5 de abril de 2015

Danilo Moraes - História de Israel no Período Monárquico

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Introdução
 por Danilo Moraes

            A história de Israel começa há quatro mil anos com Abraão. Achados na Mesopotâmia, que datam da primeira metade do segundo milênio a.C., confirmam a vida nômade tal como relatada no livro de Gênesis. A descendência de Abraão com Jacó, que devido a fome emigram para o Egito, tendo em vista que já estava lá José, vendido pelos seus irmãos. No Egito tornam-se escravos depois da morte de José. A libertação do povo da escravidão egípcia, sob a liderança de Moisés, sem dúvida foi um marco na história. Originando aí a festa de Pêssah, Festa da Páscoa. Na seqüência temos a entrega da Lei (a Torah), de onde surge a festa de Shavuot, e posteriormente, devido ao fato de morarem em tendas, a festa de Sucot. Com Josué conquistam a terra.
         A organização tribal acabou por levar a monarquia.  Esta surge, com Saul, David e Salomão como Reis, isto em um período aproximadamente de 1020 a 930 a.C.. Com o término do reinado de Salomão, a monarquia é dividida. A expansão dos impérios da Assíria e Babilônia acabou colocando sob seu controle primeiro Israel, e depois Judá. O Reino de Israel foi massacrado pelos assírios em 722 a.C. e seu povo levado ao exílio. Cerca de cem anos depois a Babilônia domina o Reino de Judá, destruindo o Templo e levando-os ao exílio.


 1. Os Governos de Saul, Davi e Salomão

Os filisteus, um dos "povos do mar" rechaçados pelo Egito, haviam ocupado uma fértil faixa costeira no sudoeste da Palestina. Isto aconteceu por volta de 1150 a.C. “O surgimento dos povos do mar é documentado, pela primeira vez, sob Set I (em torno de 1330) e depois principalmente sob Merneptah (em torno de 1220).”[1] Os filisteus formaram uma confederação de cinco cidades: Gaza, Ascalon, Ashdod, Gat e Ekron.
Ou porque viam em Israel uma ameaça às suas rotas comerciais ou por algum outro motivo, os filisteus avançaram com um exército organizado contra os agricultores israelitas. Usavam armas de ferro, metal que sabiam trabalhar bem e perigosos carros de combate, além de possuírem uma longa tradição militar.
Por volta de 1050 a.C. os filisteus atacam e vencem os israelitas perto de Afeq, na região norte. De acordo com 1Sm 4, a Arca da Aliança, levada pelos sacerdotes de Silo para o campo de batalha, como última esperança, foi capturada, os israelitas derrotados. Silo, destruído.
Os filisteus não ocuparam todo o país, mas posicionaram-se em postos estratégicos, cortando as comunicações entre os vários grupos israelitas. Além do mais, proibiram o trabalho em metal em todo o território israelita - o que equivalia a um desarmamento geral do povo e à sua dependência dos filisteus até mesmo para os trabalhos mais elementares da agricultura - e saquearam os produtos de boa parte do país.
Samuel tentou por todos os meios levantar e organizar o povo para uma luta de libertação. Mas em vão.
A saída, então, foi a escolha de um chefe único, colocado acima de todos os grupos israelitas autônomos. Nem que fosse alguém com poder despótico, superior às  tribos todas em poder, com perigoso precedente de utilização deste poder contra parte da população, como acontecia nos reinos vizinhos e como demonstra o apólogo de Joatão em Jz 9,8-15, em um dos mais brilhantes panfletos anti-monárquicos que se conhece na história. Eis o texto:
"Um dia as árvores se puseram a caminho
para ungir um rei que reinasse sobre elas.
Disseram à oliveira: 'Reina sobre nós!'

A oliveira lhes respondeu:
'Renunciaria eu ao meu azeite,
que tanto honra aos deuses como aos homens,
a fim de balançar-me por sobre as árvores?'

Então as árvores disseram à figueira:
'Vem tu, e reina sobre nós!'

A figueira lhes respondeu:
'Iria eu abandonar minha doçura
e o meu saboroso fruto,
a fim de balançar-me por sobre as árvores?'

As árvores disseram então à videira:
'Vem tu, e reina sobre nós!'

A videira lhes respondeu:
'Iria eu abandonar meu vinho novo,
que alegra os deuses e os homens,
a fim de balançar-me por sobre as árvores?'

Então todas as árvores disseram ao espinheiro:
'Vem tu, e reina sobre nós!'

E o espinheiro respondeu às árvores:
'Se é de boa fé que me ungis para reinar sobre vós,
vinde  e abrigai-vos à minha sombra.
Se não, sairá fogo dos espinheiros
e devorará os cedros do Líbano!'".

Sobre a ascensão de Saul, um impetuoso benjaminita, a líder do povo, há duas versões opostas que refletem duas tendências: uma que aclama e defende a idéia (1Sm 9,1-10.16), outra que se opõe e alerta contra o perigo do empreendimento (1Sm 8).
"Este é o direito do rei que reinará sobre vós: Ele convocará os vossos filhos e os encarregará dos seus carros de guerra e dos seus cavalos e os fará correr à frente do seu carro; e os nomeará chefes de mil e chefes de cinqüenta, e os fará lavrar a terra dele e ceifar a sua seara, fabricar as suas armas de guerra e as peças de seus carros. Ele tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará os vossos campos, as vossas vinhas, os vossos melhores olivais, e os dará aos seus oficiais. Das vos­sas culturas e e das vossas vinhas ele cobrará dízimo, que destinará aos seus eunucos e aos seus oficiais. Os melhores dentre os vossos servos e as vossas servas, os vossos bois e os vossos jumentos, ele os tomará para o seu serviço. Exigirá o dízimo dos vossos rebanhos, e vós mesmos vos tornareis seus escravos. Então, naquele dia, reclamareis contra o rei que vós mesmos tiverdes escolhido, mas o Senhor não vos responderá, naquele dia!" (1Sm 8.11-18).
A característica da monarquia e da organização do Estado de Saul “tratava-se de um reinado militar de uma nação; sua tarefa inicial consistia unicamente em enfrentar de modo eficaz a ameaça filistéia”.[2]
Naturalmente o Estado de Saul não foi uma criação profana – ainda mais porque os âmbitos do profano e do sagrado entre os povos do Oriente Antigo se relacionavam e se distinguiam um do outro de modo diferente do que ocorre na consciência do mundo ocidental”.[3]
Em uma atuação carismática e espontânea, Saul conseguiu uma vitória sobre os amonitas que entusiasmou o povo e o convenceu de suas capacidades guerreiras (1Sm 11). Depois disso ele foi, aclamado rei em Guilgal (1Sm 11,14-15).
Mas, podemos dizer que Saul não foi propriamente um rei. Continuou a viver em sua terra, Gibea, e não tocou na estrutura interna da organização tribal. Era um chefe militar: mantinha um pequeno exército permanente e regular e seu governo oferecia alguns cargos: seu primo Abner era general de seu exército, Davi, seu escudeiro
Saul e seu filho Jônatas conseguiram uma boa vitória sobre os filisteus reunidos em Gibea e Micmas (1Sm 13-14), o que deu a Israel um alívio temporário.
Entretanto, a queda de Saul devia acontecer em breve. As causas poderiam ser identificadas na ambigüidade de sua posição (rei ou chefe tribal?), na independência tribal, na sempre constante ameaça dos filisteus e principalmente no desentendimento entre a antiga ordem tribal e as exigências da nova ordem.
Segundo as fontes bíblicas de que dispomos, Saul teria usurpado funções sacerdotais (1 Sm 13) e violado antigas leis da guerra santa que não favoreciam sua estratégia militar (1Sm 15).
Samuel, significativo representante da antiga ordem, acabou rompendo com Saul. As coisas se agravaram, porém, quando o jovem pastor de Belém, Davi, amigo de Jônatas e marido de Mical, filhos de Saul, tornou-se seu rival. Saul assassinou a família sacerdotal de Silo, agora estabelecida em Nob, porque esta defendera Davi (1Sm 22) e a partir daí perseguiu Davi implacavelmente.
Davi refugiou-se no deserto e formou um bando de guerreiros que fugiam de Saul e atacavam os filisteus. Não se agüentando, porém, nesta posição, Davi e sua tropa oferecem seus serviços ao rei filisteu de Gat. Este o acolhe e lhe dá como feudo a cidade de Siclaq, no Negueb.
A queda de Saul acontece quando os filisteus partiram mais uma vez de Afeq e, escolhendo posição favorável, entraram em choque com o exército de Saul a noroeste do monte Gelboé. A batalha estava perdida antes mesmo de começar, mas Saul não voltou atrás. Resultado: seus três filhos morreram em combate e ele mesmo, muito ferido, "se lançou sobre a sua espada" e seu exército foi totalmente desfeito (1Sm 31).
Por certo uma das razões principais para o fracasso de Saul e para o fim de seu sistema de Estado foi o declínio pessoal do rei, a diminuição de sua força, o retrocesso da fascinação que inicialmente havia emanado dele.”[4]
Os filisteus cortaram-lhe a cabeça e fixaram seu corpo e os de seus filhos nos muros de Bet-Shan, como exemplo para os israelitas. Então, ocuparam toda a terra. Saul liderou os israelitas de 1030 a 1010 a.C.

1.2 Davi e a criação do Estado
Para substituir Saul não ficara ninguém válido a não ser seu último filho Isbaal. Com efeito, Abner refugiou-se com ele em Mahanaim, na Transjordânia, e de lá pretendeu que fosse dada continuidade ao governo de Saul através do fraco Isbaal.         Enquanto isso, Davi dirigiu-se com seus homens para Hebron e, com o consentimento dos filisteus e o apoio da população do sul, tornou-se o líder de Judá (2Sm 2.1-4). Isto teria acontecido por volta de 1010 a.C.
Segundo as fontes bíblicas, dois anos mais tarde, Isbaal é assassinado e, através de hábeis manobras políticas, Davi é também aclamado rei da região norte do território por todo o povo (2 Sm 5.1-5).
Em seguida, ele conquista Jerusalém, cidade jebuséia situada no sul, e faz dela a sua cidade. Assim, Davi consegue uma união, ainda que frágil, dos vários grupos israelitas. “Ao procurar uma localização central para servir de capital da nação unificada de Israel, Davi voltou sua atenção para Jerusalém. Estava ela em local estratégico, sendo menos vulnerável a ataques. Sendo uma fortaleza cananéia, ocupada pelos jebuseus, resistira com êxito à conquista e à ocupação israelita.”[5]
Mas o fato de Israel ser governado de uma capital de tradições não-israelitas e que era possessão pessoal do rei certamente representava um passo a mais no desligamento da antiga ordem.[6]
Competia agora a Davi vencer os filisteus e acabar de vez com suas ameaças. Os filisteus atacaram repetidamente e foram totalmente derrotados: tiveram que reconhecer a supremacia de Israele tornaram-se seus vassalos.
Segundo o texto bíblico, Davi construiu, na verdade, um grande reino: submeteu Amon, Moab, Edom, os arameus etc. Todos os reis da região, até o Eufrates, pagavam-lhe tributos. 
E o Estado sob Davi funciona, segundo o texto bíblico, de maneira austera e modesta, mantendo uma administração baseada no respeito às instituições tribais e alguns funcionários.
"Davi reinou sobre todo o Israel, exercendo o direito e fazendo justiça a todo o povo. Joab, filho de Sárvia, comandava o exército. Josafá, filho de Ailud, era o arauto. Sadoc e Abiatar, filhos de Aquimelec, filho de Aquitob, eram sacerdotes; Saraías era secretário; Banaías, filho de Joiada, comandava os cereteus e os feleteus. Os filhos de Davi eram sacerdotes" (2Sm 8.15-18).
Seu exército compunha-se de israelitas convocados das várias tribos, de sua guarda pessoal - seus homens de confiança desde os tempos da clandestinidade - e de mercenários estrangeiros, como os cereteus e feleteus. “O período de proscrição e de residência na filístia não somente conferiu a Davi preparação para a liderança militar, mas sem dúvida alguma lhe deu uma familiaridade em primeira mão com as fórmulas e métodos empregados pelos filisteus na produção de armas”.[7]
Os países dominados pagavam tributo, instituiu-se a corvéia - estrangeiros obrigados a trabalhar grátis nos projetos do Estado – e Davi não interferiu na administração da justiça tribal. “Com rapidez dramática, as conquistas de Davi transformaram Israel na maior potência da Palestina e da Síria. De fato, naquele momento, Israel foi provavelmente tão poderoso quanto qualquer potência do mundo de então.”[8]
Davi levou para Jerusalém a Arca da Aliança, nomeou os chefes dos sacerdotes e fez tudo o que pôde para o culto, procurando assim manter o consenso da população ao redor da nova instituição.
É necessário esclarecer que a tomada de Jerusalém e a instalação da residência do rei aí foi uma solução genial e ideal dos problemas políticos com os quais Davi se via confrontado. Jerusalém era uma grandeza independente entre Israel e Judá; como príncipe da cidade-Estado de Jerusalém, Davi estava, por assim dizer, entronizado acima do dualismo entre o Norte e o Sul.”[9]
Apesar de tudo isto, Davi enfrentou tensões surgidas entre a antiga e a nova ordem: por exemplo, o recenseamento[10] (com fins fiscais e militares) que ele mandou fazer gerou conflitos e críticas (2Sm 24) e a luta de seus filhos pela sucessão enfraqueceu muito seu prestígio. Salomão substituiu-o no poder em 971 a.C. Davi governara 39 anos.

1.3 Salomão e a consolidação do reino
Salomão não era o herdeiro natural de Davi e sua posse foi recheada de intrigas e inimizades. Assim, logo que se viu garantido no poder, Salomão eliminou drasticamente seus inimigos. Mandou matar seu irmão Adonias, também o general Joab e desterrou o sacerdote chefe Abiatar. “Após a morte de Davi, Salomão fortaleceu sua reivindicação ao trono, ao eliminar todo possível conspirador”.[11]
Criou, segundo o texto bíblico, uma corte imensa e dispendiosa. 1Rs 4.22-23 conta de seus gastos: um absurdo em cereais e carne:
"Salomão recebia diariamente para seu gasto trinta coros de flor de farinha [1 coro = 450 litros] e sessenta de farinha comum, dez bois cevados, vinte bois de pasto, cem carneiros, além de veados, gazelas, antílopes, cucos cevados".
Conforme Ne 5.17s, 150 homens eram alimentados por Neemias                                                diariamente com 1 boi e 6 ovelhas, mais algumas aves. Com base nesta                           notícia, poder-se-ia imaginar que a corte de Salomão se tenha composto                          de 3.000 a 4.500 pessoas, uma vez que consumia 20 a 30 vezes mais                              carne que o grupo de Neemias. Se acrescentarmos ao consumo ainda a                                farinha, o número será bem maior.”[12]
No lugar de doze tribos contribuindo com soldados em tempos de guerra, havia doze distritos tributados para manter a corte de Salomão”.[13]
Quanto à administração, Salomão introduziu novidades enormes, como, por exemplo, a divisão do norte em 12 províncias, desrespeitando a divisão tribal e nomeando prefeitos estranhos às populações locais. Cada província cuidava da manutenção da corte durante um mês (1Rs 4.1-19).
Embora não fosse um guerreiro, Salomão sabia fazer se respeitar no armamento e na organização militar. Seu exército era poderoso na época e seus carros de combate temíveis. Estes carros foram uma inovação de Salomão. Davi só usava a infantaria. A população pagava por este exército, fornecendo "a cevada e a palha para os cavalos e os animais de tração, no lugar onde fosse preciso, e cada qual segundo o seu turno", diz 1Rs 4.28.
Apesar de algumas revoltas nos reinos vassalos e de um possível enfraquecimento de poder, Salomão, conseguiu, em geral, manter o país nos limites estabelecidos por seu pai Davi.
Mas sua habilidade revelou-se totalmente foi no comércio e na indústria, sempre segundo o texto bíblico. Construiu uma frota mercante que comerciava até com Ofir (atual Somália) e com todos os portos do Mar Vermelho, enquanto outra parte fazia a rota do Mediterrâneo até a Espanha. Seus navios eram construídos e tripulados pelos fenícios, mestres na arte da navegação. “Salomão concentrou suas forças em consolidar na política interna e na cultura as posições que Davi havia conquistado. Sua atividade servia preponderantemente à estabilização do sistema estatal e ao cultivo das artes e ciências, às quais proporcionou, em sua corte, um florescimento considerável.[14]
Salomão dominou igualmente o comércio da Arábia, com o controle das caravanas: o comércio de cavalos da Cilícia e do Egito, através de suas agências de compra e venda. Exportava cobre e outros metais.
Toda esta atividade comercial gerou uma expansão interna muito grande no país: cidades que se fortaleciam, construções de grandes obras públicas por toda a parte, a população que aumentava consideravelmente em número.
Porém, se olharmos menos ingenuamente este florescimento todo, veremos sobre quais bases foi construído. Sobre a exploração de uma boa parte da população.
Salomão dedicou-se diligentemente também à organização interna de seu império. O texto de 1Rs 4 contém uma lista autêntica dos distritos salomônicos. Ela mostra a divisão de Israel em 12 distritos administrativos, cada um com seu intendente.”[15]
A burocracia estatal requeria um número respeitável de funcionários, altos cargos distribuídos a gente nascida na corte e que se julgava superior a todos os demais.
As obras públicas requeriam dinheiro para sua concretização. O exército, recrutado entre o povo, não mais respeitando as tribos, precisava de muito dinheiro para funcionar com eficiência e assim por diante.
Resultado: Salomão colocou pesados impostos sobre a população israelita, forçou seus vassalos estrangeiros e a população cananéia à corvéia (trabalho grátis para o Estado) e usou o trabalho escravo em grande escala nas suas minas e fundições no sul do país (1Rs 9.20-22). Usou também, embora haja notícias controvertidas na obra deuteronomista, a mão-de-obra grátis em Israel (segundo 1Rs 9.22 os israelitas não foram submetidos à corvéia, mas segundo 1Rs 5.27;11,28 também os israelitas foram submetidos ao trabalho forçado para o Estado).
O Estado classista estava em pleno funcionamento. Com o correr do tempo, as diferenças de classe e as contradições internas foram se aprofundando até levar à divisão do território.
 A construção do Templo em Jerusalém, servindo ao mesmo tempo como santuário nacional e como capela real, transferia para o Estado todo o poder religioso. Muito interessante é a observação de C. A. DREHER,   sobre os motivos porque Salomão construiu o Templo: "Que fazer, num tempo de paz, para continuar a garantir o direito ao tributo? Pode-se recorrer às armas e impor um governo através da força policial. Mas isso tem lá seus riscos na época de uma monarquia incipiente (...) Um motivo religioso lhe será bem mais útil. A construção do templo, a casa de Javé, cuja arca já se encontra em Jerusalém, lhe dará cobertura ideológica para garantir seu Estado e seu direito ao tributo.[16]
Não se conhece escombros arqueológicos, entre os escavadores modernos, pertencentes ao templo de Salomão. Outrossim, nenhum só templo foi desencavado na Palestina, com data dos quatro séculos em que a dinastia davídica governou em Jerusalém (cerca de 1000 – 600 a.C).”[17]
Salomão governou a região de 971 a 931 a.C., durante 40 anos.


2. O reino de Israel

Segundo o texto bíblico, com a morte de Salomão, em 931 a.C., desabou a unidade do reino. O norte, agora chamado de Israel, separou-se do Estado davídico que permaneceu em Judá. E o reino do norte existiu durante 209 anos, até ser massacrado pelo poderoso Império assírio, em 722 a.C.

2.1 A rebelião explode e divide Israel
Para começar, podemos anotar que o processo de sucessão de Salomão não foi bem visto, especialmente porque o norte tinha consciência da exploração a que era submetido pelo poder central e levantou, então, a bandeira da rebelião.
Proclamado rei em Judá, Roboão (931-914 a.C.), filho de Salomão, foi a Siquém para que o norte o aclamasse senhor também das outras tribos. Em Siquém, os israelitas impuseram-lhe uma condição: aceitariam o seu governo, caso fossem retiradas as pesadas leis impostas ao povo por seu pai Salomão. Roboão não aceitou as condições e foi a gota d'água. Podemos seguir o desenrolar dos acontecimentos a partir do capítulo 12 do primeiro livro dos Reis.
"Disseram assim a Roboão: 'Teu pai tornou pesado o nosso jugo; agora, alivia a dura servidão de teu pai e o jugo pesado que ele nos impôs e nós te serviremos' (...) O rei Roboão consultou os anciãos que haviam auxiliado seu pai Salomão durante sua vida, e perguntou: 'Que me aconselhais a responder a este povo?' Eles lhe responderam: 'Se hoje te sujeitares à vontade deste povo, se te submeteres e dirigires boas palavras, então eles serão para sempre teus servidores'. Mas ele rejeitou o conselho que os anciãos lhe deram e consultou os jovens que foram seus companheiros de infância e o assistiam. Perguntou-lhes: 'Que aconselhais que se responda a este povo' (...) Os jovens, seus companheiros de infância, responderam-lhe: 'Eis o que dirás a este povo (...); eis o que lhes responderás; 'Meu dedo mínimo é mais grosso que os rins de meu pai! Meu pai vos sobrecarregou com um jugo pesado, mas eu aumentarei ainda o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, e eu vos açoitarei com escorpiões!' " (1Rs 12.3-11).
Israel do norte, chamado doravante simplesmente de Israel, Samaria ou ainda Efraim, constituído pelas 10 tribos rebeldes, escolheu para seu rei a Jeroboão, um nobre da tribo de Efraim e inimigo de Salomão, que se encontrava exilado.
Inicialmente nem guerra houve entre os dois países irmãos, pois assim debilitados viram-se ameaçados pelos inimigos externos e deixaram suas rixas para acertar mais tarde. Quando o norte se rebelou, Roboão quis partir para a repressão armada, mas foi desaconselhado.
Jeroboão escolheu a cidade de Siquém para capital do seu reino, onde permaneceu apenas 5 anos. Transferiu-a seguidamente para Penuel e Tirsá. Só mais tarde, sob outro rei, foi construída Samaria, a capital definitiva.
Rejeitando o governo de Jerusalém, os nortistas rejeitaram também o Templo e as peregrinações nas grandes festas. Para substituir o Templo e mesmo para evitar que o povo fosse a Jerusalém e passasse para o lado de lá, Jeroboão construiu dois touros de ouro e colocou-os em antigos santuários: Dan, no extremo norte, e Betel, perto de Jerusalém, no sul.[18] 
Israel caracterizou-se pela instabilidade política. No curto espaço de 209 anos, teve 19 reis de diferentes dinastias que se sucederam com golpes de Estado, assassinatos e chacinas.
A incerteza quanto à localização da capital e ainda o perigo da pressão estrangeira (Fenícia, Síria e Assíria) fizeram do novo país um foco de problemas e de crises sucessivas. E quem saía perdendo, como sempre, era o povo. Os mesmos camponeses e pescadores antes explorados pelo sul, passaram a sê-lo pelo norte.
Por outro lado, tanto o norte quanto o sul perderam, segundo o texto bíblico, todas as suas possessões estrangeiras: definitivamente os tempos do Israel forte haviam acabado. Divididos, tanto Israel quanto Judá eram fracos demais para dominar seus vizinhos, como dizem ter feito Davi e Salomão.

2.2 A decadência do Estado de Israel
De Jeroboão I a Omri (cerca de 50 anos) houve muita instabilidade em Israel. Nadab foi assassinado por Baasa; seu filho Ela foi também assassinado por Zimri, que, por sua vez, se suicidou, quando viu a morte trazida pelo general Omri. Houve também vários conflitos com Judá por causa das fronteiras.
Omri, que deu um golpe militar em 885 a.C., foi um válido artífice da paz com Judá. Fez aliança com a Fenícia, casando seu filho Acab com Jezabel, filha de Etbaal, rei de Tiro. Levou vantagem no confronto com Moab e com os arameus de Damasco.
Omri construiu Samaria em 880 a.C. para capital do reino e desenvolveu bastante o país. Porém, como sempre, o progresso do país empobrecia largas camadas da população e levava a exploração classista ao máximo. “Onri foi o fundador da mais notória dinastia do reino do Norte.”[19]Embora a Bíblia só consagre a seu reinado cinco ou seis versículos (1 Rs 16.23-28), Amri foi evidentemente um homem de grande habilidade. Os assírios referiam-se a Israel como “a Casa de Amri” muito depois de ter terminado sua dinastia![20]
Onri era soldado profissional. Pode-se questionar se era ou não israelita, pois seu nome parece não ser israelita, e sabemos que, desde os dias de Davi, havia no exército profissional numerosos estrangeiros, inclusive nos postos mais altos.”[21]
Sob Acab, filho de Omri, a situação do povo era muito difícil. O intenso comércio com a Fenícia aumentou a riqueza da classe dominante em Israel. Faltava dinheiro no país? O povo precisava de empréstimos? Os privilegiados emprestavam a juros exorbitantes. A lavoura não produzia quando a seca era forte? Os ricos vendiam mantimentos à população camponesa, em "suaves prestações".
Para termos uma idéia da situação: a partir desta época ficou muito comum o camponês se vender ao rico credor para saldar suas dívidas, trabalhando como escravo. Ou entregava seus filhos.
O rei - e sua gloriosa corte - puxava a procissão das explorações. Quem quiser conferir, leia o episódio exemplar da vinha de Nabot (1Rs 21).
Em Samaria, Acab construiu um templo para sua mulher Jezabel cultuar seu deus Baal. Isto era costume naquela época. Mas Jezabel arrastou a corte toda e a aristocracia atrás de si neste culto. Resultado: por todo o país proliferaram os sacerdotes de Baal.
O profeta Elias, contemporâneo de Acab, vai lutar com todas as forças contra tamanha deterioração do culto a Deus e de seus ideais de justiça. “Israel estava cheio de gente que, como Jezabel, não tinha idéia de lei da aliança ou, como Acab, tinha pouco interesse por ela.[22]
Originário do Galaad, Elias faz ver ao povo, que a idolatria e o abandono do culto a Deus era um problema muito sério, de âmbito nacional e causador de todos os males que dominavam o país, o mais sério deles sendo a exploração da maioria da população.
Perseguido pela rainha Jezabel, que prontamente percebeu o perigo por ele representado contra o seu culto e os seus privilégios, Elias tornou-se no seu tempo um símbolo da fidelidade a Iahweh, como demonstra o significado de seu nome (Elias = só Iahweh é Deus). Suas ações estão narradas em 1Rs 17-22 e 2Rs 1-2.
Encontrando muita oposição entre as autoridades religiosas e entre o próprio povo explorado, a dinastia de Omri vai cair de maneira violenta: Jeú, em 841 a.C., com a aprovação do profeta Eliseu, dá um golpe militar sangrento, assassinando toda a família de Jorão.
Jeú e seus descendentes enfrentaram graves problemas na política externa: Jeú pagou tributo ao rei assírio Salmanasar III e perdeu a Transjordânia para Hazael, rei de Damasco. “Embora Jeú tenha eliminado o baalismo, não se moldou à lei de Deus. A idolatria continuava prevalecendo de Dã a Betel – daí o aviso divino de que seus filhos reinariam após ele somente até à quarta geração.”[23]
Mas com a subida ao trono de Jeroboão II (782/1-753 a.C.) o país se recupera - também Judá, sob o governo de Ozias, cresce bastante nesta mesma época - graças a uma série de circunstâncias favoráveis.
Havia paz entre os dois reinos irmãos. A Síria fora vencida pela Assíria. Esta, por sua vez, atravessava um período de dificuldades. E então, livres de pressões maiores, os dois reinos começaram a sua expansão.
Jeroboão II, bom militar, levou a fronteira norte de seu país onde anteriormente a colocara Salomão (2Rs 14,23-29). Tomou Damasco e submeteu a Síria, inclusive as regiões da Transjordânia até Moab.
Israel controlou as rotas comerciais de então. Em Samaria os arqueólogos encontraram os restos de esplêndidos edifícios, provas da riqueza alcançada.
O sistema administrativo adotado por Jeroboão II foi aquele mesmo próspero e injusto de Salomão: concentração da renda nas mãos de poucos com o conseqüente empobrecimento da maioria da população.
Criaram-se extremos de riqueza e de pobreza. Os pequenos agricultores, endividados, viam-se nas mãos de seus credores, enquanto os tribunais, regados a bom dinheiro, só achavam a razão do lado dos ricos.
À desintegração social somou-se a religiosa. Com os santuários cheios de adoradores, bem providos do bom e do melhor, a religião foi sendo colocada de lado em favor de outros deuses menos exigentes quanto à justiça e à igualdade social.
Nesta época, os profetas Amós (ca. 760 a.C.) e Oséias (755-725 a.C.) destacaram-se na denúncia da situação em que se encontrava Israel.
Am 2,6-8
Assim falou Iahweh:
Pelos três crimes de Israel,
pelos quatro, não o revogarei!
Porque vendem o justo (tsaddîd) por prata
e o indigente ('ebyôn) por um par de sandálias.
Eles esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos (dallîm)
e tornam torto o caminho dos pobres ('anawim) ;
um homem e seu pai vão à mesma jovem
para profanar o meu santo nome.
Eles se estendem sobre vestes penhoradas,
ao lado de qualquer altar,
e bebem vinho daqueles que estão sujeitos a multas, na casa de seu deus.

Amós, com os termos tsaddîq (justo), 'ebyôn (indigente), dal (fraco) e 'anaw (pobre), designa as principais vítimas da opressão na sua época. Sob estes termos, Amós aponta o pequeno camponês, pobre, com o mínimo para sobreviver e que corre sério risco de perder casa, terra e liberdade com a política expansionista de Jeroboão II.
Am 6,4-6
Eles estão deitados em leitos de marfim,
estendidos em seus divãs,
comem cordeiros do rebanho
e novilhos do curral,
improvisam ao som da harpa,
como Davi, inventam para si instrumentos de música,
bebem crateras de vinho
e se ungem com o melhor dos óleos,
mas não se preocupam com a ruína de José.

Estes são segundo Amós, os opressores de sua época. São os que vivem em palácios e acumulam (3.10), são as senhoras da alta sociedade (4.1), são os que constroem boas casas e plantam excelentes vinhas (5.11), são os que aceitam suborno na administração da justiça (5.12), são os que vivem no luxo e na boa vida (6.4-6), são os que controlam o comércio (8.4-6).
Enfim, Amós, como outros profetas após ele, identifica os opressores com os que detêm o poder econômico, político e judicial. “Amós não pregava a revolução porque acreditava que Israel não tinha mais cura, nem mesmo com uma revolução: Iahweh, e somente Iahweh é que deveria vingar-se.”[24]
Os 4,1-3
Ouvi a palavra de Iahweh, filhos de Israel,
pois Iahweh vai abrir um processo contra os habitantes da terra,
porque não há fidelidade (‘emeth) nem solidariedade (hesedh),
nem conhecimento de Deus (da'at 'elohîm) na terra.
Mas perjúrio e mentira, assassínio e roubo,
adultério e violência,
e o sangue derramado soma-se ao sangue derramado.
Por isso a terra se lamentará, desfalecerão os seus habitantes
e desaparecerão os animais selvagens, as aves dos céus
e até os peixes do mar.
Temos aqui três categorias negativas superpostas: a falta de conhecimento de Deus (da'at 'elohîm), que se manifesta como ausência de fidelidade ('emeth) e solidariedade (hesedh); as desordens sociais, causadas pela falta de conhecimento: perjúrio, mentira, assassínio, roubo, adultério, homicídio e a morte, com a desagregação do universo. As feras, os pássaros e os peixes desaparecem.
Portanto, segundo Oséias, a raiz mais profunda do mal é a falta de conhecimento de Deus. Que não é conhecimento intelectual ou cultual. É a experiência ou vivência do verdadeiro culto a Deus que está em jogo. Oséias está dizendo que o problema em Israel é que não há mais espaço para os valores do verdadeiro culto e isso causa a desagregação da sociedade.
É típico da história de Israel que o protesto profético e também o protesto israelita não tenham se levantado somente para denunciar o fracasso do estado e da idéia estatal em solo israelita quando este tinha se tornado óbvio, mas também denunciado o sucesso como pecado contra Yahweh e como traição do verdadeiro caráter de Israel.”[25]
A situação de Israel pode ser descrita da seguinte maneira: “O barco de seu Estado, fazendo água por todos os lados, sem bússola nem timoneiro e com sua tripulação desmoralizada, estava afundando... Sem coesão interna e sem apoio teológico, o Estado viu-se incapaz de uma ação inteligente e ordenada: cada virada do leme leva o barco do Estado contra os rochedos.[26]

Ênfases da narrativa na história do reino unificado

SAUL
DAVI
SALOMÃO

NOMEAÇÃO
Por Samuel
Processo público
Ação do Espírito
Por Samuel
Processo longo
Pelo povo
Por Davi
Por Zadoque e Nata


SUSSESSOS E POTENCIAIS
Vitória sobre os amonitas
Conquista de Jerusalém
Derrota dos Filisteus
Captura da arca
Aliança
Expansão do império
Sonho e pedido de sabedoria
Sabedoria e administração do império
Construção do templo



FRAQUEZAS
Oferta impaciente
Colocou o povo sob um juramento impróprio
Desobedeceu às instruções na batalha contra os amalequitas
Adultério com Bate-Seba e assassinato de Urias
Levantamento errôneo do censo
Acomodou as práticas religiosas das esposas estrangeiras
Trabalho forçado e imposto sobre o povo

RESULTADOS DAS FRAQUEZAS
Mal julgamento, incompetência e ciúmes
Derramamento de sangue dentro da família (Amnon, Absalão, Adonias)
Revolta no reino (Absalão, Seba)
Problemas militares
Divisão do reino[27]



3. O Reino de Judá

            3.1 A Reforma de Ezequias e a Invasão de Senaqueribe
            Em Judá, a dinastia davídica durou até o fim do reino. Não houve tantas lutas e golpes de Estado, como no norte.
            De Roboão a Joatão (de 931 a 734 a.C.) temos pouco a assinalar. Resumidamente: o ataque e a destruição de boa parte do país promovida pelo faraó Sheshonq (Shishaq) em 929 a.C., no tempo de Roboão os conflitos constantes com o norte nos primeiros 50 anos de separação a tensão sempre presente entre a aristocracia de Jerusalém e a massa da população rural. Também a tensão entre o culto a Deus e os cultos e costumes estrangeiros, especialmente o culto a Baal a derrota de Amasias por Joás, de Israel, e o saque de Jerusalém pouco depois de 796 a.C. pelas tropas do norte.
            Devemos retomar a história de Judá com Acaz (734/3-716 a.C.).
            A ameaça conjunta das forças israelitas do norte e sírias em 734 a.C. levou o desprotegido Judá a invocar o auxílio da Assíria. Deu resultado, mas para ter esta proteção Judá perdera toda a sua independência.
            Acaz acabou vassalo da Assíria, pagando-lhe tributo e rendendo homenagem aos deuses assírios. Como, aliás, dissera o profeta Isaías. No célebre oráculo de 7.1-17 Isaías aconselhou o rei a não temer os invasores e a manter-se firme na fé em Iahweh. Como Acaz se recusa, treme de medo e pede o auxílio da Assíria, o profeta fala de um sinal, um menino que está para nascer - provavelmente Ezequias - e que será a esperança de Judá.
            “A reforma de Ezequias foi completamente cancelada e a voz da profecia silenciada. Os que protestavam – e foram muitos, realmente – foram tratados severamente (2 Rs 21.16).[28]
            A situação econômica estava péssima. Judá perdera províncias que lhe pagavam impostos. E como era de se esperar, o tributo assírio não foi suave, penalizando a população. “Foi na época dessa crise angustiante que Isaías se mostrou ativo no ministério profético, por cerca de seis anos. Trazendo uma mensagem da parte de Deus, ele apresentou a Acaz a solução de seu problema. A fé em Deus era a chave para vitória sobre Israel e a Síria.”.[29]
            “O reino de Acaz foi lembrado pelas gerações vindouras como um dos piores períodos de apostasia que Judá conheceu”.[30]

            3.2 A Reforma de Josias e o Deuteronômio
            A Assíria estava nos seus momentos finais, enfrentando uma violência proveniente de vários pontos do império. Povos dominados e oprimidos pela extrema violência e crueldade assírias levantaram as cabeças. Principalmente os babilônios e os medos, artífices da derrocada definitiva da Assíria, entre 626 e 610 a.C.
            Foi um momento bom para Judá. Sob a influência de um forte espírito nacionalista, o rei Josias deu início a uma ampla reforma, descrita em pormenores em 2 Rs 22.3-23,25 como a obra mestra deste rei. Parece que a reforma começou aí pelo ano de 629 a.C., décimo segundo do reinado de Josias, que contaria então com 16 a 20 anos de idade.[31]
            Aproveitando a fraqueza assíria, Josias recuperou o controle sobre as províncias do antigo reino de Israel, aumentando seus tributos e melhorando suas defesas. Houve uma limpeza geral no país: cultos e práticas estrangeiras, introduzidos em Judá sob a influência assíria, foram definitivamente eliminados. A magia e os vários modos de adivinhação, banidos. Os santuários do antigo reino de Israel, considerados idólatras, destruídos.
            Ao ser promulgado por Josias em 622 a.C. como lei oficial do Estado, o Deuteronômio deu vida à reforma, mostrando que a certeza do povo de que Judá era indestrutível devido à promessa davídica era uma loucura. Era preciso reviver as antigas tradições mosaicas, pois só elas valiam a pena. “O livro da lei encontrado no templo, e que tão profundamente influenciou Josias, foi, como é consenso geral hoje, alguma forma do livro de Deuteronômio”.[32]
            A reforma de Josias surtiu efeito? Sim e não. Positiva no geral teve, contudo, pontos negativos. Não encontrou uma independência prolongada para poder se desenvolver; foi feita de cima para baixo, imposta pelo governo, sem base popular mais ampla; suas medidas ficaram no exterior apenas sem levar o povo a uma reconstrução real do verdadeiro culto a Deus; a centralização do culto não deu bons resultados, esvaziando a vida e a religiosidade do povo. E o pior: os acontecimentos se precipitaram, Josias morreu cedo demais e a reforma se perdeu.

            3.3 Os Últimos dias de Judá
            Em 612 a.C. a Assíria teve seu império assaltado e sua capital destruída pelos medos e babilônios. Seu rei fugiu para Harã e resistiu ainda dois anos, com ajuda egípcia. Diz a Crônica Babilônica:
            "No décimo sexto ano de Nabopolassar, no mês de ayyar, o rei da Babilônia mobilizou suas tropas e marchou contra a Assíria (...) No mês de arahsammu os medos vieram em auxílio do rei da Babilônia; eles uniram suas tropas e marcharam para Harã contra Assur-ubalit, que se tinha assentado no trono da Assíria”[33]
            Em 610 a.C. o rei da Assíria é desalojado de Harã. Em 609 a.C. os assírios tentam, mais uma vez, tomar Harã. Sem sucesso. Os egípcios foram ajudá-los. Josias, rei de Judá, procura deter as forças egípcias em Meguido. É morto e levado para Jerusalém, com grande desolação para o povo. Josias tentava impedir a retomada do controle egípcio sobre a sua região e falhou. Tinha 39 anos de idade.
            Seu filho Joacaz sobe ao trono em 609 a.C., quando contava 23 anos de idade. Como assírios e egípcios nada conseguiram contra os babilônios, o faraó Necao II procurou consolidar seu poder na Palestina.
            Chama Joacaz até seu quartel-general na Síria, depõe o azarado rei e deporta-o para o Egito. Coloca no trono de Judá o irmão de Joacaz, Joaquim, que tinha 25 anos de idade. Joacaz reinara três meses.
            Judá passou então a pagar pesado tributo ao Egito, o que durou até 605 a.C., quando o rei babilônio Nabucodonosor derrotou as forças egípcias e desceu até a Palestina. Joaquim fez com ele um acordo e Judá não foi destruído.
            Mas não durou nada. Em 600 a.C. Nabucodonosor tentou invadir o Egito e não conseguiu. Judá rebelou-se, acreditando na libertação. Seu erro foi fatal. Enquanto os babilônios marchavam para Jerusalém, morreu Joaquim (talvez assassinado), em dezembro de 598 a.C. e foi substituído por seu filho Joaquin, de 18 anos.
            O rei foi deportado para a Babilônia com a corte e toda a classe dirigente. Segundo a Crônica Babilônica:
            "No sétimo ano, no mês de kismilu [18.12.598-15.1.597], o rei da Babilônia mobilizou suas tropas e marchou para Hattu. Ele se estabeleceu na cidade de Judá e no mês de addar, no segundo dia [16.3.597], ele tomou a cidade; aprisionou o rei e colocou outro, de sua escolha, no lugar dele, e exigiu uma pesada renda que levou para a Babilônia"[34]
            No lugar de Joaquin os babilônios deixaram o tio, Sedecias, então com 21 anos de idade. Judá estava mesmo arruinado. Com várias cidades destruídas, sua economia desorganizada e o melhor da nação exilado, pouco restava ao fraco Sedecias que pudesse ser feito.
            Algumas tentativas de revolta foram abafadas. Finalmente, em 588 a.C., Judá começou uma clara rebelião contra a Babilônia, que o levou à destruição final.
            Os babilônios destruíram, em 588 mesmo, as cidades fortificadas de Judá, assediando a desesperada Jerusalém em 587 a.C., no mês de janeiro.
            Na fortaleza de Laquis, situada a 45 km a sudoeste de Jerusalém, numa estrada que leva ao Egito, foram encontrados, em 1935 e 1938, vinte e um óstraca.[35] Testemunhos dramáticos da invasão babilônica de 588 a.C., os óstraca falam do cerco, da situação crítica em que se encontram e das medidas tomadas.[36]

            3.4 Por Que Judá Caiu?
            Quando Judá entrou na fase crítica de enfrentamento com o poderio estrangeiro, balançando entre o enfraquecido Egito e a fortalecida Babilônia, a nação estava totalmente despreparada para a crise.[37]
            Desde a época de Davi vinha sendo elaborada uma crença específica, a da invencibilidade de Jerusalém, associada à crença na perpetuidade da dinastia davídica.
            Quando Davi conquistou Jerusalém e estabeleceu ali a sua capital, algumas providências significativas foram tomadas. Tais como: a transferência da Arca da Aliança para a nova sede, a constituição de um sacerdócio associado e submisso ao Estado e a tentativa de construção de um Templo, o que, de fato, foi feito por Salomão.
            Jerusalém, antiga cidade-fortaleza jebuséia, carecia de legitimidade. Os tradicionais santuários do povo de Israel estavam mais ao norte, eram Siquém, Silo, Betel, Guilgal etc. A transferência da Arca, espécie de trono móvel de Iahweh, foi uma manobra davídica para dar legitimidade à sua cidade (cf. 2Sm 6).
            Outro dado interessante é a associação do sacerdócio à nova ordem real que se estabeleceu com Davi. Ele tinha, como sabemos através de 2 Sm 8.15-18, uma curiosa dualidade tanto no comando do exército quanto na chefia do sacerdócio. Ou seja: dois generais, Joab e Banaías, comandam o exército, enquanto dois sacerdotes, Abiatar e Sadoc, comandam o sacerdócio. Esta dualidade poderia significar que o general Joab e o sacerdote Abiatar representavam as forças tradicionais de Israel, enquanto o general Banaías e o sacerdote Sadoc representavam à nova ordem monárquica, sem ligação com as tradições tribais. Ora, sabemos que, sob Salomão, Joab foi morto e Abiatar desterrado, assumindo os seus cargos Banaías e Sadoc, respectivamente (cf. 1Rs 2.26-35). Foi a vitória da nova ordem monárquica.
            É neste contexto que se desenvolve uma teologia da perpetuidade da dinastia davídica, referendada pelo profeta Natã (2 Sm 7), e da sacralidade de Sião, moradia de Iahweh, que garante a inviolabilidade de Jerusalém.
            Esta teologia pode ser vista também em vários salmos, como o 2, o 89 e o 132. Elaborada pelos sacerdotes associados ao poder real de Jerusalém, obviamente esta teologia apareceria nos salmos, pois estes representam também orações e celebrações do Templo.
            Diz J. PIXLEY: "Essa nova teologia não foi, provavelmente, toda elaborada no tempo de Davi. Foi ele, porém, quem a iniciou. Os Salmos, por exemplo, expressão máxima desta teologia, até o dia de hoje são atribuídos majoritariamente à autoria de Davi. Para uma leitura a partir dos pobres a teologia davídica é muito ambígua, podendo servir, como aconteceu, para amparar e legitimar sua opressão[38]
            Como vimos, com a morte de Josias quase tudo se perdeu: o poder real sob Joaquim tornou-se extremamente despótico e o Templo, fortalecido pela centralização do culto, associou-se, mais uma vez, aos desmandos da classe dominante enquanto a legitimava e ocultava suas práticas através da religião.
            Quanto mais próximo estava o desenlace da crise, mais a nação se apegava ao dogma da inviolabilidade da cidade, especialmente do Templo. Isto interessava aos poderes dominantes, pois garantia seus privilégios a curto prazo. Judá sabia, observando os acontecimentos, que enfrentaria, mais cedo ou mais tarde, a ameaça sem limites do poderio babilônico.
            Podemos acompanhar, acerca desta época, os testemunhos dramáticos dos profetas Habacuc, que pregou entre 605 e 600 a.C., e Jeremias, que atuou incansavelmente desde 627 a.C., vendo, angustiado, o fim de seu país e indo morrer no Egito por volta de 580 a.C.


 Autor: Danilo Moraes


BIBLIOGRAFIA


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[1] GUNNEWEG, Antonius H.J. História de Israel, dos primórios até Bar Kochba e de Theodor Herzl até nossos dias. São Paulo : Editora Teológica, 2005. p. 105.
[2] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vl 1. São Leopoldo : Sinodal, 1997, p. 209.
[3] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vl 1. São Leopoldo : Sinodal, 1997, p. 212.
[4] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vl 1. São Leopoldo : Sinodal, 1997, p. 214.
[5] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 129.
[6] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 248.
[7] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 131.
[8] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 252
[9] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vl 1. São Leopoldo : Sinodal, 1997, p. 229.
[10] O recenseamento pode ter sido motivado pelo orgulho e pela dependência da potência militar como se essa fosse a causa das realizações nacionais de Israel.
[11] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 140.
[12] DREHER, C. A., O trabalhador e o trabalho sob o reino de Salomão, em Estudos Bíblicos n. 11, Petrópolis, Vozes, 1986, p. 56.
[13] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 272.
[14] DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos. Vl 1. São Leopoldo : Sinodal, 1997, p. 252.

[15] GUNNEWEG, Antonius H.J. História de Israel, dos primórios até Bar Kochba e de Theodor Herzl até nossos dias. São Paulo : Editora Teológica, 2005. p. 157.


[16] DREHER, C. A., O trabalhador e o trabalho sob o reino de Salomão, em Estudos Bíblicos n. 11, Petrópolis, Vozes, 1986, p. 51.
[17] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 142.
[18] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 166.
[19] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 167.
[20] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 295.
[21] GUNNEWEG, Antonius H.J. História de Israel, dos primórios até Bar Kochba e de Theodor Herzl até nossos dias. São Paulo : Editora Teológica, 2005. p. 173.
[22] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 299.
[23] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 186.

 [24] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 320.
[25] GUNNEWEG, Antonius H.J. História de Israel, dos primórios até Bar Kochba e de Theodor Herzl até nossos dias. São Paulo : Editora Teológica, 2005. p. 178.
[26] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 330-331.
[27] WALTON, John H., O Antigo Testamento em Quadros: conheça melhor o Antigo Testamento por meio de tabelas e diagramas cronológicos e explicativos. São Paulo : Editora Vida, 2001. p. 29.
[28] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 377.
[29] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 199.
[30] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 336.
[31] SCHULTZ, Samuel J., A História de Israel no Antigo Testamento, 1º edição, Edições Vida Nova, 2001, p. 210.
[32] BRIGHT, John. História de Israel. 7ª edição, revista e ampliada. São Paulo : Paulus, 2003, p. 384.
[33] AA.VV., Israel e Judá, Textos do Antigo Oriente Médio, São Paulo, Paulus, 1985,  pp. 81-82.
[34] AA.VV., Israel e Judá, p. 84.
[35] Pedaços de cerâmica sobre os quais se escrevia uma mensagem
[36] AA.VV., Israel e Judá, Textos do Antigo Oriente Médio, São Paulo, Paulus, 1985 , pp. 85-86.
[37] PIXLEY, J., A história de Israel a partir dos pobres, Petrópolis, Vozes, 2004, pp. 73-90.
[38] PIXLEY, J., A história de Israel a partir dos pobres, Petrópolis, Vozes, 2004, p. 30.