17 de março de 2015

Nelson Kilpp - A prática da justiça e a sabedoria

Nelson Kilpp

A prática da justiça

1.1. Introdução

Existe unanimidade em torno da idéia de que a prática da justiça é algo positivo, desejável e necessário para construir um mundo melhor. Em todas as religiões e culturas há um enorme anseio por justiça. Em diversos lugares, povos e grupos lutam por mais justiça. Também entre nós não é diferente. Sempre de novo, constatamos que as relações pessoais, sociais e políticas, tanto nacionais quanto internacionais, continuam extremamente injustas. Ficamos revoltados, por exemplo, quando um jogador de futebol, uma atriz de cinema ou um alto executivo ganha mil vezes mais que o salário de um cidadão comum; ficamos indignados quando pessoas são rejeitadas na entrevista de emprego por não terem “boa aparência”, apesar de sua capacidade profissional; ficamos perplexos quando os “espertos” da nação desviam para suas contas em paraísos fiscais milhões e milhões de reais destinados à saúde pública ou à educação. As histórias de fraudes, ganhos ilícitos, corrupção ativa e passiva, desvios e desmandos revelados praticamente não têm fim.



Se, por um lado, há um relativo consenso em torno da necessidade de justiça em todos os âmbitos da vida humana, há, por outro lado, controvérsias em torno do que realmente é a justiça. Parece ser um conceito um tanto vago e indefinido. Conforme a primeira acepção do dicionário de Houaiss, justiça é “o que está em conformidade com o direito” ou as leis e normas vigentes de um país. Isto sem dúvida está correto, mas é somente um aspecto do conceito: o aspecto institucional. Cada Estado democrático tem um aparato jurídico para garantir o cumprimento das leis e punir os que não as cumprem. Mas, poderíamos, por exemplo, perguntar se todas as leis de um Estado são, de fato, “justas”! Se houver leis que privilegiam determinados grupos ou indivíduos de uma sociedade essa “justiça-conformidade-com-a-lei” ainda seria justa? De fato, muito se ouve dizer, por exemplo, que a impunidade constitui, no fundo, falta de justiça. Pois leis que deixam impunes pessoas que causam morte, dor e sofrimento não podem, de acordo com o sentimento da maioria, ser leis “justas”. A experiência também mostra que, muitas vezes, a justiça institucional dá mais valor à forma - de como são encaminhados os processos, por exemplo, - do que ao conteúdo da ação. Um criminoso de alta periculosidade pode, assim, em tese, ser solto por causa de um detalhe formal no encaminhamento do processo. Por esses motivos, muitos afirmam que a justiça forense, ou seja, a dos processos, advogados, juizes, etc. nem sempre é justa.

Justiça deve ser algo maior, mais abrangente do que a justiça forense e institucional. A segunda explicação que o dicionário de Houaiss apresenta sob o verbete afirma que justiça é um “princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado”. O dicionário de Aurélio, por sua vez, adota a definição do famoso orador romano Cícero quando afirma que justiça é a “virtude de dar a cada um o que é seu”. Esta definição mais ampla e mais abstrata reflete a existência de um senso de eqüidade que forma, em muitas culturas e religiões de todas as épocas, a base da legislação e do que se considera conduta correta. Dentro dessa perspectiva, recorremos, como cristãos, ao que os textos bíblicos nos dizem a respeito da justiça. 

[Observação: Usa-se o sistema de numeração de capítulos e versículos adotado pelo original hebraico. Quando a numeração das Bíblias em língua portuguesa editadas pela Sociedade Bíblica do Brasil for diferente da do original hebraico, ela aparecerá em parênteses, respectivamente colchetes.]

1.2. A justiça restabelece as relações entre pessoas

A justiça tem algo a ver com as relações que as pessoas constroem e mantêm entre si. Poder-se-ia dizer que justiça é o estado de convivência harmoniosa entre pessoas de um determinado grupo social, por exemplo, a família, ou entre pessoas em posições diferentes como, por exemplo, entre um rei e seus súditos ou entre um patrão e seus empregados. Na família, a justiça pode ser sinônimo de solidariedade, por exemplo, ao garantir que cada membro da família tenha plenos direitos e deveres. Os catorze anos em que Jacó trabalhou para o seu sogro, Labão, não só merecem um salário digno e justo, mas também representam a “justiça” devida à família de Labão (Gn 30.33), ou seja, a sua participação no crescimento dos bens da família. Quando as relações harmoniosas são desfeitas, deixa de haver justiça. Por outro lado, justas são as pessoas que tentam restabelecer a situação de relações ordenadas e benéficas para as diversas partes envolvidas.

Numa relação entre desiguais, a justiça adquire a conotação de lealdade entre as partes. Certa vez, quando o rei Saul perseguia Davi, seu genro e desafeto, este poupou a vida de seu sogro e rei. E, de acordo com 1 Sm 26.23, isto foi considerado a atitude adequada de um súdito perante o rei ou de um dependente diante de seu senhor. Esta lealdade de Davi o texto chama de “justiça”, porque está de acordo com as relações de respeito estabelecidas e consideradas normais entre um superior e um subalterno ou dependente. Aqui se evidencia que o termo depende muito do que se considera, em determinada cultura, relação “normal” e “harmoniosa”.

A Bíblia nos ensina que quem atua em favor das relações harmoniosas benéficas na família, na comunidade e na sociedade é considerado uma pessoa justa. O bem-estar coletivo é tido como mais importante que o bem-estar individual. O bem-estar coletivo corre muitos riscos quando as pessoas pensam somente em si. Os desejos e interesses do indivíduo devem, portanto, submeter-se aos interesses comunitários. O Antigo Testamento menciona diversos fatores que podem levar à desagregação das relações harmoniosas na família e na sociedade: a desonestidade no comércio (Dt 25.13-16), a ganância (Pv 10.2), a fraude (Pv 16.8), a mentira, em especial no tribunal (Pv 14.25), homicídios (Is 1.21), a injúria, a usura e o suborno (SI 15).

Vivemos numa época em que a realização do indivíduo parece ser o valor máximo. Nos tempos bíblicos o grupo social no qual o indivíduo estava inserido e do qual dependia era, na maioria das vezes, mais importante que o próprio indivíduo, pois proporcionava proteção, sobrevivência e aconchego a cada membro do grupo social. A integridade do grupo social - a família, comunidade, a aldeia - depende de uma rede de relações mais ou menos complexas, que devem ser respeitadas para que haja realização individual. Romper essas redes redundaria em conflito e desintegração da convivência harmônica. Justa era, portanto, a pessoa que promovia a convivência respeitosa, restabelecia as relações rompidas ou agia de acordo com o que era considerado necessidade ou interesse da coletividade. Talvez tenhamos que reaprender, após a exaltação da liberdade e autonomia do indivíduo, que, sem a inserção num grupo social, não se pode viver plena e dignamente.

1.3. O bem da comunidade beneficia a todos

A busca da felicidade do indivíduo e a promoção do bem-estar comum não precisam ser duas coisas excludentes. Numa carta que Jeremias escreveu aos judaítas que haviam sido levados de Judá e 
Jerusalém para o exílio na distante Babilônia, o profeta estimula os exilados a não desanimarem e orarem pela paz da cidade onde se encontravam desterrados, “porque na sua paz vós tereis paz”. A paz e o bem-estar de toda a cidade, portanto, se estenderão a todos os que dela fazem parte. Parece que isso é considerado normal. A situação do coletivo determina a situação do indivíduo.

Isso se torna evidente na antiga sabedoria popular israelita, que crê que a atuação do indivíduo coloca em movimento uma força que, mais cedo ou mais tarde, atingirá o próprio autor da ação. Se uma pessoa faz algo prejudicial à comunidade, a médio e longo prazo, prejudicará também a si mesma. O livro de Provérbios está cheio de exemplos: “Quem cava uma cova (para nela fazer cair uma outra pessoa) nela cairá” (Pv 26.27). Ou seja, o mal que eu faço a um membro da comunidade atinge toda a comunidade e, portanto, indiretamente também a mim, que faço parte dessa comunidade. Nas palavras do livro de Provérbios: “Pela sua impiedade cai o perverso” (Pv 11.5).

Por outro lado, quem promove o bem da comunidade, realizando aquilo que se espera dele, por exemplo, dizendo a verdade em juízo ou não usurpando o que não lhe é devido, fortalece a rede de relações sociais harmoniosas e, assim, se beneficia, indiretamente, a si mesmo. Por sua conduta em favor da coletividade (p.ex., Pv 11.23; 12.5,17,26), esta pessoa é designada “justa”. E esta sua justiça será, mais cedo ou mais tarde, recompensada (p.ex. Pv 12.28; 13.25). O SI 1 expressa isso utilizando a metáfora da árvore viçosa: o justo é “como árvore plantada junto à corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo que ele faz será bem sucedido” (v.3).

Podemos entender perfeitamente que, em uma sociedade onde todos procuram enganar o outro e sempre tirar vantagem dele, também os enganadores e aproveitadores, mais cedo ou mais tarde, serão enganados e lesados. Em nosso país, instalou-se, por causa dessa ânsia de querer tirar vantagem em tudo, um clima de desconfiança generalizada entre as pessoas - afinal podemos ser a próxima vítima. Esse clima corrói os valores positivos de nossa sociedade e podem instabilizar, a médio prazo, as nossas relações sociais. Cristãos e cristãs, no entanto, não podem deixar-se levar por essa onda que ameaça destruir as relações de confiança, tão necessárias para uma vida digna e realizada na família, no grupo de amigos e na sociedade. Chega a ser doentio quando pessoas não mais conseguem andar despreocupadamente nas ruas, desconfiando de todos os transeuntes. Devemos resistir a ver no outro um inimigo em potencial e tentar reconstruir relações de confiança mútua. Esta seria a nossa prática da justiça.

1.4. A injustiça leva um povo à ruína

A prática da justiça tem uma dimensão política. É muita antiga a consciência de que um povo floresce na justiça ou, então, rui por falta dela. A sabedoria popular afirma que “a justiça exalta as nações” (Pv 14.34). Em todo o antigo Oriente e também no Antigo Testamento, a tarefa mais nobre do supremo governante de uma nação era a de garantir a justiça entre os habitantes de seu reino (SI 72.1-3). Os governantes que não conseguiam cumprir essa missão de garantir relações justas colocavam em jogo o seu reino. Quando o famoso rei Davi começou a desleixar a administração da justiça em Jerusalém, seu próprio filho Absalão se revoltou contra o pai e ganhou amplo apoio da população indignada com a falta de justiça (2 Sm 15.1-6).

Os porta-vozes mais incisivos contra as injustiças dos governantes e da aristocracia foram, sem dúvida, os profetas bíblicos. Elias enfrenta o rei Acabe e o acusa de assassinato e apropriação indébita por ter permitido que condenassem à morte um inocente que não lhe quis ceder a sua vinha (1 Rs 21). O profeta Amós aponta para o fato de que, por um lado agricultores endividados são vendidos como escravos e, por outro, um grupo de pessoas vive à custa da exploração de outras (Am 2.6-8; 4.1). Isaías denuncia aqueles que acumulam campos e casas, tomando-se os únicos
proprietários rurais e urbanos (Is 5.8). Jeremias critica o rei Jeoaquim por realizar reformas luxuosas em seu palácio, mas não pagar em dia o salário dos trabalhadores, e reafirma que a mais nobre função do governante é justamente “exercer o juízo e a justiça”, ou seja, “julgar a causa do aflito e do necessitado” (Jr 22.13-19). O profeta Miquéias acusa a aristocracia governante de Judá e Jerusalém de “arrancar a pele” e “esmiuçar os ossos” do povo (Mq 3.1-3), desdenhando completamente a sua obrigação de zelar pela justiça: “Vós, chefes da casa de Israel, que abominais o juízo e perverteis tudo que é direito, e edificais a Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes dão as sentenças por suborno, os sacerdotes ensinam por interesse e os profetas adivinham por dinheiro” (Mq 3.9-11).

Estas palavras duras e corajosas dos profetas bíblicos - e os exemplos poderiam ser multiplicados - são, no entanto, apenas um lado da moeda. Elas vêm acompanhadas do que se chama de “anúncio de juízo”, que nada mais é do que a visão profética das conseqüências dessas múltiplas formas de injustiça tanto da classe governante quanto do povo. O profeta prenuncia geralmente a destruição do sistema sociopolítico e religioso que causa a injustiça observada. Os profetas bíblicos sabiam que injustiças graves e persistentes corroem, com o tempo, toda a organização social e política de um país. E isso certamente não é algo que aconteceu somente no passado. Também hoje se percebe que, em muitos casos, uma prática persistente e endêmica de injustiça pode, com o tempo, levar à corrosão dos valores morais que garantem a igualdade entre as pessoas, o que, por sua vez, geralmente resulta na imposição da lei do mais forte quando não na rebelião das massas dos que se sentem oprimidos. Um Estado que não consegue promover a justiça social dificilmente será um Estado onde haverá paz e bem-estar.

1.5. Confessamos que nosso Deus é justo

A nossa prática da justiça se fundamenta na certeza de que nosso Deus é justo. A justiça e o direito são os sustentáculos do seu trono (SI 89.15[14]), ou seja, as diretrizes que pautam o seu governo (9.9[8]). A Deus apelam os que são acusados injustamente ou que, de alguma forma, são vítimas de injustiça (35.23ss). Deus é chamado a interferir para corrigir relações injustas no âmbito interpessoal, mas também no campo político. Neste caso, a interferência de Deus em favor da salvação de seu povo é designada de “ato de justiça” (Jz 5.11; Is 42.6). A justiça de Deus restabelece as relações de igualdade, termina com a opressão do povo e restitui os direitos das pessoas legalmente frágeis. Justiça toma-se o cognome de Deus: “O Senhor, Justiça Nossa” (Jr 23.6).

A fé em um Deus justo tem, na Bíblia, uma dimensão punitiva e outra salvadora. São dois lados de uma mesma moeda. Por um lado, existe a firme convicção de que, por ser justo, Deus não deixará impunes aquelas pessoas que praticarem a maldade ou a injustiça (Êx 20.5). Os profetas bíblicos estão convictos de que Deus não é um “velhinho bonzinho” que passa, displicentemente, a mão na cabeça de opressores e maus. As pessoas más serão punidas por causa de sua maldade (Ez 18). Por outro lado, no entanto, a justiça de Deus é experimentada como salvação da vida, auxílio na tribulação ou restabelecimento da saúde (SI 40.10s[9s]). Nestes casos, o Deus “justo” que vem em socorro dos seus é o Deus que permanece fiel à sua promessa de não abandonar o povo.

A justiça humana deve corresponder, de certa forma, à justiça divina, resguardando-se obviamente as devidas dimensões. Não nos podemos arrogar o direito de emitir um juízo definitivo sobre aqueles que, a nosso ver, são maus. Mas podemos deixar que nossa prática espelhe a nossa fé num Deus justo, que não permite exploração de pessoas, apropriação indevida, tratamento desumano ou atentado contra a vida e a liberdade alheia, mas que, pelo contrário, ajuda, auxilia, vem ao encontro dos necessitados e fracos. A nossa prática fala uma linguagem bem mais clara do que os nossos discursos. 

1.6. Cremos em um Deus misericordioso

As pessoas que crêem e confiam na justiça de Deus, na verdade, esperam por um Deus misericordioso. Ainda que sejamos pecadores e pecadoras que, a rigor, não subsitiriam diante da justiça de Deus, buscamos Deus na confiança de que sua misericórdia seja infinitamente maior do que o seu zelo (Êx 20.5s). O salmista do SI 51 confessa, contrito, os seus pecados, pede perdão e, para tanto, apela para a misericórdia divina. Ao mesmo tempo, no entanto, não deixa de qualificar o julgamento de Deus como sendo justo (51.6[4]). Justiça e misericórdia divinas se fundem misteriosamente para aqueles que dependem de Deus para restabelecer a sua vida.

A justiça de Deus pode expressar-se, por incrível que pareça, como misericórdia. A parábola dos trabalhadores na vinha, como se encontra narrada em Mt 20, é claro exemplo disso. Conta a parábola que o proprietário de uma vinha contratou trabalhadores por um preço fixo para trabalharem na sua vinha. Após os primeiros iniciarem o trabalho, o dono da vinha contratou, em diferentes horas do dia, ainda outros trabalhadores, tendo os últimos iniciado a trabalhar apenas às cinco horas da tarde. Para surpresa geral, o dono da vinha pagou a todos o mesmo salário, o que fora combinado com os primeiros trabalhadores. Até podemos entender por que os que mais trabalharam ficaram irritados com a decisão do patrão de pagar o mesmo a cada trabalhador independentemente do tempo que trabalhou. De acordo com o critério do merecimento, a decisão configura uma “injustiça” (v. 13). Porém, Deus - simbolizado pelo proprietário - vê as coisas de forma diferente: cada pessoa tem as mesmas necessidades diárias para poder sobreviver. Neste caso, a justiça divina se expressa - ao contrário da justiça humana - na bondosa misericórdia de Deus.

A misericórdia é uma das qualidades mais marcantes de Deus também no Islã. Das 114 suras do Corão, 113 iniciam com o mesmo intróito: “em nome de Deus, o misericordioso e compassivo”. Na primeira sura, estes mesmos adjetivos aparecem como epítetos divinos, ao lado de “senhor dos mundos” e “rei no dia do juízo”. Também no Islã, portanto, o Deus misericordioso e o juiz justo podem encontrar-se lado a lado.

A prática humana da justiça pode evidenciar-se em atos de compaixão com os mais necessitados. Eis por que, no judaísmo, os atos da bondade humana, em especial as ações beneficentes, são chamados de “atos de justiça”. O nosso comportamento pode, assim, ser uma confissão autêntica ao Deus misericordioso.

1.7. Jesus praticou e ensinou a justiça

Buscamos a justiça, porque Jesus a viveu e ensinou. Toda a atuação e pregação de Jesus se encontram sob o signo da nova justiça. Esta nova justiça é a nova relação que Deus estabelece com as pessoas através de Jesus: uma relação de misericórdia para com os pobres, as mulheres, as pessoas excluídas e os pecadores. Essa nova relação se vê no publicano que, ao contrário do fariseu, se humilha, reconhece seus pecados e se arrepende; do publicano se afirma que “desceu justificado para sua casa” (Lc 18.14). O futuro reino de Deus, pregado e inaugurado por Jesus, se confunde com a justiça divina: “Buscai, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça” (Mt 6.33).

Os discípulos são exortados a trilharem o caminho da justiça, pois é o caminho que corresponde ao reino de Deus, é, por assim dizer, um reflexo do Reino. Assim como Jesus viveu essa justiça (Mt 3.15) e morreu como um justo em favor dos ímpios (Lc 23.47; 2 Co 5.21), ele quer que seus discípulos a manifestem. Ao declarar “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt
5.6) , Jesus aponta para as dificuldades que a implantação do reino da justiça terá. A fome e a sede
remete a pessoas carentes, pobres e fracas, incapazes de impor a justiça pelo poder político ou militar. Os que buscam a justiça terão que contar, pelo contrário, com a perseguição por parte dos poderosos (Mt 5.10). Ainda assim, eles terão sucesso, pois a justiça corresponde ao Reino de Deus pregado e vivido por Jesus.

O que Jesus entendia por praticar a justiça do Reino de Deus? No Sermão da Montanha, Jesus diz: “Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20). Agora, a “justiça” dos fariseus e escribas, com os quais o próprio Jesus se encontra, muitas vezes, em conflito, se caracteriza por um rigorismo formal no cumprimento das leis do Antigo Testamento e da tradição oral, tidos como expressão da vontade de Deus. Os fariseus não eram pessoas desleixadas em sua vida; pelo contrário, tinham um zelo extremado em realizar o que era considerado vontade de Deus. O problema aparentemente era que os fariseus e escribas não perguntavam pelo sentido último das normas, de modo que não conseguiam diferenciar entre leis mais importantes e menos importantes, tornando-se a sua “justiça” mero cumprimento formal do que a lei exigia: “Ai de vós, fariseus e escribas, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mt 23.23).

A justiça dos discípulos deverá ser “melhor” que a dos fariseus. Isso não quer dizer que os cristãos devem ser mais zelosos pelo cumprimento de todos os detalhes da lei transmitida nos Testamentos. Provavelmente seria impossível superar o zelo e o cuidado que os fariseus tinham pela Lei. A nova justiça dos seguidores de Cristo deve ser qualitativamente “maior” que a dos fariseus, pois terá como fonte o amor. As palavras que seguem - normalmente chamadas de antíteses - são exemplos claros dessa nova justiça. A exigênca do amor ao próximo é relativamente fácil de ser cumprida, porém difícil é amar o inimigo e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.43s); revidar na mesma moeda (“olho por olho”) é raltivamente fácil, o difícil, no entanto, é oferecer também a outra face ao que bate em nós (Mt 5.38s). Na raiz de cada exigência e norma está a vontade divina de que amemos as outras pessoas e ajamos a partir desse amor.

1.8. Praticar a justiça é um ato de amor

A prática da justiça está no centro da ética cristã. Ela é uma confissão ao nosso Deus, que é justo e misericordioso; ela é um sinal de que nos encontramos no seguimento de Jesus, que viveu e ensinou a justiça a seus discípulos. Também vimos que à base da justiça se encontra o amor. Isso se confirma quando invertemos a questão, ou seja, quando perguntamos de que maneira podemos amar as pessoas em nossos dias? A resposta não é tão fácil; ela exige reflexão. Pois o amor não é apenas um sentimento subjetivo e transitório. O amor também não é apenas uma forma social de as pessoas satisfazerem suas necessidades e carências físicas, antropológicas e psicológicas. Amor tampouco pode ser confundido com o apego às coisas e pessoas que prezo e que me são valiosas. Se é que é possível definir o que se entende por amor na Bíblia, diria que é, acima de tudo, um comportamento que busca a vida plena para as pessoas.

Esse amor pode ser traduzido de diversas formas. Um exemplo da história da conquista das Américas. Em 1511, numa celebração de Advento em Santo Domingo, o frei Antônio de Montesinos criticou a opressão espanhola sobre os indígenas, diante do próprio Diego Colón, filho do famoso descobridor Cristóvão Colombo, da seguinte forma: “Com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão a esses índios? [...] Como os conservais tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer nem curá-los em suas enfermidades e que, por tão excessivos trabalhos a eles impostos morrem, ou melhor, os matais, para sacar e adquirir ouro cada dia? [...] Estes não são homens? Não têm almas? Não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos?” 

O frei traduziu bem o mandamento do amor ao próximo para a sua época, alertando para o fato de que ele é incompatível com a escravidão, a opressão e a injustiça. Dito de forma positiva, a justiça do amor consiste, de acordo com a interpretação do frei, em aliviar as dores e a fadiga, dar de comer e beber, curar as enfermidades, promover a sobrevivência e tratar todas as pessoas como seres humanos dignos.

Também nós temos muitas oportunidades de traduzir o amor cristão em atos de justiça, ainda que pequenos e sem fomentar a dependência assistencialista. Podemos, por exemplo, defender as pessoas que geralmente são emudecidas. Podemos dar a um desempregado uma chance de trabalho em nosso jardim contra pagamento justo. Podemos ajudar que pessoas saibam quais são os seus direitos mais elementares e consigam buscá-los. Podemos participar de organizações que promovem a defesa dos direitos humanos para grupos marginalizados e minoritários. A prática da justiça é tarefa do Estado, que, contudo, exige a nossa participação. Afinal, o amor de Cristo nos constrange.

1.9. Praticar a justiça é um exercício de liberdade

No centro da teologia da Reforma está a descoberta de que as pessoas não têm condições de se salvarem a si mesmas. Por suas próprias forças ou obras - ainda que sejam muitas boas obras de justiça - elas nada alcançam em matéria de salvação eterna senão a consciência do fracasso. Em outras palavras: nunca podemos ser suficientemente justos para alcançar salvação e vida eterna. Esta nós adquirimos mediante a fé em Jesus Cristo. O apóstolo Paulo diz de si que “não tem justiça própria, que procede da lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, mediada pela fé” (Fp 3.9). Ou seja, para Paulo, os atos de justiça praticados conforme a exigência da lei (“justiça própria”), apesar de importantes como demonstração do amor, não podem salvar as pessoas que os praticam. Em outra passagem, o apóstolo afirma que a justiça de Deus se manifestou “mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que crêem, [...] sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus Cristo” (Rm 3.22,24).

O conceito de justificação pela graça é muito importante para a vida e o pensamento do apóstolo Paulo, um fariseu zeloso e cumpridor da lei que se tornou apóstolo de Cristo. O reformador Martim Lutero assume o conceito e entende que as pessoas são “declaradas” justas por Deus - mas não são “tomadas” justas, como diria Agostinho, já que ainda continuam sendo pecadoras. De qualquer forma, para as igrejas da Reforma, a justificação pela fé liberou uma energia muita grande, pois as pessoas já não precisavam preocupar-se em como conquistar um “lugar no céu”, ficando livres para ocupar-se com a constmção de uma vida mais humana aqui na terra. As energias dispendidas para alcançar a salvação eterna podiam ser canalizadas para os “atos de justiça” em favor do próximo.
A justificação por graça e fé, um dos pilares da confissão das igrejas da Reforma, não leva, portanto, à passividade. Pelo contrário, ela liberta da preocupação egocêntrica em tomo da minha própria salvação eterna - que já recebemos na fé -, e estimula a que nos engajemos em favor da vida de outros. A prática da justiça adquire, neste caso, uma nova dimensão: ela é expressão da liberdade dos filhos de Deus que, na alegria da salvação, dedicam-se a viver o amor de Cristo. 

1.10. Praticar a justiça é um gesto de esperança

Certa vez fui interpelado, após um culto dominical, por alguém que havia escutado atentamente à minha prédica: “Pastor, faz dois mil anos que padres, pastores, pastoras e outros ministros, ordenados ou não, pregam o amor de Cristo. Mas até agora, nada mudou no mundo! As coisas continuam ruins como antes. Tem alguma coisa errada!” Esse ouvinte frustrado com a eficácia da pregação cristã aborda um tema teológico de suma importância: Por que as pessoas que confessam Cristo ainda não conseguiram “construir” o Reino de justiça e paz anunciado pelas testemunhas bíblicas e pelo próprio Jesus? Onde está o problema?

Certamente o problema não está nem com Jesus nem com o testemunho bíblico, mas com a nossa imperfeição e pecaminosidade. Vivemos o que podemos chamar de ambigüidade do reino de Deus. De um lado, o reino de Deus já irrompeu com a vinda de Jesus. Mas ainda não se realizou por completo. Continua sendo objeto de nossa esperança futura. Isso está ligado a outra constatação: o reino de Deus não pode ser “construído” por nós, pessoas limitadas, frágeis e pecadoras. Mas o reino tampouco é algo que Deus instala através de um milagre ou por um decreto, sem a nossa participação. Ele quer que participemos colocando sinais que re-presentem - tomem presente - o seu Reino.

Assim, profecias bíblicas como as do profeta Isaías ainda continuam abertas, pelo menos parcialmente, para a concretização futura, “até que se derrame sobre nós o Espírito lá do alto; então, o deserto se tomará em pomar, e o pomar será tido por bosque; o juízo habitará no deserto, e a justiça morará no pomar. O efeito da justiça será paz, e o fruto da justiça, repouso e segurança, para sempre” (Is 32.15-18). O anseio de todas as nações e povos por justiça e paz continua. Talvez já tenhamos andado um bom trecho na direção indicada pelo profeta. Mas ainda há muito chão pela frente. E certamente o Espírito lá do alto quer utilizar-nos para que participemos dessa caminhada em direção ao anunciado reino de justiça e de paz. Todas as nossas pequenas ações em favor de relações mais justas entre pessoas e grupos, todos os nossos gestos de reconciliação que restabelecem a paz serão expressão dessa nossa esperança inabalável na vinda do Reino de Deus: “Venha o teu Reino!”

1.11. Em busca de uma espiritualidade da justiça

O anseio por justiça transcende os limites confessionais, religiosos, étnicos e culturais. Por isso, a prática da justiça tem, por natureza, uma dimensão universal, ecumênica e transcultural. Isso pode favorecer uma cooperação entre pessoas de diversas denominações cristãs e até de diversas religiões em movimentos de apoio à luta pelos direitos humanos de pessoas ou grupos oprimidos ou excluídos. Pode também favorecer uma espiritualidade comum para a prática individual ou coletiva da justiça. Um exemplo antigo pode servir de inspiração.

Conhecemos bem o texto de Mt 7.12: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os profetas.” Esta norma simples, concreta, fácil de entender e memorizar, normalmente chamada de “regra de ouro”, é entendida pelo texto do Evangelho como sendo, assim como o duplo mandamento do amor (Mt 22.40), a síntese dos preceitos bíblicos. Quem segue essa norma cumpre os mandamentos de Deus. Poucos sabem que a mesma norma não é exclusividade do Evangelho. Encontramo-la também em textos deuterocanônicos (Tobias 4.15; Eclesiástico 31.15), anteriores a Jesus. Famosa tomou-se também a resposta do rabino Hillel, um fariseu babilónico que viveu no início da era cristã, a um homem que
queria converter-se ao judaísmo, se o mestre pudesse ensinar-lhe toda a Lei enquanto o requerente ficasse parado sobre um único pé: “O que te é odioso, não o faças a teu próximo. Esta é toda a Lei; o resto é comentário. Vai e aprende isso!” (b.Shab. 31a). Jesus, de acordo com o evangelista, concorda com o fariseu Hillel e a sua tradição.

Podemos ir ainda mais longe. Aparentemente a regra de ouro representava um princípio ético popular bastante antigo. Ela era muito difundida entre os gregos e romanos. Já o historiador grego Heródoto e o educador ateniense Isócrates, no quinto século antes de Cristo, bem como o filósofo estóico romano Sêneca, no primeiro século depois de Cristo, conheciam a regra de ouro. Ela representa, portanto, uma síntese do comportamento ético adotada por diversas religiões e culturas. A sua aceitação universal tem diferentes causas, em especial duas: ela revela a sensibilidade de quem se coloca na pele da outra pessoa, amiga ou não, próxima ou não, e expressa a consciência de que somos todos iguais, tendo as mesmas necessidades e direitos. Esta regra pode ainda hoje ser uma diretriz para a nossa prática da justiça e, ao mesmo tempo, marcar uma espiritualidade ecumênica em constante busca por mais justiça e igualdade entre todas as pessoas da terra.

2. A sabedoria israelita

A sabedoria israelita está intimamente ligada ao conceito de justiça no Antigo Testamento. Mas o tema merce um tratamento especial.

2.1. Abrangência e definição.

Na época do Antigo Testamento, a sabedoria (hokmá) era um fenômeno internacional bastante difundido em todo o antigo Oriente Médio. Em Israel se conhece a sabedoria dos edomitas e dos “filhos do Oriente”(l Rs 5.10s = Almeida/SBB 1 Rs 4.30s; Jr 49.7;Ob 8); provérbios são atribuídos a árabes (Pv30.1;31.1); Jó e seus amigos são estrangeiros (Jó 1.3;2.11). Conhecidos são os ensinamentos de Amenemopê, do Egito, e de Ahicar, da Assíria, que têm grandes semelhanças com a literatura sapiencial do Antigo Testamento. O povo de Israel participava deste fenômeno internacional, mas tinha suas características próprias.

A sabedoria pode ser, a princípio, qualquer conhecimento prático - um saber fazer -, adquirido através da experiência de vida e da observação da natureza e das relações humanas. Sábio é, p.ex., o artífice que realiza seu ofício com habilidade (Êx 31.3ss). De modo mais amplo, a sabedoria pode ser definida como a capacidade de entender o mundo e a existência e de enfrentar e solucionar os problemas da vida. Assim, a sabedoria auxilia as pessoas a terem uma vida melhor e mais feliz. Em geral, ela aborda assuntos que afetam o cotidiano, como o trabalho ou a família.

No Antigo Testamento, pertencem ao âmbito da sabedoria, em especial, os livros de Pv, Jó, Ec e os salmos sapienciais (SI 1; 19B; 112; 119; 127; 128 e outros), mas também a história de José (Gn 37- 50) e os livros deuterocanônicos Tobias, Eclesiástico e Sabedoria. De modo geral, o livro de Pv e a narrativa de José contêm a literatura mais antiga e a visão tradicional da sabedoria, enquanto Jó e Ec refletem um estágio mais avançado da reflexão sapiencial.

2.2. O lugar e a função da sabedoria.

A sabedoria recolhe as experiências de vida com o intuito de ensinar as novas gerações (Pv 1.8ss;2.1ss).Este ensino acontecia, na época do Antigo Testamento, provavelmente em dois lugares distintos: na corte real e no âmbito da família. Há provérbios que pressupõem claramente um ensino formal de jovens da nobreza israelita para desempenhar funções diplomáticas ou para serem conselheiros do rei (Pvl5.22;16.10,12-15;23.1-5). Estas “escolas” da corte estavam abertas a
influências estrangeiras, em especial egípcias, a partir de Salomão (Pv 22.17-23.11, p.ex., se inspira na doutrina egípcia de Amenemope).

A maioria dos provérbios, no entanto, indica para o âmbito do ensino informal que ocorria no seio da família: “Filho meu, não te esqueças não te esqueças dos meus ensinos” (Pv 3.1; cf.4.1;5.1 etc). Além disso, a maioria dos provérbios provêm do ambiente rural (Pv 27.23-27) e espelham uma sociedade mais ou menos igualitária, onde todos ainda possuem uma propriedade em que trabalham e da qual vivem. O nível de vida é bastante modesto, mas há possibilidade de fartura (13.4;20.3) para as pessoas trabalhadoras. Em Provérbios transparece, portanto, uma sociedade agrária que dá aos seus membros condições iguais de sobrevivência e sucesso. É nesse contexto que se deve entender provérbios como: “A mão preguiçosa empobrece, o braço diligente enriquece” (10.4).

3. O princípio da retribuição

A sabedoria tradicional procura, através da observação, detectar leis ou normas invisíveis que regem os fenômenos naturais e os relacionamentos humanos. Essas observações podem ser condensadas em ditos breves, de fácil memorização, os provérbios (mashal). A sabedoria acredita que essas normas ou leis espelham a vontade do Criador e que o conhecimento e a observância delas pode evitar desgraças e levar ao sucesso e à felicidade. Quem viver de acordo com esta ordem da criação é, portanto, uma pessoa simultaneamente “justa” (“piedosa”) e “sábia”. Quem viver em desarmonia com a ordem da criação é, por outro lado, “ímpio” (“perverso”) e “tolo” (“insensato”). Enquanto que os “justos” e “sábios” terão sucesso na vida, os “ímpios” e os “tolos” fracassarão (cf., p.ex., Pv 10.6ss; 11.5ss; SI 1).

Nessa visão dualista está ancorada a idéia da “retribuição”, evidente, p.ex., na metáfora de Pv 26.27: “Quem abre uma cova, nela cairá.” Há uma relação de causa e conseqüência entre a ação praticada e a sorte de quem a pratica. Ou seja, quem planeja o mal para uma outra pessoa coloca em movimento uma força que, mais cedo ou mais tarde, recairá sobre si mesmo. Da mesma forma, quem faz o bem será, mais cedo ou mais tarde, recompensado pelo que fez. Essa perspectiva perpassa todos os Provérbios, grande parte dos salmos sapienciais, a moldura do livro de Jó (cap.1-2; 42.7ss), a história de José, e, em grande parte, também a literatura deuterocanônica.

2.4. A crise da sabedoria

O livro de Eclesiastes e o cerne do livro de Jó, no entanto, espelham a consciência de uma realidade que contradiz a afirmação da sabedoria: Os justos, que deveriam estar indo bem, passam mal, e os ímpios, que deveriam estar pagando pelos seus males, obtêm sucesso. O tema do sofrimento do justo é exemplarmente tratado no livro de Jó. O que, conforme a o princípio da sabedoria tradicional, não deveria acontecer, acontece com Jó: uma pessoa íntegra e temente a Deus padece sofrimento. Os amigos de Jó, arraigados nos conceitos da sabedoria tradicional, tentam convencer Jó de que o sofrimento atual deve ser atribuído a uma falta no passado. Dessa forma, os amigos de Jó cometem o erro de usar o “princípio da retribuição” como medida rígida para explicar a realidade existente (cf. os discípulos de Jesus em Jo 9.2). Assim, o que tinha, no ensino, a função de incentivar à prática do bem, se transformou em critério para julgar as pessoas.

O livro de Jó tenta responder de diversas maneiras à questão do sofrimento do justo. A moldura do livro (caps. 1-2; 42), mais antiga, dá a entender que o sofrimento do justo quer, na verdade, “testar” a autenticidade do “temor” do justo(1.9ss; 2.3ss). Jó resiste à prova (Jó 1.22; 2.10) e recebe em dobro o que havia perdido (42.12ss). Assim, a moldura ainda se movimenta dentro dos moldes tradicionais da sabedoria israelita. O cerne do livro, pelo contrário, apresenta um Jó rebelde e inconformado com Deus; uma solução para entender o sofrimento do justo se vislumbra somente no encontro pessoal com Deus (42.5). 

Também para o autor de Eclesiastes, há “justos a quem toca a sorte de ímpios, e ímpios a quem toca a sorte de justos” (Ec 8.14;9.2ss). Dúvidas e ceticismo marcam o livro: De que adianta trabalhar ou ser sábio e justo, já que tudo tem o mesmo fim, a morte (3.20)? Diante disso, o autor de Ec não se desespera, mas valoriza e se alegra com as pequenas dádivas do Deus da vida: a comida, a bebida, o trabalho, a companhia (8.15; 3.12s). Tudo deve ser recebido das mãos de Deus (3.14), mesmo que não entendamos o seu agir (3.11).

2.5. O temor do Senhor

Por diversas vezes, a sabedoria afirma que o “temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (1.7; 9.10; SI 111,10; Jó 28.28). Esta afirmação é especificamente israelita, mas se enquadra perfeitamente no pensamento global da sabedoria. Pois, a vida do sábio consiste em entender e aceitar as normas que vigoram no mundo criado por Deus; sujeitar-se a elas eqüivale a respeitar a vontade do Criador. O “temor” do Senhor significa, portanto, conhecer as leis de Deus (Pv 1.29; 2.5) e viver de acordo com elas (Pv 3.7;8.13; Jó 1.1). Uma característica fundamental do que teme a Deus é a humildade (Pv 15.33); o sábio se curva conscientemente diante da vontade divina e reconhecendo que todo o seu fazer é inútil, se “o Senhor não edificar a casa”(Sl 127.1). Esta humildade pode aproximar-se, às vezes, do conformismo, que aceita pacientemente tudo que acontece como vontade divina (Jó 1.21;2.10).

2.6. A dimensão ética da sabedoria

Mais marcante, no entanto, é que a sabedoria está impregnada de otimismo, pois acredita na possibilidade de a ação humana boa vir em benefício de toda a sociedade e, assim, também do autor da ação. Segundo a sabedoria, felicidade e sucesso são possíveis para os bons, pois as normas de Deus são “justas”. O ensinamento desse ideal representa um estímulo ético de importância substantiva para as gerações que são instruídas no conhecimento e recebem orientação para a vida. Assim como as leis, também a sabedoria quer preservar uma sociedade harmoniosa, onde os bons sejam naturalmente recompensados e os maus punidos.

A sabedoria tem, portanto, uma dimensão ética extremamente importante. O que se consegue através do trabalho honesto é legítimo e bom. No entanto, a sabedoria não ignora que existe riqueza ilícita (10.2; 20.21;13.11;15.16) e que o agricultor pobre está prestes a perder o seu campo injustamente (13.23), que, portanto, a harmonia social está ameaçada. Diante dessa ameaça, os Provérbios reagem com otimismo e confiança: “o pão da fraude”, aparentemente doce, deixará a boca cheia de areia (20.17), a riqueza adquirida por “cobiça” (10.3;11.6), “balanças falsas e pesos injustos” (11.1;20.23) ou suborno e falsos testemunhos nos julgamentos (12.17;15.27;17.15,23 etc.) se perderá por ser contrária às justas normas da criação (22.16). Apesar de tudo, a sabedoria não desiste de crer que os “ímpios” serão derrubados e os “justos” viverão (Pv 12.7). Isso não significa que a sabedoria leva ao conformismo ético. Pelo contrário, a partir da teologia da criação, há um ideal a ser preservado: “Oprimir o fraco é ultrajar o Criador; honrá-lo é ter piedade do indigente” (14.31 ;17.5). Mesmo que ambos, pobre e rico, sejam criados por Deus (Pv 22.2), “quem faz caridade ao pobre, empresta a Deus” (19.17).