9 de abril de 2015

Gerard Van Groningen: A Revelação Messiânica no Tempo de Abraão e Isaque

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A Revelação Messiânica no Tempo de Abraão e Isaque 

Abraão não surgiu num vácuo não-histórico. Nem lhe foi dada uma posição proeminente na Escritura porque Israel como nação, ansiando por um progenitor nacional, criou Abraão como uma figura lendária.[1] O texto bíblico registra os fatos históricos reais referentes aos ancestrais de Abraão e inclui um rápido sumário do desenvolvimento da raça humana à qual Abraão foi cha­mado a servir de um modo peculiar.[2]

O Contexto do Chamado de Abraão (Gn 10,11) 

A estrutura literária da passagem que registra o chamado de Abraão (Gn 10,11) é governada pela frase hebraica ’êlleh tôledõt, "estas são as "gerações" ou "este é o relato de".[3] Registram-se três relatos: (1) o da raça humana como se desenvolveu imediatamente após o dilúvio (10.1-11.9); um relato mais pormenorizado dos descendentes de Sem (11.10-26); e (3) o relato da família de Abraão, isto é, seu pai Terá, seus irmãos, sua esposa (11.27-32). Essa estrutura literária capacita os leitores a captar o intento do escritor bíblico, isto é, primeiro o contexto humano universal de Abraão, depois a linha específica de seus ancestrais e, finalmente, o clã do qual ele próprio, com sua esposa Sarai ou Sara, foi separado. 

Quatro fatores específicos e altamente relevantes para o contexto do chamado de Abraão devem ser mencionados. Primeiro, é apresentada a unidade da raça humana. Noé é o ancestral comum (depois do dilúvio) como Adão o era (antes da queda). Os três filhos de Noé eram da mesma natureza humana e da mesma carne e sangue humanos que seu pai. Enquanto os animais, aves, peixes e plantas foram criados com diferenças inerentes, e deveriam desenvolver-se segundo sua própria espécie, a humanidade foi criada como uma unidade. O apóstolo Paulo, pregando a políticos e filósofos atenienses, deu ênfase à verdade de que de "um homem" Deus fez "todas quantas nações há de homens" (At 17.26, NIV). Este fato — a unidade da raça humana — é de suprema importância na consideração a respeito de quem deveria ser o Messias por vir e especialmente a respeito daqueles para quem ele havia de vir. 

Segundo, afirma-se claramente a diversidade dentro da raça humana unificada. A diversidade segue as linhas da progénie de Noé. Mas, dentro dessas três linhas, mais diversidade ainda veio a desenvolver-se. Este é indubitavel­mente o ponto de referência a Ninrode, de quem se diz que se deslocou da Babilônia para a Assíria (Gn 10.8-12). Tal diversidade foi ainda aumentada pela localização geográfica em que cada grupo se estabeleceu. E essa diversidade, isto é, o desenvolvimento da raça em entidades nacionais, é de importância em nosso estudo da revelação do Velho Testamento relativa ao Messias. O próprio Messias, bem como toda a linha de seus ancestrais, viria de uma família específica, que era parte de um clã, que, por sua vez, era parte de um grupo (nação incipiente) que vivia em uma área geográfica específica. Esses ancestrais especificamente selecionados, e finalmente o próprio Messias, foram chama­dos para servir a todas as famílias, clãs e grupos nacionais. Na verdade foram chamados para servir à raça humana inteira, que foi feita de uma carne e sangue, colocada em uma posição régia, e incumbida de servir como vice-regente de Deus. 

Terceiro, o relato da construção da torre de Babel informa-nos da rebelião da espécie humana contra a vontade de Deus de ter a humanidade unificada espalhada por toda a terra, enchendo-a, submetendo-a e governando sobre ela.[4] Foi uma rebelião contra Deus em que a humanidade resistia à diversifica­ção por meio da qual as ricas potencialidades dentro da humanidade real criada poderiam ser desenvolvidas e aumentadas sob a providência e a gracio­sa redenção de Deus. Acima de tudo, foi uma rebelião contra o plano de Deus de libertar a humanidade do julgamento divino contra o pecado e o mal, por meio da semente da mulher. Os homens buscaram estabelecer sua própria via de escape à maldição pronunciada no Éden, à ira de Deus contra o pecado e ao divino julgamento que viria sobre os que fazem o mal.[5]

Quarto, o ponto alto da passagem (Gn 10,11) é a referência à família de Abraão, que foi tirada de Ur da Caldéia por Terá, a caminho de Harã, onde se estabeleceu (11.31,32),[6] Esta descrição factual completa a descrição do ambiente para o relato do chamado específico a Abraão[7] para servir a Deus no desenrolar do plano messiânico, por meio do qual todos os diversos povos constituintes da humanidade real decaída poderiam receber a plena libertação do pecado e da culpa, ter a maldição do pacto de Deus deles removida e ser plenamente restaurados ao seu real "status", posição e função originais, em que Deus tinha posto a humanidade no tempo da criação.[8]

O Papel de Abraão na Revelação Messiânica (Gn 12-22) 

Os Textos Bíblicos 

A revelação divina a Abraão, relativa a seu papel no programa messiânico, é registrada em quatro passagens bem definidas: Gn 12,15,17 e 22.[9]

Gênesis 12.1-3. Um importante texto profético é a palavra de Deus a Abraão em Gn 12.1-3. Deus chamou e separou Abraão (v. 1), fez-lhe promessas (v. 2), colocou estipulações diante dele (v. 2b), e falou de bênçãos e maldições por vir (v.3).[10]

O chamado de Abraão é expressamente registrado na frase hebraica têk- lèkâ min ("vai por ti mesmo de", KoB, p. 233) ou "toma a ti mesmo".[11] Abraão devia tomar consigo somente sua esposa e suas posses pessoais e deixar imediatamente família, clã e país. O Senhor tinha uma terra especificada para ele possuir. O chamado dá ênfase à escolha que Deus fez de Abraão, descen­dente de Sete, para servir de meio pelo qual a palavra divina falada diante de Adão e Eva, e por meio de Noé, havia de ser levada adiante. Assim, a eleição de Abraão foi particularmente um chamado ao serviço: de Deus, de sua progénie e de todas as diversas nações. Por intermédio do serviço, as promes­sas feitas e as metas intentadas haveriam de realizar-se. A fim de que as promessas divinas pudessem, na verdade, tomar-se realidades, Abraão devia separar-se inteiramente de todas as relações humanas, exceto de sua esposa e dos servos da família.[12] O conceito do eleito, a pessoa particular, que é primeiro separada de todos os outros seres humanos, todavia destinado a servir a muitos, é expresso aqui pela primeira vez no curso da história da revelação e da redenção divina. 

Deus deu a Abraão cinco promessas específicas: (1) Abraão teria uma progénie, embora Sara, ou Sarai, não tivesse filhos então, progénie que seria um povo grande em número e organizado em um corpo (Gn 12.2).[13] Como um povo numeroso, devia considerasse a si mesmo o resultado direto da iniciativa de Deus em favor de Abraão e sua semente. (2) Abraão iria receber uma terra, que ele herdaria e que seria o lugar de sua atividade (12.1b). Essa terra não foi descrita no tempo de seu chamado, mas lhe seria mostrada a ele oportunamen­te. (3) Abraão havia de tomar-se um homem famoso (12.2b); sua semente deveria participar dessa fama. Na verdade, o texto põe claro que, à medida que essa grande nação aparecesse, o nome de Abraão tomar-se-ia grande ou famoso. O ponto é que todos os povos tomariam consciência de Abraão e de sua semente. (4) Abraão receberia a bênção de Deus (12.2b), a concessão do próprio Deus sobre a humanidade. Ser bendito, então, é desfrutar da própria presença de Deus, ter comunhão com Ele e ser enriquecido por tudo o que Deus é e oferece, assim como Ele se dava a si mesmo a Abraão.[14] O real conceito de bênção, portanto, é a idéia de "Deus conosco", "Imanuel"[15] (Is 7.14; Mt 1.23).[16] (5) Abraão seria servo e amigo de Deus. O Senhor foi muito específico: "Todas as famílias da terra serão benditas por intermédio de ti" (12.3b NIV). Foi assegurado a Abraão que ele seria um efetivo e frutífero canal de bênçãos de Deus aos homens. 

Estreitamente relacionadas às promessas a Abraão eram as estipulações enunciadas por Deus[17] — ele seria uma bênção.[18] Nessa afirmação foi dito ao patriarca que ele estaria a serviço, que seria um agente ou canal de bênção. Os que seriam abençoados seriam "todos os povos" (12.3b NIV; RSV "todas as famílias"). A bênção a ser concedida não procederia de Abraão mesmo, pois ele próprio seria primeiro abençoado. A estipulação exigia que Abraão se submetesse a Deus, recebesse e se apropriasse da bênção prometida, e a transmitisse aos demais seres humanos. Portanto, foi ordenado a Abraão que servisse como um mediador entre Deus e os homens.[19] Incluída nessa estipulação estava a ordem implícita de ser acessível e de viver e servir de tal maneira que não desse ocasião à zombaria e irreverência das nações. Especificamente, desde que as diversas nações deveriam receber as bênçãos de Deus por meio de Abraão, ele próprio teria de tomar-se disponível como esse canal. A todas as diversas nações, a todos os povos é implicitamente feito saber que, por sua vez, devem identificar-se com Abraão, para que sejam abençoados. O texto, portanto, põe uma obrigação ou responsabilidade sobre as próprias nações, isto é, respeitar Abraão e receber seu serviço.[20]

Em conclusão, Gn 12.1-3 fala de maldição e bênção que aconteceriam. Abraão seria bendito. Todos os povos seriam ou amaldiçoados ou benditos.[21] Todos os povos estavam sendo colocados diante destas alternativas: Deus seria com eles para o bem, ou eles seriam atados sob a ira de Deus para o mal ou o infortúnio. O envolvimento de Deus com Abraão e o envolvimento de Abraão com todos os povos deveria levar a fim desses dois resultados. A maldição e a bênção eram mutuamente excludentes; seria uma ou outra para todos os povos. A reação dos povos para com Abraão — se eles o ridicularizariam ou se o receberiam como o canal das bênçãos de Deus — seria definitivamente o meio de decidir se receberiam bênção ou maldição. Portanto, a antítese está posta aqui tão agudamente quanto em Gn 3.15; o abismo da hostilidade não foi fechado. A possibilidade de cruzá-lo do lado da maldição para o lado da bênção, do lado da serpente, ou Satanás, para o lado da semente da mulher, está novamente posta diante do mundo. O único meio de cruzá-lo é através de Abraão, o meio escolhido por Deus, e que poderia servir desta maneira somente se reivindicasse as promessas que lhe foram feitas e concordasse com as estipulações colocadas diante dele. 

Gênesis 15. Gn 15 registra a repetição e o desdobramento do chamado de Deus a Abraão em Gn 12.1-3. Primeiro, vemos que a Abraão foi dada a garantia da presença divina. Ele não devia temer (15.1); o Senhor seria conhecido como sua proteção e segurança sempre presente. Abraão deveria saber que no serviço pactual a Deus em favor de todos os povos não precisaria temer a oposição dos inimigos. Não havia nenhuma razão para pensar que ele estaria só. Aquele que ele representava e servia não falharia. 

Segundo, foi assegurado a Abraão que havia um futuro definido e infalível para ele. O Senhor mesmo era a garantia da execução de todas as promessas feitas. Assim, Abraão deveria receber uma recompensa segura (15.1b), um resultado seguro, como fora ordenado por Deus, e que adviria de sua vida e de seu serviço. 

Terceiro, Abraão recebeu a certeza absoluta de que semente seria gerada dele próprio. Essa semente seria o meio pelo qual o futuro seria assegurado. A preocupação de Abraão pela semente, preocupação que ele expressou quando o Senhor falou de seu futuro (Gn 15.2-5), não deve ser vista como simples questão pessoal, isto é, um costume social, de acordo com o qual um homem provava sua virilidade e estabelecia uma reivindicação para o futuro através de sua descendência. O que estava em causa era o papel que Deus lhe tinha atribuído em favor de todos os povos. 

Quarto e último, por meio do antigo ritual do pacto, Abraão recebeu a garantia de que seria o possuidor da terra (Gn 15.7-21). A terra é dom de Deus. Porém, mais do que isso, a terra seria uma herança que, plenamente recebida, daria a Abraão um lugar para servir. Dali ele iria atingir outros povos; ali ele receberia todos os peregrinos que se identificassem com ele e seu Deus. 

Gênesis 17. O capítulo 17 tem sido sempre reconhecido pelos estudiosos da Bíblia como o que registra o estabelecimento formal do pacto de graça com Abraão e sua semente.[22] É importante lembrar que o pacto da graça esteve presente e operante desde a queda de Adão e Eva; ele foi estabelecido com Abraão nesse tempo — o próprio momento de seu chamado. De importância direta para o nosso estudo são as seguintes quatro considerações. 

Primeiro, foi dada novamente a Abraão a garantia do laço inquebrável de amizade, isto é, da relação pactual, que Deus mantinha entre Ele próprio e Abraão (17.2). No centro dessa relação estava a promessa da constante presença de Deus, de ser um Deus para ele e para sua semente depois dele (17.7,8). 

Segundo, foi-lhe novamente assegurada uma progénie numerosa: muitos povos, nações e reis surgiriam dele (Gn 17.2). Sua semente seria uma semente abençoada, como ele Abraão o era, e também unia semente de serviço. 

Terceiro, o rito da circuncisão teria de ser adotado como um sinal ou selo de tudo o que Deus disse que Ele era para Abraão e seria para a sua semente (Gn 17.1G-14).[23] A palavra de Deus seria confirmada pelo derramamento de sangue e purificação do órgão de geração da vida. Particularmente, a prática do rito falaria da continuação da palavra de Deus às gerações vindouras e por meio delas, isto é, através da semente. Em Gn 3.15 foi registrado que haveria um derramamento de sangue por meio do esmagamento e por parte da semente da mulher; de maneira semelhante, um futuro seguro para a semente da promessa não poderia ser considerado sem o derramamento de sangue. 

Quarto, o rito da circuncisão tinha de envolver todos os machos da comunidade abraâmica (Gn 17.10), pois seria um sinal de identidade e de pertencer à comunidade. Receber o sinal de membro significava que todos os cabeças (machos), independentemente de sua idade, participavam das promessas, estipulãições e meios de continuidade do pacto de Deus com seu povo. 

Gênesis 22. Gn 22 contém o relato do teste a que Deus submeteu Abraão.[24] O ponto central da passagem é demonstrar a plena submissão de Abraão à ordem de Deus.[25] Essa submissão não poderia ter sido mais específica e completamente provada a não ser pela entrega a Deus, pela morte, de seu único e amado filho —o filho da promessa (G14.28). Isaque, não Ismael, era a semente pela qual todas as promessas relativas à continuidade da obra de Deus através de Abraão seriam realizadas. Isaque era a semente pela qual a vida, em sua plenitude, amor em sua riqueza, bem como fidelidade pactual, em sua expres­sividade, seriam atingidas. Assim, Abraão foi chamado para mostrar que, assim como ele tinha confiado plenamente em Deus para prover a semente, assim também confiava plenamente em Deus para prover a continuação da semente e do serviço que esta deveria proporcionar à humanidade (Gn 22.8,9)[26] A semente era, na verdade, de origem humana; não obstante, fora dada por iniciativa divina e deveria continuar por meio do controle e do apoio divinos.[27] Além disso, a semente imediata de Abraão—Isaque—não deveria ser a que obteria a vitória sobre a semente da serpente, ou Satanás. Isaque precisava de um substituto—um carneiro (22.13) — visto que ele era incapaz de obter a vida vitoriosa para os outros. Ele era, entretanto, um importante elo na cadeia que havia de trazer a semente que conquistaria a vitória. 

Aspectos do Chamado de Abraão 

A mensagem inteira contida em Gn 12,15,17 e 22 não pode ser sumarizada em uns poucos pontos, mas alguns aspectos cardeais podem ser reafirmados.[28]

A iniciativa do Senhor é repetidamente enfatizada. O Senhor chamou, dirigiu e protegeu Abraão. O Senhor repetidamente veio a Abraão com promessas, estipulações e elaborações de seu intento e meios para alcançar seus propósitos. Abraão, entretanto, era sempre tido e apresentado como servo e amigo de Deus (p. exv 2 Cr 20.7). De fato, ele foi trazido soberanamente à comunhão e ao serviço de Deus, de tal maneira que era, na verdade, um cooperador real. 

Abraão foi selecionado e chamado dentre a progénie inteira de Sete e de seu clã familiar imediato (Gn 11.27-32). Separando-se deles, tinha de viver e trabalhar em comunhão com Deus e a serviço de todas as diversas nações. Não foi ordenado a Abraão que considerasse apenas os descendentes de Sete, ou uma parte deles, como aqueles a quem ele foi chamado a ministrar. A raça humana inteira, com toda a sua diversidade, isto é, todos os povos, havia de ser servida por ele. Todos haviam de olhar para ele e para sua semente como os exclusivos canais divinamente indicados para o recebimento das bênçãos de Deus (Gn 12.13a). 

Abraão foi chamado para servir como mediador entre Deus e todas as gentes ou nações. Nele todas seriam abençoadas (12.3b). Deus seria feito conhecido às gentes e nações por meio de Abraão, e por meio de Abraão elas seriam trazidas à obediência a Deus. E irmanadas nessa obediência deveriam receber todos os benefícios da vida do pacto. Abraão, entretanto, seria o agente da transmissão, não o meio real de reconciliação e restauração da morte à comunhão com Deus.[29]

Incluídas no chamado divinamente iniciado e na indicação de Abraão para servir de mediador estavam as promessas, estipulações e garantias da conti­nuidade da amizade pactual de Deus com Abraão e sua semente. Deus prome­teu ao patriarca sua presença protetora, numerosa progénie e uma boa terra. Ele colocou diante de Abraão o chamado à obediência (12.1), fé (15.1-6), conduta ética (17.1-10) e plena submissão (22.1,2). Além disso, Deus determinou que o sinal e selo de sua palavra e sua reivindicação de posse, isto é, a circuncisão, seria aplicado. 

O Senhor confirmou sua promessa como absolutamente segura e obrigató­ria, através de uma cerimônia de ratificação de pacto (15.9-17) e pela instituição da circuncisão como um sinal pactual e um selo de suas promessas a Abraão e a sua semente (17.10-14). Ambos os rituais eram cerimônias com derramamen­to de sangue. Assim, as promessas pactuais em relação à semente de Abraão e à terra em que ele havia de habitar e servir foram seladas com sangue. Esse sangue falava de vida para aqueles que observassem as exatas condições do pacto; falava de morte para aqueles que rompessem o pacto. 

A Resposta de Abraão 

É importante notar a resposta de Abraão à palavra de Deus, de um pacto de vida, promessas, estipulações e garantias de continuidade. 

Depois que Deus falou a Abraão, chamando-o e separando-o para si mesmo, da sua terra, clã e família, Abraão "partiu, como o Senhor lhe dissera" (12.4, NTV). Abraão obedeceu ao chamado. Quando chegou a Siquém, recebeu a garantia de que estava sobre o solo prometido; Abraão reivindicou aquela parte da terra construindo um altar ao Senhor (v. 7). Ele fez o mesmo quando chegou a Betel (12.8), e novamente quando estava finalmente estabelecido em Hebrom (v. 18). O ato de construir um altar era um serviço sacerdotal, mas era mais do que isso. Era basicamente um feito régio -— uma reivindicação da terra para o Senhor e para si mesmo como vice-regente do soberano Senhor. Cons­truir um altar era também um ato profético — uma proclamação de sua aceitação das promessas do Senhor, sua obediência ao soberano Senhor e sua prontidão em tomar o Senhor conhecido aos povos da terra. Ao dar essa resposta, Abraão estava preparando o palco para mensagens posteriores do Senhor e para uma resposta mais plena e mais significativa a Deus. 

Em resposta às vigorosas palavras de garantia concernentes à presença constante de Deus (Gn 15.1) e da semente que viria de seus próprios lombos, Abraão pôs sua firme confiança, ou creu (wèhe ’èmin [cf. KoB, p. 60] no Senhor (v. 6). Ele recebeu a palavra da promessa como se esta já estivesse cumprida, a despeito de todas as probabilidades serem esmagadoramente contrárias.[30] A confiança de Abraão na palavra da promessa em relação à sua semente foi complementada por seu ato de preparar para a ratificação da cerimônia pactual concernente à terra e, então, observar passivamente o Senhor realizar o próprio ato de confirmação, passando sozinho pelo meio dos animais sacrificados (15.17). 

Abraão cultuou, expressando adoração e louvor a Deus, quando Deus lhe falou, chamando-o para uma vida de plena comunhão com Ele, e para uma vida irrepreensível, isto é, uma vida de integridade, em suas relações com os demais seres humanos (17.1,2). E quando o Senhor persistiu em sua determi­nação de manter um pacto com Abraão e sua semente, estabelecendo o rito da circuncisão como sinal e selo desse pacto, Abraão realizou o rito em si mesmo e em todos os machos de sua casa (Gn 17.23). Assim, Abraão indicou a plena aceitação do plano e dos propósitos de Deus em relação a sua semente, sua terra e ao papel que sua semente havia de desempenhar nas eras vindouras. 

Em sua interação com tribos e povos vizinhos, Abraão não deu sempre evidência de plena obediência e confiança. Ele mentiu ao rei do Egito (Gn 12.10-20) e a Abimeleque, rei de Gerar (20.1-7), na segunda vez tentando justificar seu erro ao afirmar que era "uma somente meia mentira" (20.12). Por outro lado, Abraão demonstrou estatura e capacidade reais ao derrotar os quatro reis cujos exércitos tinham invadido a terra a leste do Jordão; ele salvou a muitos, inclusive seu sobrinho Ló (14.14-16). Seu encontro com Melquisedeque deve ser considerado o humilde reconhecimento dos caminhos de Deus, abençoando-o por meio de um cananeu seu servo (14.18-20). A intercessão de Abraão em favor dos cidadãos de Sodoma e Gomorra assinala-o como um sacerdote mediador em favor de outros: primeiro dos justos, mesmo que fossem apenas dez (18.32), e também dos injustos. Sua oração em favor da esposa e das servas estéreis de Abimeleque demonstrou sua prontidão de servir a Deus, mesmo em relação a um rei rival (20.17,18). 

O ato supremo de devoção a Deus e plena confiança em sua boa vontade e poder soberanos foi quando Abraão, posto à prova por Deus, foi chamado a renunciar a seu amado filho Isaque. Abraão expressou plena submissão e completa confiança quando disse: "O Senhor proverá..." (22.8), em resposta à pergunta de Isaque acerca do cordeiro para a oferta queimada (v7). 

Implicações Messiânicas 

Sumarizamos os elementos básicos da promessa de Deus a Abraão, bem como a resposta do patriarca em palavras e em atos. Agora, é imperativo discutir as implicações messiânicas desse encontro. Embora as palavras "un­gir" e "messias" não apareçam no relato do Gênesis[31] e não ocorram referências diretas aos ofícios de sacerdote e rei,[32] não obstante, há elementos tanto da concepção estrita quanto ampla do conceito de Messias. Aceitando o testemu­nho de eruditos que representam uma variedade de escolas de interpretação,[33] discutiremos três fatos específicos. 

Em primeiro lugar, Abraão é um dos filhos de Terá, é da linhagem genealógica de Sem, Noé, Sete, Abel, e da mulher. Como a semente, ele era um amigo de Deus (cf. a oração de Josafá, 2 Cr 20.7), porém, mais do que isto, ele foi chamado e escolhido como representante de Deus para servir como agente de Deus, especificamente designado, separado, nomeado e qualificado. Mais tarde, quando agentes específicos de Deus foram assim chamados para servir, receberam a unção. O ato de ungir, entretanto, não indica nada mais, nada menos do que o que Abraão recebeu e foi nomeado para fazer. Realmente, a tarefa de Abraão foi enunciada de acordo com a situação "primitiva" em que ele havia de servir. Que, porém, ele foi chamado, separado, nomeado e quali­ficado pela bênção do próprio Deus para servir não pode ser contradito. Genericamente, Abraão foi ungido para servir a Deus como seu porta-voz, era um mediador entre Deus e a humanidade, e era o representante real de Deus que tinha de proclamar as suas reivindicações sobre a terra, e nações, e pelo bem-estar do cosmos. 

Segundo, Abraão havia de ser a semente da qual surgiria uma numerosa semente (Gn 17.6,7). Através de toda a Escritura, a idéia de um povo "numeroso", uma nação que seria especialmente beneficiada pelo servo nomeado e qualificado por Deus, é um aspecto integral do conceito messiânico. De fato, o ponto de vista estrito do conceito messiânico põe grande ênfase nisto. Riehm destacou a referência à promessa de Deus de que faria de Abraão uma grande nação como um dos traços messiânico específicos.[34] O reconhecido conceito messiânico pertence tanto à semente única quanto à plural; o servo se levantará entre os muitos e os servirá como o agente apontado e qualificado por Deus para bênção e redenção. 

Terceiro, o serviço que Abraão devia prestar (cf. Gn 12.2b) é um aspecto distintivo do conceito messiânico. Abraão, a semente, foi chamado para gerar uma semente que suscitaria numerosas sementes (cf. seu novo nome, Abraão, "pai de multidões" (17.5). Como essa semente, ele seria o primeiro a servir como real mediador entre o soberano Senhor e todas as demais pessoas do mundo. E como ele iria fazer no início, da mesma forma os muitos que viriam dele deveriam fazer. A obra mediadora específica seria uma bênção, isto é, a bênção de Deus tomar-se-ia disponível por meio de Abraão e sua semente. Mais tarde, essa obra mediadora seria enunciada distintamente. Mas Abraão tomou consciência do que lhe caberia fazer: por palavras e por atos ele havia de fazer Deus conhecido, interceder pelos homens, e afirmar a reivindicação de seu soberano Senhor sobre a terra, as demais pessoas e o bem-estar do mundo. 

Perspectivas Escatológicas 

As perspectivas escatológicas das passagens sob consideração relacionam-se estreitamente com os aspectos messiânicos discutidos na seção precedente. 

Ao plano pelo qual Deus há de fazer-se a si mesmo conhecido como o Deus de todos os povos é dado um esboço mais definido e pormenorizado. Por meio de uma semente muitos serão abençoados por Deus; e por meio dos muitos abençoados desta maneira todas as demais nações serão abençoadas. Portanto, o um e os muitos continuam em estreita interação à medida em que o plano de Deus para todos os povos, de serem abençoados por Ele, continua a ser executado através dos tempos.[35]

O plano a ser seguido não é somente delineado, mas também se toma efetivo. Abraão tomar-se-á uma grande nação; Abraão tomar-se-á famoso; e Abraão será uma bênção. Em interação com ele, e somente por meio dele, todos os povos serão benditos. Em resumo, o programa escatológico de Deus foi delineado a Abraão. 

À medida que o futuro é delineado nas passagens bíblicas, um universalismo escatológico é ousadamente afirmado. A visão de um povo, a despeito da diversidade dentro da humanidade, é acessível a todos. Os reis e nações que Abraão e sua semente hão de servir, e os reis e nações que brotarão dele (Gn 17.6) serão um povo unido de Deus. A unidade da humanidade revelada em Gn 10,11 tomar-se-á mais profunda, mais rica, mais intensiva por meio de um que é separado para servir como canal de bênçãos — um fator unificante, na verdade. Então, o único povo abençoado será tirado de todo clã, tribo, língua, nação e raça. 

O universalismo e unidade da humanidade bendita por Deus por meio de Abraão e sua semente não deve cegar nossos olhos diante do abismo permanente de hostilidade que divide a humanidade. Haverá aqueles que conside­rarão Abraão e sua semente como objetos comuns e profanos de ridículo e escárnio. Estes, por sua vez, serão amaldiçoados; eles permanecerão atados sob a ira de Deus, continuarão a ser inimigos de Deus e experimentarão plenamen­te o julgamento e a condenação. Como os quatro exércitos invasores foram completamente derrotados pelo servo de Deus (Gn 14.13-16), assim também todos aqueles que não são recipientes da bênção de Deus através dos meios apontados serão completamente derrotados e reduzidos a nada. A antítese não será obliterada: pelo contrário, será ampliada e aguçada. Como há a semente da mulher (Abel, Sete, Noé, Sem e Abraão), também há a semente da serpente (Caim, Lameque, Canaã e os aliados das nações que Abraão derrotou e pilhou). 

A Significação Messiânica de Isaque (Gn 22, 25, 27, 28) 

Isaque é mencionado ao longo da Escritura como o filho de Abraão, ou como o segundo dos três patriarcas a quem Deus se revelou por palavras e atos e com quem estabeleceu e confirmou o pacto da graça. Depois da morte de Abraão, Isaque assume um lugar mais proeminente. Ele orou — possivelmnte durante vinte anos—por sua esposa estéril, Rebeca, que por fim deu à luz dois meninos (Gn 25.24-26). Em sua idade avançada, ele abençoou, sem o saber, seu filho mais novo, Jacó, em lugar de seu filho mais velho e favorito, Esaú (27.18-29). Ele permitiu que Rebeca enviasse Jacó a Padã-Harã para buscar uma esposa (27.46-285). Ele estava ainda vivo quando, vinte anos mais tarde, Jacó retomou a Canaã (35.27-29). 

Em duas passagens proféticas, os "lugares altos" de Isaque (Am 7.9) e a "casa" de Isaque (Am 7.16) estão em posição paralela.[36] Em o Novo Testamento, Paulo afirma a posição privilegiada de Isaque na qualidade de o descen­dente prometido, distinguindo-o de Ismael, indicando com isto que Isaque fora escolhido para servir como o agente de Deus para a continuidade (Rm 9.7;cf. Gn 255a) e preservação da liberdade (G14.21-28), e como o pai de Esaú e Jacó (Rm 9.10). No livro de Hebreus a fé inabalável de Isaque é assinalada em sua bênção sobre ambos os filhos (Hb 11.20). 

Quatro aspectos distintos devem ser mencionados quando se levanta a questão relativa à significação messiânica de Isaque. Primeiro, Isaque era a semente de Abraão. Ele havia sido prometido como a semente que viria dos lombos de Abraão e nascido de sua primeira (e, em sentido real, única) esposa legítima, Sara. A promessa dada por Deus foi cumprida de maneira miraculosa. A Escritura acentua a idade avançada de Abraão e de sua esposa (Gn 17.1; 18.11) e a esterilidade de Sara (18.12). Assim, Isaque veio como que de uma fonte morta que foi vivificada por intervenção divina (cf. Hb 11.12, "de um já amortecido"). Isaque tomou-se o filho legítimo reconhecido, pois ele era a escolha de Deus como a semente da promessa, distinguindo-se de Ismael (Gn 17.17-22). Isaque era, portanto, aquele por meio de quem o pacto seria susten­tado e, mais particularmente, através de quem a linha da semente deveria continuar e o plano messiânico levado adiante. 

Segundo, Isaque era a posteridade designada que, como seu pai Abraão, seria o que haveria de servir em benefício dos muitos. Isaque deveria continuar a tarefa mediadora num contexto quase idêntico ao de Abraão.[37]

Terceiro, o caráter passivo de Isaque tem sido apontado como fator a ser considerado.[38] Seu caráter dócil não deve ser explicado meramente em termos do padrão usual do mais fraco que se segue ao mais forte.[39] Isaque expressava uma qualidade muito necessária da semente messiânica. O papel passivo, a atitude submissa, a predisposição para sofrer silenciosamente, em vez de tomar vingança, são algumas das características que a Escritura registra como necessárias à pessoa designada para servir a Deus como agente de bênçãos para todos os povos.[40]

Quarto, muitos cristãos admitem que Isaque, o filho único e amado, posto sobre o altar por seu pai Abraão como um sacrifício a Deus, é um tipo claro e definido de Cristo, o qual, como único e amado Filho do Pai celeste, foi enviado por seu Pai para morrer na cruz.[41] Quando, entretanto, é necessário explicar precisamente de que modo Isaque era um símbolo de Cristo e de sua morte sacrificial pelos pecadores e, portanto, um tipo real de Cristo na cruz, há dificuldades persistentes que não foram ainda superadas. 

Leopold Sabourin fornece um bom exemplo da tipologia de Isaque.[42] Ele não se refere às dificuldades específicas que intérpretes cristãos tradicionais enfrentam, embora indique ter consciência delas. Ao contrário, ele procede imediatamente a apelar às tradições judaicas, os Targumim em que a Aqeda (amarração) de Isaque é referida como um sacrifício de caráter propiciatório. Alguns textos, diz Sabourin, falam também de um amarrar como se Isaque tivesse sido realmente oferecido como sacrifício. Geza Vermes acha que a tradição judaica encerra a crença de que Isaque ofereceu-se a si mesmo como "oblação".[43]

Sabourin, tendo notado as tradições judaicas vigentes no tempo em que o Novo Testamento foi escrito, tenta localizar a tipologia de Isaque em diversas epístolas e nos Evangelhos. Ele considera textos que usam frases como "unigé­nito", "amado", "escolhido", "único filho" e "cordeiro".[44] Mas não consegue argumentar convincentemente. Embora o Novo Testamento use esses termos, isso não implica necessariamente que "Isaque no altar" seja um tipo de "Cristo na cruz". 

O caráter passivo de Isaque, mostrado por sua obediência voluntária e tema submissão a Abraão, seu pai, deve ser encarado como evidência tipológica do jovem, um dos ancestrais do Messias. O fato de Isaque ter sido colocado sem objeção sobre o altar é uma demonstração concreta de seu caráter e de suas qualidades. Mas Isaque não foi sacrificado; não foi entregue à morte; não foi queimado como oferta de incenso a Deus; e não fez nem expiação nem propiciação por outros. Foi o carneiro provido no momento próprio que se tomou um sacrifício substitutivo no altar, substituindo, de fato, a Isaque. Assim, o cordeiro morto serviu como símbolo e foi tipo de Cristo, que morreu em lugar de outros. 

A ênfase dessa importante passagem é particularmente sobre o caráter substitutivo do carneiro e não sobre o levar sobre si o pecado de outros (Cf. Gn 22.13-14). Abraão e Isaque demonstraram fé e obediência nesse episódio; eles, entretanto, participavam dos pecados da humanidade que tinham de ser expiados por um sacrifício expiatório substitutivo; assim, o aspecto de remover os pecados do sacrifício do carneiro está implicitamente incluído. 

Em conclusão, Isaque, como pessoa, demonstrou tipologicamente qualida­des messiânicas; o ato de ser colocado e amarrado ao altar não deve ser considerado tipologicamente messiânico.[45]







[1] Cf. o relato de Martin Noth deste ponto de vista, em sua History of Israel, 2a. Ed. (New York: Harper, 1960), pp. 121-126; e CuthbertSimpson: "Abraão é menos um indivíduo do que um símbolo ou personificação dos clãs israelitas" (Genesis, em IB, 1571). 


[2] A Escritura relata dois nomes do patriarca, a saber: Abrão, até a sua circuncisão (Gn 11.26-175); e depois desse momentoso rito, Abraão (Gn 175-25.12). Usaremos somente a forma extensa, seguindo o padrão do Novo Testamento (cf. o uso do nome por Estêvão, referindo-se a Abraão ainda na Mesopotâmia [At 7.21]). 


[3] O ponto de vista de nosso estudo é que "esta frase olha para adiante, introduzindo um novo estágio do livro* (Derek Kidner, Genesis: An Introductíon and Commentary [Downers Grove, 111: Inter-Varsity, 1967], p. 59). Os argumentos em favor do ponto de vista de que a frase é uma conclusão são apresentados por P J. Wiseman, New Discoveries in Babylonia about Genesis (Londres: Marshall, Morgan, Scott, 1936), pp. 47-66. Martin H. Woudstra apresenta o ponto de vista mais aceitável referente à palavra tôlèdõt, isto é, ela serve para indicar as genealogias que no livro estabelecem o início, o estreitamento e o desenvolvimento da linha da semente. 'The Ihlèdõt of the Book, of Genesis and Their Redemptive-Historical Significance", CIJ5 /2 (Nov. 1970): 184-189. 


[4] As várias explicações da origem do esforço de construir a torre não precisam preocupar-nos aqui. Este autor aceita o ponto de vista da historicidade do relato bíblico. 


[5] A dispersão da humanidade não deve ser considerado maldição ou julgamento: era intenção divina ter a humanidade espalhada segundo a ordem pactual dada no tempo da criação e repetida a Noé depois do dilúvio. A confusão das línguas deve ser vista, entretanto, como o julgamento de Deus sobre a humanidade, a qual tomou a realização e a expressão da unidade da espécie humana mais difícil e enfatizou a tal ponto a diversidade que a raça humana veio a ser considerada composta de línguas e raças. 


[6] Geerhardus Vos corretamente aponta que o relato genealógico dessa passagem não é meramente uma peça de genealogia secular (Bibli cal Theology, Grand Rapids: Eerdmans, 1948). 


[7] Cf. Helmuth Frey, In den Beginne (Franeker: Wever, s.d.), p. 185; "alguns... são chamados de seu meio cultural... para estabelecer o verdadeiro povo de Deus". 


[8] Uma abordagem radicalmente diferente do texto bíblico é a de Cuthbert Simpson e Walter R. Bowie, o exegeta e expositor de um comentário do Gênesis, respectivamente. Eles fazem uns poucos comentários à presente passagem em que procuram determinar se um certo segmento é P, J, ou uma fusão, e se os nomes são geográficos e não pessoais. A passagem é tratada como nacional e secular, destituída de significado espiritual ou intento teológico (cf. Genesis, em IB, 1559^569; e também E. A. Speiser, Genesis, em AB [1964], pp. 64-91). 


[9] Eichrodt fala dos materiais em Gn 12-22 como um registro da fé brotada em Israel, que se desenvolveu de sua experiência do êxodo. Segundo Eichrodt, Israel, como nação incipiente, veio a conhecer-se a si mesma como escolhida e a ter esperança messiânica sobre a base da demonstração do cuidado providencial de Deus em seu favor. Israel tomou-se consciente dessa providência quando refletiu sobre sua história (Theology ofthe Old Testament, trad. dej. A. Baker [Filadélfia: Westminster, 1961,1967], 136-45;2.167-170). O texto bíblico, entretanto, fela consistentemente da vinda inicial de Deus a Abraão, dando-lhe palavras de direção, promessa e esperança, que seriam levadas adiante pelo próprio Deus. Abraão respondeu a essas palavras e aos eventos subseqüentes à medida que Deus lhe falou e tratou com ele. 


[10] Deve ser notado que esses quatro elementos constituem os aspectos essenciais da formulação dos tratadce ou pactos dinásticos (cf. Meredith G. Kline, Structure of Biblical Authoríty [Grand Rapids: Eerdmans, 1972], e By Oath Consigned [Grand Rapids: Eerdmans, 1968]). 


[11] George Mendenhall concluiu que não havia razões culturais, políticas ou sociais para Abraão sair de Ur dos Caldeus; havia apenas a razão espiritual. Ver "Biblical History in Transition", em The Bible and the AndentNear East (New York: Doubleday, 1961), pp. 32-53. 


[12] O Senhor preservou e usou a unidade familiar nuclear. 


[13] O termo hebraicogôy refere-se particular e inicialmente a um povo politicamente organizado — uma nação. (Cf. KoB, p. 174). 


[14] Cf. a discussão de Calvino sobre o termo bênção, que tem significado tanto físico quanto espiritual; em ambos os sentidos está incluído ser próspero e alegremente bem-sucedido em todos os assuntos. (Commentaries on Genesis, 2 vols. [reimpressão. Grand Rapids: Baker, 1981], 1347). 


[15] Etimologicamente, a forma Imanuelê preferível a Emanuel, (n,e,). 


[16] Dizer que a humanidade abençoa a Deus reconhece a bênção da presença, da comunhão e dos dons de Deus, por isso agradece, honra e louva a Fonte de bênção. 


[17] Pode ser dito que realmente a estipulação/lei não pode ser separada das promessas. As promessas divinas têm exigências divinas embutidas nelas; da mesma forma, as estipulações divinas estão carregadas de promessas divinas. Os eruditos que traçam uma linha nítida entre lei e promessa estão separando o que Deus revelou como inseparável. Devemos distinguir entre promessa e lei, mas não separá-las. 


[18] O termo hebraico wèhyth (do verbo hãyà deve ser lido como imperativo ("sê tu uma bênção"") (cf, KoB, p. 292), e não como um futuro imperfeito como em NIV, RSV ("tu serás uma bênção''). 


[19] Cf. Gerhard von Rad: "A Abraão é atribuído o papel de mediador da bênção de Deus no plano de salvação para todas as diversas nações..." {Genesis [Filadélfia: Westminster, 1961], p. 156). 


[20] A opinião da maioria é que a forma niphal do verbo hebraico bãrak (abençoar) deve ser lida passivamente (p. ex., Walter Kaiser, Jr., Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978), pp. 30-32), seguindo a proclamação de Pedro em At 3.24,25. Derek Kidner {Genesis, p. 144) e Geerhardus Vos (Biblical Theology, p. 91) apresentam ambos os pontos de vista, pela voz reflexiva e pela passiva. 

Parece, entretanto, que o sentido reflexivo é mais correto (cf. John Skinner, A Criticai and Exegetical Commentary on Genesis, ICC, 2* ed. (1930), 1244*245). Abraão indubitavelmente seria um meio de bênção, e pessoas nenhumas não deveriam ridicularizá-lo, zombar dele, considerá-lo "comum" (qãlctl, ser de pouca importância (KoB, p. 840). Assim, há uma responsabilidade mútua, reflexiva, que é posta diante de Abraão e de todos os povos. 


[21] Notar outra vez, como antes, a fórmula pactuai de maldição ou bênção. 


[22] Na seqüência deste livro pretendemos discutir o tema do pacto. Então apontaremos o que Gn 17 repete e acrescenta ao que tinha sido previamente revelado. 


[23] O rito da circuncisão foi largamente praticado nas religiões primitivas (cf. Simpson, Genesis, em AB, p. 613). Entretanto, foi-lhe dado um significado especificamente novo quando foi prescrito a Abraão como parte do pacto (cf. Kidner, Genesis, p. 130; Vos, Biblical Theology, pp. 89, 90). 


[24] O verbo hebraico nah, encontrado apenas no piei, significa testar, tentar ou provar (cf. KoB, p. 619); não tem o sentido de tentação, isto é, de indução ao mal. A passagem não pode ser compreendida corretamente sem que se tome em consideração este fato: Deus testou e, assim, provou o Verdadeiro caráter de Abraão. Isso toma desnecessário que se discuta se Abraão foi influenciado pelo costume de sacrificar crianças que prevalecia na época. 


[25] Cf. Gerhard von Rad, que escreveu sobre a submissão em seu "Kaiser Tractate" (Das Opfer des Abraham [Munique: Chr. Kaiser, 1971]), citando Lutero, Kierkegaard e Kolakow§Jci# e apresentando ao leitor diversas telas de Rembrandt — a que representa Isaque carregando a lenha e outra que mostra Isaque pronto para ser sacrificado (pp. 89, 91, 93, 95). O ponto central da passagem não é eru primeiro lugar apresentar Isaque como tipo de Cristo na cruz (cf. nossa discussão da tipologia de Isaque no fim deste capítulo). 


[26] Speiser, seguindo von Rad, afirma que esse relato de Gn 22 é ''algo mais do que um protesto contra c© sacrifícios humanos em geral e o sacrifício de crianças em particular..," (Genesis, em AB, p. 165). Ao contrário, *o objetivo da provação... foi descobrir quão firme era a fé do patriarca no propósito último divino" (p. 166). Uma compreensão reformada, evangélica, do propósito último de Deus pocie ser muito diferente da compreensão de von Rad e de Speiser; há acordo, entretanto, sobre o ponto central da passagem, que é a submissão, a confiança de Abraão, sua fé absoluta no propósito de Deus para ele e sua semente. 


[27] A repetição e confirmação das promessas e estipulações do pacto — bênção, numerosa semente, herança da terra, canal de bênção para todas as diversas nações da terra (Gn 22.15-18) — claramente indicam que o ponto central da passagem é a prova de Abraão, não a proclamação de Isaque como tipo de Cristo. 


[28] Este nosso estudo, concentrado na revelação messiânica no Velho Testamento, limita-se aos aspectos afins a seu tema. Uma discussão mais ampla seria incluída num estudo exegético e bíblico-teológico de alcance completo da passagem inteira. 


[29]Abraão, como vice-regente de Deus, sacerdote e profeta na terra, reconheceu Melquisedeque como um rei e sacerdote de Deus. Isto evidencia que Abraão tinha consdênda dos "ofícios" de outras pessoas como meios de servir a Deus e prover liderança entre os homens. No relato, o ofício sacerdotal parece receber mais ênfase do que o ofício real. Abraão não considera seu dever adquirir precedência sobre Melquisedeque: cf, nosso estudo do Salmo 110, onde Melquisedeque é referido como sacerdote. 


[30] Cf. o comentário de Paulo sobre isso em Rm 4.18-25. 


[31] Os termos também não aparecem em passagens do Gênesis previamente discutidas, em que, não obstante, são revelados aspectos do conceito messiânico. 


[32] Abraão é referido como profeta (20.7). 


[33] Cf. Martin Riehm, Der königliche Messias im Licht der Immanuel—Weissagungen des Buches Jesaja (Ke- velaer Rheinland: Butzon & Bercker, 1968) que, basicamente mantendo o ponto de vista estrito, fala de "die ersten Spuren eines biblischen 'messianismus'", isto é, "os primeiros traços de um messianismo bíblico" que devem ser vistos nas profecias ac© patriarcas (pp. 1-7). Eduard Riehm, discutindo a origem da profecia messiânica, refere-se ao pacto e ao reino como o contexto e a teocracia como a gema da profecia messiânica em seu sentido estrito (Messianic Prophecy: Its Origin, Historícal Growth, and Relation to New Testament Fulfíllment, trad. de Lewis Muirhead [Edimburgo: T. & T. Clark, 1876], p. 34). Riehm inicia seu estudo afirmando que "o sentido estrito isto é, a predição de um rei ideal... não pode ser o único tema da pesquisa..." Usamos o significado mais amplo, geralmente aceito, da frase "profecia messiânica" (p. 1). Sigmund Mowinckel sugere que as diversas passagens do Gênesis que tratam de Abraão possuem um aspecto messiânico quando fala de Israel como desenvolvendo um conceito messiânico e utilizando os patriarcas (não-históricos) para dar expressão às suas expectativas (He Tbat Cometh, trad. G. W. Anderson [New York: Abingdon, ca. 1954] pp. 202,206,328 sobre o Servo). 




[34]Riehm, Der königliche Messias, pp. 3,4. Escritores judaicos, considerando o antigo Israel como precursor do Judaísmo medieval e moderno, referem-se também a esta passagem como uma promessa messiânica para Israel como povo e nação. 


[35] Cf. Frey, In den Beginne, pp. 185,186. 


[36] Em ambos os exemplos, Isaque e Israel são sinônimos. 


[37] Algumas experiências são tão semelhantes que alguns estudiosos se referem às histórias de Isaque como originadas da mesma fonte que as histórias de Abraão, mas a lealdade a Isaque, o patriarca, levou à escolha do TK*ne dele, em vez do de Abraão, como o ancestral significativo; p. ex., os relatos sobre os dois filhos mais velhos de ambos (Ismael e Esaú), que não foram eleitos, e a história das relações com reis locais (cf. Gn 20,26; ver também a diacuâsão de Vos, em Biblical Theology, p. 91). 


[38] Cf. Voe, Biblical Theology, p, 91. Vos cita Delitzsch: "Isaque é o membro médio da tríade patriarca], sendo como tal de posição mais secundária e passiva do que ativa/' 


[39] Como Delitzsch sugere. (Cf. Vos, Biblical Theology, p. 91). 


[40] A descrição par excellence é encontrada em Is 53. 


[41] John R. Rice, em Christ in the Old Testament (Murfreesburo: Sword of the Lord, 1969) escreve: "Isaque, sobre o altar, representou o sacriffdo de Jesus" (pp. 18-24). George Rawlinson, em Isaac and Jacob (New York: Revell, 1890), escreveu sobre Isaque no altar como "o tipo da Perfeita Humanidade que, sobre a cruz, suportou o pior que lhe poderia ser infligido, pacientemente, sem queixas" (p. 24). Rawlinson continua afirmando que o sofrimento de Isaque foi "no espírito somente, não na carne". 


[42] Leopold Sabourin, 'Isaac and Jesus in the Targums and the New Testament", em Religious Studies Bulletin, vol. 1, n° 2, março de 1981, pp. 37-45. 


[43] Geza Vermes, Scripture and Tradition in Judaism (Leiden: Brill, 1961), pp. 204,205. 


[44] Cf. Mt 12.18; Me 1.11; 12.6; Jo 1.18; 3.16; Rm 832; G11.4; 2.20; Ef 5.2; 1 Tm 2.6; Hb 11.17,19; 1 Jo 4.9, que Sabourin discute em sua busca da tipologia de Isaque (pp. 41-44). 


[45] Ver o cap. 6 para a discussão de tipologia.

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.