9 de março de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR - Uma Teologia de Isaías 40 a 46

Uma Teologia de Isaías 40 A 46

DEUS E O SEU POVO

A resposta de Deus à condição dos exilados. Como já comentado, os capítu-
los 40 a 66 pressupõem o exílio do povo de Deus. Jerusalém e a Terra Prometida jazem em ruínas (40.1,2; 44.26,28; 45.13; 49.19; 51.3; 52.2; 58.12; 60.10; 61.4; 62.4; 63.18; 64.10,11), e pelo menos alguns israelitas estavam presos na Babilónia e em outras terras distantes, esperando libertação futura (42.7,22; 43.5,6,14; 45.13; 47.6; 48.20; 49.9-12,22; 51.11,14; 52.11,12; 56.8; 57.14; . Compreensivelmente, os exilados estavam desanimados com a situação e céticos quanto às perspectivas futuras (40.27; 41.17; 49.14). Alguns aparente-
mente pensaram que o Senhor já não estava interessado na situação difícil pela
qual passavam, enquanto outros até sugeriram que Ele os tratara injustamente.


Estando sob o controle do poderoso império babilónico, alguns eram tentados
a reconhecer a superioridade dos deuses babilónicos e a adorar as suas imagens.
Talvez o Senhor de Israel fosse apenas uma deidade local que, por causa das
limitações geográficas, não podia libertá-los da Babilônia. Respondendo tais
atitudes, o Senhor deixou certos fatos cristalinamente claros.

Primeiro, Israel estava no exílio porque pecara, não porque Deus tomara
uma decisão ou ação injusta (50.1). Israel provocara a ira do Senhor quebrando a lei (42.24; 43.24; 48.18,19; 64.5) e estava sofrendo as justas conseqüências
da sua infidelidade. Segundo, o Senhor não abandonara o povo. Há muitas
passagens, especialmente nos primeiros capítulos da seção, que revelam que
a relação e promessas de Deus pertinentes ao concerto ainda estavam em vi-
gor. O Senhor tratou Israel por servo (41.8,9; 42.19; 43.10; 44.1,2,21; 45.4; 48.20), por escolhido (41.8,9; 43.20; 44.1,2; 45.4) e por semente de Abraão,
seu parceiro do concerto (41.8). Em Isaías 44.2, Ele chama a nação “Jesurum”
(que significa “o reto”), nome raro que aparece somente aqui, em Deutero-
nômio 32.15; 33.5,26. Em Deuteronômio, a palavra é usada acerca de Israel
como objeto das ricas bênçãos e proteção de Deus e que, apesar desse favor
divino, rebelou-se contra a sua autoridade. Tratando a geração exílica por
este nome antigo, o Senhor lembra ao povo do seu ideal para eles (justiça) e oferece a possibilidade de bênção renovada (cf. 44.3,4). Além de tratar Israel
por nomes que indicam o estado do concerto, o Senhor se apresenta a Israel
como Deus (41.13,17; 43.3; 45.15; 48.1,2), Criador (43.1,7,15,20; 44.2,24; 46.3), Rei (41.21; 43.15; 44.6), Santo (41.14,16,20; 43.3,14,15; 45.11; 47.4; 48.17) e Redentor (41.14; 43.14; 44.6,24; 47.4; 48.17). Ele consola a Jeru-
salém personificada que compendiava a condição humilhada da nação, e as
promessas de que a restauração e renovação do concerto estavam nos planos
futuros para o povo.

Terceiro, o Senhor confirma sua profunda preocupação e amor extremo
pelo povo (43.4). Para enfatizar este fato, há muitas metáforas vívidas. Em Isa-
ías 40.11, o Senhor é como um pastor que, em seus braços fortes, carrega no
colo os seus cordeirinhos (o povo exilado) enquanto os leva de volta à Terra
Prometida em triunfo (cf. 43.10). A referência ao braço do Senhor é parte es-
pecialmente importante da imagem verbal, pois em outros lugares de Isaías o
braço do Senhor simboliza o poder grandioso que ele libera contra os inimigos
(30.30; 40.10; 51.9; 52.10; 59.16; 63.5,12). Aqui, esse mesmo braço forte pro-
tege o povo.

Em Isaías 49, o Senhor emprega a figura de uma mãe para enfatizar a devo-
ção a Sião. Respondendo à acusação de Sião de que o Senhor o esquecera (v. 14),
ele pergunta: “Pode uma mulher esquecer-se tanto do filho que cria, que se não
compadeça dele, do filho do seu ventre?” (w. 15). Sob condições normais, claro
que não. Para reforçar ainda com mais vigor, o Senhor acrescenta que mesmo
que uma mãe abandonasse o seu filho, Ele jamais abandonaria o seu povo.

O Senhor também se compara a um marido que por breve momento furiosa-
mente se divorciou da esposa da sua mocidade. Porém, ele restabeleceria o casamento,
mostrando à esposa “misericórdia” e “benignidade” (54.5-8). Sião outrora se chamara
“Desamparada” e “Assolada”, mas um dia o nome seria mudado para Hefzibá (que
quer dizer “minha delícia está nela”) e Beulá (que quer dizer “casada”), porque o Se-
nhor se alegraria com dela como o noivo se alegra com a noiva (Isaías 62.4,5).

Por fim, o Senhor demonstra a absoluta soberania sobre os babilônios e a
infinita superioridade aos seus deuses-ídolos. O Senhor criou e controla o universo sem ter de consultar conselheiros (40.12-14; 42.5; 44.24). Determina o
destino de nações e reis (40.17,22-24). Os corpos celestes, associados a várias
deidades no pensamento pagão, são seus servos (v. 26). O Senhor frustra a sabe-
doria dos adivinhos e profetas pagãos (44.25), mas executa os seus próprios de-
cretos (v. 26). Anuncia estes decretos com bastante antecedência como demons-
tração do seu controle soberano da história (41.4,21-29; 42.9; 45.21; 48.3-7).
Os deuses-ídolos pagãos feitos pelos homens são incapazes de tais ações e não
podem evitar que Deus redima o seu povo.

Numerosos contrastes com os deuses-ídolos pagãos enfatizam a incompa-
rabilidade de Deus. Muitas palavras-chaves encontradas nas discussões relacio-
nadas a ídolo (40.18-20; 41.5-7,21-29; 42.17; 44.9-20; 45.16,20; 46.1,2,6,7; 48.5,14) também constam nas descrições das atividades do Senhor de tal modo a
demonstrar a singularidade divina. Por exemplo, de acordo com Isaías 40.19,20; 41.7, o ídolo é produto de um artesão humano. Por via do contraste, o Senhor
afirma que Ele é o criador do artesão (54.16). Os artesãos gastam energia e for-
ça para formar os ídolos (44.12), mas o Senhor tem o poder de capacitar o seu
povo cansado com energia e força sobrenatural que ultrapassam até mesmo a
dos jovens mais fortes (40.29-31). Para fazer um ídolo, o artesão escolhe a ma-
deira de uma árvore (v. 20). O Senhor, porém, é o criador das árvores (41.19),
sendo retratado poeticamente como o objeto da adoração deles (44.23).

Em vez de ser o produto da decisão humana, o Senhor escolhe os homens
como instrumentos para realizar a vontade soberana divina (43.10; 44.1,2;
48.10; 49.7). Todas as árvores do Líbano não alimentam um fogo sacrificatorio
adequado para o Senhor (40.16), mas o ídolo é feito em parte da madeira usada
para o homem cozinhar suas refeições e esquentar as mãos (44.15). Os adora-
dores de ídolos usam o processo de refinação (40.19; 41.7; 46.6) para formar os
seus deuses (44.9,10), mas o Senhor refina (48.10) e forma (44.2) o seu povo.
Para fazer um ídolo, o trabalhador o reveste (raqa) com metal (40.19) e estende
uma linha de medir em cima do trabalho (44.13); o Senhor espraia (raqa“) a
terra (42.5; 44.24) e estende os céus (40.22). Os homens assentam (kun) ído-
los (40.20, ARA) em pequenos santuários (44.13); o Senhor estabelece (kun)
a terra (45.18) e se assenta no horizonte enquanto levanta e derruba reinos (40.22). O ídolo é produto da sabedoria ou habilidade humana (40.20), o qual
o Senhor frustra (44.25). Os adoradores de ídolos deveriam viver com medo,
porque a confiança depositada nos produtos das próprias mãos é mal orientada
e infundada (44.11). Israel, porém, não precisa ter medo, porque o seu Deus é o
verdadeiro Deus (v. 8). Os ídolos pagãos podem ser levados em exílio em cima de bestas de carga (46.1,2), mas o Senhor tem carregado o seu povo ao longo
da história (w. 3,4). Nestas passagens, o Senhor emerge como Deus ativo, com
o homem sendo o objeto das ações criativas divinas. Por contraste, os deuses-
ídolos pagãos são inativos e o produto dos esforços do homem frágil.
A restauração futura de Israel. Porque Deus se preocupava com o povo e
era bastante poderoso para libertá-lo, era digna de confiança a promessa divina
de restauração. Diferente dos homens fracos e suas promessas indignas de con-
fiança, que hoje estão aqui e amanhã se foram, a palavra de promessa dada pelo
Senhor é confiável (40.6-8). As suas promessas de salvação se cumprem, da
mesma maneira que a chuva e a neve que caem do céu e regam a terra cumprem
o propósito para o qual foram criadas (55.10,11).

Como prova adicional da confiabilidade da sua palavra, o Senhor apela
para as “coisas passadas”, ou seja, os acontecimentos passados que Ele predisse e
vieram a suceder (cf. 41.22; 42.9; 43.9; 44.7; 46.9; 48.3). Mais especificamen-
te, as coisas passadas são o êxodo nos dias de Moisés (43.18). O cumprimento
das coisas passadas se torna a garantia de que as coisas futuras/novas, o Senhor
libertar o povo do exílio e restabelecê-lo na terra, também acontecerão (42.9;
43.19; 48.6).

Como na primeira metade do livro (10.26; 11.11-16), a futura libertação e
restauração de Israel à terra é descrita em termos de um segundo Êxodo (43.16- 21; 44.26,27; 48.20,21; 49.9-12; 51.9-11; 52.10-12). O Deus que promete esta
libertação é o mesmo que abriu caminho pelo mar e destruiu os carros do Egito
(43.16,17). Em Isaías 51.9, o Egito é chamado Raabe (cf. também 30.7 e SI 87.4),
um dos nomes dados pelo Antigo Testamento ao monstro marinho da mitologia
antiga (cf. Jó 9.13; 26.12; SI 89.10). A Bíblia associa poeticamente a vitória de
Deus sobre este monstro (também chamado o leviatã) com a sua obra criativa na
qual ele tirou ordem da desordem e trevas (cf. Jó 26.7-14; SI 74.12-17; 89.9-12).

O êxodo do Egito também foi um acontecimento criativo por meio do qual Deus
formou uma nação nova do caos da escravidão e opressão (43.15). Por conseguin-
te, a aplicação do nome Raabe ao Egito em Isaías 51.9 é bastante apropriada.
O segundo êxodo ultrapassará o primeiro em vários aspectos, até o ponto
em que o Senhor pode exortar o povo, embora hiperbolicamente, a esquecer-se
da primeira ocorrência (43.18; mas cf. 46.9). O povo saiu do Egito às pressas
(Ex 12.11; Dt 16.3), mas eles sairiam da Babilônia a passos vagarosos, estando
perfeitamente seguros da poderosa presença protetora de Deus (52.12). Em-
bora Deus atendesse as necessidades físicas da geração de Moisés durante as
peregrinações no deserto, esse período foi essencialmente de bênçãos adiadas.
No segundo êxodo, porém, os sinais das bênçãos abundantes de Deus acom-
panhariam os exilados por todo o caminho de volta a casa. Ele transformará as montanhas em caminho (49.11) e o deserto em terra de jardins luxuriantes
cortadas por rios (43.19,20; 48.21; 49.9,10).

Todos os caminhos do exílio levaráo a Jerusalém (49.14-23; 52.11). A ci-
dade sofredora, poeticamente comparada a uma esposa abandonada pelo mari-
do (54.6), a uma viúva (v. 4), a uma mulher estéril (49.21; 54.1) e a uma mãe
despojada dos seus filhos (49.21), testemunharão o retorno milagroso do povo
exilado (w. 19-21; 54.2,3). As riquezas das nações fluirão na reconstrução e
embelezamento de Sião, que jamais voltará a ser contaminada por um exército
inimigo (w. 11-17; 60.4-22; 61.4-6; 62.1,2). Já não haverá necessidade da luz
do sol e da lua, pois a luz luminosa da glória do Senhor emanará da cidade (60.19,20).

Os primeiros capítulos de Gênesis dão ilustrações da transformação futura
de Sião. A Sião renovada será o foco da nova criação de Deus (65.17,18). O Se-
nhor transformará o sofrimento de Sião em alegria, da mesma maneira que fez
uma nação poderosa do envelhecido Abraão e da sua esposa estéril Sara (51.2).
A bênção tomará o lugar da maldição e as ruínas de Sião serão mudadas em uma
terra de jardins comparáveis ao jardim do Éden (v. 3). Sião jamais voltará a expe-
rimentar o julgamento irado de Deus, porque o Senhor fará um “concerto da [...]
paz” perpétuo com a cidade, moldado segundo a promessa feita a Noé (54.9,10).
Da mesma maneira que Deus estabeleceu o reino sobre Israel pelo primei-
ro êxodo e a conquista da terra (cf. Êx 15.18; SI 47.3-5; 114.1,2), assim o seu
retorno a Sião fará todos reconhecerem o direito divino de reinar (52.7). Com
base na analogia de brados de aclamação associados com reis humanos, a decla-
ração: “O teu Deus reina!”, em Isaías 52.7, poderia ser mais bem traduzida por:
“O teu Deus se tornou rei” (cf. NTLH; cf. também 2 Sm 15.10; 2 Rs 9.13). 
Os instrumentos de salvação de Deus. O Senhor usaria dois instrumentos
primários para ocasionar a libertação do seu povo: o governante persa Ciro e um
servo não identificado descrito como um Israel ideal e um novo Moisés.

O Senhor levantaria Ciro como conquistador poderoso das nações e al-
guém cujo poder militar seria irresistível (41.2,3,25; 45.1,2). O propósito úl-
timo de Deus em levantar Ciro era libertar o seu povo do exílio babilónico e
reconstruir Jerusalém (44.28; 45.13; 46.9). Em troca da liberação do povo exi-
lado, Deus, por assim dizer, daria por sua vez aos persas outras nações (43.3,4).

(Embora certos estudiosos objetem que a designação específica de Ciro [44.28; 45.1) indica uma data do século VI a.C. para os capítulos 40 a 55, tal predição
precisa não é sem precedentes [1 Rs 13.2] e é consistente com um dos princi-
pais temas do contexto — a habilidade de Deus predizer acontecimentos muito
antes de acontecerem.)
Essas predições se cumpriram no século VI a.C., quando Ciro entrou su-
bitamente em cena e estendeu o império medo-persa para oeste. Conquistou a
Babilônia em 539 e decretou a volta dos judeus exilados à sua terra e a recons-
trução do Templo (2 Cr 36.22,23; Ed 1.1-4). Reconheceu também a contribuição do Senhor para o sucesso que ele vinha tendo (Ed 1.2; cf. 45.3), embora não
devamos interpretar como afirmação ao monoteísmo. O Cilindro de Ciro dá a
entender que ele atribuiu o seu sucesso a várias deidades, inclusive a Merodaque
da Babilônia. Em cumprimento de Isaías 43.3,4, os sucessores de Ciro até
conquistaram o Egito.

A libertação dos exilados segundo o decreto de Ciro pressagiava um ato
mais significativo de salvação que o Senhor ocasionaria pelo seu servo especial.
As denominadas canções do servo esboçam que o seu ministério (42.1-9; 49.1-
13; 50.4-11; 52.13; 53.12) é de sofrimento e defesa sublime.

A identidade do servo mencionada nestas canções é, talvez, a questão mais
calorosamente debatida nos estudos do livro de Isaías. Alguns intérpretes con-
cluem que o servo é a nação de Israel, que sofre em prol das nações gentias. Esta
seção do livro trata e descreve Israel como o servo do Senhor (cf. Isaías 41.8,9;
42.19; 43.10; 44.1,2,21; 45.4; 48.20). Como tal, a nação tem de testemunhar
aos gentios da grandeza de Deus (43.10; 48.20). A segunda canção do servo
chega a dizer que o nome do servo é “Israel” (49.3).

O problema, porém, não pode ser resolvido assim facilmente. Conside-
rando que uma das tarefas deste servo “Israel” é restabelecer a nação Israel
para Deus (49.5,6), é necessário fazermos certa distinção entre o servo e a
nação. Esta mesma distinção entre o servo e a nação é evidente em Isaías
49.8 (ver também 42.6), em que o servo medeia um concerto com o povo de
Deus, e em Isaías 53.8, onde Ele sofre a favor do povo. Como observa Harry
Orlinsky, “não se conhece na Bíblia que Israel [...] deva sofrer inocentemente
pelos pecados e a favor de povos não-israelitas”. Esta seção do livro deixa
claro que Israel não era inocente. Por conseguinte, não estava em posição de
sofrer pelos outros. Muitas passagens indicam que o sofrimento de Israel era por causa dos seus pecados. Por essas razões, muitos intérpretes preferem
dizer que o servo é um indivíduo ou um Israel/remanescente ideal/justo per-
sonificado dentro da nação.

Antes de tentar uma identificação mais precisa do servo, é necessário exami-
narmos as canções mais detalhadamente. Como já comentado, o servo tem de, em
certo sentido, ser “Israel” que permanece distinto da nação como um todo. Uma
análise mais minuciosa das canções revela como isso se dá. O servo é um media-
dor do concerto em prol da nação de Israel (42.6; 49.8). Em Isaías 42.6, o con-
texto sugere que o referente de “povo” são todos os homens. O termo é paralelo a
“gentios” (cf. 42.6b), e no versículo 5, “povo” se refere em geral aos habitantes da
terra. Mas a passagem paralela em Isaías 49.8 indica que o povo com quem o con-
certo é feito são os israelitas, visto que os versículos 8b a 12 associam este concerto
com o segundo êxodo e a recuperação da terra. Além disso, nos capítulos 40 a 66
o concerto futuro de Deus é com Israel e não com os gentios (54.10; 55.3; 59.21;
61.8). Como mediador do concerto com a nação, o servo também lidera um se-
gundo êxodo para fora do exílio e de volta à Terra Prometida (49.5-12). Abre “os
olhos aos cegos”, libertando os cativos da prisão escura (42.7). A comissão do
servo não se limita a Israel. E também uma “luz dos gentios” (42.6; 49.6) no que
tange a dar libertação a todos os oprimidos da terra (49.6) e estabelece a justiça
por todo o mundo (42.1-4). Este aspecto da comissão, quando examinado no
plano de fundo do antigo Oriente Próximo bíblico, é de natureza decididamente
relacionada à realeza. No mundo antigo, os reis eram responsáveis acima de todos
os outros, para promover e manter a justiça.

A esta altura, podemos fazer várias observações sobre o papel e iden-
tidade do servo conforme Isaías o percebe. O título “Israel” é apropriado,
porque, como grupo representativo ou individual dentro da nação, o servo
incorpora o ideal de Deus para o povo. Na sua capacidade, como mediador
do concerto e libertador da escravidão, o papel do servo é igual ao de Moisés
que tirou Israel do Egito e mediou o concerto no Sinai (cf. esp. Êx 34.27).
O tema do segundo êxodo do livro estaria incompleto sem a presença de
um segundo Moisés. Através do servo, cumpre-se também o ideal original
de Deus para Israel com respeito às nações. Vivendo de acordo com a lei de
Deus, Israel tinha de servir como modelo dos padrões de justiça de Deus
para as nações circunvizinhas (cf. Dt 4.6-8). A nação fracassara, mas o servo
terá sucesso em estabelecer justiça ao longo da terra. Sob este aspecto, sua
função é paralela ao do rei messiânico descrito em Isaías 11.1-10. Resu-
mindo, Isaías retrata o servo como um Israel ideal que é um novo Moisés e,
como a figura régia ideal do capítulo 11, o instrumento do Senhor que leva
justiça à terra. Os paralelos com Moisés e o Messias dão a entender que o
servo é um indivíduo, não um grupo.

As canções descrevem a carreira do servo com alguns detalhes. A primeira
canção (42.1-9) enfatiza a comissão divina especial para estabelecer a justiça (w.
1-4) e libertar os que estão presos (w. 6,7). Diz que o servo é aquele que não
chama a atenção para si mesmo (v. 2) e que se abstém de oprimir os que já estão oprimidos (v. 3a).
A segunda canção (49.1-13) desenvolve estes temas, descrevendo mais de-
talhadamente o estado especial do servo (w. 1-3) e a sua comissão para libertar os exilados da escravidão (w. 5-12). Esta canção também indica que o servo
experimentaria certo desânimo e rejeição na execução da tarefa (w. 4,7), abrin-
do o caminho para o tema principal da terceira e quarta canções, a rejeição e o
sofrimento do servo.

A terceira canção (50.4-11) contém o testemunho de fé e a resistência
do servo em face da oposição. O servo testemunha que Deus lhe fez porta-voz
especial, uma responsabilidade que ele assumiu prontamente (w. 4,5). Mesmo
quando maltratado e humilhado, ele continuou confiando no Senhor, sabendo
que a defesa viria (w. 6-9).

A quarta canção dá um relato mais detalhado da rejeição e sofrimento
do servo (52.13; 53.12). A canção está cheia de ironia. Israel admite que
interpretou mal a razão para o sofrimento do servo. Presumiu que o so-
frimento era em razão do pecado do servo (53.1-3,4b), mas na realidade
ele estava sofrendo em prol do povo (w. 4a,5,6,11,12). Por ter se subme-
tido de boa vontade a tal tratamento injusto (w. 7-9), o Senhor o defende
(w. 10-12). Até reis poderosos que o haviam considerado um ninguém, são
forçados a reconhecer-lhe a grandeza (52.13-15). Talvez o exemplo mais
notável da ironia na canção seja que a nação pecadora é declarada inocente
(cf. “justificará a muitos”, 53.1 lb) por causa do sofrimento do servo a favor
da nação. Tal exoneração dos culpados é proibida e condenada em outros
textos do Antigo Testamento (cf. Èx 23.7; Pv 17.15; 5.23 que usam o verbo
hebraico traduzido por “justificará” em 53.11), contudo o sofrimento do
servo é de tal caráter inigualável que, neste caso, as demandas normais da
justiça são postas de lado. Esta declaração indica que os culpados de alguma
maneira fogem do castigo por causa da identificação do servo com eles e o
seu sofrimento a favor deles.

A quarta canção suscita questões exegéticas e teológicas. Duas das mais
problemáticas e importantes são estas: (1) Será que o profeta indicou que o
sofrimento do servo é substitutivo ou é somente compartilhado? Em outras pa-
lavras, ele sofre em lugar da nação ou junto com ela? (2) A canção quer mesmo
descrever o retrato da morte e ressurreição literal do servo?

Certos estudiosos questionam a interpretação tradicional da canção, ar-
gumentando que o sofrimento do servo, embora compartilhado, imerecido e
redentor, não é vicário no sentido de impedir os outros de sofrerem o castigo
pelos próprios pecados. Orlinsky e Whybray identificam o servo com o denominado Deutero-Isaías que supostamente se submeteu ao tratamento injusto,
rejeiçáo e até prisáo para levar uma mensagem de esperança aos exilados. Why-
bray oferece uma análise exegética diligente da quarta canção. Nesse estudo, ele
mostra que não há linguagem tradicionalmente ligada ao sofrimento vicário do
servo que realmente ensine isso. A evidência que ele cita, que é muito complexa
e longa para inspecionarmos aqui, dá a entender que a linguagem do texto não exige expiação vicária. Entretanto, ao insistir que a linguagem impede tal in-
terpretação, Whybray exagerou na teoria. Grande parte da linguagem, embora
talvez ambígua em sua situação original, permite o conceito de sofrimento vicá-
rio e abre caminho para o desenvolvimento completo da subseqüente revelação
bíblica da doutrina da expiação substitutiva junto com a mediação do servo de
um novo concerto.

As declarações e detalhes do texto indicam a natureza substitutiva do so-
frimento do servo: (1) Isaías 52.15a, que indica que ele “borrifará muitas na-
ções”; (2) referências ao servo levar os pecados do povo e as suas conseqüências
(53.4a,6b,1 lb,12b); (3) o versículo 5 declara que o sofrimento foi “pelas nossas
transgressões e [...] iniqüidades” e resultou em paz e cura; (4) o versículo 7, que
compara o servo a um cordeiro levado ao matadouro e é interpretado no plano
de fundo do sistema sacrificatorio; (5) o versículo 10, que se refere ao Senhor
que faz “a sua alma [...] por expiação do pecado”; e (6) o versículo 11, que de-
clara que o servo “justificará muitos”, levando os seus pecados.

Entretanto, temos de ter cuidado para não tirar conclusões de traduções
questionáveis ou pressionar a linguagem do texto além do limite contextual.
Muitas destas declarações não são tão claras ou determinativas quanto apa-
rentam superficialmente. A tradução “borrifará” em Isaías 52.15 é provavel-
mente enganosa. Em outros usos deste verbo hebraico, o objeto borrifado é
introduzido por uma preposição, mas nenhuma preposição ocorre antes de
“muitas nações”. Ê mais provável que este seja um homônimo que significa
“saltar” ou “pular” e que a linha deva ser traduzida assim: “Assim ele atemo-
rizará (ou seja, fará com que pulem ou saltem de surpresa) muitas nações”
(LXX traduz o verbo por “maravilhar”). Isto se ajusta muito melhor com a
linha paralela, que enfatiza a surpresa que os reis terão quando testemunha-
rem a exaltação do servo.

As referências metafóricas ao servo levar/carregar os pecados têm o potencial
de imaginar sofrimento compartilhado ou vicário. A tradução “pelas nossas transgressões e [...] iniqüidades” no versículo 5 é talvez interpretativa. A preposição he-
braica usada aqui é mais bem traduzida por “por causa de” (cf. NTLH; NVI). Isso
possibilita a expiação vicária, mas não a exige. O símile do cordeiro no versículo
7 não tem o sistema sacrificatorio como plano de fundo. Nem a palavra hebraica
traduzida por matadouro nem o seu verbo relacionado são termos técnicos para
aludir ao sistema sacrificatorio. Quando usados em relação a animais, ambos os
termos se referem a matar ou abater animais para comida (Gn 43.16; Êx 22.1; Dt
28.31; 1 Sm 25.11; Pv 7.22; 9.2; Jr 11.19; 50.27; 51.40). Atradução de NIVde Isa-
ías 53.10 também é problemática. A linha diz literalmente: “Embora tu fazes a vida
dele uma oferta de culpa”, ou: “Embora ele ofereça uma oferta de culpa” (o verbo
tasim esta ou na segunda pessoa do masculino singular ou na terceira pessoa do fe-
minino singular). Entender que o verbo esteja se dirigindo a Deus (segunda pessoa)
é problemático, porque o versículo 10 se refere duas vezes a Deus na terceira pessoa
e em nenhuma outra parte a canção o trata na segunda pessoa. O verbo é mais bem
compreendido como terceira pessoa com o termo hebraico napso (de nepes, que é gramaticalmente feminino), com “ele” (literalmente, “a sua vida”) como sujeito. A
declaração resultante, ainda que caiba uma interpretação ao longo das linhas tradi-
cionais, não se presta prontamente a tal ponto de vista e é, na realidade, bastante
enigmática e obscura. A precaução exegética e teológica exige que não seja usada
como base para conclusões dogmáticas sobre a natureza do sofrimento do servo.

Resumindo, a linguagem da quarta canção possibilita que o sofrimento do
servo seja vicário (observe esp. ele “justificará a muitos”, 53.11), mas por si mes-
ma não exige tal interpretação. O pleno significado da linguagem requer escla-
recimento por meio de revelação subseqüente (acerca disso, ver mais adiante).
Outra questão interpretativa diz respeito à linguagem de Isaías 53.8-12.

Esses versículos falam acerca da morte e ressurreição do servo, ou estão dizendo
que ele é liberto na última hora de uma execução injusta? A linguagem do
texto se refere claramente à sua morte (cf. esp. “cortado da terra dos viventes”,
53.8; “na sua morte”, v. 9; e “derramou a sua alma na morte”, v. 12). A ques-
tão, porém, não pode ser resolvida tão facilmente. Muitas passagens do Antigo
Testamento usam hiperbólicamente a expressão idiomática da morte física para
referir-se a uma crise ameaçadora de vida. Por exemplo, o autor do Salmo 88
lamenta: “Já estou contado com os que descem à cova; estou como um homem sem forças, posto entre os mortos; como os feridos de morte que jazem na se-
pultura, dos quais te não lembras mais; antes, os exclui a tua mão. Puseste-
me no mais profundo do abismo, em trevas e nas profundezas” (SI 88.4-6). 
Outros poetas falam que estáo emaranhados nas cordas restringentes da morte
(SI 18.4-6), engolfados em suas águas ondulantes (w. 4,16), presos em suas
covas profundas (SI 30.3) e cercados por suas barras (Jn 2.6). Muitos salmistas
pediram ou agradeceram por libertação divina das portas ou profundezas da
morte (SI 9.13; 56.13; 71.20; 86.13). E de comum acordo que a linguagem
da quarta canção seja interpretada segundo estas linhas, em cujo caso indicaria
que o servo, embora estando cara a cara com a morte, foi salvo na última hora e
defendido por Deus. Ao mesmo tempo, porém, a linguagem possibilita a morte
e a ressurreição literal. Uma vez mais, a revelação subseqüente é vital para en-
tendermos a plena significação da linguagem do profeta (ver mais adiante).

No decorrer do tempo, Jesus Cristo emergiu como o servo do Senhor previsto
pelas canções do profeta Isaías. Este ponto talvez esteja claro no Evangelho de Ma-
teus. Já no início, Mateus apresenta Jesus como o Israel ideal (cf. 49.3) que tem suces-
so onde a nação fracassou (cf. 1.13-15). De acordo com Mateus, os milagres de cura
física que Jesus realizou eram lições práticas que o identificavam como o servo isaíti-
co (Mt 8.16,17). Mateus 12.15-28 é particularmente instrutivo sob este aspecto. O
autor entende que a advertência de Jesus contra dar publicidade ao seu ministério é
um cumprimento de Isaías 42.1-4 (Mt 12.15-21). Observa que Jesus deu visão aos
cegos, um ato que recorda a profecia de Isaías 42.7 (w. 22,23). O ato de Jesus curar
a cegueira literal implicava que Ele também tinha o poder de curar a cegueira figu-
rativa (a escravidão resultante da quebra do concerto) citada em Isaías. Quando os
fariseus atribuíram aos demônios a aptidão que Jesus demonstrou, Ele argumentou
convincentemente que o poder vinha do Espírito de Deus (Mt 12.24-28; cf. 42.1).
A descrição que Mateus faz da morte de Jesus também utiliza o retrato isaítico do
servo sofredor (cf. Mt 26.63; 27.12,14 com 53.7; 26.67; Mt 27.30 com Is 50.6; e
Mt 27.38 com Is 53.9,12). Outras passagens do Novo Testamento que também
identificam que Jesus é o servo isaítico são Atos 8.32,33; 26.23 (cf. Is 53.7; 49.6), 1Pe 2.21-25 (cf. Is 53).

A experiência de Jesus esclarece a linguagem um tanto quanto ambígua
da quarta canção do servo. Jesus se identificou e tomou parte no sofrimento
do povo de Deus (cf. Mateus 3.14,15; 8.16,17). Contudo, mais que isso, o seu
sofrimento era vicário no sentido de ter libertado o povo de Deus da culpa e
das plenas conseqüências dos pecados e posto a fundação para a reconciliação
que vem pelo novo concerto (Mt 26.28). Na morte e ressurreição de Jesus, a
linguagem de Isaías 53.7-12, que no seu antigo contexto podia ser entendi-
da apenas de modo estereotípico e hiperbólico, também cumpre o seu pleno
potencial.

Digressão a Isaías 61.1-4. E possível que devamos incluir Isaías 61.1-4
entre as canções do servo. Entende-se que o orador nestes versículos é na-
turalmente o profeta, mas há detalhes que sugerem que é o servo, sobretu-
do a sua posse do Espírito do Senhor (s 61.1; cf. 42.1), o seu papel como
porta-voz de Deus (61.1,2; cf. 49.2; 50.4), a sua comissão para proclamar
libertação e o favor do Senhor aos prisioneiros (61.1,2; cf. 42.7; 49.8,9), e
a sua associação com a restauração da terra (61.3,4; cf. 49.6-12) e o esta-
belecimento de um novo concerto (cf. 61.8 com 49.8). Pode ser abrupto
o servo falar aqui, mas a segunda e a terceira canções do servo começam
abruptamente com o servo também falando (49.1; 50.4). Se esta passagem
for uma fala do servo, então encaixa muito bem com a sucessão de canções
— o seu mais estreito paralelo é com a primeira e a segunda canção — e
também oferece evidência adicional ao caráter régio do servo. A proclama-
ção de liberdade aos cativos é rememorativa dos éditos e decretos reais do
antigo Oriente Próximo por meio dos quais os devedores e escravos ficavam
livres das dívidas e obrigações e os prisioneiros eram soltos. Entender essa
passagem como canção do servo é também compatível com a declaração de
Jesus de que o seu ministério a cumpriu (Lc 4.16-21).

Renovação do concerto. Deus anunciou a salvação futura do povo exilado e
o exortou a confiar na promessa de libertação. A restauração final prometida por
Isaías não seria automática. A condição prévia para o cumprimento da visão de
Isaías era a renovação do concerto. Isaías 55 contém uma chamada urgente ao
povo de Deus para que renove a relação do concerto com o Senhor. O capítulo
está organizado em dois painéis (55.1-5; 6-13) cada um dos quais tendo exorta-
ções (55.1-3,6-7) apoiadas por promessas motivadoras (55.3-5,7-13).

No primeiro painel, Deus convida o povo a comer e beber os gêneros alimen-
tícios que Ele oferece livremente (ou seja, as bênçãos relacionadas ao concerto). Pro-
mete vida e uma nova e perpétua relação pertinente ao concerto que darão destaque
internacional à nação. A vida em questão não é apenas vida física ou espiritual, mas
a prosperidade e o bem-estar que são o resultado de uma relação pertinente ao concerto que é apropriada a Deus (cf. Dt 30.15-21). O concerto perpétuo é comparado
à promessa incondicional de Deus a Davi. Da mesma maneira que Davi reinava
sobre as nações, assim o povo de Deus exercia autoridade sobre as nações distantes.
A relação precisa entre as promessas davídicas referentes ao concerto e o con-
certo eterno é incerta. Há estudiosos que argumentam que o concerto davídico é
democratizado e entendido que se cumpre pela nação. Considerando que Isaías em
outra parte do seu texto inclui claramente um rei davídico individual na sua visão
escatológica, é mais provável que a relação seja analógica ou que esse novo concerto
e predomínio de Israel sobre os gentios se entendam como benefícios nacionais do
cumprimento das promessas de Deus a Davi. Não devemos enfatizar exagerada-
mente a distinção entre o rei davídico e a nação, como muitas passagens do Antigo
Testamento deixam claro (por exemplo, 1 Rs 6.12,13; 9.4-9 e SI 72; 144).

No segundo painel, o apelo divino assume maior substância moral, visto que as
exortações iniciais para “buscar” ou “invocar” o Senhor são acompanhadas por uma
ordem ao arrependimento. O Senhor promete misericórdia e perdão aos arrependi-
dos, como também bênçãos renovadas. Muitos termos-chaves usados em Isaías 55.6,7
ocorrem em outras passagens que falam de uma renovação escatológica do concerto
com os exilados, entre eles “buscar” (Dt 4.29), “voltar” (Dt 4.30; 30.2,3,10; 1 Rs 8.47,48), “ter misericórdia” (Dt 4.31; 30.3; 1 Rs 8.50) e “perdoar” (1 Rs 8.50). Israel
sofrera o exílio previsto por Moisés e Salomão; agora o Senhor estava lhe disponibili-
zando a reconciliação prevista por estes dois antigos líderes da nação.

Devemos harmonizar este apelo à renovação do concerto e a promessa de
perdão com as declarações mais antigas que falam que os pecados de Jerusalém (a
cidade representa a nação exilada) foram pagos através do exílio (40.2) e que Deus
desfez as iniqüidades do povo (44.22). O exílio foi o castigo necessário pela rebe-
lião da nação. Uma vez que o período prescrito se cumprira, a barreira inicial para
a reconciliação acabou. A remoção desta barreira inicial está registrada em Isaías
40.2 e provavelmente também em Isaías 44.22. Outra barreira para a restauração
permanecia. A tendência de Israel a rebelar-se, que fora o gatilho que inicialmente
desencadeara o exílio. Até que Israel verdadeiramente se arrependesse e tivesse uma
renovação interior, não ocorreria nenhuma restauração verdadeira e duradoura. Isa-
ías 55 é um apelo para essa mudança.

Reconhecer a relação entre a declaração em Isaías 40.2 e o apelo em Isaías 55
fornece respostas para as duas questões desconcertantes que surgem na interpreta-
ção de Isaías 40 a 55• (1) Se Israel já sofreu pelos seus próprios pecados no exílio,
como o sofrimento do servo pode ser vicário? (2) Por que o retorno dos exilados nos
séculos VI e V a.C. ficou muito aquém da visão gloriosa de Isaías?
Quanto à primeira questão, é verdade que Israel necessariamente sofreu pe-
los seus próprios pecados e que este sofrimento abriu caminho para a restauração.
Porém, como já comentado, algo além disto, isto é, a renovação do concerto, era
essencial para a conclusão da reconciliação da nação. O servo, como mediador da
nação do concerto (49.8), desempenha papel importante no estabelecimento deste
novo concerto. Mais especificamente, como mostra a revelação subseqüente, o seu
sofrimento proporciona a fundação sacrificatoria para a implementação do concerto (cf. Mt 26.28; Mc 14.24; Lc 22.20; 1 Co 11.25; Hb 9.15; 12.24). Resumindo, o
sofrimento de Israel no exílio não foi suficiente em si mesmo para ocasionar a res-
tauração completa. Era também necessária uma mudança fundamental no caráter
moral da nação, uma mudança que ocorre pelo novo concerto, mediado pelo servo
do sofrimento.

Quanto à segunda questáo, é verdade que o retorno histórico da Babilônia náo
cumpriu a visão magnífica de Isaías. Em parte, porque a resposta dos exilados ao apelo
do Senhor para a renovação do concerto não chegou a ser impressionante. O arrepen-
dimento e a renovação nacional em grandes proporções não podia acontecer até que
o servo viesse e pusesse a fundação para o novo concerto. A revelação subseqüente
indica que, no plano oculto de Deus para o mundo, a renovação do concerto de Israel
como entidade nacional seria adiada de forma que os gentios também fossem incor-
porados no programa de salvação e chegassem a ser os recebedores no novo concerto
(cf. Rm 11.25-27). O retorno histórico da Babilônia, realizado pela instrumentalidade
de Ciro, somente pressagiava a restauração final de Israel efetuada pelo servo. Con-
siderando que a liberação dos exilados dada por Ciro colocou em ação o programa
de libertação proporcionado por Deus, está estreitamente associada com a realização
escatològica plena da salvação de Israel. Em Isaías, tipo e antítipo estão misturados
deste modo.

Purificação futura do pavo de Deus. O próprio Isaías sugeriu que a tendência
da nação à rebelião atrasaria o cumprimento completo da visão escatològica. Até
mesmo em Isaías 40 a 48, cujo tom é avassaladoramente positivo e encorajador,
há o reconhecimento de que nem tudo estavam bem entre os exilados. Á medida
em que a seção progride, o tom do profeta se torna cada vez mais exortativo che-
gando a ser até mesmo acusatório. Entre os exilados havia um espírito briguento
que questionava a sabedoria de Deus (45.9,10). Deus trata pelo menos de alguns
como “prevaricadores” (46.8; 48.8), traiçoeiros/rebeldes (48.8, NVI) e “duros de
coração” (46.12). A lealdade prometida dos exilados ao Senhor não foi feita de
todo o coração (48.1,2) e tinham a propensão a atribuir o trabalho de Deus aos
ídolos pagãos (v. 5).

Isaías 56 a 66 desenvolve completamente este retrato negativo dos exilados,
onde Isaías prevê que a comunidade, como os antecessores pré-exüicos, seria corrom-
pida, forçando o Senhor uma vez mais a purificar a nação por meio de juízo. Nestes
capítulos, o Senhor trata o povo como a comunidade do concerto e deixa claro que
eles têm de preservar os padrões justos do concerto. Em Isaías 56.1,2, o Senhor exorta
o povo a promover justiça e depois pronuncia uma bênção sobre aquele que “se guarda
de profanar o sábado e guarda a sua mão de perpetrar algum mal”. Para enfatizar que
Ele desejava lealdade genuína e não mera conformidade exterior, o Senhor promete
que os excluídos do templo na antiga ordem, como os eunucos e os estrangeiros, agora
teriam acesso se exibissem devoção ao concerto (56.3-8).

Não devemos entender que a preocupação do sábado (cf. também 58.13)
seja um fenômeno estritamente recente. E verdade que os profetas poste-
riores enfatizaram nas suas acusações a quebra do sábado (Jr 17.21-27; Ez 20.12,13,20,21; 22.8,26). Mas já no início da história de Israel, o sábado foi
separado como sinal especial do concerto (Éx 31.12-17). É especialmente apro-
priado haver um apelo à lei sabática junto com as exortações de justiça social,
porque a observância do sábado tinha de servir de lembrança de que Israel fora
liberto da escravidão e que era responsável por tratar os seus servos de modo
humanitário (cf. Dt 5.12-15).

Em Isaías 56 a 66, o Senhor condena a comunidade por diversos pecados,
muitos dos quais foram cometidos pelos antepassados e ocasionaram o exílio da
nação. Denuncia, especificamente, a idolatria (57.3-13; 65.3-7,11), a injustiça
e a violência (57.1,2; 59.3-8) e a hipocrisia religiosa (58.1-7).
Em Isaías 57, a denúncia da idolatria é tremendamente vívida. O Senhor
trata os idólatras por “semente de adultério e de prostituição” que lascivamente
adoram os deuses pagãos “debaixo de toda árvore verde”, prática com longa
história entre o povo de Deus (cf. 1 Rs 14.23; 2 Rs 16.4; 17.10; Jr 2.20; 3.6;
17.2; Ez6.13; 20.28; Os 4.13,14). O Senhor compara essa paixão por idolatria,
que envolvia sacrifício de crianças, a uma adúltera que sobe na cama com os
amantes e descaradamente olha a nudez deles.

A referência ao jejum (58.1-7), embora não espelhe necessariamente um
plano de fundo exílico/pós-exílico (cf. Jz 20.26; 1 Sm 7.6), é consistente com
a ênfase nesta prática que se desenvolveu em épocas posteriores (cf. Zc 7.1-5;
8.19). Como em Zacarias, o Senhor deixa claro que o jejum não faz sentido sem
que haja justiça social. O jejum por si mesmo não ocasiona o favor de Deus. O
Senhor coloca maior prioridade na justiça aos trabalhadores e na preocupação
pelos pobres e sem-teto. Só quando a justiça tomar o lugar da opressão é que
o povo e a terra teriam as bênçãos divinas e a renovação (cf. 58.8-12). Naquele dia, o povo iria “cavalgar” triunfalmente “sobre as alturas da terra”, como fa-
ziam antigamente (cf. 58.14 com Dt 32.13).

Isaías 56 a 66 distingue nitidamente os injustos e os justos nos seus respec-
tivos caracteres e destinos. Os injustos, que praticavam ações idólatras e injustas
descritas acima, seriam eliminados da comunidade pelo julgamento do Senhor,
simbolizado pela espada e fogo (65.12; 66.15,16). Os cadáveres carbonizados
do exército jazeriam expostos à vista de todos os homens como lembrança per-
pétua das conseqüências de rebelião contra o Senhor (66.24).

Em contraste com os injustos, os justos caracterizam-se, primeiramente, por
humildade e espírito arrependido (57.15; 66.2). Constam nestes capítulos as ora-
ções de arrependimento feitas pelos justos, provavelmente como modelo de como
os exilados deveriam se aproximar do Senhor. Impressionados pela iniqüidade ao
redor (cf. 59.1-8), os arrependidos reconhecem seus pecados (w. 12,13) e lamentam
as conseqüências da rebelião da nação (w. 9-11,14,15). Confessam que a nação
reagiu com ingratidão aos atos poderosos do Senhor (63.7-10) e admitem que os
seus pecados causaram corrupção total e destruição irreversível (64.5-7). Contudo,
clamam ao Senhor, lembrando-o da sua relação especial com a nação como Pai/
Criador (63.16; 64.8) e Redentor (63.16). Imploram que Ele abrande a ira (64.9) e
não os entregue mais à dureza de coração (63.17). Pedem que ele tenha compaixão da terra desolada e do Templo destruído (63.18; 64.10-12) e renove as ações pode-
rosas de antigamente. Desejam ver novas demonstrações do seu poder assombroso
contra os inimigos (64.1-4). As referências a ele descer e as montanhas tremerem
se valem da tradição teofânica poética (cf. Jz 5.5; SI 18.9; 144.5), enquanto que as
“coisas terríveis” recordam os milagres divinos junto com o êxodo do Egito (cf. SI
106.22).

Os justos terão a proteção e trabalho reconstituinte de Deus (Is 57.19-21; 59.20) e desfrutarão de lugar especial como seus servos (65.13-16). Como “povo
santo” de Deus (62.12; cf. Dt 7.6; 14.2,21), eles povoarão a nova criação, cujo
foco é a Sião restabelecida (65.17-19; cf. também 60; 62). Sinais tangíveis e ví-
vidos das bênçãos de Deus realçarão esta nova era quando a morte e o exílio,
maldições estipuladas pelo concerto, forem afastadas (65.20-25). A expectativa
de vida aumentará radicalmente e o povo de Deus desfrutará os frutos dos seus
trabalhos, livres da ameaça de invasão. Os poderosos já não perseguirão os fracos
(cf. 11.6-9, que emprega imagem semelhante para descrever o advento de paz na
era vindoura) e o novo concerto previsto e oferecido em Isaías 40 a 55 se tornará
realidade (59.21; 61.8).

Digressão a Isaías 65.25. Certos estudiosos entendem que a declara-
ção “o pó será a comida da serpente” seja alusão a Gênesis 3.14, em que
a serpente é castigada pelo seu crime, sendo forçada a rastejar a barriga e, assim, “comer pó”. Neste caso, o argumento é que nos últimos dias, quan-
do os sinais das bênçãos restabelecidas de Deus estiverem em toda parte,
a serpente rastejante permanecerá como lembrança das conseqüências da
desobediência e da supressão divina das forças rebeldes. O contexto, porém,
sugere uma interpretação diferente. As declarações paralelas no versículo
indicam que predadores outrora perigosos não atacarão mais as vítimas. A
serpente, como o leão e o lobo não representará mais perigo mortal aos que
outrora os temiam. A passagem paralela em Isaías 11.8 tem esta mesma ên-
fase. A alusão a Gênesis 3.14 é improvável, apesar das semelhanças verbais
superficiais.


DEUS E AS NAÇÕES

Como Criador soberano do mundo, Deus controla o destino das nações.
Como ocorreu em Isaías 1 a 39, as nações aparecem como instrumentos do
julgamento divino (cf. as referências ao persa Ciro, analisadas anteriormente),
objetos da ira de Deus e, no final das contas, como seus súditos obedientes.
Julgamento. Por meio de Ciro, Deus levaria julgamento sobre muitas na-
ções do mundo do antigo Oriente Próximo. Anunciando o decreto de levantar
Ciro, Ele desafiou as nações e os seus deuses a competir com a sua soberania
(41.1-7,21-29; 43.8-13; 45.20,21). Nenhum dos deuses das nações tinha o po-
der de decretar acontecimentos e de realizá-los, e nenhum poderia resistir ao
cumprimento dos propósitos de Deus pelo rei persa.

Babilônia, apresentada anteriormente como inimigo do povo de Deus e
como símbolo dessas nações contrárias a Deus (cf. 13; 14; 39), tem lugar de des-
taque em Isaías 40 a 55. Como o Egito de antigamente, a Babilônia foi um lugar
de escravidão para Israel. Deus, porém, anuncia a sua soberania absoluta sobre
esta grande cidade e império. Os deuses-ídolos da Babilônia feitos pelos homens
nem se comparavam com o Senhor, o Criador e Rei do universo, e não poderiam
impedir que Ele redimisse Israel. Porque os deuses da Babilônia não tinham po-
der, os que buscavam suas revelações e confiavam na sua proteção ficariam desa-
pontados.

Isaías 47 fala que Babilônia é como uma rainha outrora orgulhosa e
gloriosa que sofreu a humilhação da derrota. Ela foi deposta e forçada a
executar o trabalho duro e grosseiro de plebeu ou servo (w. 1-3). Deus se
vinga dela (v. 3), porque ela ultrapassou os limites como instrumento divino
de castigo e não mostrou clemência ao povo (v. 6). Vangloriou-se que o seu
reinado jamais terminaria, afirmando que nunca experimentaria a viuvez ou
a perda de filhos (v. 8). O Senhor, porém, traz estas duas coisas sobre ela em
um único dia (v. 9). Os seus deuses de nada serviriam naquele dia e nenhum
dos seus adivinhos e astrólogos resistiria diante do poder destrutivo de Deus (w. 9-15). 
Edom também aparece em papel representativo como objeto do julgamen-
to irado de Deus (Isaías 63.1-6; cf. Isaías 34). Isaías 63 apresenta um dos
quadros mais vívidos de Deus como guerreiro no Antigo Testamento. Retrata o
Senhor voltando de Edom trajando vestes usadas manchadas com tanto sangue
que parece um dos que pisam uvas em uma prensa de vinho. O julgamento
sobre as nações (cf. 63.6, que usa linguagem mais universal) chama-se o “dia da
vingança” e é caracterizado por “ira”. Ao mesmo tempo, é um tempo de reden-
ção (cf. Isaías 62.12 com Isaías 63.4) e salvação para Israel.

Salvação. Como em Isaías 1 a 39, o julgamento das nações conduz à re-
conciliação com Deus. Isaías 40 a 55 falam sobre esse fato em vários lugares.
Uma das tarefas principais do servo do Senhor é levar justiça às nações (42.1-4;
49.6; note que a segunda canção do servo é endereçada às nações distantes). As
nações deveriam responder a estas boas-novas com alegria e louvor (42.10-12).
Os discursos de julgamento proferidos por Isaías contra as nações culminam
com um apelo ao arrependimento (45.22-25). Tendo impressionado as nações
com evidências da sua incomparabilidade e soberania, o Senhor lhes oferece
reconciliação. “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os termos da terra;
porque eu sou Deus, e não há outro” (45.22). Para motivar uma resposta posi-
tiva, o Senhor os informa que está chegando o dia em que todos reconhecerão
a soberania divina. A sabedoria manda que a pessoa voluntariamente faça esta
confissão agora, em vez de ser forçada vergonhosamente a fazê-la depois.

Isaías 56 a 66 também prevêem a incorporação das nações no reino de Deus.
Levarão os exilados de Israel de volta à Palestina, ajudarão na reconstrução de
Jerusalém e darão tributos ao Senhor (60.3-16; 61.6; 62.2; 66.12,18-20). Deus
enviará embaixadores às nações distantes para proclamar a sua grandeza e glória
(66.19). Todas as nações adorarão ao Senhor em dias santos designados (v. 23).

CONCLUSÃO

Gênesis 1 a 11 descreve como a rebelião do gênero humano interrompeu
a ordem criada, trazendo como conseqüência maldição, morte e discórdia so-
cietária. Deus escolheu Abraão e prometeu restaurar a bênção universal por
meio da sua descendência (Gn 12). Através do êxodo de Israel do Egito e a en-
trega do concerto no monte Sinai, o Senhor criou uma nação da descendência
de Abraão. Entretanto, como Isaías e outros tão claramente destacaram, Israel
quebrou este concerto e não foi o exemplo de obediência e justiça que Deus
queria. Por conseguinte, a nação também não foi um canal da bênção universal
de Deus. Apesar dessa história de rebelião e fracasso universal e nacional, o ideal
de Deus para o povo do concerto e para as nações terá cumprimento. De acordo
com Isaías, o Israel ideal, o servo obediente de Deus, tirará mais uma vez o Israel
nacional, o servo cego de Deus, da escravidão e mediará um novo concerto em
prol da nação. Será também instrumental para levar as nações a um lugar de
submissão e bênçãos. Como tal, este concerto é central não só à mensagem de
Isaías, mas também à história bíblica e escatológica em geral.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.