19 de março de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia de Lamentações de Jeremias

UMA TEOLOGIA DE LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS

O livro de Lamentações de Jeremias foi escrito em conseqüência da destruição de Jerusalém pelos babilônios em 586 a.C. Grande parte do povo de Judá ou foi morto ou levado em cativeiro. Em meio à fumaça do julgamento,
o autor, tradicionalmente identificado por Jeremias, lamentou a queda da nação, reconheceu os pecados como a razão para a tragédia e clamou a Deus por
misericórdia e restauração. Suas orações proporcionam aos crentes de todas as
eras um modelo de como o povo de Deus deve se aproximar do Senhor depois
de experimentar a disciplina. Embora não seja um tratado teológico, este livro
contém muitos insights teológicos profundos, ilustrando mais uma vez que é
no meio da dificuldade extrema que refletimos seriamente e aprendemos mais
sobre o caráter de Deus e a sua relação com o povo. Podemos resumir a mensagem teológica de Lamentações de Jeremias da seguinte forma: O julgamento
disciplinar irado de Deus sobre o povo, ainda que severo e merecido, não era
final. Até durante as conseqüências do julgamento, o Deus de Judá, amoroso,
compassivo e fiel, permaneceu a fonte de esperança futura da nação para a restauração.

O JULGAMENTO IRADO DE DEUS



Deus como juiz. Embora as hordas babilónicas tivessem invadido a terra e
destruído Jerusalém, o autor de Lamentações de Jeremias reconheceu que elas
eram meros instrumentos da ira de Deus (1.14,15). Afirmou inúmeras vezes que o próprio Senhor decretara (1.17; 2.17; 3.37,38) e enviara a calamidade
(1.5,12-15; 2.1-8; 3.1,43-45; 4.11). O Senhor se tornara o inimigo da nação
(2.4,5) e trouxera “o dia do furor da sua ira” sobre ela (1.12).
De acordo com Lamentações 2.17, este derramamento do julgamento divino não deveria ter causado surpresa ao povo de Deus, porque Ele o decretara
há muito tempo. Há referência às advertências que o Senhor entregou pelos
profetas ao longo da história de Israel, começando com Moisés (Lv 26; Dt 28) e
culminando com Jeremias e outros profetas recentes pré-exílicos. A mensagem
básica dos profetas permanecera a mesma desde o tempo de Moisés. A obediência resultaria nas bênçãos divinas de segurança e prosperidade; a desobediência
traria as maldições divinas de seca, invasão, derrota e exílio. Por causa do pecado, Judá experimentara as maldições do concerto à plena força.

No retrato de Deus como juiz, o autor enfatizou a ira do Senhor (1.12;
2.6) e suas conseqüências destrutivas. Usando uma variedade de metáforas, disse que o julgamento do Senhor é comparado a ser engolfado pelo fogo (1.13; 2.3), atraído à rede do caçador (1.13), pisoteado como uvas no lagar (1.15),
atingido por uma seta (2.4; 3.12,13), acometido por uma doença (3.4), preso
em um calabouço escuro (w. 2,6-8), atacado por predadores ferozes (w. 10,11)
e coberto de cinza (v. 16).

Os efeitos do julgamento. Talvez no esforço de provocar uma resposta divina
positiva aos rogos por misericórdia, o autor descreveu a situação difícil de Jerusalém e da nação com grande vivacidade e muitos detalhes. Embora Jerusalém
tivesse outrora desfrutado de prestígio, agora sofreu a humilhação da derrota.
Os hinos de Sião falam que a cidade era “perfeita em formosura” e o “gozo de
toda a terra” (2.15; cf. SI 50.2; 48.2, respectivamente), mas agora os inimigos
amontoavam insultos sobre ela e se regozijavam com a derrota (1.7; 2.15,16).

A cidade que outrora fora como uma rainha agora fora reduzida a escrava (1.1).
Era como uma viúva (1.1) sem ninguém para consolá-la (1.16,17,21). Seus filhos, antes considerados tão preciosos quanto o ouro, agora eram tratados como
utensílios domésticos comuns (4.1,2). Por toda a cidade e ao longo da terra as
atrocidades abundavam. Muitos tinham perecido pela espada (2.21; 4.9) ou
levados em cativeiro (1.3,5,18). As mulheres foram estupradas (5.11), os líderes proeminentes humilhados publicamente (v. 12) e os jovens forçados a fazer
trabalho severo (v. 13). Muitos dos sobreviventes infelizes, inclusive crianças,
estavam morrendo lentamente de fome (1.11,19; 2.11,12,19; 4.9; 5.9), ao pas-
so que outros até comiam os próprios filhos por puro desespero (2.20; 4.10; cf.
Deuteronômio 28.53-57). O povo era como órfãos e viúvas, dois dos grupos
mais economicamente necessitados na sociedade de antigamente (5.3). Deus já
não ouvia as orações do povo (3.44), que era considerado como “cisco e rejeitamento” aos olhos das outras nações (3.45). De certo modo, o castigo era pior
que o de Sodoma, pois aquela antiga cidade fora reduzida a cinzas de repente e
não fora forçada a morrer uma morte lenta e agonizante (4.6).

As instituições religiosas e civis que tinham dado estabilidade à nação estavam quase agônicas. As festas religiosas de Judá cessaram (1.4; 2.6) e os soldados gentios contaminaram o Templo (1.10; 2.7) e mataram os sacerdotes e
profetas (2.20). A revelação divina por meio dos profetas acabara (2.9), um
castigo adequado para uma sociedade cujo povo colocara a confiança nas mensagens de falsos profetas (2.14). Os líderes civis foram humilhados (4.7,8; 5.12)
e levados em cativeiro (2.9). Até mesmo o rei davídico, a quem o povo procurara
proteção, fora capturado (4.20).

A razão para o julgamento. O autor não justificou a nação, nem acusou
Deus de tratamento injusto. Reconheceu que o castigo da nação era merecido
em virtude do pecado e rebelião. Os muitos pecados de Jerusalém (1.5,22) a
tornaram imunda (1.8,9), como uma mulher cerimonialmente imunda durante
a menstruação (cf. Lv 15.19,20,24-26; 18.19; Ez 22.10, onde ocorre a mesma
palavra hebraica traduzida por “imunda” Lm 1.8, AEC [“impura”, NVI; “instável”, ARC]). Os pecados da nação são citados três vezes como rebelião contra
o Senhor (1.18,20; 3.42). Queixar-se do castigo de Deus seria inapropriado (3.39), visto que Ele é justo (1.18) e íntegro (3.34-36).

O autor especificou muito poucos pecados. Aludiu à injustiça que impregnava a sociedade de Judá (3.34-36), como também à confiança da nação
em alianças estrangeiras (4.17). Citou diretamente as ações violentas de certos
profetas e sacerdotes (4.13) e mencionou as promessas enganosas dos falsos
profetas que o povo achava tão atraente (2.14).

A base para as mensagens de esperança dos falsos profetas era a doutrina
da inviolabilidade de Sião, a crença de que Jerusalém não podia ser destruída,
porque era o lugar da habitação do próprio Senhor (cf. 4.12, que parece aludir a esta doutrina). A inviolabilidade da cidade era um ideal teológico expresso nos
hinos de Sião (cf. SI 46, 48, 76), mas foi pervertida pelos falsos profetas. Transformaram o ideal em promessa incondicional e ignoraram as condições prévias
morais-éticas para o cumprimento do ideal. A queda de Jerusalém em 586 a.C.
expôs essa falsa garantia e ilustra uma verdade teológica bíblica. Os pecadores e
rebeldes, mesmo que estejam exteriormente associados com a comunidade do
concerto e as promessas de Deus, náo devem abusar dessa proteção.

A ESPERANÇA DE RESTAURAÇÃO

Apesar dos horrores do julgamento de Deus e a condição digna de pena
de Jerusalém e do povo, a esperança para o futuro não foi desprezada (3.21). O
Deus de Judá era o rei eterno (5.19), o Deus “Altíssimo” (3.35,38) que habita
no céu (3.41,50,66) e exerce controle soberano sobre os assuntos dos homens.
O destino de Judá estava nas mãos do Senhor. Se ele assim o desejasse, a nação
poderia ter novamente as bênçãos divinas. A resposta apropriada ao julgamento
de Deus era arrependimento genuíno e oração sincera para a restauração do seu
favor (3.40-42; 5.21).

A própria existência do povo já era um sinal positivo. O Senhor poderia
ter destruído totalmente a nação, mas preservou alguns durante o dia de julgamento. O autor interpretou este fato como expressão do amor, compaixão e
fidelidade de Deus (3.22,23). A palavra hebraica traduzida por “misericórdias”
chama atenção à resposta emocional de Deus diante das necessidades do povo.
Os termos hebraicos traduzidos por “amor” (cf. NTLH; NVI) e “fidelidade” são
de significado estreitamente relacionado. Referem-se à dedicação de Deus ao
povo do concerto e às promessas que fez. Através dos concertos com Abraão e
Davi, o Senhor se comprometera com a nação e nem mesmo o espírito rebelde
do povo poderia quebrar esse laço. Embora o Senhor tivesse de disciplinar os
pecadores e eliminar os malfeitores da comunidade do concerto, o seu ideal para
a nação acabaria sendo realizado.

Certo de que a fonte da dedicação e misericórdia de Deus não secara, mas
ainda estava saciando as necessidades diárias do povo, o autor expressou a confiança em Deus. Afirmou que o Senhor era a sua “porção” e declarou que esperaria com fé a salvação do Senhor, fortalecido pelo conhecimento de que “bom
é o Senhor para os que se atêm a ele” (3.24-26). Com a metáfora da “porção”, o
autor comparou o Senhor a uma partilha de terras que provê as necessidades da
vida (cf. SI 16.5,6; 73.26; 119.57; 142.5).

A grande fé do autor lhe deu perspectiva adequada acerca do sofrimento
e disciplina. Declarou: “Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade; assentar-se solitário e ficar em silêncio; porquanto Deus o pôs sobre ele”
(3.27,28). Disse isto porque percebeu que a disciplina do Senhor não é arbitrária nem permanente (w. 31-39). O Senhor não tem prazer em enviar aflição,
mas a sua justiça exige que o pecado seja punido. Quando tal disciplina ocorre,
temos de aceitá-la sem reclamação (w. 28-30,39) e voltar-se ao Senhor em arrependimento (w. 40-42).

VINGANÇA CONTRA OS INIMIGOS

A convicção no caráter justo de Deus foi a base para o autor orar por
vingança divina contra os inimigos da nação. Embora a ruína de Judá fosse
provocada por Deus, as nações circunvizinhas reagiram de modo impróprio
alegrando-se arrogantemente com a queda trágica da nação (1.21; 3.63) e tirando proveito da posição vulnerável (3.52-54). Edom em particular se alegrara
com a derrota de Judá (4.21) e lhe explorara os pontos fracos (cf. SI 137.7; Ob
10-14). O autor pediu ao Senhor que retribuísse aos inimigos de Judá por tais
crimes (1.21,22; 3.64), trazendo sobre eles uma maldição destrutiva (ou um decreto formal de julgamento, 3.65,66). Embora Edom tivesse se alegrado com
a queda de Judá, um dia a situação se inverteria (4.21,22). O período de aflição
e o exílio de Judá acabariam, mas Edom seria punido pelos seus pecados. Edom
seria forçado a beber do copo do julgamento divino e a humilhação subseqüente
seria similar a de um bêbado que vergonhosamente se expõe.


ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.