31 de março de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia dos Profetas Menores: Os Profetas do Século VIII a.C. (Oséias, Amós, Miquéias)

Os livros dos Profetas Menores são chamados assim por causa da brevidade relativa em comparação a Isaías, Jeremias e Ezequiel, e não porque sejam menos teologicamente importantes. Os doze livros que compõem os Profetas Menores variam em data entre os séculos VIII e V a.C.:













Século VIII a.C       Século VII a.C       Século VI-V a. C       Data Incerta

Oséias                         Naum                       Joel                          Jonas

Amós                        Habacuque               Obadias

Miquéias                     Sofonias                 Ageu

                                                                 Zacarias

                                                                  Malaquias

Embora os acontecimentos registrados em Jonas tenham ocorrido no sé-
culo VIII, a data da autoria do livro é incerta. Certos estudiosos datam Joel e
Obadias mais recentemente, mas a evidência interna de ambos os livros favorece
uma data no século VI ou V a.C. A passagem de Joel 3.2,3 menciona o exílio
como um acontecimento passado, ao passo que o texto de Obadias capítulos 10
a 14 denuncia o envolvimento de Edom na queda de Jerusalém (586 a.C.).[1]

Diversos temas teológicos se sobrepõem a maioria destes profetas, especialmente nos mesmos períodos cronológicos acima esboçados. Em vez de analisarmos os profetas individualmente, faremos nosso estudo em blocos cronológicos. Ao mesmo tempo, observaremos e examinaremos os diferenciais de cada profeta. Por causa da data incerta e diferenças de arranjo e estilo, trataremos Jonas separadamente. Diferente dos outros onze livros que são primariamente coletâneas de mensagens proféticas, Jonas é uma história biográfica da experiência do profeta.

Os profetas não falaram sobre Deus em termos abstratos de filosofia ou
teologia. Falaram dEle como alguém ativamente envolvido no mundo que
Ele criou e intimamente interessado no povo do concerto. Para refletir este
elemento relacionai, cada uma das seções a seguir (com exceção de Jonas) está organizada sob os principais títulos de “Deus e o seu Povo” e “Deus e as
Nações”.

Os Profetas do Século VIII a.C.

(Oséias, Amós, Miquéias)


INTRODUÇÃO

A relação pertinente ao concerto do Senhor com o povo de Israel
é central às mensagens dos profetas do século VIII: Oséias, Amós e Miquéias. Cada um destes profetas acusou o povo de Deus de violar as obrigações do concerto mosaico e advertiu que o julgamento era iminente.
Apesar de pintarem um quadro tão desolador do futuro imediato, estes
profetas também viram uma luz luminosa ao término do túnel escuro do
castigo e exílio. Cada um previu um tempo em que o Senhor, com base
nas promessas eternas relacionadas ao concerto com Abraão e Davi, restauraria Israel a uma posição de favor e bênçãos. O julgamento vindouro
purificaria o povo de Deus, preparando o caminho para uma nova era
gloriosa na história de Israel.

Embora os esboços gerais das mensagens teológicas estejam em harmonia, cada profeta também mostra interesses distintos. Oséias, cujo
grupo-alvo era o Reino do Norte, focou a infidelidade idólatra do povo
ao Senhor do concerto, infidelidade que Ele comparou a um adultério. A
imagem vívida mostrada por Oséias dá ao leitor um vislumbre do intenso amor emocional de Deus pelo povo teimoso. O extremo desgosto que
Oséias teve no casamento contribuiu indubitavelmente para ele entender
a fundo o caráter de Deus. Amós, que também endereçou sua mensagem
para o Reino do Norte, concentrou-se em um aspecto diferente da falha
do povo — a injustiça social. A relação do Senhor com as nações, tema
secundário em Oséias, encontra maior ressonância em Amós. Miquéias
difere de Oséias e Amós, porque o seu foco primário era Judá, o Reino do
Sul. O futuro papel da dinastia davídica e da capital Jerusalém recebem
maior atenção na profecia.



DEUS E O SEU POVO

A iniciativa divina: Deus estabelece um povo do concerto. Os profetas menores do século VIII conheciam muito bem a história da relação do concerto
de Deus com Israel. O testemunho consistente era que o Senhor iniciou este
concerto. Oséias se referiu ao Senhor por “Criador” de Israel (Os 8.14). Como
Deus poderoso da criação, Ele era responsável pela existência do povo. De todas as nações da terra, o Senhor escolhera Israel para ter uma relação especial
consigo. Em Amós 3.2, o Senhor declara: “De todas as famílias da terra a vós
somente conheci”. O verbo hebraico traduzido por “conheci” (yada“) é um termo pertinente ao concerto. Nos tratados do antigo Oriente Próximo, a palavra “conhecer”, quando usada acerca de uma parte superior “conhecer” uma inferior, significava que a primeira reconhecia que o seu súdito tinha uma relação
especial com ele.[2] Encontramos uso semelhante de “conhecer” em duas passagens importantes do Antigo Testamento que lidam com relações pertinentes ao concerto (Gn 18.19; 2 Sm 7.20). Nestes versículos, o termo se refere à iniciativa divina em estabelecer um concerto e tradução melhor é o verbo “escolher”. Semelhantemente, em Amós 3.2 este verbo alude ao reconhecimento especial que Deus dá a Israel como seu povo, sendo o resultado da iniciativa e escolha soberana divina.

Todos os três profetas reportam a acontecimentos importantes na história
de salvação de Israel. O Senhor livrou o povo da escravidão no Egito (Os 11.1;
12.9; 13.4; Am 2.10; 3.1; 9.7; Mq 6.4; 7.15), o guiou com segurança pelo deserto (Os 13.5,6; Am 2.10), lhe deu líderes (Am 2.11; Mq 6.4), o levou à Terra Prometida (Mq 6.5) e derrotou os inimigos poderosos (Am 2.9,10).

Alusões temáticas e verbais a detalhes específicos da história de salvação
de Israel revelam uma familiaridade íntima com a Escritura antecedente. Por
exemplo, em Oséias, como no título aos dez mandamentos, a afirmação do Se-
nhor referente à relação do concerto está associada com o êxodo (cf. Os 12.9 e
13.4 com Ex 20.2 e Dt 5.6). Amós falou que o Senhor “[fez] subir” o povo “da
terra do Egito”, modo típico de referir-se ao êxodo na literatura mais antiga
(cf. Am 2.10 com Êx 29.2; Lv 11.45; Dt 20.1; Js 24.17). A referência em Mi-
quéias 6.4 ao Senhor “redimir” Israel “da casa da servidão” evoca a linguagem
de Deuteronômio nos capítulos 7.8 e 13.5· Entre os detalhes históricos que
os profetas citam incluem-se as ações milagrosas executadas pelo Senhor no
Egito (Mq 7.15; cf. Ex 3.20), o período de tempo (40 anos) de peregrinação
no deserto (Am 2.10; cf. Dt 8.2), o papel de Arão e Miriã como líderes (Mq 6.4), a identificação de Sitim e Gilgal como áreas de acampamento israelita
imediatamente antes e depois da travessia do rio Jordão, respectivamente (Mq
6.5; cf. Js 3.1; 4.19), e a estatura gigantesca de alguns cananeus (Am 2.9; cf.
Na 13.22,23).

O livro de Oséias emprega imagem vívida para falar da relação do Se-
nhor com o povo. O Senhor comparou o seu amor por Israel a um pai que
afetuosa e pacientemente ensina o filhinho a andar (Os 11.1-3). A imagem
pai-filho e a ênfase no “amor” espelham temas do Pentateuco, especialmente
de Dt (Êx 4.22,23; Dt 1.31; 7.8; 23.5; 32.6). O Senhor tinha deleite especial
no povo do concerto (Os 9.10; 10.1) e deu-lhe bênçãos agrícolas (Os 2.8).
Ele compara a sua bondade a um homem tirar o jugo do pescoço do boi para
alimentá-lo (Os 11.4).

A resposta de Israel: O povo de Deus rejeitou o concerto com Deus. Como
Israel respondeu ao amor eletivo e ações salvíficas de Deus a favor dEle? O próprio Senhor dá a resposta chocante a essa pergunta: “Depois, eles se fartaram
em proporção do seu pasto; estando fartos, ensoberbeceu-se o seu coração; por
isso, se esqueceram de mim” (Os 13.6). Em vez de responder ao amor de Deus
com gratidão e obediência fiel, Israel se rebelou contra a autoridade do Senhor,
voltando-se a outros deuses e rejeitando os princípios dados por Deus para go-
vernar a vida do concerto. Muito cedo na vida nacional Israel desobedeceu e
fixou o padrão para a sua história de rebeldia (Os 9.9,10; 10.9). Quanto mais
o Senhor chamava os israelitas, mais se afastavam dele (Os 11.2). Rejeitaram
os líderes que Deus deu (Am 2.12) e atribuíram as bênçãos do Senhor a Baal,
o deus cananeu da fertilidade e da tempestade (Os 2.8). Os indivíduos ganan-
ciosos maltratavam os próprios compatriotas israelitas. Apesar das advertências
proféticas (por exemplo, Os 4.15), o câncer do Reino do Norte se espalhou para
o Sul (Os 11.12; Mq 1.5-9,13; 6.16).

Primeiramente, os profetas menores do século VIII viram o pecado de Is-
rael como quebra do concerto. É o que o livro de Oséias em particular apresenta
de muitas maneiras. O Senhor declara que Israel traspassara o concerto (Os
6.7; 8.1). Eles se esqueceram (Os 4.6) e “se rebelaram contra” (Os 8.1) a sua lei,
considerando suas estipulações como “coisa estranha” (Os 8.12). Rejeitando o
concerto, Israel se rebelou contra o próprio Senhor (Os 7.13). Esta rebelião é
descrita em termos de fuga e mentira contra o Senhor (Os 7.13,14).

Fazendo um processo judicial formal contra Israel, processo relacionado
ao concerto, o Senhor observou que “não há [...] conhecimento de Deus na
terra” (Os 4.1). A palavra hebraica traduzida por “conhecimento” se refere a
um reconhecimento da autoridade de Deus expressado de modo tangível pela
obediência aos seus mandamentos. A linguagem “conhecer”, quando usada
nos tratados do antigo Oriente Próximo acerca da atitude da parte inferior à
superior, diz respeito ao súdito reconhecer a autoridade do senhor conforme
está ligada nEle. Um uso bíblico interessante desta linguagem ocorre em Je-
remias 22.15,16, onde o Senhor diz acerca de Josias: “Reinarás tu, só porque
te encerras em cedro? Acaso, teu pai não comeu e bebeu e não exercitou o
juízo e a justiça? Por isso, tudo lhe sucedeu bem. Julgou a causa do aflito e do
necessitado; então, lhe sucedeu bem; porventura, não é isto conhecer-me?”

Nesta passagem, a preocupação de Josias pela justiça social é comparada a
“conhecer” o Senhor. Isso parece estranho à mente ocidental moderna que
tende a pensar em conhecer a Deus em termos intelectuais. Josias, porém,
“conheceu” a Deus no sentido de que ele reconhecia a autoridade do Senhor
e se submetia às demandas soberanas divinas, neste caso as demandas perti-
nentes aos assuntos socioeconómicos. Israel nos dias de Oséias não possuía
tal conhecimento.

O livro de Oséias também ilustra de vários modos eficazes que Israel que-
brou o concerto. Repetidamente, a falta de fidelidade de Israel é comparada ao
adultério (Os 1.2; 2.2-13; 4.15; 5.4,7; 6.10; 9.1). Como lição prática da infi-
delidade de Israel ao “marido” divino, o Senhor instruiu que Oséias se casasse
com uma mulher que seria infiel ao profeta (Os 1.2,3). Em Oséias 6.4, o Senhor
comparou a “beneficência” (ou “amor”, RA; ou “fidelidade”) de Israel à “nuvem
da manhã” e ao “orvalho da madrugada” que logo desaparecem. Toda devoção
por parte de Israel era na melhor das hipóteses efêmera. Israel era como uma
“vaca rebelde”, solícita em procurar idolatria (Os 4.16).

Miquéias e Amós também viram a essência do pecado de Israel como que-
bra do concerto. Em Miquéias 6.1-8, o Senhor confrontou Judá pecador na
forma de processo judicial pertinente ao concerto (cf. Os 4.1). Em Amós 2.4,
ele declara especificamente que Judá rejeitara a lei e não guardara os “estatu-
tos”. Em Amós 2.4,6, a palavra hebraica usada para referir-se às “transgressões”
(pesa) de Judá e Israel diz respeito à rebelião. O verbo relacionado ocorre em
contextos políticos, sendo usado acerca da rebelião de um estado súdito e que-
bra das disposições do tratado (cf. 2 Rs 1.1; 3.5,7).

Todos os três profetas apresentaram ampla evidência de que Israel quebra-
ra o concerto mostrando pecados específicos muitos dos quais eram violação fla-
grante da legislação do Pentateuco.[3] Oséias acusou o Reino do Norte de quebrar
o primeiro e o segundo mandamento do decálogo. Como esposa adúltera, Israel
se voltou a outro amante, o deus Baal (Os 2.2-13). Adorando esta falsa deidade,
os israelitas se engajaram em prostituição ritual (designada a assegurar fertili-
dade; cf. Os 4.10-19), ritos de luto pagãos (cf. Os 7.14) e idolatria (Os 8.4-6;
10.1,2,5,6,8; 11.2; 13.1,2). O livro de Amós, ainda que não tenha enfatizado
este aspecto da rebelião de Israel, menciona a adoração de falsos deuses em pelo
menos duas passagens (Am 5.26; 8.14).’ Miquéias, como Oséias, comparou a
idolatria do Reino do Norte a adultério (Mq 1.6,7) e criticou Judá por seguir o
exemplo do Norte (Mq 1.5; 5.12-14).

O processo judicial pertinente ao concerto apresentado por Oséias (Os
4.2), menciona violações de cinco mandamentos do decálogo: falso juramento,
falso testemunho legal, assassinato (cf. Os 6.8,9), roubo (cf. Os 7.1,2) e adul-
tério. A esta lista, Miquéias acrescenta desrespeito aos pais, uma violação do
quinto mandamento (Mq 7.6). Ao que parece, os israelitas observavam o quarto
mandamento, que trata do sábado (Os 2.11). Entretanto, o desejo de que o dia
santo terminasse para poderem pôr em execução seus planos cobiçosos tornava
a observância do sábado nula (cf. Am 8.5). É lógico que a fidelidade à letra
do regulamento sabático foi negada pela violação do décimo mandamento que
proibia a cobiça. O sábado comemorava a libertação de Israel da opressão no
Egito e tinha de ser uma lembrança das obrigações sociais (Dt 5.12-15). Passar
o dia planejando e prevendo medidas opressivas era uma perversão cabal do
espírito da lei sabática.

A manifestação mais clara da cobiça ocorreu na forma de injustiça social que envolvia práticas econômicas e legais desonestas. Considerando que Oséias
mencionou este pecado só brevemente (cf. Os 12.6,7), Amós, no Norte, e Mi-
quéias, no Sul, o tornou ponto central para as suas acusações contra o povo. Há
referência específica à venda dos pobres (Am 2.6; 8.6), roubo de propriedades
(Am 2.8; Mq 2.1,2,8), pesos e medidas fraudulentos (Am 8.5; Mq 6.10,11; cf.
Lv 19.35,36 e Dt 25.13-15), negação ou perversão da justiça legal devida aos
pobres (Am 2.7; 5.7,10; 6.12; Mq 3.1-3; cf. Lv 19.15), inclusive a aceitação de
subornos (Am 5.12; Mq 3.9-11; 7.3; cf. Êx 23.8 e Dt 16.19) e a vida de luxo às
custas dos pobres (Am 3.15; 4.1; 5.11; 6.4-6).

O fato de os ricos acumularem propriedades em total descaso com os direi-
tos e necessidades dos irmãos do concerto era uma negação prática e descarada
da propriedade da terra do Senhor. Era também desconsideração aos princípios
relacionados ao concerto que estipulavam acesso igual à terra que Deus dera e
pouco caso à responsabilidade pelo bem-estar do próximo. A lei ensinava que
a terra pertencia a Deus, não ao povo que, como servos de Deus (Lv 25.55),
eram meros “estrangeiros” e “peregrinos” nela (Lv 25.23). Deus deu a terra
para os israelitas a fim de que prosperassem e desfrutassem da sua abundância
(Lv 25.2,38; Dt 26.9). Deus distribuiu uma porção da terra para cada tribo.
Era proibida a venda permanente de terras (Lv 25.23,24) e havia provisão legal
para a continuação do ideal original. Idealmente, a obediência à lei impediria a
pobreza na sociedade (Dt 15.4,5). Entretanto, o Senhor previu realisticamente
a presença de alguns indivíduos pobres na terra (Dt 15.11). Insistiu que fossem
tratados com bondade e generosidade (Dt 15.7-11). A fidelidade a estes e os ou-
tros princípios do concerto faria de Israel um modelo de justiça socioeconômica
entre as nações (Dt 4.5-8).

Em lugar de ser um exemplo para as nações, os pecados de Israel excede-
ram os dos gentios. Amós deixou claro que o Reino do Norte, ainda que orgu-
lhoso de sua história e recentes sucessos sob o reinado de Jeroboão II, era mais
ofensivo aos olhos de Deus do que as nações vizinhas. Em Amós 1.3 a 2.5, o Senhor denunciou em sucessão os pecados das sete nações que rodeiam o Reino
do Norte. Usou, em cada caso, a fórmula introdutória: “Por três transgressões...
e por quatro, não retirarei o castigo”. Curiosamente, porém, não mais que dois
pecados específicos são esboçados nos sete oráculos. Para a extrema surpresa e
pesar do público do Norte que deve ter escutado com prazer o anúncio do profe-
ta de destruição dos inimigos, Amós concluiu a mensagem com um prolongado
pronunciamento de julgamento contra o Norte. Somente desta vez a esperada
lista de quatro pecados acompanha a fórmula introdutória e estereotipada. O
propósito da primeira série de listas incompletas fica claro. O Senhor buscou
realçar os pecados do Reino do Norte e enfatizar a culpa relativa. Se fôssemos
compilar listas dos pecados das nações, a lista de Samaria se completaria antes
de todas as outras.

Apesar da quebra do concerto por parte de Israel, o Norte e o Sul mantive-
ram uma semelhança de religião e adoração. No Norte, os adoradores freqüentavam regularmente os locais de culto como Gilgal e Betel, celebrando festas, oferecendo sacrifícios e proferindo afirmações piedosas de lealdade (cf. Os 4.15; 5.6; 8.2,11,13; Am 4.4,5; 5.21-25). Em Judá também há ênfase no ritual sacrificatório como base para o acesso a Deus (Mq 6.6,7).

O Senhor declarou que este formalismo externo era totalmente ineficaz
e hipócrita. Além de estar contaminada pelo sincretismo com as práticas ca-
nanéias, esta religião foi invalidada pela injustiça social supramencionada que
se alastrou generalizadamente. Os sacrifícios poderiam ser um elemento sig-
nificativo na relação de Israel com Deus se fossem oferecidos na estrutura de
fidelidade genuína a Deus (Os 6.6) e amor aos irmãos (Os 12.6). Em Amós 5.4,
o Senhor ordenou: “Buscai-me e vivei. Mas não busqueis a Betel, nem venhais a
Gilgal, nem passeis a Berseba”. Alguns versículos mais à frente, o profeta elabo-
rou sobre o significado desta ordem: “Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e assim o Senhor, o Deus dos Exércitos, estará convosco, como dizeis. Aborrecei o mal, e amai o bem, e estabelecei o juízo na porta” (Am 5.14,15a). Buscar ao Senhor significava promover a justiça e rejeitar a hipocrisia ligada ao culto em Betei e outros centros de adoração. Miquéias informou ao povo de Judá: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?” (Mq 6.8). Antes de fazer sacrifício, pouco importando quão dispendioso fosse (cf. Mq 6.6,7), o Senhor exigia que o ofertante andasse humildemente diante dele promovendo a justiça e benevolência.

Rejeitando o formalismo hipócrita e acentuando a importância da fide-
lidade nas relações pessoais com Deus e os homens, os profetas compõem um
princípio teológico que permeia a Bíblia inteira. Nenhuma relação vital com
Deus é possível se formos infiéis às responsabilidades que procedem das relações dadas por Deus com os membros da raça humana. Todos os tipos de exercícios devocionais e religiosos dirigidos a Deus, inclusive os sacrifícios e a oração, são fúteis sem esta fundação relacional. Não causa surpresa, então, que Tiago se preocupasse com “os órfãos e as viúvas”, um dos pilares duplos da verdadeira religião (Tg 1.27). Jesus disse aos fariseus que a justiça era mais importante que os dízimos (Mt 23.23) e ensinou que a reconciliação com o irmão tinha prioridade sobre as ofertas religiosas (Mt 5.23,24). Advertiu que a disposição em perdoar os outros era fundamental para experimentar o perdão de Deus (Mt 6.14-15). Pedro falou que o marido que trata impropriamente a esposa tem suas orações impedidas (1 Pe 3.7). João explicou que a nossa reação às necessidades materiais e físicas dos cristãos revela se a fé que professamos é genuína ou não (1 Jo 3.16-20).

Além da idolatria e injustiça social, outro sinal claro da rebelião de Israel
contra o Senhor do concerto foi a rejeição da nação à palavra que ele deu pe-
los profetas. Falando para o Reino do Norte, o Senhor observou que o povo
ordenara aos profetas: “Não profetizeis” (Am 2.12). Amós, que foi escolhido
pelo Senhor (Am 7.14,15), sofreu tal rejeição. Amazias, o sacerdote de Betel, o santuário da realeza, disse-lhe especificamente: “Não profetizarás contra Israel,
nem falarás contra a casa de Isaque” (Am 7.16). De acordo com Oséias, os pro-
fetas do Senhor eram considerados tolos delirantes e tratados com hostilidade
(Os 9.8,9). No Reino do Sul as coisas não eram melhores. O povo mandou
que os profetas se calassem (Mq 2.6) e só dava ouvidos àqueles que previssem
prosperidade (Mq 2.11). O próprio ofício profético ficara corrompido, estando
cheio de mercenários (Mq 3.5).

De acordo com Oséias, o Reino do Norte rejeitara a orientação do Senhor
sobre os assuntos nacionais e internacionais. Intrigas e violências cercavam o
trono (Os 7.3-7). Não havia tentativa de adquirir o consentimento do Senhor
na escolha de pessoas de posição (Os 8.4). A política externa do Norte estava
baseada em alianças com outras nações e não na confiança da habilidade do
Senhor para proteger e livrar (Os 5.13; 7.8-11; 8.9,10; 12.1).

Todos os três profetas denunciaram Israel por sua atitude arrogante e au-
to-suficiente. No Norte, a autoconfiança estava baseada nos sucessos militares
(Am 6.13), força militar (Os 10.13), fortalezas seguras (Os 8.14; Am 6.8) e
riquezas abundantes (Os 12.8) da nação. No Sul também prevalecia uma falsa
dependência na força militar e fortificações (Mq 5.10,11).

Resumindo, Israel quebrara a relação de concerto com Deus. A idolatria e
injustiça social eram generalizadas, tornando hipócrita cultuar o Senhor pelos
meios formais e ritualistas inaceitáveis a Ele. Em vez de ouvirem a palavra do
Senhor dada pelos profetas e confiarem na orientação e proteção que Ele dis-
ponibilizava, os israelitas rejeitaram os profetas e recorreram a planos e forças
próprias.

A resposta divina: Deus julga o povo do concerto desobediente. Reagindo à
violação descarada e persistente de Israel às estipulações do concerto, o Senhor
anunciou pelos profetas que o julgamento sobre viria o povo desobediente. Os
profetas viram o julgamento do Senhor sobre Israel como aplicação das maldições ou ameaças contidas no concerto, cujas listas mais completas estão em Levítico 26.14-39 e Deuteronômio 28.15-68. Moisés advertiu especificamen-
te que estas maldições ocorreriam por quebra de concerto (Lv 26.14-16; Dt 28.15). A maioria das maldições se divide nestas categorias: (1) Seca, peste e a
resultante fome (Lv 26.18-20; Dt 28.16-24,38-42), (2) doença (Lv 26.16; Dt
28.21,22,27,35,59-61), (3) invasão e derrota militar (Lv 26.17; Dt 28.25,49-
51), (4) matança e carnificina (Dt 28.26), (5) destruição de cidades e falsos
locais de adoração (Lv 26.30,31; Dt 28.52) e (6) exílio em uma terra estrangeira
(Lv 26.33-39; Dt 28.36,37,42,63-68).

Encontramos a maioria desses temas nos anúncios de julgamento feitos
por Oséias, Amós e Miquéias. Oséias enfatizou particularmente a perda de fer-
tilidade que devastaria o Reino do Norte. O Senhor retiraria as bênçãos agrí-
colas que Ele dera a povo, porque atribuíram equivocadamente tais dádivas a
Baal, deus cananeu da tempestade e da fertilidade (Os 2.2-13). A seca tomaria conta da terra (Os 4.3; 13.15). Amós disse que o Senhor era como aquele que,
com um rugido poderoso, pode fazer com que as regiões mais férteis definhem
(Am 1.2).

Porque os habitantes do Norte tinham buscado promover a fertilidade
humana adorando Baal, o Senhor anunciou por Oséias que muitas mulheres
seriam estéreis. As que dessem à luz, veriam seus filhos massacrados pelas forças invasoras (Os 9.11-17). Ao longo desta fala de julgamento, o Reino do Norte é citado ironicamente como “Efraim”, o nome de um dos filhos de José, a quem foi prometido descendência numerosa (Gn 48.15-20). Esta promessa se inverteria agora. Todos os três profetas descreveram em detalhes vívidos e horripilantes a derrota militar (Os 5.8; 11.6; Am 2.13-16; 5.1-3; 6.8; Mq 1.8-16; 5.10), o massacre (Os 10.14; 11.6; Am 6.9,10; 7.17) e o extermínio (Os 5.9; 10.14; Am 3.11,14,15; 6.11; 7.9; Mq 1.6,7; 3.12) que Samaria e Judá sofreriam.

Cada profeta também anunciou o exílio do povo de Deus (Os 8.13;
9.3,6,15,17; 10.6; 11.5; 12.9; Am 4.1-3; 5.27; 6.7; 7.17; 9.9; Mq 4.10). Enquan-
to que Amós designou vagamente que o lugar do exílio era “para além de Damasco” (Am 5.27; cf. Am 4.3), Oséias foi mais específico, definindo que a Assíria era o local (Os 10.6; 11.5). Oséias também mencionou um retorno ao Egito (Oséias 8.13; 9.3,6). O propósito da profecia era mais simbólico que literal, visando mostrar que a história de salvação de Israel seria invertida. Miquéias, ao mesmo tempo que via que a Assíria era o inimigo (Mq 5.5,6) e o lugar do exílio (Mq 7.12), disse especificamente que a Babilônia era o destino dos exilados de Judá (Mq 4.10).
Esta distinção entre a Assíria e a Babilônia, quer ou não inteiramente clara para
Miquéias (em seus dias a Assíria regia sobre a Babilônia), previu os verdadeiros
acontecimentos históricos. Considerando que o Reino do Norte foi derrotado
pelos assírios em 722 a.C., Judá sobreviveu até 586 a.C., quando os babilônios
saquearam Jerusalém e levaram muitos ao exílio.

Embora o julgamento anunciado pelos profetas fosse severo, também foi
perfeitamente apropriado e justo. Oséias declarou claramente o princípio de que o castigo corresponderia ao pecado: “O Senhor também com Judá tem
contenda e castigará Jacó segundo os seus caminhos; segundo as suas obras, o
recompensará” (Os 12.2).

Ao longo dos escritos, os profetas enfatizaram esta característica do julga-
mento divino por meio de combinação de imagens verbais e jogos de palavras. Por exemplo, os que teimassem em buscar fertilidade adorando a Baal seriam, adequadamente, privados de fertilidade. Os que buscassem manter a segurança nacional através de alianças estrangeiras seriam aniquilados por esses mesmos “aliados”.
Os profetas corruptos, cujo motivo exclusivo era o sucesso financeiro, não rece-
beriam mais revelação divina e seriam forçados a cobrir o rosto num silêncio de
vergonha (Mq 3.5-7). Os ricos que encheram os depósitos com ganho desonesto
presenciariam os estrangeiros saquearem esses mesmos locais (Am 3.9-11). Estes mesmos indivíduos abastados, que às custas dos pobres edificaram finas mansões e plantaram vinhas luxuriantes, não morariam nessas casas ou beberiam o vinho dessas vinhas (Am 5.11). Já que os ricos roubaram os campos do pobre, eles assistiriam impotentemente os estrangeiros tomarem deles esses mesmos campos (Mq 2.1-5). Os “que têm nome entre as primeiras [re sit] nações”, que usavam nada mais que “o mais excelente [re’sit\ óleo” para se ungirem, seriam, adequadamente, os “primeiros [re ’sit\ ” a ir “em cativeiro” (Am 6.1,6,7). Os que “fugiram” (nadad) do Senhor, “desocupados [nadad, novamente]” andariam “entre as nações” (cf. Os 7.13 com Os 9.17). A nação cuja fidelidade ao Senhor era tão passageira quanto a “nuvem da manhã” e o “orvalho da madrugada” desapareceria no exílio como a “nuvem de manhã” e o “orvalho da madrugada” que desaparece diante da luz e calor do sol (cf. Os 6.4 com Oséias 13.3).

O julgamento vindouro inverteria a história de salvação de Israel. Como
já comentado, Oséias falou figurativamente de um retorno ao Egito que seria
equivalente a uma reversão da poderosa libertação do êxodo (cf. Dt 28.68). Por
meio de Amós, o Senhor advertiu que o Reino do Norte seria oprimido por seus
inimigos “desde a entrada de Hamate até ao ribeiro da planície” (Am 6.14).
A palavra hebraica traduzida pelo verbo “oprimir” era usada para referir-se à
opressão egípcia (cf. Ex 3.9; Dt 26.7). As fronteiras geográficas mencionadas
correspondem às dadas pelo Senhor a Israel durante o tempo de Jeroboão II
(cf. 2 Rs 14.25-27). O autor de Reis disse especificamente que a conquista de
Jeroboão desta região foi um ato de salvação divina (cf. 2 Rs 14.27). Tudo isso
seria revertido agora. Israel voltaria a ser oprimido por um poder estrangeiro e a
terra ganha na batalha seria tirada. De acordo com Amós 5.5, Gilgal, a primeira
área de acampamento de Israel depois da travessia do rio Jordão e símbolo da
posse da terra prometida (cf. Js 4.19-—5.12), iria em cativeiro. Miquéias 2.4,5
fala de uma reversão da partilha da terra original feita por Josué. Por terem os
ricos roubado a terra dos pobres, eles veriam sem defesa essa terra ser designada
às forças invasoras. A palavra hebraica traduzida por “reparte” (halaq) era usada
para referir-se à repartição da terra que Josué fez originalmente aos israelitas
(Js 13.7; 18.10).

De acordo com Amós, esta reversão futura da história de salvação era o
oposto do que o Reino do Norte previra. Ao que parece, muitos no Norte aguar-
davam ansiosamente a chegada em breve do “dia do Senhor”, no qual o Senhor
interviria contra os inimigos da nação e a conduziria a maior glória (Am 5.18).
Esta expectativa estava indubitavelmente baseada nos recentes sucessos de Jero-
boão II, já citados. Amós, porém, declarou incisivamente que a visão do Reino
do Norte sobre o dia do Senhor era inexata. O Senhor realmente interviria com
poder, mas Israel, não os seus inimigos, seria o objeto primário do julgamento
irado de Deus. O dia do Senhor seria caracterizado por trevas (simbolizando
julgamento) em lugar de luz (simbolizando salvação). Seria um tempo de julga-
mento inevitável (Am 5.19) culminando com o exílio (Am 5.27).

Ê evidente que o conceito do dia do Senhor, que ficou tão saliente nos es-
critos dos Profetas Menores, não foi visto por Amós em termos universais ou de
longo alcance. Mais exatamente, diz respeito a um evento específico no futuro
imediato, isto é, a ruína que se aproximava do Reino do Norte e que aconteceu
em 722 a.C., cerca de 40 anos depois que Amós profetizasse.

O futuro julgamento do dia do Senhor colocaria Israel no papel dos seus
inimigos tradicionais. Em Amós 5.17, o Senhor declarou que ele passaria pelo
meio do Reino do Norte. A linguagem usada relembra Êxodo 12.12, onde o
Senhor advertiu: “Eu passarei pela terra do Egito esta noite e ferirei todo pri-
mogênito na terra do Egito”. As palavras do Senhor em Amós 5.17 representam
uma guinada irônica na sua relação com o povo. Agora ele o trataria da mesma
maneira que tratara os egípcios nos dias de Moisés. Miquéias e Oséias aplica-
ram a linguagem tradicionalmente associada com a conquista israelita da terra
prometida ao julgamento futuro do povo de Deus. Em Miquéias 1.7, o Senhor
anunciou que os ídolos — as imagens de escultura — de Samaria seriam “des-
pedaçados” e “queimados pelo fogo”. E exatamente o que Moisés fez ao bezerro
de ouro (Dt 9.21) e o que Israel teria de ter feito aos ídolos cananeus (Dt 7.5,25;
12.3). Ironicamente, Deus foi forçado a fazer a Israel o que Israel deveria ter fei-
to aos seus inimigos. Em Oséias 9.15, o Senhor advertiu: “Lançarei [Israel] fora
de minha casa” (ou seja, da Terra Prometida; Os 8.1; 9.8). A palavra hebraica
traduzida por “lançarei” é freqüentemente usada para referir-se a Deus expulsar
os cananeus de diante de Israel (Êx 23.29,30; 33.2; Dt 33.27; Js 24.18; Jz 6.9).
Porque o povo de Deus assimilara os costumes cananeus, agora o Senhor os
trataria como os cananeus, expelindo-os da Terra Prometida. Tendo se tornado
como os gentios, agora seriam forçados a peregrinar entre eles (Os 9.17).

Entretanto, mesmo no meio dos pronunciamentos de julgamento severos
que os profetas deram, a preocupação de Deus pelo povo é proeminente. De
acordo com Amós 4.6-11, o Senhor castigara anteriormente o Reino do Norte
com o propósito de levar o povo ao arrependimento. Mesmo no contexto dos
anúncios aparentemente incondicionais de julgamento, Oséias e Amós emiti-
ram chamadas ao arrependimento (cf. Os 12.6; 14.1-3; Am 5.4-6,14,15,24).
Ambos ensinam que o arrependimento genuíno requer a promoção ativa da justiça social. Miquéias não incluiu tal apelo nas mensagens entregues a Judá.
Contudo, a profecia aparentemente inflexível de extermínio tinha uma con-
dicionalidade implícita, como mostra a comparação de Miquéias 3.12 com
Jeremias 26.17-19. Nos dias de Jeremias, os anciãos da terra lembraram que
a reação de arrependimento externada por Ezequias diante da advertência de
Miquéias adiara a ruína de Judá.

Com o julgamento, o Senhor tinha o propósito de purificar e restaurar o
povo. Em Oséias 2, ele deixa claro que o exílio, comparado à volta ao deserto,
daria oportunidade de renovação quando Israel viesse a perceber que o Senhor,
e não Baal, fora o responsável pelas bênçãos da nação no passado. De acordo
com Amós 9.9,10, o julgamento próximo destruiria “os pecadores” entre o povo
do Senhor. Miquéias anunciou que o julgamento era um tempo de purificação, quando seriam eliminadas para Judá as falsas fontes de confiança e objetos de
adoração (Mq 5.10-14).

O Senhor estava irado com o povo desobediente, mesmo assim declarou
que jamais poderia aniquilá-los totalmente. Embora as maldições do concerto
advertissem que a desobediência ocasionaria destruição tão terrível a ponto de
rivalizar com a de Sodoma e Gomorra (cf. Dt 29.23), o Senhor afirmou que Ele
nunca iria a tais extremos. A compaixão do Senhor foi despertada, impedindo-
lhe de eliminar o seu povo da face da terra (Os 11.8,9). Esta mudança emo-
cional de ira para compaixão é realçada por um jogo de palavras que envolve o
termo hebraico hapak, “revolver”, “virar ao contrário” (traduzido por “mudado”
em Os 11.8). E a mesma palavra usada para descrever o ato de Deus destruir
(lit., “revolver”) Sodoma e Gomorra (cf. “derribou”, Gn 19.24,25; “destruição”,
Dt 29.23). Em Oséias 11.8, porém, é a compaixão de Deus, não o povo, que
está “mudado” (ou “revolvido”; “comovido”, RA).

A fidelidade divina: Deus restaura o povo do concerto. As mensagens dos
profetas menores do século VIII não terminam com julgamento. Todos os três
previram um tempo de restauração para Israel. A própria estrutura das mensa-
gens espelha esta ênfase positiva. O livro de Oséias está organizado em cinco
ciclos ou painéis, cada um movendo-se do julgamento para a salvação:



Ciclo ou Painel           Julgamento                Salvação

1                                  Oséias 1.2-9            Oséias 1.10—2.1

2                                 Oséias 2.2-13            Oséias 2.14—3.5

3                                 Oséias 4.1—5.14       Oséias 5.15—6.3

4                                 Oséias 6.4—11.7       Oséias 11.8-11

5                               Oséias 11.12—13.16   Oséias 14.1-9 


Por oito capítulos e meio a mensagem de Amós é de destruição. Mas, de repente, Ele promete a restauração da glória e bênçãos para Israel (Am 9.11-15). 



O livro de Miquéias contém três ciclos de julgamento-salvação:



Ciclo ou Painel                Julgamento                Salvação

1                                 Miquéias 1.2—2.11        Miquéias 2.12,13

2                                  Miquéias 3.1-12             Miquéias 4—5

3                                  Miquéias 6.1—7.7        Miquéias 7.8-20 




Embora alguns estudiosos questionem a autenticidade das seções de salva-
ção, o movimento do julgamento para a restauração não ocorre como surpresa.

Muito antes dos profetas, o Senhor revelou a Moisés que Israel desobedeceria e iria em cativeiro (cf. Dt 31.19—32.43). Moisés, porém, prometeu que o arrependimento ocasionaria o fim do exílio, a restauração das bênçãos divinas e a transformação do caráter do povo (Dt 30.1-10). A visão dos profetas da salvação última de Israel é consistente com a de Moisés.

Oséias e Miquéias aguardavam ansiosamente o dia em que o povo de Deus
se arrependeria, tornando possível a restauração (cf. Dt 30.2,3). De acordo com
Oséias 5.15, o Senhor previu um tempo em que os israelitas, tendo sofrido o
castigo (cf. Os 5.14), se reconheceriam culpados e o buscariam. Naquele tem-
po, o povo de Deus se encorajaria mutuamente para voltar ao Senhor (Os 6.1)
e reconhecer o domínio divino (Os 6.3). O capítulo 7 de Miquéias fala que o
Israel derrotado e exilado reconhece que é pecador (Mq 7.9) e confia em Deus
para ser restaurado (Mq 7.9,18-20).

Claro que a eficácia do arrependimento está baseada no caráter compassi-
vo e misericordioso do Senhor, mencionado por Oséias e Miquéias. Em Oséias
14.2,3, o profeta exortou o povo a buscar o perdão do Deus que mostra compai-
xão pelos indefesos e desamparados. Em Miquéias 7.18-20, o Israel arrependido
louvou a Deus por sua justiça: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas
a iniqüidade e que te esqueces da rebelião do restante da tua herança? O Senhor
não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na benignidade. Tornará
a apiedar-se de nós, subjugará as nossas iniqüidades e lançará todos os nossos
pecados nas profundezas do mar. Darás a Jacó a fidelidade e a Abraão, a benig-
nidade que juraste a nossos pais, desde os dias antigos”. Estes versículos mos-
tram que o perdão de Deus foi na verdade uma manifestação da sua fidelidade
a Abraão, Isaque e Jacó (cf. Gn 22.16; 26.3; 50.24).

Os profetas menores do século VIII previram o cumprimento da promessa
de Deus a Abraão. Os elementos essenciais nesta promessa eram a descendência
numerosa (Gn 22.17), a vitória sobre os inimigos (Gn 22.17), a posse da Terra
Prometida (Gn 12.7; 15.18-21; 17.8) e a bênção universal por meio da descen-
dência de Abraão (Gn 22.18). Cada um destes elementos consta nas visões proféticas do futuro glorioso de Israel. Primeiro, Oséias e Miquéias se referiram à força numérica do Israel escatológico. Oséias, aludindo a Gênesis 22.17, profe-
tizou que os israelitas restabelecidos seriam como “como a areia do mar, que não pode medir-se nem contar-se” (Os 1.10). Em Miquéias 4.7, o Senhor, aludindo a Gênesis 18.18, predisse que do remanescente ele formaria uma “nação poderosa”. Segundo, Amós e Miquéias aguardavam ansiosamente o predomínio militar de Israel sobre os inimigos. Nos fins dos tempos, Israel possuirá “o restante de Edom e todas as nações” (Am 9.12). O tema da superioridade escatológica de Israel diante dos inimigos permeia Miquéias (Mq 4.12,13; 5.5-9; 7.10,16,17). Terceiro, todos os três profetas mencionam que Israel repovoará a terra prometida. Em particular, Amós 9.15 destaca a permanência desta restauração. O Senhor prometeu: “E os plantarei na sua terra, e não serão mais arrancados da sua terra que lhes dei, diz o Senhor, teu Deus”. Quarto, Miquéias 4.14 descreve a extensão das bênçãos de Deus a todas as nações através de Israel.

Para os profetas menores do século VIII, a restauração futura de Israel
reverteria o julgamento de Deus e seus efeitos negativos. E o que vemos mais
claramente nos capítulos iniciais de Oséias, nos quais o Senhor instruiu que o
profeta desse aos filhos nomes simbolizando a rejeição divina do Reino do Nor-
te. O nome “Jezreel” indicava a iminente derrota militar da nação. Lo-Ruama,
que significa “não amada”, simbolizava que o Senhor já não mostraria compai-
xão pelo Reino do Norte, ao passo que Lo-Ami, que quer dizer “não meu povo”,
indicava a cessação da relação do concerto (Os 1.2-9). Entretanto, na mensagem
de salvação imediatamente a seguir (Os 1.10—2.1), o Senhor afirmou que viria
o tempo em que ele mostraria compaixão novamente por Israel e de novo os
chamaria “meu povo” (ver também Os 2.23b e cf. Os 9.15 com Os 14.4). O
nome “Jezreel”, que significa literalmente “Deus planta”, também assume uma
significação positiva, simbolizando que o Senhor está “plantando” o povo na
terra prometida (cf. Os 1.11 e Os 2.23).

Oséias, recuperando a sua esposa adúltera, Gomer, ilustrou pessoalmente
esta reversão na relação de Israel com o Senhor (Os 3.1-5). Da mesma manei-
ra, o Senhor faria com Israel, a sua noiva, cortejando-a com todo o vigor de
um jovem romântico (Oséias 2.14) e então contraindo casamento com ela (Os
2.19,20). A esposa infiel (Os 2.2-5) seria transformada em uma nova noiva.
Todos os traços da antiga infidelidade seriam removidos (Os 2.16,17). A relação
quebrada não seria consertada; seria completamente transformada e renovada.

Oséias também enfatiza esta reversão na relação do Senhor com Israel me-
diante um jogo de palavras. Em Oséias 13.7, o Senhor se descreveu como um
leopardo, espreitando o caminho pronto a lançar-se sobre o seu povo pecador
em julgamento. Em Oséias 14.8, que prevê o tempo da restauração de Israel,
o Senhor prometeu que Ele cuidaria do povo, protegendo-os e abençoando-os.
“Espiarei” (em Os 13.7) e “cuidarei” (em Os 14.8, RA; “considerarei”, RC) são
tradução do mesmo verbo hebraico (sur). A repetição desta palavra, embora em
sentido diferente, nos chama a atenção para a reversão na atitude do Senhor. O predador feroz de Oséias 13.7 se tornaria o protetor beneficente e alerta de
Israel.

O exílio, o mais terrível efeito do julgamento, seria revertido. Em Oséias 1110,11, Deus prometeu: “Andarão após o Senhor; ele bramará como leão;
bramando ele, os filhos do Ocidente tremerão. Tremendo, virão, como um pas-
sarinho, os do Egito, e, como uma pomba, os da terra da Assíria, e os farei
habitar em suas casas”.

Vários detalhes nesta passagem apontam uma reversão de julgamento. Do
Egito e da Assíria, mencionados por Oséias como o destino dos exilados, os
israelitas voltariam à pátria (Os 8.13; 9.3,6; 10.6; 11.5). Os temas do leão e da
pomba, usados em outros lugares do livro em contextos de julgamento, agora
são usados de modo positivo. Em outros textos do livro, o Senhor se compara a um leão feroz que violentamente ataca a presa (Os 5.14; 13.7,8). Agora, po-
rém, Ele é mais parecido com o personagem Aslam de C. S. Lewis, que, com o
seu rugido poderoso, chama os filhos do exílio. Em Oséias 7.11,12, o Senhor,
comparando-se a um caçador de aves, declarou que capturaria com rede Israel, a
“pomba enganada”. Em Oséias 11.11, porém, a imagem da pomba é usada para
descrever a velocidade do retorno de Israel à sua pátria.

O livro de Amós, que profetiza o exílio do Reino do Norte em termos in-
cisivos (Am 4.1-3; 5.27; 6.7; 7.17; 9.9), também prevê o retorno do exílio. Em
Amós 9.14,15, o Senhor prometeu restabelecer a sorte do povo e plantá-lo mais
uma vez na Terra Prometida para nunca mais tirá-lo de lá.

Miquéias também previu um tempo em que o povo de Deus voltaria do
exílio na Mesopotâmia e Egito (Mq 4.10; 7.12). Em Miquéias, os exilados são
o “restante” (ou seja, o remanescente) que “coxeava” e fora “maltratado” (Mq 4.6). O Senhor, porém, juntaria este remanescente como um rebanho de ove-
lhas e o tiraria do cativeiro (Mq 2.12,13). Em alusão óbvia ao êxodo do Egito,
Miquéias predisse: “Irás até Babilônia; ali, porém, serás livrada; ali te remirá o
Senhor da mão de teus inimigos” (Mq 4.10b).

Na futura era de ouro, a independência política e a força militar da na-
ção seriam restabelecidas. O julgamento trouxe ruína e humilhação para os
reis e exércitos do Norte e do Sul (Os 10.3,7,15; 13.10,11; Am 7.9; Mq 4.9; 5.1). Nos fins dos tempos, as doze tribos de Israel seriam reunidas (Os 1.11;
Am 9.11-15; Mq 5.3) sob o reinado de um novo Davi (Os 3.5; Am 9.11;
Mq 5.2-6). O Israel rejuvenescido conquistaria os inimigos (simbolizados pe-
los inimigos tradicionais de Edom e Assíria; Am 9.12; Mq 4.11-13; 5.3-9;
7.10,16,17).

Considerando que Oséias e Amós aludiram apenas brevemente à restaura-
ção do reinado davídico sobre todo o Israel, Miquéias, cuja profecia foi dirigida
principalmente a Judá, compreensivelmente dedicou mais atenção a este tema.
Como Amós, ele previu a humilhação da dinastia davídica (Mq 5.1; cf. Am 9.11). Ironicamente, o “juiz” (sopet) davídico seria golpeado no queixo com
uma “vara” (sebet), símbolo de realeza e autoridade. Apesar deste retrocesso, o trono davídico voltaria a ter a sua primeira glória quando Deus cumprisse as
promessas do concerto a Davi (c£ 2 Sm 7.8-16).

Como Oséias (Os 3.5), Miquéias previu uma segunda vinda de Davi (cf.
Jr 30.9; Ez 34.23,24; 37.24,25). Ao que parece, este é o significado da famosa
profecia registrada em Mq 5.2: “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre
milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas origens são
desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade”. A associação do futuro
rei com Belém e a referência às suas origens estarem nos tempos antigos dão a
entender que a reaparição do próprio Davi está em vista.[4] Claro que esta é uma predição messiânica. Outros profetas (por exemplo, Isaías em Is 9.6,7; 11.1,10)
e a revelação bíblica subseqüente deixam claro que estas referências a Davi se
cumpriram no Messias que, como o Filho de Davi, reinará no espírito e poder
do seu ilustre antepassado.

Em Miquéias 5.2, a atenção é dada à insignificância relativa de Belém
entre os clãs de Judá. Ironicamente, o rei escolhido do Senhor surgiria desta pe-
quena cidade. Este padrão de Deus elevar o pequeno e insignificante ocorre em
outros textos do Antigo Testamento (Gn 25.23; 48.14; Jz 6.15; 1 Sm 9.21).

Este rei, que surge de tais origens humildes, protegerá o povo como um
pastor (o mesmo foi dito acerca de Davi; 2 Sm 5.2; SI 78.71,72). Reinando
pelo poder do Senhor, a sua fama alcançará proporções universais (Mq 5.4).
Ele e o vice-regente evitarão que o mais poderoso dos inimigos de Israel
(simbolizado aqui pela Assíria, o inimigo tradicional de Israel) invada a
terra (Mq 5.5,6).

Junto com a restauração do rei davídico, Miquéias também profetizou uma
reversão na sorte de Jerusalém. Miquéias advertiu que esta cidade, escolhida por
Davi como capital e local do templo do Senhor, seria sujeita ao sítio (Mq 5.1)
e reduzida a entulhos (Mq 3.12). Ele personificou a cidade em sua humilhação
como uma mulher em trabalho de parto, estorcendo-se em agonia para dar à luz
(Mq 4.9,10). Da perspectiva do exílio, Jerusalém personificada reconhece a jus-
tiça do castigo de Deus e prevê o dia da justificação e restauração (Mq 7.8-12).
Utilizando a imagem de Miquéias 4.9,10, o profeta comparou a volta do povo
exilado em Sião a dar à luz (Mq 5-3). No futuro, o Senhor livraria Jerusalém dos
que a atacavam (Mq 4.11-13).

A restauração da fertilidade humana e agrícola também acompanharia a
salvação de Israel, revertendo um dos efeitos do julgamento passado. Embora os
exércitos invasores tivessem reduzido a nação a mero restante (cf. Am 3.12; 5.3;
6.9,10; Mq 4.7), um dia o povo reunido dos reinos do Norte e do Sul seriam tão inumeráveis quanto a areia na praia do mar (Os 1.10,11) e constituiriam uma
“nação poderosa” (Mq 4.7). Embora a praga e exércitos divinamente designados
tivessem privado a nação da abundância agrícola, essa condição também seria
restabelecida na era por vir (Os 2.21,22). Amós descreveu a fertilidade agrícola
dos fins dos tempos da seguinte forma: “Eis que vêm dias [...] em que o que
lavra alcançará ao que sega, e o que pisa as uvas, ao que lança a semente; e os
montes destilarão mosto, e todos os outeiros se derreterão. E removerei o cati-
veiro do meu povo Israel, e reedificarão as cidades assoladas, e nelas habitarão,
e plantarão vinhas, e beberão o seu vinho, e farão pomares, e lhes comerão o
fruto” (Am 9.13,14). A promessa de que o povo beberia o vinho dos vinhedos
que plantassem (Am 9.14) é uma reversão direta do julgamento descrito em Amós 5.11.

Da mesma maneira que os profetas apresentaram o julgamento de Deus
como reversão dos antigos atos salvíficos divinos, assim falaram que a restaura-
ção futura de Israel é uma repetição da história de salvação. Oséias e Miquéias,
por exemplo, se referiram à volta de Israel do exílio em termos de um novo êxo-
do. O Senhor convocaria os israelitas dos vários lugares em que foram exilados
da mesma maneira que Ele os chamara do Egito por meio de Moisés (Os 11.1).
O Senhor exibiria grandiosas “maravilhas” (Mq 7.15; cf. Êx 3.20; SI 78.12,13; 106.22) resgatando o povo (Mq 4.10; cf. Êx 6.6; 15.13; SI 74.2).

Oséias e Miquéias também aludiram a outros eventos na história de salva-
ção da nação. Quando libertado do exílio, Israel tremeria novamente diante do
rugido atroador do Senhor (Os 11.10,11) como tremera no Sinai (cf. Êx 19.16).
O Senhor levaria o povo novamente à terra prometida através do vale de Acor
(Os 2.15), o local em que Acã pecou pondo em risco o sucesso da conquista (Js 7.1-26). Nos fins dos tempos, porém, Acor seria símbolo de esperança, e não
de desobediência e quase fracasso. Quando os israelitas reocupassem a terra,
eles seriam chamados “filhos do Deus vivo” (Os 1.10). Este título divino raro
(,el hay) era usado em associação com a conquista original sob o comando de
Josué (Js 3.10). De acordo com Miquéias 4.13, o Senhor daria a Israel vitória
sobre os inimigos. Em resposta, Israel consagraria (haram, um verbo freqüen-
temente usado em relação à conquista original) o saque da terra “ao Senhor de
toda a terra”. Este título raro, como o “Deus vivo”, era usado no contexto da
conquista original (Js 3.11,13). Quando prosperasse na terra que Deus lhe deu,
Israel seria uma vez mais como uma videira frutífera (cf. Os 10.1 com Os 14.7)
e responderia favoravelmente ao Senhor, “como no dia em que subiu da terra
do Egito” (Os 2.15).

Avançando mais na história de salvação de Israel, os profetas predisseram
um retomo da glória do império davídico. Como já comentado, Oséias e Mi-
quéias previram a Segunda Vinda de Davi (Os 3.5; Mq 5.2), ao passo que Amós e Miquéias predisseram uma repetição das conquistas davídicas e uma revivificação da suserania davídica sobre as nações circunvizinhas (Am 9.11,12; Mq 5.4-9).



DEUS E AS NAÇÕES

As nações não desempenham um papel proeminente em Oséias, apare-
cendo somente como objeto da confiança inapropriada de Israel e ironicamente
como instrumentos do julgamento de Deus sobre o povo. A habilidade do Se-
nhor para livrar o povo do exílio comprova a sua soberania sobre as nações.

Amós e Miquéias têm muito mais a dizer sobre a relação das nações com
Israel e o seu Deus. Desde o início, ambos os livros deixam claro que a soberania do Senhor não está limitada a Israel, mas se estende a todas as nações. Amós começa com uma série de falas de julgamento contra as nações vizinhas de Israel (Am 1.3—2.3). Miquéias inicia com um retrato vívido da descida teofânica do Senhor para julgar as nações (Mq 1.2-4). Para estes profetas, o Deus de Israel é “Senhor de toda a terra” (cf. Mq 4.13), que controla a história e o destino das nações (Am 9.7). De acordo com Amós 9.12, as nações “são chamadas” pelo “nome” do Senhor. A expressão aponta a propriedade e autoridade do Senhor sobre as nações como deixa claro o uso constante em outros textos bíblicos (cf. 2 Sm 12.28; Is 4.1).

A palavra usada nos oráculos de Amós 1 e 2 para caracterizar os pecados
das nações diz respeito ao ato de rebelião contra a autoridade soberana. Em
outros textos bíblicos, o termo é usado para referir-se a uma nação que se rebela
contra a autoridade de outra (cf. 2 Reis 1.1; 2 Reis 3.5,7). Judá (Am 2.4,5) e
Israel (Am 2.6-16) quebraram o concerto mosaico. Entretanto, por qual arranjo
as nações estrangeiras eram responsáveis diante de Deus? Entre os crimes alis-
tados incluem-se atrocidades em tempo de guerra, tráfico de escravos, quebra
de tratados e profanação de túmulos. Todos estes considerados juntos, pelo
menos em princípio, são violações do mandato de Deus dado para Noé ser fru-
tífero, multiplicar-se e mostrar respeito pelos membros da raça humana como
portadores da imagem divina (cf. Gn 9.1-7). E possível que Amós tivesse visto
este mandato noético no plano de fundo de um tratado entre suserano e vassa-
lo, comparando o mandato às exigências ou estipulações de tratado. De modo
semelhante, Isaías interpretou o crime de carnificina cometido pelas nações (Is 26.21) como violação da “aliança eterna” (Is 24.5; cf. Gn 9.16) que ocasionaria
uma maldição na terra inteira (cf. Is 24.6-13). A seca, um tema comum nas
bíblicas e antigas listas de maldição do antigo Oriente Próximo, é um elemento
de destaque nesta maldição mundial (cf. Is 24.4,7-9). No título da sua série de
oráculos de julgamento, Amós também disse que o julgamento do Senhor oca-
sionaria seca (Am 1.2). Pelo visto, a seca compendiava as maldições que vinham
sobre as nações por rebelião contra o Suserano.

Miquéias também falou sobre a nação alienar-se de Deus (Mq 4.5). O
Senhor julgaria as nações por desobediência e ações pecadoras (Mq 5.15; 7.13).
As nações que escarneceram do povo de Deus (Mq 7.10) rastejariam de medo
diante do Senhor (Mq 7.16,17). Esta subjugação das nações levaria ao reinado
universal do Senhor sobre toda a terra desde o trono em Jerusalém (Mq 4.1-4). Esta era de ouro seria caracterizada pela cessação de guerra e pela adoração uni-
versal do Deus de Israel.






[1] Para inteirar-se de uma anâlise mais compléta das datas destes livros, ver Leslie C. Allen, “The
Books of Joel, Obadias, Jonah and Micah”, em: New International Commentary on the Old
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), pp. 19-25, 129-133; and C. Hassell Bullock, An 

Introduction to the Old Testament Prophetic Books (Chicago: Moody, 1986), pp. 260, 328-330. 

ROBERT B. CHISHOLM, JR. (M.Div., Th.M., Th.D.) é professor adjunto de Estudos do
Antigo Testamento no Seminârio Teologico de Dallas. 


[2] Herbert B. Huffmon, “The Treaty Background of Hebrew YADA", in: Bulletin of the American
Schools of Oriental Research 181 (1966): pp. 31-37. 


[3] Para inteirar-se de uma lista prática de exemplos constantes em Miquéias e Amós, ver, entre
outros, Richard V Bergren, “The Prophets and the Law”, in: Monographs of the Hebrew Union
College, Number 4 (Cincinnati: Hebrew Union College—Jewish Institute of Religion, 1974),
pp. 182, 183. 


[4] As frases hebraicas traduzidas por “desde os tempos antigos” e “desde os dias da eternidade”
são em outros textos bíblicos usados para referir-se aos primeiros períodos da história de Israel,
inclusive o tempo de Davi (Ne 12.46; SI 74.12; 77.12; Is 63.9,11; Ml 3.4). A frase “dias da
eternidade” é usada mais adiante em Miquéias (Mq 7.14). Amós, profetizando a restauração
do trono davídico, usou a frase para aludir ao tempo do reinado de Davi (Am 9.11).


ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.