28 de abril de 2015

Gerard Van Groningen: A Revelação Messiânica no Tempo de Moisés -1

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A Revelação Messiânica no Tempo de Moisés -1 

Na segunda parte cobrimos o conceito messiânico no Livro de Gênesis (caps. 3-6). Na terceira discutiremos os livros restantes do Pentateuco—Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Dada a importância de Moisés tanto no Velho quanto em o Novo Testamento, trataremos primeiro de Moisés, o homem e o mediador (cap. 7) e, em seguida, de Moisés, o mensageiro messiâ­nico (cap. 8). 

Os livros do Velho Testamento que tratam do êxodo de Israel, sua peregri­nação no deserto e a conquista da terra a leste do Jordão — livros que apresentam Moisés como figura chave[1] — formam uma porção da Escritura mais extensa do que os relatos dos Evangelhos sobre o ministério de Jesus na terra. Assim como a busca hodierna do Jesus histórico tem ocupado muitos estudiosos, assim ocorre também com o estudo relativo à historicidade de Moisés — o homem, seu ministério e sua influência. A similaridade na atitude quanto à historicidade de Moisés e de Jesus não surpreende qualquer estudante da Escritura. Foi por meio da pessoa de Moisés que Deus se revelou, em primeiro lugar por meio da palavra falada e dos feitos históricos como o Redentor e o que dá descanso a seu povo. Foi em e por meio de Jesus Cristo que essa revelação foi plenamente revelada como realidade cumprida e garantida para todo o verdadeiro Israel de Deus — todos os judeus e gentios que pela fé aceitam Jesus Cristo como Salvador e Senhor. Em sentido muito real pode dizer-se que a avaliação que se faz de Moisés, servo de Deus no Velho Testamento, controla, e talvez determina, a avaliação final de Jesus Cristo. O inverso também é verdadeiro. O ponto de vista de alguém sobre Jesus Cristo determina grandemente seu ponto de vista sobre Moisés na organização divina nos tempos do Velho Testamento.[2]


Devido ao lugar importante de Moisés na revelação do Velho Testamento e de seu papel como tipo messiânico, um estudo pormenorizado de Moisés é de grande valor. Demonstraremos que em sua pessoa, seu caráter e sua agência ele foi corretamente referido como o mediador do antigo pacto, um precursor e prefiguração de Cristo e uma pessoa-chave na preparação da futura vinda de Jesus Cristo, o mediador e aperfeiçoador do pacto que Deus fez com seu povo em todos os tempos e lugares. 

Moisés, o Homem 

Apresentação Escritural 

Na Escritura Moisés é retratado como um ser plenamente humano. Não é descrito em termos mitológicos; não é deificado em sentido nenhum. Seu nascimento nada tem de não usual (embora as circunstâncias sejam raras). Quando recém-nascido, devia ser posto à morte por ordem do Faraó (Êx 1.16,22; 2.1-3). Providencialmente, foi resgatado e guardado em segurança dentro do próprio palácio do Faraó. Foi preparado para seu papel único na corte do Egito. Foi preparado para o papel que deveria cumprir no deserto, na própria área onde deveria servir como agente de Deus em favor de seu povo. Seu chamado para o serviço não foi usual, mas o chamado foi real (Êx 3.4-12). Depois que Deus falou a Moisés numa sarça ardente, ele não era mais apenas um israelita ou um pastor a serviço de um midianita. Ele era um homem com um mandato divinamente atribuído. Ele tinha uma insigne missão e pôs-se imediatamente a cumprir as várias tarefas que constituíam essa missão. 

Moisés serviu como porta-voz de Deus a Israel e a Faraó. Suas palavras eram poderosas e efetivas, Israel foi libertado do cativeiro, do poder e da autoridade do Egito e foi guiado ao Monte Sinai, onde Deus revelou a Lei (Êx 20.2-17). Moisés organizou, sob a direção de Deus, o ritual do culto, o sacerdócio (Êx 29.1,35-37; Lv 8.1-9.25) e a ordem do povo para o acampamento e para a marcha (Nm 2.2-34). Ele foi o agente por meio de quem foram supridos água e alimento (Êx 16.6-15; 17.5-7). Ele foi o guia através do traiçoeiro deserto e ao longo das fronteiras de Edom (Nm 20.14-21) e Moabe (21.10-20; cf. Jz 11.18) na rota para a Terra Prometida. Ele serviu como juiz e fundador de um sistema judicial para os israelitas (Êx 18.13-26). 

Em resumo, os últimos quatro livros do Pentateuco representam Moisés, o homem, providencialmente preparado para um serviço singular: ser o media­dor de Israel diante de Deus. 

O restante da Escritura aceita como verdadeira e confiável a apresentação de Moisés no Pentateuco. O livro de Josué contém cerca de cinqüenta referên­cias a Moisés, o servo de Deus, sendo dez referências no primeiro capítulo. Deus assegurou a Josué que estaria com ele, assim como estivera com Moisés Js 1.5; 3.7). Josué exaltou Moisés diante dos israelitas, como aquele por meio de quem Deus outorgou a Lei (8.31-35; 23.1-6) e aquele que fez preparativos para tomar a Terra Prometida (p. ex., 9.24; 11.12-15,23; 12.6), especialmente a terra a leste do Jordão (p. ex., 13.8,15,29; 14.3; 18.7), bem como aquele que determinou o estabelecimento de seis cidades de refúgio, três de cada lado do Jordão (20.2). Josué é a figura-chave do livro que tem o seu nome, mas é apresentado como seguindo na força do espírito de Moisés (Js 1.1,2). Ele cumpriu as ordens deixadas por Moisés; insiste em apegar-se aos regulamentos e determinações que Moisés estabelecera; requer atenção integral à revelação de Deus dada a Israel por meio de Moisés. 

Os livros históricos que se seguem a Josué estão repletos de referências a Moisés. O Livro de Juizes, que menciona a parentela de Moisés (Jz 1.16; 4.11), relembra aos vitoriosos hebreus a promessa de Moisés a Calebe (1.20) e o fato de eles serem testados em relação à sua fidelidade à lei de Moisés (3.4). Samuel aponta para a libertação dos ancestrais do povo do Egito por meio de Moisés e os efeitos disso sobre a herança presente de seus descendentes (1 Sm 12.6-8), enquanto o Livro de Reis cita Moisés como legislador (2 Rs 14.6; 21.8) e o que curou por meio da serpente de bronze (2 Rs 18.4). 

O cronista menciona a genealogia de Moisés (1 Cr 6.3) e nota sua regulamentação das ofertas dos sacerdotes (6.49), construção do tabernáculo (21.29; 2Cr 1.3), emissão de "estatutos e juízos" (1 Cr 22.13) e a outorga da Lei (2 Cr 23.18; 33.8) relativa a sacrifícios durante as grandes festas (8.13; cf. 2 Cr 23.18; 35.11,12), inclusive a Páscoa (2 Cr 35.6) e a cobrança de impostos (2 Cr 24.6,9). Muito importante foi a descoberta da "Lei de Moisés" na casa do Senhor (2 Cr 34.14). 

Duas outras obras pós-exílicas contêm referências similares a Moisés: a observância do "Livro de Moisés" (Es 6.18) e a falta de sua observância pelos exilados (Ne 1.7). A lei de Moisés, longamente negligenciada, foi lida ao povo (Ne 8.1,3; 93; cf. 13.1). 

Entre os salmos estão incluídas oito citações a respeito de Moisés. A mais familiar é o Salmo 90, intitulado "Oração de Moisés, homem de Deus" (Texto Massorético, v. 1; superinscrição em KJV, NIV e RSV[3] O Salmo 105 relembra os milagres que Moisés realizou no Egito (w. 26,27), enquanto que o Salmo 106 relembra ao povo sua inveja de Moisés (v. 16), a intercessão de Moisés em favor do povo (v. 22) e a rebelião deste, que fez Moisés perder a paciência (v. 32). Os salmos contêm numerosas alusões a seus escritos. 

Os profetas maiores e menores falam de Moisés diretamente. Isaías relembra a libertação de Israel do Egito por meio de Moisés (63.11,12). Jeremias nota a presença intercessória de Moisés diante do Senhor (Jr 15.1). Daniel fala da Lei de Moisés (Dn 9.11,13) e Miquéias recorda Moisés guiando Israel em sua peregrinação no deserto (Mq 6.4). Como no caso dos salmos, os escritos proféticos referem-se claramente aos feitos de Moisés. 

A importância da Lei de Moisés é realçada nas palavras finais do último profeta do Velho Testamento, Malaquias: "Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo" (Ml 4.4). 

O Novo Testamento começa onde o Velho Testamento parou. Entre os quatro evangelistas, Mateus relembra os judeus da lei de Moisés — especial­mente das ofertas (Mt 8.4), da controvérsia a respeito do divórcio (19.7) e do levirato (22.24) — e a aparição do profeta no Monte da Transfiguração (17.3,4; paralelos Mc 9.4,5, Lc 9.30). Lucas inclui as diretas palavras de Jesus a respeito de Israel possuir "Moisés e os Profetas" (Lc 16.29-31) e suas instruções aos dois homens de Emaús (24.27) e mais tarde naquela noite aos onze (24.44), sobre a mensagem messiânica de Moisés. 

A comunidade do Novo Testamento falou de Moisés. Em sua defesa, Estêvão selecionou diversos incidentes da vida de Moisés: sua aquisição da sabedoria do Egito, sua fuga para o deserto e seu chamado (At 7.22,29,31). 

Paulo aponta o valor do êxodo como o "batismo em Moisés" (1 Co 10.2) e a face radiante de Moisés, a qual devia ser coberta por um véu para não cegar o povo (2 Co 3.7,13,15). O autor de Hebreus fala de Moisés como uma pessoa fiel (Hb 3.2,5), que foi um instrumento na construção do tabernáculo (8.5) e que simbolicamente selou os preceitos divinos (9.19,20). Na lista dos heróis da fé, Moisés é retratado como quem renunciou a todos os prazeres do Egito e identificou-se com o povo de Deus na observância da Páscoa e na jornada através do Mar Vermelho (Hb 11.23-29). 

As últimas referências estão em Jd 9 e em Ap 15.3, o "cântico de Moisés", uma provável alusão ao cântico de Moisés logo depois que Israel escapou de Faraó (Êx 15.1b-19). 

Com base nessa esmagadora comprovação bíblica sem dúvida que podemos concluir que a Escritura inteira atesta que Deus chamou e usou Moisés, o homem. 

Apresentação Crítica 

O relato bíblico a respeito de Moisés não tem sido aceito como confiável entre os estudiosos bíblicos que consideram legítimo, senão necessário, subscrever um rígido historicismo e seguir os ditames da crítica literária. Elias Auerbach considera que há duas abordagens possíveis num estudo de Moisés, a da imaginação poética ou a da pesquisa crítico-histórica (ele não considera a opção de tomar o texto bíblico a sério). Optou pela pesquisa crítico-histórica radical que seria a única a capacitá-lo, e a seus leitores, a obter uma compreen­são autêntica de um "grande herói", cuja figura é muito indistinta "nos esboços cinzentos da história primitiva e contra o fundo sombrio da lenda..."[4] Nem todos os estudiosos afirmam seu ponto de vista com tanto vigor, tão ousada­mente quanto Auerbach. Em geral, as variadas posições críticas (históricas e literárias) podem ser agrupadas de acordo com as quatro categorias seguintes: Primeiro, a posição mais radical relativa a Moisés como figura histórica foi expressa por Julius Wellhausen e Eduard Meyer. O primeiro, cujo pensamento e pesquisa eram controlados por "pressuposições evolucionistas no campo da história da religião",[5] referia-se a Moisés como "um personagem fictício, em sua maior parte".[6] O último foi ainda mais explícito: Moisés não é uma "personalidade histórica".[7] Poucos são os eruditos bíblicos dos tempos recentes que sustentam essa extremada posição. 

Segundo, Martin Noth enunciou sua posição em termos bem definidos.[8] O relato do nascimento de Moisés é legendário; a maioria dos elementos do relato é derivada de fontes extrabíblicas e o material escrito a respeito dele é de caráter teleológico. Noth acredita que através de uma assimilação posterior Moisés foi introduzido nos relatos dos grupos iniciais de pessoas que mais tarde forma­ram a nação de Israel .[9] "Historicamente é.. .dificilmente justificável descrevê-lo como o legislador e organizador de Israel".[10] O único lugar onde Moisés estaria realmente presente é no relato de Israel começando a tomar posse da Terra Prometida.[11] (Auerbach, como Noth, considera Moisés uma figura histórica indistinta, dificilmente discemível nas brumas da história primitiva dos israe­litas).[12] 

Terceiro, a posição de Noth tem sido seriamente desafiada por um batalhão de estudiosos que trabalham nas linhas de William F. Albright e John Bright. O último dirigiu um forte ataque contra a discutida posição de Noth.[13] O primeiro compôs a obra mais qualificada sobre esse ponto de vista. Apoiando-se fortemente na pesquisa e avaliação das descobertas da arqueologia palestiniana, Albright defende o ponto de vista de que não somente Moisés deve ser considerado uma figura histórica, como apresentada no Pentateuco, assim como também os patriarcas.[14] A obra de George Mendenhall também substan­ciou essa louvável posição.[15] Os leitores não devem concluir que os adeptos dessa escola de pensamento não foram afetados, em grande extensão, pelos postulados do historicismo. Eles o foram, mas enfrentaram também a compro­vação produzida pela pesquisa arqueológica, histórica e literária, mais aberta e honestamente, de modo que têm dado maior crédito ao que o texto bíblico apresenta. Jack Finegan, citando Albright, resumiu a especial posição dessa escola a respeito de Moisés e seus escritos da seguinte maneira: Moisés é alguém cujos escritos são "confirmados em sua acurácia histórica ou antigui­dade literária ponto por ponto".[16] Este é também o consenso geral de outros autores contemporâneos.[17]

Quarto, alguns escritores recentes têm feito fortes declarações da historicidade de Moisés e de seu papel na formação de Israel como nação. Umberto Cassuto rejeita a "dissecação" feita pela alta crítica e a "cirurgia plástica", aplicada pelos apologistas desse movimento. Ele admite alguma recensão dos escritos de Moisés, mas apresenta uma defesa bem fundamentada em favor de Moisés como pessoa histórica.[18] Yehezkel Kaufmann, escrevendo com grande fervor judaico, expõe isto da seguinte maneira: "A historicidade de Moisés é garantida por fatos históricos dignos de confiança." "Cada aspecto do Moisés bíblico evidencia um pioneiro", e "o primeiro profeta com uma sagrada missão a um povo foi Moisés".[19]

Concluindo esta seção sobre o desafio que os críticos têm apresentado àqueles que aceitam o relato bíblico integral como autêntico e confiável, impõem-se as seguintes perguntas: A que os críticos modernos realmente objetam?[20] A resposta foi dada por vários eruditos em termos precisos. O historicismo e a alta crítica literária são considerados abordagens aceitáveis. Nesta linha, P. E. Eller afirma realmente bem: O conceito de que Deus revelou diretamente o que está escrito já está morto há muito tempo. O registro do Velho e do Novo Testamento não é um registro do que Deus disse e fez. É certo que há alguma revelação de alguma espécie, mas não é possível um apanhado preciso. Que há, então, na Escritura? Teologia. É uma coleção de escritos de compiladores, historiadores, intérpretes e autores e redatores criativos. A Bíblia é uma teologia inspirada, não um relato inspirado de eventos históri­cos.[21]

Além de fazer objeção à Bíblia como revelação divina, muitos adeptos da crítica histórica e literária negam que os eventos bíblicos realmente aconteceram na seqüência em que estão registrados na Bíblia.[22] Eis seu ponto de vista: Se é verdade que os eventos referidos não aconteceram de todo, ou não aconteceram na seqüência em que estão narrados, então Moisés não se adapta ao quadro. Ele está aí porque foi introduzido, assimilado e adornado por "teólogos" que apareceram em cena muito mais tarde. Para resumir o seu caso: desde que não há revelação direta de Deus e desde que quaisquer eventos que aconteceram não estão relatados em sua ordem histórica, Moisés não podia ter servido como o porta-voz de Deus, como é dito que o fez. Então, toma-se óbvio: o relato bíblico relativo a Moisés tem de ser reinterpretado a fim de que ele apareça como uma figura legendária, um herói nacional e um objeto de pensamento e de fé posteriores. 

Apresentação Tipológica 

Nenhum dos escritores analisados ou referidos até aqui neste capítulo discutiu a significação messiânica de Moisés. É verdade que nem todos os escritos foram incluídos, como, por exemplo, os escritos sobre teologia bíblica que tratam de Moisés. Quase todos os teólogos bíblicos que escreveram ensaios, monografias ou tratados teológicos, adotaram as abordagens histórica, literária e redacional-teológica dos escritos discutidos acima. Muitos deles questionam a seqüência de eventos registrada. Com apenas poucas exceções, eles não aceitam a apresentação de Moisés como o portavoz de uma revelação direta de Deus e como o executor de diversos atos em obediência a essa revelação. Sendo esse o caso, é inteiramente compreensível que Moisés não seja discutido como um tipo de Cristo ou como tendo significação messiânica direta. 

A Escritura, entretanto, convida-nos a considerar Moisés como um meio pelo qual a idéia messiânica foi plenamente revelada. Ao considerar esse fato, devemos manter em mente a distinção entre ancestral de Cristo e tipo de Cristo.[23] Moisés não era da tribo de Judá e sim da da tribo de Levi (Ex 2.1; 6.16-26). Portanto, Moisés não era um ancestral de Jesus Cristo. Ele não estava na linha direta da semente de Abraão-Davi-Cristo. Neste sentido ele não pode ser considerado de significação messiânica. Como, porém, demonstraremos, Moisés era definitivamente de significação messiânica, visto que era um tipo de Cristo. Em sua pessoa, em suas características, em sua posição, tarefa e idéias, ele, assim como outras figuras do Velho Testamento, prefigurou e tipificou a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Essa relação típica não é uma simples correspondência histórica, assim como alguns pensariam. Pelo contrário, Moi­sés, em pessoa, vida e palavras, deu expressão ao conceito messiânico de vários modos. De fato, nele podemos ver uma das mais amplas, ricas e claras revela­ções do conceito messiânico. (Davi somente o excede, pois era ao mesmo tempo ancestral direto, portanto, uma pessoa real messiânica [ponto de vista estrito] e um tipo em vários outros aspectos [ponto de vista amplo]). 

Moisés, o Mediador Messiânico do Pacto 

Nesta parte de nosso estudo da revelação do Messias no Velho Testamento, o material bíblico que coloca diante de nós Moisés, o homem (preparado, chamado e equipado para servir), será estudado e avaliado. 

Pontos de Vista de Eruditos Sobre Moisés 

Três eruditos que expressam pontos de vista positivos sobre a significação messiânica de Moisés serão apresentados primeiro, antes de partirmos para um ponto de vista crítico. 

Geerhardus Vos tem-se expressado francamente. Ele afirma que no desdo­brar do plano da revelação, Moisés deve ser considerado tanto retrospectiva quanto prospectivamente. Encarado retrospectivamente, Moisés foi usado para trazer a promessa divina aos patriarcas para um cumprimento incipiente. Isto é, sob Moisés, como fora prometido, Israel tomou-se uma nação conhecida, foi guiado à Terra Prometida e recebeu bênçãos incalculáveis. Prospectivamen­te, Moisés tem uma posição única em relação aos profetas: é colocado diante deles e "sobre eles antecipadamente".[24] Mais ainda, Moisés foi colocado sobre a casa de Deus. Ele praticou atos que eram em alto grau sobrenaturais e miraculosos. "Ele pode apropriadamente ser chamado o redentor do Velho Testamento. Quase todos os termos em uso para a redenção do Novo Testa­mento podem ser seguidos para trás até o tempo de Moisés. Havia em sua obra uma tão estreita conexão entre palavras reveladoras e atos redentores que só tem paralelo na vida de Cristo.[25] Vos vai adiante e fala da relação típica entre Moisés e Cristo. 

Umberto Cassuto explica nas primeiras páginas de seu comentário sobre Êxodo que ele está preocupado com o significado direto do texto.[26] Ele não fala diretamente a respeito do caráter messiânico de Moisés. Mas refere-se repeti­damente a elementos constituintes do conceito messiânico. Comentando o nascimento de Moisés (Êx 2.1-10), fala do "nascimento do Salvador" que "Deus levantou como redentor de seu povo".[27] "Alguém digno de ser salvo e desti­nado a trazer salvação a outros" é realmente envolvido na salvação do povo escolhido[28] Além das referências repetidas a Moisés como libertador, salvador e redentor de Israel, Cassuto dá ênfase tanto ao contexto real da criação de Moisés quanto à sua preocupação contínua por seus irmãos israelitas em cativeiro, e também à idéia de Moisés como príncipe e juiz na terra do Egito. 

Joseph Klausner é muito mais explícito em seu estudo. Quando pergunta se Moisés era a figura messiânica do Velho Testamento, sua resposta é um "sim" irrestrito. Israel "foi compelido a conferir a maior glória e honra à pessoa exaltada e grandiosa do primeiro libertadoi1'. Ele resgatou Israel de todas as perturbações materiais, da escravidão política e "cativeiro espiritual". "Salva­ção política e redenção espiritual se conjugaram... para tornar-se uma grande obra de redenção." Moisés, incorporando características espirituais e políticas, "colocou a sua marca sobre o redentor do futuro, o Messias esperado".[29] Toma-se desnecessário dizer que Klausner mantém o ponto de vista amplo do conceito messiânico. Consideremos algumas das funções que o libertador enviado por Deus realizou em favor de Israel: (1) lutou contra as forças do mal, particularmente contra o endurecido Faraó, e saiu vitorioso; (2) aplicou julga­mento sobre todo o Egito; (3) libertou Israel do cativeiro; (4) proveu-o de água, alimento e carne quando errante no deserto (Êx 16.12-14); (5) julgou seus casos legais; (6) outorgou-lhe a Lei e preparou a sua organização civil; (7) serviu como porta-voz quando o pacto foi ratificado; (8) intercedeu quando os hebreus foram atacados por Amaleque (Êx 17.8-14) e quando o Senhor estava irado contra Israel; e (9) sofreu com o povo e ofereceu-se para morrer em seu favor. 

Voltando-nos agora para os críticos eruditos, especialmente aqueles que advogam fortemente o tema divino-régio-sacro como essencial para a compreensão do conceito messiânico. Aage Bentzen é claro em apontar a significa­ção messiânica de Moisés. Ele não acredita na veracidade do relato histórico como se acha registrado em Êxodo. Ao contrário, em sua discussão do Servo de Yahwéh proclamado em Is 42-53, ele acha que o Servo do Senhor é descrito como um novo Moisés — um Moisés "redivivus".[30]

Examinando a literatura disponível sobre o tema em discussão, toma-se bastante óbvio que, embora haja uma grande variedade de abordagens e avaliações da literatura bíblica a respeito de Moisés, há consenso geral sobre o fato de que o texto bíblico não permite outra conclusão: Moisés foi um media­dor entre Deus e a humanidade e, como tal, tem um papel messiânico signifi­cativo dentro do "corpus" da literatura bíblica. 

Moisés como Figura Messiânica 

Moisés, o homem, era uma figura messiânica. Muitos dos aspectos e traços que constituem o conceito messiânico estão presentes nele ou são expressos por ele. 

As circunstâncias do nascimento de Moisés revelam algumas sugestões messiânicas latentes, embora nenhuma sugestão advenha de seus parentes. Seu pai não tem importância especial, seu nome Amrão (nmrãm) significa "povo exaltado";[31] o nome de sua mãe Joquebede (Wkebed) é provavelmente uma combinação de yãh com kbd, "O Senhor é glória".[32] De significação messiânica foram o sofrimento e a agonia que os pais de Moisés tiveram de suportar por causa de seu filho. O decreto de Faraó que mandava matar todas as crianças hebréias do sexo masculino condenava à morte imediata o pequeno Moisés; portanto, ao tempo de seu nascimento, ele estava sob sentença de morte (Êx 2.2,3).[33]

O nascimento de Moisés no Egito tem notável similaridade com o nascimento de Jesus em Belém, que também esteve sob a sombra da morte quando Herodes decretou que todos os meninos de dois anos para baixo fossem mortos (Mt 2.16). A ordem de Herodes de matar esses inocentes não é mera correspon­dência histórica à tentativa de Faraó de destruir todos os meninos hebreus, inclusive Moisés. A ameaça egípcia era uma tentativa satânica de impedir a libertação de Israel do cativeiro e sua jornada para Canaã. A preservação de Moisés foi um ato preparatório do livramento de Cristo das mãos de Herodes e da fuga para o Egito (Mt 2.13-15). 

O livramento de Moisés de morte instantânea, arranjado por meio de cuidadoso planejamento por amorosos membros da família, foi providencialmente bem sucedido.[34] O nome Moisés dado à criança pela princesa egípcia não nos surpreende. Esse nome aparece como elemento constitutivo de nomes egípcios reais ou de alta categoria (Ramsés, Tutmoses). Podemos dizer, com boa evidência, que o nome Moisés (heb. MôSeh, n.t.) é derivado do termo egípcio mesi, que significa gerar[35] A princesa egípcia indicou assim que a criança que ela achou devia ser considerada como de nascimento real ou nobre.[36] Cristo, nascido em circunstâncias humildes, foi saudado como real e divino (Lc 2.9-12). O nome de Moisés, dado de acordo com a tradição da corte real egípcia, acrescenta credibilidade ao relato bíblico da criança de pais hebreus, encontrada num cesto no rio, tirada das águas, recebida na família real, e assim preservada para obra divinamente designada de livrar do Egito o povo eleito de Deus. Na verdade, no relato do nascimento de Moisés, as circunstâncias humildes e ameaçadoras estão misturadas com realeza, influên­cia e privilégio. 

As circunstâncias reais e humildes continuaram a misturar-se na vida de Moisés durante o período de sua criação e treinamento. Ele recebeu treinamen­to no conhecimento, habilidade e sabedoria do Egito (At 7.22; cf. Hb 11.25,26), que era privilégio especial dos membros da família real. Que ele foi reconhe­cido como príncipe e juiz no Egito é atestado indiretamente pelas palavras de um escravo hebreu que resistiu à tentativa de Moisés de parar uima briga entre ele e outro escravo hebreu (Êx 2.14)[37]

As circunstâncias humildes da vida de Moisés como pastor no serviço de um xeique midianita foram um aspecto necessário de seu treinamento para a tarefa que o esperava. O cultivo da paciência e da familiaridade com o deserto eram indispensáveis para o seu desenvolvimento como uma pessoa chamada para ser um "agente messiânico" em favor de Deus para o seu povo. Na verdade, em sua pessoa, Moisés foi preparado para tipificar Aquele que futuramente iria reivindicar a filiação na família real do Pai e que falou de si mesmo como o pastor que veio reunir as ovelhas errantes e dar sua vida por elas.[38]

Moisés, um Homem com Caráter Messiânico 

As precisas características do Messias incorporadas em Moisés já foram enumeradas antes por Joseph Klausner. Ele está certo em assim fazer. Em vez de apresentarmos uma discussão cronológica e compreensiva deste amplo assunto, enumeraremos cinco exemplos singulares. 

Primeiro, Moisés era um homem forte. Inicialmente hesitou, dando a im­pressão de que lhe faltariam a fé e a coragem (Êx 3.11,13). À medida que desempenhava süa primeira tarefa, ele cresceu em confiança e em expressão de força. Foi-lhe prometido Aarão como seu porta-voz e Moisés tomou-se como "Deus" para ele (4.16), e mais adiante para Faraó (7.1). 

Tempos depois, guiando e organizando os israelitas, Moisés demonstrou inequivocamente sua força e confiança. Ele estava convicto de seu chamado, de seu dever e da necessidade que Israel tinha de um homem como ele. A força de Moisés foi demonstrada por sua recusa a um comprometimento, como o que Aarão estava prestes a fazer, quando lhe pediram que moldasse o bezerro de ouro (Êx 32.1-6). 

Segundo, Moisés era um homem obediente. Ele nunca recusou diretamente as ordens de Deus. Desde que estava certo de que Ele o chamara, nunca voltou atrás. A vontade de Deus tomou-se a sua vontade, assim como Jesus Cristo freqüentemente disse que viera para fazer a vontade de quem o enviou (p. ex., Jo 5.24,30; 6.40). Isto está especialmente expresso num de seus últimos discur­sos a Israel, na Transjordânia (Dt 5-11). Sua obediência era genuína, mesmo quando proibido de entrar em Canaã, pois Moisés era basicamente puro de coração. Ele tinha uma simples devoção: servir a Deus e a seu povo.[39]

Terceiro, Moisés era um homem humilde (Nm 12.3). Essa humildade pode ter sido a razão de sua hesitação inicial. Ele estava certo da necessidade da tarefa gigantesca a ser realizada, mas não estava imediatamente convencido de que ele era o homem qualificado para assumir a responsabilidade. Sua humildade foi demonstrada quando sua irmã e seu irmão desafiaram sua liderança (Nm 12.3). 

Quarto, Moisés era um "homem público". Ele compreendia a lei. Ele serviu como porta-voz de Deus quando a Lei foi dada (Êx 20.1-17). Mas ele também compreendia a lei e sua aplicação às diversas circunstâncias da vida (cfv p. ex., Êx 21-23). Sua interpretação e aplicação da Lei às dimensões pessoais, sociais, cúlticas, políticas e judiciais da vida eram ordenadas por Deus. Mas Moisés, na situação real histórica em que viveu e trabalhou, formulou-as para Israel ouvir e obedecer. 

Quinto, Moisés era um homem compassivo. Dois exemplos particulares serão citados para apoiar essa afirmação. Quando o Senhor em sua ira ameaçou destruir Israel por causa de sua devassidão em tomo do bezerro de ouro, Moisés intercedeu pelo povo pecador (Êx 32.11-13); ele suplicou por misericór­dia e vida, e assim fez com base no próprio caráter compassivo, gracioso e misericordioso de Deus (34.6). De maneira semelhante, quando Israel foi afligido por serpentes venenosas e muitos deles estavam morrendo, Moisés intercedeu em favor dos pecadores e cumpriu as instruções de Deus para erguer a serpente de bronze num poste (Nm 21.7,8). 

Moisés como Agente Messiânico 

Seu Papel no Êxodo e nas Experiências do Deserto. Moisés deve ser consi­derado no ambiente histórico do êxodo de Israel do Egito e das experiências do deserto para que possamos saber plenamente porque o adjetivo messiânico pode ser aplicado a ele. Moisés deteve o lugar de maior importância no êxodo e nas jornadas pelo deserto. Sua importância é particularmente destacada quando o próprio êxodo se tomar compreendido. 

O êxodo do Egito foi um evento redentivo na aurora da história de Israel, comparável a nenhum outro evento subseqüentemente registrado na Escritura. Foi um acontecimento estupendo, prometido por Deus a Abraão (Gn 15.16); foi um tema central do discurso de despedida de Moisés; serviu como lembran­ça (Dt 6.21,22; 32.6); foi um ponto significativo na repetição final que Josué fez da fidelidade pactual de Deus aos hebreus vitoriosos Jo 24.5-7); foi cantado com muita freqüência pelos salmistas[40] e muitas vezes relembrado pelos Profetas Posteriores, tanto os maiores[41] quanto os menores.[42]

O êxodo foi antes de tudo o cumprimento das promessas que Yahwéh dera aos patriarcas. Quando Deus pactuou com Abraão (Gn 12.1-3; 15.5; 17.1-6; 22.17,18), prometeu numerosa semente que herdaria a Terra Prometida e habitaria nela. Yahwéh também esclareceu que a semente, antes de possuir a terra, tomar-se-ia uma nação, seria oprimida nos confins de uma terra estranha e finalmente "sairia" quando o julgamento viesse àquela terra (15.13,14). A libertação prometida era claramente uma promessa pactual. Cumprir a pro­messa era cumprir o pacto. Cumprir cada aspecto da promessa feita era, em sentido real, ratificar o pacto inicialmente feito com os patriarcas e mais tarde com a semente prometida.[43]

O êxodo, como evento redentivo, cumpriu vários eventos específicos que, tomados em conjunto, indicavam que ele era verdadeiramente um grande evento messiânico (o termo messiânico tomado em seu sentido amplo). O cativeiro de Israel, o cruel tratamento dado pelo Egito, a angústia e o clamor por libertação armaram o palco. A preparação singular e o caráter do chamado de Moisés para servir como agente para cumprir as promessas pactuais acres­centam novos elementos ao cenário.[44] A confrontação de Moisés com o auto- proclamado rei-deus do Egito e a realização de doze demonstrações do poder divino, dez das quais trouxeram julgamento sobre a terra inteira e a morte do príncipe primogênito do Egito, como último golpe, constituíram o ponto crucial do evento redentivo messiânico. A partida de Israel e os presentes recebidos dos egípcios constituíram o clímax (12.31-36). A destruição do exér­cito egípcio e a passagem a salvo de Israel através do Mar dos Caniços (yam-sup; cf. 13.18, NIV mg.) completaram a experiência do êxodo (14.19-31). Os episódios subseqüentes no deserto — provisão de água e de alimento, luz e sombra, proteção e vitórias, a formalização do pacto, a organização militar do povo, de seu culto e da vida social — tudo isso acrescenta ricas dimensões ao evento messiânico do êxodo, além de constituir em si mesmo eventos messiânicos como tais. 

É de suma importância compreender que o êxodo, constituindo um grande evento messiânico em cumprimento às promessas do pacto, não é o evento messiânico em si mesmo, para todos os tempos e lugares. Realmente, o êxodo e as experiências no deserto trouxeram redenção e liberdade. Israel foi tirado do reino das trevas espirituais e do cativeiro e lançado num lugar de bênçãos e liberdade.[45] Mas esse evento na vida de Israel foi efetivo porque, como o primeiro êxodo, foi um evento preliminar necessário que armou a cena para um novo, pleno e completo êxodo. O primeiro recebeu sua validação e efetivi­dade através do que se seguiu. Em resumo, o primeiro êxodo, efetivo e produtivo como foi, tomou-se o tipo; seu antítipo, a obra redentiva de Cristo, o novo êxodo, fez esse tipo efetivo.[46]

O papel de Moisés no primeiro êxodo é típico do papel do Messias enviado por Deus para realizar o segundo êxodo. O papel de Moisés é da maior significação para o primeiro êxodo, pois ele foi o homem por meio de quem e ao redor de quem todos os aspectos principais se desenrolaram. Sem Moisés não teria havido êxodo, assim como não teria havido o segundo êxodo, a libertação final e completa do cativeiro e da opressão, se não houvesse Jesus Cristo para executá-lo. 

O Servo de Yahwéh. A revelação messiânica no tempo de Moisés foi acentuada pela referência a Moisés, o agente messiânico, como "servo" de Deus. Isto é apoiado pelo título servo do Senhor (ebed yhwh) afirmado no fim da vida de Moisés (Dt 34.5) e tomado mais claro no Livro de Josué (foi Moisés quem deu a terra às tribos a leste do Jordão [Js 1.15; 18.7; 22.4] e a Lei de Deus [831; cf. 2 Rs 18.12; 2 Cr 24.6]). Em umas poucas passagens Moisés é designado como o "servo de Deus" (p. ex., 1 Cr 6.49; 2 Cr 24.9). 

O termo servo é também usado pelo profetas para referir-se ao Messias prometido que servirá como o grande agente da libertação e da bênção de Deus (Is 42.1; 53.11; Êx 34.23,24; 37.24,25; Zc 3.8). Ele também significa Israel como um todo — o povo é representante de Deus ou seu agente entre as diversas nações Js 24.29; Jz 2.8; 2 Rs 9.7; 10.23; SI 134.1). O termo foi usado também para Davi e sua posteridade. 

Este não é o lugar para entrar em extensa discussão sobre o termo 'ebed ("servo"), pois seria uma repetição do que se encontra em outras obras.[47] Em geral o termo servo refere-se a alguém que serve a, ou a favor de, outro. Moisés serviu em favor de Deus sobre toda a casa de Deus; foi-lhe confiada a Lei de Deus e ele provou-se digno de confiança cumprindo seu dever.[48] O aspecto profético surge em várias passagens em que Moisés é referido como servo. Isso, naturalmente, não retira nada do conceito de servo como mediador nomeado por Deus para representá-lo diante do povo. Esse papel mediador implicava os serviços de Moisés como porta-voz, redentor e libertador da parte de Deus. 

Suas Tarefas Messiânicas. Esses comentários precedentes indicaram a ma­neira em que Moisés agiu como agente messiânico. Especificamente, Moisés, o servo, o mediador, e o redentor do Velho Testamento, atuou como o agente messiânico de três maneiras: como profeta, sacerdote e rei. 

Primeiro, Moisés serviu como o porta-voz de Deus, comunicando verbalmente a mensagem pactual de Deus aos israelitas. Esse ato de servir como representante de Deus é vividamente narrado no livro de Números. O irmão mais velho de Moisés, Aarão, e sua irmã Míriam desafiaram sua autoridade, pretendendo que Deus falava também por meio deles (Nm 12.2).[49] Moisés não replicou (12.3); admiravelmente demonstrou mansidão. 

Quando Deus falou, porém, mencionou três pontos específicos. (1) Moisés era um profeta, levantado por Deus mesmo, e assim era o profeta de Deus, perante seus dois irmãos mais velhos e perante o povo (v. 6).[50] (2) Ele não devia ser considerado um profeta no sentido usual do termo, através de quem Deus faz sua vontade conhecida por meio de "visões" {mar' â, de ra’â, ver) e "sonhos" (fyâlôm) (v. 6). (3) Ao contrário, ele era uma pessoa especial a quem Deus falava "boca a boca" (peh ’el-peh) ou "face a face" (v. 8a). Essa apresen­tação de Moisés como o profeta por excelência indicava que ele era único como profeta e, como tal, servia ao Senhor da maneira como nenhum profeta o fizera. O Senhor estava indubitavelmente referindo-se ao seu diálogo com Moisés no Monte Sinai (p. ex., Êx 19.9,19; 24.12,15-18; cf. 33.11). 

Deve-se compreender que, servindo como porta-voz de Deus da maneira como o fez, Moisés foi um meio de revelação como nenhuma outra pessoa referida no Velho Testamento tinha sido ou havia de ser. Deus tinha-se comu­nicado de vários modos, por sonhos, visões, teofanias e por meio do Anjo do Senhor. Essas revelações tinham, sem exceção, se relacionado ao desenrolar da relação pactual de Deus com seu povo. Essa relação pactual é novamente o fator central em toda a revelação de Deus a e por meio de Moisés. 

O ponto focal dessa revelação é encontrado em Êx 19-24. Moisés, chamado por Deus, relembra a Israel o que Deus fizera (19.4), o que Deus estava fazendo e o que Israel seria (19.5,6). Moisés foi adiante para informar os israelitas que o seu Senhor pactual era santo e que eles tinham de ser um povo consagrado e santificado. Mais ainda, informou-os de que o Deus do Pacto era seu Senhor, Mestre, Legislador e Juiz, e que eles deviam ser um povo obediente (19.5). Mais ainda, foi a Moisés, e por meio de Moisés, após o pacto ter sido ratificado por um ritual apropriado (24.1-8), que Deus se revelou como um Deus terrível, majestoso e santo, vim Deus de radiante glória. Todas as revelações posteriores de Deus através de Moisés são repetições, expansões ou resultados dessa revelação culminante a Moisés e por meio de Moisés no Monte Sinai. 

Segundo, a obra messiânica de Moisés foi também executada no papel de sacerdote. Deve-se compreender que Moisés não oscilava do papel de profeta para o de sacerdote. As duas funções eram interrelacionadas quando ele atuava como servo de Deus para selar o pacto no Monte Sinai. Enquanto como profeta ele revelava os atos pactuais de Deus, servia simultaneamente como sacerdote no altar (Êx 24.3,4). Ele supervisionou os jovens que construíram o altar e imolaram os bois para o holocausto e para a oferta pacífica sobre o altar (24.5). Moisés, porém, tomou o sangue, servindo agora particularmente em função sacerdotal, e consagrou primeiro o altar, e depois o povo (vv. 6,8). Fazendo assim, ele selou a aliança da qual falara profeticamente.[51]

A obra sacerdotal de Moisés é belamente destacada no relato da adoração do bezerro de ouro. Moisés engaja-se em intercessão sacerdotal em favor do povo desobediente (Êx 32.11-13). Ele vai mesmo ao ponto de oferecer-se como substituto para Israel (32.32). Seu oferecimento não foi aceito, mas sua oração intercessória foi efetiva (v. 34). Yahwéh não destruiu seu povo. Depois que sua oração foi ouvida, Moisés chamou os que foram poupados à penitência e à submissão. Assim, as dimensões sacerdotal e profética da tarefa messiânica estavam novamente correlacionadas. 

É necessário fazer dois comentários: primeiro, Moisés, usado por Deus para estabelecer o ofício sacerdotal (Êx 29.1) e para ordenar seu irmão mais velho, Aarão, como sacerdote (Lv 8.2-36), não mais atuou como sacerdote, uma vez completada essa incumbência. (Quando a confusão e o caos político reinaram durante os anos finais do período dos juizes, o jovem Samuel, chamado por Deus para ser um profeta [1 Sm 3.1-10,19,20; cf. At 13.20], cumpriu também algumas tarefas sacerdotais — como servo no tabernáculo [3.1] e como sacrifi­cador de ofertas queimadas em Mizpa [7.9,10; cf. SI 99.6]). Segundo, assim como certos eruditos têm tentado criar um grande abismo entre os ofícios profético e sacerdotal do Velho Testamento, para o que não há base textual, outros eruditos têm procurado combinar os ofícios sacerdotal e real, para o que também não há base textual.[52]




Terceiro, Moisés, como agente messiânico, cumpriu quatro tarefas reais, ou régias. Na ausência de um rei, Moisés desempenhou os deveres reais e as responsabilidades de libertador, juiz, pastor e legislador.

A Moisés foi dado o mandato de livrar a semente de Abraão do poder e da opressão de Faraó e dos egípcios. Quando Deus chamou Moisés, informou-o de que, tendo visto e ouvido a miséria de Israel, Ele os resgataria das mãos dos egípcios (Êx 3.4-9). Instruído para tirar o povo de Deus do Egito, Moisés fez justamente isto (v. 10; 12.31).

Cumpre afirmar claramente: Deus livrou Israel do Egito; Moisés foi o agente da libertação. Deus determinou que seu povo fosse libertado do cativeiro (Êx 3.17); Moisés guiou os israelitas para fora do cativeiro por ordem específica de Deus (12.50,51). Moisés tinha de enfrentar Faraó e exigir dele a libertação de Israel. Para Faraó, Moisés seria como "Deus" (7.1). O rei do Egito tinha de render-se a Moisés e, assim fazendo, render-se a Deus. Moisés saberia que o rei tinha-se rendido a Deus quando Faraó dissesse: "Ide... levai também vossas ovelhas e vosso gado... ide-vos embora" (Êx 12.31,32). Depois de um longo conflito entre Faraó e Moisés, ou Deus, o governante egípcio realmente orde­nou a Moisés que levasse Israel para fora do Egito ("saí do meio do meu povo", 12.31). Assim Moisés tomou-se o grande libertador do povo de Deus.

Moisés, por ordem de Deus, tornou-se o agente de julgamento e destruição dos opressores do povo escolhido de Deus. Deus informou especificamente a Moisés que Ele estenderia a mão sobre o Egito e, assim, produziria poderosos atos de julgamento. Assim, os egípcios o conheceriam como Senhor quando estendesse sua mão contra eles (Êx 7.5) e os destruísse.

Moisés devia confrontar Faraó e adverti-lo do julgamento divino e da destruição que viria, fazendo seguir cada advertência por atos de julgamento. Moisés alertou o governante egípcio de que as águas do Nilo se converteriam em sangue (7.19,20), que rãs subiriam dos rios e canais (8.5,6), que o pó se tornaria em piolhos[53] (8.16,17). (Enquanto Aarão fez os gestos apropriados nas primeiras três pragas, Deus realizou a quarta e a quinta praga diretamente). Moisés, por odem de Deus, espalhou punhados de "fuligem" (NIV) ou "cinzas" (RSV) no ar e surgiram úlceras em animais e seres humanos (9.8,10). Um severo temporal de granizo veio depois que Moisés levantou seu bastão para o céu (9.22-26). De modo semelhante, a oitava praga (gafanhotos trazidos por um vento oriental enviado por Deus; 10.12-15) e a nona praga (três dias de trevas; 10.21-23) ocorreu depois que Moisés estendeu seu bastão.

O décimo e último ato de julgamento — a morte dos primogênitos — não aconteceu por nenhum ato de Moisés. Tendo advertido Faraó e instruído os israelitas a aceitar dos egípcios artigos de prata e ouro (Êx 12.35) e a preparasse para a Páscoa (11.2Al 2), Moisés e Aarão desaparecem, deixando o palco para Deus, que feriu a todos os primogênitos do Egito (12.29). Os agentes humanos do julgamento não serviram como agentes da morte dos primogênitos do Egito.

A notável interação entre o soberano Criador e Senhor dos céus e da terra e seu servo Moisés destaca a estreita relação que Deus mantém com seu povo à medida que Ele leva adiante seu plano de redenção. Deus livra seu povo quando traz julgamento sobre seus inimigos e opressores. Mas Deus toma do meio do seu povo o libertador, para servir como seu agente no meio do povo e em favor do povo.[54] Neste aspecto Moisés claramente tipifica Cristo, que era plenamente homem ("carne", Jo 1.14), nascido de uma mulher (G14.4), viveu no meio de seu povo e serviu no meio dele e em favor dele. A íntima interação entre Moisés e Deus aponta para frente, para a miraculosa interação entre Deus e o homem em Jesus Cristo, que era plenamente Deus e homem numa só pessoa (cf. F1 2.5-8).

Moisés serviu como o pastor para o povo libertado de Deus. Os reis são citados como pastores em vários documentos do antigo Oriente Médio.[55] Assim eles são chamados nos livros bíblicos, por exemplo, Davi (SI 78.70-72), e também os reis de Judá, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias, que não agiram responsavelmente (Ez 34.2-4,10). O Senhor mesmo é também referido como Pastor — pelos salmistas (SI 23.1; 80.1), Isaías (Is 40.11) e Jeremias (Jr 31.10; possivelmente 17.16). Moisés faz o papel de pastor para o povo liberto de Deus de vários modos.

Moisés guiou o povo de Israel através do Mar Vermelho (Êx 14.21-24,29) e do deserto (15.22). Guiar, um aspecto integral da tarefa de qualquer pastor, deve ser compreendido tanto no sentido estrito de ir à frente quanto no sentido amplo de orientar em várias dimensões da vida individual e comunitária. E, finalmente, levou-o à sua meta: a Terra Prometida.

Moisés proveu para o povo. Quando tiveram sede, ele levou-os às águas ou proveu-o de fontes não usuais (Êx 15.22-25; 17.1-6). Quando tiveram fome, Moisés proveu pão e carne (Êx 16). Quando precisaram de meios para o culto, de novo Moisés os guiou e providenciou para que o tabernáculo e sua mobília e utensílios se tornassem uma realidade no meio de Israel (Êx 35-38).

Moisés protegeu o povo. Quando atacado por inimigos, ele orou com as mãos levantadas e assim tomou-se o salvador-protetor do povo (Êx 17.8-13). Ele permaneceu entre eles e Deus quando Israel pediu proteção ante as mani­festações apavorantes da presença de Deus (Êx 19.16).

A figura do pastor, como descrita no SI 23 e em Ez 34, certamente se aplica a Moisés. Embora Moisés não fosse um rei ungido, em sua pessoa e obra ele forneceu, em muitos aspectos, o modelo e o ideal para os reis que mais tarde reinaram sobre Israel e Judá. Os reis ungidos que reinaram em séculos poste­riores foram julgados bons e sábios, ou maus e insensatos, de acordo com os padrões que Moisés estabeleceu. Poucos reis elevaram-se até as alturas desses padrões: Davi, Salomão e Ezequias podem ser considerados seguidores desse modelo e tipos de Jesus Cristo. Assim, Moisés é precursor e tipo de Jesus Cristo, o grande Pastor e a verdadeira semente de Abraão.

Moisés foi o legislador para Israel e o juiz e governador do povo. Essas três funções sempre foram consideradas aspectos integrais de qualquer posição de governo. Deve ser acrescentado, entretanto, que Moisés nunca procurou ser rei, nem jamais foi considerado rei. Mas era uma pessoa que exercia a autori­dade de um governante absoluto.

Israel era um povo desorganizado quando foi libertado da escravidão e guiado para fora do Egito, uma verdadeira "multidão misturada" (Êx 12.38). Daí, tomou-se primordial organização, ordem e regulamentação. A organização foi feita rapidamente porque Israel mantivera sua estrutura tribal. Líderes, anciãos e juizes escolhidos das doze tribos receberam autoridade para funcio­nar dentro das respectivas tribos (Êx 18.21-26). Mas a necessidade de ordem, harmonia e unidade entre as tribos como um povo era tão importante quanto dentro das próprias tribos. Israel tinha de viver e demonstrar que não era apenas um povo escolhido e libertado, mas também uma nação que tinha a forma política de um reino,

Umas das maiores responsabilidades de Moisés era colocar a Lei de Deus diante do povo. Deus reiterou que seu pacto estava com eles como tinha estado com seus pais (Êx 2.24). O pacto, um laço de amor e comunhão vital, incluía tanto promessas quanto preceitos. As promessas tinham sido dadas séculos antes a Abraão (Gn 15.5-8; 17.1-8; 22.15-18). Era dever de Moisés imprimir em Israel as responsabilidades, deveres e estilo de vida do pacto.[56] Portanto, é corretamente considerado o mediador do pacto divino[57] bem como o legisla­dor [58] Por trás de Moisés está Deus mesmo como a fonte da lei. Ele revelou-a;Ele deu-a ao seu povo do pacto, Israel; Ele proferiu os Dez Mandamentos (Êx 20.1-17); Ele escreveu-os (Ex 24.12). O povo, em resposta, tremeu ao ouvir a voz de Deus; ele pediu a Moisés que lhe fosse seu mediador e porta-voz (20.19). A instrução do Decálogo é expressamente afirmada como revelação de Deus a Moisés (21.1). Assim também os regulamentos para o culto no tabernáculo (25.1). Portanto, Deus era, é e continua a ser a fonte soberana de autoridade e poder para governar; Deus é o soberano que exerce o direito de organizar, governar, dirigir e guiar seu povo. Mas Moisés serve como seu agente e pode fazê-lo porque foi chamado, autorizado e capacitado para isso. A relação entre Deus e Moisés, por iniciativa de Deus, era íntima, estreita, viva e indestrutível.

Dizer que Deus deu a Lei é correto. Mas é igualmente correto dizer que Moisés a deu. Nessa relação e interação entre Deus e Moisés na área de governar e legislar, Moisés é adequadamente considerado um tipo de Cristo que, também, tinha essa relação íntima, porém, de um modo mais rico, pleno e completo, com o Pai a quem servia como Governante e Legislador.[59]






[1] Gerhard von Rad está certo quando nota que nos escritos do Pentateuco "não é Moisés mesmo, Moisés o homem, mas Deus que é a figura central. As insignes palavras de Deus e os feitos de Deus constituem o que os escritores pretenderam escrever" (Moses, World Christian Books, n° 32 [Londres: Lutterworth, 1960],p. 9). Minha discordância é com a referência de von Rad a escritores; Moisés escreveu sobre os feitos e palavras de Deus. 


[2] Dois ensaios que tratam indiretamente desta matéria são: Meredith Kline, 'The Old Testament Origins of the Gospel Genre", WTfòÜ (1975): 1-27; e Gerard Van Groningen, 'That Final Question", em honra a Oswald T. Allis, The Law and the Prophets, ed. John H. Skilton (Nutley, N.J.: Presbyterian and Reformed, 1974), 253-271. Von Rad, em seu Moses, é mais explícito, sugerindo que há uma estreita correlação entre a obra de Moisés e a de Cristo (p. 80). 


[3] E na maioria das traduções em português (n.t). 


[4] Elias Auerbach, Moses, trad, de R. A. Barclay e I. O, Lehman (Detroit: Wayne State University Press, 1957), p. 7. 


[5] Cf. Harold H. Rowley, From Moses to Qumran (New York: Association, 1963), p. 36 (cf. William F. Albright, From Stone Age to Christianity,2a. ed. [Baltimore: John Hopkins University Press, 1957], pp. 88,119). 


[6] Ver Julius Wellhausen, Prolegomena to the History of Ancient Israel (New York: World, 1965), p. 6, a propósito da ausência de uma "unidade literária" no meio de uma "simples quantidade histórica" nos livros do Pentateuco, que vieram depois (não antes) dos profetas (ibid., pp. 3,5). Wellhausen fala da presença de Moisés no tempo da origem de Israel, embora não com a mesma voz da Escritura (ibid., em seu ensaio sobre "Israel", p. 438). 


[7] Eduard Meyer, Die Israeliten und ihre Nachbarstaemme (190G) p. 415, n. 1 (dtadopor JackFinegan, Let My People Go [New York: Harper, 1972], pp. 39,136). 


[8] Martin Noth, A History ofPentateuchal Traditions, trad, de Bernard W. Anderson (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1972), cap. 7; The History of Israel, trad, de P. A, Ackroyd (New York: Harper,1960), esp. pp. 134-136; e Exodus: A Commentary, trad. de J. S. Bowden (Londres: SCM, 1962), esp. as seções sobre o nascimento de Moisés (pp. 24-27,40,134). 


[9] Noth, Exod us, p. 40. 


[10] Noth, History of Israel, p. 136. 


[11] Cf. o ensaio de Edward F. Campbell, "Moses and the Foundation of Israel", Int. 29/2 (1975):142. 


[12] Entre os autores que mantêm posição igual a de Noth está Rolf Rendtorff, Men of the Old Testament [Londres: SCM, 1968], pp. 20-22; e James Plastaras, The God of the Exodus [Milwaukee: Bruce, 1966]). 


[13] John Bright, Early Israel in Recent History Writing, 3aed. (Londres: SCM, 1981), caps. 2,4 (cfsua History 


[14] Cf. a acusação de William F. Albright àqueles hipócritas que negam o "caráter substancialmente mosaico da tradição do Pentateuco" (Archeology of Palestine, p. 224); e mais: sua observação de que não é necessário ser tão "cauteloso" como Noth em relação à "posição intermediária" pois nesse meio tempo muito conhecimento novo foi adquirido (From Stone Age to Christianity [Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1957], p. 253, n. 76); cf. seu "Moses in Historical and Theological Perspective", em Magnalia Dei, eds. Frank M. Cross, Werner D. Lemke e Patrick D. Miller, Jr. (Garden City: Doubleday, 1976), pp. 120-131. 




[15] Cf. a citação de George E. Mendenhall do livro de Bright, Kingdom of God, referente à posição de que "o primitivo Israel... constituía a soberania de Yahweh" (The Tenth Generation [Baltimore: Johns Hopkins Univer­sity Press, 1973], p. 1, n. 1; cf. "o Israel primitivo era oReino de Yahweh" [ibid,, p. 206, n. 17]). Ver também uma afirmação mais antiga de que "diversos fatos acerca da história primitiva de Israel são bem aceitos" ("Covenant Forms in Israelite Tradition", BA 17/3 [1954]:62; cf. p. 76). 


[16]Finegan, Let My People Go, p. 41; ver também p. 43: Moisés era "uma pessoa real a respeito de quem podemos esperar aprender muita coisa". 


[17] O livro de Dewey M. Beegle, Moses, Servant of Yahweh (Grand Rapids: Eerdmans, 1972) foi elogiado por afirmar que Moisés foi o "comunicador da revelação divina", por F. F. Bruce (prefácio ao livro de Beegle, p. 8; ver também a natureza histórica da travessia do Mar Vermelho [pp. 144-150] e o recebimento do maná [pp. 176-183] conforme apresentados por Beegle); e como alguém que crê "na historicidade essencial dos relatos de Moisés e do Êxodo e aceita Moisés como líder histórico de seu povo e o grande legislador", por Siegfried H. Horn, deão emérito do Seminário Teológico da Andrews University ("What We Don't Know about Moses and the Exodus", BAP3/3 (1977):22-31). Ambos criticam Beegle. Bruce confessa ser "mais cético do que o Dr. Beegle acerca da análise das fontes literárias" (Moses, Servant of Yah weh,p.7), e Horn não pode ver qualquer progresso nos esforços de Beegle de "desemaranhar a complexa teia de fontes" de que os compiladores supostamente hauriram). 

Horn refere-se a dois outros autores que escreveram sobre Moisés e que, como Beegle, aceitam a historicidade essencial de Moisés e do êxodo, a saber, D. Dackies, Moses, the Man and His Vision (New York: Praeger, 1975), e Moshe Pearlman, In the Footsteps of Moses (Jerusalém: Steimatzky, 1973). 


[18]Umberto Cassuto, Commentary on the Book of Exodus, trad. Israel Abrahams CJerusalém: Magnes, 1967), p. vi. 


[19] Yehezkel Kaufmann, The Religion of Israel trad. de Moshe Greenberg (Chicago: University of Chicago Press,1960), p. 224 (cf. seu "Historical Testimony of Moses", ibid., pp. 224-229). 


[20] Não se devem negligenciar as questões concernentes às alegadas discrepândas, inconsistências e anacro- nismos históricos que são freqüentemente usados como ponto de partida para apresentação das alegações da crítica. 

Outras fontes incluem: Theophile J. Meek, Hebrew Origins (New York: Harper and Row, 1936,1960), esp. pp. 204-228; W. A. Meek, TheProphet-King(Leiden: Brill, 1967); Haiold H. Rowley, "Moses and the Decalogue",em Men ofGod (Londres: Nelson, 1963); Harry M. Orlinsky, Ancient Israel (New York: Cornell University Press, 1960), pp. 35-42; A. C. Welch, "Moses in Óld Testament Tradition", em Kings and Prophets of Israel, ed. N. Porteous (Londres: Lutterworth, 1952); J. Robertson, The Early Religion of Israel, Baird Lectures 1889 (Londres: Blackwell, 1892); Th. C. Vriezen, The Religion of Israel, trad. de Hubert Hoskins (Filadélfia: Westminster, 1967). 


[21] P.E. Eller, The Yahwist, The Bible"sFírst Theologian (Notre Dame, Ind.: Fides, 1968), pp.4-19. 


[22] Cf. Roderick Campbell, em Israel and the New Covenant(Filadélfia: Presbyterian and Reformed, 1954), p. 144. 


[23] Cf. nossa discussão no cap. 6, subtítulo 'Tipologia Messiânica", 


[24] Vos, Biblical Theology, p. 118. 


[25] Ibid.,p.ll9 


[26] Cassuto, Commentary on the Book of Exodus,p.2‘, ver pp. v-vii sobre a preservação dos fatos históricos referentes à vida de Israel e à sua partida do Egito. 


[27] Ibid., p. 17 


[28] Ibid., pp. 18,19. 


[29] Joseph Klausner, TheMessianicIdea in Israel, trad. de W. F. Springstine (New York: Macmillan, 1955), esp. pp. 15-19. Klausner rejeita especificamente a asserção de vários eruditos de que a idéia messiânica só poderia ter nascido depois que reis reinassem em Israel: (1) Os profetas não chamam a seus reis "messias"; e (2) os reis não trazem características messiânicas. Moisés, entretanto, as traz. Klausner cita os autores do Talmud e do Midrash que chamam a Moisés "seu primeiro redentor". 


[30] Aage Bentzen, KingandMessiah (Oxford: Blackwell, 1970), pp. 65-67. 


[31] Cf. os comentários de Cassuto sobre o lugar de Amrão na genealogia de Moisés: "uma tradição dos israelitas" assinala que os hebreus permaneceram no Egito 430 anos (cf. Êx 12.40), que pode ser harmonizada com outra tradição bíblica de que houve quatro gerações no cativeiro: Levi, Coate, Amrão e Moisés (cf. Gn 15.13) (Commentary on the Book ofExodus, pp. 86,87). 


[32] O nome Joquebede sugere fortemente que o nome divino de Yahwéh era conhecido entre as tribos israelitas. A afirmação de H. H. Rowley de que Joquebede era uma quenita baseia-se em mera conjectura (FromMoses to Qumran, p. 56). 


[33] Howard J. Phelp, em Freud andReíigious Beü'e/(Barrie and Rockcliff, 1958) mostrou que o ponto de vista de Freud é absolutamente insustentável (p. 44). Freud sustenta que houve dois homens de nome Moisés. O primeiro era um filho ilegítimo de uma princesa egípcia que tentou libertar Israel. Devido a um ódio enraizado por seu pai desconhecido, esse Moisés I foi morto. Mas sua memória permaneceu na consciência racial israelita e ele foi identificado por Israel com um líder posterior. 


[34] Foi Moisés uma criancinha real nas águas do rio? Alguns têm negado esse fato, referindo-se a uma lenda segundo a qual Sargão, o grande rei assírio (cerca de 2350 a.C.) foi tirado, quando infante, das águas do rio (cf. John A. Wilson, "The Legend of Sargon", ANET, p. 119). Uma versão dessa lenda assíria foi descoberta entre as tabletes deTell El-Amarna (que datam do tempo do Faraó Akhenaton, cerca de 1370-1353 a.C.), o que evidencia que a história também era conhecida no Egito. 

Há três possibilidades: (1) A família de Moisés conhecia a lenda assíria e usou-a para salvar o menino Moisés; (2) o faraó ficou tão impressionado com Moisés que escreveu sua própria versão dessa história; e (3) não há nenhuma conexão entre os dois relatos. (Cf. Willem H. Gispen, Exodus, trad. de Ed Vander Maas, &?C(Grand Rapids: Zondervan, 1982), p. 42. 


[35] Cf. Plastaras, God oftheExodus,p. 42. 


[36] Os judeus têm uma lenda segundo a qual a princesa egípcia era Bitia (Bityâ) "filha de Faraó" (cf. 1 Cr 4.17,18 (cf. Finegan, LetMy People Go,p. 44). Seu nome pode significar "filha" (bot) "de Yahwéh" [Yãh), ou "filha de Tfyâ" (uma das filhas reais egípcias) (cf. J. K. Hoffmeier, "Moses", ISBE, 3.417). 

Em seu comentário sobre Êxodo, Gispen diz que "Moisés" significa "nascido do Nilo", um rio deificado no Egito (cf. "Exodus", BSC, p. 42). 

O nome hebraico Mãàeh significa "tirado" (/7i5Sâ;cf.Êx210);Isaíaspode ter feito um jogo de palavras: "Moisés (o que foi tirado)... feito subir do mar" (Is 63.11). Joseph Klausner, em The Messianic Idea ofIsrael (p,15) insiste em que a palavra mõáeh é um particípio ativo (cf. Hoffmeier, "Moses", ISBE, 3.417), 


[37] Não há a menor parcela de verdade em favor da idéia de Casselle de que Moisés foi um escravo recrutado para servir como escriba na corte egípcia. 

É difícil determinar se Gemente de Alexandria tinha fontes confiáveis para afirmar que Moisés serviu como general nos exércitos egípcios e derrotou as forças etíopes. O historiador judeu Flávio Josefo pretende o mesmo (Antiguidades, 2.10.1-2; cf. Femand E. d'Humy, WhatManner ofMan WasMoses?[New York: Library, 1955], pp. 81,82). 


[38] Cf. Gaubert, p. 16. 


[39] Cf. D. L. Cooper, Messiah: HisNature andPerson (Londres: Biblical Research Society, 1933), pp. 50-65. 


[40] Num contexto marcial (SI 68.7-9)/ recordando o pacto de Deus (105.23*40), relembrando os sinais de Deus (135.8,9; cf. 78.11,12) e num salmo de ação de graças (136.10-15) (aludido em SI 78.12-14; 933,4; 95.8-11; 103.7). 


[41] Os profetas maiores: Isaías (433; cf.52.4), Jeremias (2.6; 7.22; 11.4; 16.14) e Ezequiel (205,6). 


tí. Profetas menores como Oséias (11.1; cf. 12.13), Miquéias 6.4; 7.15), Ageu (2.5) e Zacarias (10.10). 


[43] Em seu Mosaic Age, Charles Briggs dá a Êx 19.3-6 o sentido de que Moisés é o mediador da promessa de Deus a seu povo (p. 102). 


[44] Edward J. Young, "The Call of Moses", WTJ29 (1967):117-135; 30 (1968):l-23 (cf. "Deus apareceu a Moisés e encarregou-o da tarefa da libertação", 29.135), 


[45] Vos, Biblical Theology, pp. 125,126. 


[46] Vários eruditos escreveram a respeito da relação entre o primeiro êxodo e o segundo êxodo tomado pcssível por meio de Cristo. Ver Meredith Kline, 'The Old Testament Origins of the Gospel Genre", WTJ38 /I (1975);l-27; I. W, Reest, "The Theological Significance of the Exodus", JETS 12/4 (1969):223-232; e Willem H. Gispen, "De Christus in het oude Testament", Exegetica 1/5 (1952):8-30. Dewey Beegle limita a significação à evidência "da preocupação de Yahwéh e sua ajuda especial" (Moses, p. 143) e assim descarta a plena significação teológica do evento do êxodo e do papel divinamente ordenado de Moisés como mediador messiânico, Wilhelm Vischer, em seu Witness ofthe Old Testament to Chríst, revela uma compreensão mais ampla desse significado (Londres: Lutterworth, 1949), cap.3,pp. 166-212. Sua exaltada ênfase na significação cristológica deve ser notada. Bentzen dá especial relevo à significação teológica do êxodo ao relacionar a figura de Moisés com a do Servo sofredor citado em Is 53 {King and Messiah [Oxford: Blackwell, 1970], p. 65). O caso que ele desenvolve, entretanto, é inaceitável por causa dos "motifs" do Tammuz que ele emprega para dar uma base racional ao conceito do servo. 


[47] Cf. Emst Hengstenberg, Christology ofthe Old Testament, trad. Theodore Meyer, 2 vols. (Edimburgo: T. & T. Clark, 1968), 2.196-208,220-230 (sobre o Servo em Is 4249); 260-310,337-342 (sobre o Servo sofredor em Is 52.13-53.12); N. Hellyer, "The Servant of God", .£(241/3 (1969); I. Howard Marshall, "Son of God or Servant of Yahweh — A Reconsideration of Mark 1.11", NTS15/3 (1969): 326-336; Lewis Mudge, "Servant Lord and His ServantPeople”, ScJTYl (junho 1959):113-128; L. A.Snijders, "Knechten of Bedienden", A/7T(junho 1962).Todas as principais obras sobre Teologia Bíblica do Velho Testamento discutem o conceito em seus vários usos. 

Gerhard von Rad limita a função do novo servo à de profeta (cf. Old Testament Theology, trad. de D. M. G. Stalker, 2 vols. [Londres: Oliver and Boyd, 1962], 2.259, n. 36, onde ele cita Mowinckel, He That Cometh, pp. lB7ss.). 

Walther Eichrodt acerta em cheio quando se refere ao servo como basicamente uma figura redentora (Theology ofthe Old Testament, trad. de J. A. Baker, 2 vols. [Filadélfia: Westminster, 1961], 2331,332). (Cf. 1.482-485), Echrodt acentua também corretamente o papel mediador de Moisés na história primitiva de Israel (cf. 1289-296). 


[48] Ver Edward J. Young, MyServants, theProphets (Grand Rapids: Eerdmans, 1952), pp. 51-55 (cf. Nm 12.7). 


[49] Cf. a excelente discussão dessa passagem por W.H.Gispen,7Vume.raCOT (Kampen: Kok, 1959) pp. 196-201; também Young, My Servants, the Prophets, pp. 38-42. 

Por outro lado, a exegese dessa passagem por John Marsh e a exposição por Albert G. Butzer oferecem muito 

pouca substância (IB [1953] 2.200,201). 


[50] * Bdy yhwh (servo do Senhor, Nm 12.7) tem apresentado aos exegetas alguma dificuldade. John Marsh elide a frase (Numbers, em IB, 2.202); Edward J. Young está preparado para interpretá-la "do (from) Senhor", ou "de Jehováh", ou a dar-lhe a mais forte expressão possível da relação entre Deus e Moisés, seu profeta (My Servants, 

the Prophets, p. 48). 


[51] Os estudiosos têm discutido a relação bíblica entre sacerdotes e profetas. T. H. Robinson (The Religions of Israel) argúi que havia um conflito básico entre eles: os sacerdotes, representando cultos que tinham sido tomados de empréstimo aos cananeus, recebiam a oposição dos profetas. A. E. Welch, em ProphetandPriestín OldIsrael (Oxford: Blackwell, 1953) sumariza a posição de Robinson e discorda dela, observando que Israel já entrou em Canaã com um culto. "Mas, enquanto a religião de Israel se desenvolvia, havia o perigo de que o culto original se perdesse inteiramente. Sacerdote e profeta, cada um de sua própria posição, uniram-se para enfrentar esse perigo" (p. 145). 

Martin Woudstra, in "The Religious Problem — Complex of Prophet and Priest in Contemporary Thought", C771/1 (abril 1966), refere-se à discussão sobre se o papel da igreja na sociedade contemporânea é sacerdotal ou profético. Ele examina brevemente a posição que os estudiosos do Velho Testamento têm tomado em relação ao suposto conflito. Ele conclui que os dados do Velho Testamento apóiam o ponto de vista de que os profetas requerem um motivo verdadeiro para a participação no culto, pelos sacerdotes e pelo povo (ver esp, pp. 42-48). 


[52] Esse fato, isto é, a falta de conhecimento do VT com relação ao tema da realeza sacra, já mencionamos neste capítulo e discutiremos mais extensamente no cap. 9. Neste ponto seria bom. lembrar a questão que Joseph KUusner levantou: Era Moisés a figura messiânica do Velho Testamento? A resposta de Klausner é afirmativa: Moisés serviu tanto como líder messiânico quanto como sacerdote. 


[53] Assim está na tradução de Almeida. O texto em inglês usado pelo autor tem "gnats", isto é, "mosquitos" (n.t.). 


[54] Cf. Gerard Van Groningen, "That Final Question", em The Law and the Prophets, ed .J.Skilton, pp. 263-271. 


[55] William F. Albright crê que a tradição referente a Moisés é "fortemente apoiada pela analogia histórica e... por um volume de indícios que está crescendo rapidamente pelas descobertas feitas por arqueólogos e filólogos" ("Moses in Historical and Theological Perspective", em Magnalia Dei, eds. Frank Cross, Werner E. Lemke e Patrick D. Miller, Jr. [Garden City: Doubleday, 1976], p. 120). 

Siegfried Horn explicou que o ensaio de Albright supracitado é uma condensação dos caps. 6 e 7 de sua obra •História da Religião de Israel" (não concluída), que sua família não permitiu que fosse publicada postumamente {ÕARlQ/l [1984]:68). 


[56] A relação entre pacto e lei tem sido discutida, entre outros, por Dewey Beegle, Moses theServant ofYah weh (Grand Rapids: Eerdmans, 1972),pp.207-209,254í255;Meredith Kline,The Treaty ofa GreatKing (Grand Rapids: Eerdmans, 1963), pp. 13-48, e By Oath Consigned(Grand Rapids; Eerdmans, 1968), pp. 26-38; e E. F. Kevin, The Moral La w (Jenkintown, Pa.: Sovereign Grace, 1963), esp. cap. 11, "A Lei como Pacto" (pp. 95-100). 


[57] Cf.,p.ex., Patrick Fairbairn, The Revelation ofLa w in Scripture (G rand Rapids: Zondervan, 1957) pp. 83-89. Kevin, MoralLaw,-p.98; e Vos, Biblical Theology,pp. 121-143. 


[58] A Escritura testifica repetidamente que a Lei veio por meio de Moisés. Deus deu a Moisés a sua Lei (Êx 24.12) para ensinar a outros (Dt 15; cf. 4.44) e ele deveria relembrá-la ao povo no término de sua liderança (Dt 33.4). 

Há uma forte tradição referente ao "Livro da Lei de Moisés", o qual Josué citou (Js 8.31; 23.6) e de acordo com o qual Amazias agiu (2 Rs 14.6; paralelo, 2 Cr 25.4). 

Esdras, depois do exílio, era um "escriba versado na Lei de Moisés" (Es 7.6) e leu-a (Ne 8.1), enquanto Malaquias, o último dos profetas do Velho Testamento, insistia para que o povo se "lembrasse da Lei de Moisés" (Ml 4.4). 

Em o Novo Testamento João, o Batista, compara a Lei de Moisés com a graça e a verdade que vieram por Jesus Cristo (Jo 1.17). Jesus apelou para a lei de Moisés (7.19), igualando essa legislação à '"Lei do Senhor" (Lc 2.22-24), Paulo cita a lei mosaica a respeito de não atar aboca do boi que debulha (1 Co 9.9, cf. Dt25.4), enquanto o autor de Hebreus alerta contra os perigos de rejeitar a lei mosaica (Hb 10.28). 

O Judaísmo sempre aceitou Moisés como o legislador; o consenso geral de seus membros é que Abraão é o pai, mas Moisés é o fundador da sua nação de Israel. 

Os estudiosos modernos têm debatido a presença e o papel de Moisés, como mencionamos antes (cf. Elias Auerbach, Mos es, trad. R, A. Barclay e I.O. Lehman [Detroit: Wayne State UnJversity Press, 1975]; Martin Noth, A History ofPentateuchal Traditions, trad. Bemard W. Anderson [Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1972], cap. 7/e Exodus: A Commentary, trad. J. S. Bowden [Londres:SCM, 1962];e. alguns dos seguidores de Noth: Rolf Rendtorff, Men of the Old Testament [Londres: SCM, 1968]; e James Plastaras, The God of the Exodus, [Milwaukee: Bruce, 1966]), 

Dewey Beegle não nega o envolvimento de Moisés na entrega da lei aos israelitas, mas sua aceitação de uma variedade de "tradições mistas" lança incerteza sobre qualquer papel histórico que Moisés tenha tido nisso. Sua afirmação de que "a história está eriçada de dificuldades" é um grande exagero (Moses, p. 200). Sua avaliação da perspectiva conservadora como "simplista por não reconhecer a estrutura das narrativas" é tudo, menos benevolente (cf. George W. Coats, Moses HeroicMan, Man of God [Sheffield: Academic, 1988] p. 12, sobre o "interesse dominante de Beegle em reconstruir a história7'). 

Os estudiosos conservadores estão muito conscientes do que os estudiosos que usam métodos críticos estão dizendo; e também estão cônscios da falta de acordo entre esses críticos. Uma apresentação popular, em forma de romance, dos pontos de vista da erudição crítica em relação a Moisés pode ser encontrada em T. Keneally, Moses the Lawgiver (New York: Harper, 1975). O material bíblico apresentado por Keneally é essencialmente incorreto. Ele apresenta uma falsa imagem de Moisés porque não aceita o testemunho bíblico a respeito de Moisés e os israelitas. Keneally mostra, sem dúvida, como a erudição crítica moderna destrói a veracidade do relato bíblico sobre o cumprimento das promessas pactuais de Deus a Abraão e seus descendentes. 


[59] Há uma inegável tensão no relacionamento entre a Fonte divina e o agente humano. A relação entre Deus e Moisés não era essencialmente diferente da que existe entre Deus e outros escritores bíblicos. Isso quer dizer que a lei dada por Moisés ao povo tinha, como a Bíblia inteira tem, um caráter divino e um caráter humano. De forma similar há uma relação única entre a divindade e a humanidade em Cristo. 

Essa íntima interação entre divindade e humanidade e o caráter resultante da Escritura e do próprio Cristo continua a ser discutida. J. D. Muhly, resumindo e sustentando a posição de T. L. Thompson e J. Van Seters, reconhece como válido para estudo e pesquisa acadêmicos somente o que foi registrado no tempo em que os fatos ocorreram. Pelo fato de que nem Moisés nem os evangelistas escreveram quando os fatos ocorreram, deduz-se que o Pentateuco e os Evangelhos não são historicamente confiáveis. A assunção subjacente a esta posição é que Deus e os autores da Bíblia não interagem como Fonte e escritores humanos. 

Em The Authority and Interpretation ofthe Bible, Jack B. Rogers e Donald K. McKim sugerem que há uma separação entre a divina/digna-de-confiança e a humana/não-confiável forma de Escritura (São Francisco: Harper, 1979). Embora esses dois autores apelem para Abraham Kuyper, Herman Bavinck e Gerrit C. Berkou wer, sua posição é inimiga da Escritura e da interpretação reformada da mensagem de Deus (cf. R. B. Gaffin, "Old Amsterdam and Inerrancy", WTJ44 (1982):250-289; 45 (1983):219-272.

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.