20 de março de 2015

Roland de Vaux - Os exércitos de Israel

OS EXÉRCITOS DE ISRAEL


Nós somos informados sobre a organização militar dos egípcios, dos assírio-babilônicos e dos hititas pelas representações figuradas que nos deixaram de seus soldados e das batalhas que travaram, de seus acampamentos e de suas fortalezas e pelas inscrições que narram suas campanhas, reproduzem os tratados que puseram fim às guerras, mencionam os títulos, as atribuições e a carreira deste ou daquele oficial do exército. 

Temos menos informações sobre Israel: nenhuma imagem militar - se é que houve alguma - nos chegou e as escavações da palestina nos informam mais sobre as fortificações e o armamento dos cananeus que sobre o equipamento dos israelitas que os venceram. Nós temos, sem dúvida, textos, e os livros históricos da Bíblia estão cheios de relatos guerreiros. Mas esses rela­tos raramente são contemporâneos dos eventos que narram. Há tradições anti­gas nos livros de Josué e de juizes, contudo, a história militar da conquista e das batalhas que se seguiram não recebeu sua última forma literária senão muito pouco antes do Exílio. Há, nos livros de Samuel e de Reis, narrativas escritas imediatamente após os fatos, mas o caráter vivo e verídico não compensa—para nosso tema atual — sua carência de precisão técnica, e as informa­ções mais detalhadas sobre a organização militar da monarquia são dadas em Crônicas, livros escritos em um época em que não havia mais independência nem exércitos para defendê-la. A saída do Egito e a estada no deserto foram narradas muitos séculos mais tarde como os deslocamentos de um exército bem disciplinado. Todas estas informações são, contudo, úteis, com a condi­ção de que sejam confirmadas e datadas pela crítica literária e histórica: as instituições militares de um povo mudam mais rapidamente que outras formas sociais, segundo as formas de governo as necessidades da política, a qualidade dos adversários, o progresso do armamento. Entre a conquista sob Josué e o cerco de Jerusalém por Nabucodonosor, decorreu mais tempo que entre a Guerra dos Cem Anos e a Segunda Guerra Mundial: mesmo que a evolução tenha sido mais lenta na antigüidade, durante esses seis séculos e meio a organiza­ção do exército e a arte militar sofreram numerosas e profundas alterações. 


É preciso, pois, considerar as instituições militares de Israel em seu desenvolvimento histórico. Será preciso também levar em conta o caráter geral de nossas fontes: essas são textos religiosos, que habitualmente não se preocupam com a constituição do exército e com a técnica da guerra. Se eles se interes­sam por isso algumas vezes diretamente, sobretudo os textos antigos, é de uma maneira que nos confunde: a guerra foi, em Israel, uma instituição sagra­da com seus ritos próprios, e a noção de guerra santa se perpetuou, transformando-se e se idealizando, até o fim do Antigo Testamento. No curso dos capítulos que seguem, serão descritas primeiro as instituições militares sob seu aspecto profano e se reservará para o fim o estudo de seu caráter religioso. 

1. O POVO EM ARMAS 

Entre os nômades," o exército não se distingue do povo: todo homem válido pode tomar parte em uma razia e deve estar pronto para defender dos inimigos os bens e os direitos de sua tribo sob a liderança do sheikh ou de um chefe valoroso. Normalmente, cada tribo age por conta própria mas, às vezes, muitas tribos se unem para uma ação comum. Há costumes de guerra e regras de combate, mas não há uma organização militar estável. É provável que fosse o mesmo com Israel quando ele levava uma vida seminômade mas é difícil captar a situação real por trás dos relatos de Êxodo e de Números. A imagem de um povo em armas saindo do Egito, Êx 12.37; 14.19-20, marchando e acam­pando no deserto em formação ordenada, Nm 1.3, 20, 22...; 2.1-31; 10.11-28, é o reflexo idealizado de uma época posterior, onde o povo unificado era cha­mado às armas em caso de perigo nacional. A história da conquista no livro de Josué foi igualmente sistematizada em proveito de todo Israel, mas algumas seções deste livro e os paralelos de Jz 1 dão uma visão mais realista mostran­do as tribos ou grupos de tribos, Judá e Simeão, a casa de José, assegurando independentemente sua parte da Terra Santa, a que se devem acrescentar as notas antigas de Nm 32.1, 16, 39-42 sobre a instalação de Rúben, Gade e Manassés oriental. Nunca tratou-se de um exército organizado. Nós somos um pouco melhor informados sobre a época dos juizes. Cada tribo se implanta em seu território e o defende contra as reações dos cananeus desapossados, os ataques dos povos vizinhos ou as razias dos nômades. Mas as tribos, unidas pelo pacto selado em Siquém, Js 24, engajaram-se por vezes em empreendi­mentos militares comuns: Gideão convoca não só Manassés, sua própria tri­bo, mas Aser, Zebulom e Naftali, Jz 6.35, por fim Efraim, Jz 7.24, que reclama de não ter sido chamada desde o início, Jz 8.1. Segundo o relato em prosa de Jz 4.6 s., Baraque mobilizou Zebulom e Naftali contra os cananeus, mas o cântico de Débora, Jz 5.14 s., enumera além dos contingentes de Efraim, os de Benjamim, Maquir e Isacar e reprova Rúben, Gileade, Dã e Aser por ficarem neutros. Para vingar o crime de Gibeá, toda a federação israelita pega em armas, Jz 20, exceto o povo de Jabes em Gileade, Jz 21.8 s. 

Da mesma forma, Saul convoca “todo o Israel” contra os amonitas, 1Sm 11.1-11, e a vitória conseguida lhe assegura a realeza. A unidade política é enfim realizada e o povo tem um “rei que sai a sua frente e combate suas batalhas”, I Sm 8.20. Saul chama todo o povo à guerra santa contra os amalequitas, I Sm 15.4, e reúne “todo o Israel” contra os filisteus, I Sm 17.2,11; é assim que os três irmãos de Davi partem para a guerra, I Sm 17.13, só dei­xando em Belém seu velho pai e Davi, muito jovem para pegar em armas. Conforme I Sm 23.8, o rei teria até chamado “todo o povo” para a perseguição a Davi, refugiado em Queila. Para a batalha de Gilboa, onde ele devia ser derrotada e morto pelos filisteus, Saul tinha reunido “ todo o Israel”, I Sm 28.4. Em relação à época dos juizes, as coisas tinham mudado, mas a evolução aconteceu sem rupturas. Os “juizes” eram “salvadores” designados por Deus para libertar seu povo, Saul também é um chefe carismático, animado pelo espírito de Iahvé, I Sm 10.10 e sobretudo 11.6, e sua vitória sobre os amonitas é comparável aos sucessos militares que consagram os grandes juizes. 

Para chamar o povo às armas o chefe, juiz ou rei, fazia soar a trombeta, Jz 3.27 ( Eúde); 6.34 (Gideão); I Sm 13.3 ( Saul), ou mandavam mensageiros para as tribos, Jz 6.35; 7.24. A mensagem era acompanhada às vezes por uma ação simbólica: Saul despedaça uma junta de bois e envia as partes a todo o território de Israel com esta ameaça: “Qualquer que não marchar atrás de Saul, assim será feito de seus bois”, I Sm 11.7. Para convocar todo o Israel contra o povo de Gibeá que abusou de sua concubina até que ela morresse, o levi­ta corta o corpo dela em doze partes que ele envia às tribos, Jz 19.29-30. Na época dos juizes, a resposta a esses apelos depende da decisão de cada grupo. O cântico de Débora insiste por duas vezes nesta liberdade de engaja­mento, Jz 5.2 e 9, ele tem só reprovações ou lamentações para as tribos que ficam de fora, Jz 5.15-17, ele amaldiçoa só Meroz, Jz 5.23, uma cidade de Naftali que não seguiu sua tribo, a primeira engajada no caso. Pode-se ameaçar aqueles que não cumprem o seu dever, Jz 21.5; I Sm 11.7, mas não sabemos quais sanções eram efetivamente aplicadas. Segundo a tradição de Jz 21.6-12, a expedição contra os jabesitas não é um castigo por sua abstenção mas um meio de procurar mulheres para o resto dos benjamitas sem romper o juramento que ligava os combatentes. 


Apesar dessa convocação em massa, os efetivos eram pouco considerá­veis. Números exagerados foram introduzidos nos relatos antigos: 400.000 homens teriam marchado contra Benjamim, Jz 20.17; 300.000 israelitas e 30.000 de Judá teriam respondido ao chamado de Saul, I Sm 11.8; 200.000 soldados de infantaria teriam seguido contra os amalequitas, I Sm 15.4, etc. Mas outros textos são mais sóbrios: os contingentes de Zebulom e de Naftali totalizam só 10.000 homens, Jz 4.10, e 40.000 homens parece ser o máximo que se pode esperar da confederação das tribos, Jz 5.8; este é também o efeti­vo de todo o exército de Israel diante de Jericó, Js 4.13. Mas também estes números são simbólicos. 

Os homens se reúnem para a campanha halutsim, literalmente, “despoja­do, desgarrado”, isto é, de roupas curtas. Eles fornecem seu armamento, e este é simples. As armas comuns são a espada e a funda; os benjamitas tinham fundeiros de elite, Jz 20.16. No tempo de Débora, não havia “ nem escudo nem lança para os quarenta milhares de Israel”, Jz 5.8. No princípio do reinado de Saul, os filisteus tinham desarmado Israel e, na batalha de Mikmas, só Saul e Jônatas tinham espada e lança, I Sm 13.19-22. A lança de Saul toma-se o símbolo de sua dignidade real, I Sm 22.6; 26.7,16,22; II Sm 1.6; cf. I Sm 8.11; 19.9; seu escudo só é mencionado na elegia de Davi, II Sm 1.21. Jônatas, em compensação, é associado com o arco, I Sm 18.4; 20.20 s.; II Sm 1.22. O capacete de bronze e a couraça com os quais Saul quer equipar Davi produzem um belo efeito literário mas são provavelmente anacrônicos, I Sm 17.38 s. 

A organização desse exército é a mesma que a do povo. A unidade é o clã, a mishpahah,m que fornece teoricamente (na realidade o número era bem menor) um contingente de 1.000 homens, comp. I Sm 10.19 (’elef) e 21 (mishpaliah) e o emprego de “milhar” para “clã” em Jz 6.15; I Sm 23.23. O povo em ermas são os “milhares de Israel”, Nm 31.5; Js 22.21, 30; Jz 5.8. Esses grupos são comandados por um “ chefe de mil”, sar ’elef\ I Sm 17.18; 18.13. Eles podiam ser divididos em pequenas unidades de cem homens, I Sm 22.7; cf. Jz 7.16, e de 50 homens, I Sm 8.12. Explica-se às vezes por uma repartição do exército em cinqüentenas o termo hamushim que, fora Êx 13.18 e Nm 32.17 (corrigido segundo as versões), só se acha em Js 1.14; 4.12 2 Jz 7.11. É mais provável que a palavra designe os guerreiros formados em “cinco” corpos nas marchas e nos acampamentos. Da mesma forma, o árabe hcimis, “cinco”, significa, segundo os lexicógrafos, o exército composto de uma vanguarda, de um corpo principal, de dois flancos e de uma retaguarda. Devemos lembrar a disposição do campamento no deserto segundo Nm 2.2-31: quatro divisões, degalim, cercando a Tenda guardada pelos levitas, o que dá cinco unidades, e lembra os hamushim do acampamento midianita, Jz 7.11; e a ordem de marcha de Nm 10.11 -28: as divisões de Judá e de Rúben, depois a Tenda e os levitas, por fim, as divisões de Efraim e de Dã. Compare também os hamushim de Ex 13.18; Jz 1.14; 4,12. 

Compreende-se que essas tropas mal armadas e pouco treinadas tenham se aterrorizado diante das cidades fortificadas de Canaã, Nm 13.28; Dt 1.28, dos carros revestidos de ferro, Js 17.16-18; Jz 1.19; 4.13; I Sm 13.5; II Sm 1.6 c dos campeões filisteus pesadamente equipados, I Sm 17.4-7. Mas, no pri­meiro estágio da conquista os israelitas se aproveitaram da dispersão das for­ças cananéias e do vazio deixado pela retirada do Egito. Eles se infiltraram na medida em que conquistaram e pararam no limite das planícies defendidas pelas cidades fortificadas e os carros, Js 17.12, 16; Jz 1.19, 27-35. Quando a conquista de uma cidade é narrada com algum detalhe vê-se que ela foi prepa­rada por espionagem e obtida por traição ou por estratagemas: Jericó, Js 6, Ai, aliás já em ruínas, Js 8, Betel, Jz 1.23-25, os enclaves cananeus que subsisti­ram só foram absorvidos pouco a pouco. 

As batalhas campais eram fatais para os israelitas, I Sm 4.1-11; 31.1-7. Corrigia-se a insuficiência de armamento e a falta de formação militar atacan­do com um pequena tropa de homens corajosos, conforme já aparece nos relatos do deserto Ex 17.9; Nm 31.3-4. Os danitas que vão conquistar um territó­rio são só 600, Jz 18.11; Saul escolhe para sí, em todo Israel, 3.000 homens para lutar contra os filisteus, I Sm 13.2; e é com 600 homens que ele consegue sua primeira vitória, I Sm 13.15; 14.2. Essas tropas reduzidas mas bem firmes nas mãos de seus chefes venciam inimigos mais numerosos ou melhor equipa­dos por ataques fulminantes, estratégias de guerra, emboscadas. Jônatas e seu escudeiro atacam sozinhos o posto filisteu de Mikmas e o colocam em pânico, os 600 homens de Saul caem sobre o inimigo cujos auxiliares “hebreus” tinham desertado, os israelitas da montanha de Efraim se juntam na persegui­ção e a derrota do filisteus se transforma em fuga, I Sm 14.1-23. Mais típico ainda é a ação de Gideão com os midianitas, Jz 6.33-7.22: dos 32.000 homens que tinham respondido ao chamado ele manda para casa aqueles que estavam com medo e só fica com 10.000; destes, ele escolhe 300, os quais divide em três colunas. Ele se informa sobre o moral do inimigo, que é baixo, e prepara cuidadosamente uma operação noturna. As tochas ocultas pelos cântaros até o sinal de ataque, os toques de trombeta, o grito de guerra devem causar confusão no acampamento inimigo e dar a impressão de um exército numeroso. A estra­tégia teve sucesso: os midianitas perdem a cabeça e fogem. Vem em seguida a exploração da vitória: outros contigentes israelitas tomam parte na perseguição, como em I Sm 14.22, os de Efraim interceptam os fugitivos, Jz 7.23-25, o pequeno grupo de Gideão persegue os sobreviventes até a fronteira do deserto, Jz 8.4-12. Mesmo que este relato combine episódios distintos, ele dá uma justa idéia do que foram as guerras da época dos Juizes. 

Acontece, por fim, que os adversários concordem em decidir a batalha em combate singular. O costume é atestado já entre os seminômades cananeus pela história de Sinuhe, um conto egípcio do séc. XVIII antes de nossa era. 

O desafio dos filisteus aos israelitas, I Sm 17.8-10, é explicitamente a propo­sição de um combate singular que decidirá a sorte dos dois povos. As proezas dos valentes de Davi, II Sm 21.15-21, podem ser explicadas da mesma maneira. Os campeões dessas lutas a dois que acontecem entre as tropas alinhadas parecem ter sido chamados *ish habbenaym “o homem entre dois” ou “homem da luta entre dois”, I Sm 17.4,23. O termo não é mais atestado em seguida senão na Regra da Guerra, achado em Qumran, e o sentido se alterou: é a infantaria leve. 

Na guerra entre os partidários de Saul e os de Davi, Ábner propõe a Joabe que se faça uma luta entre doze homens de elite escolhidos em cada parte, mas nenhuma decisão é obtida porque todos os lutadores caem ao mesmo tempo e, por isso, começa um combate geral, II Sm 14s. Esses costumes existiam nas tribos árabes e foram conservados até a época moderna: no momento mais duro da conquista da Algéria, o Emir Abd-el-Kader propõe ao duque de Aumale, enviado aos exércitos por seu pai o rei Luiz-Filipe, acabar a guerra seja por um combate singular de dois chefes diante das tropas, seja fazendo lutar um número igual de soldados que cada um designaria em seu acampamento. 

Esse estudo das instituições militares anteriores a Davi não leva em con­ta seu aspecto religioso, que será examinado mais adiante. Mas não se deve esquecer, mesmo aqui, que os guerreiros de Israel eram sustentados pela fé que Iahvé combatia com eles e que ele podia lhes dar a vitória, quer fossem numerosos ou não, I Sm 14.6; 17.47. 

2. O EXÉRCITO PROFISSIONAL 

Os adversários dos israelitas, os cananeus e os filisteus, tinham tropas permanentes de infantaria e de carros compostas de soldados profissionais, nativos ou estrangeiros. Uma tal organização militar é incompatível com o espírito e as tradições das doze tribos. Sem dúvida, Abimeleque recrutou mer­cenários, Jz 9.4, mas ele só era meio israelita e ambicionava a realeza conforme o modelo cananeu. Jefté também reuniu um grupo de homens armados, mas isto foi fora do território de Israel, Jz 11.3. Contudo, as derrotas sofridas nu luta contra os filisteus demonstraram aos israelitas que o povo convocado em massa não podia se opor eficazmente a um exército profissional, menos nume­roso mas bem treinado e sempre pronto para entrar em ação. A criação de um tal exército foi obra dos primeiros reis de Israel. 

I Os mercenários - Saul começou a recrutar mercenários: quando ele via um homem destemido e valente ele o alistava, I Sm 14.52. Ele prefere sem dúvida homens de sua tribo, Benjamim, cf. I Sm 22.7, mas também das outras tribos de Israel, assim como o judeu Davi, I Sm 16.18 s.; 18.2, e mesmo estran­geiros, como o edomita Doeg, I Sm 21.8; 22.18. Eles nunca foram numeroso, pois deviam ser pagos, cf. Jz 9.4, e o reino de Saul era pobre. Após ter rompi­do com Saul, Davi recrutou mercenários por sua conta: ele teve 400 homens, 1Sm 22.2, depois 600,1 Sm 25.13, com os quais passou para o lado dos filisteus, 1Sm 27.2 esses partidários continuaram com ele quando ele se tomou rei de Judá e de Israel e seu número aumentou ao mesmo tempo que as vitórias de Davi ampliaram sua área de recrutamento e forneceram recursos necessários para a manutenção dos mercenários. Sua origem era variada: entre os trinta heróis de Davi, II Sm 23.24-39, dos quais falaremos, há sobretudo gente de Judá e das regiões vizinhas, mas também um efraimita, um manassita, um gadita e muitos estrangeiros, um arameu de Zobá, um amonita, e o hitita Urias, marido de Bate-Seba, cf. II Sm 11.3s. Após ter vencido os filisteus, Davi recrutou entre eles ou entre seus vassalos um corpo de kereti e de peleti, II Sm 8.18; 15.18; 20.7, 23; I Rs 1.38, 44. Ele teve também um contingente de 600 homens de Gat na Filistéia, II Sm 15.18s, 

Agindo assim, Davi copiava uma instituição dos principados cananeus e filisteus. Recentemente, sugeriu-se que o termo especial que designava esses mercenários é conservado nas expressões yelide ha ‘anaq, Nm 13.22,28; Js 15.14, e yelide harapah, II Sm 21.16,18. A palavra yalid não significaria “descenden­te”, mas “dependente, servo” e se aplicaria a guerreiros profissionais alienan­do-se de sua liberdade para entrar em um exército, aqui o exército de Anaq ou de Rafa, o sentido dessas palavras ou nomes ainda deve ser determinado. Os outros empregos da palavra yalid, na expressão yelide bayt, convergiriam para este sentido: trata-se de escravos que têm, na família, uma posição parti­cular, e Gn 14.14 os mostra empregados para fins militares. Esta hipótese é interessante, mesmo que, por falta de textos mais numerosos e mais claros, continue incerta. 

Em todo caso, os mercenários israelitas não tinham estatuto de homens livres. Eles eram pessoalmente ligados ao rei. Eles eram os “homens” de Saul, 1Sm 23.25-26, ou de Davi, I Sm 23 passim; 24.3 s.; 27.3, 8..., os servos, 'abadim de Saul, I Sm 18.5,30;22.17, ou de Davi, I Sm 25.40; II Sm 2.17; 3.22; 11.9, 11, 13; 18.7,9; 20.6; I Rs 1.33. O rei pagava pelos seus serviços com isenções de taxas ou de corvéias, I Sm 17.25, com doações de terras ou de direitos sobre os dízimos, I Sm 8.14-15. Quando da morte do rei, eles passa­vam a seu herdeiro: os “servos” de Saul tomam-se os de Ishbaal, II Sm 2.12; 4.2 Eles ficavam estacionados junto ao rei, em Jerusalém sob Davi, II Sm 11.9, 13; 15.14; 20.7; I Rs 1.33. 

Eles constituíam a guarda real. Sua organização é difícil de precisar e parece ter sido flutuante. Além do termo geral *abadim, e das indicações de origem étnica, os soldados que a compõem recebem diferentes nomes cuja relação é incerta. A guarda pessoal de Saul, depois a de Davi, é chamada coletivamente mishma ‘at, “os que obedecem, que respondem ao chamado”, 1Sm 22.14; II Sm 23.23. Sob Saul, Davi é o chefe dela, sob Davi, Benaias é o comandante, mas ele é também, ou depois, o chefe dos Kereti e dos Peleti, 1Sm 8.18;20.23; cf. I Rs 1.38,44. Estes últimos parecem constituir então toda a guarda: eles são postos em paralelo com o exército popular, II Sm 8.16; 20.23 como o são os ‘abadim em II Sm 11.11. Em compensação, em II Sm 20.7, ao lado dos Kereti e dos Peleti são mencionados “valentes”, gibborim. Mas os gibborim parecem ser o equivalente dos Kereti e dos Peleti em II Sm 16.6 comparado com II Sm 15.18 e em I Rs 1.8, 10, comparado a I Rs 1.38,44, e os gibborim figuram sozinhos ao lado do exército do povo em II Sm 10.7. 

Entre esses “valentes”, dois grupos se distinguem por seu valor: os Três, cujo chefe é Ishbaal, II Sm 23.8-12, e os Trinta, comandados por Abzai, II Sm 23.18 e 24-39. Sua origem em grande parte do sul de Judá toma provável que eles tenham sido os mais valorosos companheiros de Davi no início e que toma­ram-se companhia de elite desde o período de Ziclague. Tem sido lembrado a esse respeito um texto egípcio que fala de um “grupo de trinta” logo depois de Ramsés II. 

Esses soldados, ou uma parte deles, são às vezes chamados de ne‘arim, literalmente “jovens”, no sentido militar, “cadetes”. Eles acompanham Davi em sua fuga, I Sm 21.3, 5; 25.5 s. e não se vê o que os distingue dos “homens” de Davi, I Sm 25.13, 20. Saul também tinha os seus I Sm 26.22. Os “cadetes” de Davi e de Ishbaal, filho de Saul, se enfrentam em Gibeá, II Sm 2.14, e eles são chamados os (abadim de Davi e de Ishbaal na mesma passagem, II Sm 2.12-13, os “cadetes” de II Sm 16.2 parecem ser o mesmo que os soldado» da guarda que acompanham Davi em sua fuga, os mercenários de 15.18, os gibhorlm do 16.6; cf. também II Sm 4.12. Encontramos mais tarde os “cadetes” dos chefes de distrito, distinguidos do exército nacional, I Rs 20.14-19. Mesmo que, cm certos casos, eles façam o papel de escudeiros, I Sm 20.21 s., 35 s.; II Sm 18.15, não parece que sejam jovens recrutados, por oposição aos veteranos: quando termo tem uma acepção propriamente militar, ele designa simplesmente sol­dados profissionais; cf. também Ne 4.10. A palavra em sentido militar já era empregada em cananeu e passou para o egípcio onde na'anma designa um batalhão do exército, talvez recrutado em Canaã. 

Por fim, há junto a Saul os ratsim, os “corredores”, I Sm 22.17, cujo chefe é provavelmente o edomita Doeg, 21.8 (corrigido). Eles são chamados ‘abadim e são neste texto os executores das vinganças do rei, como o são os ne‘arim em II Sm 4.12. Eles formam uma guarda pessoal, um pelotão de escolta, como os cinqüenta corredores que precediam Absalão e Adonias quando simularam um séquito real, II Sm 15.1; I Rs 1.5. Eles figuram, tal­vez pela mesma razão, ao lado dos escudeiros, shalishim, na história de Jeú, II Rs 10.25. Eles asseguram com os mercenários cários a guarda do palácio de Jerusalém, onde há uma sala dos corredores e uma porta dos corredores, 1Rs 14.27-28; II Rs 11.4, 6, II, 19. Eles são, portanto, numerosos o bastante para serem divididos em centúrias. 

Saul utilizou seus guardas contra os filisteus, I Sm 18.27, 30; cf. 23.27, e na perseguição a Davi, I Sm 23.25 s., mas a eficácia do exército profissional não se manifesta verdadeiramente senão sob Davi. É com seus mercenários que ele conquista Jerusalém, II Sm 5.6, e derrota os filisteus, II Sm 5.21; 21.15. São lembradas as ações bem sucedidas de seus valentes, II Sm 21.15-22; 23.8-23. Essas tropas profissionais têm um comando especial e são distintas dos con­tingentes que Israel e Judá fornecem em circunstâncias graves. Na lista dos funcionários de Davi, há dois militares: Joabe comanda o exército, Benaias comanda os keretitas e os peletitas a saber, a guarda, II Sm 8.16, 18; 20.23. 

O relato detalhado da guerra amonita esclarece a relação das duas forças: a guarda e todo Israel estão engajados, II Sm 11.1, mas, diante de Rabbá dos amonitas, Israel e Judá acampam sob tendas enquanto que a guarda fica ao ar livre, 11.11; os ataques são lançados pela guarda, 11.14-17; 12.26, os contin­gentes de Israel e de Judá ficam na reserva e fazem o ataque final, 12.29. Encontramos a mesma tática nas guerras aramaicas sob Acabe: os “cadetes” dos chefes de distritos, soldados profissionais, são enviados primeiro e iniciam o ataque, Israel, a saber, o exercito nacional, sai atrás deles e persegue o inimi­go, I Rs 20.15-20. 

Este último texto nos lembra que o exército profissional continuou a existir muito tempo após o reino de Davi. Temos já assinalado os “corredores” de Roboão, I Rs 14.27-28, os de Jeú, II Rs 10.25, os “corredores” e os cários sob Atalia, II Rs 11.4. As fortalezas estabelecidas por Roboão eram certamen­te ocupadas por soldados profissionais, II Cr 11.11-12. Conforme II Cr 25.6 s., Amazias, rei de Judá, recrutou mercenários em Israel e os Anais de Senaqueribe destacam os auxiliares de Ezequias que desertaram durante o cerco de 701 a.C. É a última menção segura que se tem destas tropas mercenárias. 

b) Os carros de guerra - Os israelitas ao se estabelecerem na Terra Pro­metida dão de cara com os carros de guerra dos cananeus e dos filisteus, Js 17.16-18; Jz 1.19; 4.13; I Sm 13.5; II Sm 1.6. De fato, desde a metade do segundo milênio antes de nossa era, o uso de carros tornou-se um elemento essencial, às vezes o elemento principal, dos exércitos do Oriente Próximo. As instruções para a criação de cavalos e para a construção de carros de duas rodas, leves e resistentes, foram introduzidas a partir do norte por elementos indo-europeus que contribuíram para a formação do Estado de Milami, na Mesopotâmia do norte. De lá, essa nova arma se difunde rapidamente entre os hititas, na mesopotâmia, no Egito e na Síria-Palestina. Cada pequeno Estado cananeu tinha seus canos e seus condutores, que tinham um nome indo-europeu: os mariannu. Os principados dos filisteus e dos outros “povos do mar”, que se fixaram na costa palestina, e os novos Estados arameus, fundados na Síria, tiveram também suas tropas transportadas. 

Os israelitas, provavelmente por causa de sua pobreza - um exército de carros custava caro para constituir e manter - só com algum atraso seguiram esta importante evolução dos métodos de combate. Após sua vitória sobre os arameus de Zobá, Davi mandou cortar os tornozelos dos cavalos que ele tinha capturado, cf. Js 11.6-9; II Sm 10.18, contudo, guardou deles uma centena, II Sm 8.4. Se agiu da mesma forma com as cidades cananéias anexadas por ele a Israel, ele pode ter constituído assim uma pequena força de carros, mas ela era insignificante comparada às tropas de infantaria, e nunca aparece nos rela­tos de suas campanhas. Assinala-se somente que Absalão e Adonias, quando brigavam pela realeza, saíam em carros, precedidos por corredores, II Sm 15.1; 1Rs 1.5. 

A grande inovação militar de Salomão foi o estabelecimento de um forte batalhão de carros. Ele eclipsou os mercenários a pé, que não são mencionados no seu reinado. Estes não desapareceram mas foram relegados a uma posição secundária: a situação no reinado de Davi foi assim invertida. Não tendo feito, ele mesmo, conquistas, Salomão precisou constituir suas tropas transportadas com dinheiro. Segundo o texto difícil de I Rs 10.28-29, ele teria comprado os carros no Egito (onde eram fabricados excelentes carros) e os cavalos na Cilicia (cujos haras eram famosos). Ele teve assim 1.400 carros e 12.000 cavalos, cf. I Rs 10.26. O número de carros é verossímil: na batalha de Karkar, em 853 a.C., Acabe alinhará 2.000 carros e o rei de Damasco terá 1.200. Mas o núme­ro de cavalos parece exagerado: segundo os documentos pictóricos e os textos extrabíblicos, cada carro só exigia três cavalos, dois atrelados e um de reser­va. Os doze mil cavalos vêm talvez de uma tradição que calculava em 4.000 o efetivo dos carros de Salomão, II Cr 9.25; cf. a glosa de I Rs 5.6. 

Essas tropas ficavam alojadas em Jerusalém, onde havia uma Porta dos Cavalos, II Rs 11.16, e nas “cidades dos carros", I Rs 10.26. Essas “cidades dos carros e dos cavalos” ou “ cidades de guarnição” são enumeradas em 1Rs 9.15-19: Hasor, Megido, Gezer, Bet-Horom-Baixa, Baalat, Tamar. Esses lugares, fortificados pelo trabalho da corvéia, I Rs 9.15, defendiam as grandes vias de acesso para o centro do reino e eram situadas perto das planícies, onde os carros podiam manobrar. As quatro primeiras dessas cidades, pelo menos, eram antigas cidades reais cananéias, que tinham tido seu exército de carros: Salomão continuou uma tradição. A manutenção dessa cavalaria era garantida pelas contribuições de cevada e de palha que os prefeitos de Salomão faziam, 1R 5.8. As escavações de Megido revelaram o aspecto que tinham essas cida­des de carros: uma parte da cidade era ocupada por grandes estrebarias com mangedouras individuais, dando para pátios onde se achava o bebedouro e que serviam para o treino dos cavalos. As estrebarias descobertas em Megido podiam conter 450 cavalos. 

Os carros egípcios eram ocupados por dois homens: o cocheiro e o combatente; os hititas tinham um cocheiro, um combatente e um escudeiro; o número foi reduzido a dois nos estados neo-hititas. Na Assíria, na época da monarquia israelita, a equipe compunha-se de três homens, o efetivo foi ele­vado para quatro entre Teglate-Falasar III e Assurbanipal, mas depois voltou para três. Esse “terceiro” era chamado em acádico shalshu(rakbu) ou tashlishu. Os carros israelitas também tinham três ocupantes: o cocheiro, chamado sim­plesmente rakkab ou “carreiro” em I Rs 22.34, o combatente e o “terceiro”, shalish, I Rs 9.22; II Rs 10.25. O escudeiro do rei tinha uma dignidade espe­cial e era como um ordenança. 

Na divisão do reino após a morte de Salomão, as principais guarnições de carros, Hazor, Megido, Gezer e provavelmente Bet-Horom-Baixa, foram para Israel. Judá conservou só algumas tropas transportadas e não se sabe se Roboão estacionou-as nos novos lugares que fortificou. Contudo, os cavalos de Judá são associados aos de Israel na guerra contra Moabe, II Rs 3.7 e os carros de Jeorão são derrotados pelos edomitas, II Rs 8.21. O exército de carros de Judá parece ter se desenvolvido no séc. VIII Isaías diz então: “Seu país está cheio de cavalos e de carros sem número”. Is 2.7, e ele amaldiçoa aqueles que colocam sua esperança nos cavalos e em um grande número de carros, Is 31.1; cf. 30.16; Mql.13; 5.9. Esse equipamento de guerra vinha do Egito, com quem se tinha procurado aliança, Is 31.1-3, e Isaías parece condenar como uma novidade esse recurso aos armamentos. O país não tira daí nenhuma vanta­gem, e Senaqueribe, em 701, conquista todas as cidades de Judá, salvo Jerusa­lém, sem que haja uma batalha em que os carros tenham intervindo. Não parece que as tropas transportadas tenham jamais sido restabelecidas. Só se pode invo­car nesse sentido o texto de II Cr 35.24, mais desenvolvido e sem dúvida mais exato que o paralelo de II Rs 23.30: Josias, ferido em Megido, foi tirado de seu carro e levado para Jerusalém em seu “segundo carro”. Isso significa que o rei dispunha de dois carros mas não prova que tinha um exército de carros. 

No reino de Israel, onde está a maior parte dos carros de Salomão e onde se perpetuam tradições cananéias, as tropas transportadas têm mais importân­cia. Sob Ela, foram divididas em dois grupos, um sendo comandado por Zinri, 1Rs 16.9. Segundo os Anais de Salmanazar III, 2000 carros israelitas toma­ram parte na batalha de Qarqar, mas derrotas sofridas durante as guerras aramaicas enfraqueceram consideravelmente essa arma. Havia carros em Samaria, II Rs 7.13; 10.2, mas não muitos, cf. II Rs 7.6, e, no momento mais sombrio dessas lutas, Jeoacaz só tem dez carros, II Rs 13.7. Essas perdas nun­ca foram compensadas: Sargão, da Assíria, que se vangloria de ter se apodera­do de 300 carros em Hamá, só ganha 50 carros em sua conquista de Samaria. 

Na virada do primeiro milênio antes de nossa era, a cavalaria montada, que já era empregada havia muito tempo por alguns povos do norte e que será a arma principal dos citas, entra timidamente nos exércitos do Oriente Próxi­mo. Guerreiros a cavalo são representados em baixos-relevos de Tell-Halaf, no princípio do séc. IX a.C., e elementos de cavalaria foram introduzidos no exército assírio por volta da mesma época, mas as tropas de carros mantive­ram a preponderância. Fora os exploradores montados, o exército egípcio nunca teve cavalaria. Os israelitas também não: o enviado de Senaqueribe propõe ironicamente a Ezequias de lhe dar 2000 cavalos se ele achar cavaleiros para montar, II Rs 18.23. Nos relatos da época monárquica, o termo parashim, traduzido freqüentemente por “cavaleiros” ou “cavalaria”, designa as parale-los de cavalos ou os equipamentos dos carros. Mas acontece de se montar um cavalo para fugir mais apressadamente, I Rs 20.20; Is 30.16; Am 2A5, Além disso, cavaleiros podiam ser usados como exploradores ou como mensageiros, como no Egito, II Rs 9.17s; cf. Zc 1.8-11. A descrição do cavalo de guerra em Jó 39.19-25 se inspira no estrangeiro, e são também cavaleiros estrangei­ros que são mencionados em Ez 23.6,12 (assírios); 38.4 (o exército de Gogue); Ed 8.22 e Ne 2.9 (persas). Aliás, todos esses textos são posteriores à monar­quia. Muito mais tarde ainda, nas primeiras guerras macabéias, os judeus só oporão a infantaria à potente cavalaria dos gregos e a seus elefantes montados, 1Mb 1.17; 6.30s; 8.6; II Mb 11.4; 13.2,15. Os relatos da derrota de Betzacharia, 1Mb 6.29-47, e da vitória de Jonatam sobre Apolônio, I Mb 10.73-83, são particularmente significativos. Um grupo de cavaleiros judeus só aparece sob Simão em 136/135 a.C., e era pouco numeroso, I Mb 16.4,7. O exército de Herodes contava 6000 cavaleiros ao lado de 30 000 infantes. 


3. O EXÉRCITO DE RECRUTAMENTO 

Vimos que após os eventos de 701 a.C. as tropas mercenárias e as tropas transportadas do reino de Judá provavelmente não foram reconstituídas: elas custavam muito caro. A libertação e depois a defesa do território foram asseguradas por um exército de recrutamento. É somente ele que aparece nos relatos da tomada de Jerusalém por Nabucodonosor. Não se trata aí nem de mercenários nem de carros mas de “homens de guerra”, 'anshe (ham)milhamah, 1Rs 25.4,19; Jr 38.4, ou (ose milhamah, II Rs 24.16. Fala-se de oficiais e de seus homens, II Rs 25.23s; Jr 40.7s, e também nos óstracos de Láquis, mas esses soldados, esses homens de guerra são judeus que foram chamados às armas e que devem, acabada a guerra, retomar às suas casas e a seus campos, Jr 40.10. 

Conforme II Rs 25.19, Nabucodonosor fez prisioneiro um alto funcioná­rio, um saris “encarregado dos homens de guerra”, que era talvez o coman­dante em chefe, talvez um administrador civil do exército, um ministro da defesa nacional, sendo o comando supremo exercido pelo rei em pessoa. Entre os cativos se achava também um escriba, sofery “encarregado de alistar o povo do país”. É preciso comparar com isso II Cr 26.11, onde o exército de Ozias é recenseado pelo secretário Jeiel e por um shoter ou comissário, chamado Maaséias. Segundo Dt 20.5-9, havia muitos shoterim, que asseguravam o recrutamento, sem dúvida nos diferentes distritos. O mesmo texto prevê um certo número de casos de isenção: proprietários de uma casa nova ainda não inaugurada ou de uma vinha que ainda não tinha dado seus primeiros frutos, noivos ainda não casados; segundo Dt 24.5, os recém-casados tinham uma prorrogação de um ano. O reenvio de medrosos, Dt 20.8, é talvez uma adição inspirada em Jz 7.3. Essas regras foram aplicadas por Judas macabeu quando ele convocou o exército da libertação, I Mb 3.56. A mobilização atingia homens de vinte anos para cima, II Cr 25.5; cf. Nm 1.3; 26.2. A incorporação se fazia por grupos de famílias, portanto, por localidades, II Cr 17.14; 25.5, e se distinguiam os contingentes de Judá e de Benjamim, II Cr 17.14-17; 25.5. Os recrutados não traziam suas armas, como nos tempos antigos, elas lhes eram fornecidas pelo rei, II Cr 26.14. 

Uma vez incorporados, os homens eram postos sob as ordens de seus oficiais, sarim, Dt 20.9. Estes eram geralmente os chefes de famílias ou de clãs, os ro'she haahot, II Cr 26.12. Contudo, a estrutura do exército e sua eficácia em combate exigiam um corpo de oficiais de carreira permanente­mente a serviço do rei; eles faziam parte de seus 'abadim ou de seus sarim, 1Rs 24.12, 14; Jr 52.10; cf. II Cr 26.11. O rei era, como no tempo de Saul e de Davi, o chefe supremo do exército e tomava parte efetiva na guerra, 1Rs 22.29; II Rs 3.9; 14.11; 23.29; 25.4-5, mesmo que ele tivesse, como Davi, um general comandando suas tropas, II Cr 26.11; talvez II Rs 25.19. 

As unidades eram de 1000, 100, 50 e 10 homens. Esta hierarquia reporta- se à época do deserto conforme Êx 18.21 e Dt 1.15. Um chefe de dezena é talvez mencionado no dia seguinte à queda de Jerusalém, é o Ismael que vai com seus dez homens assassinar Gedalias, Jr 41.1,2; cf. 15. Chefes de 50 aparecem na história de Elias, II Rs 1.9,11,13. Chefes de 100 e de 1000 apare­cem na estatística de II Cr 25.5 e a mesma organização de exército de recruta­mento é reportada à época de Davi por I Cr 27.1, o que nao é de todo arbitrário pois que as unidades de 100 e de 1000 já existiam no tempo do povo em armas, I Sm 22.7; 17.18, e nas tropas mercenárias, II Rs 11.4. 

Fora essas indicações numéricas, os nomes das unidades são incertos. Conforme II Cr 26.11, o exército era repartido em gedud. A palavra designa algures uma tropa de homens armados, muitas vezes ladrões, I Sm 30.8s; II Rs 13.20 às vezes, e o sentido é bem próximo, soldados enviados para realizar uma ruzia em país inimigo, II Rs 5.2; 6.23; 24.2, enfim, e este sentido não é muito diferente dos outros, uma tropa de mercenários, II Sm 4.2; II Cr 25.9, cf. 13. O emprego da palavra em II Cr 26.11 para as formações do exército de recrutumento é excepcional. Se ele é legítimo, pode-se notar que, segundo a pro­porção entre o número dos chefes e o dos soldados em II Cr 26.12-13, cada oficial comandava cerca de 120 homens: o gedud, a “companhia”, seria o equivulcnte da “centena” . Uma unidade superior parece ter sido o deguel. 

Não obstante os dicionários e as traduções modernas, esta palavra não signifi­ca um estandarte ou uma insígnia, mas uma divisão do exército. Este é o sen­tido que convém a Nm 1.52; 2.2-34; 10.14-25, é também o sentido que dão as versões antigas e que se acha nos papiros de Elefantina e na Regra da Guerra de Qumran. Há alguma dúvida sobre a importância dessa unidade. No texto de Qumran, o deguel tem 1000 homens, nos documentos de Elefantina, ele deve ser menos numeroso ainda, já que há muitos degalim na colônia. Mas, segun­do Nm 2 e 10, os homens das doze tribos formam só quatro degalim, e mesmo rejeitando os números colossais indicados a esse respeito, cada deguel deve contar com muitos milhares de homens. Isto é confirmado pela equivalência proposta anteriormente entre o “ milhar” e a mishpahah. 

Se o deguel tem o sentido de “divisão”, restam poucas provas para a existência de estandartes ou insígnias no exército de Israel. Uma única vez, Nm 2.2, a palavra 'ot, “signo, sinal, sinal miraculoso”, pode significar o emble­ma ou insígnia ao redor da qual acampam os homens do mesmo clã; o costume tem bons paralelos entre os beduínos, mas a palavra com o sentido de insígnia militar só aparece com certeza nos manuscritos do Mar Morto, onde ele é talvez uma tradução do latim signum. O nes, traduzido freqüentemente por “bandeira”, não é propriamente uma insígnia, é uma vara comprida ou um mastro erguido sobre uma colina como um sinal de mobilização e de reunião das tropas, Is 5.26; 11.10,12; 13.2; 18.3; Jr 4.6; 50.2; 51.12,27; cf. Êx 17.15; fora esses empregos pelos profetas, a palavra nunca se acha nos textos concernentes ao exército nem nos relatos de batalhas. O mesmo uso é atestado entre os árabes, e o engenheiro Schummacher, fazendo levantamentos topo­gráficos na Galiléia, quase provocou a mobilização de uma tribo vizinha ao fincar sobre uma colina uma estaca de mira. Em favor das insígnias no exército do antigo Israel, há sobretudo a analogia dos exércitos orientais que, todos, tinham então suas insígnias; mas estas tinham geralmente emblemas religio­sos e é isto talvez que impede os israelitas de os imitar. Pode-se contudo notar que uma função comparável foi exercida pela arca da aliança no princípio da monarquia, sobre o que ainda falaremos. 

Esse exército nacional só era mobilizado em caso de guerra. Porém, quan­do as tropas mercenárias foram muito reduzidas ou desapareceram, é provável que um certo número de recrutados fosse mantido em armas em tempo de paz, para garantir a segurança do território e o serviço das fortalezas, mas faltam informações e deve-se hesitar em utilizar o texto de I Cr 27.1-15, segundo o qual Davi teria repartido o povo em doze classes de 24.000 homens, cada uma das quais ficava a serviço do rei durante um mês do ano: os números são exagerados, os nomes dos líderes dessas classes são os dos valentes de Davi, que tinham um ofício completamente diferente. A informação não se reporta certamente à época de Davi; ela pode valer, números e nomes à parte, para uma época posterior, mas pode ser também livre construção do Cronista, ins­pirado nas doze prefeituras de Salomão, que asseguravam cada uma durante um mês as provisões do rei, de sua casa e de suas tropas, I Rs 5.7-8. 

Segundo uma tese recente, o exército de recrutamento teria sido uma inovação de Josias e as informações esparças em Crônicas, utilizadas nas pági­nas precedentes, deveriam ser todas reportadas a sua época. Esta conclusão é arbitrária. É verdade que as tropas mercenárias perderam sua importância, que talvez tenham deixado de existir no fim da monarquia e que neste momen­to o exército de recrutamento tenha assegurado sozinho, parece, a defesa do país . Mas este exército já existia antes, paralelamente às tropas profissionais. Durante as guerras aramaicas, todo o “povo” é contado ao mesmo tempo que os “cadetes”, 1 Rs 20.15, cf. 19. O povo de Israel e o de Judá se uniram na alian­ça entre Josafá e Acabe, I Rs 22.4, como na aliança entre Jorão e o rei de Judá, 1Rs 3.7. Assim se dava continuidade à tradição do povo em armas, mas a con­vocação em massa pelo chamado de um chefe inspirado por Deus tinha dado lugar à mobilização organizada pela administração real. O primeiro sinal dessa mudança aparece já sob Davi: o recenseamento ordenado por ele, II Sm 24.1 -9, tinha um fim militar e equivalia ao estabelecimento de listas de recrutamento, mas esta iniciativa foi condenada como um abandono das regras da guerra santa, como uma profanação, cf. os versículos 3 e 10. A inscrição de nomes em uma lista aparecia como uma usurpação de uma prerrogativa divina: é Iahvé que tem o registro dos que devem viver ou morrer, Êx 32.32-33; um recenseamento é uma coisa cheia de perigos, contra os quais deve-se tomar precauções religiosas. Os novos textos de Mari esclarecem esta passagem da Bíblia: “Quando enumerares, pelo recenseamento, os filhos de Israel, cada um deles entregará a Iahvé o resgate de sua vida, a fim de que nenhuma praga caia sobre eles na ocasião do recenseamento”, Êx 30.12. Davi não levou em conta esse direito de Deus, e assim atraiu a peste sobre o seu povo, II Sm 24.10-15. Só que a guerra tomou-se um assunto profano e o regime de recrutamento acabou por se impor. Não temos motivo para duvidar que os recenseamentos militares tenham acontecido sob Asa, II Cr 14.7, sob Josafá, II Cr 17.14-18, sob Amazias, II Cr 25.5, sob Uzias, II Cr 26.11-13; alguns detalhes indicam que o Cronista utilizou fontes antigas. Contudo, não se pode negar que ele tenha introduzido números extraordinariamente elevados.


VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.