25 de março de 2015

Roland de Vaux - Cidades Fortificadas e Guerra de Cerco

CIDADES FORTIFICADAS E GUERRA DE CERCO 

As antigas cidades de Canaã, cada uma das quais era o centro de um minúsculo Estado, eram cercadas por muralhas e defendidas por torres e portões fortificados. As imagens que, nos monumentos egípcios, ilustram as campanhas dos faraós do Novo Império reproduzem sua aparência e as esca­vações da palestina permitem estudar o plano dessas defesas e a técnica de sua construção. Compreende-se o temor que inspiravam aos invasores israelitas essas cidades “muito fortes”, Nm 13.28, cujas muralhas subiam “até o céu”, Dt 1.28, esses “lugares fortes cercados de altas muralhas, munidos de portas e de trancas”, Dt 3.5. Quando os israelitas tendo conquistado ou ocupado essas cidades, se preocuparam em reconstruir suas defesas - o que não é atestado pela arqueologia senão a partir do tempo de Saul eles mantiveram as cons­truções que subsistiam, concertando-as quando necessário. Quando a destrui­ção era radical, eles reconstruíam as muralhas segundo novos métodos, que aplicaram também nas cidades fundadas por eles mesmos. São essas fortifica­ções transformadas ou construídas pelos israelitas que nos interessam aqui. 

1. AS CIDADES FORTES ISRAELITAS 

Toda cidade, ‘ir, é normalmente cercada por uma muralha, e assim se distingue da aldeia aberta, hatser, cf. Lv 25.31. Mas uma cidade defendida por sólidas construções é chamada uma “cidade de fortificação”, ‘ir mibtsar, cf. Jr 34.7 e muitas outras passagens. E para o abrigo dessas defesas que toda a população da vizinhança corre em caso de perigo, Jr 4.5; 8.14. O Antigo Testamento contém listas ou menções isoladas de lugares fortes que esclare­cem, parcialmente e para certas épocas, o sistema de proteção do território. 

A primeira preocupação de Davi após a conquista de Jerusalém foi cercá- la com um muro, II Sm 5.9; entenda-se simplesmente que ele consertou as defesas jebuzéias. A Bíblia não assinala sobre seu reinado nenhum trabalho análogo fora da capital, mas é bem certo que ele colocou outros lugares em estado de defesa e os arqueólogos lhe atribuem a construção de muralhas em Tell Beit-Mirsim e em Bet-Shémesh. As guarnições de carros de Salomão evidentemente ficavam estacionadas nas cidades fortes e foram encontradas em Megido a porta e as muralhas contemporâneas das estrebarias. 

Uma passagem de Crônicas, que não tem paralelo nos livros de Reis, dá uma lista de quinze lugares fortificados por Roboão, II Cr 11.6-10. Nada auto­riza reportar esse texto à época de Josias, como se tem proposto. Ele é uma boa informação histórica que se justifica sob o reinado de Roboão: a campa­nha do faraó Sheshonq na Palestina, I Rs 14.25, tinha demonstrado que era preciso reforçar a defesa do território. Uma linha desses lugares guardava a estrada real que levava do sul para Jerusalém e dominava o deserto oriental: Jerusalém, Belém, Etam, Técoa, Bet-Zur, Hebrom, Ziph. A partir de Ziph para o oeste, o fronte meridional era protegido por Adoraim, Láquis e Gat. De Gat para o norte as principais vias de acesso à serra de Judá vindo do oeste eram fechadas por: 1) Gat, Maresha; 2) Azeca, Soko, Adulam; 3) Zorea; 4) Ai Jalom. Essas fortalezas não assinalavam as fronteiras do reino mas foram estabelecidas sobre as linhas de resistência, nos pontos estratégicos mais favoráveis; a lista é provavelmente incompleta pois ela enumera somente os trabalhos novos de Roboão, sem levar em conta as cidades que Davi e Salomão tinham fortifica­do e que subsistiam. 

O fronte norte ainda era aberto, pois o limite entre os novos reinos de Israel e de Judá, no inicio, era incerto. Baasa, de Israel, empreendeu fortificar Ramá, menos de dez quilômetros ao norte de Jerusalém, mas Asa, de Judá, o desaloja e leva sua própria fronteira até Geba em Benjamim e a Mispá, que ele equipou para defesa, I Rs 15.17-22. Ele restaurará também outros lugares for­tes de Judá, conforme I Rs 15.23 e II Cr 14.5-6. Estes estavam em serviço sob Josafá que os proveu de tropas, II Cr 17.2, 19.5. Uzias, fora seus trabalhos em Jerusalém, II Cr 26.9, estabelece fortins no deserto e aperfeiçoa os meios de defesa, II Cr 26.10 e 15; voltaremos a esses últimos textos. 

Paralelamente à renovação do exército de carros no século VIII, “Judá multiplicou os lugares fortes”, Os 8.14, e Senaqueribe se vangloria de ter siti­ado e conquistado quarenta e seis cidades fortificadas de Judá. O relato bíbli­co também diz que Senaqueribe atacou as fortalezas de Judá e as conquistou, IRs 18.13, e nomeia explicitamente Láquis e Libna, II Rs 18.17 e 19.8, fora Jerusalém que foi miraculosamente salva. Um baixo-relevo assírio muito inte­ressante de fato representa a conquista de Láquis por Senaqueribe. Não se sabe em que medida as destruições assírias foram reparadas. As obras de defe­sa empreendidas em Jerusalém por Ezequias, II Cr 32.5; cf. Is 22.9-11, foram continuadas por Manassés, II Cr 33.14, e não há motivo para duvidar desta informação precisa do Cronista. A verdade é que, pouco antes da ruína final do reino de Judá, o povo colocava sua confiança nas fortalezas, Jr 5.17, e que, durante o cerco de Jerusalém, duas cidades resistiam ainda a Nabucodonosor, Láquis e Azeqa, Jr 34.7; esses dois lugares são nomeados também em um óstraco achado em Láquis e escrito na ocasião. 

As fortificações foram demolidas pelo vencedor caldeu não só em Jeru­salém, II Rs 25.10, mas em todo o Judá, Lm 2.2, 5, e a arqueologia confirma essas destruições. As muralhas de Jerusalém só foram reerguidas sob Neemias e as outras cidades, como Geser e Bet-Zur, o foram somente na época helenística. 

Para o reino do Norte, a Bíblia nos dá pouquíssimas informações. Jeroboão I fortificou Siquém e Penuel, na Transjordânia, I Rs 12.25. Tem-se lembrado o empreendimento malogrado de Baasa em Ramá, I Rs 15.17 s. Sob Acabe, Jerico foi reconstruída e munida de uma porta, I Rs 16.34. Em sua carta aos chefes de Samaria, II Rs 10.2, Jeú diz que eles têm para si “um lugar forte”. Corrige-se muitas vezes o texto massorético colocando no plural, “lugares fortes”, mas deve-se sem dúvida manter o singular. Trata-se somente de Samaria. Esta era fortemente defendida como testemunham as escavações e os longos cercos que ela suportou, I Rs 20.1 s; II Rs 6.24 s; 17.5; 18.9-10. Além da Bíblia, a estela de Mesa fala das cidades de Atarot e de Iahaz “construídas”, isto é, fortificadas, em Moabe por Omri e Acabe. A pobreza das informações bíblicas liga-se à origem judaica dos livros históricos e não deve nos enganar: o reino do Norte tinha certamente um sistema de defesa tão elaborado quanto o de Judá. 

Enquanto houve um exército de carros e mercenários, o serviço das forta­lezas foi assegurado por essas tropas profissionais, mas não sabemos como ele era organizado. Ficamos sabendo somente, II Cr 17.2, 13 b-19, que Josafá pôs tropas nas cidades fortificadas de Judá e que ele tinha em Jerusalém uma guar­nição e um corpo de oficiais destinado a alistar o exército de recrutamento. Fora os números, que são fantásticos, essas informações podem provir de uma fonte antiga. Conforme II Cr 33.14, Manassés pôs oficiais nas cidades fortes de Judá; não se tratava de tropas. A época é então posterior à destruição da potência militar de Judá por Senaqueribe, e é possível que naqueles últimos tempos da monarquia o serviço das fortalezas tenha sido reduzido a quadros que asseguravam pela corvéia, segundo o exemplo estremo e mais antigo de I Rs 15.22, a manutenção das obras e, em caso de perigo, as guarneciam de defensores recrutados no lugar. Tem-se concluído de I Cr 27.1-15 que as fortalezas eram mantidos pelos contingentes do exército de recrutamento servindo em tumos durante um mês do ano, mas o sentido e o valor desse texto são incertos. 



2. AS MURALHAS 

As informações da Bíblia podem ser completadas pelas que a arqueolo­gia fornece sobre os planos e o modo de construção das obras de defesa. Fora a reutilização de velhas fortificações cananéias distinguem-se dois tipos de muralhas israelitas: a muralha de casamatas e a muralha de redente. 

Uma muralha de casamatas é um muro contra o qual se alinham câmaras cegas que eram enchidas de terra ou de cascalho ou que serviam de depósitos. Seu objetivo é alargar a muralha, daí, fazê-la mais resistente e economizar na construção, e também fornecer os entrepostos necessários a toda cidade de guarnição. Belos exemplos deste tipo têm sido descobertos em Tell Beit- Mirsim, a antiga Debir, e em Bet-Shemesh, datados do reino de Davi ou de Salomão, em Tell Casileh, perto de Jafa, remontando à primeira ocupação israelita, provavelmente sob Salomão, em Hazor e em Gezer na época de Salomão. Esse tipo de fortificação parece ser originário da Ásia menor; ele é de fato atestado no século XIV-XIII a.C. em Bogazkoi e em Mersim, um pou­co mais tarde nas fortalezas de Sendjirli e de Carkemish. Na palestina, ele foi geralmente substituído pelo tipo de redente, mas um exemplo magnífico de muralha de casamatas se acha ainda em Samaria, nas defesas do palácio construído, sem dúvida, por Acabe no séc. IX a.C.; um outro muro de casamatas foi recentemente descoberto em Ramat-Raquel, ao sul de Jerusalém, e datada mesma época. 

Preocupados em seguir no máximo a linha de escarpamento da colina sobre a qual a cidade era construída, os arquitetos cananeus adotam um traça­do curvo, ou antes, multiplicam os desengates das partes direitas de suas muralhas; eles obtinham assim uma série de redentes. Este procedimento foi adotado como regra em algumas fortificações israelitas, mesmo quando a con­figuração do terreno não o exigia. A razão mais aparente era obter saliências que permitissem uma melhor defesa contra inimigos que chegassem perto dos muros. Mas essas saliências eram às vezes tão fracas que quase não aumenta­vam o campo de tiro e a principal vantagem desse procedimento era sem dúvida obter uma muralha mais sólida sem aumentar sua largura: multiplicando os ângulos bem ligados e bem firmes no solo protegia-se melhor contra os aríetes ou as sapas dos atacantes. Megido fornece um exemplo muito bom, provavel­mente posterior a Salomão: toda a cidade era cercada por uma muralha larga de 3,6 metros, composta de travessas de 6 metros de comprimento, alternada­mente recuadas e salientes em 50 centímetros. A muralha de Tell en-Nasbeh = Mispá segue o mesmo desenho, porém menos regular; ela pode ser atribuída ao reinado de Asa, quando ele fortificou Mispá, I Rs 15.22. Acha-se uma disposição análoga em Tell ed-Duweir = Láquis. Esses muros de redentes eram reforçados aqui e ali por torres: conta-se uma dúzia em Mispá. Em Gezer, em uma muralha do século X-IX, os redentes exteriores e interiores não correspon­dem mas vão em direções opostas, o que dá uma seqüência de reforços, de largas torres, ao longo de toda a muralha. Essas obras de flanqueamento, saliências ou torres, se chamavam “ângulos”, pinnah, II Cr 26.15; Sf 1.16; 3.6. 

Tais muralhas podiam ser protegidas por um talude utilizando oportuna­mente a encosta da colina, como em Mispá, ou por um antemuro construído num nível inferior, como em Láquis. Por oposição ao homah, muralha, este ante­muro é o hei do qual falam Is 26.1; Lm 2.8; Na 3.8. O texto de II Sm 20.15-16 é expressivo e não precisa ser corrigido: no cerco de Abel Bet-Maaka, utiliza- se um aterro que se apoia no antemuro, hei, e se cavam sapas para fazer cair a muralha, homah. 

O coroamento dessas muralhas é incerto. Seguindo um elemento arquitetônico descoberto em Megido imaginam-se ameias, o que pode ser confirmado por algumas representações assírias, mas a relação deste elemento arquitetônico de megido com a muralha é hipotética. A palavra shemesh poderia significar “ameia” em Is 54.12; SI 84.12, mas ela pode designar também, conforme seu sentido comum de “sol”, as telas redondas, as rodelas que se fixavam em cima dos muros. Elas são representadas coroando a muralha no baixorelevo assírio da conquista de Láquis; e são ilustradas também pelos textos de Ez 27.11: “Eles suspendiam seus escudos em todo o redor de tuas muralhas”, e de Ct 4.4: “Teu pescoço é como a torre de Davi... mil rodelas nele estão suspensas”. 

Todas as fortificações israelitas reveladas até agora pelas escavações foram estabelecidas na primeira metade da época monárquica, nos séculos XI-IX, e é difícil caracterizar as muralhas do período seguinte. Em um certo número de cidades, as duas capitais e as cidades de guarnição, enquanto exis­tiram, as construções de defesa foram mantidas e reparadas, em outros lugares foram abandonadas. Contentava-se então com a proteção medíocre dada pelas muralhas semi-arruinadas ou com a fileira de casas construídas sobre suas ruínas, umas junto das outras e apresentando de fora uma face cega. Eram guardados somente alguns pontos de resistência, as portas, às vezes uma torre ou um bastião. A maior parte das “46 cidades fortificadas” de Judá que Senaqueribe conquistou em 701 deviam ser também fracamente defendidas, e a arqueologia não justifica, e a História também não, a confiança que os homens de Judá do século VIII colocavam em suas “numerosas fortalezas”, Os 8.14; Jr 5.17. 

3. PORTAS FORTIFICADAS E CIDADELAS 

A porta era um ponto especialmente fortificado. Um tipo clássico nas cidades cananéias era a porta de tenalhas: dois ou três pares de pilastras salien­tes no vão determinavam os estreitamentos da entrada, as “tenalhas”. O obje­tivo era reforçar os muros e estabelecer obstáculos sucessivos. Os israelitas mantiveram em uso tais portas, com ou sem modificação, em Bet-Shemesh, Siquém, Megido e Tirza, e eles mesmos construíram algumas dessas no prin­cípio da época monárquica. As pilastras tornaram-se rapidamente mais salien­tes que nas portas cananéias e formaram em cada lado da entrada pequenas câmaras que podiam servir para os guardas. Um exemplo muito bom é a porta salomônica de Megido, que contava excepcionalmente quatro pares de pilastras; este plano é idêntico ao encontrado em Hazor e em Gezer para a mesma épo­ca. Deve-se notar que o mesmo plano é previsto por Ezquiel para os pórticos do Templo, Ez 40.6-16. A porta de Ezion Geber, ainda sob Salomão, tinha três pares de pilastras, talvez também a primeira porta israelita de Tell ed-Duweir. Na época seguinte, a porta de Megido só tinha dois pares de pilastras, como as de Tell en-Nasbeh e a mais antiga porta de Tell Beit-Mirsim. Em alguns casos, em Tell en-Nasbeh e na porta modificada de Tell el-Far ‘ah do Norte = Tirza, e mais tarde em Tell ed-Duweir, banquetas eram colocadas junto ao muro, o que lembra imediatamente os textos bíblicos sobre os Anciãos “assentados à porta” para julgar os processos e para tratar os negócios municipais. A por­ta era geralmente flanqueada por torres, colocadas lateralmente ou em saliên­cia, e às vezes ela era precedida de um bastião com uma primeira entrada, como em Megido. O eixo da porta era geralmente perpendicular à muralha, mas ele é paralelo em Tell en-Nasbeh, ficando a entrada em um grande recuo du linha fortificada. 

No fim da monarquia, aparece um outro tipo, prefigurado já na porta salomônica de Megido com sua anteporta: é a porta de acesso indireto. Ela é bem representada em Tell ed-Duweir: um bastião oculta a entrada, é preciso primeiro ladear a muralha e depois entrar em um pátio onde se vira à direita para atravessar a porta simples aberta no muro da cidade. O desenvolvimento desse princípio conduziu à porta em ziguezague, cujo exemplo é fornecido pela ultima porta de Tell Beit-Mirsim e que reaparecerá muito mais tarde nas cidades orientais. 

Além das defesas constituídas pelas portas fortificadas e pelas torres da muralha, as capitais tinham um segundo muro ao redor e bastiões que isola­vam o palácio real e suas dependências; era a acrópole da cidade. O exemplo mais claro é o de Samaria, onde um muro de casamatas flanqueado por uma torre maciça cerca o palácio e os depósitos. Jerusalém tinha o equivalente na Cidade de Davi, que era a antiga cidadela de Sião, II Sm 5.7 e 9. Rabá dos amonitas tinha também sua acrópole a qual Davi atacou depois que Joabe conquistou a cidade baixa, II Sm 12.26-29. Outras cidades tinham pelo menos uma cidadela, construída no ponto mais elevado, e onde se buscava refúgio para uma última resistência. As escavações têm revelado algumas, datando da época israelita, mas, infelizmente, estão muito destruídas. A mais antiga é a de Tell el-Ful = Gibeá, a capital de Saul; esta era uma construção retangular, com um muro de casamatas e torres nos cantos. Outras são reconhecíveis em Tell Zakaria = Azeqa, em Tell el-Hesy = Eglom (?), em Tell Ta‘annak = Tanak. Elas têm um traçado poligonal munido de torrezinhas de contrafortes. 

Essas construções fortificadas no interior de uma cidade recebem o nome de migdal. O termo é ordinariamente traduzido por “torre”, e designa de fato torres ou bastiões construídos sobre as muralhas ou junto das muralhas em Jr 31.38; II Cr 14.6; 26.9, 15; 32.5; Ne 3.1, 11, 25, textos que são todos tardios. Mas, nos textos mais antigos, a palavra migdal é melhor traduzida por “cida­dela” ou “castelo”, no sentido do latim castellum. Assim se explica a história de Abimeleque em Tebez: a cidade é tomada mas “havia dentro da cidade um sólido migdal onde se refugiaram todos os homens, mulheres e notáveis da cidade...Jz 9.50 s. E à luz desse texto que se deve interpretar o relato mais difícil da destruição de Siquém, que o precede imediatamente, Jz 9.45-49: a cidade tendo sido tomada os habitantes do migdal de Siquém se refugiam na cripta do templo de Baal-berit, onde finalmente são queimados vivos; esse migdal é a cidadela de Siquém, com um templo fortificado, o mesmo que as escavações desenterraram em Tell Balata, o antigo sítio de Siquém. Porém, tem-se sustentado que Migdal-Siquém era uma localidade diferente de Siquém. Esses “castelos” são também assinalados em Penuel, Jz 8.9 e 17, e em Jesreel, IRs 9.17. 

O sentido de “castelos”, o latim castella, também conviria aos migdalim que Uzias mandou construir no deserto, II Cr 26.10; e aos de Jotão, II Cr 27.4. Um desses fortins isolados, talvez anterior a Uzias, é reconhecido em Qedeirat perto de Cades; seu plano lembra os das cidadelas de Tell Zakaria e de Tell el-Ful. Um outro tem sido identificado recentemente em Kirbet Gaza, trinta quilômetros a leste de Berseba. Assim se explicam também os nomes de luga­res compostos com migdal: são aglomerações que se agrupam ao redor de uma pequena cidadela. Quando o segundo elemento é um nome divino, Migdal- El, Migdal-Gad, este “castelo” é sem dúvida um templo fortificado, como o de Baal-berit em Siquém. 

Ao mesmo tempo que os migdalim, Jotão teria construído biraniyyot, ICr 27.4. As duas palavras parecem ser quase sinônimas, a segunda perten­cendo a uma língua mais recente; cf. II Cr 17.12. Da mesma forma o singular birah toma o lugar de migdal nos textos recentes para designar uma cidadela dentro de uma cidade, por exemplo a cidadela de Jerusalém sob Neemias, Ne 2.8;7.2, e o mesmo termo qualifica no estrangeiro a cidadela ou toda a cidade fortificada de Susã, Ne 1.1; Dn 8.2 e freqüentemente em Ester, e a fortaleza de Ecbatana, Esdras 6.2 (birta\ forma aramaica). 

Havia, no palácio de Tirza e no de Samaria, uma parte mais fortificada que é chamada *armon, I Rs 16.18; II Rs 15.25: era o torreão. No plural, a palavra designa as habitações fortificadas de Jerusalém, Jr 17.27; Lm 2.7; SI 48.4, 14; 122.7 ou de outro lugar, Am 1.4, 12; 2.2, 5, etc. 

4. A GUERRA DE CERCO 

Muralhas e bastiões asseguravam às cidades uma proteção eficaz contra inimigos que só tinham como armas de arremesso arcos e fundas. Estes preci­savam recorrer à astúcia ou optar pela demora de um cerco. 

E a astúcia que aparece nos relatos da conquista. Josué envia espiões para reconhecer as defesas de Jerico, estes se juntam a Raabe e combinam um sinal, Js 2: é aparentemente o resto de uma tradição que explica a tomada de Jericó por uma traição de Raabe mas que foi eclipsada pela tradição da queda miraculosa das muralhas. Para Beteil, o texto é claro: os espiões obtêm de um traidor a indicação de uma passagem por onde penetram os israelitas, Jz 1.23-25. Ou então os defensores da cidade eram atraídos para fora: diante de Ai, os israelitas simulam a fuga, todas as pessoas de Ai os perseguem e uma tropa, que Josué tinha ocultado, entra no lugar e o incendeia, Js 8.3-22. Era um estratagema clássico, que se renovou com sucesso em Gibeá durante a guerra com Benjamim, Jz 20.29-41, e do qual o rei de Israel suspeitou quando os arameus levantaram o cerco de Samaria, II Rs 7.12. Acontecia, enfim, que um grupo de homens resolutos forçasse a entrada de surpresa; parece que foi assim que Jerusalém foi conquistada por Davi, II Sm 5.7-8: Joabe teria escalado o túnel que, da fonte, conduzia ao interior da cidade. 

Sem recorrer a esses subterfúgios, um inimigo poderoso podia usar de intimidação para que uma fortaleza lhe abrisse as portas ou aceitasse suas condições, cf. Dt 20.10-11. Os habitantes de Jabes de Gileade estavam pron­tos para se render ao amonita Nahash se suas exigências não tivessem sido tão cruéis, I Sm 11 .ls. Acabe aceita as primeiras exigências de Ben-Hadade acam­pado sob os muros de Samaria, I Rs 20.1 s. O enviado de Senaqueribe tenta obter a rendição de Jerusalém evocando a força dos assírios, a inutilidade da resistência e os horrores de um cerco, II Rs 18.17s. 

Se a cidade não caía por astúcias ou por surpresa, se as negociações fossem frustradas, geralmente era preciso fazer um cerco. O acampamento era instalado diante da cidade, II Sm 11.1; I Rs 16.15-16, etc., os caminhos eram bloqueados, os pontos de água eram ocupados, cf. o texto tardio de Jt 7.12,17-18, e esperava-se que a fome e a sede minassem a resistência dos habitantes, IRs 6.25s; Jt 7.20s. Os atacantes importunavam os defensores postos sobre as muralhas, II Rs 3.25. Os sitiados tentavam afrouxar o aperto atacando os sitiadores, II Sm 11.17; I Rs 20.15-21, ou então, se consideravam a situação como perdida, procuravam escapar, II Rs 3.26; 25.4. 

Quando a resistência se obstinava muito ou quando se via que enfraquecia, apressava-se a definição com o assalto. Um aterro era feito diante da muralha para fornecer uma rampa de acesso, sapadores abriam uma brecha; a operação é descrita a propósito do cerco de Abel Bet-Maaka sob Davi, II Sm 20.15-16. O termo técnico para designar esse aterro é solalah, cf. ainda II Rs 19.32 (Senaqueribe em Jerusalém); Jr 32.24 e 33.4 (os caldeus em Jerusalém), e os textos de Ezequiel que serão citados adiante. Tentava-se também pôr fogo nos portões, Js 9.52. Chegando ao pé da muralha, os atacantes ficavam expostos aos golpes dos defensores, que redobravam seus esforços nesse momento crí­tico: em Tebez, Abimeleque foi morto por uma mó jogada por uma mulher, Jz 9.53. Mas a resistência só dispunha da sorte ou das armas ordinárias. E verdade que, conforme II Cr, Uzias “fez em Jerusalém máquinas criadas pelos engenheiros, para serem colocadas sobre os castelos e nos cantos para lançar flechas e grandes pedras”. Quis-se ver aí um tipo de artilharia, balistas e catapultas, e, quando não se tem dado a Uzias a honra de invensões que os próprios assírios não possuíam, se tem negado o valor histórico desse texto. Mas ele fala de coisa bem diferente: esses “engenhos” eram simplesmente madeiramentos dispostos em sacadas sobre as frontarias e os bastiões, e de onde os arqueiros e os fundeiros podiam atacar o pé da muralha ficando ao abrigo dos dardos. Era o equivalente das sacadas da arquitetura militar da Idade Média. De fato, tais dispositivos coroam as muralhas no baixo-relevo assírio da tomada de Láquis. Os judeus não utilizaram máquinas para defen­der ou atacar as cidades antes das guerras macabéias, onde imitaram os gregos que eles combatiam, I Mb 6.20,51-52; 11.20; 13.43s. 

As regras religiosas da guerra de cerco são dadas em Dt 20.10-20. Quan­do trata-se de uma cidade em território estrangeiro, deve-se primeiro lhe pro­por a paz: se ela abre suas portas, a população será somente submetida à corvéia; se ela recusa, será sitiada, seus homens serão passados ao fio da espada, todo o resto, pessoas e bens, serão tomados como despojo. Quando trata-se de uma cidade cananéia da Terra Prometida, todos os seus habitantes serão votados ao anátema sem que tenham nenhuma opção. Durante o cerco de uma cidade, as árvores frutíferas devem ser respeitadas mas podem-se abater outras árvores e serem usadas para os trabalhos do cerco. Essas prescrições nem sempre foram seguidas na antigüidade, II Rs 3.19,25, e elas quase não tinham ocasião de serem aplicadas quando o Deuteronômio foi editado sob Josias: não havia mais cananeus para serem votados ao anátema e os israelitas não faziam mais cerco às cidades estrangeiras, estavam bastante ocupados em defender as suas contra os assírios. 

Estes eram mestres em poliorcética e seus monumentos dão uma vívida imagem de seus procedimentos de ataque. A cidade era cercada por uma circunvalação, rampas de abordagem eram construídas, máquinas eram leva­das para lá. Estas eram redutos móveis que abrigavam arqueiros e homens manobrando um aríete, uma grande trave cuja cabeça era guarnecida de metal para golpear a muralha. Os sitiados jogavam sobre essas máquinas tochas ace­sas e pedras, eles tentavam paralizar os aríetes por meio de arpéus. Atrás das máquinas, a infantaria dava o assalto, coberta pelo tiro de arqueiros que, por sua vez, eram protegidos pelos manteletes móveis segurados pelos servos. Os atacantes penetravam nas brechas abertas pelos aríetes ou escalavam corti­nas usando escadas. O baixo-relevo da tomada de Láquis mostra esses dife­rentes meios em ação e os Anais de Senaqueribe dizem que esse rei conquis­tou as cidades de Judá “por meio de rampas de terra batida, aríetes levados para junto dos muros, pelo ataque da infantaria, com minas, brechas e sapas”. Os textos bíblicos fornecem o vocabulário hebraico correspondente. O coletivo matsor designa o conjunto das operações de cerco. Vimos que solalah signifi­cava a rampa; esta, para permitir a passagem das máquinas, era revestida de pedras ou de achas de madeira, cf. Jr 6.6. A circunvalação, ou o entrincheiramento, é o dayeq, o mantelete ou grande escudo de cerco é a tsinnah, os aríetes são os karim. Ezequiel recebe de Deus a ordem de representar o cerco de Jerusalém pegando um tijolo e construindo diante dele uma trincheira, fazen­do uma rampa, instalando aríetes, Ez 4.2. Em outro lugar, o profeta mostra Nabucodonosor tirando sortes para marchar sobre Jerusalém “para colocar aríetes contra suas portas, fazer uma rampa, construir uma trincheira”, Ez 21.27. No anúncio do cerco de Tiro, Ez 26.8-9, além desses termos se acham duas palavras obscuras: “ele dirigirá contra tuas muralhas o golpe de seu q‘bol", sem dúvida um tipo de aríete, “ele destruirá teus castelos com seus harabot", onde o sentido comum de espadas não convém e onde a palavra designa os aríetes de cabeça pontuda ou as picaretas dos sapadores, cf. Ex 20.25 onde a palavra tem o sentido de “cinzel”. 



5. O ABASTECIMENTO DE ÁGUA 

Em caso de cerco, não bastava estar ao abrigo de uma sólida muralha, era preciso viver dentro dela e o abastecimento de água era um problema essen­cial. Ele foi resolvido já que Samaria resistiu mais de dois anos contra os assírios em 723-721, e Jerusalém resistiu um ano e meio a Nabucodonosor em 587. A fome tinha então sido severa em Jerusalém mas não se diz que tenha faltado água, II Rs 25.3, da mesma forma em Samaria, durante um cerco pelos arameus, II Rs 6.25. Quando precauções não eram tomadas acontecia o desas­tre: na história de Judite, o exército de Holofernes tendo ocupado as fontes fora da cidade, os habitantes de Betúlia desfalecem de sede ao fim de trinta e quatro dias, Jt 7.20-22, sem que haja o problema da fome. 

O problema já se havia apresentado aos cananeus e eles o tinham resolvi­da de diversas maneiras. Só são consideradas aqui as instalações hidráulicas realizadas pelos israelitas ou reutilizadas por eles. As cidades eram construídas sobre colinas e nunca encerravam uma fonte. Só havia três soluções e todas elas foram aplicadas: a) uma galeria que, partindo de dentro da cidade, passa­va sob a muralha e chegava numa fonte do lado de fora; ou, inversamente, um canal que, partindo de uma fonte externa, levava a água até a cidade, b) poços profundos cavados na cidade até o lençol freático. c) reservatórios e cisternas que recolhiam a água da chuva. 

a) As galerias de coleta de água são atestadas pela arqueologia em Jeru­salém e em Megido desde a época cananéia, em Gibeá na época israelita, em Etam e em Jibleão em data incerta. Em Jerusalém, um tunel e um poço na rocha desciam até a fonte de Giom. As escavações as têm encontrado e, segundo uma exegese provável de II Sm 5.8, foi essa passagem que Joabe escalou para entrar na cidade; a palavra tsinnor, que está no texto, pode designar um canal desses e o nome foi convencionalmente estendido às instalações análogas. Em Megido, uma galeria cananéia bastante rudimentar foi substituída por uma instalação muito elaborada, que foi modificada muitas vezes sob a monarquia israelita: um grande poço retangular com lances de escada se pro­longava por uma galeria inclinada e depois por um túnel horizontal até a câmara de água; quando a fonte tinha seu regime normal, a água refluía até o fim do túnel horizontal, já dentro das muralhas. A galeria de Gibeá, recen­temente escavada, descia obliquamente até a fonte; era cavada em forma de túnel, salvo a parte central, que era um fosso profundo coberto por lajes. As obras de Etam e de Jibleão ainda não foram exploradas; a de Etam poderia estar relacionada com a fortificação da cidade por Roboão, II Cr 11.6. 

Em Jerusalém, a configuração do terreno permite um sistema muito mais prático. A velha galeria cananéia tendo sido abandonada, os israelitas cava­ram, a partir da fonte de Giom, um canal flanqueando o vale do Cedron, mas este canal ficava fora das muralhas e, em caso de cerco, teria servido ao inimi­go e não aos sitiados. Diante da ameaça de um ataque assírio, Ezequias man­dou cavar um canal em forma de túnel sob a colina do Ofel; da fonte de Giom ele levava água para um reservatório situado no vale do Tiropeom, dentro das muralhas. Foi um trabalho notável, celebrado por uma inscrição na rocha e exaltado por II Rs 20.20; II Cr 32.30; Eclo 48.17, e que ainda funciona. 

b) Em outro lugar, tentou-se atingir o lençol de água por meio de poços profundos cavados dentro da cidade. Em Bet-Shemesh, um poço de 3 metros de diâmetro descia a mais de 20 metros; cavado pelos cananeus, continuou em uso até o fim da época israelita. Sobre o cume de Tell el-Duweir, um poço protegido por uma parte saliente da muralha atingia a água em uma profundi­dade de 39 metros; provavelmente de origem cananéia, ele foi utilizado até a tomada da cidade por Nabucodonosor. Em Gezer, uma escada de mais de 40 metros descia até uma câmara onde brotava uma fonte situada ainda dentro das muralhas; o trabalho parece ter sido feito bem no início do segundo milê­nio antes de nossa era e é possível que ainda servisse no princípio da época israelita. Em Gibeá, recentemente foi descoberto um grande poço circular com uma escada que se prolonga por uma galeria inclinada e dá numa câmara onde a água sai da rocha; esse poço de Gibeá parece ter sido utilizado ao mesmo tempo que a galeria de coleta de água mencionada anteriormente. Pergunta-se como os engenheiros israelitas teriam localizado essas águas profundas antes de empreender os trabalhos consideráveis de escavação. Talvez a fonte de Gezer corresse primitivamente no flanco da colina. Em Gibeá, sua primeira Intenção talvez fosse construir uma instalação como a de Megido mas, tendo encontrado a ressumação, teriam parado aí; como o caudal assim obtido fosse muito fraco, eles teriam em seguida cavado até a galeria, indo diretamente à fonte. 

c) Podiam-se, em fim, acomodar dentro da cidade reservatórios e cister­nas. Os progressos feitos na preparação de revestimentos impermeáveis per­mitiram aos israelitas multiplicar as cisternas na medida em que o número de casas particulares ou prédios públicos aumentava. As escavações de Tell en-Nasbeh e de Samaria mostraram que elas foram particularmente numero­sas a partir do século IX a.C. Em caso de cerco, essas duas cidades não dispu­nham de outras fontes de água. 

Em Láquis, decidiu-se cavar um fosso cúbico de mais de 20 metros de lado e de profundidade, que devia drenar as águas de todo um quarteirão e especialmente das esplanadas de argamassa vizinhas à residência do governa­dor; este trabalho enorme nunca foi terminado. Ele data dos últimos tempos da monarquia; inclusive, talvez só tenha sido empreendido depois do primeiro ataque de Nabucodonosor em 597, ao mesmo tempo em que as fortificações eram reconstruídas. 


O equipamento dos soldados israelitas nos é muito pouco conhecido. Poucas armas têm sido encontradas nas escavações, os textos não as descre­vem e os nomes que eles dão a elas são pouco precisos ou têm um sentido incerto. As representações nos monumentos do Egito e da Mesopotâmia for­necem sem dúvida analogias, mas não é seguro que os israelitas tenham tido sempre as mesmas armas que seus inimigos.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.