13 de março de 2015

Roland de Vaux - Pesos e Medidas


PESOS E MEDIDAS

1.    A “METROLOGIA” ISRAELITA
A metrologia é, por definição, uma ciência exata. Ela supõe a determinação matemática das unidades de extensão, volume e peso e sua rigorosa clas­sificação. No uso prático, ela exige a sanção de uma autoridade que impõe um sistema e verifica a conformidade das medidas empregadas por cada um com o padrão que ela estabelece. Isso, que é regra nos Estados modernos, já acon­tecia, mesmo que em graus variados, nos grandes impérios antigos. Pode-se duvidar que uma tal regulamentação tenha existido em Israel. Freqüentemente quis-se ver em II Sm 8.1 a menção a um “padrão do côvado”, que Davi teria emprestado dos filisteus, mas o texto está corrompido e talvez oculte um nome geográfico. Sem dúvida, fala-se de fraudadores que diminuíam as medidas e aumentavam o siclo, Am 8.5; de pesos “pesados” e “leves“, Dt 25.13; da medi­da diminuída e de pesos enganosos, Mq 6.10,11; cf. Pv 20.10. Em contras­te, Lv 19.35-36 prescreve pesos justos, uma medida justa, um sextário justo, cf. Ez 45.10. Tudo isso se refere a estimativas comumente admitidas e não a padrões oficiais. A tradição rabínica, segundo a qual os padrões do côvado eram depositados no Templo
não é confirmável, e provavelmente funda-se unicamente em I Cr 23.29, onde os levitas são encarregados dos pães da oblação, da flor da farinha, dos bolos achatados e de todo tipo de medidas. Segundo o contexto, isso significa simplesmente que os levitas têm que velar para que as oferendas sejam da quantidade requerida, cf., por exemplo, Êx 29.40, e para que Deus não seja roubado, cf. Ml 3.8-10. Não devemos convertê-los em controladores de pesos e medidas. Esses textos são melhor apreciados ao se ver ainda hoje em dia, depois da imposição do sistema métrico e a obrigação de empregar medidas autorizadas, como certos mercadores dos suq de Jerusa­lém pesam seus produtos servindo-se de uma pedra ou de uma ferradura, como os camponeses medem o leite ou o azeite com latas de conservas, e os beduínos medem com o braço a corda que compram. Assim como atualmente, contenta­va-se também em Israel com uma avaliação conforme o costume. Veremos mais adiante que essa avaliação era garantida, em certos casos, por uma marca ou uma inscrição sobre o recipiente ou sobre o instrumento de medida, mas isto não se assemelhava à precisão de nossos controles modernos, nem, segundo parece, à exatidão dos antigos sistemas da Mesopotâmia e do Egito.

É útil comparar os dados da Bíblia com esses antigos sistemas orientais e, secundariamente, com a metrologia greco-romana. Mas devemos nos lem­brar que freqüentemente a avaliação de suas unidades é incerta e nada nos assegura que as medidas israelitas tenham sido exatamente equivalentes: em nossos dias, medidas com o mesmo nome tiveram, ou ainda têm, valores signi­ficativamente diferentes na Síria, no Egito, na Palestina, e mesmo de uma região para outra na Palestina. Além disso, os valores mudaram com o tempo, em Israel como nos demais países vizinhos. Finalmente, as informações dadas pelos textos e pelas escavações são muito insuficientes, quando só se conside­ra o Antigo Testamento, como faremos.

Esses fatores convidam a uma prudência que nem sempre os autores de trabalhos especiais sobre metrologia bíblica souberam observar. Podem ser colocada em séries, com certa verossimilhança, as medidas de cada categoria, mas é inútil e enganoso dar, com quatro ou cinco decimais, sua equivalência métrica quando não se está seguro nem do padrão antigo nem de sua relação com nosso sistema. Somente podem ser dadas aproximações. A “metrologia” bíblica provavelmente nunca será uma ciência exata.

2.     MEDIDAS LINEARES
Segundo o uso universal dos antigos, as medidas de comprimento mais comuns tomam seus nomes das partes do corpo humano; em Israel, do braço e da mão, agentes da atividade artesã.

O côvado, ’ammah, é a distância entre a extremidade do cotovelo e a extremidade do dedo médio. O palmo, zeret, é a medida da mão de um homem, aberta e estendida, desde o extremo do polegar até o do mindinho; a Vulgata ao traduzí-lo por palmus, criou uma confusão com o termo seguinte. A palma, tepah ou topah, é de fato a largura da mão onde começam os dedos. O dedo ou polegar, 'etsba \ freqüente nas metrologias antigas e no Talmude, só é encon­trado uma vez no Antigo Testamento como unidade de medida, Jr 52.21.

A vara de medir, qaneh, empregada na descrição do Templo de Ezequiel, é mais um instrumento usado para medir do que uma unidade de medida, cf. Ez 40.3. A vara de medir de Ezequiel tinha seis côvados grandes, como a medida de mesmo nome na Mesopotâmia. O cordão de linho de Ez 40.3, a corda de medir de Am 7.17; Zc 1.16; 2.5, são também instrumentos de medida, dos quais não se sabe se eram padronizados como a corda mesopotâmica.


Finalmente, Jz 3.16 diz que Eúde tinha uma espada de um gomeil de comprimento. A palavra é única na Bíblia, e as conjecturas das versões, “pul- mo” ou “palma”, ou dos modernos, “côvado curto”, não nos esclarecem sobre o valor dessa medida.
O Antigo Testamento não nos fala em nenhuma parte da relação dessas unidades fundamentais entre si, mas é claro que tinham as mesmas relações proporcionais que os membros do corpo humano de que tomavam os nomes, e é provável que tais relações tenham sido ajustadas da mesma maneira que na Mesopotâmia e no Egito, que têm uma subdivisão idêntica do côvado comum:

 Côvado...................... 1
Palmo .......................2    1
Palma ........................ 6     3     1
Dedo ......................... 24      12     4      1


Mas na Mesopotâmia havia também, segundo Heródoto, um côvado “real” de 27 dedos. Igualmente, no Egito, havia um côvado real de 7 palmas ou 28 dedos. Em Israel, parece que existiram, em épocas diferentes, um côvado grande e um pequeno. Reproduzindo as dimensões do Templo de Salomão, tal como nos são dadas nos livros dos Reis, II Cr 3.3 detalha que se trata do “côvado de medida antiga”. A vara de medir do medidor celestial de Ez 40-42; cf. Ap 21.15-16, tinha seis côvados “de um côvado e uma palma’*, Ez 40.5; cf. 43.13. É provável que Ezequiel retome a medida antiga para a descrição do Templo futuro e que dê a equivalência com a medida de seu tempo: o côvado antigo teria tido também 6 palmas ou 24 dedos, mas eram maiores. Contudo, devemos nos lembrar que o côvado real egípcio tinha 7 palmas ou 28 dedos.

A avaliação métrica do côvado israelita pode ser feita comparando-o com os sistemas vizinhos, mas esses não são constantes. As réguas graduadas gravadas sobre duas estátuas de Gudea, príncipe de Lagash, por volta do ano 2000 a.C., nos dão um côvado de 0,495 metro, que provavelmente representa o côvado grande da época. Segundo as antigas réguas graduadas encontradas no Egito, o côvado real teria 0,525 ou 0,530 metro. As escavações na Palesti­na não proporcionaram padrões semelhantes e só podemos utilizar uma única informação positiva: a inscrição gravada no canal de Ezequias diz que ele tem 1.200 côvados de comprimento e, efetivamente, o canal mede 533,10 metros; o côvado teria, portanto, 0,44425 metro. Mas essa precisão é abusiva, já que 1200 é evidentemente um número redondo, como os 100 côvados que na mesma linha da inscrição indicam a profundidade do canal sob a superfície, e por outro lado, há uma margem inevitável de erro na mensuração de seu traça­do serpentino. Teríamos ainda que decidir se esse côvado contemporâneo de Ezequias é equivalente ao côvado antigo de que fala II Cr 3.3, ou ao côvado longo de Ez 40.5, ou ao côvado curto pressuposto nesse mesmo texto. Há, pois, certa arbitrariedade nas avaliações que os autores dão e que variam ao redor de 0,45 metro para o côvado comum e 0,52 metro para o côvado de Ezequiel.

Esses cálculos são, de qualquer forma, bastante vãos, dado que não havia um padrão oficial. Na prática, os arquitetos, pedreiros e artesãos tomavam as medidas utilizando seu cotovelo físico, sua mão estendida, sua palma e seus dedos. A metrologia árabe menciona um “côvado negro”: este seria o que mediria um negro grande a serviço do califa; mas essa explicação é duvidosa.

Quanto às medidas itinerárias, as distâncias são indicadas apenas de for­ma empírica nos livros hebraicos do Antigo Testamento. O passo, pesa\ só é mencionado em I Sm 20.3, e metaforicamente há “apenas um passo entre mim e a morte.” A contagem para dias de caminhada oferece a mesma imprecisão: um dia, Nm 11.31, três dias, Gn 30.36; Êx 3.18; Jn 3.3, sete dias, Gn 31.23.

Em Gn 35.16 = 48.7; II Rs 5.19, a distância é indicada pela expressão kibrar haarets, ou seja, “uma extensão de terreno”; isto é o contrário de uma medida exata: é “certa distância”.
Duas medidas helenísticas aparecem nos livros dos Macabeus. Betsur está a uns 5 esquenos de Jerusalém, II Mb 11.5. O esqueno é uma antiga medi­da egípcia que valia, na época ptolomaica, um pouco mais de 6 km: Betsur está, efetivamente, a 29 km de Jerusalém. Muitas menções do estádio encon­tram-se acidentalmente agrupadas no mesmo capítulo, II Mb 12.9,10,16,17,29. O estádio é uma unidade grega que foi recebida na Palestina, primeiro na época helenística e depois na época romana. O estádio alexandrino, ao qual deve conformar-se o autor do segundo livro dos Macabeus, e que era prova­velmente o que empregavam os judeus da Palestina, media um pouco menos de 185 metros. A distância de 600 estádios entre Jerusalém e Citópolis (Bet- San), II Mb 12.29, é confirmada exatamente com esta medida: há um pouco mais de 110 km entre os dois pontos. Por outro lado, os 240 estádios de II Mb 12.9, calculados com o mesmo valor, são claramente muito pouco para cobrir a distância entre Jerusalém e o porto de Jâmnia. Os 750 estádios de II Mb 12.17 não são calculáveis, pois desconhecemos o ponto de partida e o ponto de che­gada.

Em hebraico não há nomes para as medidas de superfície. Esta é determinuda indicando o comprimento dos lados de um retângulo ou de um quadrado, o       diûmetro e a circunferência de um espaço circular, I Rs 6.2s; 7.23; II Cr 4.1,2; Ez 40.47,49; 41.2,4 etc. As medidas agrárias eram empíricas. A jugada, tsemed, literalmente “jugo, junta’*, é a extensão que uma junta de bois pode trabalhar em um dia. Ela 6 mencionada como medida em Is 5.10 e no texto corrompido de I Sm 14.14. Calculava-se também a extensão de um terreno segundo a medida do grão que era necessário para o plantio. Esse procedimento era empregado em todo o Oriente antigo e é atestado na Palestina na época talmúdica; entretanto, na Bíblia somente o encontramos em I Rs 18.32, texto, por outro lado, de difícil interpretação: Elias cavou ao redor do altar um canal com uma capacidade de dois se’ah de semente. Qualquer que seja o valor dado ao se'ah e a densidade da semeadura que se suponha, seja que se aplique a medida à superfície do próprio canal, seja que se estenda ao espaço que ele circunscreve, em todo caso a estimativa parece muito exagerada. Não é provável que Lv 27.16 esti­me um campo em 50 siclos por homer de cevada que serviria para a semeadu­ra: isso equivaleria a uma superfície enorme por um preço irrisório. Trata-se do grão que se recolhe, e expressa a avaliação do valor do campo, não de sua área.

3.     MEDIDAS DE CAPACIDADE
Os nomes são, geralmente, os dos recipientes que continham as mercadorias e que serviam para medi-las, como em muitas outras metrologias: a cuba, o almude, o alqueire etc. Ao usar-se essas palavras para traduzir termos hebraicos, só se pretende indicar uma medida da mesma ordem de grandeza, não se pretende dar uma equivalência. Para evitar confusões, utilizaremos somente as transcrições dos termos hebraicos.

O homer é etimologicamente uma “carga de asno”. Trata-se de uma medida de grande capacidade para os cereais, Lv 27.16; Ez 45.13; Os 3.2”. Excepcio­nalmente, em Nm 11.32, o homer mede as codornizes que caíram sobre o deserto: cobriam o chão até a altura de uns dois côvados na extensão de um dia de caminhada em redor do acampamento, e cada um recolheu dez homer, somas deliberadamente fantásticas que expressam a glutonaria do povo e jus­tificam seu castigo. O texto de Is 5.10 quer provocar uma reação de espanto contrária: um homer de semente só produzirá um *epah de colheita; trata-se de uma maldição!

O kor é igualmente uma medida de grande capacidade para a farinha, IRs 5.2, para o trigo e a cevada, I Rs 5.25; II Cr 2.9; 27.5; Ed 7.22. A menção do kor para o azeite em I Rs 5.25 é um equívoco por bat, cf. o texto grego e o paralelo de II Cr 2.9. Mas o texto confuso e sobrecarregado de Ez 45.14 faz do kor uma medida para líquidos e o iguala ao homer.

O letek é mencionado em Os 3.2 como medida para a cevada, inferior ao homer. As versões interpretam-no como a metade do kor.

O 'epah designa, na visão de Zc 5.6-10, um grande recipiente, fechado com uma tampa e que pode conter uma mulher. É, com freqüência, o nome de um instrumento de medida: deve-se ter um 'epah justo, integral, Lv 19.36; Dt 25.15; não se deve diminuir o ‘epah, Am 8.5; Mq 6.10; não deve haver epah e ’epah, um grande e outro pequeno, Dt 25.14; Pv 20.10.0 mais comum é que palavra designe a própria medida, um 'epah, Jz 6.19; Rt 2.17; I Sm 1.24, etc., ou 1/6 de e/?a/?, Ez45.13;46.14, ou 1/10 de 'epah, Lv5.11;6.13;Nm5.15; 28.5; cf. Êx 16.36. Os materiais medidos são farinha, sêmola, cevada, grão tostado, nunca os líquidos. É a unidade de medida mais freqüente para os sólidos.

O bat é seu equivalente para os líquidos. A medida deve ser justa, Ez 45.10. Ela é empregada para a água, I Rs 7.26,38; II Cr 4.5, para o vinho, II Cr 2.9; Is 5,10, e para o azeite, II Cr 2.9; Ez 45.14; I Rs 5.25 corrigido.

O shalish, somente em Is 40.12 e SI 80.6, é um instrumento que mede a “terça parte” de uma unidade indeterminada.

O Se'ah é, nos textos históricos antigos, uma medida para a farinha e os cereais, Gn 18.6; I Sm 25.18; I Rs 18.32; II Rs 7.1,16,18.

O hín é uma medida para os líquidos. Fora Ez 4.11, em que 1/6 de hín representa o mínimo que se pode beber em um dia, o hín não é mencionado senão nos rituais, para as oferendas de vinho e azeite, o hín inteiro, Êx 30.24; Ez 45.24; 46.5,7,11, o meio hín, Nm 15.9,10; 28.14, o terço de hín, Nm 15.6,7; Ez 46.14, o quarto de hín, Êx 29.40; Lv 23.13; Nm 15.4,5; 28.5,7,14.
O 'omer, cujo nome significa “feixe”, só é empregado na história do maná, Êx 16 passim: recolhe-se um ‘omer de maná por dia e por pessoa. A glosa de Êx 16.36 o avalia em 1/10 de 'epah.

O 'issarôn, o “décimo”, é uma medida de farinha nos textos litúrgicos: Êx 29.40; Lv 14.10,21 etc.

O qáb não consta senão em II Rs 6.25: durante o cerco de Samaria, um quarto de qab de cebolas silvestres valia 5 siclos de prata!

log é uma pequena unidade para líquidos, mencionada somente no ritual de purificação do leproso, Lv 14 passim.

Se tentamos pôr todos esses nomes em uma série proporcional, a glosa de Êx 16.36 indica que o 'omer é 1/10 de epah, e é provável que o “décimo”, *issarôn, também represente 1/10 de epah.

Segundo Ez 45.11, o epah e o bat têm a mesma capacidade e fazem 1/10 de homer. Obtém-se, assim, a seguinte série:

Homer ...................................... 1
’epah = bat............................... 10      1
‘onier = ‘issarôn....................... 100    10      1
Não podemos deduzir mais nada do texto hebraico. A metrologia mesopotâmica permite estabelecer outra série: na época neobabilônica, as pro­porções entre as três unidades de medidas são: um gur = 30 sutu = 180 qa. A semelhança de nomes e autoriza estabelecer a seguinte tabela para o perío­do exílico e pós-exílico:
gur = kor........................ 1
sutu = se ’ah................... 30           1
qa = qab........................ 180        6         1
Essas proporções são confirmadas pelos documentos da época judaica e pelo Talmude. Essas duas séries, uma fundada no sistema decimal e a outra no sexagesimal, são aparentemente independentes. Sua combinação é hipotética. Ela baseia-se na versão grega de Êx 16.36 e Is 5.10, que traduz “um 'epah'' por Tpía liéxpa; ora, pixpov é a tradução comum Seah; que seria, pois, a terça parte de um epah. Por outro lado, do texto obscuro de Ez 45.14 obtém-se a equivalência entre homer e kor, e assim chega-se à seguinte série combinada:
homer = kor........................ 1
'epah = bat........................ 10       1
setah................................ „.30        3                   1
‘omer= ‘issaron................. 100                             10      -          1
qab...................................    180        18         6 -                                1
A posição do hin e do log só pode ser deduzida de informações ainda mais tardias: a comparação que Josefo faz com a metrologia greco-romana, as interpretações de Jerônimo e os dados talmúdicos. De tudo isso se conclui que 1  qab = 4 log e que 1 bat = 6 htn. O quadro completo se estabeleceria assim, deixando de lado o letek e o shalish, muito pouco atestados para que possam nos interessar:
homer = kor................... 1
'epah = bat.................... 10          1
s"ah............................... .30          3           1
hin................................... 60        6           2          1
orner = issaron............... 100      10        -         -          1
qab.................................. 180           18      6         3          -     1    log                                     720          72      24       12      -         4          1
É necessário repetir que essa tabela é hipotética e que só vale, em todo caso, para uma data muito recente.

Ela baseia-se em equivalências freqüentemente incertas e sempre tardias, sendo as mais antigas as de Ezequiel, das quais não podemos dizer se são a afirmação de uma regra desconhecida ou o enunciado de uma reforma que talvez não tenha sido aplicada na época bíblica.

É necessário reconhecer que não podemos estabelecer um quadro, mes­mo que restrito, das proporções para o período anterior ao Exílio. O único termo útil de comparação seria o sistema assírio, que precedeu o sistema neobabilônico do qual nos servimos antes. A nomenclatura assíria era a seguinte: 1 imêru = 10 sûtii = 100 qa. Dado que se admite geralmente que o qa não mudou de valor na Mesopotâmia, o imêru é quase a metade do gur babilónico e o sutil assírio é quase o dobro do sutu babilónico. O homer hebraico tem o mesmo nome que imêru, que também significa “carga de asno”. Isso toma duvidoso, apesar de Ez 45.14, que o homer seja o equivalente do kor, que corresponde ao gur. A posição do se’ah = sutu é igualmente perturbadora: segundo o sistema assírio, ele seria 1/10 do imêru = homer e seria, conseqüentemente, equivalente ao ’epah = bat tal como o definirá mais tarde Ez 45.11. Entretanto, seria estranho que o se’ah da época monárquica tivesse o mesmo valor que o 'epah = bat mencionado igualmente nos textos antigos, mas nós desconhecemos seus valores relativos.

Essas falhas em nosso conhecimento condenam todo intento de dar, para o período do Antigo Testamento, um quadro de equivalência com nosso siste­ma moderno. No máximo, se poderia tentar determinar o valor de tal ou qual unidade em tal ou qual época. Podem-se comparar as medidas hebraicas homer, kor, se’ah com as medidas mesopotâmicas que têm os mesmos nomes e que são mais conhecidas. Segundo cálculos recentes, na época neobabilônica, o kor equivaleria assim a 240,20 litros e o se 'ah 8,04 litros. A unidade de base, o qa, equivalente do qab, teria 1,34 litros. No sistema assírio, o imeru = homer seria de 134 litros, o sutu = se’ah (?), 'epah (?), teria 13,4 litros. Infelizmente, a avaliação do qa é incerta e outros autores o avaliam em 0,81 litro. Um vaso com uma inscrição, recentemente encontrado em Persépolis, indicaria um qa de 0,92 litro ou pouco mais. O Egito possuiu uma medida 'pt = epah para os sólidos e uma medida hnw = hín para os líquidos, mas as avaliações são ainda muis incertas: segundo alguns autores, o valor do hnw oscila entre 2,5 litros e  quase 5 litros; a relação entre o ’pteo hnw é imprecisa, talvez 40 hnw% o que mesmo dando ao hnw o valor mais baixo, suporia para o epah uma capacida­de superior a tudo que se propôs até agora.

Poderíamos pensar a partir de dados aparentemente precisos da Bíblia: o mar de bronze do Templo de Salomão tinha um diâmetro de 10 côvados, uma profundidade de 5 côvados e continha 2000 bat, I Rs 7.23 e 26. Mas desconhe­cemos tanto o valor exato do côvado quanto a forma exata do recipiente, e o paralelo de II Cr 4.5 dá, com as mesmas medidas em côvados, uma capacidade de 3000 bat. E os elementos referentes às pias de bronze, I Rs 7.38, são ainda mais insuficientes.

Somente a arqueologia poderia proporcionar-nos informações mais sólidas. Em Tell ed-Duweir (Láquis), encontrou-se a parte superior de uma jarra na qual está gravado bt Imlk, bat real”; a mesma inscrição talvez possa ser restaurada sobre uma alça de Tell en-Nasbeh (Mispá), e um fragmento sobre o qual está escrita a palavra bt provém de Tell Beit-Mirsim (Debir?). Gravadas antes do cozimento, essas epígrafes querem evidentemente indicar uma capacidade oficialmente reconhecida. Infelizmente, o maior fragmento, o de Tell ed-Duweir, não permite calcular com segurança a capacidade dessas jarras. Outros vasos têm simplesmente a estampa Imlk. Somente um, também proceente de Tell ed-Duweir, pôde ser reconstruído inteiramente: sua capacidade é de 45,33 litros. Mas há, em Tell en-Nasbeh, uma jarra quase inteira com a estampa Imlk, cuja capacidade é avaliada em 40,7 litros somente. Se esta estam­pa certifica a conformidade das jarras a uma medida oficial e se, como se pensou inicialmente, as jarras com a inscrição bt ou bt Imlk tinham a mesma capacidade, teríamos então, mesmo que só aproximadamente, o valor do bat. Mas os fragmentos com a inscrição bt pertencem, certamente, a recipientes menores do que as jarras com estampa Imlk. Concluiu-se então que essas jar­ras tinham o dobro da capacidade, e representavam dois bat, sendo o valor do bat de 22 ou 23 litros. É difícil que essa cadeia de hipóteses conduza a alguma certeza.

As inscrições bt Imlk são do século VIII a.C, enquanto que as estampas Imlk são em parte um pouco posteriores. Um último testemunho provém da época romana. De uma gruta de Qumran tirou-se uma jarra intacta que tem inscrito com carvão: 2 se'ah 1 log. Sua capacidade é de cerca de 35 litros, o que daria por volta de 0,64 litro para o log e uns 15,30 litros para o se’ah. Chegariase assim aos 45 litros das jarras Imlk, que conteriam í bat = 3 s*’ah. Mas, infelizmente, em vez de tratar-se de uma indicação de capacidade, esta inscrição a carvão, e não gravada antes do cozimento, pode ser simplesmente a quantidade de mercadoria que a jarra continha, sem que necessariamente a enchesse. Tal incerteza nos impede que a usemos para estabelecer uma metrologia.

Além disso, esse dado só valeria para a época romana. Basta dizer que os quadros estabelecidos para essa época, como resultado da comparação com a metrologia greco-romana e utilizando os dados talmúdicos, nos dão valores que variam em 100% e que, abusivamente, são reportados à época israelita. Sendo elaborados semelhantes quadros, deve-se pelo menos respeitar as verossimilhanças: um homer, sendo originalmente uma “carga de asno”, pode ter valido 209 litros, a estimativa mais baixa que foi proposta, mas certamente não os 450 litros, aos quais conduziria uma outra avaliação.

4.     MEDIDAS DE PESO

Enquanto os víveres eram medidos pelo volume, os materiais preciosos e os metais eram pesados. As pequenas pesagens eram feitas em uma balança de braços com dois pratos. Os pesos, geralmente de pedra dura, eram denomina­dos ’eben9 que significa ao mesmo tempo “pedra” e “peso”. Eram guardados em uma bolsa, Dt 25.13; Mq 6.11; Pv 16.11.

“Pesar” se diz shaqal, e o sheqel, o siclo, era, conseqüentemente, a uni­dade de base do sistema ponderai. Esta unidade é comum nas antigas metrologias semíticas. O texto antigo de II Sm 14.26 fala de 200 siclos “conforme o padrão do rei”, e uma série de textos pós-exílicos, Êx 30.13,24; 38.24-26; Lv 5.15; 27.3,25; Nm 3.47,50; 7 passim; 18.16, mencionam o siclo do santuá­rio: em todos esses casos, trata-se do peso conforme o padrão oficial, ou então de uma unidade de mesmo nome, só que mais pesada. Alguns textos de Ugarit contam em siclos “pesados”, e a Mesopotâmia conhece uma série de pesos “reais”, o dobro dos pesos comuns. Em um relato da época patriarcal, antes da instituição do Estado, Gn 23.16, fala-se de siclos “correntes entre mercadores”. Contudo, acontecia de os comerciantes terem “pedras” grandes e pequenas, Dt 25.13, duas classes de pesos, Pv 20.23, conforme vendiam ou compravam.

Os múltiplos do siclo são a mina e o talento. A mina, maneh, só aparece raramente e, parece que só em época tardia: I Rs 10.17, talvez redacional, Ez 45.12; Ed 2.69; Ne 7.70,71; cf. Dn 5.25. A mina é freqüentemente mencio­nada nos textos mesopotâmicos, mas se pode notar que em Ugarit ela só se encontra em textos acádicos de procedência estrangeira ou em sua tradução em ugarítico; na prática, entretanto, utilizavam-se pesos de 50 siclos, o equi­valente de uma mina. O talento, kikkary é um peso de forma redonda, como indica seu nome. Trata-se de uma unidade grande, freqüentemente empregada nos livros históricos e raramente no Pentateuco, Êx 25.39; 37.24; 38.24-29.

São mencionadas muitas frações do siclo: meio-siclo, Êx 30.13, um ter­ço de siclo, Ne 10.33, um quarto de siclo, I Sm 9.8. Mas há também nomes especiais para as pequenas unidades de peso. O beqa1, “fração”, que só apare­ce em Gn 24.22 e em Êx 38.26, representa meio-siclo. O gerah, provavelmen­te “grão”, é a menor unidade de peso, Êx 30.13; Lv 27.25; Nm 3.47; 18.16; li/ 45.12. O payim, conhecido graças à arqueologia, pode ser identificado no lexto, por muito tempo ininteligível, de I Sm 13.21; ele representa dois terços de siclo, cf. Zc 13.8. Outro termo único na Bíblia, mas conhecido em acádico, é citado em Dt 5.25,28 (aramaico) junto com a mina e o siclo, operes> dual ou plural parsin, “parte”, metade de uma mina ou, mais provalmente, de um siclo.

Devemos recordar por fim a qesitah, unidade de peso, aliás desconheci­da, que serve a Jacó para pagar o campo de Siquém, Gn 33.19; cf. Js 24.32, e que Jó 42.11 retoma por um arcaísmo intencional.

As principais dessas unidades são encontradas também nos países vizi­nhos de Israel. Na Mesopotâmia, suas relações são regidas pelo sistema sexagesimal: o siclo contém 180 “grãos” e se divide também em múltiplas frações, desde 2/3 até 1/24 de siclo. A mina tem sessenta siclos e o talento 60 minas = 3.600 siclos. Em Ugarit, o talento tem somente 3.000 siclos; os textos que mencionam a mina não dão sua equivalência, mas das séries ponderais resulta que ela tinha só 50 siclos e que, por conseguinte, o talento equivalia a sessenta minas.

Com relação a Israel, os textos dão as seguintes equivalências: segundo Êx 38.25-26, o talento vale 3000 siclos e o beqa* é meio siclo. Segundo Lv 27.25; Nm 3.47; 18.16; Ez 45.12, o siclo contém 20 gerah, e os três primeiros textos detalham que se trata do siclo do santuário. A avaliação da minaé mais difícil: o hebraico de Ez 45.12 é traduzido: “a vossa mina será 20 siclos + 25 siclos + 15 siclos”, o que dá um total de 60 siclos, como a mina babilónica. A maneira de contar é estranha; talvez se explique pela existência de pesos de 15, 20 e 25 siclos, o último dos quais representaria meia-mina de 50 siclos, como em Ugarit. Ezequiel tentaria assim dar um valor diferente para a mina, como Ez 40.5 teria feito com o côvado, e Ez 45.11, talvez, com o ’epah e o bat. A avaliação do siclo em 20 gerah, Ez 45.12, reiterada pelos textos posteriores, formaria parte de um mesmo empenho reformador. O melhor é, pois, estabelecer dois qua­dros de equivalência. Um depende de Êx 38.25-26:
talento.........................    1
mina............................. 60                         1
siclo                                3000                   50                         1
beqa'............................. 6000                    100                      2 1

Esses valores parecem ser confirmados pelas multas de 100 siclos, Dt 22.19, de 50 siclos, Dt 22.29, e pela imposição de 50 siclos a cada notável no tempo de Menaém, II Rs 15.20. Recordemos que o nome da mina é muito raro e que poderíamos ter aqui seu equivalente em siclos. Esse sistema é antigo, vimos que era o de Ugarit.

A partir dos dados de Ezequiel, obtém-se um outro quadro:
talento........................... 1
mina............................. 60                       1
siclo............................... 3600                   60                  1
gerah                               72000                 1200     20       1
Esse valor da mina parece se encontrar em um texto antigo: segundo Êx 21.32, uma multa de 30 siclos é imposta em um caso em que o Código de Hamurabi impõe de meia-mina.

É muito difícil converter esses pesos para o nosso sistema moderno. Na série mais comum na Mesopotâmia, o siclo pesava 8,4 gramas, mas havia uma série derivada do talento “real”, na qual todas as unidades valiam o dobro. Em Ugarit, uma coleção de pesos supõe um siclo leve de 9,5 gramas, e os textos falam de um siclo “pesado”, talvez o dobro, que seria representado por um peso de 18,7 gramas.

Com relação a Israel, as escavações na Palestina puseram em evidência numerosos pesos, alguns dos quais têm uma marca numérica ou um nome de unidade de peso, ou ambos ao mesmo tempo. Esses pesos com inscrições, raramente encontrados em um contexto arqueológico preciso, podem, contu­do, geralmente, ser datados do fim da monarquia, segundo os critérios epigráficos. Mas existem notáveis divergências de peso entre exemplares pertencen­tes ao mesmo tipo e, pelo que parece, à mesma época e procedentes de um mesmo sítio, como, por exemplo, de Tell ed-Duweir, que proporcionou uma numerosa coleção. Somente as pequenas unidades são representadas por pesos inscritos e nenhuma tem o nome de siclo, que é substituído por um símbolo seguido de um sinal. Como se tratava da unidade mais comum, a palavra “siclo” é subentendida em numerosas contas da Bíblia.

A série mais longa dos pesos inscritos tem o símbolo  sinais numé­ricos 1, 2, 4 ou 8. São conhecidos pelo menos vinte e cinco exemplares, dos quuis uma dúzia são de oito unidades. Essa unidade é o siclo, e as pesagens dão-lhe um valor por volta de 11,5 gramas. Um pequeno peso de bronze encontrado em Gezer tem a marca Imlk com o algarismo 2; este seria um peso “real”. Ele pesa, atualmente, 22,28 gramas, o que daria um siclo de 11,14 gramas, mas o metal pode ter perdido um pouco de seu peso por oxidação.

Costuma-se atribuir a essa série meia dúzia de pesos com a marca pym: a palavra aparece em I Sm 13.21 e é interpretada como dois terços do siclo. A pesagem desses exemplares dá um siclo próximo a doze gramas.

Os pesos marcados bq‘ representam, evidentemente, meios siclos, segun­do Êx 38.26. Os seis exemplares conhecidos oscilam por volta.de 6 gramas e supõem um siclo de pelo menos 12 gramas.

Possuímos, além disso, uma dúzia de pesos inscritos ntsp. O nome pare­ce designar a “metade” de uma unidade, mas essa unidade não é o siclo israelita, pois as pesagens dão ao ntsp um valor médio de 10 gramas. Ele pertence, pois, a outro sistema, também representado por um pequeno peso marcado 1/4 de ntsp de 2,54 gramas, e talvez por certos pesos não inscritos que pesam em tomo de 5 e 20 gramas, ou seja, 1/2 ou 2 ntsp. A palavra não aparece como nome de peso no Antigo Testamento, mas é encontrada ao lado do siclo nos textos de Ugarit e é talvez representada por um peso de 9,5 gramas na série ponderai: o ntsp seria em Ugarit um siclo leve, “a metade” do siclo “pesado”. Os pesos ntsp encontrados na Palestina talvez tenham sido perdidos ali pelos mercadores “cananeus”.

A incerteza sobre o valor exato do siclo e o caráter teórico da classifica­ção de Ezequiel permitem propor apenas valores aproximados para a mina e o talento. A mina antiga teria tido entre 550 e 600 gramas, o talento, entre 34 e 36 quilos. No sistema de Ezequiel, a mina teria tido em torno de 700 gramas. Não devemos tentar fazer muito precisa uma “metrologia” que sempre foi flutuante.

5.     AMOEDA
O estudo dos pesos leva naturalmente ao da moeda. A primeira forma de comércio consiste na troca de mercadorias; os pagamentos eram feitos, no princípio, em gêneros mensuráveis e contáveis: tantas medidas de azeite ou de cevada, tantas cabeças de gado etc. Por razões de comodidade não tardou adotar-se como meio de controle o metal, trabalhado ou em lingotes, cuja qualidade e peso determinavam o valor de troca. Assim, o metal era utilizado, em grandes quantidades, para o pagamento dos tributos, II Rs 15.19; 18.14, etc., e em pequenas quantidades para as transações individuais com o estrangeiro, Gn 42.25,35; 43.12s; I Sm 13.21; I Rs 10.29, e sempre, pelo que parece, para a compra de terras, Gn 23.14s; II Sm 24.24; I Rs 16.24; 21.2; Jr 32.9. Mas Salomão também pagou Hirão em mercadorias, I Rs 5.25, e Mesa entregava a Israel um tributo de carneiros e de lã, II Rs 3.4. Podiam ser combinadas as duas formas de pagamento: Oséias comprou sua mulher por 15 siclos de prata, um homer de cevada e um letek da mesma, Os 3.2.

Os metais de troca eram o cobre, o ouro e, sobretudo, a prata. A palavra kesef, “prata”, veio a significar, ao mesmo tempo, o próprio metal e o modo de pagamento, como kaspu em acádico e argent” em francês. Muito cedo, no Mediterrâneo oriental, em Micenas, em Chipre, no Egito, na Mesopotâmia e na Síria, o metal de troca foi fundido em lingotes de diferentes formas ou em discos, barras, broches e anéis, que às vezes tinham um sinal que certificavam seu peso e quilate, mas ainda não se tratava de moeda. Os pagamentos eram feitos sempre por peso. A pesagem da prata ou do ouro é representada, com freqüência, nos monumentos egípcios e é descrita em um dos poemas de Ras Shamra. Este foi o único modo de pagamento entre os israelitas até o Exílio; a qesitah de Gn 33.19 não é uma “moeda da época patriarcal”, mas um peso ou uma medida, cujo valor é desconhecido. O verbo shaqal significa, ao mesmo tempo, “pesar” e “pagar” e o siclo veio a ser a unidade fundamental do siste­ma monetário judeu, depois de ter sido a do sistema ponderai israelita. Para pagar a gruta de Macpela, Abraão “pesa” 400 siclos para Efrom, Gn 23.16; Jeremias “pesa” 17 siclos para seu primo pelo campo de Anatote, Jr 32.9, etc. Os comerciantes são chamados “os que pesam prata” em Sf 1.11. O Estado procedia da mesma maneira. Para pagar os reparos que tinham que ser feitos no Templo, o rei Joás pôs à entrada do santuário um cofre, ancestral de nossos mealheiros de igreja, onde os fiéis depositavam a prata, na forma que estives­se. Quando se via que havia muita prata no cofre, subia o secretário real, fun­dia e contava a prata que havia no Templo de Iahvé, depois entregava a prata que fora pesada aos mestres de obras, que empregavam-na, II Rs 12.10-13. Pode-se comparar a isso o que Heródoto conta de Dario: “O ouro e a prata do tributo o rei conserva da seguinte maneira: os faz fundir e verter em jarros de terracota; uma vez que a vasilha está cheia, rompe a cerâmica e quando o rei tem necessidade de moeda, cunha a quantidade de metal que necessita a cada vez”, Hist 3.96.

Mas entre Joás e Dario aconteceu a invenção da moeda. Uma moeda é uma peça de metal cunhada com um selo que autentica seu nome e seu peso. Ela pode, pois, teoricamente ser aceita de imediato, sem pesagem nem verificaçao. A invenção aconteceu na Ásia Menor, no século VII a.C., e o uso foi propagado sobretudo no Oriente Próximo pelos persas. As primeiras moedas foram de electro, liga natural de ouro e prata que se recolhia nas areias dos rios, particularmente no Pactolo. Creso inventou um sistema bimetálico de estáteres de ouro e de prata. Essas “creseidas” foram substituídas sob Dario pelos “daricos” de ouro e os siclos de prata. O darico não teve rival como moeda de ouro, mas o siclo médico teve pouca difusão e não competiu com as moedas gregas de prata.

É, pois, normal que as primeiras menções da moeda apareçam só nos livros pós-exílicos da Bíblia: os daricos de ouro de Ed 8.27 e, por anacronis­mo, em I Cr 29.7 para a época de Davi. As contas de Ed 2.69 e Ne 7.69-71 são estabelecidas em dracmas de ouro. A dracma de prata era a moeda grega mais valorizada, sobretudo a dracma de Atenas, a “preferida” do século V a.C. Em compensação, raras vezes foram cunhadas dracmas de ouro, que tiveram pouca difusão. Parece, pois, seguro que as “dracmas” de Ed e Ne são daricos. A con­fusão pode remontar ao redator ou ser erro de algum copista. Não é possível dizer se os siclos de prata de Ne 5.15; 10.33 designam um peso ou uma moeda. Em todo caso, não são siclos médicos, que nunca foram de uso corrente na Palestina.

As mais antigas moedas encontradas na Palestina são moedas gregas da Macedônia: uma moeda de electro de cerca de 500 a.C. provém das últimas escavações de Balata (Siquém), e uma tetradracma de prata cunhada em Egea, por volta do ano 480, foi encontrada em uma tumba de Atlit. É mais que evidente que essas moedas longínquas não tinham curso na Palestina e cir­culavam apenas por seu valor de lingotes, avaliadas pelo peso.

Mas a Judéia, como as outras províncias do império persa, veio a cunhar sua própria moeda. A primeira moeda judaica seria uma pequena peça de pra­ta do século V a.C. procedente de Hebrom e semelhante às da série inexata da Arábia e da Filistéia, na mesma época. Ela tem a inscrição bq‘ em antigos caracteres hebraicos ou fenícios, e pesa 3,88 gramas, aproximando-se assim da dracma ática. Ela foi atribuída ao tempo em que Neemias foi governador da Judéia, o que é só urna hipótese, e nem sequer é seguro que a peça seja judai­ca: o tipo não é característico e o alfabeto “fenício” era então propagado fora da Judéia. Mais autênticas são duas peças de prata com a legenda yhd, ou seja, Yehúd, nome oficial da província persa de Judá no aramaico de Ed 5.1,8; 7.14; cf. Dn 2.25; 5.13; 6.14. Uma peça encontrada em Betsur tem também a legen­da Yrhüd e um nome próprio, “Ezequias”. Este tem sido identificado com o sacerdote Ezequias mencionado por Josefo, no reinado de Ptolomeu I; mas é pouco provável que os ptolomeus tenham autorizado a cunhagem local de moedas de prata. Essas três peças devem datar do quarto século antes da nossa era e são anteriores à conquista de Alexandre.

Depois de Alexandre a Palestina submeteu-se, como todo o Oriente, ao sistema monetário dos selêucidas e dos ptolomeus. Seguia-se o padrão fenício, a dracma de prata de 3,6 gramas e o tetradracma, ou siclo, de 14,4 gramas mais ou menos. Somente quando os títulos de Simão Macabeu como sacerdo­te e etnarca dos judeus foram reconhecidos por Antíoco VII Sidetes, foi-lhe dado o direito de cunhar moeda, I Mb 15.6. Tratava-se somente, como nas concessões análogas feitas pelos selêucidas, da moeda de bronze para uso local. Isso acontecia em 318 a.C. Mas Simão não fez uso de seu privilégio: este foi revogado pelo mesmo Antíoco, que logo se voltou contra Simão, IMb 15.27, e Simão morreu pouco depois, no ano 134. Em todo caso, nenhu­ma moeda de Simão chegou até nós: as peças de prata e de bronze que durante muito tempo foram-lhe atribuídas, datam, de fato, da primeira rebelião, em 66-70 de nossa era. A cunhagem de moeda judaica começou apenas com o sucessor de Simão, João Hircano, e só quando este se considerou independen­te, depois da conquista de Samaria, por volta do ano 110 a.C. Essa foi uma pobre cunhagem de bronze que continuou sob os hasmoneus, seus sucessores; como moedas de prata, tinham curso quase exclusivamente as de Tiro, valori­zadas por seu quilate. A história dessa cunhagem e das que lhe sucederam durante a dinastia de Herodes e sob os procuradores romanos, já não nos inte­ressa aqui. Os judeus começaram de novo a cunhar moedas de bronze e de prata durante duas insurreições contra os romanos, em 66-70 e em 132-135 de nossa era. Suas peças têm uma legenda em hebraico e são datadas dos anos da “libertação de Sião” ou da “libertação de Israel”. Mas a época do Antigo Tes­tamento já linha passado havia muito tempo.


VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.