4 de março de 2015

Gleason L. Archer - Inventário dos Manuscritos Bíblicos das Cavernas do Mar Morto

INVENTÁRIO DOS MANUSCRITOS BÍBLICOS DAS CAVERNAS DO MAR MORTO

Uma das preocupações principais da seita de Cunrã era o estudo diligente
das Escrituras hebraicas. Isto era considerado uma parte essencial do serviço
dedicado a Deus, ao qual se entregava estes piedosos fiéis. A todo momento, de
dia ou de noite, deveria haver um estudo bíblico ininterrupto, em grupos de dez
ou mais, cada um deles sendo presidido por um sacerdote. Parece que as instalações de Quirbet Cunrã, a sede da ordem, foram erigidas durante o reinado de Simão Macabeu (143-135), cuja tomada do poder como sacerdote e também rei sobre a comunidade dos judeus era considerada como algo claramente contrário às Escrituras. (Como levitas, os membros da família dos macabeus, apesar da
sua grande proeza em sacudir o jugo tirânico de Antíoco Epifanes e do império
dos selêuddas, não poderiam assentar-se no trono, sendo que este direito era
reservado aos descendentes do rei Davi). Se Frank M. Cross (The Ancient Li׳
brary of Qumran (Nova Iorque :Doubleday, 1961) tiver razão na sua interpretação da alusões no Pesher de Habacuque e noutros pesharim, o “Sacerdote Maligno”, ao qual estas se referem como sendo o perseguidor do “Mestre da Retidão” (fundador da seita), não era outro senão Simão
Macabeu, cujos filhos pereceram juntamente com ele num assassinato levado a efeito pelo seu próprio genro em Jericó (considerado um cumprimento anti-típico da maldição que recaiu sobre quem reedificasse Jericó, segundo Josué 6: 26). Podemos assim explicar a abundância. de matéria manuscrita datável em bases paleográficas no segundo século a.C. Parece que suas instalações de jardinagem e fabricação estavam em ‘Ain Feshka, poucos quilômetros ao sul de Quirbet Cunrã, eram a localidade onde foram preparados muitos destes rolos de couro com peles cuidadosamente curtidas. (Cross publica uma lista de textos publicados já disponíveis até 1957).

CAVERNA Nº UM

lQIs a. A cópia completa de todos os sessenta e seis capítulos de Isaías, com data de cerca de 150 a. C. (os Rolos de Isaías do Mosteiro de São Marcos).
lQIs b. Uma cópia incompleta da segunda metade de Isaías, com uma parte de
cada página faltando devido à deterioração; o texto se assemelha muito ao
texto consonantal do TM (o Rolo de Isaías da Universidade Hebraica), cerca
de 50 a. C.
lQpHab. Um comentário de Habacuque 1 e 2, versículo por versículo, citando
um texto muito perto do TM, interpretando eventos recentes como sendo o
cumprimento das predições do profeta. Escrito cerca de 75 a. C.
1QM ( = Milhamah, Guerra). A “Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas; um rolo que é um documento sectário contendo planos para a organização de uma força militante em prol de Deus para o “tempo do fim” que se aguardava para breve. Primeiro século a. C.
1QS ( = Serekh, Ordem). “O Manual da Disciplina” ou “Regra da Congregação”,
que é o nome alternativo atribuído a ele; a constituição e regras internas da
seita de Cunrã, com regras para a membrezia, serviços, atividades de comunidade, e disciplina para manter a pureza da fé e da conduta. Primeiro século a.C.
1QH ( = Hodayot), Louvores). Quatro folhas contendo vinte e quatro salmos
não-canônicos de louvor, com algumas diferenças notáveis ao se compararem com o Livro dos Salmos, quanto à linguagem, ao modo de falar e à teologia. Primeiro século a. C.
lQpMic (comentário ou pesher de Miquéias). Um fragmento que trata de uma
parte do capítulo 1 e do capítulo 6; emprega a soletração epigráfica antiga
para o nome YHWH.
Fragmentos do Pentateuco. Alguns destes pequenos fragmentos se escrevem na
escrita epigráfica e alguns (tais como os fragmentos de Levítico) podem ser
tão antigos que remontem ao século quatro a. C.
lQpPs 68. Um fragmento de pesher de Salmo 68.
lQJub. Um fragmento do Livro de Jubileus, pseudepigráfico.
lQDan. Uns poucos fragmentos de Daniel numa escrita do segundo século a. C.;
um fragmento mostra onde termina a parte hebraica e começa a parte aramaica no cap. 2.
lQApoc. A Apócrifa de Gênesis, um tipo midrasaico de detalhamento das biografias de Noé e Abraão (e possivelmente outros nas colunas perdidas). Somente
cinco colunas são legíveis no meio de vinte e duas. Todas as colunas são escri-
tas am Aramaico. Escrita do primeiro século a. C.

CAVERNA Nº DOIS

2QEX. Partes de Êxodo caps. 1, 7, 9, 11-12, 21, 26, 30; há um segundo manuscrito parcialmente representado, contendo Êxodo caps. 18, 21, 34.
2QJer. Partes de Jeremias, capítulos 4246;4849.
2QLev. Partes de Levítico 11:22-28 em escrita epigráfica.
2QNum. Partes de Números 3:51 —23;49-52
2QDeu. Um fragmento contendo Deuteronômio 1:17.
2QRu. Um fragmento de Rute 2:13-3:8, 14-18.
2QPs. Partes de Salmos 103 (6-8) e 104 (6-11).
2QJub. Uma parte em hebraico de Jubileus 46:1-2.
Fragmentos de Liturgia em Aramaico, que se referem a uma cerimônia com o uso de pão.
Miscelâneos: Fragmentos de MS não-bíblicos, num total de cerca de quarenta.

CAVERNA Nº TRÊS

3QIs. Um fragmento minúsculo de Isaías 1:1, possivelmente com um pesher.
3QInv. O célebre Rolo de Cobre, contendo um inventário em hebraico Misnaico,
com três tiras de 240 cm. x 30cm. contendo doze colunas com listas com
sessenta esconderijos de tesouros que pertencaim ao templo. Associado com
fragmentos de cerâmica do primeiro século d. C.

CAVERNA Nº QUATRO

4QSam A. Partes de 1:22—2:6; 2: 16-25. Vinte e sete fragmentos em couro,
com escrita do tipo do primeiro século. É bem consistente em favorecer as
variações da LXX comparadas com o TM.
4QSam Numa escrita do terceiro século a. C. Emprega mais soletração “incompleta” do que o TM (ou seja, menos letras vocálicas); partes de I Samuel
caps. 19-21. Concorda com LXX contra TM cinco vezes; mas com o TM
contra LXX duas vezes.
4QIs. Doze MSS diferentes são representados, contendo partes de Isaías caps.
12-13, 22-23, numa escrita da parte final do primeiro século a. C. Houve algumas perdas do texto por causa de homoeoteleuton. Nunca favorece LXX
contra TM.
4QJer B. Versículos 9:22—10:18, mostrando omissões de textos semelhantes a
LXX. (Ver Cross, ALQ, p. 187).
4QXII. Uma escrita cursiva do terceiro século a. C.; sete MSS diferentes representados de várias partes dos doze profetas menores.
4QDeu. Um fragmento de Deuteronômio 32, sendo que parte dele contém 32:
41-43 escrito como poesia em hemistiquios, com algumas lacunas. Nesta caverna, treze MSS diferentes de Deuteronômio são representados.
4QEc. Um fragmento de Eclesiastes numa escrita cursiva do terceiro século
a. C., outro de cerca de 150 a. C., cujo estilo em muito se assemelha a lQIs a.
4QDan. Uma escrita de fins do segundo século a. C., conservando tanto Daniel
2:4 como 8:1, as duas passagens transidonais (Hebraico para Aramaico e
Aramaico para Hebraico, respectivamente.
4QEx. Partes de Êxodo caps. 6-18, em colunas de trinta e duas linhas cada. Na
narrativa das pragas, tende a favorecer o texto samaritano contra TM e LXX.
4QJÓ. Em escrita epigráfica paleo-hebraica, tendo, porém, uma proliferação de
letras vocálicas do tipo hasmoneano (comprovando que a escrita paleo-hebraica ainda se empregava ocasionalmente no segundo século a. C.)
4QCh. Seis linhas, contendo apenas quatro palavras completas de Crônicas.
4QPs. Representam-se dez MSS diferentes dos Salmos.
4QLXX. Dois fragmentos em Grego da Septuaginta (F. M. Cross não espesifica
quais passagens no seu “Relatório dos Fragmentos Bíblicos da Caverna
Nª Quatro em Uádi Cunrã” em BASOR N? 141 Fev. 1956).
4QNum. Um fragmento que combina variações que às vezes favorecem a LXX,
noutras vezes, o Pentateuco Samaritano, ou ambos estes textos juntos.
4QNab. A alegada oração do Rei Nabonido de Babilónia, depois de ele ter sido
acometido de uma inflamação severa (não a loucura!) na cidade de Temã,
Arábia (não na Babilônia!), e de ter sido curado por um exorcista judeu
cujo nome não consta. Reconhece a incapaddade dos ídolos e o poder do
Deus dos hebreus. Escrita em aramaico.

CAVERNA Nº SEIS

Fragmentos da Obra Zadoquita.

CAVERNA Nº SETE

Esta caverna é ímpar sendo que não continha nenhum documento em Hebraico ou Aramaico, mas somente em Grego. 7Q1 e 7Q2 foram identificados como
fazendo parte da Septuaginta na publicação original destes dezenove fragmentos,
mas somente foi em 1972 que José O’ Callaghan, no seu livro: “Papiros neotestamentários en la cueva 7 de Qumran?” (em Bíblica, 7: 1 (Roma, Instituto Bíblico Pontifício 1972) identificou vários dos fragmentos menores como fazendo
parte do Novo Testamento. Nota-se que apenas os cristãos empregavam papiro
para as suas Escrituras, enquanto os judeus preferiam pergaminho ou couro.)
7Q1.Êxodo 28: 4-7, numa escrita chamada Zierstil, empregada entre 100 a. C. e
50 d. C., mais ou menos.
7Q2. A epístola de Jeremias caps. 4344, semelhantemente em Zierstil.
7Q4.1 Timóteo 3:16; 4:1, 3.
7Q5. Marcos 6: 52-53, também em Zierstil, parecendo que foi copiado no Egito
(a julgar pela letra tau que erroneamente substituiu um delta na palavra
diaparasantes), e também destacado pela omissão de uma frase (eis tên gêri)
que normalmente aparece neste versículo.
7Q6 . Marcos 4: 28, na escrita herculaneana (empregada por escribas entre 50 e
80 d. C.)
7Q6 2. Atos 27:28, em escrita herculaneana (provavelmente).
7Q7. Marcos 12:17 em Zierstil (provavelmente).
7Q8. Tiago 1:23-24, em escrita herculaneana, dá a entender a omissão de
gar auton depois do verbo katenoesen.
7Q9. Romanos 5: 11-12 (provavelmente), talvez uma cópia da parte posterior do
primeiro século d. C.
7Q10. II Pedro 1: 15 (possivelmente); não há texto suficiente para estabelecer
uma data de cópia.
7Q15. Marcos 6:48 (possivelmente); data incerta.

CAVERNA Nº ONZE

Parece que estes documentos são do primeiro século d. C.
11QPs. Textos mais ou menos completos de Salmos 93-150, mas seguindo uma ordem algo diferente daquela do TM. Há também oito salmos adicionais, não canônicos, inclusive o “Salmo 151” da Septuaginta.
11Qtarg. Job. Fragmentos de um targum de Jó distintivamente diferente dos
targuns posteriores padronizados.
11QMelchiz. O fragmento• de um comentário em prosa, escrito em Hebraico, com
respeito a Melquisedeque (cf. Gn 14: 17-20), apresentando-o como personagem sobre-humana que seria participante em levar a efeito a vitória de Deus
contra os Seus inimigos na terra no fim desta época (cf. M. de Jonge e A. S.
van der Woude: Melchizedek and the New Testament em New Testament
Studies, N? 12, págs. 301-326; publicado originalmente em Oudtestamentlische Studien N? 14, (Leiden, Holanda, 1965), págs. 354-373).

UÂDI MURABBA’ AT (vinte e oito quilômetros ao sul de Cunrã).

1. Fragmentos bíblicos de Gênesis 2:4; 32-35; Êxodo caps. 4 e 6;Deuteronômio caps. 10-12; Isaías 1:4-14.
2. Um MS grego dos profetas menores, e documentos não-bíblicos tais como:
a) duas cartas pessoais de Simão ben Cosebá (Bar Cocbá);
b) dois contratos em Aramaico;
c) alguns MSS compridos em Aramaico nabateu, de difícil decifração;
d) um palimpsesto em caracteres epigráficos antigos, contendo uma lista
de Nomes, provavelmente tendo a sua origem no sétimo século a. C.;
e) um fragmento em Latim, do segundo século d. C., aparentemente de natureza jurídica;
f) uma carta dos administradores de Beit Mashbo.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.