12 de março de 2015

ROBERT B. CHISHOLM, JR. - Uma teologia de Jeremias

UMA TEOLOGIA DE JEREMIAS

Jeremias viveu e profetizou durante os dias finais de Judá. Foi chamado
para ser profeta quando ainda era jovem, denunciou os pecados do povo e advertiu que em breve o julgamento acometeria a terra. Hostilidade intensa e
oposição ferrenha de reis, sacerdotes e profetas o levaram a clamar pelo Senhor
desesperadamente e às vezes com amargura. Contudo, permaneceu fiel à comissão profética e continuou exortando o povo de Deus mesmo depois da queda de
Jerusalém. Foi levado ao Egito contra a sua vontade por um grupo de refugiados
de Judá. Jeremias advertiu os exilados a viverem lá e a não colocar a confiança
no Egito.

Como tantos outros profetas pré-exílicos que deixaram escritos, a mensagem de Jeremias se concentra na relação de Deus com o povo do concerto,
incluindo ao mesmo tempo muitos oráculos de julgamento contra as nações
circunvizinhas. Jeremias acusou Judá de quebrar o concerto mosaico e anunciou
que as maldições do concerto cairiam sobre a nação. Em particular, chamou a

atenção à idolatria do povo que ele, como fizera Oséias antes dele, comparou
ao adultério. Previu, também, o dia em que o Senhor derrubaria as poderosas
e hostis nações circunvizinhas, restauraria o povo à Terra Prometida e faria um
novo concerto com eles.

Uma das características exclusivas do livro de Jeremias é a enorme quantidade de material biográfico. O livro inclui muitos dos lamentos de Jeremias,
relatos de ações simbólicas que ele executou e narrativas dos encontros com reis
injustos, sacerdotes corruptos e profetas mentirosos. Esse material contribui
para a teologia do livro, fornecendo insight sobre a relação do verdadeiro profeta com Deus, ilustrações concretas das mensagens do profeta e prova tangível do
grau da corrupção da nação antes da queda.

Podemos resumir a teologia do livro de Jeremias da seguinte forma: O julgamento de Deus cairia sobre Judá por ter quebrado o concerto com Ele. O povo
adorava outros deuses, e os líderes religiosos e civis eram desesperadamente corruptos. Espada, praga e fome devastariam a terra e muitos seriam levados em cativeiro. Deus também julgaria as nações arrogantes e subseqüentemente restabeleceria o povo à Terra Prometida. Faria um novo concerto com os reinos do Norte
e do Sul reunidos e no lugar dos reis e sacerdotes ineficazes dos dias de Jeremias
colocaria um rei davídico ideal (o Messias) e um sacerdócio purificado.

DEUS E O SEU POVO

Judá rejeita o seu Deus
O Concerto Quebrado. Jeremias lembrou ao povo sobre as obrigações do
concerto e o acusou de quebrar o acordo com o Senhor. Séculos antes, nos dias
de Moisés, Deus estabelecera o concerto com a nação. O Senhor advertiu que
as maldições do concerto viriam sobre os infratores, mas prometeu que a obediência resultaria na sua presença e bênçãos (Jr 11.2-5). Ao longo da história
de Israel, o povo quebrou os termos do concerto e sofreu a disciplina de Deus
(w. 7,8). O povo da geração de Jeremias seguiu nos passos dos antepassados
rebeldes (w. 9,10). Rejeitaram a lei de Deus (9.13) e ostensivamente desobedeceram aos padrões mais básicos, maltratando-se uns aos outros e adorando outros deuses (cf. 7.9, que menciona especificamente a violação de cindo dos dez
mandamentos). Por causa da desobediência persistente, um julgamento severo
e inevitável estava a ponto de cometê-los (11.11-17).

Para realçar a infidelidade do povo às estipulações do concerto de Deus,
Jeremias lhes deu uma lição prática envolvendo a família dos recabitas (35.1-
19). Os recabitas eram descendentes de Jonadabe, filho de Recabe, mencionados em 2 Reis 10.15-23 como seguidores zelosos do Senhor e oponentes
da adoração a Baal. Jonadabe mandou que os seus descendentes seguissem
um estilo de vida nômade e rigidamente ascético, que incluía a abstinência de
vinho. Mais de 200 anos depois, os descendentes ainda estavam obedecendo aos regulamentos estabelecidos pelo antepassado. Sob as ordens do Senhor,
Jeremias convidou os recabitas ao Templo e lhes ofereceu vinho. Claro que
recusaram beber, dizendo que tinham de permanecer fiéis ao antigo padrão
de abstinência. O Senhor instruiu Jeremias a informar ao povo que os recabitas eram uma lição prática para eles. A dedicação irresoluta dos recabitas às
ordens dos ancestrais estava em nítido contraste com a rejeição persistente do
povo à lei de Deus e às convocações ao arrependimento dadas pelos profetas.

A rebelião de Judá tornara a nação inútil para o Senhor, fato ilustrado por
uma lição prática (13.1-11). Sob as ordens do Senhor, Jeremias comprou um cinto de linho, usou-o na cintura e depois o enterrou debaixo de algumas pedras
perto de um rio. Lógico que quando o profeta desenterrou o cinto, estava estragado e não servia para nada. Da mesma forma que o homem espera que um cinto
lhe traga atenção e elogios, assim o Senhor queria que o povo lhe trouxesse fama
e louvor obedecendo à lei e servindo de modelo de justiça para as nações (cf. Dt
4.5-8). Porém, da mesma maneira que os elementos da natureza estragaram o cin-
to de Jeremias, assim os pecados de Judá o inutilizaram como servo do Senhor.
O Adultério Espiritual. A quebra do concerto tomou muitas formas,
mas o pecado mais odioso da nação de Judá foi ter rejeitado o Senhor a
favor de outros deuses. O Senhor é o Deus vivo e verdadeiro, o Criador soberano do universo (10.10.12), que fixa limites para o mar furioso (5.22),
controla os elementos da natureza (10.13) e reina sobre as nações (w. 7.10).
Criou Israel (v. 16), livrou-o da escravidão egípcia e o levou com segurança
à fértil terra prometida (2.6,7). Apesar da bondade de Deus com Israel, o
povo se voltou ao ídolos de madeira e metal inúteis, inanimados e feitos pelos homens (1.16; 2.5,8-12; 10.3-5,8,9,14,15; 16.18-20). Rejeitando ao
Senhor, que era como “manancial de águas vivas” capaz de lhes proporcionar alimento ininterrupto, os israelitas tiveram, por assim dizer, de cavar “cisternas” próprias (2.13). Os deuses-ídolos eram como “cisternas rotas, que não retêm as águas”, porque eram totalmente incapazes de satisfazer as necessidades do povo de Deus.

Jeremias especificou certas deidades e práticas pagãs que eram especialmente atraentes ao povo. Adoraram Baal, o deus cananeu da tempestade e da fertilidade (2.8,23; 7.9; 9.14; 11.13,17; 12.16; 19.5; 23.13,27; 32.29,35) e até queimaram crianças no fogo como ofertas a esse deus (19.5) e a Moloque
(32.35; cf. Lv 18.21; 20.2-5; 2 Rs 23.10). Expressaram devoção também à
deusa mesopotâmica Ishtar, chamada em Jeremias a “Rainha dos Céus” (7.18;
44.17-19,25). O culto a esta deusa envolvia o ritual de assar bolos na sua imagem, queimar incenso e derramar ofertas de bebida. Logo após à destruição de
Jerusalém, os exilados no Egito retomaram esta prática, afirmando que a queda da cidade foi a conseqüência de terem abandonado este ritual (44.15-19).

Para enfatizar como era repulsivo aos olhos de Deus o comportamento
idólatra do povo, Jeremias o comparou à infidelidade conjugal. A adoração de
Baal debaixo de árvores sagradas dos lugares altos era comparável a uma adúltera que se entrega aos amantes (2.19). Acompanhando os passos da irmã, o
Reino do Norte (3.6-20), o Judá idólatra era como uma esposa infiel que se
esquece dos seus símbolos matrimoniais (2.32) e descaradamente se engaja em
numerosas relações ilícitas (3.1-3). Na luxúria desenfreada pelos deuses pagãos,
ela era como uma camela correndo freneticamente por todos os lados ou uma
jumenta selvagem no ardor do apetite sexual por um parceiro (2.23,24).

A Injustiça Social. Jeremias também denunciou a injustiça que caracterizava
a sociedade judaica. Os ricos oprimiam violentamente os pobres e não defendiam
a causa das viúvas e órfãos (Jeremias 2.34; 5.26-28; 7.5,6). Os reis de Judá, que
tinham de promover e manter a justiça na terra (Jeremias 21.11; 22.2-4), eram os
piores ofensores. Jeoaquim forçou os compatriotas a construir um fino palácio real
para ele e não lhes pagou pelo trabalho (22.13,14). Jeremias contrastou este ato
opressivo com as ações justas do pai de Jeoaquim, Josias, que tinha defendido os
direitos dos pobres e necessitados (w. 15-17). Obedecendo aos mandamentos de
Deus pertinentes à justiça social e econômica, Josias demonstrara que ele verdadeiramente reconhecia a autoridade do Senhor, mas Jeoaquim só estava interessado em “avareza” (“ganância”, ARA). Zedequias, o último rei de Judá, também não
promoveu a justiça. Durante o sítio babilónico de Jerusalém, ele e os habitantes
da cidade fizeram um concerto solene diante do Senhor para libertar os escravos
hebreus, de acordo com a lei de Moisés. Porém, quando o sítio temporariamente
terminou, eles se arrependeram e não cumpriram o acordo (34.8-20).

A Hipocrisia e Falsa Esperança. Apesar destas violações óbvias do concerto, o povo ainda oferecia sacrifícios ao Senhor e cria nas promessas de salvação
proferidas pelos falsos profetas. Estes profetas garantiam para o povo que a
calamidade não viria e que o futuro seria cheio de paz e prosperidade (5.12; 8.11; 14.13,15; 27.9; 28.2-4). Pelo visto, a base para esta falsa mensagem de
esperança era que a nação possuía a lei mosaica (8.8) e o Templo do Senhor
estava entre eles (7.4).

Respondendo, o Senhor ressaltou que não achou os sacrifícios aceitáveis (6.20). Desde os dias de Moisés, sempre considerara que a obediência sincera
era mais fundamental do que o ritual sacrificatorio (7.21-12). A posse da lei era sem sentido enquanto os sacerdotes a maltratassem e o povo lhe desobedecesse
(8.8,9). Deus também deixou claro que a presença do Templo não era garantia
de segurança. Para apoiar o argumento, destacou Siló, que outrora fora o local
do Tabernáculo, foi mais tarde abandonado por Deus. Se o povo não se arrependesse, o monte do templo seria destruído como Siló fora (7.12-14; 26.6,9).

Os falsos profetas seriam objeto especial da ira divina. O motivo primário para pronunciarem oráculos de salvação era a ganância, porque eles
eram ricamente recompensados quando falavam palavras tranqüilizadoras
ao povo (6.13; 8.10). Estes profetas não fizeram parte da assembléia divina
(23.18) ou foram comissionados por Deus (14.14; 23.21; 29.9,31), pois se
tivessem, teriam denunciado as más ações do povo (23.22). Em vez disso,
eles garantiam aos malfeitores que nenhum dano os acometeria (23.10-17).

Esse interesse por profecias de paz os colocava sob suspeita, pois os verdadeiros profetas do Senhor de tempos antigos eram primariamente mensageiros de destruição iminente (28.8,9). As mensagens dos falsos profetas
eram uma ilusão, pois eram derivadas de métodos próprios de adivinhação
e visões (14.14; 23.16,26-38; 29.8). Em contraste com estes falsos profetas,
Jeremias fora escolhido por Deus antes do nascimento e recebera a comissão
especial de proclamar a palavra de julgamento de Deus (1.4-19). Diferente dos falsos profetas, que não tinham revelação divina genuína, Jeremias
devorava, por assim dizer, a palavra de Deus (15.16) e estava tomado pela
compulsão de anunciá-la (20.9). Ele era um dos “atalaias” de Deus (6.17),
enviados para avisar ao povo do concerto que se convertesse dos seus maus
caminhos (7.25; 25.4).

A Rejeição da Palavra do Senhor. Talvez a evidência mais tangível da rejeição do povo à autoridade de Deus seja o tratamento severo dados aos mensageiros proféticos que fielmente proclamavam a sua palavra. Jeoaquim mandou
matar um dos colegas proféticos de Jeremias: Urias, filho de Semaías (26.20-23)
e a vida de Jeremias também foi ameaçada em várias ocasiões.

O livro registra em detalhes a perseguição que Jeremias enfrentou dos seus
compatriotas, inclusive dos líderes religiosos e das autoridades civis. Certos homens de Anatote, cidade natal de Jeremias (1.1), disseram a ele que não profetizasse no nome do Senhor e tramavam matá-lo (11.18-21). Certo sacerdote chamado
Pasur, filho de Imer, batera nele e o colocara no tronco que ficava junto a uma das
portas do Templo (20.1,2). Em outra ocasião, vários sacerdotes e profetas estavam
a ponto de executar Jeremias (26.8,9) quando certos funcionários e anciãos da nação intervieram a favor dele (w. 10-19,24). Quando Jeremias colocou um jugo
no pescoço para ilustrar que a Babilônia em breve conquistaria os estados ocidentais, o falso profeta Hananias o tirou do pescoço e o quebrou diante de todas as
pessoas (28.10). Outro falso profeta, Semaías, o neelamita, escreveu uma carta
aos sacerdotes para acusar Jeremias de traição e de ser falso profeta, aconselhando
veementemente que o colocassem na prisão (29.24-28).

Os reis também reagiram violentamente à palavra de Deus dita por Jeremias e não lhe mostraram o respeito que a posição lhe merecia. Quando Baruque registrou uma das mensagens de Jeremias e a leu no Templo, as autoridades
de Jeoaquim confiscaram o rolo e o levaram ao rei, que passou a cortá-lo coluna
por coluna e lançá-lo ao fogo (36.1-26). Durante o reinado de Zedequias, as
autoridades do rei prenderam Jeremias sob a acusação de traição, bateram nele
e o lançaram na prisão durante muitos dias (37.13-16). Zedequias ordenou
que o profeta fosse transferido a um lugar mais confortável (v. 21), mas acabou
cedendo sob pressão dos oponentes de Jeremias e permitindo que abaixassem o
profeta a uma cisterna cheia de lama (v. 1-6). Foi só pela intervenção de certo
etíope, Ebede-Meleque, que a vida de Jeremias foi salva (38.7-13). Ainda que o
rei conversasse secretamente com Jeremias na esperança de receber uma palavra
do Senhor, ele se recusou a aprovar ou defender Jeremias publicamente (w. 14-
27). O profeta permaneceu preso até o dia em que os babilônios conquistaram a
cidade (v. 28). Mesmo depois da queda da cidade, alguns líderes dos refugiados
acusaram Jeremias de traição e lhe rejeitaram as palavras (43.1-4). Forçaram Jeremias a ir com eles para o Egito (v. 6), onde o profeta continuou falando contra
os pecados do povo (v. 8; 44.30).

Digressão aos lamentos de Jeremias. Em face da perseguição, Jeremias
orou ao Senhor em numerosas ocasiões. Ele serve de exemplo piedoso
e fonte de encorajamento para todos que sofrem opressão às mãos de
homens maus. Jeremias afirmou inocência (11.19; 15.10,17) e lealdade (15.15,16; 17.16; 18.20), apelou a Deus como justo Juiz (11.20; 12.1; 20.12) e Protetor (17.17; 20.11), e pediu-lhe que vingasse os inimigos do profeta (11.20; 12.3,4; 15.15; 17.18; 18.21-23; 20.12). Sob a pressão de intensa oposição e hostilidade, Jeremias às vezes vacilava
emocionalmente. Questionou por que os maus prosperavam (12.1,2),
amaldiçoou o dia em que nasceu (imediatamente depois de louvar ao
Senhor como seu Libertador, 20.13-18), acusou Deus de ser indigno de
confiança (15.18) e enganoso (20.7), e reclamou que a sua fidelidade
à obra de Deus lhe trouxera nada mais que dificuldade (v. 8). Embora
o Senhor repreendesse o profeta (15.19), ele também o incentivou a
permanecer fiel à comissão, prometeu-lhe proteção e assegurou que os
inimigos seriam castigados (11.21-23; 15.11.20,21).

A Diminuição da Possibilidade de Arrependimento. Por meio de uma lição prática, o Senhor deixou claro que a sua relação com as nações não é fixa e
imóvel (18.1-11). Sob as ordens do Senhor, Jeremias foi à casa do oleiro e ficou
observando. Enquanto o oleiro estava moldando certo tipo de vaso, o barro não deu forma. Então, formou com o barro um tipo diferente de vaso. A decisão
do oleiro em mudar de desígnio ilustrou a relação do Senhor com as nações.
Mesmo que o Senhor decrete julgamento para uma nação má, essa decisão pode
ser alterada se a nação se arrepender. Ao mesmo tempo, a decisão do Senhor em
abençoar uma nação também pode ser mudada, se tal nação rejeitá-lo e praticar
o mal. Esta lição era particularmente relacionada a Judá. O ideal de Deus para o
povo fora arruinado pelo comportamento pecador deste povo. O desejo do Senhor era abençoá-los, mas o pecado o forçara a decretar julgamento. Para evitar
a desgraça o povo tinha de se arrepender.

O Senhor exortou o povo teimoso a abandonar os caminhos maus e voltar a Ele (3.12,14,22; 4.1; 18.11; 25.5; 35.15; cf. também 26.3; 36.3,7). Exigiu que reconhecessem que eram infiéis, abandonassem os ídolos e circuncidassem
o “coração” (3.9; 4.4). A circuncisão física marcava o israelita como membro
da comunidade do concerto. O Senhor desejava algo mais profundo que sinal
externo de ligação ao concerto. Exigia um sinal da verdadeira submissão ao Senhor do concerto e compromisso aos princípios que Ele acabara de apresentar.

Temos de demonstrar esta devoção sincera ao Senhor do concerto obedecendo
às exigências do concerto, cujo princípio mais básico era adorar unicamente ao
Senhor. Se o povo se voltasse sinceramente ao Senhor, Ele lhes mostraria misericórdia (3.12), curaria a apostasia (v. 22) e se absteria de enviar-lhes a calamidade
(26.3). Como teste tangível da sinceridade deles, o Senhor lhes ordenou que
observassem os regulamentos do sábado relacionados à lei mosaica (17.19-27).

Esta chamada à mudança no coração do povo passou sem despertar a atenção. Arrependimento, junto com a promessa de perdão e bênçãos, foi um ideal
não realizado. Como se dera no passado (3.7,10), o povo de Deus recusou voltar
para Ele (5.3; 8.5,6; 15.7; 18.12; 23.14; 25.7; 35.15; 44.5) e preferiu voltar aos
maus caminhos dos seus pais (11.10). Por conseguinte, Deus os entregou à destruição e anunciou, ironicamente, que Ele não voltaria a trás em julgá-los (4.28). 

Com um toque de hipérbole, ele declarou que pouparia Jerusalém se no mínimo
um indivíduo honesto e fiel fosse encontrado na cidade (5.1). Jerusalém era até
mais corrupta do que Sodoma e Gomorra (23.14), as quais o Senhor concordara em poupar caso achasse dez indivíduos justos nessas cidades (cf. Gn 18.32).

Disse para Jeremias que não intercedesse pela nação (14.11) e declarou que Ele
não se comoveria com ritos religiosos, como jejum e sacrifício (v. 12). Quando
Jeremias tentou interceder (w. 19-22), o Senhor respondeu: “Ainda que Moisés
e Samuel [cujas orações tinham poupado a nação em várias ocasiões; Êx 32.9-14;
Nm 14.11-23; 1 Sm 7.2-13; 12.19] se pusessem diante de mim, não seria a minha
alma com este povo; lança-os de diante da minha face, e saiam” (15.1).

Diferente do que aconteceu nos dias de Ezequias, não haveria libertação
divina milagrosa. Quando Zedequias perguntou a Jeremias se o Senhor poderia
intervir milagrosamente a favor do povo, como fizera tantas vezes na história, o
profeta anunciou que os babilônios conquistariam Jerusalém e matariam seus habitantes (2L1-10). Aconselhou Zedequias a submeter-se ao rei babilónico, advertindo que a resistência ocasionaria destruição desnecessária e total em Jerusalém (27.1-22). Resignando-se à inevitabilidade do julgamento, o profeta
olhou os exilados como a esperança futura da nação (24.1-10) e os incentivou
a se estabelecer na Babilônia, contribuir para a prosperidade da nova terra e
esperar a libertação final (29.1-14).

O julgamento vem do norte

O Instrumento do Julgamento usado por Deus. Desde o início do ministério profético, Jeremias advertiu que o julgamento viria varrendo do norte pela
nação impenitente. Quando o Senhor comissionou Jeremias, mostrou-lhe a visão
de uma panela fervente que se inclina do norte. Explicou que o conteúdo da panela representava os exércitos dos reinos que ficavam no norte que se derramariam
na terra como instrumentos do julgamento de Deus sobre o povo pecador (1.IS-
IS). A terra tremeria diante destas hordas invasoras (10.22) e o povo derreteria
de medo quando visse as multidões bem equipadas do inimigo cruel marchando
veloz e implacavelmente para Jerusalém (4.13; 6.1,2,22-26). Como um leão poderoso, este inimigo do norte roubaria o rebanho do Senhor, assolaria a terra e saquearia os tesouros (4.5-9; 5.15-17; 13.20; 15.12,13). Muitas passagens bíblicas,
como também os desenvolvimentos históricos, afirmam que este invasor do norte
com os exércitos babilónicos de Nabucodonosor e seus aliados do norte (observe
esp. 25.9,26), que destruíram Jerusalém e o templo em 586 a.C.

As Maldições do Concerto Realizadas. Por meio deste invasor, a quem Deus se
referiu por seu “servo” (25.9), seriam realizadas as antigas maldições do concerto (Lv
26; Dt 28). Como advertira Moisés há muito tempo (Dt 28.49), uma nação distante,
cujo idioma o povo não entenderia, conquistaria o povo do Senhor (5.15). A espada,
fome e praga (14.12,15) tomariam conta da terra, destruindo a produção agrícola
(5.17; 8.13; 14.2-6) e dizimando a população (5.17; 9.22; 14.16,18; 15.2,3,9). As mulheres da terra lamentariam que a morte entrara rastejando-se pelas janelas das casas e lhes roubara as crianças e os jovens (9.21). O julgamento de Deus culminaria no
exílio dos sobreviventes (13.19; 15.2), que seriam espalhados entre as nações (9.16; cf.
Dt 28.64). O exílio em terra estrangeira e a subserviência a reis estrangeiros seriam um
castigo apropriado aos que tinham cultuado deuses estrangeiros (5.19; 16.10-13). O
período de servidão de Judá na Babilônia duraria 70 anos (25.11,12; 29.10). Podemos
entender este número literalmente (embora aproximado). Mas também indica um
período de vida típico (SI 90.10) ou é símbolo de um período de castigo apropriado
ou completo. Em todo caso, dá a entender que poucos dos que testemunharam a
destruição da terra estariam vivos para ver a restauração.

Digressão à profecia de 70 anos de Jeremias. Os acontecimentos que
Jeremias falou que eram indicadores do término do período de 70 anos,
ou seja, a queda da Babilônia (25.11,12) e o retorno inicial dos exilados judeus da Babilônia (29.10), ocorreram em 539-538 a.C., aproximadamente 50 anos depois da queda de Jerusalém em 586. Por conseguinte,
os que entendem que a profecia de Jeremias se refire a um período literal de 70 anos têm de identificar o ponto inicial do período com a invasão
babilónica de 605, a qual envolvia o exílio de parte dos judeus (Dn 1.1-7).
Isso concilia bem com o contexto da profecia em Jeremias 25.11,12, que
foi entregue naquele mesmo ano (25.1). A outra referência de Jeremias ao
período de 70 anos (29.10) ocorreu em uma carta escrita pelo profeta aos
exilados algum tempo depois do exílio de Joaquim em 597 (v. 2).

Duas passagens posteriores, Daniel 9.2 e 2 Crônicas 36.21,22, citam
especificamente a profecia de Jeremias acerca de um período de 70 anos de
exílio. Em 539-538 a.C., Daniel, morando na Babilônia, leu a profecia e foi
impulsionado a orar pela restauração dos exilados. Se o período em vista começou em 605 a.C., quando os babilônios levaram o primeiro grupo de exilados (inclusive Daniel; Daniel 1.1-7), então este período de 70 anos estaria
próximo da conclusão em 539-538, provocando a resposta emocional de Daniel. Esta interpretação, que presume a compreensão literal dos 70 anos por
parte de Daniel, faz ótimo sentido no contexto do livro e na experiência de
Daniel. Ao mesmo tempo, não há nada na introdução ou oração de Daniel 9
que exija esta interpretação. A resposta de Daniel é da mesma maneira facilmente explicada pelas outras interpretações do número 70. Daniel já estava
quase uma vida inteira no exílio de Judá na Babilônia e ele considerou que o
julgamento do Senhor estava total e completamente feito (Dn 9.11-13).
De acordo com 2 Crônicas 36.21-23, a terra se agradou dos seus
sábados (cf. Lv 25.1; 26.34,35,43) durante o período de 70 anos de julgamento profetizado por Jeremias. A passagem em 2 Crônicas registra o
édito de Ciro, que permitiu que os exilados voltassem a Judá. Interpretar
os 70 anos no sentido literal é mais problemático neste contexto. A passagem de 2 Crônicas 36 procede em sucessão cronológica, abrangendo
seqüencialmente os reinados de Joacaz (609 a.C., 2 Cr 36.1-4), Jeoaquim
(609-598, 2 Cr 36.5-8), Joaquim (598-597, 2 Cr 36.9,10) e Zedequias
(597-586, 2 Cr 36.11-16), a queda de Jerusalém (586, w. 17-19), o exílio
do povo (w. 20,21) e o édito de Ciro (v. 22,23). O começo dos “dias da
desolação” da terra (w. 21) está naturalmente associado com a destruição
e o exílio de 586 descritos imediatamente antes (w. 19,20). Estes dias da
desolação equivalem aos 70 anos mencionados imediatamente depois. 

Neste caso, isto dá a entender que os 70 anos de Jeremias estavam sendo entendidos em sentido figurado, visto que o édito de Ciro e o retorno
inicial dos exilados ocorreram uns 50 anos depois da queda da cidade.
Não devemos associar o período de 70 anos citados em Zacarias
1.12 (cf. também Zc 7.5) com a profecia de Jeremias. A visão registrada
em Zacarias 1.7-17 aconteceu em 519 a.C. (cf. Zc 1.7). Os 70 anos se
referem à extensão aproximada do período entre 586, quando Jerusalém
caiu, e o tempo da visão.

A Criação Revertida. Jeremias profetizou que o julgamento vindouro era uma
reversão da criação. Descreve os efeitos do julgamento da seguinte forma: “Observei a terra, e eis que estava assolada e vazia; e os céus, e não tinham a sua luz. Observei
os montes, e eis que estavam tremendo; e todos os outeiros estremeciam. Observei e
vi que homem nenhum havia e que todas as aves do céu tinham fugido” (4.23-25).
A terra se tornaria como o mundo antes do tempo em que o Senhor trouxe a luz à
existência, e encheu a terra com seres humanos e o céu com pássaros. Reverteria à
condição “sem forma e vazia”, como o mundo estivera antes da criação (cf. Gn 1.2,
onde é usada a mesma expressão hebraica). Ironicamente, o Criador do universo (10.10,12), que suprime as forças caóticas que ameaçam destruir a ordem que ele
estabeleceu (5.22), desfaria o seu trabalho criativo a favor do povo do concerto (cf. (10.16), fazendo-os sofrer a desordem e as trevas do julgamento.

As Lições Práticas do Julgamento. Para ilustrar o julgamento vindouro,
o Senhor deu ao povo lições práticas e vívidas. Orientou que Jeremias se abstivesse de tomar esposa, lamentar os mortos ou participar de banquetes (16.1-9).
O estilo de vida celibatário de Jeremias pressagiava a dizimação das famílias da
nação. A espada e a fome privariam as famílias de maridos/pais, esposas/mães e
filhos. A recusa do profeta em participar de funerais previa o dia em que o povo
não teria tempo ou oportunidade de enterrar os mortos, muito menos chorar
formalmente por eles. Festejar era impróprio, pois o julgamento de Deus logo
daria fim às celebrações joviais de toda a terra.

Em outra ocasião, Jeremias levou uma botija à entrada da Porta do Sol, perto do
vale do filho de Hinom (também chamado Tofete), que servia de entulho para restos
de cerâmica quebrada, e a quebrou diante de vários observadores (19.1-15). Da mesma maneira que o profeta quebrara a botija, assim o Senhor “[dissiparia] o conselho
de Judá e de Jerusalém” e o faria em pedaços. O vale do filho de Hinom era um local
de adoração pagã, onde o povo sacrificava aos deuses estrangeiros e até oferecia os
próprios filhos em holocausto (cf. também 7.31). No futuro, os cadáveres das pessoas
encheriam este vale e Jerusalém se tomaria, como Tofete, um lugar contaminado.
A Profecia Cumprida. O capítulo final do livro (52), que funciona como
apêndice e é quase idêntico a 2 Reis 24.18; 25.30, descreve como se cumpriram
as profecias de julgamento proferidas por Jeremias. Nabucodonosor sitiou Jerusalém de janeiro de 588 a.C. a julho de 586 a.C. Ao término deste período,
a fome tomara conta da cidade. O rei Zedequias e outros tentaram fugir furtivamente da cidade, mas foram capturados pelos babilônios. Nabucodonosor
matou os filhos de Zedequias diante dos olhos do rei, depois o cegou e o levou
para Babilônia, onde ficou pelo resto da vida. Em agosto de 586 a.C., os babilônios invadiram a cidade, pilharam e destruíram o Templo, e levaram milhares
de pessoas em cativeiro.

Restauração futura. A visáo de Jeremias sobre o futuro de Judá não era totalmente sombria e triste. Previu o tempo em que o povo voltaria do exílio e
reconstruiria Jerusalém. Os reinos do Norte e do Sul seriam reunidos sob a
liderança de um rei davídico ideal e um sacerdócio purificado. O Senhor estabeleceria um novo concerto com o povo, capacitando-o a permanecer leal a Ele.
A Volta do Exílio. O Senhor inverteria o efeito mais devastador do julgamento, reorganizando o povo exilado de volta à Terra Prometida. Assim que os
70 anos tivessem transcorrido, o Senhor mostraria compaixão do remanescente
do povo e, como pastor atento, o tiraria da terra do exílio para levá-lo de volta
à Palestina, à Terra Prometida aos pais (12.15; 16.15; 23.3; 29.10). De todas
as direções viria uma grande multidão, até os habitualmente considerados incapazes ou impróprios para viajar (31.7,8). Esse poderoso ato de libertação faria
a nação se esquecer do antigo êxodo sob a chefia de Moisés. Já não se juraria:
“Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Egito”. Antes, se
declararia: “Vive o Senhor, que fez subir os filhos de Israel da terra do Norte e
de todas as terras para onde os tinha lançado” (16.14,15; cf. 23.7,8).

Talvez a cena mais comovente no retrato de Jeremias acerca da volta do
exílio esteja em Jeremias 31.15-22. Rememorando os dias quando o povo foi
levado em cativeiro, o Senhor fala que Ramá (mencionada como cidade benjamita representativa) e Raquel (uma personificação dos seus filhos, as tribos
de Benjamim [cf. Ramá] e José [cf. as referências a Efraim, um dos filhos de
José, em 31.18,20], que por sua vez representam todo o Reino do Norte [cf.
31.1,4-7,9-11,18,20,21]), choram a perda de seus filhos exilados. O quadro
reflete a realidade histórica das mães de Israel (e depois as mães de Judá) desamparadas, chorando inconsolavelmente quando os seus pequeninos lhes
foram tirados por estrangeiros, para nunca mais os verem ou ouvirem falar
deles. O Senhor, porém, ordena ousadamente que Raquel cesse de chorar e
promete que virá o dia em que os filhos exilados voltariam à Terra Prometi-
da. Efraim (representando o Reino do Norte) era o seu querido primogênito,
o objeto da sua delícia, por quem o coração ansiava (31.20; cf. 31.9). Embora
o Senhor tivesse de disciplinar o seu filho, ele ouviria os gritos de arrependimento de Efraim e lhe mostraria compaixão (w. 18-20).

Com um impulso de emoção e mudança de metáfora (do filho Efraim
para o esposa Israel), o Senhor exorta o Israel teimoso e exilado a abandonar
o estilo de vida pecador e seguir os sinais direcionais que levam para casa
(w. 20-22a). Promete que algo novo aconteceria: uma mulher cercaria um
homem (v. 22). Embora a declaração no versículo 22b seja enigmática e impeça ao dogmatismo interpretativo, o contexto indica que a “mulher” seja a
virgem Israel (cf. w. 4,21). Nesse caso, o “varão” é o seu marido, o Senhor
(cf. v. 3). No dia da restauração, a esposa adúltera de Deus abraçaria o seu
marido com vigor (o sentido de “cercará” nesta interpretação).

Como prova de que a terra voltaria a ser habitada, o Senhor deu outra lição
prática por intermédio do profeta (32.1-44). Enquanto o exército babilónico
sitiava Jerusalém, o Senhor mandou que Jeremias comprasse um campo do primo Hananel. Jeremias colocou a escritura de compra em um jarro de barro para que fosse conservado, e anunciou: “Assim diz o Senhor dos Exércitos, o Deus
de Israel: Ainda se comprarão casas, e campos, e vinhas nesta terra” (v. 15). Seguiu as instruções do Senhor, mas Jeremias ficou um pouco confuso. Louvou ao
Senhor como rei soberano do universo, que realizara ações poderosas a favor de
Israel, mas também expressou a confusão sobre a significação deste mais recente
ato simbólico que lhe fora pedido para fazer. Com os babilônios esperando fora
dos muros da cidade como instrumento do julgamento de Deus sobre o povo
pecador, não fazia sentido para Jeremias comprar terra como se a vida tivesse de
continuar normalmente em Judá (w. 24,25). Lembrando Jeremias da sua primeira afirmação de fé, o Senhor declarou: “Eis que eu sou o Senhor, o Deus de
toda a carne. Acaso, seria qualquer coisa maravilhosa demais para mim?” (v. 27;
cf. v. 17). O Senhor explicou que, depois do tempo do julgamento, ele juntaria
o seu povo, lhe daria a capacidade de obedecer lealmente aos seus mandamentos
e faria um novo e eterno concerto com ele (w. 37-41). O povo de Deus ocuparia
a terra novamente e compraria e venderia propriedades (w. 42-44). A compra
simbólica de Jeremias previa este dia de restauração além do julgamento.

As Bênçãos Restabelecidas. O povo de Deus teria cura espiritual e desfrutaria das bênçãos divinas de paz e prosperidade. Os israelitas do Norte e do Sul
voltariam à terra (30.10; 31.27; 33.7) e se alegrariam com colheitas frutíferas e
rebanhos e manadas abundantes (31.4,5,24; 33.10-13). Os nortistas iriam de
boa vontade a Jerusalém (31.6) para celebrar as bênçãos do Senhor (Jeremias
31.12-14). Tendo recebido perdão (33.6,8), os ex-exilados já não lamentariam
que estavam sendo forçados a sofrer pelos pecados dos seus pais, mas reconheceriam que Deus trata com justiça os homens em base individual (31.29,30; cf.
Ez 18.1-32).

A Sião Repovoada. Jerusalém seria o foco da nação restaurada. A cidade seria reconstruída em sua totalidade (30.17; 31.38-40) e purificada aos
olhos de Deus (31.40). As ruas outrora desoladas estariam cheias de pessoas (30.17,19-20). Os nortistas fariam peregrinações até ela (31.6,12-14) e o povo
de Judá pronunciaria bênçãos sobre ela (v. 23). Como objeto das bênçãos abundantes de Deus, a fama da cidade se espalharia e traria glória a Deus entre as
nações (33.9).

A Nova Liderança. Com exceção de Josias, os reis davídicos dos dias de
Jeremias estavam desagradando ao Senhor (2 Rs 23.32,37; 24.9,19). Em notória contradição à promessa davídica, Deus anunciou ao rei Joaquim (também
chamado Jeconias) que nenhum dos seus descendentes ocuparia o trono davídico (22.28-30). A dinastia davídica foi humilhada, visto que os três dos quatro
últimos reis de Judá foram levados em cativeiro (2 Rs 23.33,34; 24.15; 25.6,7).
Como 1 e 2 Reis, o livro de Jeremias termina com o quadro digno de pena de
Joaquim preso no palácio do rei babilónico (52.31-34).

A vergonha do trono davídico não duraria para sempre. O Senhor levantaria um novo rei davídico, o Messias, para reinar sobre o povo. Em Jeremias 30.9,
este rei é especificamente chamado “Davi”, mas outros textos deixam claro que Ele é um descendente de Davi (23.5; 33.15). É chamado Davi, porque Ele reinaria no espírito desse antepassado ilustre e seria o instrumento do Senhor para levar paz ao povo. Em contraste com os reis injustos dos dias de Jeremias, este
rei promoveria a justiça na terra (23.5; 33.15). Como protetor do povo de Deus,
Ele seria chamado “o Senhor, Justiça [ou melhor, “Libertação”, ou “Defesa”]
Nossa” (23.6). Por meio deste rei, o juramento eterno e indestrutível de Deus
a Davi se cumpria (33.17,20,21,26; cf. 2 Sm 7.16; SI 89.36). O cumprimento
era tão certo quanto o ciclo dia e noite estabelecido por Deus na criação. Usando um tema da tradição referente ao concerto abraâmico, o Senhor prometeu
fazer os descendentes de Davi tão numerosos quanto as estrelas dos céus e a
areia do mar (Jr 33.22; cf. Gn 22.17). Através deste rei davídico se cumpriam
também as promessas de Deus aos descendentes de Abraão (cf. 33.26).
Em contraste com os sacerdotes corruptos do tempo de Jeremias (6.13; 20.1-6; 26.11), um sacerdócio levita purificado serviria ao Senhor no futuro dia
da restauração (33.18,21,22). Em cumprimento da promessa feita aos levitas, a
eles nunca “faltará varão diante” do Senhor “para que ofereça holocausto, e queime oferta de manjares, e faça sacrifício todos os dias” (v. ] 8). Como no caso dos
descendentes de Davi, o Senhor também aplicou o tema do concerto abraâmico
de numerosos descendentes ao sacerdócio levita dos fins dos tempos (v. 22).

O Novo Concerto. A promessa de novo concerto é o destaque do retrato
de Jeremias sobre a restauração futura da nação (31.31-37; cf. também 32.40;
50.5). Este concerto seria novo no sentido que diferiria e substituiria o velho
concerto estabelecido nos dias de Moisés. A diferença não estaria na demanda
básica do próprio concerto, mas na capacidade de o povo obedecer-lhe. Sob o
velho concerto, Deus como “marido” de Israel, exigiu a fidelidade do povo, mas
eles se rebelaram contra a autoridade e desobedeceram aos mandamentos. Estabelecendo a relação do novo concerto com as tribos do Norte e do Sul reunidas,
o Senhor perdoaria os seus antigos pecados. Novamente lhes exigiria devoção,
mas desta vez colocaria dentro deles o desejo e a capacidade para permanecerem fiéis a Ele. Sob o velho concerto, os israelitas precisavam exortar seus
compatriotas a obedecer ao Senhor, pois a tendencia da nação era afastar-se de
Deus. Na era vindoura, tal exortação seria desnecessária, pois todos os israelitas
possuiriam um temor inato do Senhor (32.40) e a capacidade para segui-Lo. 

Como Moisés previra há muito tempo antes (Dt 30.6), o coração do povo seria transformado. As exigencias do Senhor seriam, por assim dizer, escritas no
“coração” em vez de ser nas tábuas de pedra (Dt 6.6). Essa futura geração leal
estava em nítido contraste com os maus contemporâneos de Jeremias, em cujo
coração estava gravado o pecado (17.1) e cuja capacidade para o mal era desesperadamente inerente (cf. Dt 13.23).

O novo concerto também conteria a promessa que Deus nunca mais rejeitaria o povo e o extinguiria como nação. Essa promessa seria tão digna de
confiança quanto às leis da natureza divinamente decretadas imutáveis e o fato
de que o universo infinitamente vasto não pode ser medido ou vasculhado pelo
homem finito (31.35-37).

DEUS E AS NAÇÕES

O Senhor é o Rei soberano sobre as nações e os deuses feitos pelos homens (19.6-16). É compreensível que a comissão do profeta Jeremias fosse de
mais longo alcance do que as fronteiras de Judá. Quando o Senhor chamou
Jeremias, disse-lhe: “Olha, ponho-te neste dia sobre as nações e sobre os reinos,
para arrancares, e para derribares, e para destruíres, e para arruinares; e também
para edificares e para plantares” (1.10, grifos do autor). Os oráculos de Jeremias
contra as nações eram principalmente mensagens de julgamento, designadas a
lembrar o povo de Deus da absoluta soberania universal divina, adverti-los a
não confiar em alianças estrangeiras e assegurá-los da eventual defesa e proteção
contra os inimigos.

Julgamento universal. Embora o julgamento de Deus caísse inicialmente
em Judá, subseqüentemente todas as nações circunvizinhas experimentariam
sua plena força, inclusive os poderosos reinos do Egito e Babilônia (25.15-38).
As nações eram como um grupo de homens sentados à mesa de um bar. Cada
um beberia o copo da ira de Deus até que todos ficassem tomados pelo teor
intoxicante e tropeçassem no próprio vômito. Como um leão furioso, o Senhor
atacaria as nações, cujos “pastores” (provavelmente referência aos líderes) ficariam impotentes diante da sua ira e poder.

Como Judá, algumas nações praticavam o costume da circuncisão. Por
causa da significação como sinal do concerto abraâmico, alguém poderia ter
pensado que a circuncisão dava aos homens, incluindo os estrangeiros, status especial aos olhos de Deus e imunidade da sua ira. O Senhor deixou claro que
as coisas náo eram bem assim. Os que praticavam a circuncisão física, inclusive
o povo do concerto, eram na verdade incircuncisos aos olhos de Deus (9.25,26).
O Senhor os castigaria, pois as atitudes e ações rebeldes demonstravam que eles
eram circuncidados somente na carne e não no “coração”.

Julgamento sobre o Egito. O julgamento do Senhor cairia sobre o Egito, nação na qual o povo de Judá foi tentado a confiar, tanto antes (2.18,36) quanto
depois da queda de Jerusalém (42.14). Usando Nabucodonosor e o exército
babilónico como instrumento de julgamento (43.10; 44.30; 46.13,26), o Senhor destruiria o poder e glória do Egito. Embora o Egito possuísse grau de
força militar e entretivesse ilusões concernentes a conquista mundial (v. 8), não
poderia resistir o “dia de vingança” do Senhor, no qual Ele encharcaria a espada
com o sangue dos inimigos (v. 10). Faraó e o seu principal deus, Amom, seriam
impotentes diante do Senhor (v. 25). Levando em conta a proximidade da ruína
egípcia, era absurdo o povo de Deus colocar a confiança no Egito. O Senhor livraria e restauraria o povo sem a ajuda dos egípcios (cf. w. 27,28).

Julgamento sobre os reinos vizinhos. Deus também julgaria severamente os
reinos vizinhos da Filístia (47.1-7), Moabe (48.1-47), Amom (49.1-6) e Edom
(49.7-22). Estas nações eram orgulhosas e arrogantes (48.7,29; 49.4,16), e ridicularizaram e exploraram Judá durante o tempo em que foi castigado por Deus
(48.26,27,42; 49.2). Os exércitos estrangeiros invadiram estes reinos, deixan
do um rastro de matança e destruição. As numerosas referências geográficas
nos oráculos, sobretudo na longa mensagem para Moabe, enfatizam a natureza
completa da derrota.

Embora constem muitas alusões aos exércitos invasores, os oráculos acentuam
o envolvimento direto de Deus no julgamento destas nações. O Senhor comandou
a invasão da Filístia (47-7) e a destruiria com a espada do Senhor (w. 4,6). O Senhor decreta a queda de Moabe (v. 8) e enviaria soldados inimigos contra essa nação (48.12). Daria um fim à adoração formal que Moabe praticava ao deus Quemos (v.
35), fazendo com que o povo se envergonhasse da sua deidade exilada (w. 7,13). O Senhor quebraria Moabe, fazendo dele como um vaso inútil (48.38). Soaria o grito
de batalha contra os amonitas (49.2) e faria o terror cercá-los (v. 5). Traria a ruína
contra Edom (v. 8), descobriria seus esconderijos (v. 10), decretaria a queda de uma
das suas cidades importantes (v. 13), a derrubaria do seu ninho alto (w. 15,16) e, de
acordo com o seu plano, a atacaria como um leão (w. 19,20).

Julgamento sobre reinos distantes. Deus também atacaria os estados sírios de
Damasco, Hamate e Arpade; as tribos árabes de Quedar e Hazor; e a longínqua
terra de Elão. Não há acusação específica contra estes reinos. Por isso, temos
de presumir que a acusação geral do Senhor contra as nações (mencionadas
em 25.31) se aplica em cada caso. Mais uma vez é enfatizado o envolvimento
de Deus na queda destes reinos, sobretudo no oráculo contra Elão. O Senhor
atearia fogo aos muros de Damasco (49.27; cf. Am 1.4) e espalharia os árabes
aos quatro ventos (49.32). No oráculo de Elão, oito unidades poéticas sucessivas
começam com afirmações na primeira pessoa do singular feitas pelo Senhor (w.
35-38: “Eu quebrarei, [...] trarei, [...] espalharei, [...] farei, [...] farei, [...] enviarei, [...] porei, [...] destruirei”). As últimas duas unidades contêm as formas
verbais da primeira pessoa do singular em ambas as linhas (v. 37b: “Farei [...] e
enviarei” e “porei [...] e destruirei”, v. 38).

Julgamento sobre a Babilônia. O julgamento do Senhor sobre as nações culminaria com a subversão do poderoso império babilónico. Babilônia era “um
copo de ouro na mão do Senhor”, pelo qual Ele embebedou Judá e as outras
nações do antigo Oriente Próximo com a sua ira (51.7). O Senhor também designara um dia no qual a Babilônia beberia o cálice do seu julgamento (v. 39).

As hordas da Babilônia, vindo do norte, invadiram Judá e espalharam terror
e destruição por toda a terra da Palestina. Agora adequadamente os babilônios
sofreriam derrota às mãos de um invasor invencível vindo do norte (50.3,9,41; 51.48). Os medos, junto com os aliados das regiões nortistas de Ararate, Mini e
Asquenaz, invadiriam a terra da Babilônia como gafanhotos e encheriam de pavor
o coração dos guerreiros babilônios outrora poderosos (51.11,27-32). A Babilônia
seria reduzida a um montão de ruínas desabitado (50.3,12,13,39; 51.26,37,43)
como Sodoma e Gomorra (50.40). Naquele dia, os seus deuses-ídolos, inclusive a
deidade mais proeminente Bel/Merodaque, ficariam envergonhados diante do julgamento irado do Criador soberano do universo (50.2,38; 51.15-19,44,47,52).

Digressão à destruição de Babilônia. Embora os persas não sejam
especificamente mencionados em Jeremias 50 e 51, as referências aos
medos indica que estes capítulos têm em vista a conquista da Babilônia pelo Império medo-persa em 539 a.C. O retrato da queda e desolação
absoluta babilónica é difícil de reconciliar com os fatos da história. A
tomada da cidade foi relativamente calma e os babilônios até mesmo
receberam Ciro de boa vontade. A cidade não foi destruída da maneira
descrita por Jeremias. Como explicar este aparente não cumprimento
da profecia? E possível que a descrição da queda da Babilônia seja estereotípica e exagerada, em cujo caso o fim do império caldaico em 539
a.C. satisfaria a imagem poética e hiperbólica. E mais provável que o
retrato da queda da Babilônia transcenda este evento histórico e preveja
a destruição final dessas nações que se opõem a Deus. Neste caso, a
cidade histórica da Babilônia assume valor simbólico e representa todas
as nações hostis, incluindo as dos fins dos tempos. Para inteirar-se de
análise adicional, ver observações sobre Isaías 13; 14.

Como nos primeiros oráculos, a ênfase está no envolvimento direto do
Senhor na queda da Babilônia. Por causa do seu desejo de vingança (50.15,28;
51.6,11,36), ele planejou e solenemente decretou a queda da Babilônia (50.45;
51.12,14,29). Ele incitaria e formalmente comissionaria os exércitos do norte como instrumento de julgamento (50.9; 51.1,2,11,20-23,53). Embora este
exército seja descrito em detalhes (50.41,42), o Senhor é a força capacitadora
que está por trás disso, e atacaria Babilônia como um leão furioso e ocasionaria
a sua destruição (50.25,44; 51.24,25,39,40,47,52,55-57).

A razão primária para a destruição da Babilônia era a sua oposição arrogante
em relação a Deus (50.11,14,24,29-32). Esa hostilidade tomou expressão tangível
nos maus-tratos babilónicos do povo de Deus (50.11,17,18,33; 51.24,34,35,49)
e na falta de respeito para com o Templo (51.11). Como fizeram os assírios cruéis
antes deles, os babilônios tinham vindo como leão poderoso e esmagado os ossos
do povo de Deus (50.17). Nabucodonosor devorou Judá como uma serpente traga a presa (51.35). Quando se alegraram com a derrota do povo de Deus e saquearam as riquezas, assim os babilônios se assemelharam a uma bezerra brincalhona
e a um garanhão relinchador (50.11). Eles têm de pagar pelo tratamento cruel e
excessivo que deram ao povo de Deus (51.24,49).

A queda da Babilônia daria alívio ao povo exilado de Deus. O Senhor
libertaria os israelitas de quem os capturaram (50.33,34), demonstrando que ele não os abandonara (51.5) e que ele estava preocupado em defendê-los (w. 10.11). Libertados da prisão no exílio, eles voltariam a Jerusalém (v. 50) e experimentariam o favor renovado do Senhor (50.4,5,20).
Para enfatizar a certeza da destruição da Babilônia, Jeremias proporcionou
aos exilados uma lição prática do julgamento da cidade (51.59-64). Enviou um
rolo para a Babilônia no qual estava escrito o decreto do julgamento de Deus
contra a cidade. Instruiu Seraías, filho de Nerias, o portador do rolo para a Babilônia, a lê-lo na presença dos exilados, fazer uma curta oração, amarrar o rolo
a uma pedra e jogá-lo no rio Eufrates. Em seguida, Seraías tinha de declarar: “Assim será afundada a Babilônia e não se levantará, por causa do mal que eu
hei de trazer sobre ela; eles se cansarão”.

Esperança futura para as nações. O livro de Jeremias faz muito poucas declarações positivas acerca do futuro das nações. O Senhor falou de um dia em
que as nações louvariam e honrariam a Deus, por causa das suas grandes ações a
favor de Jerusalém (33.9). Quatro dos oráculos de Jeremias contra as nações incluem declarações breves sobre a restauração futura da nação sob estudo. Apesar
do desastre que estava a ponto de cair sobre o Egito, Deus anunciou que haveria
o dia em que “será habitada como nos dias antigos” (46.26). Prometeu também
que ele pessoalmente restabeleceria “a sorte” dos moabitas (48.47, ARA), edomitas (49.7) e elamitas (v. 39). Os outros oráculos não contêm tal declaração
positiva. Não há razão aparente para a Filístia, os estados sírios e as tribos árabes
não terem recebido uma palavra encorajadora. A omissão de esperança futura
é compreensível no caso de Edom e da Babilônia, pois os crimes dessas nações
eram considerados extremamente excessivos, até o ponto que em outros textos
bíblicos ambas são vistas como representantes de todas essas nações hostis que
se opõem a Deus e ao seu povo.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.