1 de março de 2015

ROY B. ZUCK - Uma teologia de Cantares de Salomão

UMA TEOLOGIA DE CANTARES DE SALOMÃO

O LUGAR DE CANTARES DE SALOMÃO NA LITERATURA SAPIENCIAL

Embora a canonicidade de Cantares de Salomão tenha sido desafiada de tempo em tempo, em geral os escritores judeus e cristãos o consideram canônico. O Talmude (Baba Bathra 14) o incluiu nos livros sagrados, como fez Melito, bispo de Sardes, no final do século II. A canonicidade do livro
foi reafirmada no Concílio de Jamnia em 90 d.C. Defendendo seu lugar nas
Escrituras, o rabino Akiba (50?-132 d.C.) exclamou: “O mundo inteiro não
é tão digno quanto o dia em que Cantares de Salomão foi dado a Israel, pois
todas as Escrituras são santas, mas Cantares de Salomão é o mais Santo”.

Um tema relacionado é a razão de Cantares de Salomão ser incluido na
literatura sapiencial. Como já proposto, uma razão é que Salomão é citado cinco vezes no livro (Ct 1.5; 3.9,11; 8.11,12). Gordis argumenta que Cantares de
Salomão também pertence ao corpo da literatura sapiencial, porque foi escrito
como cântico. Considerando que Salomão, o homem mais sábio nos seus dias

(2 Cr 9.22), destacou-se por ter falado 3.000 provérbios e 1.005 canções (1 Rs
4.31), e visto que Etã e Hemã, homens sábios (1 Rs 4.30,31), estavam associados com a música do Templo (1 Cr 15.19), não é de admirar que Cantares de Salomão esteja associado com a sabedoria.

O uso extenso de simbolismo coloca Cantares de Salomão com precisão
na poesia da bíblica. “E a essência da poesia que emprega o simbolismo para
expressar nuanças que estão fora de definição exata. Isto é particularmente
verdadeiro acerca da poesia de amor.” Desenhando o seu imaginário a partir
da natureza, Salomão comparou a sulamita a um lírio (2.2), e ela falou dele
como uma macieira (v. 3). O ato de amor era como o prazer do fruto (w. 3,4),
do vinho (1.2; 5.1), do mel e leite (5.1) e as delícias de um jardim (4.12,16;
5.1; 6.2) e um vinhedo (8.12). Ela falou dele como uma gazela (2.9,17; 8.14),
veloz, ágil, de bela aparência e forte. Ele era tão atraente e desejável quanto
um ramo de flores de hena (1.14). Chamou-a de pomba (2.14; 5.2) e comparou os olhos dela a pombas (1.15; 4.1), os cabelos a um rebanho de cabras
(4.1; 6.5, pretos e soltos), os dentes a ovelhas (4.2; 6.6, brancos), as têmporas às romãs (4.3; 6.7, vermelhas), os seios a corços (4.5, atraentes na forma e
deliciosos ao toque; cf. Pv 5.19) e os lábios ao mel (4.11). Usando simbolismo
dele, a sulamita comparou os seus cabelos aos de um corvo (5.11), os olhos a
pombas (5.12), os lábios aos lírios (5.13), os braços, tronco e pernas a metais
preciosos (5.14,15). Por sua vez, ele disse que as pernas dela eram como jóias
(7.1), o umbigo como uma taça (v. 2), a cintura como trigo com lírios (v. 2),
os seios como corços e agrupamentos de frutos (w. 3-7), os olhos como piscinas (v. 4) e a cabeça como o monte Carmelo (v. 5).

A palavra hebraica hokmah não aparece em Cantares de Salomão, nem
a frase “o temor do Senhor”. Nem a palavra ’Elohim (“Deus”), nem Senhor ocorrem no livro. Contudo, o assunto do livro legitima seu lugar no corpo
sapiencial do cânon bíblico. Os sábios são bem-sucedidos ou habilidosos em
seus relacionamentos, inclusive na relação matrimonial. Dirigindo a vida de
acordo com o desígnio divino, os sábios se entregam a uma vida de virtude e
fidelidade matrimonial.

O livro de Provérbios admoesta os leitores a manter os mais altos padrões de conduta ética em relação ao sexo oposto. Negativamente, significa evitar o adúltero, a prostituta e a esposa teimosa (Pv 2.16-19; 5.3-14,20; 6.24,29,32-35; 7.4-27; 22.14; 23.27,28; 30.20), com suas perigosas ligações sexuais. Positivamente, envolve desfrutar e ser fiel à esposa comparado a beber água da própria cisterna ou fonte (Pv 5.15-19). Mais do que mera coincidência, Salomão falou com a sua noiva na noite de núpcias como uma fonte e um poço de águas correntes (Ct 4.12,15).

“O caminho do homem com uma virgem” (Pv 30.19), quer dizer, o seu
cortejo de afeto para a mulher que ele ama, é misterioso e envolve um elemento
de mistério sobre o que é visivelmente difícil, como se dá com os outros “caminhos” naquele mesmo versículo: o caminho da águia no céu, da cobra na
penha e do navio no meio do mar. Cantares de Salomão não ilustra o caminho
do homem (Salomão) com a sua virgem (a sulamita)? A confiança e admiração
do marido pela “mulher virtuosa” (31.10-12,20-30) são recendentes do amor
mútuo de Salomão e a sua noiva.

A ênfase freqüente em Eclesiastes no prazer da vida também ajuda a preparar os leitores bíblicos para o quadro de delícias do amor matrimonial em
Cantares de Salomão. O texto de Eclesiastes 9.9 encoraja o prazer físico matrimonial (“Goza a vida com a mulher que amas”), que então é apresentado com detalhes em Cantares de Salomão. A passagem de Provérbios 5.18 é similar: “Alegra-te com a mulher da tua mocidade”.
Mais ponto de associação entre Cantares de Salomão e a literatura
sapiencial é a teologia da criação. Deus criou o homem e a mulher para
desfrutarem-se mutuamente em amor nupcial (Gn 2.24). A união macho fêmea no casamento é parte do propósito de Deus para o mundo. Não
é surpresa então que ele tenha incluído um livro nas Escrituras que demonstre a pureza e salubridade da mais profunda e mais íntima de todas as relações humanas? Companhia em vez de solidão (v. 20), união em vez
de isolamento (v. 21-23), dependência em vez de autoconfiança (v. 23), identidade espiritual e física (“uma só carne”, v. 24) em vez de separação,
prazer dos encantos físicos um do outro sem sentir vergonha (v. 25) são
aspectos do amor dentro do vínculo matrimonial, esboçados em Gênesis,
que são descritos e desenvolvidos em Cantares de Salomão. Apropriadamente então, podemos pensar em Cantares de Salomão como “um comentário de v. 24 [‘e serão ambos uma carne’] e um manual das bênçãos e
recompensas do amor matrimonial íntimo”.

Cantares de Salomão foi sujeito a numerosas e variadas interpretações, entre elas: (1) uma alegoria — o amor de Deus por Israel (ensinado
pelos rabinos medievais judeus Rashi e Ibn Ezra), o amor de Jesus pela
Igreja (primeiramente sugerido por Hipólito de Roma), o amor de Deus
pela virgem Maria (a visão de Ambrosio), a união mística da alma com
Deus (a visão de Orígenes e Gregorio de Nissa); (2) uma coletânea de
poemas cantados em casamentos campesinos (sugerido inicialmente por
Bossuet em 1693 e depois proposto por Renan, Wetzstein e Budde); (3)
uma liturgia para celebrar o casamento referente ao culto da deusa Ishtar
e do deus Tamuz (sugerido por Meek, Margolis, Snaith e outros); (4) uma
antologia de canções de amor sem ligação umas com as outras (a visão de
Gordis, Rowley, Eissfeldt e muitos outros); (5) um ágape funerário (defendido por Pope ) e (6) um drama (sustentado por Jacobi e outros). Rejeitando estas visões, acredito que o livro tenha de ser considerado como
expressão de amor matrimonial normal entre Salomão e a sulamita, a jovem campesina que se tornou sua esposa. Muitos estudiosos evangélicos
defendem esta visão. Young escreveu que “Cantares de Salomão celebra
a dignidade e a pureza do amor humano”. Ginsburg, estudioso judeu,
rastreou esta visão desde os tempos atuais até aos de Moses Mendelssohn
(1729-1786) e defendeu essa visão.

UMA TEOLOGIA DO HOMEM EM CANTARES DE SALOMÃO

Ver que Cantares de Salomão está apresentando o namoro, o casamento e
a boda de Salomão e a Sulamita nos mostra vários aspectos da teologia do homem. Como já declarado, quando Deus criou o homem e a mulher criou-lhes a sexualidade, na qual marido e mulher se desfrutam mutuamente na salubridade do sexo. Como em Gênesis, o sexo no casamento em Cantares de Salomão é puro e delicioso. O marido e mulher, fisicamente atraídos um pelo outro, são parceiros que têm satisfação em se darem um ao outro. Admirando-se entre si,
a Sulamita e Salomão deram descrições anteriores ao casamento, que são gerais
(Ct 4.1-15), e posteriores ao casamento, as descrições eram mais explícitas e
íntimas (5.10-16; 6.4-7; 7.1-9).

Esta apreciação e deleite um no outro é o amor fisicamente genuíno, e não
luxúria. A nudez na noite de núpcias não era a nudez da vergonha, como em
Gênesis 3.7, mas a intimidade da união, como em Gênesis 2.25· Embora sem
inibições, eram também corteses e gentis e sem agressão nas descrições um do
outro. “Não temos aqui nenhuma das referências crassamente físicas encontradas nos encantos de amor acadianos, nos poemas de amor sumérios ou nas canções de amor árabes contemporâneos.”
Salomão e a sulamita retratam diversos outros aspectos das relações matrimoniais além da pureza da atração física mútua entre eles. Obviamente, o matrimônio é visto como monógamo. Referindo-se a ela por “imaculada” e esposa “única” (Ct 6.9), ele estava ressaltando o seu afeto exclusivo por ela. Ela guardou o seu fruto exclusivamente para ele (7.13). Na realidade, ela se mantivera virgem, inacessível aos outros, como sugere a descrição de jardim fechado e fonte selada (4.12) e muro (8.10).

A atração também era mais que física; eles se encantavam com a beleza
da personalidade um do outro. Com humildade, ela falou que era a “rosa de
Sarom”, provavelmente um açafrão, uma mera flor do campo (2.1). Ele respondeu a esta expressão de humildade exaltando-a como “o lírio entre os espinhos” (v. 2). Ele devolveu as palavras dela com um elogio — comparada com outras mulheres, ela era muito bonita e eles eram amoreira-preta. A personalidade dela era atraente como um lírio.

Cantares de Salomão também descreve a imperturbabilidade que tem de
estar presente no amor conjugal. “O amor é forte como a morte. [...] As muitas
águas não poderiam apagar esse amor nem os rios afogá-lo; ainda que alguém
desse toda a fazenda de sua casa por este amor, certamente a desprezariam” (8.6-7). O verdadeiro amor é “invencível, firme, vitorioso”. Permanece e é
inestimável. Cantares de Salomão também ressalta a importância de (1) manter a castidade pré-conjugal (2.1-7; 3.5; 8.4), (2) a noiva deixar a família para
apegar-se ao seu marido (3.6-11; cf. Gn 2.24), (3) o marido e a mulher trocarem entre si elogios verbais e estimulação visual, (4) o uso de perfumes para
aumentar o desejo do amor (4.10,11), (5) a paciência do marido em esperar que
a excitação sexual da esposa aumente (w. 12-16), (6) continuar amando o seu
cônjuge de forma abnegada (6.4-10; 7.1-9) quando surgem conflitos no casamento (5.7,8) e (7) o compromisso vitalício um com outro (“o meu amado é
meu, e eu sou dele”, 2.16; “eu sou do meu amado, e o meu amado é meu”, 6.3;
e “eu sou do meu amado, e ele me tem afeição”, 7.10).

A exultação do amor matrimonial em Cantares de Salomão comunica uma
ênfase extremamente necessária nas sociedades hodiernas que promovem o sexo pré-conjugal e extraconjugal, trocam o amor pela luxúria e denigrem a beleza do sexo nas relações matrimoniais permanentes e monógamas. Lógico que quem é noivo ou casado será sábio em seguir os princípios exarados em Cantares de Salomão. Ser sábio ou próspero no casamento requer o reconhecimento da moralidade sexual entre o marido e a mulher, apresentada em Gênesis 2 e detalhada no namoro, casamento e boda de Salomão em Cantares de Salomão.

Quando a pureza, a fidelidade, a privacidade, a intimidade, o êxtase e a permanência estão presentes em um casamento, o marido e a mulher podem
desfrutar da aprovação de Deus, como ele lhes diz: “Comei, amigos, bebei
abundantemente, ó amados” (Ct 5.1). Só esse tipo de relação matrimonial pode
ser verdadeiramente sábio ou próspero no sentido bíblico. 

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.