedicasse conside-rável tempo e esforço para esmagar as revoltas que eclodiam periodicamente nos estados beligerantes que ficavam a leste do Tigre.

Sob Amar-Sin, sucessor de Shulgi, o império sumério começou a sentir a ame-aça de uma invasão dos amorreus do norte e do leste. Os amorreus viveram na Pa-lestina e na Síria durante o terceiro milênio a.C., mas por algum tempo vinham dirigindo-se para o leste, em direção ao Crescente Fértil juntamente com outros semitas do oeste. Durante o reinado de Shulgi, consolidaram a sua posse na terra ao norte do império babilônio, e ali ocuparam determinadas cidades antigas, entre as quais Mari, a futura capital dos amorreus. Shu-Sin, que subiu ao poder depois que Amar-Sin tinha reinado por nove anos, foi incapaz de restaurar o controle militar sobre as províncias distantes, e, nos dias do seu sucessor, Ibbi-Sin, a ameaça ao poder sumério tornou-se uma realidade com as invasões elamitas (1960 a.C.) das colinas em direção ao leste. Ao mesmo tempo, enquanto os elamitas saqueavam Sumer, o capitão amorreu de Mari, Ishbi-Irra, rebelou-se contra Ibbi-Sin, ocupou Acade e levou Ibbi-Sin acorrentado a Anshan. Uma tábua de Nippur preservou a narrativa da destruição ocorrida:

Eles exilaram a sagrada dinastia do templo.

Demoliram a cidade, demoliram o templo,

Apoderaram-se do governo da terra.., 

Tão completa foi a devastação que o domínio político e cultural da Sumé¬ria sofreu um golpe mortal, deixando o império de Acade e Sumer, antigamente unido, aos desígnios de oportunistas militares. Isto resultou em uma reversão à ideia da antiga cidade-estado independente vivendo em precária coexistência com seus vizinhos. Desta maneira, o período que se seguiu às invasões dos amorreus e elamitas foi um tempo de contínuo estado de guerra entre as mais poderosas comunidades, tais como Quis, Ereque, Babilônia, Larsa, Isin e Lagash, Entre elas, Isin, larsa e Babilônia tornaram-se os Estados dominantes, e a conquista de Isin pelo elamita Rim-Sin de Larsa resultou na existência de dois únicos pretendentes à liderança no sul da Mesopotamia.

Os reis de Larsa começaram a consolidar a sua posição na Suméria, e algu¬mas das cidades mais antigas foram extremamente fortificadas contra ataques. A dinastia Larsa, em um esforço para promover o apoio moral dos povos conquista¬dos, também fez reviver a religião suméria, e é um fato curioso que, durante este período, tenham emergido as maiores obras literárias e históricas que os sumérios produziram. O panteão oficial estava firmemente estabelecido, e as várias lendas que tratavam das atividades dos deuses foram colocadas por escrito, e assumiram a sua forma final. Listas de reis foram compiladas, textos litúrgicos editados e con¬feridos, e procedimentos mágico-médicos tabelados para gerações futuras. Esta grande explosão na atividade literária e religiosa preservou a riqueza acumulada da cultura suméria e foi providencial, pois, assim que foi concluída, o desastre assolou o reino de Sumer, uma vez mais.


O Período de Hamurabi

Enquanto os recursos do sul tinham sido progressivamente esgotados pelas guerras internas, as fortunas da Babilônia estavam em ascensão. A Primeira Di¬nastia da Babilônia, fundada por Sumu-abum, produziu uma sequência de go¬vernantes que estenderam a jurisdição territorial da sua capital Bab-ilu (Porta de Deus), como era chamada originalmente, e se aliaram com as cidades-estado vizinhas contra a ameaça da dominação elamita. A influência da Babilónia foi re¬vertida temporariamente, quando sua aliada Isin foi conquistada por Rim-Sin; mas houve uma mudança dramática quando o notável soldado e administrador Hamurabi, último grande rei da Primeira Dinastia, ascendeu ao trono.

Hamurabi comandou suas forças contra a dinastia Larsa, e seis anos depois da queda de Isin, defendeu Rim-Sin e seus aliados, desta maneira reconquistando Isin e Ereque. Os vinte anos seguintes foram passados reorganizando e fortale¬cendo suas possessões, e depois disto, ele desferiu um golpe devastador contra o idoso Rim-Sin, que resultou no fim do poder elamita na Suméria. Hamurabi fez de Larsa a sua sede administrativa no sul, e deu início à unificação de seu império, apesar do perigo de ataques da poderosa fortaleza dos amorreus em Mari, ao nor¬te. Após trinta e um anos no trono, Hamurabi finalmente removeu esta ameaça à segurança imperial da Babilônia, e estabeleceu a plena glória do Antigo Período Babilónio, que durou até a metade do século XVI a.C.

Comparativamente, tal como era nos dias de Hamurabi (1792-1750 a.C.), pou¬ca coisa da cidade da Babilônia sobreviveu, devido ao fato de que a reconstrução ocorrida no século VI a.C. destruiu a maioria dos edifícios que eram contempo¬râneos do último grande rei da Primeira Dinastia. Os poucos que sobreviveram, no entanto, mostram um genuíno esforço de planejamento urbano durante o seu reinado, com as propriedades arranjadas em seções, e as ruas interceptando-se em ângulos retos. Isto, para a época, representou um progresso considerável so¬bre as condições anteriores, entretanto, o lugar retornou aos tempos pré-semitas, quando a cidade se desenvolvia, em volta de um santuário religioso, repetindo assim a maneira aleatória que tinha caracterizado a maioria das antigas cidades na planície de Sinar.

Inúmeros textos diplomáticos encontrados em Mari por André Parrot, que escavou o lugar a partir de 1938, foram comprovados como sendo a correspondên¬cia entre Hamurabi e os embaixadores de Zimri-Lim, o último rei de Mari. Estes governantes tinham sido aliados por inúmeros anos, e gozavam de um relaciona¬mento amigável, como indica o trecho seguinte, extraído de uma carta escrita por Ibal-pi—El. embaixador de Zimri-Lim a Hamurabi:

Quando Hamurabi está ocupado com alguma coisa, ele me escreve e eu vou ter com ele, onde quer que esteja. Qualquer que seja o assunto, ele o conta para mim.

No entanto, Hamurabi também havia tido bom relacionamento com outro governante, cujo poder iria destruir posteriormente. Aquilo que é, provavelmen¬te, um relatório secreto para Zimri-Lim, continha um relato de uma carta enviada por Hamurabi a Rim-Sin, de Larsa, na qual Hamurabi dizia, “Você não sabe que é a pessoa que eu amo'” Evidentemente, era costume de Hamurabi lidar com reis vizinhos em termos íntimos, até que estivesse em posição de destrui-los rapida¬mente, Mas quaisquer que fossem os meios pelos quais ele obtinha o poder, não se pode negar que era vastamente superior a seus contemporâneos, tanto em perspi¬cácia política quanto em estratégia militar. Nestes aspectos, o seu único rival sério era Shamshi-Adad I (1813-1781 a.C.). o governante amorreu da Assíria.

O Código de Hamurabi

Quase imediatamente, o seu império começou a sentir os benefícios do seu claro modo de pensar e da sua administração com visão de futuro, Hamurabi ti¬nha um sério interesse pelo bem-estar do seu povo, e uma de suas primeiras ta¬refas foi estabelecer um código de leis escrito, que seria uniforme para todo o seu reino. O movimento a favor de um código legal tinha ficado aparente nos dias de Ur-Nammu e Shulgi, mas naquela época a lei civil era, por natureza, estabe¬lecida de maneira oral, e abrangia as decisões transmitidas em casos particulares que tinham comparecido perante os tribunais. Hamurabi coletou, classificou, e modificou estas decisões sumérias anteriores, e estendeu o seu escopo para que abrangesse praticamente todos os aspectos da vida civil, social, moral e profissio¬nal. Embora sem dúvida ele incorporasse outros códigos de lei, do Antigo Perío¬do Babilônio (1830-1550 a.C), como os de Eshnunna e Lipit-Ishtar, sua legislação continua sendo um monumento de jurisprudência da antiguidade. Uma cópia deste código foi encontrada em 1901 por ]. de Morgan, em Susa, para onde havia sido levada, aparentemente como um troféu de batalha, por guerreiros elamitas. Era uma stela imponente de diorito negro, com aproximadamente um metro e oitenta centímetros de altura. Um baixo-relevo de Hamurabi em pé, diante do deus do sol, Shamash, patrono da justiça, encabeçava as cinquenta e uma colunas de texto cueniforme, escrito em babilônio semita. Um prólogo declarava que os deuses tinham comissionado Hamurabi a “fazer a justiça brilhar na terra, destruir o malfeitor e o ímpio... e iluminar a terra'’, ao passo que um extenso epílogo rea¬firmava o seu desejo de ser conhecido como “um senhor que é um pai para os seus súditos”,

A legislação do código foi agrupada em aproximadamente trezentas seções, das quais muitas refletiam um cenário social altamente complexo. Determina¬dos tipos de crime, como o sequestro, eram considerados infrações graves e, por isso, puníveis com a morte, ao passo que violações da moralidade eram tratadas também muito severamente. Um casamento, para ser legal, deveria ser registrado, mas ambas as partes tinham direitos iguais na questão do divórcio. Determinadas seções do código estabeleciam os deveres dos oficiais encarregados da arrecadação de impostos, soldados e servos civis, ao passo que outras estipulavam os padrões necessários para uma grande variedade de profissões e ocupações comerciais. O código reconhecia uma divisão da sociedade em três partes, em termos de classe alta, a classe dos artesãos ou operários, e os escravos, embora não houvesse ne¬nhum estigma social relacionado à última classe. A reparação legal do mal ou da ofensa geralmente era feita através de retaliações do mesmo tipo, e foi modificada para acomodar os vários níveis da sociedade.

Existem algumas correspondências estreitas entre o Código de Hamurabi e as leis hebraicas do Pentateuco, o que não é de surpreender, tendo em vista a simi¬laridade da herança cultural e da antecedência racial. Por exemplo, quando um homem cometesse adultério com a esposa de outro homem, o Código de Hamu¬rabi (seção 129) e a lei Mosaica (Lv 20.10 e Dt 22.22) estavam de acordo com que ambos fossem condenados à morte. A lei de retaliação, ou lex talionis no Código de Hamurabi era exatamente igual à que há no Pentateuco (Ex 21.23 e versículos seguintes, e Dt 19.21). Por outro lado, há diferenças importantes. A lei hebraica permitia que um homem se divorciasse da sua esposa (Dt 24,1), mas não concor¬dava com o código da Babilônia (seção 142) que permitia que a esposa tivesse o mesmo privilégio. O Código de Hamurabi é claramente deficiente de pensamento espiritual, e, de modo geral, atribuía à vida humana um valor menor do que a legislação Mosaica.

Os códigos legais não foram o único resultado deste produtivo período da cul¬tura babilônia semita, A estabilidade e a prosperidade que tinham tido lugar em Acade e Sumer, com a consolidação do império, sob Hamurabi, propiciou incen¬tivo para que as classes sacerdotais se dedicassem a empreendimentos literários e educacionais. A língua suméria tinha sido substituída, anteriormente, pelo idioma acadiano, mas muitas palavras sumérias ainda eram usadas, tornando necessário que se compilassem glossários, listas de palavras e dicionários. Os dois séculos que se seguiram à época de Hamurabi presenciaram notáveis progressos no campo da ciência. Textos matemáticos que foram recuperados deste período mostram que os babilônios estavam familiarizados com uma grande variedade de problemas aritméticos, e algumas das suas técnicas prediziam procedimentos muito posteriores. Aquilo que se conhece como Tábuas de Vênus, de Ammizaduga revelou o interesse que eles tinham nas posições e nos movimentos das estrelas. Seguindo o costume sumério, deram nomes às várias constelações e aos vários planetas, e as listas que compilaram permaneceram como um padrão durante toda a história da Babilônia.

Epopéias Religiosas da Babilônia

Hamurabi estava ansioso para estimular a adoração da divindade patrona da Babilônia em todo o império, e com este objetivo introduziu modificações nas tradições religiosas anteriores de Acade, para dar maior importância a Marduque, que foi tornado o herói de uma grande epopéia da criação. Esta obra, algumas ve¬zes chamada de Enuma elish, por causa das suas palavras iniciais, foi encontrada pela primeira vez na forma de sete tábuas em Nínive, na biblioteca destruída de Assur- banipal (669-627 a.C). Outros fragmentos da obra foram encontrados posterior¬mente em Uruk, Quis e Ashur. Embora as tábuas existentes sejam, obviamente, cópias das anteriores, a presente forma da epopéia remonta à época de Hamurabi e, como se poderia esperar é fundamentada por originais sumérios ainda mais antigos.

A história da criação começava com duas personalidades míticas, Apsu, os reservatórios subterrâneos de água doce, e Tiamat, o oceano de água salgada:

Quando os céus acima ainda não tinham recebido nome (E) abaixo a terra (ainda) não tinha recebido um nome (Quando) Apsu primitivo, seu criador Mummu, (e) Tiamat, ela deu à luz a todos eles,

(ainda) misturavam suas águas

E nenhum pasto tinha sido formado (e) nem (mesmo) um pântano de juncos podia ser visto...

(Nesta época) os deuses foram criados com eles...'*

Tiamat, que é mencionada como sendo mulher, e Apsu, foram pais das divin-dades, mas quando a sua descendência tempestuosa ameaçou ficar incontrolável, Apsu decidiu destruí-la. Ea, a divindade da água, matou Apsu, gerando, depois disto, o herói Marduque, a divindade patrona da cidade da Babilônia, Tiamat criou forças poderosas e demoníacas para combater a ameaça representada pela apari¬ção de Marduque, que estava defendendo a causa das divindades remanescentes. Na batalha que se seguiu,

Quando Tiamat abriu sua boca para devorá-lo Ele trouxe o vento mau, para que (ela) não (pudesse) fechar seus lábios...

Ele atirou uma flecha e rasgou o interior de Tiamat;

A flecha cortou suas entranhas, dividiu (seu) coração,-.

Ele jogou no chão o seu cadáver (e) ficou em pé sobre ele... 

Depois de aprisionar os aliados de Tiamat, Marduque idealizou a terra como uma abóbada que cobrisse Apsu, e designou a Ami, En-lil e Ea seus lugares no cosmo. A quinta tábua da epopéia, da qual restaram somente fragmentos, relatava como Marduque organizou os corpos celestiais para que marcassem os dias e os meses:

Ele ordenou que a lua brilhasse; a noite ele confiou (a ela).

Ele lhe ordenou.„ que tornasse conhecidos os dias.

Que todos os meses, sem cessar, saísse com uma tiara... 

Uma vez que os antigos babilônios calculavam seus anos em termos de fases da lua, a função da lua, como reguladora das épocas e estações era obviamente importante.

A sexta tábua narrava a criação da humanidade, que surgiu, de acordo com a Epopéia, do sangue derramado de um filho e aliado de Tiamat. O homem foi considerado inferior às divindades desde o início, embora reivindicasse alguma coisa em comum com a natureza dos seres celestes. A Epopéia era concluída com uma narrativa da maneira como Marduque tornou-se o líder do panteão divino e exigiu cinquenta títulos representativos de atributos divinos,

Esta epopéia, nas diferentes formas em que circulou pela antiguidade, apre¬senta pontos óbvios de contato com a narrativa da criação registrada no livro de Gênesis. Nos dois relatos, o caos deu lugar a um conjunto organizado de céu e terra, e a ordem dos eventos na criação seguiu um padrão similar nas duas nar¬rativas. Mas como acontece com muita frequência quando se comparam relatos bíblicos e não-bíblicos do mesmo evento, as diferenças entre os dois são ainda mais importantes do que as semelhanças, o que torna a narrativa bíblica vas¬tamente superior à versão semita babilônia. Uma obra literária ainda mais co¬nhecida da Primeira Dinastia Babilônia foi a Epopéia de Gilgamesh,'1' preservada em tábuas que também foram recuperadas da biblioteca de Assurbanipal. Da mesma maneira que Eimma dish, a Epopéia de Gilgamesh se baseia em antigos ci¬clos e tradições mitológicas sumérios, mas como obra literária é muito superior a seus antecedentes nas coletâneas litúrgicas da Suméria. Gilgamesh foi o len¬dário rei de Uruk no fim do quarto milênio a.C., e o ciclo da Epopéia, dividido em doze livros, descrevia as suas aventuras em companhia de seu amigo Enkidu. Quando este morreu, Gilgamesh cruzou as águas da morte, em uma tentati¬va de encontrar Utnapishtim, que possuía uma planta da vida que iria curar Enkidu. No décimo-primeiro livro, que preserva o relato babilônio do Dilúvio, Utnapishtim disse a Gilgamesh como tinha sido avisado por Ea, a poderosa di¬vindade suméria da água, de um plano que os deuses estavam concebendo de enviar uma enchente devastadora sobre Surupak. Utnapishtim recebeu a ordem de construir uma arca, e pouco tempo depois de concluída a tarefa, veio uma terrível tempestade, que com a sua intensidade assustou até mesmo os deuses que a tinham planejado:

Seis dias e (seis) noites

O vento soprou, o aguaceiro, a tempestade (e) a inundação devastaram a

terra.

Quando chegou o sétimo dia...

O mar se acalmou, a tempestade diminuiu e a inundação cessou.

Eu abri uma janela e a luz iluminou o meu rosto...

No monte Nisir o barco pousou.,.1,1

Uma pomba e uma andorinha que foram enviadas retornaram, por falta de um lugar adequado onde pousar, mas um corvo não voltou. Depois de ter ofereci¬do sacrifício a En-lil, Utnapishtim recebeu o dom da imortalidade.

Este relato do Dilúvio, que tem inúmeras características em comum com a narrativa do Dilúvio do livro de Gênesis, é uma forma mais completamente desenvolvida da tradição que tinha existido na Suméria, em um período anterior. O nome Utnapushtim, ou “dia da vida” é o equivalente, na Babilônia, à forma suméria Ziusudra, e há muitas outras indicações de que esta narrativa tenha se fundamentado em outras fontes litúrgicas sumérias anteriores.


Outras Obras Literárias da Babilônia

O período de Hamurabi assistiu a um grande crescimento da compilação e edição de textos mágico-religiosos. Uma vez que os antigos habitantes da Mesopotâmia se julgavam tão completamente dependentes dos caprichos dos deuses, era, obviamente, uma questão de alguma importância que soubessem como as di¬vindades podiam ser influenciadas para o bem, ou reconciliadas, quando tivessem sido ofendidas. A interpretação de presságios exigia considerável talento por parte dos sacerdotes, resultando no uso de métodos de adivinhação tais como astrologia e hepatoscopia (o exame dos fígados depois da morte) em uma tentativa de prever a tendência de eventos futuros, A prática da medicina era controlada pelo sacer¬dócio, e profissionais adequadamente qualificados eram autorizados a realizar um número surpreendentemente grande de procedimentos médicos e cirúrgicos,

Como a incidência de doenças estava associada principalmente com maus espíritos, duas classes de sacerdotes foram designadas à importante tarefa de pro¬teger os indivíduos das doenças, por meio de encantamentos e mágicas. Como in¬dicam muitas das tábuas médicas da antiga Mesopotâmia que foram descobertas, as fórmulas de exorcismo constituíam uma parte importante do equipamento sacerdotal para expulsar os demônios que causavam as doenças, O que é espe¬cialmente interessante à luz da medicina moderna é o fato de que os médicos do segundo milênio a.C. foram os primeiros a praticar a psicoterapia. No entanto, nem toda atividade médica tinha uma natureza mágica, pois alguns textos médi¬cos apresentam listas de ervas e substâncias terapêuticas cujo valor é tal que lhes garante um lugar na moderna farmacopéia. Mas a terapia empírica era aliada, em geral, a rituais mágicos e encantamentos, para produzir a desejada restauração da saúde. Embora a medicina na Mesopotâmia fosse inferior, como um todo, à sua equivalente do Egito, não pode haver dúvidas de que atendia às necessidades da população a um nível considerável.

O pensamento da Babilônia, durante este período, tendia a centrar-se sobre este mundo atual, uma vez que a especulação teológica não incentivava os ho¬mens a ter esperanças de uma vida em um mundo além do sepulcro, Embora os sepulcros reais em Ur pudessem ser interpretados como uma indicação de alguma crença em uma existência futura, isto não precisa necessariamente ser a correta explicação para os sepultamentos cerimoniais. Na verdade, alguns dos mitos acadianos eram decididamente pessimistas a respeito da questão da imortalidade da raça humana. Coube aos habitantes da Mesopotâmia observar a ordem e a harmo¬nia do universo, e crer que as divindades oniscientes disporiam do valor definitivo da vida para o benefício da humanidade.


Os Horeus

O início do segundo milênio a.C. testemunhou o surgimento de outro grupo étnico muito importante no Crescente Fértil —os horeus —como são chamados no livro de Gênesis, e parecem ser originários das regiões montanhosas localizadas ao nordeste da Mesopotâmia. Depois de cinco séculos, já tinham se espalhado ao lon¬go da Ásia ocidental, e eram encontrados ao lado de assentamentos de amorreus, na Síria e na Palestina. Até recentemente, os horeus eram conhecidos somente pe¬las referências bíblicas, mas descobertas arqueológicas comprovaram que foi um povo poderoso que se tornou mais importante no reinado Mitani (1470-1350 a.C,). No segundo milênio a.C., eles expandiram a cidade de Nuzu que se tornou um centro provincial, e a cultura que estabeleceram ali, como revela a riqueza das tá¬buas de argila, teve importantes elos com o período patriarcal, conforme descrito no livro de Gênesis.

Escavações em Nuzu foram iniciadas em 1925, sob a direção de Edward Chiera, e as tábuas que ali foram encontradas, revelaram terem sido escritas em babilônio, com a inclusão de algumas palavras emprestadas dos horeus. A maior parte destes textos foi atribuída ao século XV a.C., ou seja, algum tempo depois do final do An¬tigo Período Babilónio. Os costumes e as leis que as tábuas continham exibem sur¬preendentes correspondências com os da sociedade patriarcal dos hebreus, e serão considerados de maneira mais abrangente no capítulo seguinte. Como resultado destas descobertas, é possível colocar Abraão e seus sucessores diretos contra o ambiente social do segundo milênio a.C. com total precisão.

Os Habiru

Aproximadamente em 2000 a.C., surgiu um elemento na sociedade da Mesopotâmia conhecido como os Habiru. Não era essencialmente uma raça, pois descendiam de semitas e não semitas, e originalmente, talvez fossem nômades. Segundo as tábuas de Nuzu, frequentemente obtinham segurança econômica deixando-se contratar como escravos fossem para casas ricas ou autoridades do governo. Em outras ocasiões, os habiru aparecem como grupos agressivos e mi¬gratórios, espreitando sobre comunidades desavisadas e fazendo emboscadas a pe¬quenas caravanas que viajassem por caminhos isolados. Alguns deles eram arte¬sãos e músicos, ao passo que outros gradualmente abandonaram sua vida nômade e se instalaram em centros urbanos.

Os textos cuneiformes também mencionam este povo como Hapiru, o que muito provavelmente equivale, na Babilônia, aos termos Apiru ou Aperu dos tex¬tos egípcios. Como o nome Habiru equivale foneticamente quase que ao termo “hebreu”, muitos estudiosos identificaram os habiru com os hebreus bíblicos, ou os consideraram como precursores dos futuros israelitas. Embora ainda haja uma série de problemas não solucionados, relativos aos habiru, aparentemente estaria de acordo com a história tradicional do povo hebreu, associar suas origens com um ou mais dos diversos grupos no Oriente Médio que eram conhecidos pelo nome de Habiru no segundo milênio a.C. 

De acordo com as narrativas do livro de Gênesis, os ancestrais dos israelitas se originaram da Mesopotâmia. Noé, filho de Laineque, era o décimo na linha da descendência de Adão (Gn 5.3 e versículos seguintes), e foi pai de Sem, Cam e Jafé. Estes foram os ancestrais epônimos dos povos semitas, africanos e indo-europeus, respectivamente. Da linhagem de Sem, veio Terá, pai de Abraão, que viveu, em primeiro lugar, perto da antiga cidade suméria de Ur. É neste ponto que a origem dos hebreus realmente tem o seu início. Abraão é o primeiro personagem bíblico a ser designado pelo título de “hebreu", e a sua família pode ter tido alguma cone¬xão com o grupo de habiru que existiu aproximadamente em 2000 a.C, em Larsa, há cerca de cinquenta quilômetros dali.

Provavelmente algum tempo depois desta data, Terá e sua família migraram de Ur para Harã, uma cidade situada no arco do Crescente Fértil, na região que foi chamada Padã-Arã pelos autores bíblicos posteriores. Referências cuneiformes a Harã ("Harran" nos textos) indicam que, nesta época, era uma cidade próspera, sendo a junção das rotas de caravanas entre Carquemis e Nínive, a Mesopotâmia e o império heteu na Ásia Menor, e as comunidades ao longo da costa leste medi¬terrânea.

A esta área do vale Balikh, na parte noroeste da Mesopotâmia, os autores is¬raelitas de dias mais recentes trouxeram a investigação de seus progenitores, e os colocaram no contexto de cultura e vida que assistiu os últimos dias da magnífi¬ca Terceira Dinastia de Ur, e a ascensão de uma tradição semita característica no Oriente Médio. A exatidão deste trabalho ficar evidente no capítulo seguinte. 


Fonte: R.K. Harrison. Tempos do Antigo Testamento, CPAD, 2010.