28 de março de 2015

Roland de Vaux - O Armamento

1. ARMAS DE ATAQUE

A arma de ataque por excelência era a hereb, que tornou-se o símbolo da guerra, Is 51.19; Jr 14.15; 24.10; Ez 7.15; 33.6, etc. A palavra designa ao mesmo tempo o punhal e a espada, as duas armas tendo a mesma forma e se distinguido arbitrariamente só por seu comprimento. A hereb de Eúde, Jz 3.16,21-22, é evidentemente um punhal, seja qual for o sentido preciso de gomed, que indica sua medida. Em todos os textos militares, pode-se tradu­zir hereb por “espada”, mas deve ser lembrado que trata-se de uma espada curta, medindo no máximo 50 centímetros, como a dos assírios. A longa espa­da manejada pelos Povos do Mar nas representações egípcias e encontrada nas escavações da Grécia e do Mar Egeu, não era empregada. Contudo, talvez o filisteu Golias tivesse uma, aquela que, segundo I Sm 21.9-10, foi conserva­da enrolada em um manto e que não tinha igual. A espada era levada em uma bainha, nadan ou ta'ar> I Sm 17.51; I Cr 21.57; Jr 47.6; Ez 21.8-10, presa à cintura, II Sm 20.8.

Golias usa também, “entre os ombros”, um kidon de bronze, I Sm 17.6,45. Josué brande a mesma arma no combate de Ai, Js 8.18-26, Jeremias a atribui aos invasores do Norte, Jr 6.23 - 50.42. É traduzido por “dardo curto”, mas a Regra da Guerra, achada em Qumran, parece descrever o kidon como uma espada de um côvado e meio de comprimento e quatro dedos de largura. Pen­sou-se que este texto tardio se inspirasse no gladius romano, mas o sentido conviria também às passagens bíblicas: um tipo de espada mais longa e mais larga que o hereb e suspensa por um boldrié passado “entre os ombros”. É, contudo, mais provável que o kidon seja uma cimitarra, uma harpe, como é vista nas representações pictóricas e como foi achada nas escavações. Alguns detalhes da Regra da Guerra parecem se referir precisamente a essa arma. Nos textos bíblicos, o kidon aparece como uma arma excepcional que, salvo Js 8, não é posta nas mão de israelitas. Conforme uma hipótese recente, o nome filisteu da cimitarra, a harpe grega, seria conservada na expressão “os filhos de hrph'\ II Sm 21.16,18,20,22: este seria um batalhão cujo emblema seria a cimitarra; a vocalização massorética e as versões a teriam transformado nos “filhos de Rafa” (um nome próprio com artigo).

A pique, romah, é mencionada muitas vezes, mas sem detalhes que a especifiquem. Ela era primitivamente uma simples haste pontuda; bem cedo recebeu uma cabeça de metal, fixada ao cabo por um fio de seda ou por um encaixe. Ela figura nas listas de armas de II Cr 11.12; 14.7; 25.5; 26.14; Ne 4.10; Ez 39.9, e já no antigo canto de Débora, Jz 5.8. Segundo a Regra da Guerra, ela teria tido um comprimento de sete ou oito côvados, mas, nos tempos bíbli­cos, ela devia mal ultrapassar a altura de um homem, como no Egito e na Assíria. Na Regra da Guerra, o encaixe que prendia o ferro é chamado seger; esse termo se acha, ao lado de hanit, em SI 35.3, onde ele pode designar, pars pro toto, a própria pique.

Do romah é preciso distinguir a hanit, citada em textos geralmente anti­gos. Parece que ela é uma lança mais curta e mais leve, que servia também de arma de arremesso, de azagaia, cf. I Sm 18.11; 20.33, onde não se deveria corrigir o hebraico. Para equilibrar o peso da cabeça e fazer o lançamento mais seguro, a extremidade inferior era calçada com um talão de ferro; ele permitia além disso fixar a lança na terra, I Sm 26.7, e podia servir como arma, cf. talvez II Sm2.23. Tais peças têm sido achadas nas escavações. Essa é a arma atirada por Saul, cf. também I Sm 19.9; 22.6; 26.7s; II Sm 1.6; ela equi­pa a guarda do Templo de acordo com II Cr 23.9, de onde vem sem dúvida IRs 11.10, mas ela está ausente das listas de armas e só aparece uma vez em relato de guerra nas mãos de um israelita, II Sm 2.23. Em compensa­ção, um “egípcio” aparece armado com ela, II Sm 23.21, e Golias, I Sm 17.7; ISm 21.19. A lança desse gigante tinha uma madeira “como um manor de tecelão”. Até agora entendeu-se que a comparação tem a ver com as dimen­sões da lança, que seria como as de um cilindro de tear, a peça de tecelagem onde se enrolam os fios. Uma explicação melhor foi proposta recentemente: o manor é o triângulo de madeira que sustenta a liça por uma série de fivelas. Da mesma forma, a hanit de Golias teria tido um loro que se enrolava na haste e terminava em uma fivela; ele facilitava o arremesso e aumentava o alcance. Esse sistema foi conhecido muito cedo entre os gregos e egípcios mas era ignorado pelos outros povos do Oriente Próximo; os israelitas descreveram essa arma estrangeira comparando-a a um instrumento que lhes era familiar. Essa explicação confirma o emprego da hanit como arma de arremesso.

Segundo a etimologia, shelah também é uma arma de arremesso, e o sentido de dardo ou dardo comprido conviria a II Sm 18.14 corrigido confor­me o grego, cf. J1 2.8; mas os outros textos só dão o sentido geral de arma segurada na mão, II Cr 23.10; 32.5; Ne 4.11,17.

O arco, qeshety é uma das armas mais primitivas, ao mesmo tempo usada para a caça e para a guerra, mas ela sofreu no Oriente Próximo uma evolução que os textos e os monumentos ajudam a retraçar. A simples madeira elástica retesada por uma corda foi em seguida reforçada por ligamentos, finalmente inventou-se o arco composto, sábia reunião de madeira e de chifre que aumen­tava consideravelmente o alcance do tiro. Essa excelente arma foi difundida pelos hicsos em meados do segundo milênio a.C. e se aclimatou no Egito. Entre os israelitas, o uso do arco foi inicialmente restrito à guerra. Ele é a arma de Jônatas, I Sm 20.20, II Sm 1.22, e é a arma dos chefes e dos reis, II Rs 9.24; 13.15; SI 18.35; 45.6. Mas o arco não é manejado pelo exército de Saul, nem pela guarda de Davi, pelo menos segundo os livros de Samuel; em compensa­ção, I Cr 12.2 cita os arqueiros de Benjamim entre os valentes de Davi e não se deve rejeitar muito facilmente essa informação. De fato, as descobertas na Fenícia e na Palestina de pontas de flechas inscritas com o nome de seus pos­suidores e datando dos séculos XII-X atestam que havia uma classe de arquei­ros profissionais nessa época, como já havia dois séculos antes em Ugarit.

É provável que o uso do arco se tenha generalizado em Israel com a introdução do exército de carros, cuja tática excluía o corpo a corpo e exigia armas de arremesso, I Sm 31.3 comparado a II Sm 1.6; I Rs 22.32-34; II Rs 9.24. Em seguida os soldados de infantaria teriam sido providos dele, imitando, sem dúvida, a infantaria assíria. No relevo da tomada de Láquis por Senaqueribe, as muralhas são defendidas por arqueiros. As estatísticas de Crônicas não fazem caso de arcos para o conjunto do exército de Judá senão a partir de Uzias, II Cr 26.14; cf. Ne 4.7,10, mas os arqueiros de Benjamim já eramfamos havia muito tempo, I Cr 8.40; 12.2; II Cr 14.7; 17.17. Em uma série de textos, a espada e o arco resumem todo o armamento e a atividade de guerra, Gn 48.22; Js 24.12; II Rs 6.22; Os 1.7; 2.20; e a elegia de Davi sobre Jônatas serviu “para ensinar o arco aos filhos de Judá”, II Sm 1.18, isto é, paru seu treinamento militar em geral, cf. o mesmo verbo em Jz 3.2 e II Sm 22.35. Malgrado II Sm 22.25 = SI 18.35 e Jó 20.24, nunca houve “arcos de bronze”; o termo é explicado pelos ornamentos de metal de certos arcos. A corda é chamada yeter; SI 11.2, ou metcir, SI 21.13; as mesmas palavras designam também as cordas das tendas mas isso só indica que o material era o mesmo, pois o sentido primeiro é somente “esticador”. Os vizinhos de Israel se serviam de cordinhas de linho ou de pêlo trançado, de tripas e sobretudo de nervos de animais. Só se entesava o arco no momento da ação, pressionando com o pé a parte inferior da madeira apoiada verticalmente sobre o solo: os desenhos egípcios esclarecem esse procedimento que o hebraico exprime com a frase “marchar sobre o arco”, darak qeshet, Is 5.28; 21.15; Jr 46.9; 50.14; SI 7.13; 11.2 etc.

A flecha, hets, tinha uma haste de madeira ou de caniço da qual não subsistiu nenhum exemplar na Palestina anterior à época romana. Por outro lado, numerosas pontas de flecha têm sido conservadas. Inicialmente eram de bronze, depois, de ferro. As formas variaram: flechas lanceadas com ou sem engrossamento acima do fio de fixação, empregadas exclusivamente no prin­cípio da monarquia e que continuaram em uso; depois, flechas mais curtas em losango com fio ou encaixe de adaptação, algumas tendo um apêndice lateral que impedia arrancar a flecha do ferimento; no fim da monarquia, flechas pesadas de seção triangular destinadas a furar as armaduras e flechas com três prolongamentos exteriores, tipo originário do norte cujo uso se generalizou na época helenística; então apareceram também flechas chatas dentadas. Eram conhecidas as flechas incendiárias, SI 7.14, e uma delas foi encontrada em Siquém: as asas eram furadas com pequenos furos onde se fixavam esto­pa embebida em óleo. Levava-se o arco na mão esquerda, as flechas na direi­ta, Ez 39.3, ou em uma aljava, ’ashpahIs 22.6; 49.2; Jr 5.16; SI 127.5; Jó 39.23.

Por fim, a funda, qela uuma correia comprida e estreita alargada no meio, a “palma” da funda, I Sm 25.19. É uma arma simples e primitiva, usada por pastores, I Sm 17.40, mas também uma arma de guerra, II Rs 3.25; II Cr 26.14. Os benjamitas tinham fundeiros de elite que, com a mão direita ou com a esquerda, não erravam um cabelo, Jz 20.16; cf. I Cr 12.2. As pedras da funda eram seixos bem escolhidos, I Sm 17.40, ou eram especialmente preparados, ICr 26.14. Recebiam a forma de grandes azeitonas e algumas foram achadas nas escavações. Na época helenística, os fundeiros utilizavam também bolas de chumbo.



ARMAS DE DEFESA

A mais comum das armas defensivas era o escudo. Ele é chamado por dois nomes, maguen e tsinnah, e, como os dois nomes são mencionados em conjunto em uma série de textos, devem corresponder a dois tipos de escudos. Conforme I Rs 10.16-17 = II Cr 9. 15-16, o maguen é muito menor que o tsinnah, o que é confirmado por I Sm 17.7,41: o tsinnah de Golias é levado por um servo; e por Ez 26.8 onde a mesma palavra designa o mantelete do cerco. É por isso que o escudo é freqüentemente associado à pique, romah, ICr 12.9,25; II Cr 11.12; 14.7; 25.5. Ele se assemelhava sem dúvida ao grande escudo de cobertura dos assírios. O maguen, por outro lado, acompanha a espada e o arco, Dt 33.29; I Cr 5.18; II Cr 14.7; 17.17; SI 76.4. O texto de II Cr 14.7 é especialmente instrutivo: os de Judá têm o tsinnah e a pique, os benjamitas têm o maguen e o arco; nós diríamos: uma infantaria pesada e uma infantaria leve. O maguen era redondo, como os escudos fixados nas muralhas no baixo-relevo da tomada de Láquis, e cf. Ct 4.4. Soldados da infantaria e da cavalaria assíria eram equipados da mesma forma. A protuberância que reforçava o centro do escudo e que correspondia à alça do outro lado é talvez mencionada em Jó 15.26.

Os escudos de parada podiam ser de bronze, I Rs 14.27, ou plaquês de metal precioso, I Rs 10.16-17, cf. II Sm 8.7, mas os escudos de batalha eram de couro, e eram untados, II Sm 1.21-22; Is 21.5, e tingidos de vermelho, Na 2.4. Quando não em uso, eram protegidos por uma teliz, Is 22.6.

A palavra rara shelet tem um sentido muito próximo de maguen: os dois termos são postos em paralelo em Ct 4.4 e cf. Ez 27.11; em II Cr 23.9, maguen glosa sheletát II Rs 11.10. Este último texto se refere a II Sm 8.7 = I Cr 18.7, que é análogo a I Rs 10.17, onde maguen é empregado. Pode pois ser traduzida por “rodela”. Só o texto de Jr 51.11 traz dificuldade e sugere o sentido de “aljava”, mas ele é traduzido corretamente por: “Preparem as rodelas”, cf. o mesmo verbo em Zc 9.13.

O capacete é chamado koba‘ ou qoba‘ e essa inconstância na pronúncia revela origem estrangeira, não semítica, do nome e da coisa. Um capacete de bronze é usado por Golias, I Sm 17.5, mas é duvidoso que Saul tivesse um para Davi experimentar, I Sm 17.38. Ele equipa soldados estrangeiros em Jr 46.4; Ez 23.24; 27.10;38.5. Porém, ele faz parte do armamento preparado por Uzias para suas tropas, II Cr 26.14. Tem-se duvidado dessa informação, mas os defensores de Láquis usam capacete no baixo-relevo assírio já muitas vezes citado. Pode-se se perguntar somente se esses capacetes eram de couro ou de metal. Foi achada nas escavações de Láquis uma cimeira de capacete de bronze, mas ela pertence seguramente a um soldado de Senaqueribe: no mes­mo baixo-relevo, alguns atacantes usam capacete com cimeira.

Como o capacete, a couraça, siryon ou shiryon, é de origem estrangeira. Não há dúvida de que ela foi introduzida no Oriente Próximo pelos hurritas, na primeira metade do segundo milênio antes de nossa era. Ela era feita de plaquetas de bronze e, mais tarde, de ferro, de “escamas” costuradas sobre estofo ou couro. Segundo os textos de Nuzu, protegiam-se assim não só os homens mas os cavalos e também os carros, o que pode explicar os “carros de ferro” dos cananeus em Josué 17.16; Jz 1.19; 4.3 e 13; cf. talvez Na 2.4. Essas couraças foram adotadas pelos egípcios e depois pelos assírios e elas apare­cem em seus monumentos; ela foi inicialmente equipamento de condutores de carros, mas depois foi usada pela infantaria, por exemplo, pela que atacou Láquis, onde se pode duvidar contudo se a proteção é assegurada pelas plaquetas de metal ou pelas lingüetas de couro. A mesma evolução acontece em Israel. Sem dúvida já Golias usava uma “couraça de escamas”, shiryon qasqassim, I Sm 17.5, mas ele é um estrangeiro e seu armamento é excepcional em tudo: já se falou de sua espada sem igual, de sua lança com correia de lançamento, e o v. 6 lhe atribui também grevas, literalmente “frentes de perna”, de bronze, uma peça de armadura que não é atestada no Oriente nessa época mas só no mundo egeu. A couraça de Saul é tão duvidosa quanto seu capacete, I Sm 17,38. mas é normal que Acabe, sobre seu carro, tenha tido uma couraça, I Rs 22.34. Sob Uzias, capacetes e couraças são distribuídos às tropas que partem em campanha, II Cr 26.14; sob Neemias, os defensores de Jerusalém são providos delas, Ne 4.10. Escamas de bronze e de ferro provenientes de tais couraças foram achadas em escavações palestinenses. Gregos e romanos conheciam essa armadura mas eles tinham também cotas de malha; os soldados de Antíoco Epífano as usavam, I Mb 6.35, e é assim que a Setenta interpreta a armadura de Golias.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.