4 de abril de 2015

F. F. Bruce - Introdução à literatura sapiencial

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O Antigo Testamento inclui três livros que são distintivamente conhecidos como livros “sapienciais”, livros de sabedoria: Jó, Provérbios e Eclesiastes. Além disso, o Saltério contém um grande número de composições que são chamadas “salmos sapienciais” (e.g., SI 4, 10, 14, 19, 37, 49, 73, 90, 112). A LXX inclui mais alguns livros “sapienciais” que não fazem parte da Bíblia hebraica: Eclesiástico (A Sabedoria de Jesus ben-Siraque, escrito em hebraico c. 180 a.C. e traduzido para o grego pelo neto do autor meio século mais tarde) e Sabedoria (escrito em grego por um judeu egípcio no século I a.C.). Baruque e 4Macabeus (que ilustra, com base no martirológio macabeu, o triunfo da razão correta sobre as paixões) também fazem uma contribuição à literatura sapiencial da LXX.

SABEDORIA PRÁTICA E PONDERADA

Ao considerarmos a sabedoria (hebraico hokhmãh) do AT no seu contexto mais amplo, podemos distinguir entre sabedoria prática e sabedoria ponderada ou refletida, embora não haja linha demarcatória claramente definida.

A sabedoria prática em qualquer cultura assume a forma primeiramente de ditos proverbiais que expressam em termos incisivos os eventos regulares observados na natureza ou na conduta humana: “Gato escaldado tem medo de água fria”. Uma forma mais bem elaborada é enigma, fábula ou parábola. Exemplos conhecidos do AT são o enigma de Sansão (Jz 14.12ss), as fábulas de Jotão (Jz 9.7-15), de Jeoás (2Rs 14.9) e as parábolas de Natã (2Sm 12.1-4) e da mulher sábia de Tecoa (2Sm 14.4-7). Um exemplo de um dos livros sapienciais é a história do “pobre sábio” em Ec 9.13-16, provavelmente baseada num incidente histórico. O mesmo termo hebraico (mãshãl) serve tanto ao provérbio quanto à parábola. A parábola atinge a sua perfeição nos evangelhos Sinópticos.

A sabedoria ponderada ou refletida aparece quando as generalizações populares são consideradas inadequadas para explicar os fatos desconcertantes da vida, e problemas tais como o significado da existência e do sofrimento dos inocentes provocam a reflexão em um nível mais profundo.

A SABEDORIA E A CRIAÇÃO

Quando se fazem tentativas de identificar um tema ou princípio central em torno do qual a teologia do AT possa ser organizada, é difícil relacionar a literatura sapiencial a isso. Se tentarmos identificar o tema central na história da salvação, há muito pouco disso nos livros sapienciais canônicos. Aliás, isso se reafirma nos livros sapienciais da Septuaginta: Sabedoria 10.1ss, por exemplo, relata a história bíblica a partir de Adão em termos da orientação da sabedoria, com destaque especial para a narrativa do Êxodo e da peregrinação no deserto, mas essa nota está ausente da literatura sapiencial da Bíblia hebraica.

Se em vez disso tentarmos identificar o tema central no princípio da aliança, certamente podemos concordar em torno do fato de que a aliança estabelecida pelo Deus de Israel com o seu povo é a pressuposição implícita dos livros sapienciais canônicos, mas eles não fazem nenhuma menção explícita a isso. Nesse sentido, também os livros sapienciais posteriores, ao identificarem a sabedoria com a Lei mosaica (cf. Baruque 3,9—4.4) e demarcarem uma distinção clara entre Israel e as outras nações, diferem da literatura anterior que é de natureza mais internacional. Não é por acaso que o herói do livro de Jó não é um israelita, que coleções de sabedoria arábica e possivelmente egípcia foram incorporadas em Provérbios e que Eclesiastes tenha afinidades com algumas linhas do pensamento grego.

O Deus de Israel não é Deus de Israel somente; ele é o Criador do mundo. A sua criação está aí para ser desfrutada e analisada, o estudo da criação desvenda a glória maior do Criador, e esse é um campo do conhecimento que está aberto para todos. E de fato possível suprimir o conhecimento de Deus que é revelado dessa forma e adorar a criatura, em vez do Criador, mas isso é uma deturpação do propósito divino na criação. Zofar, de Naamate, pode até perguntar a Jó: “Você consegue perscrutar os mistérios de Deus?” (Jó 11.7), mas sua pergunta desalentadora não deve ser entendida como um oráculo inspirado que exige a resposta “Não”, pois, mesmo que os mistérios de Deus sejam inesgotáveis, devem ser explorados pelo ser humano, e a função mais nobre da sabedoria é conduzir o homem nessa busca árdua.

A teologia sapiencial do AT está fundamentada na certeza de que a sabedoria é uma dádiva de Deus e está relacionada à ordem duradoura da criação de Deus, e não a ocorrências históricas singulares. Mas até a teologia sapiencial revela o princípio da salvação, que surge do encontro do homem com a criação no seu sentido mais amplo. Deus fala por meio das suas obras; ele fala por meio do seu procedimento com os seres humanos. Dar ouvidos à sua voz é o caminho para a vida; ignorá-la é o caminho para a ruína. E ouvindo a voz de Deus que o ser humano cultiva esse “temor do SENHOR” que é o “princípio da sabedoria” (SI 111.10; cf. Jó 28.28; Pv 1.7). O homem verdadeiramente sábio é aquele que enxerga a vida e o Universo com esse espírito de reverência, ao passo que o “tolo” é destituído de sensibilidade moral e religiosa; quando ele diz a si mesmo “Deus não existe” (SI 14.1; 53.1; cf. 10.4), não está expressando um ateísmo intelectual, mas conduzindo a sua vida como se não existisse Deus: “Aos seus olhos é inútil temer a Deus” (SI 36.1).

SABEDORIA INTERNACIONAL

Os próprios autores do AT reconhecem que a sabedoria não tem fronteiras nacionais. Alguns dos povos vizinhos de Israel são conhecidos pela elevada reputação de sua sabedoria. A sabedoria de Salomão era tão excepcional que se diz dela ser “maior do que a de todos os homens do oriente, e do que toda a sabedoria do Egito” (lRs 4.30). A região em que Jó e seus amigos viviam era conhecida pela sabedoria; o oráculo de Jeremias contra Edom pergunta: “Será que já não há mais sabedoria em Temã?” (Jr 49.7), enquanto Obadias também adverte em relação a isso e diz que, quando vier o dia de ajuste de contas, Deus irá destruir “os sábios de Edom, e os mestres dos montes de Esaú” (Ob 8).

Aliás, fora os oráculos de Balaão (Nm 23.7 —24.24), é somente na literatura sapiencial que as declarações de não-israelitas recebem status canônico no AT. Jó e seus amigos, como acabamos de ver, pertencem a clãs edomitas, e a sabedoria de Israel em Provérbios suplementou seus textos de coleções de ditados de homens e mulheres sábios de Massá, no norte da Arábia (Pv 30.1—31.9).

Paralelos dos estilos principais da literatura sapiencial do AT podem ser encontrados no antigo Egito, na antiga Babilônia e, num período posterior, na Grécia. Já no início da terceira dinastia egípcia (c. 2700 a.C.), Im-hotep, sacerdote, médico e arquiteto, tornou-se famoso como autor de provérbios; dois ou três séculos depois, as máximas de Ptah-hotep constituem-se na “primeira formulação da conduta correta a ser encontrada em qualquer literatura” (J. H. Breasted, TheDawn of Conscience, 1935, p. 129). O colapso do Reino Antigo (c. 2200 a.C.) conduziu outros sábios egípcios a uma forma mais pessimista de enxergar a vida ao refletirem acerca da futilidade das riquezas mundanas, mas um deles, Ipuwer, conseguiu olhar adiante dos males presentes para a vinda de um rei justo que traria descanso à humanidade como um pastor às suas ovelhas.

Há alguns paralelos muito próximos com os “ditados dos sábios” (Pv 22.17—23.12) nos ditos do sábio egípcio Amen-em-ope, aproximadamente contemporâneo de Salomão, que foram organizados em 30 capítulos (cf. os “trinta ditados” de Pv. 22.20). Independentemente de qual seja a relação entre as duas coleções, as “palavras dos sábios” hebraicas são registradas “para que você confie no SENHOR” (Pv 22.19); estão, assim, relacionadas à fé da aliança de Israel.

Acerca de paralelos babilónicos, podemos dizer que têm várias reflexões sobre o tema do sofredor inocente (que encontra a sua expressão clássica em Jó), especialmente na composição chamada, com base nas suas palavras iniciais, Eu vou louvar ao Senhor da sabedoria, que descreve a situação de um homem cujas experiências foram muito semelhantes às de Jó (embora a forma de tratar o assunto seja distintamente inferior ao do livro hebraico). Algo do tom negativo de Eclesiastes é prefigurado em passagens da Epo-pãa de Gilgamesh e do Diálogo do pessimismo. Nesta última, um senhor babilónico e seu escravo discutem a vida e concluem que não existe valor algum — em outras palavras, que tudo é uma “grande inutilidade” (Ec 1.2).

Há períodos na história de muitos povos e indivíduos que ditam o pessimismo acerca de qualquer significado ou propósito na vida. H. Ranston (Ecclesiastes and the Early Greek Wisdom Literature, 1925) cita muitos paralelos marcantes a Eclesiastes extraídos de Teógnis, o poeta grego que se distinguiu em torno de 500 a.C. Mas aqui, como em paralelos de outras áreas de literatura sapiencial do AT, não podemos nos precipitar em concluir que a semelhança de pensamento ou mesmo de expressão implica dependência direta. Situações semelhantes produzem efeitos semelhantes em todo o mundo. A erudição sapiencial, tanto oral quanto escrita, é o fruto da experiência e pressupõe (não sem razão) que a experiência não é ilusória, mas fornece evidências válidas pelas quais podemos tirar conclusões seguras a respeito de Deus, do ser humano e do mundo.

A TRADIÇÃO SAPIENCIAL EM ISRAEL

Além da sabedoria internacional e nacional, o AT dá testemunho de fortes tradições de sabedoria local ou de “clãs”. Diz-se de uma cidade no extremo norte de Israel: “Antigamente se dizia: ‘Peça conselho na cidade de Abel’, e isso resolvia a questão” (2Sm 20.18) . Reflexos desse tipo de sabedoria tradicional são identificados em Amós e outros profetas pré-exílicos (cf. H. W. Wolff, Amos’ geistige Heimat, 1964; D. A. Hubbard, The Wisdom Movement and Israel’s Covenant Faith, Tyndale Bulletin 17, 1966, p. 3ss). A contribuição de tal tipo de sabedoria para o ensino dos grandes profetas sublinha o fato de que a literatura sapiencial hebraica está marcada com a fé do povo de Israel no único e verdadeiro Deus. A sabedoria na literatura bíblica é sabedoria divina; nas necessidades mais profundas do homem, a luz mais clara e segura vem do conhecimento de Deus. Se a sabedoria do AT não faz menção explícita da aliança de Deus com Israel, ela encontra um contexto perfeitamente adequado nos registros que estão permeados com o tópico da aliança.

Salomão, cuja sabedoria excelente e famosa é louvada repetidamente na narrativa do seu reinado em IReis, tornou-se o patrono real da literatura sapiencial. Diz-se que ele mesmo “compôs três mil provérbios” e que discorreu acerca da história natural (lRs 4.32, 33). No final do século I a.C., o autor do livro de Sabedoria achou que era apropriado escrever com o nome de Salomão e reformular em termos da sua época a oração e o pedido de Salomão por sabedoria registrado em lRs 3.5-14 (cf. Sabedoria 7.7-22). Aliás, em torno do começo do século II d.C., uma coleção de hinos cristãos tornou-se conhecida como Odes de Salomão — talvez em honra ao rei cujos cânticos “chegaram a cinco mil” (lRs 4.32). 

Mais tarde, outro patrono da literatura sapiencial parece ter sido o rei Ezequias, por causa da referência em Pv 25.1 aos “provérbios de Salomão, compilados pelos servos de Ezequias, rei de Judá”.

Embora não faltasse erudição sapiencial antes da monarquia unida de Davi e Salomão, o seu estabelecimento marcou o nascimento de uma era de grande atividade cultural em Israel. Entre os homens sábios da corte de Davi, destacavam-se Aitofel, cujos conselhos eram considerados por Davi e Absalão “como se fossem a palavra do próprio Deus” (2Sm 16.23), e Natã, que é comumente denominado de “o profeta” mas que na prática levou o rei à autocondenação por meio da sua parábola da ovelha (2Sm 12.1-6). Assim, Natã pode ser colocado tanto entre os sábios quanto entre os profetas. Embora sábios, profetas e sacerdotes tenham, cada um, a sua própria função e forma de comunicar, as três categorias não devem ser tão nitidamente distinguidas a ponto de não ser possível nenhuma sobreposição entre uma função e outra.

O lugar do sábio (heb. hãkhãm) na opinião pública ao lado do profeta e do sacerdote como mediador da verdade divina é indicado em Jr 18.18, em que se afirma com segurança que “não cessará o ensino da lei pelo sacerdote nem o conselho do sábio nem a mensagem do profeta”. Os sábios transmitiam a sua sabedoria de geração a geração; eles tinham suas escolas, seus discípulos, doutrinas e coleções de provérbios, nos quais se basearam os escritos sapienciais do AT.

SABEDORIA CANÔNICA

As coleções das declarações dos sábios reunidas no livro de Provérbios estabeleceram a relevância prática da sabedoria na vida diária. Deus é apresentado como justo, e o seu mundo é um mundo moral, caracterizado por retribuição temporal pela justiça e misericórdia e retribuição temporal por maldade e insensatez. Mas os problemas mais agudos e difíceis da existência não são tratados aqui. “Provérbios parece estar dizendo: ‘Aqui estão as regras da vida; teste-as e descubra que funcionam’. Jó e Eclesiastes dizem: ‘Nós as testamos, e elas não funcionam’ ” (D. A. Hubbard, loc. cit., p. 6).

No livro de Jó, encontramos o clímax de uma longa luta com esses problemas. Estágios anteriores desse processo estão marcados pelos chamados “salmos problemáticos”. Alguns desses salmos (e.g., os salmos 14, 19, 90) lidam com os problemas de forma calma e quase filosófica: eles contemplam o paradoxo de um mundo criado por um Deus bom e a perversidade do homem, que faz parte dessa criação. “Os céus declaram a glória de Deus” e “a lei do SENHOR é perfeita”, mas em relação ao homem “quem pode discernir os próprios erros?” (SI 19.1,7,12). Mas, em outros “salmos problemáticos” (e.g., SI 10, 37, 49, 73), há uma luta com o medo e a dúvida. Os justos sofrem, os ímpios prosperam e Deus aparentemente não faz nada. “SENHOR, por que estás tão longe? Por que te escondes em tempos de angústia? [...] Levanta-te, SENHOR! Ergue a tua mão, ó Deus! Não te esqueças dos necessitados” (SI 10.1,12). Mas a perplexidade do homem temente a Deus não fica sem resposta: tudo que torna a vida digna de ser vivida pertence àquele que pode dizer: “Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre” (SI 73.26).

O que fazer, porém, quando parece que Deus abandonou o homem piedoso? Essa é a situação de Jó. O livro que leva seu nome propõe duas perguntas: 1) Algum homem se dispõe a servir a Deus somente por amor a Deus? (i.e., será que existe algo como bondade simples e desinteressada?) e 2) Por que um homem temente a Deus sofre? Satanás faz a primeira pergunta e está certo de que a resposta é “Não”; o fato de Jó preservar a sua integridade em meio às aflições prova que a resposta é “Sim”. Mas Jó não tem acesso ao conselho celestial e, sem saber a verdadeira causa da sua desgraça, é forçado a suportar a insistência repetida dos seus amigos em que, visto que ele está sofrendo, deve ter pecado. Mesmo assim, ele se nega a ser convencido por eles e os choca ao desafiar Deus a vindicar o seu próprio caráter (e não o de Jó). No final, ele está contente quando Deus lhe fala e ele enxerga sua experiência da perspectiva da grandeza divina.

Eclesiastes tem a forma de um testamento real. Esse livro recomenda a sabedoria como o único caminho para lidar com a triste realidade da vida — uma sabedoria cautelosa e despretensiosa, aliás, que encontra contentamento num dia de trabalho bem-sucedido, na satisfação da simples comida e bebida quando a pessoa desenvolveu apetite por elas e no prazer da vida em família. É melhor ser grato pelas pequenas coisas, pois o mundo está cheio de injustiças, o futuro é incerto demais e a morte é certa demais para que o ser humano se perca em grandes esperanças, mesmo que o Criador tenha posto “no coração do homem o anseio pela eternidade” (Ec 3.11). O que o Pregador teria dito ao homem que não consegue achar trabalho, que não tem nada para comer ou beber e que está separado da mulher e dos filhos? Nada, possivelmente, a não ser: “Que grande inutilidade! Nada faz sentido!” (Ec 1.2).

Ao lidar com os problemas da vida na terra, os livros sapienciais canônicos não recorrem a um mundo novo para restabelecer o equilíbrio do antigo. Uma vez, aliás, numa irrupção de fé Jó treme quando se percebe à margem de uma nova percepção: “E depois que o meu corpo estiver destruído e sem carne, eu verei a Deus” (Jó 19.26). Mas em grande parte essa busca ocorre dentro dos limites desta vida. Somente quando chegamos ao livro de Sabedoria, encontramos o conceito de imortalidade invocado abertamente, e isso sob a influência do pensamento grego.

SABEDORIA NARRATIVA E APOCALÍPTICA

Paralelo à literatura sapiencial característica do AT, há um gênero literário sapiencial, mais bem elaborado do que a parábola, exemplificado especialmente no tema do israelita leal que, exilado de casa não por culpa sua, é bem-sucedido por meio da sabedoria ao atingir uma posição de grande responsabilidade e honra, em meio a muita maldade e ciúme. O protótipo desse tipo de gênero é a história de José, mais “criterioso e sábio” do que todos os outros, e por isso recebe “o comando de toda a terra do Egito” (Gn 41.38¬41). O gênero é especialmente comum em relação aos períodos exílico e pós-exílico, como nos registros de Daniel, que “era um iluminado e tinha inteligência e sabedoria como a dos deuses” (Dn 5.11), e Mardoqueu, cuja previsão cuidadosa e planejamento prudente o fizeram alcançar o posto de “segundo na hierarquia, depois do rei Xerxes” (Et 10.3). Exemplos desse gênero fora da Bíblia hebraica são as histórias de Tobias e Ahiqar.

O livro de Daniel ilustra a transição da sabedoria narrativa para a sabedoria apocalíptica. Que a apocalíptica é um dos desenvolvimentos da literatura sapiencial é um fato muitas vezes negligenciado. A dotação excepcional de Daniel com sabedoria divina o capacita a interpretar os sonhos de Nabucodonosor e a escrita na parede da festa de Belsazar, bem como a preservar sua integridade como jovem, logo no início da sua estada na corte babilônica, e na idade avançada, quando ressurge da aposentadoria para exercer grandes responsabilidades de Estado no reinado de Dario. Vemos uma ilustração do mesmo tipo de sabedoria nas adições da Septuaginta que descrevem sua coragem em expor a fraude da idolatria na história de Bel e o Dragão e a forma de ele vindicar e defender a honra de Suzana contra os seus caluniadores. Mas nas visões apocalípticas na segunda metade do livro, em que Daniel pede a ajuda de um anjo intérprete, vemos o destaque da necessidade da sabedoria para compreender e transmitir o propósito divino: “Aqueles que são sábios [maskilim] instruirão a muitos” e, apesar de perseguição e martírio, vão se levantar no final dos tempos para reluzir “como o fulgor do céu” (Dn 11.33; 12.3). “Nenhum dos ímpios levará isto em consideração, mas os sábios sim” (Dn 12.10). A mesma insistência na sabedoria divinamente inspirada é mantida na apocalíptica do NT; é somente por meio dela, por exemplo, que a identidade do último perseguidor imperial pode ser descortinada: “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta...” (Ap 13.18).

SABEDORIA PESSOAL

A sabedoria é personificada de tempos em tempos no AT — personificada como uma mulher, visto que também em hebraico a palavra “sabedoria” é feminina (como o grego sophia e o latim sapientiá). Ela é retratada como guia, filósofa e amiga, como a doadora de riquezas incomparáveis e imperecíveis, como a mestra de uma escola na qual os homens são convidados a aprender o caminho correto da vida (Pv. 3.15-18; 4.6-9; 8.1-21). Em Eclesiástico 51.23,26 (BJ), esse convite é formulado da seguinte maneira: Aproximai-vos de mim, ignorantes, entrai para a escola. Colocai o vosso pescoço sob o jugo, recebam vossas almas instrução, ela está perto, ao vosso alcance.

Há uma semelhança muito clara entre essas palavras e o convite no evangelho em Mt 11.29: “Tomem sobre vocês o meu jugo e aprendam de mim”, em que o nosso Senhor fala no papel da sabedoria divina.

Outra forma em que a sabedoria é personificada no AT tem ligações cósmicas. O reconhecimento de que a sabedoria de Deus é manifesta na criação pode ser prontamente expresso na declaração de Pv 3.19 (cf. SI 104.24):

“Por sua sabedoria o SENHOR lançou os alicerces da terra, por seu entendimento fixou no lugar os céus”.

Assim que a sabedoria é personificada, ela se torna a agente por meio da qual o mundo foi criado. O exemplo mais conhecido desse retrato está em Pv 8.22-31, em que a Sabedoria, criada pelo Criador antes da fundação do mundo, descreve a sua presença com ele — “eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto” (heb. ’ãmõn) — quando ele formou os céus e a terra, etapa por etapa, e descreve também a sua alegria em tudo que ele fez, incluindo com antecedência a “humanidade”. Em várias linhas de ensino do AT, essa sabedoria preexistente, o “amém [talvez um eco do ’âmôn de Pv 8.30], [...] o soberano da criação de Deus” (Ap 3.14), não é simplesmente personificada numa figura de linguagem, mas é apresentada como uma pessoa, mais tarde encarnada na humanidade de Jesus, que é, portanto, proclamado como “o primogênito de toda a criação”, em quem, por meio de quem e para quem o Universo foi trazido à existência, visto que “ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste” (Cl 1.15-17; cf. Jo 1.1-3; ICo 1.24,30; 8.6; Hb 1.2,3). Portanto, o retrato da sabedoria aparece como uma raiz importante da cristologia do NT.


BIBLIOGRAFIA

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Zimmerli, W. The Place and Limit of the Wisdom in the Framework of the Old Testament Theology, Scottish Journal of Theology 17, 1964, p. 146-158.

FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.