27 de abril de 2015

G.C.D. Howley - Introdução aos livros proféticos

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Introdução aos livros proféticos 

G. C. D. Howley

Quando os inimigos do profeta Jeremias disseram: “Venham! Façamos planos contra Jeremias, pois não cessará o ensino da lei pelo sacerdote nem o conselho do sábio nem a mensagem do profeta” (18.18), eles resumiram as diferentes fontes de autoridade espiritual contidas no AT. Sacerdote, profeta e sábio representavam três meios pelos quais o Senhor falou a seu povo ao longo de séculos. Associava-se com cada um, respectivamente, a “lei”, a “mensagem” e o “conselho”. Os sacerdotes exerciam o ensino como também o ministério cerimonial (Ml 2.6,7), transmitindo a Lei. Os profetas declaravam os oráculos (palavra, mensagem) de Javé, enquanto os sábios transmitiam a sua sabedoria e reflexões acerca da verdade. As três categorias correspondem às três divisões do cânon do AT — Lei, Profetas e Escritos.

A profecia proclamava a palavra de Deus. Isso se expressava de duas maneiras, que se harmonizam com as duas seções dos livros proféticos no AT — os Profetas Anteriores (Josué, Juízes, Samuel e Reis), que interpretam a história à luz do propósito de Deus; e os Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e o Livro dos Doze), que registram o que foi transmitido ao povo pelos mensageiros do Senhor (Ag 1.13, RV).

Houve profetas em evidência ao longo de todo o período do AT, embora alguns tenham sido anônimos ou menos conhecidos. Anúncios da vontade de Deus eram raros no período final dos juízes (ISm 3.1). Samuel, no entanto, foi agraciado com uma mensagem pessoal de Deus, e à medida que crescia o Senhor se revelava a ele cada vez mais (ISm 3.19—4.1). Ele tornou-se o último e o maior dos juízes (At 13.20). Ele foi o grande reformador da ordem profética e estimulou as escolas proféticas, sendo ele mesmo participante de uma escola de profetas (ISm 19.20). Mais tarde, foi considerado a maior personagem após Moisés (Jr 15.1). A sua obra deu continuidade, estabilidade e eficiência às funções proféticas, e ele transformou-se no verdadeiro restaurador da religião de Israel. A partir de Samuel, Deus começou a falar diretamente à mente dos homens. O início da ordem profética pode ser datada, portanto, da época de Samuel. Há três referências a Samuel no NT, feitas por Pedro (At 3.24), Paulo (At 13.20) e Hebreus (11.32). “Parece que os dois grandes apóstolos consideraram Samuel o divisor de águas da história de Israel” (E. F. F. Bishop, Propkets of Palestine, London, 1962, p. 28).

Enquanto homens como Natã e Gade provavelmente agiram como capelães da corte nos dias de Davi, a importância da mensagem transmitida a Davi por meio de Natã (2Sm 7.10- 16) — que Davi descreveu como “aliança eterna [...] firmada e garantida em todos os aspectos” (2Sm 23.5) — aponta para um significado ainda maior. A atividade profética que vemos tão proeminente em séculos posteriores é exemplificada pelos ministérios de Elias e Eliseu. Esses dois homens exerceram um ministério muito influente, mas não deixaram nada escrito. O período dos profetas que deixaram literatura escrita começou com Amós, uma vez que ele e seus contemporâneos e sucessores colocaram a sua mensagem de forma escrita em virtude do valor duradouro do seu ministério. Eles falaram à sua geração, mas sua influência estava destinada a alcançar uma época muito além do seu tempo; nisso está a importância do seu lugar entre os livros canônicos do AT. O profeta era alguém que falava no lugar de outro, nesse caso, no lugar do Deus vivo. Assim como Arão se tornou o porta-voz de Moisés (Ex 4.14ss), o profeta preencheu o lugar do porta-voz de Deus ao seu povo.

O profeta é descrito de diversas maneiras como vidente (ISm 9.9,19), homem de Deus (ISm 9.6), mensageiro (Is 42.19), servo (Is 42.19), sentinela (Ez 33.7), homem inspirado (Os 9.7; esse é o termo na NVI; no original é “homem do espírito”). O vidente tinha a capacidade de discernir além do que discerniam as pessoas comuns. A sentinela estava sempre vigilante, observando a mão de Deus em ação. Todos eram receptores da palavra divina, separados para transmitir o oráculo do Senhor aos homens. Eles faziam isso por meio de mensagens diretas, pregando sermões e por meio de mensagens pessoais a indivíduos ou a grupos. Havia, no entanto, falsos profetas em ação em algumas épocas, que causavam confusão entre os incultos. Mas os verdadeiros profetas de Deus sempre se projetavam acima do restante em virtude de sua experiência espiritual e de seu caráter.

A história do AT desenvolveu-se contra o pano de fundo da história mundial. Em toda a sua extensão, o AT testemunhou o surgimento e a queda de grandes impérios, como os do Egito, Assíria, Babilônia, Medo- Pérsia, com a Grécia e Roma surgindo no período intertestamental. Reinos foram consolidados, guerras foram travadas, homens surgiram e caíram nas esferas políticas das diferentes épocas, mas em todo esse tempo se desenrolou a história interna do povo de Deus. A perspectiva profética da história era diferente da dos outros povos orientais: ela era coerente, dirigida por princípios gerais em harmonia com um plano determinado.

O século VIII a.C. foi um período crítico. O Senhor enviou mensageiros às tribos do Norte e ao povo do Sul que tinha o seu centro em Jerusalém. Amós e Oséias foram contemporâneos no seu ministério, assim como também o foram Miquéias e Isaías no Sul. Esse movimento estava destinado a continuar durante pelo menos 300 anos, resultando a certa altura em uma coleção extraordinária de escritos que trouxe muito da revelação de Deus ao povo de Israel e foi muito além disso para alcançar toda a igreja cristã.

O período que viu a evolução de impérios sucessivos no mundo gentílico cobriu uma época de constantes mudanças nos negócios e na situação política de Israel. Houve muita prosperidade social nos dias de Amós; mas houve também um declínio trágico dos valores espirituais. Houve extremos de pobreza e opulência. A desintegração social andava de mãos dadas com o declínio espiritual. A religiosidade era intensa; não faltavam adoradores nos santuários; as pessoas eram exigentes e meticulosas quando se tratava de cerimônias religiosas. Mas, ao mesmo tempo, tudo isso era marcado por valores tremendamente falsos, que estavam de acordo com a religiosidade ortodoxa do período. Havia uma contradição entre o culto cerimonial e espiritual, e muito culto exterior a Javé sem nenhum coração (Ml 1.8,13). Durante esse longo período, houve muitas ocasiões em que já não havia religião pura — talvez nem mesmo pretensão dela. Muitos santuários locais provavelmente eram declaradamente pagãos, mas estavam sempre cheios (Am 4.4,5; 5.21-24; Mq 6.6ss). Os sacerdotes dos rituais não condenavam práticas erradas (Am 7.10-13), e as ordens proféticas se calavam; eram meros oportunistas que fechavam os olhos para o mal.

Havia também a questão dos embaraços políticos com potências estrangeiras. A ameaça da Assíria era como uma sombra no céu para o povo. Eles confiavam no privilégio de serem povo de Javé, esperando a libertação (Am 3.1-7). Ansiavam pelo dia do Senhor, quando ele interviria a favor deles e confirmaria as promessas feitas aos patriarcas. Que isso era uma esperança falsa foi afirmado com toda a clareza por Amos (5.18ss), que disse que aquele dia seria um dia de escuridão, e não de luz. Com uma única mensagem, o profeta despedaçava esperanças preciosas ao coração dos homens. O aspecto surpreendente é a extensão com que os homens se enganavam, visto que a grande maioria nem registrava as advertências dos profetas.

Os profetas não se enquadravam em um único molde. A palavra de Deus vinha ao nobre ou ao homem simples; Isaías parecia pertencer à nobreza, enquanto o seu contemporâneo Miquéias era um homem do campo que circulava entre as pessoas do seu vilarejo durante o seu ministério. As vezes o chamado atingia homens jovens (Zc 2.4), outras, homens já com mais maturidade no ministério. O que eles compartilhavam era uma experiência de Deus que os separara dos seus contemporâneos por um conhecimento distintivo que surgia do seu encontro com ele. Havia dois tipos principais de chamado: o chamado por meio de uma visão, como vemos em Isaías e Ezequiel; e o chamado que ocorria nas circunstâncias normais da vida, como no caso de Amós e Jeremias. A partir daí, eles se tornavam mensageiros do Senhor.

Seja nos dias do AT, seja nos dias do nosso mundo moderno, Deus é soberano na forma em que coloca suas mãos sobre seus servos. Nesse sentido, profetas antigos e missionários modernos estão em pé de igualdade. Deus prepara as pessoas desde os seus dias da mocidade para que mais tarde recebam a sua palavra. Podemos observar aspectos da soberania de Deus nas circunstâncias da infância dessas pessoas, do seu treinamento, dos obstáculos que enfrentam e na forma em que cada um tem de reagir aos eventos na sua história. No início, não vão estar necessariamente conscientes da mão de Deus por trás de tudo; isso certamente pode ser observado no caso de Saulo de Tarso — e podemos traçar paralelos entre o preparo apostólico para a vida e o que aconteceu na vida dos profetas do AT, que são o nosso interesse especial neste capítulo.

Apesar de todas as diferenças nesses homens ou nas suas situações pessoais, alguns elementos fundamentais caracterizavam todos eles. Eles eram homens da escolha de Deus, capacitados por ele para uma tarefa especial, consagrados a ele desde o nascimento (Jr 1.5; cf. G1 1.15). Ele conduzira o curso da vida deles, preparando-os gradualmente para a hora da verdade quando seriam claramente apontados como os que ouviram a palavra do Senhor e foram chamados para a sua vocação específica. Eles mesmos não estavam percebendo o Deus que por trás dos bastidores — embora às vezes tivessem uma percepção muito profunda da presença dele, da sua glória e de suas afirmações — mas quando o momento certo chegava, a experiência era irresistível. A partir daí, eles tinham a segurança de que Deus estava do lado deles em todas as horas, especialmente quando enfrentavam adversidades, quer em casa, como Oséias, quer nas mãos de inimigos, como Jeremias.

Essa experiência inicial é vital para a compreensão tanto dos homens quanto do seu ministério. Estava em harmonia com cada indivíduo. Isaías de Jerusalém estava familiarizado com o templo, que foi o lugar em que teve o seu encontro com Deus. Ezequiel recebeu sua visão da gloria de Javé quando estava longe da sua terra natal, entre os cativos na Babilônia. Jeremias, natural de uma pequena vila e comunidade sacerdotal, observou objetos familiares que para ele se tornaram revestidos de significado especial (Jr 1.11-14). Habacuque era como uma sentinela em pé na sua torre (2.1). Em cada um desses casos, o chamado profético firmou sua legitimidade e conduziu à subsequente preservação da sua integridade em dias difíceis. A personalidade deles podia ser discernida na maneira em que o chamado era recebido e na maneira em que a ele reagiam, como também nos eventos posteriores que lhes sobrevieram. Todos, sem exceção, foram sujeitos à compulsão divina, consagrados, capacitados e sustentados. Para alguns, o serviço foi de um período breve, mas para outros — como nos casos de Isaías e Jeremias — o serviço a Deus estendeu-se por longos anos, desde a juventude até a idade avançada. Em relação ao chamado divino, um autor disse: “Mas a ideia de Deus nos chamar vai ao cerne da religião. Deus faz mais do que simplesmente dar corda no relógio do mundo e o deixar funcionando. Ele tem algo específico em mente para eu e você fazer. Não somente Jeremias, Paulo ou os apóstolos, mas pessoas em qualquer época têm convicções fortes acerca da direção de sua vida. Certa vez, um autor famoso resumiu isso assim: “Deus quer uma coisa diferente de cada um de nós, árdua ou fácil, visível ou em segredo, mas algo que somente nós podemos fazer e para o qual fomos criados”.

Depois de ter recebido o seu chamado, cada profeta foi atrás da realização da sua tarefa, normalmente agindo sozinho. Falsos profetas geralmente agiam em grupos, às vezes grupos grandes — como no caso dos profetas de Baal nos dias de Elias —, mas os verdadeiros homens de Deus raramente parecem invadir os limites de outros. Há uma exceção a isso na tarefa conjunta de Ageu e Zacarias (Ed 5.1,2), em cujo tempo “os líderes dos judeus continuaram a construir e a prosperar, encorajados pela pregação dos profetas Ageu e Zacarias, descendente de Ido” (Ed 6.14). Não há registro de Isaías e Miquéias agindo juntos, nem de Amós e Oséias compartilharem de alguma forma o seu testemunho. Ao contrário, geralmente eram almas solitárias fazendo o seu serviço.

“Tecoa é uma vila palestina que não perdeu o seu nome primitivo ao longo dos séculos”, diz E. F. F. Bishop (op. cit. p. 175). Ele acrescenta: “Tecoa é uma cidade solitária, embora situada de tal forma numa colina que pode ser notada de quase todos os lados [...]. A vista, uma vez que se chega ao lugar, ajuda a entender o seu filho profeta (apesar de seu próprio testemunho de si mesmo). Amós passou a ser tão isolado quanto a vila em que fora criado”. Sofonias, ao contrário, que pela linhagem parece ter sido príncipe, um descendente direto de Ezequias (Sf 1.1), quase certamente viveu em Jerusalém ou nas suas imediações. Não é de surpreender, portanto, que sua mensagem seja diretamente dirigida à cidade e a seu povo, com as suas menções da porta do Peixe e outros lugares específicos, e com a advertência de que Javé vai vasculhar Jerusalém com lamparinas (1.12ss).

Os profetas eram muito diferentes no seu temperamento, como também em outros aspectos. Embora saibamos pouco acerca de alguns deles, um pequeno grupo destaca-se dos outros na forma em que reagem à descoberta da sua vocação. Isaías estava em contato próximo com o rei e a corte, tendo trânsito livre com a nobreza. A tragédia doméstica de Oséias deu-lhe a compreensão de Deus como um Apaixonado divino que amava o seu povo. Jeremias era profundamente sensível, como fica claramente evidente no início do seu ministério. Podemos imaginar o seu pavor quando ficou sabendo que os homens da sua própria vila estavam conspirando contra ele. Deus tinha uma mensagem para eles: “Em vista disso, assim diz o SENHOR a respeito dos homens de Anatote que querem tirar a minha vida, e que dizem: ‘Não profetize em nome do SENHOR, senão nós o mataremos’; assim diz o SENHOR dos Exércitos: ‘Eu [...] trarei a desgraça sobre os homens de Anatote no ano do seu castigo’” (Jr 11.21ss). Habacuque teve suas lutas com seus problemas, levando-os todos à luz da presença de Deus, e alcançando a tranquilidade no seu espírito no final (Hc 3.17ss).

Dos dois profetas que trabalharam juntos, Ageu provavelmente era o homem mais velho, e Zacarias não era somente mais novo, mas a sua vida deve ter ido muito além do período de ministério de Ageu. Ageu é franco e direto, rude no seu desafio de viver segundo as prioridades de Deus. Era um realista, e não era fácil fazê-lo mudar de ideia em relação à sua mensagem franca e sincera. Zacarias, um idealista, usava visões verbais para cativar a atenção das pessoas e encorajá-las a buscar o caminho do Senhor. A mistura desses elementos diversos no seu ministério conjunto conduziu (como já comentamos) o povo de Deus ao alimento espiritual. 

A mensagem dos profetas pode ser resumida como 1) a revelação do Senhor e 2) o chamado de volta a ele. Mas isso é uma simplificação exagerada. Deus foi revelado na sua natureza e soberania, e o chamado de volta a ele tinha o propósito de restabelecer as relações diretas entre Deus e o seu povo. A mensagem, então, estava inserida na doutrina de Deus que os profetas proclamavam. Eles eram reformadores, e não inovadores. Faziam parte da corrente geral da tradição israelita. O seu chamado não foi simplesmente um chamado para a aliança sinaítica, que fora em grande parte esquecida, mas para o reconhecimento pessoal do próprio Deus vivo e o relacionamento com ele.

Numa época de valores comprometidos, Amós e os que o sucederam revelaram Deus como transcendente. Essa transcendência divina foi exposta para que o povo pudesse redescobrir a grandeza do seu Deus. Não era suficiente cumprir tarefas religiosas, pois Deus sempre esteve em busca do coração do homem. O fato trágico em tudo isso era que o povo tinha concepções totalmente erradas acerca de Deus — o seu Deus era muito pequeno. Encontramos um exemplo clássico disso na parábola que Jesus conta a respeito do fariseu e do cobrador de impostos (Lc 18.9¬14). O fariseu tinha uma concepção muito pequena de Deus, mas ideias grandiosas acerca de si mesmo. Ele se aproximou de Deus com essa atitude, pensando que poderia impressionar o Altíssimo com as suas obras. O cobrador de impostos, por sua vez, tinha descoberto a grandeza de Deus e, no lado oposto disso, a sua pecaminosidade. Por isso ele veio como penitente, clamando pela misericórdia de Deus, e recebeu uma bênção de acordo com isso.

Em todo o período profético, foi atitude característica de Israel considerar a presença e os atos de Deus como algo natural, e por isso o povo não estava preparado para o choque da mensagem que veio a ele: “Escolhi apenas vocês de todas as famílias da terra; por isso eu os castigarei por todas as suas maldades” (Am 3.2). A soberania e a transcendência divinas estão declaradas em palavras como estas: “Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito” (Is 57.15). A natureza desse Deus transcendente foi revelada ao jovem Isaías. Ele mesmo diz: “Eu vi o Senhor assentado num trono alto e exaltado, e a aba de sua veste enchia o templo” (Is 6.1). Ele se sentiu completamente tomado por essa visão e foi incapaz de levantar os olhos ou falar com ele. Isaías foi reduzido à condição de desespero até que experimentou o milagre do perdão divino e da cura. Ele estava na presença do Deus santo. Santidade significa “estar/ser separado”; para Deus, ser separado significa que ele está separado do homem e é totalmente diferente dele. Isso não quer dizer que ele é indiferente ao ser humano, como deixa claro o oráculo profético de Is 57.15. A proclamação anunciada a Moisés séculos antes o declarou como infinitamente superior ao homem, mas mesmo assim disposto a agir com misericórdia em relação ao homem (Ex 34.6,7). A sua santidade é uma das primeiras revelações do AT acerca de Deus.

Uma segunda afirmação foi que ele é justo. “A justiça não era um princípio abstrato para os israelitas ou a característica de uma ordem moral impessoal. E uma qualidade precisa da personalidade divina, posicionando-o acima de todas as normas e leis, como nelas também. Deus é justo pelo fato de que ele revela aos seres humanos o que é reto e certo e ajuda a atingir o certo que fica bem para um povo correto e justo” (G. E. Wright, The Challenge of Israel’s Faith, London, 1946, p. 72). A justiça de Deus é a sua própria coerência em todo o seu ser. Assim como Isaías, que o conheceu como alguém santo, declarou Deus como o Santo de Israel, Amós com a sua percepção acerca da justiça do Senhor, afirmou: “Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene!” (Am 5.24). A justiça teria de ser demonstrada “na relação pessoal e constante entre Deus e o homem no âmbito da vontade” (Wright, op. cit.). 

Algumas experiências excepcionais na vida são um meio de o homem aprender mais acerca de Deus. Foi assim no caso do relacionamento de Oséias, cujo casamento destruído, causado pela infidelidade da sua esposa Gômer, não abafou o seu amor por ela. Ao contrário, ele a procurou mesmo depois de ela ter saído de casa (Os 1—3) e, com base no seu sofrimento doméstico, compreendeu que o seu amor inabalável por sua esposa infiel era somente um reflexo pálido do amor interminável de Javé por Israel. Nesses dias turbulentos, nasceu o ministério do profeta em que ele anunciou o que tinha aprendido na dura escola da vida: que o amor de Deus era constante, não influenciado pelas recaídas do povo. Se Amós clamou por justiça, Oséias — o seu contemporâneo como profeta às tribos do Norte — fez o apelo ao amor.

A palavra chesed\ geralmente traduzida por “misericórdia” ou “benignidade” em versões mais antigas, em algumas versões é traduzida por “amor da aliança” ou “amor inabalável”. F. F. Bruce define esse conceito como “a atitude que Deus toma em relação àquelas pessoas com quem ele se comprometeu por meio de uma aliança solene (e que espera que as pessoas demonstrem por ele e umas pelas outras)” (The Sure Mercies of David: Annual Lecture of the Evangelical Library, 1954, p. 3). O amor divino não é uma mera ampliação do amor sentimental humano, mas um amor que está fundamentado na promessa dele, no seu caráter inabalável e imutável, que lembra as promessas feitas aos patriarcas e a Davi. Por isso a tradução “amor inabalável” é encontrada muitas vezes na RSV (e.g., Os 6.6, et al). N. H. Snaith resume a questão da seguinte maneira: “Chesed, em todas as suas diversas nuanças de significado, é condicional ao fato de existir uma aliança. Sem a existência anterior de uma aliança, nunca poderia haver chesed” (The Distinctive Ideas of the Old Testament, 1944, p. 94-5). Foi porque tudo surgiu da revelação do caráter de Deus que ele buscou a resposta do seu povo em palavras como: “Pois desejo misericórdia, e não sacrifícios; conhecimento de Deus em vez de holocaustos” (Os 6.6). Com a sua compaixão e sensibilidade de coração, Oséias entendeu que a maior verdade acerca de Deus não era o seu sentimento de justiça, mas o seu amor infinito.

Miquéias como indivíduo está em contraste com o seu contemporâneo Isaías, mas estão em concordância na sua observação da situação depravada do povo. Miquéias era um verdadeiro filho do povo da sua época e desafiou os seus contemporâneos a voltar às coisas simples de antigamente. A sua mensagem chegou ao clímax na declaração da vontade de Deus: “Ele mostrou a você, ó homem, o que é bom e o que o SENHOR exige: pratique a justiça, ame a fidelidade e ande humildemente com o seu Deus” (6.8). Esse resumo de exigências da verdadeira religião é considerado por alguns eruditos (e.g., H. L. Ellison, Men Spake from God, 1952, p. 66) como praticamente uma combinação entre os ensinos dos três grandes profetas que o precederam: fazer justiça — Amós; amar a misericórdia (chesed) — Oséias; andar humildemente com Deus, i.e., como é adequado à sua santidade — Isaías. A sua profecia chega ao final com uma declaração muito franca do Deus de Miquéias — “Quem é comparável a ti, ó Deus, que perdoas o pecado e esqueces a transgressão...?” (7.18). O forte impacto que a sua pregação causou na sua própria época pode ser visto no fato de ser lembrado cem anos mais tarde nos dias de Jeremias (Jr 26.18), uma vez que a reforma de Ezequias se deveu em grande parte ao ministério dele.

Essas breves considerações acerca das personagens principais entre os profetas pré-exílicos somente nos dá um vislumbre acerca desses homens e de seu ministério. As profecias menos conhecidas de Sofonias e Naum concentram-se respectivamente em Jerusalém e Nínive. Sofonias aponta para uma promessa de salvação para Jerusalém e os povos da terra, enquanto a mensagem de Naum é da condenação que está para cair sobre Nínive. A tensão está presente em toda a sua profecia. Não sabemos nada de Habacuque como pessoa. Mas há um desenrolar muito claro da sua história interior no seu escrito. Os seus problemas pessoais enquanto refletia acerca do desenvolvimento dos eventos mundiais e a sua experiência com Deus durante esse período conduziram à mensagem que para ele se tornou uma âncora e, desde então, tem se tornado uma mensagem universal de conforto: “... o justo viverá pela sua fidelidade” (2.4). Com base nessa fonte, essa profecia atravessa os séculos até a época do NT e encontra eco e é citada nos escritos de Paulo e na carta aos Hebreus (Rm 1.17; G1 3.11; Hb 10.38).

Em todos os escritos proféticos, há uma combinação de observações severas e carinhosas. Em época e contexto diferentes, Paulo escreveu acerca da “bondade e [da] severidade de Deus” (Rm 11.22). A sua severidade nunca deve fazer os seres humanos menosprezarem o amor e a paciência dele. O simples fato de que Deus enviou ao povo seus servos um após outro ao longo de muitos séculos é evidência da compaixão de Deus pelo seu povo errante. Há pessoas que afirmam que o Deus do AT é diferente do Deus do NT; que Deus é severo e justo em todo o AT, mas que Jesus trouxe o novo conceito da paternidade de Deus. G. E. Wright dá pouco crédito a esse ponto de vista: “De todas as generalizações enganosas, incorretas e distorcidas, essa é a pior. Contém exatamente a mistura certa de verdade e erro que faz dela a trama de heresias do próprio Diabo!” (op. cit.).

Jeremias foi a personagem mais insegura e hesitante entre os profetas. Isso surgiu não da falta de disposição dele de servir a Deus, mas por causa da percepção profunda de não ser capacitado para essa tarefa tão difícil. “Mas eu disse: Ah, Soberano SENHOR! EU não sei falar, pois ainda sou muito jovem”, foi a sua primeira reação. Mas o chamado revelou a sua consagração ao ofício de profeta que já havia acontecido e a capacitação consequente que lhe seria dada para o ministério (Jr 1.4-8). Ele estava destinado ao martírio virtual por toda a vida mediante o sofrimento. Mas, embora tenha vivido para testemunhar o colapso final de Jerusalém, tornou-se a maior personagem dessa época, fiel a Javé até o final. O jovem tornou-se forte para ser “uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e um muro de bronze” contra toda a terra, os reis de Judá e todos os que se agruparam contra ele. “Eles lutarão contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você e o protegerei”, foi a promessa que recebeu de Deus (1.18,19).

“Quando o AT ensina acerca da Lei, abrange dois aspectos que correspondem aos dois estágios sucessivos do seu desenvolvimento” (E. Jacob, Theologj ofthe OldTestament, T.I. 1958, p. 272). No estágio inicial, a Lei podia ser definida como a revelação de Deus àqueles que estão num relacionamento de aliança. O segundo estágio “pode ser caracterizado pela separação entre a Lei e a aliança” (op. cit.). Com o colapso da antiga aliança e a apostasia do povo, Jeremias profetizou acerca da elaboração de uma nova aliança:

“Estão chegando os dias”, declara o Senhor, “quando farei uma nova aliança com a comunidade de Israel e com a comunidade de Judá” [...]. “Esta é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias”, declara o Senhor: “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo. Ninguém mais ensinará ao seu próximo nem ao seu irmão, dizendo: ‘Conheça ao Senhor’, porque todos eles me conhecerão, desde o menor até o maior” [...]. “Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados” (Jr 31.31-34).

A Lei foi escrita sobre tábuas de pedra, nunca atingindo o coração deles, mas a nova aliança seria escrita no seu coração. Dentro deles, surgiria um desejo de fazer a vontade de Deus em virtude da natureza espiritual da nova aliança.

Essa era uma mudança radical e profunda. Estava já apontando para a era cristã, que encontra o seu cumprimento por meio da obra de Cristo na cruz. A natureza do cristianismo está na mudança do coração, como o apóstolo Paulo expôs no seu ministério da nova aliança. A vinda do Espírito Santo fez do homem uma nova criatura, de forma que depois disso se pôde dizer: “Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos” (2Co 3.3). Na observância da ceia do Senhor, os elementos do pão e do vinho tornam-se lições com ilustrações práticas que nos lembram da verdade central do cristianismo: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue [...] Porque, sempre que comerem deste pão e beberem deste cálice, vocês anunciam a morte do Senhor até que ele venha” (ICo 11.25, 26). Jeremias mal sabia que a aliança de que estava falando seria ratificada pelo sangue de Jesus e mediada por ele na sua vida ressurreta (Hb 8.6-13).

Ezequiel foi o grande profeta do exílio. Ele tem sido chamado “o profeta da reconstrução” porque, apesar das suas mensagens de juízo, prometeu a renovação espiritual do povo e o estabelecimento da nova comunidade da fé (v. F. F. Bruce, comentário de Ezequiel, p. 1119). Sempre há esperança porque sempre existe o Deus vivo que não abandona o seu povo. O clímax da profecia de Ezequiel anuncia a promessa divina: “O SENHOR ESTA AQUI” (48.35). Essa observação acerca do cumprimento final da presença de Deus entre o seu povo vai além do exílio. Zacarias e Ageu ministraram numa época que Zacarias descreveu como “o dia das pequenas coisas” (4.10). Foi uma época de depressão espiritual; o povo era uma minoria inexpressiva rodeada pelos seus inimigos. Os mensageiros de Javé conclamaram o povo à restauração dos valores corretos e profetizaram que a glória de Deus habitaria entre ele (Ag 2.9; Zc 14.16,20,21). Na profecia de Ageu, Deus é o que diz: “Farei tremer o céu, a terra, o mar e o continente [...] todas as nações” (Ag 2.6,7), para que os seus propósitos sejam alcançados — uma mensagem que encontra eco no AT. Estava por vir “a remoção do que pode ser abalado, isto é, coisas criadas, de forma que permaneça o que não pode ser abalado” (Hb 12.27). Esse reino inabalável tornou-se a herança do povo de Deus hoje.

Toda a elaboração contínua da mensagem profética teve o propósito de gerar a percepção da presença de Deus e da sua grandeza e esplendor, para produzir um retorno apaixonado do povo a Deus. E nisto que consiste o avivamento: não há atalhos para essa experiência. Bem acima de todas as diferenças de ênfase no ministério dos profetas, estava uma percepção aumentada de Javé que pudesse conduzir ao arrependimento e completa restauração do povo a Deus. Assim, o propósito subjacente de Deus seria cumprido em uma experiência e padrão éticos, numa vida que estivesse em harmonia com a natureza e a vontade dele.

A palavra sempre era maior do que a pessoa que a transmitia. Sua tarefa era transmitir a mensagem sem nenhum acréscimo. Javé era considerado o autor soberano da história, e os seres humanos eram os instrumentos da palavra dele. A continuidade do ministério profético estava garantida pela promessa de sucessão profética (Dt 18.15-18). Essa função espiritual era essencial para o povo, pois os profetas eram os “olhos” e a “cabeça” do povo (Is 29.10), os homens por meio dos quais se podia discernir e aprender o ponto de vista de Deus. A grande responsabilidade dos profetas é sugerida pela palavra a Jeremias: “Eu o designei para examinador de metais, provador do meu povo, para que você examine e ponha à prova a conduta deles” (Jr 6.27).

A única explicação para a originalidade e a criatividade dos profetas está na sua visão de Deus e na mensagem que se originava nessa revelação. Cada um desses homens teve uma experiência pessoal com Deus que explicava o seu ministério. Cada um ensinava o que tinha aprendido de Deus: isso não poderia ter sido concebido ou inventado por seres humanos. A ternura e o amor divinos eram expressos em imagens como esta: “Mas fui eu quem ensinou Efraim a andar, tomando-o nos braços [...]. Eu os conduzi com laços de bondade humana e de amor; tirei do seu pescoço o jugo e me inclinei para alimentá-los” (Os 11.3,4). “Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atraí” (Jr 31.3). Essa originalidade essencial surgiu do fato de que os verdadeiros profetas de Deus eram homens que faziam parte do conselho de Deus. A queixa contra os falsos profetas era que eles não tinham esse privilégio: “Mas se eles tivessem comparecido ao meu conselho, anunciariam as minhas palavras ao meu povo [...]” (Jr 23.22). A luz disso, podemos entender as palavras: “Certamente o SENHOR, O Soberano, não faz coisa alguma sem revelar o seu plano aos seus servos, os profetas” (Am 3.7). A mensagem era transmitida por meio de oráculos, visões, parábolas, sinais, símbolos, poesia — todos foram usados em um ou outro momento do ministério dos profetas de Deus. As suas capacidades eram especialmente estimuladas e aceleradas para as tarefas específicas que enfrentaram de tempos em tempos. Algumas das frases usadas dão evidência do que acontecia: “Assim diz o SENHOR”; “Oráculo acerca de...”; “A palavra que Isaías, filho de Amoz, viu...”; “Ouve esta palavra...”. Receber e repassar cada uma dessas mensagens deve ter sido uma experiência memorável na vida desses servos de Deus, quando novamente se tornavam instrumentos pelos quais a palavra de Deus era transmitida a seus contemporâneos.

As mensagens proféticas originavam-se em situações históricas específicas e eram dirigidas, em primeiro lugar, àquelas ocasiões ou pessoas. Para captar o seu verdadeiro significado, é necessário isolar o princípio fundamental do contexto imediato. O profeta talvez esteja se dirigindo a uma situação específica na história do povo, mas a verdade duradoura contida na mensagem é válida para todas as épocas. Nisso está um elemento singular das profecias: nunca há dúvida alguma acerca do governo soberano de Deus no mundo de hoje. Os princípios do seu governo revelados naqueles tempos são os mesmos que marcam a sua atividade entre os homens hoje. Nesse sentido, Deus não está silencioso, apesar de algumas pessoas pensarem que ele não tenha falado desde a cruz. Esse ponto de vista talvez até seja correto em relação à manifestação visível de Deus no mundo. Isso virá no final dos tempos. Mas agora há conforto no conhecimento da sua atividade invisível, no seu agir na história com vistas ao cumprimento final do seu propósito eterno.

Os estudiosos têm se referido à “perspectiva profética”, à “diminuição do horizonte profético”. Houve tempos em que eles olhavam para o dia do Senhor, para a consumação da história. Ao fazerem isso, saltavam o intervalo que existia entre o tempo imediato e o cumprimento final do seu ministério. Os oráculos de Is 40—66, independentemente da época em que foram pronunciados, referem-se ao período final do exílio. Em toda essa profecia, há um olhar para a “era por vir”, em contraste com a “presente era”. Não há problema algum nisso, uma vez que discernimos que existe uma sobreposição entre “esta era” e a “era por vir”. Podemos viver dentro do ambiente deste mundo material e ao mesmo tempo experimentar os poderes da era futura. E uma vida dupla, característica daqueles que experimentam no presente o conhecimento de Deus. E possível, então, entender os livros dos profetas ao observar o mundo “do ponto de vista deles, olhar com eles para a história específica deles e experimentar o desafio e a proximidade da vontade de Deus para aquele momento”. Mas também precisamos nos posicionar na nossa própria história e tentar buscar a palavra imediata do Senhor para nós agora, neste momento (Wright, op. cit., p. 40). Ao cumprirmos essas duas condições, as verdades que os profetas reforçam nunca permanecerão meramente abstratas, mas se tornarão intimamente associadas à vida como a conhecemos hoje.

O último capítulo de The Doctrine of the Prophets (A. F. Kirkpatrick, 1892) é intitulado “Cristo, o objetivo da profecia”. Ao comentar acerca dos séculos de silêncio entre o AT e o NT, o autor diz:

Porque se a profecia foi, como se afirma que foi, um vislumbre inspirado para dentro do presente eterno da mente divina, ela deve prever o propósito divino para a humanidade se desenrolando no tempo, e essa previsão deve, no tempo certo, traduzir-se em fatos. Quando as cortinas se fecham sobre o palco da profecia do AT no final do século V a.C., sentimos que o enigma espera pela sua resolução, ao drama falta o desenlace.

O NT explica o que os primeiros cristãos pensavam a respeito da profecia do AT:

Foi a respeito dessa salvação que os profetas que falaram da graça destinada a vocês investigaram e examinaram, procurando saber o tempo e as circunstâncias para os quais apontava o Espírito de Cristo que neles estava, quando lhes predisse os sofrimentos de Cristo e as glórias que se seguiriam àqueles sofrimentos. A eles foi revelado que estavam ministrando, não para si próprios, mas para vocês, quando falaram das coisas que agora lhes foram anunciadas por meio daqueles que lhes pregaram o evangelho pelo Espírito Santo enviado dos céus; coisas que até os anjos anseiam observar (IPe 1.10-12; veja também Lc 24.25ss.; At 3.24ss).

Quando o Senhor ressurreto ensinou os seus discípulos no caminho para Emaús, deve ter desvendado para eles os segredos da profecia messiânica do AT.

Ao estudarmos o AT com esse conhecimento, percebemos que muito, não importa a implicação imediata disso para a época, pode ser entendido como aspectos que teriam o seu cumprimento definitivo em Jesus. É nesse sentido que entendemos as profecias do rei ideal, do Servo Sofredor e muitos outros elementos que encontrariam o seu conteúdo no advento e no reino do Messias. “O testemunho de Jesus é o espírito de profecia” (Ap 19.10). A profecia prepararia o mundo para a vinda dele e daria testemunho daquele que viria para ser profeta, sacerdote e rei. A interpretação da profecia no NT era, portanto, centrada em Cristo. Um típico sermão apostólico culminava com estas palavras: “Todos os profetas dão testemunho dele, de que todo o que nele crê recebe o perdão dos pecados mediante o seu nome” (At 10.43; cf. tb. At 8.30-35; 17.3). Podemos ainda acrescentar aquelas passagens nos Evangelhos em que profecias do AT são diretamente associadas ao nosso Senhor (Mt 1.22,23, et. al).

Além de profecias específicas agora consideradas messiânicas, há passagens em Lamentações — que se referem estritamente à queda de Jerusalém — que são usadas com frequência em relação à paixão do Senhor. Um comentário equilibrado acerca dessa questão diz:

Enquanto isso for feito com reverência e reflexão, poucos vão criticar [...]. E perfeitamente normal então que se espere que nesse livro de sofrimento pelo pecado seja repetida a frase que nos lembra do coração amoroso de um sofrimento muito mais profundo (Ellison, op. cit., p. 154).

Não incluímos Daniel nesta análise em virtude de sua natureza apocalíptica e também porque não está incluído na seção dos profetas no cânon do AT. Mas aqui também a visão do filho do homem (Dn 7) pode ser associada a outras profecias que apontam adiante para Cristo (v., e.g., Mc 14.62).

Nos dias tenebrosos do Estado judaico, foram pronunciadas palavras que a fé poderia captar. Uma dessas mensagens é encontrada tanto em Miquéias quanto em Isaías:

Nos últimos dias acontecerá que o monte do templo do Senhor será estabelecido como o principal entre os montes, e se elevará acima das colinas. E os povos a ele acorrerão [...] Pois a lei virá de Sião, a palavra do Senhor, de Jerusalém...” (Mq4.1-4; Is2.2ss).

Foram essas profecias entre as outras que levaram muitas pessoas a esperar pelo cumprimento das promessas davídicas na época em que Jesus nasceu. Zacarias adorou o Senhor no seu hino de louvor, “porque visitou e redimiu o seu povo. Ele promoveu poderosa salvação para nós, na linhagem do seu servo Davi, (como falara pelos seus santos profetas, na antiguidade)...” (Lc 1.68ss). E evidente que uma boa compreensão da profecia do AT é necessária para o entendimento do significado completo do NT.

Talvez o valor máximo da profecia do AT para nós esteja no desafio de seu elemento devocional e ético. Em todos esses escritos, o leitor encontra garantias que a fé pode incorporar para o fortalecimento da vida espiritual e da esperança. Esse é o ponto de vista sugerido pelo apóstolo Paulo ao aplicar um salmo do AT ao Senhor: “Pois tudo o que foi escrito no passado, foi escrito para nos ensinar, de forma que, por meio da perseverança e do bom ânimo procedentes das Escrituras, mantenhamos a nossa esperança” (Rm 15.4). A fé que se fundamenta no propósito contínuo de Deus como foi desenrolado pelos profetas é forte, pois está construída sobre um alicerce inabalável.



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