22 de março de 2015

Walter Eichrodt - Teologia do Antigo Testamento: O Problema e o Método

TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO: 

O PROBLEMA E O MÉTODO 

Dentre todos os problemas conhecidos referentes ao estudo do Antigo Testamento, o de maior alcance e importância é o da teologia do Antigo Testamento. Por meio dela é construída uma imagem completa da fé veterotestamentária', trata ainda, em outras palavras, de dar alcance, em toda sua singularidade e autênticas proporções, ao que constitui o núcleo essencial do Antigo Testamento. Neste sentido, a teologia do Antigo Testamento vem a ser a coroação de toda a ocupação da ciência veterotestamentária; todos os demais ramos da ciência bíblica se empenham, a partir de sua tarefa específica, à consecução desta meta. 

Contudo, embora o domínio próprio da teologia do Antigo Testamento seja, comparativamente, restrito, ainda está intimamente ligado à prolífica variedade das religiões pagãs e ao reino exclusivo da Fé do Novo Testamento. Deste modo, ela exibe um aspecto duplo. 

No primeiro aspecto, se confrontará com o problema da história das religiões em geral. Aqui tem especial significado o dito de Hamack[1]: “aquele que conhece a religião do Antigo Testamento conhece muitas religiões”. Hamack havia pronunciado estas palavras como réplica à tese de Max Müller: “aquele que conhece apenas uma religião não conhece nenhuma”. A religião veterotestamentária é o fruto de uma longa história por intermédio da qual se consolidou o tesouro que lhe é próprio, por meio de um longo processo de assimilação e de rejeição em seu contato com as diversas formas de religião pagã. 

Daí que seu estudo seja, necessariamente, um estudo comparado da história das religiões. Não é possível, pois, fazer uma exposição adequada da teologia do Antigo Testamento sem uma constante referência a suas conexões com o mundo religioso do Oriente Próximo. 


Não seria, portanto, exato pretender explicar o significado próprio da religião veterotestamentária somente a partir do estudo do fecundo horizonte das religiões humanas. Devemos contar também com um segundo aspecto, que não é menos essencial: sua relação com o Novo Testamento. No desenvolvimento histórico da religião veterotestamentária, se observa a presença de uma força interna que a impulsiona poderosa e incessantemente para adiante. Existem nela, evidentemente, momentos nos quais parece se tornar estática, presa a princípios fixos; mas, então, torna a surgir novamente a vontade de continuar avançando em busca de uma vida superior, reconhecendo o caráter contingente e provisório de tudo o que era anterior. Esse movimento não cessou até a vinda de Cristo, em quem encontraram seu cumprimento as forças mais nobres do Antigo Testamento. Evidência negativa, em apoio à validade dos princípios que vimos expondo, é oferecida pela aparição do judaísmo, que surgindo, como outra derivação no tronco principal do Antigo Testamento, é separado do cristianismo. 

Essa afinidade com o Novo Testamento não se estabelece em uma simples relação histórica, objeto de investigação científica, mas sim, que constitui uma característica essencial do Antigo Testamento, sem cuja consideração este não pode ser entendido. Isso se comprova quando se insere no mundo espiritual próprio do Novo Testamento. Pois no encontro com o Cristo dos evangelhos se forma uma poderosa realidade vital que está estreitamente ligada ao passado veterotestamentário e, por sua vez, aponta para o futuro. A irrupção e implantação do reinado de Deus nesta terra abrangem, indissoluvelmente, dois mundos tão diferentes externamente, quanto são o do Antigo e o do Novo Testamento. Porque, ao final, tudo encontra seu fundamento na ação de um único Deus que, na promessa e cumprimento, no evangelho e na lei, busca sempre o mesmo fim: a construção de seu reino. Por isso o Novo Testamento, justamente no que é seu conteúdo central, nos remete ao testemunho de Deus na antiga aliança. 

O fluxo histórico que leva do Antigo ao Novo Testamento corresponde, pois, ao refluxo de um movimento vital que vai do Novo ao Antigo Testamento: é a única chave capaz de dar-nos a interpretação total das idéias veterotestamentárias. Somente quando se tenha compreendido essa dupla relação entre os dois Testamentos será possível determinar corretamente a tarefa da teologia do Antigo Testamento e seu método. 

A finalidade geral de conseguir uma imagem de conjunto da fé veterotestamentária deve vir determinada por este segundo aspecto: deve se tratar de uma imagem de conjunto que faça justiça a essa íntima e essencial relação com o Novo Testamento e que não a ignore. Naturalmente, isso não significa que tenha de transpor artificialmente as expressões do Antigo Testamento para o plano do Novo, para se obter um nivelamento dos dois. Pretender fazer isto seria simplesmente manifestar que se tem um conhecimento muito escasso da diferença que existe entre um processo na vida real e um processo no pensamento lógico. A infelicidade da antiga ortodoxia foi que, a despeito de ter uma idéia válida do caminho correto, também neste ponto perdeu a visão da realidade vital e continuou pelo procedimento da demonstração lógica, ocultando, deste modo, mais do que esclarecendo, a verdadeira relação entre os dois Testamentos. A resposta a isto foi o racionalismo, com sua rejeição sistemática do Antigo Testamento. O que nos interessa, portanto, é uma exposição das idéias e da fé veterotestamentárias que tenha sempre presente que a religião do Antigo Testamento, com toda sua indiscutível singularidade, somente pode ser entendida em sua essência a partir do cumprimento que encontra em Cristo. Ninguém deu mais importância a esta “interdependência e homogeneidade da revelação do Antigo e do Novo Testamento” do que o conhecido crítico radical B. Stade em sua Teologia do Antigo Testamento. Isto o levaria a considerar suficientemente justificado o dar a esse aspecto da ciência veterotestamentária a uma categoria da parte integrante na teologia cristã.[2]

Quanto mais claramente se vê a tarefa, tanto mais óbvio resulta, que é impossível levá-la adiante através dos caminhos nos quais tem estado empenhada a ciência veterotestamentária, isto é, as do método do desenvolvimento histórico. Não se trata precisamente de descrever a expansão universal da religião israelita ou as etapas pelas quais ela passou, mas sim de determinar qual é o nível de inter-relação e semelhança que, segundo a expressão de Stade, guarda com o Novo Testamento. No entanto, se chegará a isto fazendo um corte transversal no pensamento do Antigo Testamento que, de certa forma, permita uma visão de conjunto, facilite distinguir entre o essencial e o acidental e ao mesmo tempo deixe descoberto os pilares fundamentais e a estrutura total desse pensamento. Em outras palavras, temos de empreender uma consideração sistemática dos diferentes conteúdos, tanto em sua classificação objetiva, quanto em seu desenvolvimento ideológico.

Com isso nem se esquece nem se relega a um segundo plano a investigação histórica; assim construímos, ainda mais, sobre seus resultados e fazemos uso de seus instrumentos de trabalho. Mas a análise evolutiva tem de dar o lugar à síntese sistemática, ao se querer alcançar uma explicação do sentido último do fenômeno religioso que aparece no Antigo Testamento.[3]

Esse método que é dado pela própria natureza da matéria, se confirma plenamente se fizermos um trajeto pela história desta disciplina. Como já se assinalou, o racionalismo pulverizou a inadequada tentativa da ortodoxia de apresentar a íntima relação entre o Antigo e o Novo Testamento por intermédio da comparação dos chamados textos de prova e de um sistema extensivo de tipologia;[4] o racionalismo demonstrou a impossibilidade de reduzir a um compêndio de doutrina dogmática todo o mundo de idéias veterotestamentárias, condicionado como está por uma variedade tão imensa de tempos e pessoas. Contudo, o racionalismo, por sua vez, foi incapaz de oferecer um substituto a isso tudo, pois seu entusiasmo pela análise crítica impediu-lhe de captar a síntese vital do Antigo Testamento, e unicamente conseguiu perceber as diversas formulações doutrinárias dos autores bíblicos individualmente.[5]

Na época do romantismo, o novo método histórico chegou, por fim, a colocar diretrizes únicas nesse caos de disjecta membra, em que havia degenerado o Antigo Testamento: despediu-se da aproximação intelectualista, preocupado unicamente com a doutrina, e com um olhar atento a tudo, se empenhou em captar a vida religiosa em toda a riqueza de suas manifestações. Além disso, submeteu ao controle a inesperada ampliação do horizonte, com sua fórmula mágica da evolução histórica; esta fórmula permitia integrar os elementos particulares no marco do processo histórico, procurando desta maneira definir o sentido da totalidade a partir da análise de seu resultado final.

Este método de tratamento, iniciado por Herder^e De Wette,[6] chega ao seu ápice com Wellhausen[7] e sua escola; durante algumas décadas, os trabalhos de teologia veterotestamentária se conduziram por caminhos históricos. De que serviu, em meados do século passado, que um Beck[8] e um Hofmann[9] tentassem formular um sistema de doutrina bíblica? Se for verdade que utilizando o Antigo Testamento para esse fim lutavam por algo de interesse vital para a fé cristã, não é de se desprezar o fato de que nada conseguissem contra a impetuosa corrente do estudo histórico, sem falar do fato de que o sistema dogmático, por intermédio do qual eles subordinaram o pensamento do Antigo Testamento, tinha sérios problemas.

Maior atenção deve ser dada a três homens que, na segunda metade do século 19, em meio ao triunfo da crítica histórica, buscaram fazer frente à nova problemática e, ao mesmo tempo, expor sistematicamente o conteúdo essencial do Antigo Testamento: G. F. Oehler,[10] A. Dillmann'[11] e H. Schultz.[12] Os três rendem tributo à nova corrente antepondo à sua exposição um esboço histórico da religião veterotestamentária; depois tratam de obter uma síntese sistemática do que examinaram antes, no decorrer do processo histórico.

É uma pena que as duas primeiras obras citadas apareçam após a morte de seus autores e muito do que diziam deixara já de ser válido.[13] Mas suas várias reedições mostram que suas obras chegaram a preencher uma lacuna. De fato, do ponto de vista sistemático, continuam oferecendo-nos o fundamental do estudo da fé veterotestamentária, ainda que, desde então, a investigação tenha exposto à luz muitos materiais novos e relevantes e introduzido novas proposições e, com isso, tenha mudado fundamentalmente o quadro do conjunto.

É significativo que, nos 25 anos seguintes à última edição da teologia de Schultz, ninguém se atrevera a fazer uma exposição semelhante da fé do Antigo Testamento. O método histórico havia alcançado uma vitória total.

Não se deve pôr em dúvida que esse método deu uma grande contribuição à compreensão histórica da religião veterotestamentária: é impossível imaginar uma descrição histórica que não faça uso de suas conclusões. Por isso, todos nós estamos em débito com ele. Mas suas conseqüências foram funestas tanto para a teologia quanto para a compreensão geral do Antigo Testamento, por sua idéia de que, resolvendo o problema histórico, tudo estaria acabado. A inter-relação essencial, do Antigo Testamento e o Novo Testamento, se viu reduzida, diríamos, aos fracos elos da simples conexão histórica e da seqüência causal de ambos; uma causalidade externa, nem sempre suscetível de segura demonstração, substituiu a homogeneidade natural apoiada num mesmo conteúdo vital. É notório a que extremo de pobreza chegou a interpretação da relação intertestamentária. E se entende também que o Antigo Testamento, ao ser valorizado unicamente como base histórica ou como precursor do Novo Testamento, perdesse necessariamente seu valor específico de revelação, ainda que ganhasse mais do que nunca grande apreço histórico. Uma conseqüência disso é a total ausência do Antigo Testamento na construção da fé cristã. E se, em algumas circunstâncias, como no caso de Hamack,[14] lhe é negada sua dignidade canônica, transferindo-o, desse modo, da teologia à simples ciência das religiões, isso parece mais uma concessão acadêmica do que uma autêntica convicção de sua absoluta necessidade.

O fato de os teólogos especialistas se conformarem em lidar com

o desenvolvimento que as coisas haviam tomado e crerem também que, por meio desses caminhos, ficaria a salvo o valor do Antigo Testamento, somente se pode entender, ao se levar em conta a forte maré de historicismo que inundou todos os terrenos do saber, impediu que se visse com clareza que os resultados da investigação histórica, por mais atraentes que fossem no momento, não podiam na realidade substituir a idéia da inter-relação essencial dos dois Testamentos. O método histórico deixou a tarefa da teologia do Antigo Testamento reduzida a uma exposição histórica da religião judeu-israelita; pois a fórmula mágica da evolução dificilmente pôde ocultar que com isso o Antigo Testamento havia perdido toda a unidade, se convertendo, desta forma, em uma série de períodos desconexos que com freqüencia refletiam religiões diferentes. Foi algo bem natural que em tais circunstâncias se renunciasse muitas vezes ao nome de “teologia do Antigo Testamento” e aparecesse em seu lugar o da história da religião israelita.[15] Ainda nos casos em que se manteve a antiga designação[16] nem se pretendia nem se podia oferecer outra coisa senão que uma exposição do processo histórico da religião israelita.

Por isso, se deve assinalar como um feito corajoso o fato que, em 1922, E. König se dispusesse a publicar uma teologia do Antigo Testamento com a intenção séria de fazer justiça ao título. E verdade que o livro mostra, entretanto, certa atitude ambígua: o método histórico-evolutivo ultrapassa os limites da primeira parte, histórica, e penetra na parte sistemática; com isso impede a tarefa de síntese da parte sistemática; de outro lado, os condicionamentos de uma divisão dogmática rejeitam, deste modo, o objeto, obrigando-lhe a seguir um caminho que acaba sendo forçosamente artificial e violento. Mas o autor preencheu uma lacuna do momento; a grata acolhida de sua obra foi um justo reconhecimento de seu mérito.

Na realidade já é hora de que se rompa com a atitude despótica do historicismo e se volte à velha e sempre nova tarefa de captar a fé veterotestamentária em sua unidade estrutural e de interpretá-la em seu sentido mais profundo, atendendo, de um lado, ao mundo religioso que a rodeia e, por outro à sua relação essencial com o Novo Testamento.[17] Somente deste modo se conseguirá devolver ao estudo do Antigo Testamento em geral — e a sua teologia em particular — o lugar que lhe cabe dentro da teologia cristã e que tinha dado lugar à história geral das religiões.

Em nenhum momento queremos ignorar as dificuldades que tal iniciativa demanda. A natureza singular da religião israelita resiste obstinadamente a ser submetida a um tratamento totalmente sistemático, pois o que a distingue das demais religiões é a abundância de personalidades religiosas criadoras, que estão em íntima relação com as experiências históricas do povo. A fundação de uma religião envolve sempre a fixação do conteúdo principal de sua fé, a qual no futuro sofrerá pequenas mudanças para um melhor reconhecimento, ou para um maior aprofundamento ou para novas formulações; também no Antigo Testamento nos encontramos com um material elementar, mas, ao mesmo tempo, deparamo-nos com um crescimento progressivo que introduz na religião conteúdos sempre novos e conjuga o enriquecimento externo com o aperfeiçoamento interno. Esta importância, do aspecto pessoal e histórico na religião israelita, é a razão do por que o escritor cede facilmente à tentação de fazer uma exposição seguindo o processo histórico do desenvolvimento.

Esta consideração, ainda que óbvia, não é inapelável, já que também pode se obter uma visão do desenvolvimento histórico da religião israelita por meio da história de Israel, na qual a vida religiosa merece um lugar destacado, graças a sua estreita conexão com a história política e à recíproca influência entre as duas. Por isso, a teologia do Antigo Testamento pressupõe sempre a história de Israel. E como a história cultural israelita tem motivado mais que um desenvolvimento reformador em sua religião, deve-se fazer com que o princípio sistemático conte sempre com o complemento histórico, e ao tratar particularmente das idéias religiosas, ter em conta os momentos mais importantes de sua evolução. Somente assim poderemos valorizar corretamente a tendência unificadora que aparece em toda a história da religião israelita e que a transforma, apesar de suas várias formas, em um conjunto harmônico. Nesta tarefa há algo, especialmente, do qual é necessário se precaver, e é o de fazer uma disposição organizada de todo o material não segundo suas próprias leis, mas sim, por intermédio de um esquema dogmático qualquer. É impossível se aproximar da fé veterotestamentária com um sistema de idéias desenvolvidas sobre uma base totalmente distinta; ficamos expostos ao perigo de introduzir idéias estranhas e de incapacitados para sua compreensão. Assim sendo, é um fato evidente que o Antigo Testamento contém pouco do que se pode chamar verdadeiramente de “doutrina”; o israelita nunca recebe “lições” sobre a essência e os atributos de Deus, mas sim que o conhecimento de Deus advém da realidade vital: conhecer a natureza de Deus por meio de um raciocínio a posteriori desde normas e costumes do direito e de culto que regem sua própria vida com autoridade divina, até os acontecimentos da história e a interpretação que deles dão seus chefes espirituais; em uma palavra, a partir da experiência diária do domínio de Deus. Deste modo, vai captando a essência de seu Deus, e, certamente, com muito mais segurança que a que poderia dar-lhe qualquer tipo de conceito abstrato. Por isso, no Antigo Testamento sempre se apresenta uma notória demora em construir conceitos, ao passo que os valores espirituais, que nós estamos acostumados a captar conceitualmente, desfrutam de uma presença incontestável e eficaz.

Disto fica uma conclusão para nosso empenho: ao tratar a fé do Antigo Testamento temos de deixar de lado todos os nossos esquemas dogmáticos 1950), verdadeira coroação do trabalho realizado por esse erudito, que, por infausto conhecimento, não foi possível conhecer sua publicação. Começa como uma síntese histórica para assim livrar seu tratado sistemático posterior de problemas e poder oferecer, segundo o mesmo plano que nós, o esboço sistemático da mensagem veterotestamentária. Igualmente, a famosa obra de Th. C. Vriezen (Hoofdlijnen der Theologie van het Oude Testament, 1949,1954), que em sua primeira parte trata de esclarecer o problema “Ciência e fé, história e revelação”, para, na segunda parte, estudar os elementos centrais da teologia veterotestamentária; predomina nesse objetivo a idéia de uma nova realização de comunidade, devido à iniciativa de Deus que se deu a si mesmo, analisando de forma viva tanto a unidade interna do Antigo Testamento quanto, também sua referência a Cristo. Seguindo a idéia dominante da ação de Deus como Criador do mundo e do homem e como Senhor da história, E. Jacob (Théologie de iAncien Testament, 1956) procura dar uma síntese sistemática dos conteúdos essenciais da teologia veterotestamentária: na primeira parte trata sobre a natureza de Deus e na segunda, mais breve, em forma de conclusão, sobre o pecado, a morte e a consumação, os outros temas são tratados no restante da obra sem uma seqüência especial. De modo diferente, E. Sellin (Theologie desAlten Testaments, 1936) e L. Kõhler (Theologie desAlten Testaments, 1949), seguem o velho plano dogmático com uma distribuição marcadamente acadêmica. O primeiro, através de uma descrição paralela da “história da religião israelita e judaica”, procura esclarecer as conexões históricas da parte didática seguinte; o segundo só pretende apresentar de forma eclética aquelas idéias, intuições e conceitos veterotestamentários que tenham importância teológica, e pode por isso se contentar com a velha divisão dogmática de teologia, antropologia e soteriologia, pois para ele as diferenciações históricas fazem, tão-somente, romper a unidade interna, cristologicamente determinada, do Antigo Testamento.

A exposição histórica cronológica também tomou a encontrar seus representantes: assim A. Lods (La Religion d’Israel, 2 vols., 1935-39) e M. Buber (Het Geloof van Israel, em De Godsdiensten der Wereld, vol.I, 2* ed. 1948, 168-307). Na mesma linha, segue o tratado da Religião israelita, de H. Ringgren, 1963, que oferece um quadro bem documentado da história da religião israelita, desde a época dos patriarcas até o judaísmo tardio, no marco das culturas do antigo Oriente, se baseando nas mais modernas teorias e descobertas.

De outro lado, a grande obra de G. von Rad, Teologia do Antigo Testamento, vol I: Teologia das tradições histórica de Israel (1957); vol. II. Teologia das tradições históricas de Israel (1957), admite hipoteticamente que há uma tentativa renovadora na definição da tarefa que compete à teologia do Antigo Testamento. Partindo de uma análise das leis formais que foram desenvolvidas em fenômenos concretos, considera a mensagem do Antigo Testamento como uma constante transformação do testemunho das tradições recebidas nas expressões de fé do presente, que emerge à superfície em cada momento à imprecação das crises do povo e encontra sua compilação normativa nas escolas deuteronômica e sacerdotal. A primeira função da teologia do Antigo Testamento consiste em: descrever as afirmações que, ao longo do cânon, o próprio Antigo Testamento faz sobre o encontro com o Deus da História, pois nelas aparece uma gama de imagens da históna da salvação, descritas a partir do ponto de vista da fé; estas, nada têm a ver com as imagens da história de Israel proporcionadas por essa investigação. Como descrição confessional da história, somente tem uma fraca relação com a realidade histórica, e pode ser manifesto por intermédio de um breve resumo histórico. A tarefa da teologia do Antigo Testamento consiste, pois, unicamente em: expor todo esse mundo testemunhal contido em formulações múltiplas e resistentes a toda unificação; sendo assim, a teologia do Antigo Testamento, por conseguinte, não pode descrever o mundo da fé israelita numa estrutura sistemática. Assim, no primeiro volume se contrapõem as imagens da relação de Israel com Deus, criadas pelos testemunhos veterotestamentários e contidas nos livros históricos, à resposta da comunidade, expressa nos salmos e nos escritos sapienciais; no segundo, ao contrário, se aborda a mensagem dos profetas como afirmação extraordinária da fé, que dá lugar, pela primeira vez, a uma boa nova escatológica. A conclusão está dedicada a uma explicação sucinta da relação entre os dois Testamentos. Essa nova compreensão, da teologia do Antigo Testamento, tem ocasionado um debate caloroso e ainda não concluído, que promete um valioso enriquecimento na compreensão da fé veterotestamentária. (O leitor encontrará uma resenha do novo delineamento no prólogo na parte II desta obra.) Cremos também serem significativas as seguintes obras: N. H. Snaith (The Distinctive Ideas of the Old Testament, 1944) e H. H. Rowley (The Faith of Israel, 1956 A Fé em Israel.) oferecem magníficas perspectivas da fé veterotestamentária e tratam em um pequeno espaço dos problemas fundamentais da mensagem do Antigo Testamento.

O. J. Baab (The Theology ofthe Old Testament, 1949) deseja apresentar uma abordagem sistemática que coincide com o anseio de L. Köhler, ou seja, uma seleção das idéias religiosas que lhe parecem verdadeiramente importantes para nosso acesso ao Antigo Testamento. Seu estudo contém muitas coisas notáveis, mas não consegue abranger a totalidade da fé veterotestamentária. Isto se nota, sobretudo, no fato de que, independentemente da história das idéias, não se dá a suficiente atenção à vida da comunidade israelita tanto no direito quanto no culto. Ainda menos satisfatória é a tentativa, de tendência psico- racional, para demonstrar que a fé do Antigo Testamento, como fé racional responde às necessidades do espírito humano. Nesse contexto, é evidente que se esqueça por princípio a especificação básica que a teologia do Antigo Testamento recebe do Novo Testamento, como teria de se pôr às claras, por exemplo, em conceitos como profecia e cumprimento.

Pode também se consultar com proveito o extenso estudo arqueológico de W. F. Albright, Archeology and the Religion of Israel, 1946, que constitui um estupendo complemento de sua importante obra De la edad de piedra al ^ q

cristianismo (Santander, 1959). O autor circunscreve a fé veterotestamentária dentro da ampla perspectiva da história do antigo Oriente.



[1] Die Aufgabe der theologischen Fakultäten und die allgemeine Religionsgeschichte, 1901, p. 10. 


[2] Biblische Theologie des Alten Testaments, 1905, p. 15. 


[3] Sobre a relação que esta tarefa deve guardar com a exposição propriamente dogmática do Antigo Testamento dei alguns princípios em meu artigo Hat die alttestamentliche Theologie noch selbständige Bedeutung innerhalb der alttestamentlichen Wissenschaft? Cf. ZAW 47, 1929, p. 83s. 


[4] Não podemos nos deter por hora em exceções como G. Calixt e J. Cocceius. 


[5] Cf., por exemplo, C. F. Ammon. Biblische Theologie, 1972; G. L. Bauer, Theologie des Alten Testaments, 1796. 


[6] Beiträge zur Geschichte des Alten Testaments, 1806/7; Bibi. Dogmatik, 1813,1831. 


[7] Prolegomena zur Geschichte Israels, 1878; Israelitische und jüdische Geschchte, 1894; Die israelitisch-jüdische Religion, 1906 (Kultur der Gegenwart, 1,4). 


[8] Die christliche Lehrwissenschaft nach den biblischen Urkunden, 1841. 


[9] Der Schriftbeweis, 1852/55. 


[10] Theologie des Alten Testaments, 1873, 1891. 


[11] Handbuch der alttestamentlichen Theologie, ed. por R. Kittel, 1895. 


[12] Alttestemenliche Theologie, 1896. 


[13] Isto vale também para a menos importante Alttestamentliche Theologie de E. Riehm,1889. 


[14] Marcion, 1921, pp. 247s. 


[15] R. Smend em seu extenso Lehrbuch der alttestamentlichen Religionsgeschichte2, 1899; F. Gieserbrecht, Grundzüge der israelitischen Religionsgeschichte, 1904; K. Marti, Geschichte der israelitischen Religion5,1907; K. Budde, Die Religion des Volkes Israel bis zur Verbannung3, 1912; E. König, Geschichte der alttestamentlichen Religion2, 1915; R. Kittel, Die Religion des Volkes Israel, 1921; G. Hölscher, Geschichte der israelitischen und jüdischen Religion, 1922. 


[16] B. Stade, Biblische Theologie des Alten Testaments, 1905; E. Kautzsch, Biblische Theologie des Alten Testaments, 1911. Neste mesmo sentido, A Kuenen. De godsdients van Israel, 1869s., assim como a obra do mesmo nome de B. D. Ke rd mans. 1930. 


[17] '* Cf. o exame de R. Kittel sobre a importância da teologia do Antigo Testamento em seu artigo Die Zukunft der alttestamentlichen Wissenschaft, ZAW 39,1921, p. 94s.


FONTE: EICHRODT, Walther. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo : Hagnos, 2004.