8 de março de 2015

Gleason L. Archer - Histórico da Teoria Documental do Pentateuco

HISTÓRICO DA TEORIA DOCUMENTAL DO PENTATEUCO

Até o surgimento da filosofía deística no século dezoito, a
igreja crista sempre aceitou literalmente as declarações contidas no Pentateuco, que o livro foi composto pelo Moisés histórico do século quinze a.C. Alguns estudiosos judeus tinham sugerido a possibilidade duma autoria posterior de pelo menos partes da Torá, homens tais quais o judeu espanhol panteístico Benedito Espinoza, mas estas conjeturas tinham sido ignoradas em grande parte pelos estudiosos europeus, até que o movimento deístico criou uma atitude mais propícia para o ceticismo histórico e a rejeição do sobrenatural. (Espinoza exprimira em 1670, no seu Tractatus Theologico-Politicus, o ponto de vista que o Pentateuco dificilmente poderia ter sido escrito por Moisés, sendo que a narrativa é na terceira pessoa “ele”, e não na primeira “eu”; além disto, não poderia ter registrado sua própria morte, que se descreve no capítulo 34 de Deuteronômio. Por este motivo, postulou Esdras como compositor final da Torá. Apesar de esta sugestão ter sido geralmente desconsiderada na sua própria geração, constituía uma antecipa-
ção marcante daquilo que seria a formulação final da Hipótese Documental, feita por Graf, Kenen e Wellhausen na segunda metade do século dezenove).

Desenvolvimentos Primitivos


A Hipótese Documental — a teoria que o Pentateuco era urna
compilação de seleções de vários documentos escritos diferentes,
compostos em lugares e épocas diferentes, no decurso dum período
de cinco séculos, muito tempo depois de Moisés — começou com
Jean Astruc, um clínico francés que se interessou na análise lite-
rária de Gênesis. Ficou intrigado pelo fato de Deus ter sido cha-
mado somente Elohim em Gênesis 1, e quase somente Jeová (ou
Yahweh) em Gênesis 2. Nas suas “Conjeturas Concernentes aos
Memorandos Originais, os quais, aparentemente, Moisés Empregou
para Compor o Livro de Gênesis” (em francês), procurou expli-
car o fenômeno com a suposição que Moisés tinha lançado mão
de duas fontes escritas diferentes que continham dois relatórios
diferentes da criação. Sustentou que ao compor estes dois capí-
tulos Moisés citava um autor que só conhecia o nome Elohim (pre-
sumivelmente o escritor mais antigo) e outro autor que só conhecia
o nome Jeová, como nome de Deus. Enquanto a sugestão de Astruc
achou pouco apoio imediato, postulou um critério pela divisão das
fontes que depois de um certo tempo recebeu uma resposta do
mundo dos estudiosos (que estava semelhantemente envolvido na
divisão das obras homéricas em muitas fontes diferentes), e for-
neceu a primeira suposição básica da Hipótese Documental, o cri-
tério dos nomes divinos.

A próxima etapa surgiu com á Introdução ao Antigo Testa-
mento de Johann Gottfried Eichhom, publicada em 1780-83. Di-
vidiu o livro inteiro de Gênesis, mais os primeiros dois capítulos de
Êxodo (até a entrevista de Moisés com Deus na sarça ardente)
entre o escritor Yahwista e o Elohista, J e E, que aportuguesados
seriam o javístico e o eloístico. Procurava correlacionar os assim-
chamados “relatórios paralelos” e “histórias duplicadas” (e.g., as
“duas narrativas” do Dilúvio) com estas duas “fontes”, isolando
assim os traços característicos de cada. Originalmente, atribuía a
Moisés a obra editorial de combinar estas matérias escritas “pré-
Mosaicas”, mas em edições posteriores da sua Introdução final-
mente cedeu ao ponto de vista que estava se popularizando, que o
Pentateuco foi escrito depois da época de Moisés. E assim se es-
tendeu a uma grande parte do Pentateuco esta divisão J-E.

A terceira etapa se iniciou com a contribuição de Wilhelm
M. L. De Wette ao estudo de Deuteronômio. No seu livro Disser -
tatio (1805)° e seu Beitraege zur Einleitung (1806), expôs o ponto
de vista que nenhuma parte do Pentateuco vinha dum período
anterior à época de Davi. Mas quanto a Deuteronômio, trazia
todos os sinais de ter sido o livro da Lei que o sumo-sacerdote Hil-
quias achou no Templo de Jerusalém na época da reforma do rei
Josias, segundo 2 Reis cap. 22. Tanto o rei como o sacerdote se
uniram no propósito de abolir o culto e o sacrifício a Jeová fora
da cidade capital. A centralização do culto contribuiria ao estrei-
tamento da unificação política em todas as partes do reino, e
garantiria que todas as contribuições financeiras dos piedosos vi-
riam encher os cofres dos sacerdotes em Jerusalém. Este livro,
portanto, deve ter sido forjado para servir à campanha governa-
mental, e encenou-se sua descoberta no momento psicológico. Isto
fixou a data da composição em 621 a.C. (a data da reforma de
Josias), ou um pouco antes. Assim surgiu a teoria do Documento D
(conforme veio a ser chamado), inteiramente separado de J e E
quanto à sua origem, composto de tal maneira que apoiaria a po-
lítica do governo através das suas referências (vd. cap. 12) à “ci-
dade que o Senhor escolherá”. Assim, a lista de “fontes” do Pen-
tateuco chegou a incluir três documentos: E (o mais antigo), J,
e finalmente, do fim do sétimo século a.C., Documento D.

Estritamente falando, porém, De Wette não pertencia à Escola
Documental, mas aos teoristas fragmentários. A Teoria Fragmen-
tária da origem do Pentateuco foi proposta originalmente em 1792
(Introduction to the Pentateuch and Joshua) pelo sacerdote es-
cocês da Igreja Católica Romana, Alexander Geddes. Geddes sus-
tentou que a Torá foi composta na época de Salomão, de muitos
fragmentos separados, alguns dos quais seriam da época de Moisés,
ou anteriores a ele.

As teorias de Geddes foram adotadas por Johann Vater (Kom-
mentar über den Pentateuch, 1802), que dividiu em nada menos do
que trinta e nove fragmentos só o livro de Gênesis (o que natural-
mente significou a divisão de E em diversos elementos). Enquanto
alguns fragmentos seriam da época de Moisés, a combinação e
arranjo finais não se completaram até a época do Exílio na Babi-
lônia (587-538 a.C.). De Wette concordou com este tipo de análise
de fontes, alegando que os relatórios históricos de Juizes, Samuel
e Reis não demonstraram a existência da legislação pentateucal
(sendo que as leis de Moisés eram consistentemente ignoradas, como se não existissem) . Não poderia, portanto, ter existido este
tipo de legislação até ao tempo da monarquia judaica posterior.
Entre De Wette e Hupfeld, não houve nenhuma grande mu-
dança no desenvolvimento da Hipótese Documental. Neste ínterim,
certas outras teorias quanto à composição do Pentateuco recebe-
ram defensores habilidosos. A Teoria Suplementaria, defendida por
Ewald, Bleek, e Delitzsch, supunha que existia um documento bá-
sico, ou corpo de tradições (E), que subjazia as demais matérias, e
que tinha a data de cerca de 1050-950 a.C. Este adquiriu adições
e suplementos da parte do autor de J, em época posterior, que dei-
xou a matéria anterior (a de E) basicamente inalterada ao incor-
porá-la com sua própria matéria.

Heinrich Ewald no livro Komposition der Genesis (A Com-
posição de Gênesis), 1823, ressaltou que a base essencial de Gênesis
era muito antiga, se não inteiramente Mosaica. Não admitiu o
uso que Eichhorn fez de repetições e títulos no texto hebraico para
comprovar autoria diversa, pois, conforme indicou, antigas obras
árabes (onde a unidade de autoria era tida como inquestionável)
empregaram técnicas semelhantes como traços característicos de
estilo semítico. No livro Geschichte Israels (A História de Israel),
1840, exprimiu o ponto de vista que Moisés pessoalmente compôs o
Decálogo (Êx 20) e algumas das leis mais antigas. Gênesis 14 e
Números 33 também eram de origem muito antiga. Mas estas
matérias mais antigas eram suplementadas por um Livro de Alian-
ças, composto por um judeu anônimo no período dos Juizes. Na
época de Salomão surgiu um Livro de Origens, escrito por um
Levita anônimo, contendo muita matéria do Documento E. Uma
terceira suplementação veio no nono século (a época de Elias) na
forma duma biografia de Moisés. Mais tarde ainda surgiu um
historiador profético, e finalmente um judeu da época de Uzias
(no meio do oitavo século) que introduziu o nome Yahweh em vá-
rios lugares, e trabalhou os documentos anteriores como redator
final. Esta obra que Ewald escreveu em 1840 envolvia realmente
um abandono da Teoria Suplementária em favor da Teoria de Cris-
talização, uma modificação daquela, que considerou que cada con-
tribuição à matéria mosaica incluía uma recomposição do todo,
ao invés de ser um acréscimo de contribuições isoladas. Assim,
por sucessivas camadas de moléculas, construía-se um tipo de
“cristal״ literário. (Outros defensores da Teoria de Cristalização
eram August Knobel, 1861, e Eberhard Schräder, 1869, que sim- 
piificara.ni algo deste processo de crescimento nos seus tratados
sobre o Pentateuco).

O segundo suplementarista acima mencionado era Friederich
Bleek que em 1822 trouxe à lume uma extensão da análise de
fontes literárias ao livro de Josué, criando assim o termo Hexateuco
(“Seis Volumes”) como sendo a forma final na qual a tradição mo-
saica chegara à sua forma escrita, e não um simples Pentateuco
em cinco volumes. Em 1836, publicou suas observações sobre Gê-
nesis, concedendo que algumas das suas passagens eram genuina-
mente mosaicas. A primeira suplementação considerável veio na
época da monarquia unida (décimo século a.C.) quando um com-
pilador anônimo compôs a forma primitiva do livro de Gênesis.
Uma segunda redação importante foi feita na época do rei Josias
(aproximadamente 630 ou 620 a.C.) pelo compilador anônimo de
Deuteronômio, que incorporou Josué também, formando-se assim
o Hexateuco. Mais tarde, Bleek publicou uma Introdução ao An-
tigo Testamento completa, a segunda edição da qual (publicada
em 1865) logo foi traduzida para o inglês (1869). Nesta obra, tomou
posição contrária a certos extremos descabíveis da crítica literária
então na moda; mesmo assim, fez muitas concessões imprudentes
e injustificáveis ao ponto de vista documental como um todo.

Quanto a Franz Delitzsch, o terceiro estudioso da escola su-
plementar acima mencionado, era de tendências muito mais con-
servadoras do que Ewald ou Bleek. No seu comentário de Gênesis,
que apareceu em 1852, propôs a teoria que todas as porções do
Pentateuco que o próprio texto atribuía à autoria mosaica eram
genuinamente de Moisés. As demais leis representavam uma tra-
dição genuinamente mosaica, mas não foram codificadas pelos sa-
cerdotes até depois da conquista de Canaã. As partes não-mosaicas
do Documento E foram provavelmente compostas por Eleazar (ter-
ceiro filho de Arão), que incorporou o livro da aliança (Êxodo
20:23-23:33). Um escritor posterior suplementou esta obra, incluin-
do Deuteronômio com ela. Delitzsch produziu uma série de exce-
lentes comentários da maior parte dos livros do Antigo Testamento
(alguns deles em colaboração com Karl Friedrich Keil, um aluno
de Hengstenberg). Na parte final da sua carreira, 1880, Delitzsch
mudou de posição, aceitando uma forma modificada da Hipótese
Documental que então imperava. (Incidentalmente, Franz De-
litzsch não deve ser confundido com seu filho, Friedrich Delitzsch, que se distinguiu particularmente no campo da Assiriologia, e cujas
idéias quanto à crítica do Antigo Testamento eram algo mais libe-
rais do que as do seu pai).

No parágrafo anterior, foi mencionado Emest Wilhelm Hengstenberg, o líder da ala conservadora dos estudiosos bíblicos da
Alemanha. Era um defensor Capacitado da autoría mosaica de
todos os cinco livros de Moisés, e habilidosamente refutava todos
os argumentos padronizados pelas fontes diversas no Pentateuco,
que tinham circulado nos ambientes estudiosos desde os dias de
Astruc e Sichhorn. Sua obra altamente influenciável foi traduzida
para o inglés em 1847 com o título The Genuineness of the Penta-
teuch, e fez muita coisa para apoiar a posição conservadora. Como
já foi mencionado, exerceu profunda influência sobre Friedrich
Keil, que, no decurso da segunda metade do século dezenove, tor-
nou-se o principal estudioso conservador do Antigo Testamento no
mundo germánico. Nos Estados Unidos, os estudiosos do Seminário
Princeton, Joseph Addison Alexander e William Henry Green vigo-
rosamente sustentavam o mesmo ponto de vista, sujeitando a es-
cola documental a urna crítica devastadora que até hoje não foi
refutada com sucesso pelos estudiosos de tendência liberal.

Em 1853, apareceu a obra de Hermann Hupfeld, Die Quellen
der Génesis (As Fontes de Génesis) que marcou uma época. Sua
contribuição ao debate resultou naquilo que tem sido chamado
“A Revolução Coperniciana da historia da Teoría Documental”.

Em primeiro lugar, sujeitou o Documento E a um reexame total,
destacando nele duas fontes distintivas: uma delas, E2, era compos-
ta daquelas porções’ do Eloísta que muito se assemelhavam a J
no estilo, no vocabulário e na matéria contida, e que ocasionalmente
parecia conter alusões a matérias que também se achavam em J
(que era supostamente posterior). De fato, não fosse o nome di-
vino (Elohim), seria difícil distinguir tais passagens de J. (Deve
ser mencionado aqui que o reconhecimento da existência de tais
passagens é uma ameaça perigosa à segurança de se empregar os
nomes divinos Elohim e Jahweh como critérios da divisão de fontes).
Hupfeld então segregou estas porções (começando em Gênesis 20)
do restante do corpo do Documento E, que considerou como sendo
anterior, chamando-o “Grundschrifth” ou “documento básico”, de-
signando-lhe a cifra E1. Este Documento E1 coincide aproximada-
mente com aquilo que os críticos posteriores chamaram P, o Código
Sacerdotal. O E2 posterior (que depois ficou sendo chamado sim-
plesmente E) era ainda um pouco anterior a J (Javístico). D (a
obra Deuteronomista) era naturalmente o documento mais re- 
cente de todos (datando-se da época de Josias). A ordem correta
dos “documentos*״ passou a ser, para Hupfeld, a seguinte: PEJD.

Deve ser mencionado aqui que Hupfeld não foi o primeiro a
originar esta idéia de subdividir E, pois antes dele Karl David
Ilgen de Jena publicou em 1798 urna obra propondo o ponto de
vista que Gênesis se compunha de dezessete documentos diferen-
tes, entre cujos autores existiam dois Eloístas e um Javista. Esta
obra era um produto da Escola Fragmentária, e não teve uma in-
fluência considerável ou duradoura.

As Quellen (Fontes) de Hupfeld também enfatizavam a con-
tinuidade dos supostos documentos E1, E2 e J, e procuravam demons-
trar que, quando segregadas entre si, as seções de Gênesis, que sua
teoria distribuía a cada um destes documentos, faziam bom sen-
tido e poderiam constar como obras separadas. Mas o que era
mais digno de nota em tudo isto, era a ênfase que Hupfeld dava a
um redator hipotético que fez rearranjos e suplementações em toda
esta literatura de Gênesis até Números, e que esclareceu que cada
vez que passagens J empregavam palavras e frases que suposta-
mente eram características de E, ou vice-versa, era por causa do
redator. Em outras palavras, quando suas teorias encontravam
dificuldades com os fatos, e até foram contrariadas pelos próprios
dados contidos no texto, a mão atrapalhadora de R (o redator
anônimo) entrava como hipótese para salvar a situação.

As contribuições de Hupfeld provocaram novo interesse na
Teoria Documental entre os círculos estudiosos. Especial atenção
foi dedicada ao Documento E1, o “Grundschrift” de Hupfeld. Em
primeiro lugar, surgiu a discussão de Karl Heinrich Graf, em 1866.

Com seu mestre; Eduard Reuss, Graf acreditava que este Código
Sacerdotal no Pentateuco continha legislação que era posterior em
origem ap próprio Deuteronômio (621 a.C.), dando como motivo a
explicação que D não demonstra nenhum conhecimento das por-
ções legais de P (o Código Sacerdotal), embora que reflita as leis
de J e de E. Devemos, portanto, considerar que a legislação de
P pertence à época do Exílio (587-539 a.C.). As porções históricas
de P eram, porém, sem dúvida, muito antigas. Assim, a ordem dos
“documentos" acabou sendo, segundo Graf: P histórico, E, J, D, P
legal. Achou que E foi suplementado por J, e que depois, na época
de Josias, EJ foi revisto pelo autor de D.

Mas P não haveria de ficar muito tempo na condição dividida
na qual Graf o deixou. Um estudioso holandês, Abraham Kuenen,
no seu livro De Godsdienst van Israel (A Religião de Israel), publi-
cado em 1869, argumentou com muita força em prol da unidade
de P, insistindo que as porções históricas deste “documento” não
poderiam legitimamente ser separadas das porções legais. E já
que Graf tinha comprovado a origem exílica ou pós-exílica da le-
gislação sacerdotal, então, o documento P inteiro era forçosamente
mais recente. Isto significou que aquilo que Hupfeld tinha defi-
nido como sendo a porção mais antiga do Pentateuco (“Gruds-
chrift”) acabou sendo a parte mais recente de tudo, recebendo sua
forma final e definitiva quando Esdras reuniu o corpo literário do
Pentateuco inteiro, em tempo para a cerimônia de leitura pública
mencionada em Neemias 8. A nova ordem dos “documentos” pas-
sou a ser: J, E, D e P. J era o documento básico da Torá, e E foi
incorporado nele posteriormente. Depois, D foi acrescentado, na
época de Josias, pouco antes do fim da monarquia judia. No de-
curso do ministério de Ezequiel, no período exílico, o Código de
Santidade (H), consistindo em Levítico caps. 17-26, foi formulado
como sendo a porção mais antiga de P; o restante de P surgiu no
fim do sexto século e a primeira metade do quinto século — mil
anos depois da morte de Moisés!

Depois da obra de Hupfeld, Graf e Kuenen, o palco estava
preparado para a formulação definitiva da Teoria Documental Re-
cente, por Julius Wellhausen, cujas contribuições mais importantes
eram: Die Komposition des Hexateuchs (A Composição do Hexa-
teuco), que apareceu em 1876, e Prolegomena zur Geschichte Israels
(Introdução à História de Israel) que foi publicada em 1878. Ape-
sar de Wellhausen não ter contribuído com nenhuma inovação no-
tável, redefiniu a Teoria Documental com grande perícia e capa-
cidade de persuasão, apoiando a seqüência JEDP na base da
evolução. Foi naquela época que a Origem das Espécies de Charles
Darwin estava capturando a lealdade do mundo científico e estu-
dioso, e a teoria do desenvolvimento do animismo primitivo atê o
monoteísmo sofisticado, conforme explanada por Wellhausen e seus
seguidores, se harmonizou bem com o dialeticismo hegeliano (es-
cola de filosofia contemporânea que então dominava o ambiente)
e o evolucionismo darwiniano. O século era predisposto para a
Teoria Documental, e o nome de Wellhausen se vinculou à teoria,
por ter sido ele seu expoente clássico. O impacto dos seus escritos
logo se fez sentir em toda a Alemanha (capturando eruditos tais
como Kautzsch, Smend, Giesebrecht, Budde, Stade e Cornill) e rec 
beu mais e mais aceitação tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos.

Na Inglaterra, William Robertson Smith (The Old Testament
in the Jewish Church — O Antigo Testamento na Igreja Judaica),
foi o primeiro intérprete de Wellhausen perante o público. Samuel
R. Driver lhe emprestou sua formulação clássica para o mundo
de fala inglesa (Introduction to the Literature of the Old Testa-
ment, 1891), embora que ele pessoalmente tivesse convicções teoló-
gicas algo mais conservadoras do que os arquitetos da Teoria Do-
cumental tinham sido. O mesmo se pode dizer de George Adam
Smith, nos Estados Unidos, que se considerou um evangélico na
teologia, mas dedicou sua pena perita a uma popularização do tipo
de abordagem aos profetas vetero-testamentários que os documen-
taristas adotaram (notavelmente as exposições de Isaías e os Profe-
tas Menores que escreveu para Expositor’s Bible editado por W. R.
Nicoll). Nos Estados Unidos, o mais notável campeão da nova
escola era Charles Augustus Briggs, do Seminário Union (The
Higher Criticism of the Hexateuch — A Alta Crítica do Hexateuco,
1893), apoiado por seu habilidoso colaborador, Henry Preserved
Smith.

Conforme veremos no próximo capítulo, o sépulo vinte tem
testemunhado uma reação vigorosa contra Wellhausen e a Hipótese
Documental, e a confiança geral nela tem sido algo minada, mesmo
em círculos liberais. Mesmo assim, nenhum outro relatório siste-
mático da origem e do desenvolvimento do Pentateuco tem sido
formulado de maneira tão lúcida e convincente que pudesse co-
mandar a aderência geral do mundo estudioso. Por falta duma
teoria melhor, portanto, a maioria das instituições não conserva-
doras continuam a ensinar a teoria wellhausiana, pelo menos no
seu arcabouço geral, como se nada tivesse acontecido nas pesqui-
sas vetero-testamentárias desde o ano 1880. Na Inglaterra, a
Introdução aos Livros do Antigo Testamento de W.O.B. Oesterley
e T.H. Robinson (1934) era basicamente Wellhausiana, embora que
tenham sido mencionadas algumas dúvidas quanto à cronologia
comparada dos “documentos” (JE pode ter sido da mesma época de D e H pode ter sido um pouco mais antigo do que D — págs. 52, 53). Nos Estados Unidos, Julius A. Bewer, na Literatura do Antigo
Testamento (1922) e Robert H. Pfeiffer, na Introdução ao Antigo
Testamento (1941) aderiram lealmente ao Wellhausianismo clás-
sico, apesar de Pfeiffer ter isolado um novo documento, S, urna
fonte pessimista edomita, e colocou a data dos Dez Mandamentos
depois de D, ao invés de fazerem parte de E.

Na Alemanha, a influência da Crítica da Forma (que será debatida no próximo capítulo) surgiu como uma tentativa de sinte-
tizar a abordagem de Gunkel e Gressmann na crítica da forma
com o documentarianismo de Wellhausen. Esta síntese aparece
mais claramente na obra de Otto Eissfeldt (Einleitung in das Alte
Testament — Introdução ao Antigo Testamento, 1934). Na Escan-
dinávia, Aage Bentzen de Copenhagen (Introduction to the Oíd
Testament, 1948) se mantém no tipo de síntese que Eissfeldt pro-
curou fazer; mas seu compatriota Johannes Pedersen, bem como
Sigmund Mowinckel e Ivan Engnell de Uppsala (Suécia) se incli-
nam muito mais definidamente na direção duma abordagem tipo
Crítica da Forma ou História da Tradição do que à crítica das fon-
tes, de Wellhausen. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, porém, a
regra de Wellhausen continua mais ou menos suprema na maioria
das escolas não conservadoras das antigas denominações. Por este
motivo, precisamos tratar a Teoria Documental como um assunto
em foco até aos dias de hoje, apesar de que até os estudiosos liberais
no Continente da Europa já desferiram golpes quase fatais a vir-
tualmente todos os seus alicerces.


A Descrição dos Quatro Documentos da Hipótese Documental
(As Datas sugeridas são aquelas propostas na primeira edição
da Introdução à Literatura do Antigo Testamento de Driver, págs.
111-123).

J — escrito ca. de 850 a.C., por um escritor desconhecido do
Reino Sulino de Judá. Tinha interesse especial na biografia pes-
soal, caracterizada por delineações vívidas de caráter. Freqüente-
mente descrevia Deus, ou a Ele fazia alusão, em termos antropo-
mórficos (i.é., como se Deus possuísse o corpo, partes e paixões
do ser humano)c. Tinha também um interesse em reflexões éticas
e teológicas, típico dos profetas.

E — escrito em 750 a.C. por um escritor desconhecido do Rei-
no Setentrional de Israel. Foi mais objetivo do que J no seu estilo
narrativo, e tinha menos cor conscienciosa de reflexão ética e teo-
lógica. Sua tendência era deter-se em particularidades concretas.
Cerca de 650 a.C., um redator desconhecido combinou J e E
num documento único, JE.

D — composto, possivelmente sob a direção do sumo sacerdote
Hilquias, como programa oficial do partido de reforma patrocina-
do pelo rei Josias no avivamento de 621 a.C. Seu objetivo era com-
pelir todos os súditos do Reino de Judá a abandonar todos os seus
santuários locais nos “lugares altos” e a trazer todos os seus sacri-
fícios e contribuições religiosas ao templo em Jerusalém. Este do-
cumento foi profundamente influenciado pelo movimento profético,
especialmente o de Jeremias. Membros desta mesma escola deute-
ronômica mais tarde fizeram uma obra de redação nas narrativas
históricas registradas em Josué, Juizes, Samuel e Reis.

P — composto em várias etapas, desde Ezequiel, como seu Có-
digo de Santidade (Levítico caps. 17-26) ca. de 570 a.C. (chamado
“H”) até Esdras, “escriba versado na Lei de Moisés”, sob cuja di-
reção as últimas seções sacerdotais foram acrescentadas à Torá.
P se preocupa com uma narrativa sistemática das origens e insti-
tuições da teocracia israelita. Demonstra um interesse especial nas
origens, nas listas genealógicas, e nos detalhes do sacrifício e do
ritual.

Resumo do Desenvolvimento Dialético da Hipótese Documental

1. Astruc: nomes divinos diferentes indicam fontes diferentes
— a divisão entre J e E; desenvolvido mais por Eichhorn. (E an-
tes de J).
2. De Wette: definiu D como tendo sido escrito na época de
Josias (621 a.C.).
3. Hupfeld: dividiu E no E1 (ou P) anterior, e o E2 poste-
rior (que é mais semelhante a J). Ordem dos documentos: PEJD.
4. Graf: as porções legais de P são da época do Exílio, a
parte mais recente de todas, embora que as porções históricas pos-
sam ser antigas. Ordem dos documentos: PÍEJDP2.
5. Kuenen: as porções históricas de P devem ser tão recentes
como as porções legais. Ordem dos documentos: JEDP.
6. Wellhausen: deu à Teoria Documental sua expressão clás-
sica, calculando a seqüência JEDP no padrão sistemático evolu-
cionário.

Observem-se as contradições e reviravoltas que caracterizam o
desenvolvimento desta Teoria Documental. 1) O nome divino dife-
rente indica um autor diferente (Astruc, Eichhom), cada um com
seu círculo de interesses, estilo e vocabulário. 2) O mesmo nome
divino (Elohim), porém autores diferentes (Hupfeld); algumas pas-
sagens E não são muito diferentes de J em círculos de interesse,
estilo ou vocabulário. 3) O Eloísta (P) que difere mais de J em
interesse e estilo deve ser o mais antigo (sendo que Jahweh é
posterior a Elohim. como nome divino). 4) Não, pelo contrário,
este P tem que ser o último e não o primeiro (pois isto se adapta
melhor à teoria evolucionária do desenvolvimento da religião he-
braica desde o politeísmo primitivo até o monoteísmo sobrecar-
regado com p sacerdotalismo). 5) J é naturalmente posterior a E
(segundo todos os críticos até Graf); mas não, J é realmente an-
terior a E (Kuenen e Wellhausen).

A refutação mais completa da hipótese de Wellhausen que apa-
receu nos Estados Unidos no fim do século dezenove foi produzida
por William Henry Green de Princeton, nas suas obras Unity of
the Book of Genesis (Unidade do Livro de Gênesis) (1895) e Higher
Criticism of the Pentateuch (Alta Crítica do Pentateuco) (1896).
Com grande erudição e capacidade, demonstrou como a hipótese
era inadequada para explicar os verdadeiros dados do texto bíblico,
e como os critérios dependiam de bases ilógicas e autocontradi-
tórias.

Uma discussão geral das falácias da Teoria Documental, que
a tornam logicamente insustentável, se acha no Capítulo 8. Os
vários critérios para se comprovar a diversidade da autoria serão
debatidos com mais detalhes nos Capítulos 9 e 10. A refutação dos
argumentos específicos, no que diz respeito a livros individuais do
Pentateuco, se acha nos capítulos que tratam destes livros bíbli-
cos (caps. 14-18).

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.