6 de abril de 2015

Gerard Van Groningen: A Revelação Messiânica no Tempo de Noé

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A Revelação Messiânica no Tempo de Noé 

O Desastre Social (Gn 6.14-7.24) 

A Queda da Família Real 

O "homem"que Eva recebeu alegremente com a ajuda do Senhor (Gn 4.1) tomou o seu lugar no grande conflito que o Senhor anunciara. Caim, ao assassinar seu irmão Abel, expressou a inimizade e hostilidade da serpente, ou seja, de Satanás e sua semente, contra a família real da qual ele desertou (4.5-16). Um traidor da causa da vitória da semente da mulher, Caim "esmagou a cabeça" de seu irmão (matou-o, 4.8), dando, desta maneira, expressão con­creta ao esforço satânico de reverter o pronunciamento do Senhor em relação ao esmagamento da cabeça da serpente-Satanás. Rebelião e desafio caracteri­zam a atitude e as ações de Caim. Quando chamado a confessar, ele recusa e procura evitar a punição que merece (4.9-14). Ele cometeu várias dimensões de pecado que Adão e Eva tinham introduzido na família real, embora seus em­preendimentos culturais indiquem que certa porção do prestígio, das prerro­gativas e da propensão reais permaneciam (4.16,17). O Senhor humilhou-o, baniu-o, mas também o protegeu (4.11,15).[1] Afastando-se da presença do Senhor, Caim empreendeu dominar, cultivar e encher a terra (4.16,17). O texto bíblico informa-nos que Caim não buscou a comunhão nem a bênção do Senhor. E certamente não se comprometeu a servir ao Senhor como vice-regente. De fato, ele quis construir seu próprio reino (4.17). A semente da serpente Satanás ganhou uma vitória, pareceria, no primeiro assalto de uma luta amar­ga. Entretanto, a vitória e a liberdade de Caim estão dentro da moldura da maldição pronunciada e do banimento que, no devido tempo, provariam ser a proclamação da destruição final.[2]

O nascimento de Sete (Gn 4.25-53) marcou a continuação da semente da mulher. O texto evidencia que Sete prolongou a linha da realeza: ele era "à semelhança de Adão, conforme a sua imagem" (5.3). As forças a serem engajadas nesse combate mortal estavam assim dispostas: realeza caída e, entretan­to, restaurada pela graça salvadora (Adão-Sete) contra a realeza banida mas protegida pela graça comum (Caim). A primeira estava em comunhão com Deus e invocava seu nome (4.26); a última tinha-se retirado da presença do Senhor (4.16). 

As reconhecidas capacidades e propensões da realeza caída e banida são descritas a seguir. Caim construiu uma cidade para seu primogênito (Gn 4.17), mas as atividades culturais floresceram quando um de seus descendentes teve três filhos, que se tomaram hábeis no fabrico de tendas, em tocar harpa e flauta, e em forjar bronze e ferro (w. 20-22). Ao mesmo tempo, entretanto, acelerava- se a desintegração social. Ao desposar duas mulheres, Lameque, um parente distante de Caim, violou a ordenança do matrimônio, distorceu o núcleo da vida social (a família) e jactava-se de ter derramado o sangue de um homem que simplesmente o havia pisado (w. 19, 23b). Ele desafiou Deus em sua jactância (w. 23,24). Lameque exemplificou a sempre crescente desobediência ao triplo mandado concernente à comunhão do homem com Deus, sua intera­ção com os outros seres humanos e sua relação com o cosmos.[3]

Outras expressões das características e dos desígnios pervertidos da huma­nidade decaída são descritos brevemente em Gn 6.1-3[4] Os homens esforçaram- se para tomar-se reis.[5] Os que foram bem sucedidos nisso o foram por meio da violência e do derramamento de sangue. Tomaram mulheres de todos os caminhos da vida e forçaram-nas a seus haréns.[6] Assim eles geraram e nutriram seus próprios "filhos e filhas reais". Desta maneira, cada rei visava estabelecer seu próprio domínio e família reais, e exercer uma influência sempre crescente. Esta é a síntese da rebelião. A realeza decaída tentava assegurar a soberania — cada homem por si mesmo, à custa dos outros.[7] Cada um buscava esmagar a cabeça de todos os seus oponentes. O desastre social que se seguiu foi o produto do pecado de Adão e Eva no Éden. Geerhardus Vos indica (corretamente) que o Senhor, com uma concessão mínima de graça restritiva, revelou a verdadeira natureza do pecado e suas conseqüências quando sua graça foi retirada. Ele deixou-o expressar seu caráter inerente e seguir seu próprio curso.[8] Antes que toda a raça humana fosse destruída, quando somente um homem foi conside­rado justo,[9] o Senhor demonstrou sua constante soberania sobre seu reino cósmico. 

Maldição e Julgamento Divinos 

O pronunciamento do juízo sobre a humanidade e sobre todas as coisas vivas na terra deve ser entendido como a declaração do Senhor de como, naquela situação, Ele executaria a maldição que pronunciara no Éden. Tinha de haver uma resposta divina, tirada do coração entristecido e pesaroso de Deus (Gn 6.6), à intenção pervertida da semente real rebelde e à distorção e destruição que ela causava. 

Havia duas dimensões no julgamento que Deus executaria. Primeiro, o Senhor retiraria seu Espírito (Gn 6.3). Essa retirada da presença e da influência restritiva do Espírito marcaria a descontinuidade do envolvimento pessoal direto do Senhor com a humanidade rebelde e a cessação de sua graça comum. Significaria, também, uma separação maior entre o Deus soberano e seu vice-regente caído, o que, por sua vez, seria a confirmação final da morte espiritual. Significaria, ademais, uma anuência divina ao intento e meta de Satanás. 

Segundo, o Senhor traria o dilúvio que iria pôr fim à vida, aos planos e obras dos que visavam expressar sua própria soberania. O dilúvio traria uma trágica separação, pela qual a vida seria retirada da humanidade. As pessoas seriam removidas do seu lugar de domínio. Todas aquelas coisas sobre as quais eles desejavam ter domínio absoluto seriam destruídas. Assim, a maldição abrandada pronunciada sobre Adão e o cosmos, sobre o qual ele havia sido colocado como guardião real, tomar-se-ia maldição plenamente executada. Justiça e julgamento para os rebeldes usurpadores que se presumiriam autô­nomos, a entronizar-se a si mesmos seriam completos e de nenhum modo temperados pela graça e misericórdia divinas. 

Libertação do Julgamento Conferida a Noé 

No contexto de plena execução da justiça e julgamento divinos, a arca foi preparada para servir ao Senhor na demonstração de seu favor a Noé e sua família (Gn 6.8). A arca seria o meio de libertação. Embora Noé tivesse de preparar o barco, não se pode dizer que ele era o meio de libertação das águas do julgamento, mais do que seria ele o agente para a continuação do cosmos. Justo e reto, Noé foi salvo da maldição (1 Pe 3.20; 2 Pe 2.5); ele não se salvou a si mesmo. O Senhor tinha o propósito de fazer da arca o meio de preservação da semente da mulher. As aves e animais, sob o ministério da semente salva, foram incluídos na libertação dada pelo Senhor. A natureza de seu julgamento era tal que os elementos inorgânicos, básicos, do cosmos, embora afetados, não foram através de um dilúvio ameaçados de extinção nem tomados incapazes de servir a seus propósitos, uma vez baixadas as águas. 

Alguns estudiosos da Bíblia têm-se referido à arca como tipo de Cristo.[10] Parece-nos um sinal de sabedoria usar de cautela a respeito de tal afirmação. Não há como negar que a arca era um meio de proteção, livramento e manutenção da vida (cf. 1 Pe 3.20). A arca foi, na verdade, usada por Deus para continuar a linha da posteridade da mulher e para executar seu plano de redenção da humanidade e do cosmos. Mas, dizer que ela era um símbolo da presença condescendente de Deus (como o tabernáculo o era; cf. Êx 33.9-10; 345) ou que ela era o símbolo da remoção da maldição do pecado (como o sangue derramado nos sacrifícios), parece que é dizer demais. É melhor pensar em termos de analogia. Como a cruz foi um meio empregado na obra messiâ­nica, isto é, na execução da tarefa sacerdotal da reconciliação, assim, analoga­mente, a arca foi um meio de reconciliação do Israel pecador com Yahwéh. 

O Dilúvio e a Preservação de Noé 

O relato em Gn 6.8 propicia o cenário para o julgamento cósmico; mais particularmente, é um relato da libertação de Noé e sua família das águas do julgamento trazidas sobre a humanidade auto-servidora, auto-engrandecedora e autodestruidora que estava em plena rebelião contra Deus. 

De Noé é dito que ele era "justo", "irrepreensível entre seus contemporâ­neos". De fato, ele andava com Deus (Gn 6.9). O julgamento que traz a total destruição não é destinado a alguém assim caracterizado. Noé andava no caminho da obediência, da vida e da bênção. O Senhor sustém aqueles de quem isto se diz, mesmo no meio de uma catástrofe de proporções cósmicas.[11]

O Senhor pretendia continuar a relação pactuai que havia estabelecido com a humanidade régia.[12] O Senhor disse especificamente a Noé: "Contigo, porém, estabelecerei a minha aliança" (Gn 6.18). O Senhor comunicou a Noé (e a todos os que lêem o relato) que era seu plano honrar sua relação de vida com a ordem criada, especificamente com Noé e sua família. Assim, a ordem social dentro do contexto cósmico seria mantida. Mais ainda, como Deus manteria sua aliança com Noé, este súdito leal seria capaz de exercer sua posição régia, exercendo domínio e mordomia sobre tudo o que tinha sido colocado sob a responsabilidade da humanidade real. 

Esta graciosa libertação de Noé e sua família no meio de um julgamento cósmico tem relevância messiânica. 

Em primeiro lugar, a extensão cósmica (toda a terra, Gn 6.17; 7.4,19-20) do dilúvio e a remoção total da humanidade injusta provêem compreensão do sentido e aplicação da promessa divina de que a semente humana esmagaria a cabeça da semente da serpente (cf. 3.15). O esmagamento da cabeça significa remover por meio da destruição. Portanto, um aspecto da obra messiânica é trazer o julgamento por meio do qual a oposição será removida e destruída. O ferimento do calcanhar da semente da mulher dá um significado vívido à preservação da vida na arca pelo período de um ano (cf. 8.13). Libertação e restauração não viriam sem custo, sacrifício, inconveniência, e sem a com­preensão do total desamparo da humanidade real no meio do julgamento divino. 

Segundo, a semente da mulher — embora posta em perigo pela violação da ordem social por parte da humanidade rebelde, mediante o intercasamento, o homicídio, e pelo julgamento divinamente ordenado — foi não somente liber­tada mas também mantida e restaurada à posição original de comunhão e vice-regência com o soberano Senhor. O mandado real para a humanidade, com vistas ao governo e ao cultivo do cosmos, foi repetido. A ordem da criação permaneceria com efeito (Gn 8.21,22), e o mandado da humanidade continua­ria também (9.1-17)[13]

Terceiro, o palco estava novamente montado para a semente da mulher atuar. Ela serviria como vice-regente na ordem cósmica e como o direto meio pelo qual a libertação do pecado e o julgamento final seriam cumpridos. Ela seria o agente pelo qual se operaria a restauração da plena comunhão com Deus e a consumação da sua vontade para toda a criação. 

A Profecia de Noé (Gn 9.25-27) 

Tendo preparado a cena para levar adiante o cumprimento de sua promessa à mulher, o Senhor revelou em linhas gerais como a humanidade seria envol­vida.[14] Noé, segundo o texto bíblico, obedeceu aos princípios do pacto coloca­dos diante dele. Cultivou a terra, plantou uma vinha e desfrutou o produto da terra (Gn 9.20,21). Assim, com a obediência pactual veio a bênção pactual. 

A bênção, entretanto, tomou-se uma causa de vergonha e maldição. Noé sucumbiu à influência intoxicante do produto de suas mãos, em vez de perma­necer como senhor, de acordo com seu "status", sua posição, seu mandado reais. Sua embriaguez,[15] por seu turno, tomou-se ocasião de zombaria e humilhação, e isto na área da procriação.[16] Assim um ataque malicioso, indu­bitavelmente instigado por Satanás,[17], mas deliberadamente empreendido pelo segundo filho de Noé, Ham, foi feito contra a semente da mulher. Os dois irmãos de Ham, Sem e Jafé, agiram respeitosamente naquela situação, cobrindo a nudez de seu pai. Este episódio foi o contexto específico do qual Noé falou.[18] A maldição e a bênção que ele pronunciou iriam aparecer em várias fórmulas pactuais do Velho Testamento. 



A Profecia e a Confissão de Noé 

As palavras que Noé disse a Canaã foram ao mesmo tempo proféticas e confessionais: proféticas no sentido de proclamar uma direta mensagem a sua família e, assim fazendo, prever o futuro; confessionais no sentido de que essa mensagem profética incluía a sua resposta ao que ele entendeu do plano do Senhor a respeito de sua família e dos seus três filhos.[19]

Os dois imperativos na fórmula pactuai que exigem atenção imediata são "maldito" e "bendito". A noção referente à maldição (’arar) já foi tratada no contexto de Gn 3.1-7.[20] A mesma idéia essencial é expressa na passagem diante de nós, isto é, ser maldito é estar atado sob a ira de Deus. E ter a maldição executada é ter a própria ira de Deus atuando sobre os oponentes voluntaria­mente desobedientes e rebeldes contra o soberano Senhor e seu reino. A maldição pronunciada por Deus deve ser vista sempre como um julgamento pronunciado contra o pecado. Para a serpente (e por trás dela, Satanás) a maldição significava que sua cabeça seria completamente esmagada. A maldi­ção pronunciada sobre a terra (Gn 3.16-17) foi executada, em sua extensão mais plena, no tempo de Noé com o julgamento do dilúvio (8.21).[21]

Na passagem em exame o efeito da maldição sobre Canaã foi, em primeiro lugar, servidão (Gn 9.25). (O nome Canaã, incidentalmente, traz esta suges­tão).[22] Mais especificamente, Noé expressou em termos claros que Canaã haveria de estar em servidão tanto sob Sem quanto sob Jafé, seus dois tios.[23] Essa servidão poderia resultar nisto: como escrava de outros, a posteridade de Canaã poderia tomasse escrava da paixão sexual e da luxúria expressa por seu ancestral Ham;[24] aqueles que fossem escravizados dessa maneira e cuja iniqüidade estivesse "cheia" (cf. Gn 15.16) seriam sobrepujados e destruídos pelos descendentes de Sem.[25] Mas aqueles que não estivessem moralmente escravizados dessa maneira, entrariam nas tendas de Sem e de Jafé como servos, e assim participariam das bênçãos do pacto. 

O conceito de bênção (bãrak) e o contexto em que o termo é empregado reclama um estudo cuidadoso. 

Primeiro, a tradução da frase deve ser determinada. A tradução literal da frase hebraica bãrúkyhwh ’èlõhê Sêm é: "Bendito seja o Senhor Deus de Sem" (Gn 9.26a). Essa tradução é considerada inaceitável por muitos eruditos, que crêem que Noé estava abençoando Sem, em contraste com a afirmação de que Noé estava abençoando Deus ("Bendito seja o Senhor"). Cuthbert Simpson afirma, sem oferecer qualquer evidência, que "um escritor posterior... sentiu que não somente deveria ser expresso algum reconhecimento da piedade de Sem, mas também que deveria haver alguma afirmação positiva do sucesso de Israel, seu suposto descendente".[26] Mas o comentador não oferece uma tradu­ção alternativa.[27]

Segundo, a questão a ser respondida é: Deve ser feita uma escolha entre a bênção de Noé a Deus e a bênção de Noé a Sem? A resposta é negativa: Noé fez ambas as coisas. 

Terceiro, a frase bendito seja o Senhor é uma declaração que expressa o reconhecimento de Deus como fonte da vida. Yahwéh foi bendito porque Noé O proclamou e confessou como aquele que, tendo salvo a ele e a sua família do dilúvio, continuou a conceder-lhes vida. Deus manteria fielmente o laço de amor, comunhão e amizade com ele. O pacto com a família de Noé havia de continuar, como prometido em Gn 6.18. Deus não esqueceria a relação que Ele próprio estabelecera com a humanidade na criação e que mantivera a despeito da queda da humanidade em pecado. A semente da mulher haveria de ser continuamente manifestada. Deus continuaria a ter a humanidade como seus servos reais. Ele continuaria a desenvolver seu plano do reino e sua estratégia, e faria isso em favor da humanidade e também por meio da humanidade, isto é, pela semente da mulher. 

O epíteto bendito significa reconhecer as bênçãos, isto é, a dádiva do seu mais pleno e mais rico sentido, concedido por Deus, a fonte de toda bênção. Num sentido real, quando as bênçãos prometidas e recebidas são reconhecidas como dadas por Deus, então Deus é bendito. Neste contexto "bendito" é um termo que combina reconhecimento prestado, louvor proclamado e glória concedida. 

O predicado bendito é, similarmente, usado em outros contextos. Por exemplo, quando profetizava a respeito das bênçãos de Deus sobre uma das doze tribos, a de Gade, Moisés abençoou "Aquele que faz dilatar a Gade" (Dt 33.20). De modo semelhante, Davi bendisse a Yahwéh, o Deus de Israel, pelo que Abigail fizera, quando ele obviamente queria abençoar a astuta mulher pela sua maneira hábil de lidar com a crise que seu tolo marido tinha provocado (1 Sm 2532,33). 

Aalders[28] nota que Noé, não falando hebraico, desconhecia o nome pactual de Deus, que foi comunicado mais tarde a Israel por meio de Moisés. Em resposta, deve ser notado que é verdade que Noé não conhecia aquele nome. Mas, ele certamente sabia o que aquele nome, que seria enunciado mais tarde, significava. Em outras palavras, Noé conhecia o caráter de Deus, as promessas inquebráveis de Deus a seu povo e a fidelidade da relação válida para sempre de Deus com seu povo. Assim, embora Noé, ao dirigir-se a Deus, não soubesse o seu nome (e pode ter usado outro termo para referir-se a Ele), Moisés, que conhecia o nome e que, pelo Espírito, compreendeu o que Noé estava procla­mando e confessando, escreveu: "Bendito seja Yahwéh."[29]

A frase o Deus de Sem (Gn 9.26) deve ser compreendida em estreita associação com a frase precedente (bendito seja o Senhor). O constructo hebrai­co ’èlõhê Sêm designa posse: Sem tem um Deus, e Deus é por Sem — uma relação recíproca. Mas Deus está na posição focal. Ele determina a relação; Ele a enriqueceria e a traria à sua plena manifestação. A idéia de que Deus "é de" ou "pertence a" certas pessoas aparece repetidamente. Deus é Deus de Abraão, Isaque e Jacó.[30] A Abraão Deus disse: "...para ser o teu Deus e da tua descen­dência" (Gn 17.7). Os básicos conceitos que cobrem essas frases são o de Deus dando-se a si mesmo a determinadas pessoas e, quando Ele assim faz, toma-se Ele mesmo, seu soberano poder, amor e misericórdia, plenamente disponíveis a elas.[31] Assim Noé apreendeu o plano de Deus para o seu tempo e para o futuro. Deus se relacionaria com Sem e, por meio dele, com os outros.[32]

A expressão de Noé em louvor a Deus indica também que ele apreendeu, proclamou e confessou que Deus tinha designado Sem seu sucessor (isto é, de Noé). Como Sete se seguira a Adão e levara adiante a linha da semente da mulher (Gn 4.25,26), assim Sem, seguindo-se a Noé, continuaria essa linha. Como Deus tinha utilizado Noé para a preservação da humanidade, Ele tinha também escolhido Sem para manter a linha da semente da mulher.


Finalmente, essa frase implica que Sem deveria ser tido como o específico agente real de Deus para cumprir as tarefas que tinham sido atribuídas ao vice-regente. Sem, em particular, havia de representar Deus diante do cosmos e, inversamente, o cosmos diante de Deus, ou Deus diante da humanidade caída, e a humanidade caída diante de Deus. Sem havia de retratar a Deus proclamando-o como Criador, Provedor e Redentor do cosmos e de seus habitantes. 

Em resumo, a bênção de Noé a Deus e a seu filho mais velho é uma fórmula de pacto. O Deus do pacto foi reconhecido, louvado e honrado; sua estratégia para a continuação de suas promessas pactuais foi expressa e alegremente aclamada; a escolha de um agente específico para representá-lo na cena cósmi­ca foi proclamada e confessada com louvor. 

A ordem proferida por Noé depois de sua proclamação e confissão pactuais iniciais, em certa medida, as apóia e completa. 

A maldição "Canaã lhe seja servo" (9.26b) repete, de modo suavizado, a maldição anterior, mais geral, sobre Canaã. Por aceitar sua servidão sob Sem, Canaã poderia vir para a esfera de Sem e, assim, participar da bênção que Deus daria a Sem e, por meio dele, a outros. Num sentido real, Sem tomar-se-ia para o filho de Ham, Canaã, o meio para a eventual remoção da maldição. Assim, por meio de Sem, a obra redentiva a ser realizada pela semente da mulher havia de ser cumprida. E como Sem seria um possível canal de bênção para Canaã, deveria beneficiar-se dos "serviços" de Canaã. 

A bênção proferida a Jafé — "Deus engrandeça a Jafé"—tem sido traduzida e interpretada de vários modos.[33] A força da declaração sobre Jafé é pelo menos dupla: primeiro, Jafé haveria de experimentar a bênção por meio de expansão do território.[34] Por meio dessa expansão, foi estabelecida a possibilidade de enriquecimento de Jafé, de vários modos, mas isto também aumentaria gran­demente suas responsabilidades. Segundo, seu enriquecimento e sua crescente responsabilidade estariam em estreita relação com Sem. De fato, o futuro de Jafé seria habitar nas tendas de Sem (Gn 9.27). Isto quer dizer que Jafé partici­paria das bênçãos e das obrigações que Sem havia de receber e pelas quais seria responsável inicialmente. Canaã deveria relacionar-se a Jafé da mesma forma que a Sem, isto é, como escravo (9.27b). 

Aspectos Messiânicos da Profecia de Noé 

Os aspectos messiânicos que esta passagem põe diante de nós podem ser sumarizados nos dois modos seguintes. Primeiro, pode ser acentuado que não há nenhum aspecto messiânico na passagem, se for considerado apenas o aspecto escrito (real) do que o próprio conceito messiânico envolve. Não há nenhuma referência direta a uma pessoa régia—vitoriosa em batalhas, subju­gando inimigos e trazendo uma idade de ouro — líder de um povo específico, étnico, nacionalisticamente orientado. Segundo, há certo número de aspectos positivos a serem enumerados, se for aceito o ponto de vista amplo do conceito messiânico (o ofício tríplice de profeta, sacerdote e rei). A posição que tomamos neste nosso estudo é que Deus revelou por meio da profecia e da confissão de Noé aspectos messiânicos específicos que são fundamentais à própria com­preensão da identidade, obra e meta do Messias pessoal que haveria de aparecer no decurso do tempo.[35]

A atividade de Satanás foi contrariada na situação apresentada na passagem em foco. Ham e seu filho Canaã não foram bem sucedidos na expressão de sua sensualidade. Não foram bem sucedidos na tentativa de exercer sua má influência sobre toda a progénie de Noé.[36] No sentido real, foi obtida uma vitória inicial sobre o inimigo daqueles que servem a Deus e aos homens em retidão e santidade. 

Sem foi apresentado como aquele por meio de quem a linha da semente real haveria de continuar. Sua relação com Yahwéh seria a continuação da relação que Adão tinha antes da queda e à qual a humanidade foi restaurada pela graça de Deus. E como Noé, seguindo Enoque, andou com Deus (Gn 5.24; 6.10), assim também Sem haveria de fazer. Sem é especificamente a semente da mulher, como Noé, seu pai. 

Sem foi indicado como alguém que haveria de servir dentro da comunidade em benefício de muitos. Ele foi separado, não meramente para sua própria vantagem social, para assegurar seu próprio futuro ou para sua eterna prospe­ridade; ao contrário, ele devia servir como o canal e o agente de bênçãos divinas — bênçãos espirituais, morais e sociais — providas por Deus para a humani­dade como um todo. O particular, uma pessoa, foi dado em favor do universal, a raça humana. 

Sem foi indicado como sendo o meio pelo qual a maldição, sob a qual Canaã, sua progénie e outros indivíduos de mente igual estavam presos, poderia ser suavizada ou mesmo removida totalmente. Canaã, servindo com humildade e submissão nas tendas de Sem e Jafé, poderia participar dos bens que o Senhor reservara para todos os habitantes das tendas de Sem. 

Sem foi separado, e Jafé foi reunido a ele, para representar um lado da humanidade dividida. A profecia de Noé tomou claro (uma vez mais) que a grande divisão entre a semente da mulher (servos que honram a Deus, como Sem, os semitas, os hebreus) e a semente da serpente (aqueles que estão rebelados contra Deus, Canaã e os cananeus) continuaria. A maldição seria uma realidade, mas do outro lado do abismo de hostilidades haveria a bênção. 

A antítese, pois, entre Deus e seus oponentes, entre a causa de Deus e a de seus adversários, não seria diminuída. Pelo contrário, tomar-se-ia mais pronunciada. A manutenção desse conflito e a realização da hostilidade entre as duas "sementes", levando à eventual vitória completa da semente da mulher, era, é e sempre será uma preocupação central na obra do Messias. Este ponto valida plenamente a consideração da profecia e confissão de Noé como real­mente messiânicas em sua natureza.[37]

A profecia de Noé, como ilustrada acima, apresenta uma indiscutível moldura ampla que, por sua vez, é o palco necessário para o posterior desdo­bramento e desenvolvimento do plano do reino de Deus. Esse plano inclui a manutenção da relação pactual com a humanidade (os eleitos); o prosseguimento da redenção da realeza decaída; e a restauração e consumação do propósito divino revelado primeiramente na obra da criação. O palco foi armado para que um agente real especialmente escolhido apareça para execu­tar a plena maldição sobre os rebeldes e trazer a plenitude das bênçãos destinadas aos muitos que amam, honram, obedecem e servem ao soberano Senhor dos céus e da terra. 

Perspectivas Escatológicas da Profecia de Noé 

As perspectivas escatológicas apresentadas na profecia e confissão de Noé têm sido interpretadas de vários modos.[38] Parece importante acentuar a esta altura que o termo escatologia, como tal, refere-se ao futuro indistinto; não se refere sempre, somente e diretamente ao último dia, ao fim do tempo, ou a momento além dele. As perspectivas escatológicas na passagem em estudo referem-se tanto, senão mais, ao tempo intermediário quanto ao fim do tempo. 

Primeiro, a raça humana existe como uma unidade, dentro da qual surge marcante diversidade. Os filhos de Noé deveriam desenvolver-se separadamente e ser identificados de acordo com isso, entretanto, continuariam a constituir um organismo que é mantido por revelações vivas e funcionais.[39] Assim, embora haja raças, grupos culturais, identidades étnicas, a raça humana prosseguirá como um todo orgânico. Não há três humanidades ou três ordens de seres humanos. Como a familia de Noé era uma unidade com notável diversidade, assim seria toda a sua progénie. 

Segundo, dentro da humanidade única, diversa, ainda que fundamentalmente unida, há uma divisão radical. Há a tenda de Sem com seus habitantes e aqueles que não habitam na tenda de Sem. A ênfase nesta passagem (Gn 9.27) é sobre aqueles que habitarão na tenda de Sem, que refletirão a mesma unidade e diversidade que a humanidade inteira reflete, e que devem ser considerados, como Sem o era, relacionados com Deus, adorando ao Deus dos que habitam na tenda de Sem. Os que não habitam na tenda de Sem são representados pela progénie de Ham ou Canaã, que, como indivíduos amaldiçoados, não entra­ram na tenda para servir com humildade e submissão. 

Terceiro, Sem deve ser o canal específico por meio do qual o Senhor vai realizar seu programa de restauração. Sem será o mero construtor de tendas; ele é quem vai prover o eventual agente real da redenção, um hebreu, um descendente dos semitas. Jesus falou disso especialmente quando disse "a salvação vem dos judeus" (João 4.22), e Paulo referiu-se a este papel atribuído à família de Sem, isto é, Israel (cf. Rm 9-11). O futuro do ponto de vista de Noé testificará que Sem é o servo escolhido de Deus. E qualquer vantagem que venha da prestação desse serviço estará disponível para a progénie de Sem. Embora, porém, o serviço deva ser prestado por Sem, a vantagem, ou bênção, não é somente para ele e para a sua progénie. Jafé, e mesmo a amaldiçoada progénie de Ham, podem participar da bênção assegurada pelo serviço de Sem. 

Quarto, a passagem bíblica não oferece nenhuma razão obrigatória para admitir que Sem continuará a ser dominante ou especialmente favorecido na tenda em que Jafé e Canaã também habitarão. Em outras palavras, a perspectiva escatológica que a profecia e confissão de Noé apresenta é a de uma unidade de habitantes, sem um lugar dominante ou especialmente privilegia­do para Sem. Sem há de erigir a tenda. Mas essa tenda tomar-se-á a tenda de cada homem, isto é, de todos os que entrem nela, dentre a descendência de Sem, Jafé e Ham. 

Em conclusão, podemos bem reafirmar o que ficou implícito ou foi afirma­do antes. Nesta passagem profética temos uma revelação originada de Deus. Deus revelou-se a si mesmo e revelou seu grande plano para a plena e completa restauração do cosmos e da humanidade real decaída. Noé foi o porta-voz divinamente designado. Noé, tendo despertado do sono de sua embriaguez, falou naquela situação: falou como um pai desapontado (a Ham e Canaã) e como um pai encorajado e apreciativo (a Sem e Jafé). Ele, não obstante, falou como profeta de Deus e fraseou a mensagem à qual ele mesmo deu a resposta. Expressou sua confiança no propósito de Deus e louvou ao Senhor por seus meios maravilhosos em tratar com cada um de seus três filhos e sua progénie. Na verdade, quando profetizou a palavra do Senhor, Noé também confessou-a como uma palavra de Deus, gloriosa, vivificadora, mantenedora do pacto e restauradora do reino. 







[1] Derek Kidner observa corretamente que a promessa de proteção de Deus é "quase um pacto" (Gsnesia* An IntroductioxandCcmmentary[Downers Grove, Dl.: Inter-Varsity, 1967], p.76). 


[2] Cf. Helmuth Frey, In den Beginne(Franeker: Wever, s.d.), pp. 85-91. 


[3] Vercap.3. 


[4] Os críticos têm tratado de vários modos com o texto e sua narrativa. Cuthbert A. Simpson, baseando-se especialmente em Budde e Skinner, diz que esta singular passagem, representando crenças de várias nações, foi inserida aqui para relatar a origem semidivina dos nephtltm ("gigantes" n.t.) (Genesis, em IB, 1533). H. Hirsch Cohen deriva-a de "pensamento e prática primitivos [dos gregos, hebreus e egípcios] para explicar como a história de Noé particularmente dá expressão à crença primitiva na tríade de fogo, vinho e sexo" (The Drunkenness ofNoah [Tuscaloosa: University of Alabama Press, 1974], p. 6). Noé queria fogo (potência) para procriar (sexo) e, assim, plantou uma vinha para produzir abundância de vinho. Quando embriagado, esse vinho lhe daria o fogo para participar frutiferamente em encontros sexuais. O pecado de Ham foi espiar a potência de seu pai e assim substituir o primogênito, Sem. Canaã, o mais velho dos filhos de Ham, é amaldiçoado pelo avô Noé a fim de compensar o ato de Ham; e Sem, pela bênção, recebe a certeza de sua posição e honra de primogênito (ibid., caps. 2-3). Cohen afirma no prefácio (p. ix): que por meio de "compreensão imaginativa procurei colocar-me no lugar do narrador..." Cohen prontamente admite que teve de acrescentar uma variedade de itens e de interpretações ao texto, ao qual só podia chegar por "imaginação". Ele pretende também fazer algumas emendas textuais para substanciar seu caso. Uma avaliação completa da tese de Cohen não é necessária. É apropriado, entretanto, reconhecer que vinho e atividade sexual são combinados na história das filhas de Ló (Gn 1930-38) e do esforço de Davi para fazer Urias dormir com Bate-Seba (2 Sm 11-13). Não há, entretanto, nenhuma evidência textual que dê apoio à tese de Cohen de que Noé se embriagou para que pudesse obedecer ao mandamento de Deus de encher a terra. 


[5] A frase "filhos de Deus" (Gn 6.2) deve ser entendida como a referir-se à descendência dos reis locais das cidades, ou dos chefes de clãs nômades. Esses reis e chefes, tendo usurpado a autoridade divina de reinar, eram ainda, por virtude de sua autoridade de governar, os representantes legais de Deus, o soberano Governador (cf. Meredith Kline, "Divine Kingship and Genesis 6.1-4“, PV7724 [1962] 187-204; G. Ch. Aalders, Genes», trad. de William Heynen, 2 vols., BSC[l98l], 1.153). Derek Kidner argúi que "filhos de Deus” refere-se a anjos (Genesis, p. 84). Ele não leva em conta passagens tais como SI 58,1; 82.1, onde governantes e anjos são chamados "filhos de Deus". 


[6] A frase "filhas dos homens" (Gn 6.2) refere-se a todas as mulheres, "filhas da humanidade". Os filhos dos governantes tomaram esposas de ambas as linhas de semente e, como Lameque, destruíram os homens que se lhes opunham. Por causa disso, a violência e o derramamento de sangue encheram a terra. 




[7] Cf.Helmuth Frey: "Mas o aspecto básico e o impulso progressivo desse tempo foi cada um manter o seu próprio ego, a soberania do povo sobre a raça humana inteira, uma soberania que não queria tolerar quaisquer limites" {In den Begime, p, 104). 


[8] Biblical Theology (Grand Rapids: Eerdmans,1948), p. 61. 


[9] No contexto, esse termo evidencia que Noé vivia segundo a vontade do Senhor e procurava demonstrar isso em relação aos demais homens. Ele, andando com Deus (cf. Gn 6.9), tinha comunhão com Ele e, assim, dava prova da natureza reais originais da humanidade, de sua posição e papel. 


[10] Ver, por exemplo, Herbert Lockyer, AU the Messiaruc Prophedes ofthe Bible (Grand Rapids: Zondervan, 1973), pp.277-280; J.B.Tidwell, Christin thePentateuch (Grand Rapids: Zondervan, 1940),pp. 122-123. 


[11] Somente de Noé, marido e pai, foi dito que era justo (cf. Ez 14.14-20), no entanto, toda a família é poupada. A solidariedade da família é demonstrada nesse evento. 


[12] Cf. cap. 3, subtítulo "A Promessa Messiânica Inicial". Em nossa obra projetada sobre teologia bíblica, que se concentrará na criação, história e consumação, esperamos discutir plenamente o conceito da "continuidade do pacto" (cf. O. Palmer Robertson, Christ ofthe Covenants [Grand Rapids: Baker, 1980], pp. 27-52,109-125). 


[13] O sinal do arco-íris (Gn 9.12-16) é assegurar à humanidade de todas as épocas que, como a ordem da criação continua, assim também continua a incumbência da humanidade. O temor dos animais pelos humanos é então introduzido; ele sugere a falta de harmonia com a criação sobre a qual a humanidade ainda exerce domínio. Ver, p. ex., João Calvino (Coznmentaries on Genesis [Grand Rapids: Baker, 1981], 1.290-291); Martinho Lutero (Commentary on Genesis, trad. de J. Theodore Mueller [Grand Rapids: Zondervan, 1958], 1.174-179); Gerhard von Rad (Genesis, trad. de John H. Marks [Filadélfia: Westminster, 1961], pp. 127-128). 


[14] Se esta passagem deve ser considerada messiânica é questão que tem recebido grande variedade de respostas. Entre os que respondem afirmativamente estão Emst Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, trad. de Theodore Meyer, 2 vols. (Edimburgo: T. & T. Clark, 1868), 130-45; Lutero e Calvino em seus respectivos comentários sobre Gênesis; R.S. Candlish, Commentary on Genesis, vol. 1 (reimpressão. Grand Rapids: Zonder- van, 1900); e Keil e Delitzsch (KD, 1.157-160). Derek Kidner (Genesis, pp. 103-104) e Helmuth Frey (In den Beginne) não tratam da questão. Jack Finegan (In the Beginning, pp. 51-63) e Cuthbert Simpson (Genesis, IB, 1555) discutem somente o uso do vinho e seus resultados. 

Quanto a teólogos bíblicos que se referem às implicações messiânicas da passagem ver Chester K. Lehman (Biblical Theology, 2 vols. [Scottdale, Pa.: Herald, 1971], 1.79-82); J. Barton Payne (The Theology ofthe Older Testament [Grand Rapids: Zondervan, 1962]); e Geerhardus Vos (Biblical Theology, pp. 68-71). 


[15] Derek Kidner (Genesis, p. 103) diz que a embriaguez de Noé é incidental na história, e o ato flagrante de Ham é o ponto central, pois esse ato torna-se a base da maldição pronunciada sobre o filho de Ham. 


[16] Cuthbert Simpson (Genesis, em IB, 1555 ) está certo quando fala da "embriaguez, perversão sexual e impiedade filial", referindo-se a esta passagem. Mas está errado em dizer que a narrativa reflete como o Israel nômade, recentemente estabelecido em Canaã, repelia tais pecados. O Livro dos Juizes narra que, longe de repelir/ Israel tendia a participar de tais pecados dos cananeus (p. ex.,Jz 2.11-13; 10.6). A posição de Simpson baseia-se apenas em seus estudos críticos do texto, por meio dos quais impõe um suposto sistema de empréstimos de outras nações, adaptações, redação editorial e temas escatológicos, num esforço de explicar o que realmente aconteceu, em vez de se ater ao que o texto diz. Ernest Hengstenberg (Christology ofthe Old Testament) e William H. Green (The Unity ofthe Book of Genesis [reimpressão. Grand Rapids: Baker, 1979], pp. 129,130) expõem cuidadosamente o caráter insustentável dos argumentos levantados contra a autenticidade desta passagem e de sua mensagem. 


[17] Cf. Lutero, sobre o texto; Helmuth Frey, In den Beginne, p. 147. 


[18] Noé não falou como um homem embriagado; ele falou depois de despertar e ter plena consciência do que havia ocorrido. Gn 9.24,25). 


[19] Alguns comentadores gastam muito tempo discutindo a ordem do nascimento dos filhos de Noé (p. ex., E. A. Speiser, Genesis, em AB [1964]/1.60-63), um assunto de pouca importância. Este autor assume a posição de que Sem é o mais velho ejafé o mais novo (cf. a citação "Sem, Ham e Jafé" em Gn532; 6.10; 7.13), com Canaã, o filho mais novo de Ham, o filho "mais novo" de Noé (cf. Gn 9 24). 


[20] Cf. a exposição de Gn 3.15 (cap. 3, subtítulo "A Queda da Humanidade Real"). 


[21] O cumprimento inicial da maldição sobre a terra é atestado pelo crescimento de ervas daninhas e espinhos, e pelo duro trabalho de Adão em cultivar a terra. 


[22] A raiz verbal kãna* do nome Canaã significa ser humilde, humilhado, ou submetido a servidão humilhante. Cf. KoB, p. 444. 


[23] Isto é repetido três vezes (9.25b, 26b, 27b), em cada um dos três pronunciamentos feitos por Noé. Por que razão Canaã é separado entre os filhos de Ham para ser amaldiçoado não é dito explicitamente. A idéia de Simpson de que isto serve a um propósito redacional não tem comprovação a apoiá-la (Genesis, em IB, 1555). É mais aceitável a idéia de que Canaã herdou de seu pai os traços de frouxidão moral e indiscrição (cf. G. Ch. Aalders, Genesis, BSC, 1.205). A sugestão de Cohen de que Ham buscava o direito de primogenitura através da potência sexual não tem apoio textual (Drunkenness of Noah, pp. 16-17. 


[24] Hengstenberg admite a possibilidade de que o nome Ham significasse "escuro" (Christology of the Old Testament, 1:33; cf. Robert Young, Analytical Concordance to the Bible [Grand Rapids: Eerdmans, 1969], p. 443), mas decide não ligar a tez escura com a servidão. Não há evidência de que se deva entender "escuro" nesse contexto. 

É difícil determinar mediante recursos léxicos se o nome Ham (Ham)é derivado da raiz hõmam (sentir calor, KoB, p. 311). O verbo fiãmam é usado apenas lima vez para referir-se ao "calor" da concepção (Gn 30 38-39, NIV), e diz respeito a animais. Portanto, sugerir que o nome hãm refere algum aspecto da sexualidade não tem base suficiente. 


[25] Cf. Dt 7.2 a respeito da futura destruição dos inimigos de Israel em Canaã. 


[26] Genesis, em IB, 1557.0 relato bíblico apresenta justamente o oposto dopontode vista deSimpson. OSenhor especificou que Sem haveria de ser o instrumento da bênção do pacto, não só para seus próprios descendentes mas também para outros, e não que os israelitas usaram Sem como uma razão para o seu "sucesso nacional". Aqui está um caso específico de como a Escritura é lida diferentemente por aqueles que a encaram como um registro de crenças religiosas reescrito freqüentemente e por aqueles que sustentam que a Bíblia é o registro escrito da auto-revelação de Deus (cf. cap. 3, subtítulo "Revelação Divina ou 'Confissão Religiosa' *). 


[27] Cohen traduz: "Deus seja bendito, o Deus de Sem." Ele põe erroneamente a ênfase em Sem, que, no futuro, ensinando a respeito de Deus e honrando-o, promoverá o louvor a Deus. 


[28] G. Ch. Aalders, Genesis, BSC, 1.208. 


[29] Cf. Hengstenberg, Christologyofthe Old Testament, 1.36,37. 


[30] Individualmente: Abraão (Gn 28.13), Isaque (Gn 31.42; 32.9) ejacó (cf. Dt 6.10); e os três patriarcas juntos: Abraão, Isaque e Jacó (Êx 3.6,15,16; 45; cf. Dt 6.10; 1 Cr 29.18 na oração de Davi). 


[31] Se Noé fez suas predições referentes a seus filhos consciente de suas tendências e inclinações pecaminosas, como Keil admite (cf. KD, 1.155.156), não se pode responder categoricamente. Noé sabia, indubitavelmente, da propensão de Canaã para a luxúria.SeNoé estava cônscio da propensão de Sem para a receptividade da revelação e crença no monoteísmo não se pode deduzir pelo texto. A discussão de Geerhardus Vos sobre este problema é, como sempre, valiosa (BiblicaJ Theology, pp. 68-69). 


[32] Os cananeus, descendentes de Canaã, prestariam serviços de várias espécies aos descendentes de Sem, particularmente aos israelitas, que utilizaram seus serviços e herdaram suas possessões (cf. Dt 6.10-11; 8.7-10; 20.11), entre os quais os gibeonitas são um exemplo (Js 9.21,27). 


[33] Cohen traduz: "Deus abrirá a mente de Jafé, mas habitará nas tendas de Sem" (Drunkermess ofNoah, pp. 190-191). O argumento de Cohen/ que põtâ "designa sentimentos abertos a todas as influências externas" dificilmente serve de base para incluir o próprio conceito de mente. Nem há aqui base textual para mas, adversativa que Cohen emprega para estabelecer uma radical disjunção entre Sem e Jafé. Possivelmente há um jogo de palavras na frase yapt ’èlõhim lèyepet — "engrandeça Deus a Jafé" (Heb. ypt, ver Aalders, Genesis, BSCt1210). 


[34] O território não é referido diretamente, mas o objeto áeypt é usualmente entendido como território. Esta idéia é corroborada pela aquisição posterior de muito território pelos filhos de Jafé. 


[35] O futuro Messias é Jesus Cristo (cf. João 1.41; 4.25,26). Entretanto, pessoas importantes com atribuições messiânicas específicas (como os proponentes do ponto de vista estrito admitem) o precederão (p. ex., Davi e Salomão). 


[36] Cohen nota corretamente: "Ham, também, tem deuses, mas são deuses da força bruta, que mostram seu poder somente em violência esmagadora, deuses diante de quem os homens podem apenas tremer e a quem os poderosos da terra erigem altares, de modo que as pessoas podem honrar o reflexo desses deuses nesses poderosos e prostrar-se no pó como escravos diante deles e diante de seus deuses" (Drunkenness ofNoah, p. 192). 


[37] A diferença entre os que consideram Gn 9.25-27 messiânico e os que não consideram pode estar neste ponto. Aceitar a primeira posição (cf. n. 14) exige a aceitação do caráter histórico da queda, o caráter histórico real da palavra de Deus à serpente/Satanás e à humanidade, e a postulação real de uma hostilidade radical que dividiria a humanidade (crentes vs. descrentes), e a promessa real de um libertador nascido de mulher que haveria finalmente de derrotar, de modo completo, as forças opostas a Deus. 


[38] Alguns somente vêem aqui o futuro da indústria de vinho; outros dão ênfase ao alcoolismo, que é pela primeira vez introduzido aqui (cf. as citações anteriores sobre o assunto). Cohen (Drunkenness ofNoah, pp. 193-194) vê particularmente o futuro dos semitas como um povo abençoado por Deus, que influenciaria pessoas debochadas, licenciosas, a "lançar-se aos pés de Deus e, em sua submissão, serem ganhos paraumavida piedosa'.
[39]      Cf. Frey, In den Beginne, pp. 146,147.