23 de abril de 2015

Gerard Van Groningen: O Discurso de Jacó (Gn 49)

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O Discurso de Jacó (Gn 49) 

Há uma passagem bíblica das mais importantes que trata do conceito messiânico na era patriarcal, isto é, o discurso de Jacó a seus filhos (Gn 49.2-27), particularmente a Judá (49.8-12). Suas palavras tratam do passado, do presente e do futuro de cada um dos doze filhos.[1] Como referimos antes neste capítulo, José recebeu reconhecimento como príncipe e abundantes bênçãos. Mas ele não foi designado primogênito dos filhos de Jacó; ele não recebeu os direitos de primogenitura. Nem os recebeu Rúben, o verdadeiro primogênito, nascido de Jacó e Lia. Coube antes a Judá tal designação, e em termos régios. Em verdade, a José tinha sido dada autoridade real e poder para servir como agente de redenção; nisto ele foi tipo de Cristo. Jacó, entretanto, designou Judá como o ancestral específico e precursor do rei prometido. 

Difículdades Textuais 

O material desta passagem é difícil de reunir e condensar. Poucas passagens bíblicas têm dado oportunidade para tanta discussão. Uma das razões disso é que a passagem tem vários elementos: histórico (referências ao passado); poético e simbólico (em forma literária e riqueza no uso de termos tomados ao mundo animal e vegetal); profético (referência ao último dia); de sabedoria (conseqüências advindas de eventos passados). O debate tem sido acalorado também sobre a autoria: é o discurso de mais de um autor ou vem de um só autor? Diferenças em relação ao tempo da composição também são grandes: tem sido colocado quase que em qualquer tempo desde 1800 a.C. até os tempos pós-davídicos. Mas a mensagem do texto, isto é, o discurso de Jacó, tem sido o ponto crucial nessa discussão. 

No tempo em que Moisés incorporou o discurso de Jacó no registro da revelação do pacto, ele teve indubitavelmente boas razões para fazer isso. Consideremos o lugar do acampamento ao redor do tabernáculo e a ordem de marcha. Por que a tribo de Judá é nomeada primeiro e recebe posição central? E por que seria essa a tribo que lideraria a procissão quando a assembléia inteira se movesse? (Nm 10.14). Por que a tribo de Rúben foi colocada no lado sul do campo (2.10) e era a segunda na ordem de marcha (10.18)? Por que a tribo de José (a de Manassés e Efraim) não estava colocada à testa da procissão? Por que essas duas tribos foram colocadas no extremo oeste do acampamento (2.18-20) e tiveram a terceira posição na ordem de marcha? (10.22). Por que Simeão e Levi não foram colocados antes de Judá, seu irmão mais novo? Poderia a tribo de Levi provavelmente esperar uma posição de liderança porque Moisés era dessa tribo?[2] A razão porque nem ao mais velho nem a José foi dado o papel de liderança tem sua explicação na bênção e na profecia de Jacó, contra quem não podia haver nenhuma divergência. 

Estudiosos modernos, de inclinação crítica, têm levantado questões a respeito da confiabilidade histórica desse relato, de Jacó reunir seus filhos e dirigir-se a eles. Outros têm observado aí problemas literários. Mas nenhuma nova evidência tem sido apresentada para justificar qualquer dúvida a respeito da historicidade do discurso de Jacó em bases literárias.[3]

Fatores históricos de interesse são os quatro seguintes: (1) Jacó estava avançado em idade e doente (Gn 48.1). Portanto, José tomou a iniciativa de ir a seu pai com seus dois filhos para receber a bênção de primogênito (Gn 48.1,2). Como, porém, Jacó recebeu os dois filhos de José como seus próprios, ele pronunciou a bênção em termos das promessas do pacto. (2) Ele, então, chamou seus doze filhos para reuni-los ao redor de seu leito e falou-lhes numa ordem não usual: primeiro, os seis filhos de Lia, dos quais Judá era o quarto, depois os filhos das servas e, finalmente, os filhos de Raquel, José e Benjamim (49.1-27). (3) Ele falou a seus filhos em termos de seus caracteres e de alguns de seus feitos passados. Ele não se referiu a grandes eventos nacionais, mas sim a indivíduos e membros de todo o clã. (4) Nenhum dos eventos históricos referidos como futuros é específico e nenhum reflete uma série específica de eventos ou um evento histórico isolado.[4]

A conclusão a que se chega quando os aspectos literário, histórico, teológico e profético[5] do texto são tomados seriamente é que o próprio Jacó disse essas palavras a seus doze filhos na forma em que elas estão registradas. Ele assim o fez, compreendendo que, como seu pai, tinha de falar a cada um. Falou-lhes em suas circunstâncias presentes; em alguns exemplos ele refletiu sobre traços específicos do caráter e do procedimento passado de seus filhos e, então, dirigiu-se a eles em relação ao futuro.[6]

As Imagens Literárias Usadas por Jacó 

Já nos referimos ao conjunto de imagens que Jacó emprega em seu discurso a seus filhos. Este é certamente o caso em sua mensagem a Judá e a respeito dele. Além disso, Jacó usa alguns termos e frases longe de comuns para descrever seu quarto filho. 

Jacó dirige-se a Judá pessoalmente como o fizera anteriormente a Rúben.[7] Ele dirigira-se a Rúben como seu primogênito e fala dele como a força, o vigor, o poder e a honra de seu pai (Gn 49.3), qualidades que, no entanto, se tinham dissipado pela conduta incestuosa (Gn 35.22). Então, depois de dirigir-se a Simeão e Levi na terceira pessoa (49.5), fala a Judá, e com um elemento de surpresa e admiração (49.8).[8] Assim Jacó descreve Judá: 


Judá, tu és aquele que louvarão teus             yèhüdâ ’attâ yôdâkâ ’
 irmãos:                                                         ahêkã
a tua mão estará sobre a cerviz                 yãdèk ã’ bê'õrep 
de teus inimigos;                                              ’oyèbêkã
inclinar-se-ão                                                  yistahãwu
diante de ti os filhos de teu pai.                  lèkã bènê 'ãbtkã'
Judá é um filhote de leão:                         gür ’aryêh yèhúdâ
 da presa, 
filho meu,                                                            mifíerep bènt 
subiste:                                                            'ãlítã
encurva-se, deita-se como um leão,               kãra' rãbaç kè’aryHh
e como leoa;  quem o despertará?                   âkèlãbt’ mt yèqímmennú
O cetro não se arredará                                     lõ-yãsúr SSbe
( de Judá                                                              míhúdâ
nem o bastão  de entre os seus pés                      ümèhõqiq mtbbên raglãyw 
até que venha Siló                                                  'ad bí-yãbõ Sílõh
e dele será a obediência                                      wèlõ yiqqèhat
dos povos.                                                         'ammím.
                                                     [Gn 49.8-10]


Note-se também que, depois do duplo vocativo "Judá, tu" (yêhüdâ ’attâ), Jacó acrescenta o sufixo kã tanto ao verbo quanto ao sujeito nominal (yôdükâ ’ahèkã = "te louvarão os teus irmãos"). A ordem normal das palavras de uma sentença hebraica não é seguida aqui, o que aumenta ainda mais o efeito visado. Sem sombra de dúvida, Judá foi destacado para receber atenção, e muito mais! 

Yada é a raiz da qual o termo Judá é derivado. O sentido léxico é "atirar" ou "lançar para a frente" em várias línguas semitas. Em hebraico, o hiphil usado no texto acentua o reconhecimento de alguém a quem é dada atenção. Esse reconhecimento pode tomar a forma de ação de graças, elogio, louvor. Quando nasceu Judá, o quarto filho de Lia (Gn 29.35), o fato deu razão a Lia para deixar de lado sua preocupação com o reconhecimento de Jacó, seu esposo, pois ele já a havia reconhecido como esposa fértil. Agora ela se volta para o Senhor com ação de graças e louvor e dá a seu filho o nome de "Judá", ou "gratidão". 

Jacó, em seu discurso a Judá, destaca o fato de que seus irmãos não hão de dar graças por ele, mas a ele; o próprio Judá será objeto de gratidão e louvor. Isto é surpreendente, porque Judá realmente não se destacara como líder. É verdade que ele havia falado em favor da vida de José sugerindo sua venda como escravo (Gn 37.26,27) e também se oferecera como refém por Benjamin (43.9). Mas havia outro lado em Judá: ele deixou de fazer justiça a sua nora e não hesitou em tomasse adúltero (38.11-27). 

Diz-se de Judá que ele teria a sua mão sobre o pescoço (bè'õrep) de "seus inimigos" (õyèbêkã). ‘Erer significa aquela parte superior do corpo onde cresce o cabelo; o termo é tomado para referir-se especialmente à parte posterior do pescoço. A figura da mão de Judá sobre o pescoço de seus inimigos evoca a idéia de inimigos em fuga que, perseguidos, são forçados à submissão. Foi, portanto, posta diante de Judá a perspectiva de vitória depois de luta e perseguição como esperado traço de seu futuro. 

Os irmãos de Judá hão de "inclinar-se" diante dele. O verbo ’sãtah tem vários matizes de significado em suas diferentes formas verbais. O hithpael usado no texto significa prostrar-se diante de um superior. Em contexto de culto, o termo significa adorar. Pode também referir-se ao adultério espiritual. Jacó usou o termo para indicar submissão a um governante, um monarca. Portanto, Judá, e não José, foi posto diante dos irmãos como a pessoa régia em seu meio. Mais ainda, os irmãos não participariam diretamente dessa preemi­nência real; eles deveriam reconhecê-la e, de diversos modos, beneficiar-se da dominação de Judá sobre eles. 

Para expressar a preeminência e o poder de Judá são empregados três termos estreitamente relacionados entre si (49.9) O gür é o filhote de leão. A imagem é de um animal jovem, brincalhão, travesso, lutador e vigoroso, que se vai desenvolvendo até tomar-se uma poderosa e terrível fera. O ’aryêh é o leão adulto, caçador, representado como agachado, pronto para saltar. Toda a habilidade e poder do "rei dos animais" está à mostra e pronta para ação instantânea no desejo do triunfo total. Lãb´ é a leoa que, tendo caçado e trazido alimento para seus filhotes, está repousando, mas de modo vigilante e protetor. Quem ousaria perturbar uma leoa triunfante no meio de seus filhotes? Tenta­tivas de interpretar isso com o significado de estágios na vida da tribo de Judá (leãozinho = primeiros estágios; leão = tempo de Davi; e lendo-se "leão velho" em vez de "leoa" = o período subseqüente ao tempo de Salomão) não foram bem sucedidas.[12] Skinner está certo: os três termos apresentam um quadro vívido do crescimento do poder, do valor e da preeminência.[13] A leoa é uma expressão poética, pitoresca e poderosa do desenvolvimento de Judá e o tema final de sua realeza e vitória. 

O conceito da realeza exercendo domínio é expresso mediante dois termos comuns em sociedades primitivas. Sêbef era a vara do pastor, usada para dirigir, castigar, golpear ou matar. Na mão do chefe ou governador era um cetro, um símbolo de poder e autoridade.[14] Aqui se afirma que esse cetro não se apartará de Judá. 

A frase o bastão de entre os seus pés (mêhõqêq mibbên raglãyw) pode ser considerada, ou como paralelo sinonímico de Sêbet (Gn 49.10, RSV, NTV),[15] ou como referindo-se a outro conceito, o de legislador.[16] O substantivo mèhõqêq ("bastão de comando", KoB, p. 328), especialmente, tem ocasionado muita discussão. Sua raiz verbal significa inscrever ou cortar, isto é, estabelecer um decreto de forma permanente. O termo no texto é o particípio ativo do polel e se refere na maioria dos exemplos ao aparecimento ou de alguém que (1) proclama a lei, (2) inscreve a lei que lhe é ditada, ou (3) governa e executa a lei.[17] Uma vez que o contexto definitivamente tem Judá como a pessoa em vista, deve ele ser considerado aquele a quem cabe pronunciar, inscrever e executar o decreto necessário para ser o que traz o cetro de poder, autoridade e julgamento. O termo seria visto, portanto, como correlativo com Sêbef; cada termo acrescenta significado e apóia o outro. 

Poucas passagens da Escritura têm dado ocasião a tanta discussão quanto a frase hebraica 'ad ki-yãbõ’ Silõh ("Até que venha Siló").[18] A frase em si mesma, seja qual for seu objetivo específico, não contradiz a idéia de realeza e de seu exercício por Judá. O assunto é, em última análise, a duração da preeminência real de Judá e de seu exercício de poder e de autoridade. 

'Adki é uma conjunção que se refere a tempo e é usualmente traduzida como "até que". Assim, o intento da frase é compreendido como um período de tempo até um ponto especificado.[19] A frase é usada de forma a sugerir que os fatos ocorridos até um determinado ponto no tempo levam aos fatos que se seguem e realmente os induzem. Assim, chegár-se-á a um ponto em que ocorrerá uma real mudança sem que haja uma disjunção radical, isto é, o que estava acontecendo continuará, mas de um modo diferente ou por meio de outro agente. 

O verbo yãfcõ’ está na terceira pessoa do singular. Na sintaxe hebraica, o sujeito usualmente segue o verbo; daí, na frase, Silõh deve ser considerado o sujeito. A frase, então, significaria que Judá exerceria a realeza até que Silõh a assumisse. Se fosse imediatamente óbvio a quem ou a que a palavra Silõh se refere, a questão do sujeito do verbo, isto é, daquele que tomaria a prerrogativa real de Judá, não seria difícil de responder. Silõh, entretanto, é um termo difícil e seu significado governa a intenção da frase. 

O nome Shiloh (silõh) não se refere ao lugar onde o tabernáculo foi erguido séculos mais tarde. Siló, como local, não tinha significação no tempo de Jacó, até o ponto que os estudiosos podem determinar. Portanto, sugerir, como alguns têm feito, que Jacó profetizou a respeito de um lugar desconhecido realmente não é uma opção. Jacó não se referia a um lugar de culto. Se o fizesse, seria difícil determinar o que é dito a respeito de "Siló". Seyãbõ’ for traduzido como "chegar ao fim", então a frase significará "até que Siló chegue ao fim". Isto, naturalmente, não tem sentido, pois não responde a perguntas como "fim de quem?" ou "como chegará ao fim?" Alguns consideram a idéia de "vir a Siló", mas o texto não sugere a idéia de movimento em direção a algo. Mais difícil ainda seria responder à pergunta: "quem há de vir a Siló?"[20]

Têm sido sugeridas emendas ao termo hebraico. Calvino leria Sil mais o sufixo da terceira pessoa[21] e traduziria como "seu filho", mas ele parece compreender que Sil não tem o significado de "filho".[22] Outros têm tentado derivar o termo de Sã’al, pedir, isto é, até que venha aquele que foi pedido (Sèilõ).[23] E. A. Speiser sugere que se poderia emendar yãbõ’ para ler yõbãl, e Silõh para ler Say lo, produzindo a leitura "até que tributo seja trazido para ele".[24]

Outros têm procurado uma raiz verbal. Aqueles que sugerem Sãlah (enviar), seguindo Jerônimo, preferem a leitura "até aquele que é enviado". Calvino acha a sugestão plausível, mas não a adota, porque a emenda requerida não lhe parece aceitável. Se o verbo Sãlah for considerado como a raiz, então a idéia de repouso ou prosperidade está diante de nós. A American Revised Version aceita isso como possível, traduzindo a frase "until the passive one arrives". Mas isto é uma contradição de pensamento.[25] Skinner está certo em seu ponto de vista de que um estudo etimológico não conduz a resultados satisfatórios.[26]

A possibilidade de que o termo Silõh seja composto, isto é, uma combinação de elementos de outros termos, já foi sugerida. Calvino reproduz uma velha tentativa de combinar Sãlal (saquear ou extrair) com hü’ (ele) e então eliminar a letra h, de modo que o resultante Silü seria lido: "o seu extraído", significando "seu filho a ser nascido". Mas esta sugestão não recebeu qualquer apoio.[27]

Os rabinos criam que Ez 21.27 (v. 32 em hebraico) fornecia a chave.[28] Eles sugeriam que na passagem de Gênesis o pronome relativo ’ãSer e a preposição a (lè) foram assimilados; a letra aleph (’) caiu e a letra resh (r) assimilada à letra lamedh (1) produzindo-se Sellô (a quem é devido). Keil, porém, mostrou que o conceito hebraico de ’aSer fica sem sentido e que não há nenhuma outra passagem bíblica em que a palavra seja assimilada do modo sugerido (KD, 1.394). 

Os escritores da Septuaginta tomaram algumas liberdades na tradução dessa frase hebraica especial para o grego: Heõs ean elihê ta apokeimena autõ ("até que venham as coisas postas para ele"); os rabinos que produziram a Septuaginta combinaram ’ãSer lô e acrescentaram a idéia de tributo ou dons. Os eruditos concordam que essa tentativa leva a uma liberdade excessiva para alterar e interpretar o texto. 

Finalmente, outros eruditos têm ido a fontes semitas cognatas em busca de uma solução. Sigmund Mowinckel diz que é o termo poético Suèlü, que significaria governador, tomado do acádio.[29] Nõtscher, Driver e Eisler, independentemente entre si, chegaram à mesma conclusão. Entretanto, esse ponto de vista também tem sido chamado de um mito lexicográfico; mas o raciocínio subjacente a essa rejeição não é convincente.[30]

Em suma, há um acordo generalizado em que o termo hebraico Stlõh não se refere a um lugar, que as emendas não oferecem soluções satisfatórias quanto ao seu significado, que os estudos etimológicos não lançam luz sobre os problemas e que os esforços de encontrar elementos de vários termos não lograram obter concordância. É muito difícil saber, com qualquer grau de certeza, o que, especificamente, Jacó tinha em mente quando usou tal termo obscuro.[31] È fato que a esse termo, único de sua espécie (hápaxlegómenon) não tem sido atribuído um sentido unânime. Se tivermos de escolher, cremos que o termo suèlu, tomado de empréstimo aos povos semitas das vizinhanças, oferece uma solução aceitável. Há razões para essa escolha: a frase seu governante certamente adapta-se ao contexto; Judá exercerá prerrogativas reais até que venha o seu governante para assumi-las ele próprio.[32] Até esse tempo, Judá servirá em seu lugar. Esse ponto de vista está também em harmonia com a mensagem de Ezequiel (Ez 21.23-27). 

A última frase do verso 10 dá apoio adicional ao conceito de realeza na passagem. A conjunção hebraica wèlô (e a ele) mantém diante do leitor o governante que virá de e seguindo Judá. Judá, o cabeça tribal, terá sua mão sobre a cerviz de seus inimigos. Mas aquele que o seguirá terá a obediência voluntária e alegre dos povos ('ammim) — não em seus agrupamentos nacionais, mas de todos os povos, independentemente de sua identidade étnica ou nacional. 

Pode ser argumentado que Jacó se estava referindo tanto a Judá como a seu sucessor, depois de ter introduzido a idéia do governador que havia de vir. Isto se toma particularmente óbvio no que Jacó prossegue dizendo a seu filho. 

Os dois versos seguintes (49.11,12) são ricos em imagens tomadas do ambiente rural. Alguns têm falado delas como termos poéticos que Jacó usou para descrever as abundantes bênçãos reservadas para Judá e particularmente a seu sucessor. Há um elemento de extravagância na figura do jumento e seu jumentinho, animais de carga que representam um estilo de vida humilde e primitivo, tendo permissão de comer as videiras — conseqüência natural de serem amarrados a elas. 

A referência ao vinho pode ser interpretada de vários modos. A lavagem das vestes "em vinho" (49.11b) seria compreendida como o suco da uva que mancha e enxarca as roupas daqueles que pisam as uvas? O pisar das uvas no lagar e o esguichar do suco vermelho nas roupas são símbolos de trabalho penoso, luta, sofrimento e até morte (como a de um dos dois príncipes midia- nitas num lagar Jz 7.25]); algumas vezes o lagar que Deus pisa "sozinho" (Is 63.3) é um símbolo da ira de Deus (Ap 14.19,20; 19.15). Porém, vinho pode também sugerir o embotamento dos olhos devido ao seu abuso, bem como o bem-estar e a alegria que ele pode trazer. Mas desde que a passagem fala da vermelhidão dos olhos fica aberta a hipótese de Jacó estar falando de prosperidade misturada com labuta e sofrimento. O uso de leite (v. 12b) indubitavel­mente sugere boa saúde e bem-estar geral. 

Em resumo, pode ser dito que Jacó fâla de grande prosperidade para Judá e seu sucessor real, que será partilhada por todos sob o seu jugo. Mas luta, sofrimento e derramamento de sangue também podem ter sido aludidos; a prosperidade não é sem preço. 

A Mensagem Profética de Jacó 

Revelação Divina. A mensagem proclamada por Jacó deve ser considerada primeiramente como real mensagem de Deus revelada por meio dele. Assumir isto é colocar-se contra posições que contam com muito apoio entre os críticos modernos. 

A idéia de que os textos proféticos na Bíblia contêm reflexões sobre aconte­cimentos passados ou presentes não é disputada por eruditos evangélicos ou conservadores. Ninguém pode discutir que Jacó, como pai, falou no seu momento histórico e que refletiu esse momento quando serviu de porta-voz para seu Deus. Portanto, o ponto a ser destacado é este: por meio de Jacó, Deus estava revelando o que se devia esperar no desenvolvimento da vida divina­mente planejada e controlada de sua progénie.[33]

A idéia de que Davi, rei de Israel, era o homem que o orador ou escritor tinha em mente quando a referida passagem foi primeiro escrita é inaceitável. Isto não é negar que Davi seja referido em algum sentido. Como um dos descendentes de Judá, ele era um que havia de reinar. O que é julgado inaceitável é a posição crítica de que nenhuma personalidade do Velho Testamento poderia ter falado de Judá como alguém que havia de empunhar a vara e o cetro, até que o primeiro da tribo de Judá realmente reinasse, isto é, até Davi.[34]

A idéia largamente aceita de que uma revelação em forma proposicional é impossível até que os atos de Deus (leia-se: eventos históricos) tenham acontecido e que os homens os tenham observado, refletido sobre eles e formulado seus pontos de vista em forma "proposicional", isto é, em discurso racional, comunicável, não é apoiada pela interpretação exegética (Gn 49.8-11). A refe­rida passagem não apresenta reflexão que revele um estágio na atividade teológica. Até pelo contrário, a referida passagem apresenta a revelação de Deus, dada em forma verbal, que informa coisas a respeito do futuro, dando orientação ao pensamento, planejamento e esperança dos filhos de Jacó, e que era e é uma fonte original e base de reflexão teológica. 

Aspectos Importantes da Mensagem Profética. Vários elementos devem ser destacados como partes importantes da mensagem profética de Jacó. Através de Jacó, o Senhor deu instrução sobre como a progénie do patriarca deveria ser organizada e regulada. A profecia era mais a respeito das tribos do que de um simples homem. Ela se refere especificamente ao corpo da semente do pacto que constitui o núcleo do povo de Deus no Velho Testamento. Nessa organi­zação e regulamentação uma tribo deveria ser preeminente, tendo autoridade e poder de controlar, dirigir e guiar nos assuntos do povo como um todo. Pode dizer-se que aí foi traçado um amplo esboço para o governo do povo de Deus." 

Judá foi claramente designado para ser a pessoa e a tribo diretora, controladora e lideradora. Mas, na sua designação, o fator digno de louvor foi introduzido. Esse louvor seria expresso por toda a comunidade, o que, por sua vez, reflete unidade. A progénie de Jacó deveria ser um corpo de louvor unido sob o preeminente Judá. 

Judá foi indicado como o que havia de cumprir o papel mediador. Ele o tinha exercido antes, voluntariamente, em favor de seu irmão mais novo Benjamin e de seu idoso pai. Agora Judá foi designado como o representante do Senhor perante a comunidade e também da comunidade perante o Senhor. Houve referências ao papel mediador antes; Abraão devia servir desta maneira entre o Senhor e as nações (Gn 12.3). Agora que o papel mais amplo poderia ser apropriadamente executado, um mediador é dado à comunidade mediatorial — um entre os seus irmãos. 

O papel mediador que Judá deveria assumir seria o de alguém preeminente, tendo autoridade, poder e os meios de exercê-lo. Em suma, seria o mediador ré­gio, em seu caráter, posição e prerrogativas. Judá foi designado como o que de­via governar (cetro), guiar (vara) e conduzir em batalha para adquirir a vitória. 

Judá recebeu a garantia de que seria vitorioso sobre seus oponentes. Tendo a mão sobre a cerviz de seus inimigos, ele batalharia, certamente triunfaria e submeteria nações inteiras ao seu jugo. De fato, as próprias nações, no devido tempo, de bom grado lhe prestariam obediência. A batalha a ser travada pela semente de Jacó, de Abraão e de Adão deve ser entendida em termos da irrevogável hostilidade que o Senhor tinha pronunciado e colocado entre a semente da mulher e a semente da serpente. 

Judá recebeu a autoridade e o poder necessários para funcionar como o mediador real combatendo todas as forças do mal. As referências variadas ao leão representam-no claramente. O leão era preeminente no mundo animal: era o rei no campo e na floresta; todos tremiam quando ele rugia;[35] e sua autoridade era suprema. 

A Judá foi prometida prosperidade. Os meios naturais e físicos requeridos para cumprir seu papel de mediador régio estariam prontamente acessíveis a ele. De fato, ele os teria em abundância. Como a Abraão, Isaque e Jacó fora assegurada riqueza para servir como homens de renome e influência, assim seria com ele. 

A passagem mantém diante de nós a idéia coletiva e individual da realeza. Judá seria uma tribo, mas desse todo coletivo emergiria um rei singular. Esse indivíduo preeminente seria separado. É oportuno reafirmar que o debate entre os estudiosos, com poucas exceções, não é em torno da referência a uma pessoa real, isto é, a um rei — há acordo quase universal sobre isto. A divergência é quanto a ser esta uma profecia preditiva de um rei que emergiria de Judá. Na passagem não há nenhuma indicação de que o governante pessoal, soberano, já esteja presente. A idéia de tal grande personagem é apresentada, a idéia de sua vinda é claramente indicada. 

O rei pessoal por vir é proposto em molde climático nesta singular profecia. Judá é referido como a pessoa preeminente. Quando, porém, Jacó prosse­guiu usou a terceira pessoa. Ainda falando a Judá na presença de seus irmãos, Jacó falou de outra pessoa que, inseparável de Judá e da comunidade sobre a qual este deveria reinar, era, não obstante, distintamente discemível. Judá, o homem, era importante, mas Judá, a tribo, não o era menos; e o verdadeira­mente preeminente era a pessoa régia que viria, que deveria surgir de um homem e de uma comunidade. Essa insigne pessoa seria o governador, o vencedor, o realizador próspero. Ela é que receberia obediência, louvor e honra. 

O governante preeminentemente real e o triunfante mediador foi indicado como o meio pelo qual a palavra falada a Abraão havia de ser cumprida (Gn 12.3). Todas as nações seriam abençoadas por Jacó, não somente quando viessem a ele, como os profetas mais tarde proclamariam (p. ex., Is 2.3,4; Mq 4.1), mas como uma comunidade mundial voluntária, submissa, governada, servindo e adorando. 

Resposta à Mensagem de Jacó 

A questão diante de nós é se houve uma resposta à mensagem profética de Jacó. Não há registro do que os doze filhos disseram em resposta ao discurso de seu pai. Do relato que se segue sabemos que a vida continuou seu curso, com José como governador do Egito e seus irmãos sob seu governo (Gn 50.14-22). Judá não reclamou prerrogativas reais. Ao contrário, ele, seus irmãos e suas famílias estavam com medo de José, o ministro egípcio (50.15). Eles eram pastores, estrangeiros na terra. Tinham sido os traidores de José e enganadores de seu pai. José poderia vingar-se (50.16-18). Sua ansiedade deixa ver que não tomaram as vívidas palavras de Jacó como uma palavra segura de profecia. Seu futuro podia ser determinado pelo seu poderoso irmão. A reação de José diante do medo dos irmãos é um reconhecimento da direção e controle sobe­ranos de Deus sobre sua vida pessoal, a deles e a de suas famílias. José estava preparado para deixar que a vontade de Deus operasse no presente e no futuro, como o havia feito no passado (50.19,20). 

Teria Jacó, ele próprio um pai, correspondido à mensagem profética incisiva que ele proclamara? Em sentido real, o problema da psicologia da profecia está diante de nós. Em que extensão a própria personalidade de Jacó estava envol­vida? De que provável maneira Jacó refletia suas próprias circunstâncias imediatas? Poderia a reação de Jacó à mensagem que ele próprio proclamou ser deduzida de um estudo de seu envolvimento pessoal e das influências de seu ambiente? 

Bruce Vawter procurou explicar o uso, por Jacó, de símbolos e conceitos religiosos ou teológicos em termos do ambiente cananeu. Vawter pretende que esse discurso atribuído a Jacó vem do final do período dos juizes, antes do cântico de Débora (Jz 5.2-31) e reflete um estágio antigo no desenvolvimento da vida religiosa de Israel. No discurso há uma tosca transmutação de conceitos cananeus em pensamento hebreu. Vawter baseia seu ponto de vista numa comparação da poesia ugarítica de outrora com o discurso de Jacó.[36]

Vawter afirma que há uma identidade básica nos padrões de linguagem e de pensamento, mas admite prontamente que eles são gerais e vagos. Ele conclui que Jacó não tomou diretamente emprestado, antes refletiu o mundo cananeu como parte dele. Portanto, Jacó expressou-se basicamente como um cananeu. Os principais elos de ligação discemíveis são: (1) o uso, por Jacó, de um touro em relação a Simeão e Levi (Gn 49.6b), reminiscência de uma deidade ugarítica; (2) a referência a Judá como leão e leoa reflete o tema da deusa-leoa cananéia (do sul da Palestina); (3) as próprias palavras de Jacó concernentes a Zebulom "na praia dos mares" deveriam ser lidas como "Zebulom governa as praias dos mares", como faz o deus do mar ugarítico 'am; (4) o nome Dã acha sua origem no ugarítico Danil; e (5) a bênção de Jacó a José é ininteligível, a menos que sejam feitas algumas emendas para pôr o hebraico em linha com o ugarítico: porat tomado para, sur tomado sor, ul feito suck, abir feito abbir.[37]

Um estudo cuidadoso da tentativa de Vawter de apresentar o discurso de Jacó como um hebreu emergindo da vida, cültura e religião cananéias leva a uma rejeição definida de seu ponto de vista. As poucas similaridades entre Jacó e o ambiente cananeu circunvizinho são vagas e indefinidas, ao passo que as dessemelhanças são numerosas, claras e pronunciadas. A necessidade de uma emenda drástica reforça a necessidade de rejeitar o ponto de vista de Vawter. Essa rejeição não ignora o fato de que Jacó nasceu no sul da Palestina, que viveu no norte da Palestina, perto de Ugarit, por vinte anos ou mais, e que depois viveu na área imediatamente ao sul de Ugarit. Jacó viveu no país cananeu. Mas Jacó não era um cananeu, nem por seus ancestrais nem por suas concepções religiosas básicas. Jacó, ainda que fosse um enganador, era, não obstante, filho de Isaque e de Abraão e adepto de sua fé. Em seu discurso aos filhos ele refletiu sua própria vida pastoril e agrária em Canaã. E nesse ambiente ele indubita­velmente aprendeu a usar termos que os cananeus empregavam. Jacó empre­gou-os, porém, para expressar-se como alguém que conhecia, adorava e servia ao Deus do pacto de seus antepassados. 

Há três pontos adicionais a serem considerados quando estudamos o envolvimento pessoal de Jacó na palavra de Deus, que ele proclamara em seu leito de morte, e sua resposta a ela.[38]

Jacó expressa surpresa por Judá ser designado por Deus para ser o portador da linha da semente do pacto. Note-se a exclamção: "Judá, tu... teus irmãos te louvarão" (Gn 49.8a). A formulação única dessa frase ressalta particularmente a surpresa de Jacó. Como já mencionamos antes, tinham sido dadas a José várias indicações de que era ele quem seu pai esperava e desejava fosse o herdeiro da dupla bênção, bem como o que fosse servir como primogênito para levar adiante a herança especial da família. 

A convicção e o fervor religiosos de Jacó são evidentes. Ele não fala com hesitação ou com falta de interesse ao proclamar o caminho do Senhor para cada um de seus doze filhos, mesmo quando simultaneamente notava as próprias características peculiares dos filhos e, em alguns casos, sua conduta passada. Para Jacó, Deus, o Senhor do pacto com o clã patriarcal, era o Senhor de seus filhos, da vida individual de cada um, bem como de seu futuro. Ele, como pai, não controlava o destino individual ou coletivo dos filhos. Isso estava na mão do Senhor. Seus destinos, variados e misturados como eram, estavam seguros. Eles eram filhos da promessa. Eram filhos que realizariam sua herança na terra que haviam deixado e à qual certamente retomariam. 

Jacó expressa esperança (49.18). Diferenças de interpretação dessa frase centralizam-se na dúvida sobre se ele teria dito que esperava ser salvo do venenoso ataque de seu filho Dã (v. 17). É verdade que a expressão de esperança de Jacó segue-se imediatamente à declaração sobre os caminhos serpentinos de Dã. Se, entretanto, considerarmos a situação de Jacó no Egito depois das provações e agonias de sua vida, bem como o conhecimento que ele tinha das promessas a seu avô e a seu pai acerca de uma terra com abundantes bênçãos, então esta expressão de esperança de livramento se refere a muito mais do que aos tortuosos ardis de um filho. Jacó expressou sua resposta ao que ele sabia que era o futuro assegurado de sua família pactual. Ele, como pai, tinha indubitavelmente meditado, e talvez às vezes teve também dúvidas, sobre o futuro de sua família. Seriam eles libertados do Egito? Seriam libertados das vicissitudes da vida em Canaã? Haveria ali um lugar de repouso e estabilidade para eles? Haveria um lugar para ele e sua família no meio das nações vizinhas? E, como base, haveria ali comunhão com Deus e o usufruto de suas bênçãos? O idoso Jacó havia esperado por isso. Via agora que suas expectativas não tinham sido em vão. Tendo esperado, ele esperaria ainda. Mas havia um futuro assegurado. Todos os doze filhos e mais os dois filhos de José iriam participar do cumprimento da promessa dada a Abraão, Isaque e a ele, Jacó. E ele sabia agora qual era a chave da realização dessas promessas divinas. Judá seria o príncipe preeminente e poderoso, o líder vitorioso e abençoado da semente de Abraão, Isaque e Jacó. Judá seria a semente até que a Semente surgisse de sua progénie. Jacó tinha esperado. Enquanto esperava, tinha já experimentado a realidade antecipada. 

A Significação Messiânica 

Chegou a oportunidade de responder à pergunta: Como esta precisa passagem é especificamente messiânica? Em que aspecto pode ser assim conside­rada? 

E. A. Speiser explicou o método "precário" dos rabinos e intérpretes judeus, pelo qual eles afirmaram que esta profecia referia-se a Davi. O próprio Speiser queria manter a referência indefinida, no máximo apontando para uma idéia geral de reino. Emst Hengstenberg discute a predisposiçção de muitos eruditos judeus de tempos mais distantes em assegurar que Gênesis 49 falou do reino aos filhos de Jacó. Mas muito antes do ministério de Cristo sobre a terra, eruditos judeus já haviam sido mais específicos: eles apontaram para o Messias pessoal a respeito de quem Jacó falara. É evidente que ao longo dos séculos eruditos judeus vieram a tomar-se hesitantes em assegurar que essa profecia se refere a um reino judeu, pois isso abre a porta para a idéia de um Messias. 

Mowinckel considera a presente passagem messiânica de maneira tipoló- gica. Ele está convencido de que o orador original não tinha um governante pessoal em mente. Mais tarde, porém, quando um rei surgiu da tribo de Judá, então o povo olhou para trás e concluiu que isso correspondia ao que havia sido dito de Judá como a "tribo governante".[39] Von Rad está admitir mais do que Mowinckel. Ele afirma que, a despeito de muitas questões abertas, deve manter-se uma interpretação messiânica. Essa singular passagem, declara ele, prediz a duração do reino, e depois de uma evidente caesura[40] (sua interpre­tação para o hebraico 'ad, "até") haveria um rei sobre a nação.[41]

Três aspectos específicos, tanto do conceito messiânico amplo quanto do estrito, são revelados nesta profecia. 

Primeiro, a tarefa real é descrita, pelo menos em parte. A tarefa é ser um legislador, um promulgador da vontade de Deus e o governante segundo essa vontade. O govemo inclui as atividades de dirigir, controlar, julgar, castigar, livrar e prover. A tarefa envolve ganhar a vitória sobre os inimigos e servir como um meio ou canal para a realização de uma abundância de bênçãos materiais prometidas. 

Segundo, a preeminência daqueles que serão responsáveis pela tarefa é claramente descrita. Judá primeiro, e depois um que há de vir, serão louvados; eles deverão receber homenagem dos irmãos e o reconhecimento e submissão das nações. Esta preeminência será posta no contexto de um domínio composto pela comunidade do pacto, na qual serão incluídas as diversas nações. Daí a idéia de um rei, bem como a de um reino, estar obviamente presente. 

Terceiro, a idéia de uma pessoa real, governando e tendo prerrogativas reais, está inevitavelmente presente — a despeito de todas as reservas e objeções daqueles cujos pontos de vista filosófico-teológicos apriori não per­mitem aceitá-la. Judá deve ser visto como uma tribo, sem dúvida, mas o que vai surgir de Judá e suceder-lhe é indubitavelmente uma pessoa — até que ele, o governante (Silõh), venha, o qual terá a obediência das nações. 

Três comentários elucidarão os três pontos. Primeiro, no fim do período patriarcal, a promessa de um Messias pessoal, em termos de um governante a quem as pessoas, na pátria e no estrangeiro, hão de obedecer e render homenagem, foi claramente revelada. O que havia sido prometido em termos muito gerais a Adão e Eva (a semente vitoriosa) e a Abraão (libertação de poderosas nações, mas um canal de bênçãos para outras) foi agora esclarecido em grande extensão. O ofício real de Adão não foi obliterado. Ele continuará a exercer a função e a ser um meio principal pelo qual as promessas do pacto serão cumpridas. 

Segundo, não há absolutamente nenhuma referência à divindade do gover­nante na passagem sobre as bênçãos de Judá. Aqueles que procuram entender o tema da divindade no conceito real-sacro-divino não podem apelar a essa especiosa passagem para apoiá-los. Isso, entretanto, não significa, de modo algum, que a tribo dominante e a pessoa que vai reinar no futuro não tenham importância moral e espiritual. A profecia de Jacó propicia o cenário para uma revelação mais ampla e mais clara a respeito da pessoa real por vir.[42]

Terceiro, não há nenhuma evidência de que, quando Jacó dirigia essas profecias a seus filhos, o Governador de Judá, o Anjo do Senhor que tinha aparecido a Abraão, e Aquele que lutou com Jacó no vau do Jaboque, tenham sido reconhecidos ou identificados como sendo um e o mesmo. No período mosaico há indicações desse reconhecimento e identificação. Isso não estava na profecia de Jacó, mas novamente a profecia prepara a cena para a revelação futura do Governante e de sua relação com o Anjo do Senhor. 

Aspectos Escatológicos 

A profecia de Jacó referente a seus doze filhos tem alguns aspectos escatológicos definidos.[43] Ela é introduzida pela frase familiar usada repetidas vezes no Velho Testamento para introduzir conceitos escatológicos. Diz-se que Jacó chamou seus filhos ao seu leito de morte para dizer-lhes o que havia de acontecer "nos últimos dias" (be’ ahãrit hayyãmmim).[44] Portanto, por meio de uma introdução muito específica (Gn 49.1b), o discurso foi colocado num contexto escatológico. Jacó falou a respeito de futuros desenvolvimentos na vida de seus filhos e especialmente em relação a Judá. 

Os aspectos messiânicos são geralmente inseparáveis das perspectivas escatológicas. Assim acontece também na passagem. O papel futuro de Judá como a tribo principal foi declarado; a emergência de uma pessoa régia foi procla­mada; a tarefa e as realizações bem sucedidas foram descritas; e a beneficência do reino foi apresentada. Um grande futuro para os filhos de Israel sob a liderança de Judá e do Governador, Conquistador e Provedor foi assegurado. 

Jacó falou implicitamente de um reino e explicitamente de um rei. A idéia do reino foi apresentada como o apropriado contexto para a presença, trono e reinado do rei prometido. A liderança tribal de Judá havia de preceder, estabelecer um reino e prover um trono. Indubitavelmente, a primeira perspectiva escatológica definida é a da monarquia e da eleição e unção de Davi como rei. A profecia, entretanto, não se limita a essa perspectiva. A frase "até que venha Siló" também abre uma perspectiva para além do cetro, do bastão de governador e das vitórias de Judá. Profecias posteriores expandiriam esse futuro. E o problema de "o cetro apartar-se de Judá" antes que o governante, Jesus Cristo, viesse, só pode ser discutido inteligentemente quando as profecias posteriores e seus respectivos contextos históricos tiverem sido estudados. 

A passagem profética concernente a Judá, o governante por vir, e a tarefa a ser cumprida proveu os escritores do Novo Testamento com conceitos para pintar á marcha triunfante e o governo do Filho de Deus. 

Em Ap 19.11-16, quatro conceitos específicos, que foram anteriormente exprèssos ou aludidos por Jacó, aparecem: o cavaleiro do cavalo branco, chamado "Fiel e Verdadeiro", que julga com justiça e declara guerra, é primei­ramente representado por descrições tomadas de Dn 7. Então seguem-se os quatro conceitos derivados de Gn 49: 

1. A espada aguda (v. 15) saindo de sua boca, pela qual as diversas nações serão feridas, é a vara do governante com que Judá há de governar vitoriosamente. Essas nações serão levadas ou forçadas a aceitá-lo. 

2. O cetro de ferro com o qual o cavaleiro do cavalo branco reina é o cetro que não haveria de apartar-se de Judá. Judá, o regente que haveria de vir, e o cavaleiro do cavalo branco, ambos empunham o mesmo cetro. 

3. O cavaleiro do cavalo branco pisa o lagar da ira de Deus (v. 15b), uma referência simbólica à função de derramamento de sangue do cavaleiro do cavalo branco. Jacó não falou, específica ou indiretamente, do lagar; ele aludiu somente às roupas manchadas e encharcadas de vinho. Jacó proveu o símbolo e a imagem usados em Ap 19 para representar a terrível tarefa de suportar as conseqüências da ira de Deus. 

4. O cavaleiro do cavalo branco é especificamente nomeado: REI DOS REIS E SENHOR DOS Senhores (v.l6b). Esses títulos atingem com precisão o próprio coração da profecia de Jacó, porquanto Jacó falou do meio, isto é, Judá, e daquele que finalmente sairia de Judá, como o Rei que governaria sobre todos os reis e que seria o Senhor das nações todas. 







[1] Rúben, Simeão e Levi receberam a palavra de julgamento (cf. William Green, The Unity ofthe Book of Geneais [Grand Rapids: Baker, 1979], p. 520). 


[2] Levi foi julgado um homem de ira, violência e derramamento de sangue (Gn 49 5-7), por isso não foi designado para ser o portador da linhagem da semente. É de interesse notar que Moisés tinha as mesmas características de Levi quando era um príncipe no Egito. Os levitas, ao lado de Moisés, foram prontos em tomar vingança contra os adoradores não arrependidos do bezerro de ouro (Êx 32.27-29). Por isso, Levi foi posto à parte para o sacerdócio. 


[3] William Green considerou os pontos de vista de todo um grupo de estudiosos que tentava dividir o discurso de Jacó em fontes originais. Ele argumenta convincentemente que não há nenhuma evidência para os pontos de vista de Ewald, Knobel, Reuss, Wellhausen, Stade/ Dillman e Kuenen (século XIX) (Unity ofthe Book of Genesis, pp .521-526). Green tem sido ignorado, mas eruditos como Skinner, von Rad, Simpson e Bowie têm sido seguidos por muitos estudantes da Escritura. Green não encontrou o menor traço das fontes de que aqueles críticos falam. Ele considerou a profecia um "testamento unificado". 


[4] A maioria dos críticos modernos continua a manter que se trata de vatidnium ex eventu, embora William Green tenha demonstrado a impossibilidade disso por causa das coisas ditas e das que não foram ditas a cada filho (Unity ofthe Book ofGenesis, pp. 521-525). Eruditos adeptos do historicismo tentam fixar a data da composição do discurso no tempo dos juizes ou, preferivelmente, depois de Davi (p. ex., a tribo de Judá tinha estabelecido seu trono sobre todo Israel; conforme as discussões ao longo dessas linhas por Vawter, "The Canaanite Background on Genesis 49“, CBQX1 (1955). Marco Treves, "Shiloh (Genesis 49.10)”,85 (1966):353- 356 adapta o texto para ajustá-lo às suas premissas. 

Calum M. Carmichael emprega imagens tomadas do reino dos animais e das plantas, notando que a passagem reflete as relações sexuais de Judá com sua nora Tamar (Gn 38). A afirmação de Jacó a respeito de Judá não seria profética mas uma reflexão irônica sobre o passado de seu filho ("Some Sayings in Genesis 49“, JBL 88 [1969]: 438-444). 

B. Margulis menciona três interpretações "usuais“ de Silõh: (1) um nome literal, Siló, sem emenda; (2) por meio de emenda (seguindo Ez 2132), Sello = *&Ser 16; e (3) emendando para Say lô, "tributo para ele", eyúbõ’ ■paiayUbõ (cf. seu "Gn XLIX 10/Dt XXXIII2-3: A New Look at Old Problems", VT19/1 [1969]:202-203). Além disso, o autor catalogou diversas possibilidades miscelâneas: o prefixo Silõh com um mem(m) para ler mislõh, 'seu governante" (cf. H. Gressmann, Der Messias); s&XXõ, de aã’al, "pedir"; aãtSw, "paz"; Sylh, do acádio SZlu, ■príncipe"; ebfiSay, "filho de Jessé". Margulis favorece esta última emenda (p. 204) notando que o nome de Jessé ocorre dessa maneira em 1 Cr 2.13, assim sugerindo uma data não anterior ao século dez a.C. Mas Liudger Sabottka rejeita a emenda de Margulis argüindo que Siló existia antes disso e se tomara um lugar proeminente durante o reinado de Davi ("Noch Einmal Gn 49.10", Bib. 51/1 [1970]:225-229). 


[5] É bom mencionar que vários estudiosos têm tentado demonstrar uma estreita correlação entre o discurso de Jacó (Gn 49), a bênção de Moisés (Dt 33) e o cântico de Débora (Jz 5). A correlação não é óbvia; a que existe, entretanto, pode ser melhor explicada admitindo-se que Gn 49 é o modelo das outras passagens. O Testamento dos Doze Patriarcas, um documento pseudo-epígrafo, foi moldado segundo o discurso de Jacó em Gn 49. Nele faz-se referência à realeza de Judá. Esse documento foi escrito nos últimos dias dos macabeus, segundo alguns eruditos. Outros vêem nele influências cristãs, então postulam uma data de composição mais recente ou admitem uma data anterior, e, finalmente, invocam a mão de um redator cristão. Para uma discussão mais ampla ver George Riggan, Messianic Theology and Christian Faith (Filadélfia: Westminster, 1967), p. 130; e G. Widengren, "Royal Ideology and the Testament of the Twelve Patriarchs", em Promise and Fulfillment, ed. F. F. Bruce (Edimburgo: T. & T. Clark, 1963), pp. 202-206. 


[6] Calvino dizque Jacó deve ser considerado "a boca de Deus" regulando o estado futuro da Igreja (Commen­taries on Genesis,7 vols. [Grand Rapids: Baker, 1981], 2.438). 


[7] Pelo fato de a maioria dos filhos não ter sido pessoalmente interpelada, von Rad não feia de "profecias" mas de "aforismos" (Genesis: A Commentary, edição revista [Filadélfia: Westminster, 1973], p. 416). 


[8] Cf. capítulo 6, subtítulo "O Discurso de Jacó". 


[9] Há dúvidas, segundo B. Davidson (Analytical Hebrew and Chaldee Lexicon), se a palavra Utbfé masculina ou feminina. Seguindo a tradução de Almeida optei pelo feminino, (n.t.). 


[10] O inglês tem la wgiver. Mais uma vez optei pela tradução de Almeida. (Idem). 




[11] O autor traduz yiqqèhat por "gathering", mas o único sentido que achei foi "obediência". (Idem). 


[12] Cf, Calvino, Commentaríes on Genesis,2A52. 


[13] John Skinner, A Criticai and Exegetical Commentary on Genesis, ICC (Edimburgo: T.&T. Clark, 1910), p. 

519. 


[14] Gerhard von Rad lembra que o cetro era também um símbolo honorífico entre os chefes tribais (Genesis, p. 419); cf. Nm 21.18 e Mq 7.14, onde honra e autoridade, bem como preeminência, são sugeridas. 


[15] Assim Skinner, Speiser, Keil e Leupold. 


[16] Assim Poole e Hengstenberg. 


[17] Cf. pâssagens tais como Nm 21.18; Dt 33,21; Jz5.14; SI 60.9,108.9; Is 33.22. 


[18] E, A. Speiser diz que um sumário de todos os pontos de vista concernentes a essa frase formaria "uma alentada monografia" (Genesis, em AB, p. 372). Ele não discute a frase como um todo, mas remete os leitores à obra de Vawter, "Canaanite Background of Genesis 49". (Para uma resposta ao ponto de vista de Vawter, ver CBQ, 17.19-21). 

Não apareceram novas compreensões do sentido do substantivo Sllõh nos anos 80 (ver também G. Ch. Aalders, Genesis, trad. William Heynen, BSC, 2 vols. (1981), 2.278,279). 


[19] Cf. um uso semelhante em Nm 23.24 e Is 42.4. 


[20] Skinner, Criticai and Exegetical Commentary on Genes is, ICC, pp. 520-524, Este comentador também rejeita este ponto de vista sobre Siló por parecer-lhe não-histórico. 


[21] Silô em vez em iitõh (n.t.). 


[22] Calvino, Commentaries on Genesis, 2.453,454. 


[23] Gerhard von Rad é cauteloso a respeito de emendas textuais (Geflesis, p. 420). Sigmund Mowinckel dá um paaso adiante quando diz que a palavra Siló "não precisa de emenda" (He That Cometh [NewYork: Abingdon, 19541, p. 13, n. 2). 


38. E. A. Speiser sugeriu esta emenda radical, isto é, até seus "inimigos virem lisongeá-lo" (Genesis, em AB, p. 366). 


[25] O editor de Calvino preferiu o termo paáfíer (Commentaries on Genesis, 2.454). Isto, entretanto, não se adapta ao sentido passivo, pois "pacificar" é um verbo ativo. (O editor também acrescentou "por sacrificar-se a si mesmo", o que exige uma explicação teológica específica). Emst Hengstenberg (Christology of the Old Testament, trad. de Theodore Meyer, 2 vols. [Edimburgo: T.&T. Clark, 1968], 1-69) e H. C. Leupold (Exposition of Genesis, 2 vols. [Grand Rapids: Baker, 1942/79], 2.1979) expressou algum apoio por ligar Silõh com Sõkâ, "o que dá descanso". (Hengstenberg, entretanto, favorece a identificação de Lutero com o Redentor (1.69). Keil acredita que o substantivo Silõh pode referir-se a alguém que "como um homem de descanso traria descanso e paz" {KD, 1398). 


[26] Skinner, Criticai and Exegetical Commentary on Genesis, ICC, p. 520. 


[27] Cf, o editor dos Commentaries on Genesis, de Calvino, que escreve que Calvino "parece concordar com esse ponto de vista" (2.454, n. 1). Skinner observou corretamente que essa é uma derivação impossível {ICC, p. 

520, n. 10a; cf. Paton J. Gloag, que tenta uma solução etimológica em seu MessianicProphedes (Edimburgo: T. &T. Clark, 1879), pp.130-132). 


[28] Ez 21.27 (v. 32 em hebraico) lê hõyô iad-bõt ’ãèer-lô ("será até que venha a quem é devido"; cf. NIV "rightfully belongs"; RSV, "whose right it is"). (Derek Kidner, Genesis: An Introduction and Commentary (Downers Grove, 111.: Inter-Varsity, 1967), p. 218). 


[29] Mowinckel, He That Cometh, p. 13, n. 2. 


[30] Cf. William Moran, "Genesis 49.10 and Its Use in Ezequiel 21/32”, S/6.39/4 (1958):405-416. 


[31] Martinho Lutero conectou Stlõh com Silyâ, "ventre"; o que sugere o filho do ventre da virgem e, assim, o Messias e seu reino de obediência (Lutero, Lectures on Genesis, caps. 45^50, em Luther's Works, ed. Jaroslav Felikan,54 vols. [St. Louis: Concordia, 1966], 8.241-244). 


[32] O substantivoyiggèhat tem sido traduzido por "obediência". A raiz árabe significa "obedecer", "ouvir com favor" e "responder" (cf. Pv 30.17, "Obediência", TWOT, 1397). 


[33] Há aqui um bom exemplo de atividade profética a incluir reflexão da parte da pessoa que fala e proclamação a um dado ponto que inclui uma predição de desenvolvimentos futuros, 


[34] Mowinckel afirma enfaticamente: "A referência é a Davi, que fez de Judá a tribo governante" (He That Cometh, p. 13). Para Mowinckel não é possível conceber Israel mantendo uma concepção de messias até depois do reino de um rei ilustre como Davi. Skinner apóia este ponto de vista (CriticaiandExegetical Commentary on Genesis, ICC, p. 522), como também Tryggve Mettinger, que considera a passagem como dinástica em sua natureza (KingandMessiah [Lund: Wallin & Dalholm, 1974], p. 95). 


[35] O leão é representado devorando (Nm 23.24; cf. 24.9), rasgando sua presa (Dt 33.20; SI 17.12) e emitindo um ngdo aterrador (Jó 4.10,11; Pv 19.12). 


[36] Vawter, "Canaanite Backgroud of Genesis 49”. A tese de Vawter de que o cântico de Débora foi composto no final do período dos Juizes é incorreta, pois o cântico originou-se muito cedo na história de Israel. 


[37] Ibid. Vawter acusa os autores da Septuaginta de não fazerem a tradução óbvia, isto é, seguindo o ugarítico, como ele fez. 


[38] Jacó deu sua bênção final quando estava "para morrer" (Gn 48.21; 49 33). Roland K. Harrison assinala que o costume de bênçãos no leito de morte estava em voga durante o período patriarcal (Archeology ofthe Old Testament [Grand Rapids: Eerdmans, 1963], pp.. 28,29). Em sua idade avançada Isaque igualmente deu sua bênção (Gn 27.1,19,27). 


[39] Mowinckel discute as influências racionalistas na interpretação da tipologia e da profecia messiânicas (He That Cometh, p. 13). 


[40] Em latim no original, (n.t.) 


[41] Gerhard von Rad, Geneais: A Commentary (Filadélfia: Westminster, 1973), p. 420. Von Rad liga a idéia de fertilidade com a da unção de Yahweh. Mas, a despeito da ênfase que ele viu sobre a fertilidade, havia o governante ungido no futuro que traria e fruiria a abundância devida à fertilidade prevista. 


[42] É de interesse notar a introdução de John W. Etheridge aos Targums de Onkelos e de Jonathan Ben Uzziel sobre o Pentateuco. O título aramaico desse targum* ou interpretação, é Memra da Yeya ("Palavra do Senhor"). Etheridge assinala que o aramaico memra foi usado com um genitivo do nome divino (J. W. Etheridge, The Targums of Onkelos and Jonathan Ben Uzziel onthePentateuch [New York: KTAV, 1968], p.14). Isso "responde" à designação do Novo Testamento grego, ho logos tou Theou, "A Palavra de Deus", como aplicada ao Messias (pp.14,15). A expressão "foi empregada nos Targums ligada tão intimamente ao Todo-Poderoso que se toma em muitos casos sinônima do Nome Divino" (p. 15). Etheridge vai adiante e pergunta se isso poderia indicar uma antiga crença judaica numa "distinção hipostática na Infinita Substância" e se o monoteísmo judeu antigo impedia a "crença numa pluralidade de pessoas na Divindade" (p. 15). Nos Targums o termo memra substitui o nome do Senhor (pp.16,17). Diz-se que Deus é ofendido em seu memra (Gn 6.6), Em outras passagens memra refere-se à au to-revelação de Deus a Abraão (Gn 18.1) e a Israel no deserto (Êx 13.21; Dt 9.3), contra a qual Israel murmurou (Nm 21.5). Em sua manifestação visível, memra, além disso, destruiu Sodoma e Gomorra (Gn 19.24) e advertiu Abimeleque de um desastre iminente (Gn 203). Deve ser acrescentado, entretanto, que embora memra não seja mera personificação figurativa, mas a própria Palavra de Deus (p. 19), não é identificada de maneira alguma com Judá ou com o rei que virá. 


[43] Estudiosos da Bíblia, tanto críticos quanto conservadores, falam da escatologia do discurso de Jacó (Gn 493-27). Gressman, em seu Der Messias argúi que esse capítulo do Gênesis e os Salmos pressupõem a idéia messiânica em um sentido escatológico. Embora haja referências históricas presentes, traços sobre-humanos e míticos tomados de empréstimo às diversas nações vizinhas são também incluídos. Mowinckel, entretanto, discorda de que haja qualquer evidência de uma teologia escatológica oriental messiânica presente no texto. Desde que não a pôde achar, ele optou pela "correspondência tipológica vista mais tarde". Wolff exemplificou com os estudiosos que têm sustentado que Gn 49 e os salmos reais devem ser explicados como vaticinium ex eventu e concordam que o pensamento escatológico geral é parte do contexto, isto é, são citadas na passagem mais do que meras referências históricas (cf. Mowinckel, He That Cometh, p. 13). Skinner vê esse oráculo como que apoiado numa antiga tradição escatológica (Criticai and Exegetical Commentary on Genesis, ICC, pp. 521^523). Autores conservadores como Hengstenberg, Poole, Leupold e Keil dedicam tempo demasiado sobre a questão de o cetro não se apartar de Judá em relação aos períodos exílico e pós-exílico, e dão pouca atenção à escatologia da própria passagem. Calvino (Commentaries on Genesis, 2.454,455) pensa que a perspectiva escatológica acha sua referência especificamente no tempo do Novo Testamento. 


[44] A frase hebraica tem sido discutida por muitos estudiosos. Várias referências específicas têm-lhe sido atribuídas. Geralmente é usada em sentido escatológico referindo-se a uma pessoa, um evento, um conceito (tal como o reino). É importante fazer distinção entre "futuro" e "fim" (grego eschaton). O primeiro não se refere sempre a um "último tempo" específico. Geerhardus Vos fez um estudo excelente sobre esta frase ("os últimos dias") em seu livro Pa uline Eschatology (Grand Rapids: Eerdmans, 1953). Ele crê que a frase the hindermostpart (a última parte) expressa melhor o sentido da frase hebraica (pp. 1-7).

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.