17 de março de 2015

Gleason L. Archer - A autoria do Pentateuco

A AUTORIA DO PENTATEUCO

Capítulos 6 e 7 já traçaram o desenvolvimento das teorias dos
estudiosos liberais quanto à autoria do Pentateuco. Começando com o triunfo do deísmo na década de 1790, e continuando através da época do dialeticismo hegeliano e do evolucionismo darwiniano no século dezenove, o veredito tem sido contrário à autoria mosaica.

Segundo a crítica, as primeiras porções escritas daquela mistura
literária conhecida como Livros de Moisés, não tinham uma data
anterior ao nono ou oitavo século a.C. No século presente, algumas concessões têm sido feitas por alguns estudiosos, quanto à possibilidade de alguns fios de tradição oral terem sido oriundos de Moisés, mas quanto à forma escrita, a tendência tem sido fazer do Pentateuco uma obra pós-exílica. No geral, porém, a autoria mosaica não tem sido considerada como uma opção genuína para as pesquisas liberais do século vinte; aquela batalha fora travada e ganha no distante começo do século dezenove, e foram principalmente os edificadores da Teoria Documental que fizeram a obra
de banir Moisés para as brumas iliteradas da tradição oral. Baseando-nos na descrição breve do surgimento da Hipótese Documental que já foi dada nos dois capítulos anteriores, podemos agora
indicar, pelo menos de maneira superficial, as fraquezas e falácias
mais óbvias que invalidaram a totalidade da abordagem Wellhausiana desde sua própria incepção.

Fraquezas e Falácias da Teoria Wellhausiana



1. A Teoria Documental tem sido caracterizada por uma espécie sutil de raciocínio em círculos; tende a postular sua conclusão (“a Bíblia não é uma revelação sobrenatural”) como sua premissa básica (“não pode existir algo chamado revelação sobrenatural”). Aquela premissa, é claro, era um artigo de fé para toda a liderança intelectual ocidental na época do Iluminismo (l’Éclaircissement na França, die Aufklärung na Alemanha) do século dezoito; estava implícito na filosofia prevalescente do deísmo. Infelizmente, porém, tornou impossível qualquer consideração justa das
evidências apresentadas pelas Escrituras da revelação sobrenatural.

Além disto, tomou-se absolutamente obrigatório descobrir explicações racionalísticas e humanísticas para cada aspecto ou episódio
no texto das Escrituras que tem algo de milagroso ou que testifica
a manifestação de Deus. Mas esta tentativa de tratar objetivamente
com dados literários do ponto de vista de preconceito antisobrenaturalista se destinava ao fracasso desde o início. É como a tentativa
do daltônico de julgar as grandes obras-primas da pintura. A
primeira falácia, portanto, era petitio principii (tomar a questão
como provada).“

2. Alegava-ss que a teoria de Wellhausen se baseava na evidência do próprio texto, mas a evidência do texto é consistentemente evadida quando vai claramente contra as teorias. Por exemplo, os documentaristas insistiam, “Os livros históricos do Antigo
Testamento não demonstram que reconhecem a existência da legislação P ou do código mosaico escrito antes do fim do Exílio”. Quando veio a resposta a esta declaração, demonstrando que numerosas
referências à Lei Mosaica e às instruções P foram descobertas nos
livros históricos, veio da parte deles a réplica: “Ah, bem, estas referências são interpolações posteriores feitas por escribas sacerdotais que reeditaram estes livros depois do Exílio”. Isto quer dizer
que o mesmo corpo de evidência ao qual se apela para comprovar a
teoria, se rejeita quando entra em conflito com a teoria. Ou, em
outras palavras, cada vez que a teoria é desafiada pelos próprios
dados que ela alega explicar, então o time capacitado para eliminar
dificuldades, Redator e Interpolador Ltda., recebe a chamada de
socorro. Táticas ilusórias como estas dificilmente poderiam justificar a confiança e integridade dos resultados.

3. Os documentaristas pressupõem que os autores hebraicos
são diferentes de quaisquer escritores conhecidos em toda a história
da literatura pelo fato de só eles não possuírem a capacidade de empregar mais do que um nome para Deus; mais do que um só estilo
de escrita, seja qual for a diferença no assunto tratado; mais do
que um entre vários sinônimos da mesma idéia; mais do que um
tema típico ou círculo de interesse. Segundo estas teorias, um autor
único como (citando um exemplo brasileiro) Rui Barbosa não poderia ter escrito pesquisas literárias, como Ensaio sobre Swift, reportagens vivas e cintilantes da atualidade da época, como em Cartas da Inglaterra, e ainda a grande obra de polêmica religiosa, que é sua versão de “O Papa e o Concílio”. Se tivesse sido um hebreu antigo, decerto suas obras já teriam sido mutiladas, dentro
da hipótese das fontes múltiplas, A, B e C! A estrutura inteira
da divisão das fontes foi construída sobre pressuposições exclusivistas que não são demonstradas na literatura de nenhuma outra
nação e de nenhum outro período.

4. Preconceitos subjetivos se revelaram no tratamento das
Escrituras hebraicas como evidência arqueológica. Por demais freqüentemente a tendência tem sido considerar qualquer declaração
bíblica como sendo suspeita e indigna de confiança, embora que a
própria antiguidade do Antigo Testamento (mesmo pelas datas
atribuídas pelos críticos) deveria recomendá-lo para ser considerado como documento arqueológico. No caso de qualquer discrepância, na comparação com uma fonte pagã, mesmo sendo de data
posterior, automaticamente a informação pagã tem a preferência
como testemunha histórica. Quando não há outras evidências
disponíveis de fontes não israelitas ou de algum tipo de descoberta
arqueológica, então a declaração bíblica não é levada a sério a não
ser que possa ser encaixada com a teoria. Não faz diferença para
eles o grande número de informações bíblicas que, rejeitadas como
não históricas pelos peritos do século dezenove, têm sido confirmadas pela evidência arqueológica posterior (como a historicidade
de Belsazar, os Heteus e os Horeus), a mesma atitude de preconceito prejudicial contra a Bíblia tem persistido, sem a mínima
justificativa. (Seria uma ingenuidade supor que os relatórios pagãos do Egito, da Babilônia e da Assíria — em contraste com as
Escrituras hebraicas com seus elevadíssimos padrões morais —
eram livres de tendências propagandistas ou preconceitos partidários) . W. F. Albright tem o crédito de ter dirigido uma boa parte
dos seus esforços eruditos no sentido de reabilitar a reputação do
Antigo Testamento como registro do passado no qual se pode
confiar. Em numerosos livros e artigos, demonstrou, repetidas
vezes, que a narrativa Bíblica tem sido vindicada contra seus críticos, pela descoberta arqueológica recente.

5. A escola de Wellhausen começou com a mera suposição
(a prova da qual não tem sido alvo de muitos esforços da parte
deles) que a religião de Israel era de origem meramente humana como qualquer outra, e que precisava ser explicada como mero
produto da evolução. Não fazia diferença para eles que nenhuma
outra religião conhecida (a não ser aquelas que surgiram da fé
dos hebreus) tem chegado ao monoteísmo genuíno; os israelitas
também devem ter começado com animismo e politeísmo cru, exa-
tamente como as demais culturas antigas. A evidência esmagadora
em contrário, desde Gênesis até Malaquias, que a religião israelita
era monoteísta desde o começo até ao fim tem sido evadida nos
interesses dum dogma preconcebido: que não pode existir aquilo
que se chama religião sobrenaturalmente revelada. Por este mo-
tivo, todas as narrativas simples e diretas em Gênesis e no res-
tante da Torá que descrevem as experiências de Abraão, Isaque,
Jacó e Moisés têm sido sujeitadas a uma reanálise cínica, pro-
curando demonstrar que um retoque monoteístico foi aplicado
àqueles antigos dignitários politeístas pelos assim-chamados “Deu-
teronomistas” ou a escola Sacerdotal de épocas posteriores.

6. Quando, por meio de manipulação engenhosa do texto,
se produz uma “discrepância” ao interpretar uma passagem fora do contexto, não se aceita nenhuma explicação que reconciliaria
a dificuldade, mas, pelo contrário, a suposta discrepância precisa
ser explorada para “comprovar” diversidade de fontes. (Cf. a dis-
crepância que Pfeiffer imaginava ver (IOT 328) entre duas narra-
tivas do assassínio de Sísera. Segundo ele, Juizes 5:25-27 diz que
Jael o matou com seu martelo e estaca de tenda enquanto bebia
leite; Juizes 4:21 diz que o fez enquanto Sísera dormia. Na reali-
dade, 5:25-27 não, declara que estava bebendo no momento do
impacto, mas seria inútil dizer isto a Pfeiffer, pois já dividiu as
“narrativas discrepantes” entre J e E).

7. Embora as literaturas semíticas antigas demonstrem numerosas instâncias de repetição e de duplicação pelo mesmo autor
na sua técnica de narrativa, é somente a literatura hebraica que
não tem licença de empregar tais repetições ou reduplicações sem
trair uma autoria diversa. É instrutivo estudar a literatura sectária das cavernas de Cunrã, para perceber até que época os israelitas continuavam a empregar a repetição com o propósito de enfatizar. Por exemplo, compara-se placa I com placa IV do Manual de
Disciplina, onde os requisitos para se entrar na comunidade monástica são esclarecidos de tal maneira que convidaria os serviços
peritos do divisor de fontes documentárias.

8. Com auto-confiança altamente questionável, a escola de
Wellhausen presumiu que críticos europeus modernos, que não
têm em mãos nenhuma outra literatura antiga hebraica com a
qual possam fazer comparações (pelo menos, quanto ao período
bíblico), podem fixar a data da composição de cada documento,
com exatidão científica. Supõem também que podem ter a liberdade de emendar o texto ao substituir palavras mais comuns pelas
palavras raras ou incomuns preservadas no texto massorético, que
eles não entendem, ou que não acham cabíveis no contexto. Como
estrangeiros, vivendo numa época e numa cultura totalmente diferentes, se sentiam competentes para lançar no descarte ou reembaralhar frases ou até versículos inteiros quando seus conceitos ocidentais de consistência ou de estilo foram ofendidos.

9. Supuseram, além disto, que estudiosos vivendo 3.400 anos
após o evento pudessem (mormente na base de teorias filosóficas)
reconstruir com mais segurança a ordem dos acontecimentos da
época do que os próprios autores antigos (que viviam dentro de
600 ou 1.000 anos daqueles eventos, mesmo pelas datas avançadas
que os próprios críticos dão).
Em resumo, é muito duvidoso se a hipótese de Wellhausen mereça a posição de respeitabilidade científica. Há tantas alegações
forçadas para pleitear a causa, tantos argumentos em círculo, tantas deduções questionáveis tiradas de premissas não substanciadas,
que é absolutamente certo que sua metodologia nunca subsistiria
num foro jurídico. Quase nenhuma das leis de evidência que se respeitam em procedimentos legais se obedece entre os arquitetos
da Teoria Documental. Qualquer advogado que procurasse interpretar um testamento ou estatuto ou escritura de transferência
de propriedade pela maneira estranha e irresponsável destes críticos das fontes do Pentateuco, teria curto prazo para ver sua causa
rejeitada pela corte. Compare-se, por exemplo, esta declaração pelo
Juiz William Dixon, de Passadena, Califórnia, no caso duma constituição proposta para uma união entre igrejas (“Pilgrim Frontier”,
Junho 1960, p. 4): “É fato elementar que na interpretação dum
contrato escrito, todas as partes escritas devem ser lidas em conjunto, e cada parte interpretada com referência à totalidade, de
maneira a tornar eficaz em prol do propósito geral, cada provisão
ali contida”. “Decerto, este princípio é relevante até para as porções
não-legais das obras de Moisés. Se tivesse sido obedecido na análise do Pentateuco, a Hipótese JEDP teria sido uma impossibilidade.


Evidências Positivas da Autoria Mosaica


Depois de se considerar cuidadosamente todos os dados no
texto do Pentateuco, e depois de se pesar com justiça toda a evidência, tanto externa como interna, a impressão que a teoria da autoria mosaica é a única que melhor se condiz com os fatos é quase irresistível. Mas para o propósito duma avaliação conveniente, e sem
nos deter em demonstrações e ilustrações elaboradas nesta altura,
alistaremos as várias áreas de evidências que apontam para esta
conclusão.

A. O TESTEMUNHO DAS ESCRITURAS À AUTORIA MOSAICA

1. O próprio Pentateuco testifica que Moisés foi seu autor.
Acham-se estas declarações explícitas: Êxodo 17:14: “Escreve isto
para memória num livro... porque hei de riscar totalmente a memória de Amaleque de debaixo do céu”. Êxodo 24:4: “Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR..e versículo 7: “E tomou
o livro da aliança, e o leu ao povo..Êxodo 34:27: “Disse mais o
SENHOR a Moisés: Escreve estas palavras: porque segundo o teor destas palavras fiz aliança contigo e com Israel”. Números 33:1,2:
“São estas as caminhadas dos filhos de Israel ... Escreveu Moisés
as suas saídas, caminhada após caminhada, conforme ao mandado
do SENHOR”. Deuteronômio 31:9: “Esta lei escreveu-a Moisés e a
deu aos sacerdotes..e versículo 11: “Quando todo o Israel vier
a comparecer perante o SENHOR teu Deus, no lugar que este escolher, lerás esta lei diante de todo o Israel”.

2. Em outros livros do Antigo Testamento, achamos referências tais como estas: Josué 1:8: “Não cesses de falar deste livro
da lei; antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de
fazer segundo a tudo quanto nele está escrito...” (No v. 7 o livro
foi descrito assim: “toda a lei que meu servo Moisés te ordenou”.)
Josué 8:31: “Segundo o que está escrito no livro da lei de Moisés,
a saber: um altar de pedras toscas...” (i.é., Êxodo 20:25). No
v. 32: “Escreveu ali em pedras uma cópia da lei de Moisés, que este
já havia escrito diante dos filhos de Israel”. 1 Reis 2:3: “Guarda os preceitos do SENHOR teu Deus... como está escrito na lei de
Moisés...” (Aqui é Davi falando). 2 Reis 14:6 (fazendo referência ao rei Amasias): “Porém os filhos dos assassinos não matou,
segundo está escrito no livro da lei de Moisés, no qual o SENHOR
deu ordem, dizendo: Os pais...” etc. (citando Dt 24:16). (A data
deste episódio era ca. de 796 a.C.). 2 Reis 21:8 (fazendo referência
ao reinado de Manassé, 696-642): “contanto que tenham cuidado
de fazer segundo tudo o que lhes tenho mandado, e conforme toda
a lei que Moisés, meu servo, lhes ordenou”. Outras referências se
acham na narrativa do Antigo Testamento desde a época de Josias
em diante (quando, segundo a hipótese de Wellhausen, Deuteronômio já tinha sido publicado, e possivelmente J e E também). A Bíblia sempre atribui a autoria da Torá pessoalmente a Moisés. Tais
referências são: Esdras 6:18; Neemias 13:1; Daniel 9:11-13; Malaquias 4:4.

3. O Novo Testamento também testifica a autoria mosaica.

Além das numerosas referências à Torá pelo nome “Moisés”, selecionamos as seguintes citações que enfatizam a personalidade do
Moisés histórico. Mateus 19:8: “Por causa da dureza dos vossos
corações é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres...”
João 5:46,47: “Porque se de fato crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém,
não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”
João 7:19: “Não vos deu Moisés a lei? contudo ninguém entre vós
a observa”. Atos 3:22: “Disse, na verdade, Moisés: O Senhor Deus
vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a
mim...” (citando Dt 18:15). Romanos 10:5: “Ora, Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei, viverá
por ela” (citando Lv 18:5). É difícil compreender como alguém
pode aceitar a Teoria Documental (que Moisés não escreveu uma
palavra sequer da Lei) sem atribuir ou falsidade ou erro tanto a
Cristo como aos Apóstolos.


B. OUTRAS EVIDÊNCIAS INTERNAS


Agora passaremos das declarações diretas das Escrituras acerca da autoria mosaica do Pentateuco, para uma outra linha de
evidência, que é mais indireta, mas que, mesmo assim, não deixa
de ser quase tão constrangedora. O método mais objetivo de datar
a composição de qualquer documento escrito é examinar as evidências internas. Isto quer dizer que, anotando-se alusões incidentais ou casuais aos eventos históricos contemporâneos, a assuntos em pauta na época, à condições geográficas e climáticas, à flora e fauna (a vida vegetal e animal) então prevalecentes, à indicações de participação do autor como testemunha ocular, é
possível chegar-se a uma estimativa acuradíssima do lugar e da data
de composição. Julgando pelas evidências internas do Pentateuco
e do seu texto, somos levados à conclusão que o autor tinha residido
originalmente no Egito (e não na Palestina), que era testemunha
ocular do Êxodo e da peregrinação no deserto, que possuía altíssimo
grau de educação, cultura e perícia literária. Não há ninguém que
se conforme com estas qualificações tão exatamente como Moisés,
filho de Anrão. Aqui alistaremos um breve resumo destas evidências

1. Detalhes apropriados a uma testemunha ocular aparecem
na narrativa do Êxodo que indicam um participante real nos acontecimentos, mas que estão além do conhecimento dum autor vivendo séculos após os eventos. Por exemplo, em Êxodo 15:27, o
autor registra o número exato de fontes (doze) e de pálmeiras
(setenta) em Elim. Números 11:7,8 registra a aparência e paladar
do maná com o qual Deus alimentou Israel (sem dúvida para informar as futuras gerações vivendo na terra conquistada de Canaã,
onde, segundo Moisés sabia, não haveria maná).

2. O autor de Gênesis e Êxodo demonstra conhecer profundamente o Egito, conforme se espera de quem participou do Êxodo.

1) Conhece os nomes egípcios, tais como: a) On, o nome nativo
(’wnw em hieróglifos) de Heliópolis; b) Pitom, transliterando
Pr-;tm (“Casa de Atum” — um deus); c) Potífera, de P;-d’-p;-R’
(“Dádiva de Ra” — deus do sol); d) Asenate, de Ns־N't (“Favorita de Neite” — uma deusa), esposa de José; e) Moisés, de Mw-s;
(“Filho das Aguas”), ou possivelmente uma forma curta de Tot-
mose ou Amose (sendo que os egípcios freqüentemente recebiam
nomes de acordo com o Faraó reinante); f) o título de honra especial concedido a José por Faraó: Zaphenath-pa’nêah (Gn 41:45),
que provavelmente representa o egípcio df;w n t;p;’nh — “Nutridor da terra do (Faraó) vivo”. (Esta explicação de Sayce e Yahuda,
semelhante àquela de Lieblein, explica perfeitamente todas as
consoantes hebraicas: SPNTP’NH. Além disso, nomes compostos
com este mesmo df; foram comuns na época de José, segundo se
sabe. A interpretação favorecida por Mallon, Steindorff, Barton e
Albright: dd p; ntr 'w׳f ’nh — “o deus fala e vive” — implica em
maiores desvios das consoantes hebraicas e não faz um sentido
tão aplicável ao contexto da situação).

2) Emprega uma maior porcentagem de palavras egípcias do que em qualquer outra parte do Antigo Testamento. Por exemplo: a) a expressão ’abrék (Gn 41:43 — traduzida “Dobrem os joelhos!”) parece ser a palavra egípcia ’b rk (“Curva-te, ó coração!”)^ embora que muitas outras explicações têm sido oferecidas; b) pesos e medidas, tais como zeret (“palma”) de drt — “mão”; ,êphah (“décima parte do ômer”) de ,pt; ; hin (volume de quase quatro litros) de hnw; c) gõmê (“papiro”) de kmyt; d) qemah (“farinha”) de kmhw (um tipo de pão); e) shêsh (“linho fino”) de shsh “linho”; f) ye'õr (“Nilo, rio”) de ’trw — “rio” (que na língua cóptica fica eioor).

Uma das mais ambiciosas obras modernas que discute o pano de fundo egípcio da porção do Pentateuco que trata de José e Moisés no Egito é de Abraão S. Yahuda, The Language of the Pentateuch in its Relationship to Egyptian — “A Linguagem do Pentateuco na sua Relação ao Egípcio”, 1933. Não se confinando meramente a citar palavras emprestadas, Yahuda debate um grande número de expressões idiomáticas e características de linguagem
que são tipicamente egípcias na sua origem, apesar de terem sido
traduzidas para o hebraico. Assim, na expressão estranha de Gênesis 41:40, traduzida: “A tua palavra obedecerá todo o meu povo”, mas que literalmente diz: “Segundo tua palavra beijará (hb
nãshaq) todo o meu povo” — Yahuda acha um esclarecimento no uso egípcio de sn (“beijar”) que se emprega também com comida (“comer”). Os títulos dos oficiais da corte, a linguagem polida empregada nas entrevistas com o Faraó, e coisas semelhantes, são fiéis aos costumes egípcios, segundo a demonstração dada.

Outro escritor, Garrow Duncan, em New Light on Hebrew Origins — “Nova Luz nas Origens dos Hebreus” (1936), dedica as págs. 73-179 a uma demonstração da exatidão minuciosa e da autenticidade dos aspectos locais reveladas pelo autor da Torá. Observa: “Não podemos deixar de reconhecer que o escritor destas duas narrativas (i.é., de José e do Êxodo) ... estava totalmente a par da língua, dos costumes, das crenças, da vida na corte, da etiqueta e dos oficiais dos egípcios; não só isto, mas também seus leitores originais devem ter tido esta mesma familiaridade com assuntos egípcios” (p. 176).

Alguns eminentes egiptólogos de persuasão wellhausiana, apelaram à evidência egípcia para comprovar uma data avançada para a narrativa hebraica. Por exemplo, Steindorff (Aufenthalt Israels, p. 15) argumentou que um autor mais contemporâneo decerto teria conhecido e mencionado os nomes destes vários reis egípcios. Mas Yahuda oferece uma explicação plausível pelo fato de que as narrativas hebraicas não mencionam os nomes dos Faraós até a época
de Salomão e subseqüentemente. Quando os israelitas residiam no
Egito, simplesmente seguiam o costume normal da linguagem oficial do Reino Novo do Egito, chamando o rei simplesmente pr-’;
(“Faraó” = “Casa Grande”) sem mencionar seu nome ao lado
daquele título (por mais que seu nome pudesse ser mencionado ao
lado de outros títulos). Portanto, longe de ser um sinal de autoria posterior, esta conformidade aos usos e costumes da 18.a Dinastia
do Egito acaba sendo evidência forte em favor da data mosaica de'
composição.

Por outro lado, deve ser notado que no período posterior, por
exemplo no décimo século, o nome do rei do Egito se dá sem ser
precedido pelo título “Faraó” — ainda seguindo o costume egípcio
da sua época. Um exemplo é a referência a Sisaque (Egípcio
ShesLong) em 1 Reis 11:40. Só no fim do sétimo século e começo
do sexto é que o historiador hebreu se afasta do costume egípcio,
colocando o título “Faraó” ao lado do nome pessoal do rei; e.g.,
Faraó-Neco em 2 Reis 23:29 e Faraó-Hofra em Jeremias 44:30.

3. O autor da Torá demonstra um ponto de vista consistentemente estrangeiro ou extrapalestiniano quanto a Canaã. (1) As
estações e o tempo que se mencionam na narrativa são egípcios, não
palestinianos. (Cf. a referência da seqüência das ceifas na descrição
da praga da chuva de pedras, Êxodo 9:31,32. Delitzsch declara
que esta informação fixa o incidente exatamente no fim de janeiro e começo de fevereiro).
(2) A flora e fauna que se mencionam são egípcias ou sinaíticas, nunca distintivamente palestinianas. Assim, a sitim ou
acácia é originária do Egito e da Península do Sinai mas nunca da
Palestina (exceto na praia inferior do Mar Morto); é uma árvore
distintiva do deserto. Desta árvore, fazia-se a madeira para os
móveis do Tabernáculo. As peles a serem empregadas como cobertura exterior do tabernáculo teriam que ser peles de tahash (Êxodo
25:5; 36:19), estes “animais marinhos” como texugos que se
acham nos mares adjacentes ao Egito e ao Sinai, mas que são desconhecidos na Palestina. As listas de aves e animais puros e impuros em Levítico cap. 11 e Deuteronômio cap. 14 incluem alguns
que são específicos do Sinai (tais como o dishõn — “pigargo” de
Dt 14:5 e a avestruz de Lv 11:16), mas nenhum dos quais é exclusivo
de Canaã. O boi selvagem ou antílope (hb te’õ) de Deuteronômio
14:5 é nativo do Egito do norte e da Arábia, mas não da Palestina.

(Tem havido registros da sua aparência na Siria, segundo Westminster Dictionary of the Bible, p. 30a.) Neste assunto, o arganaz
(hb shãphãn) de Levítico 11:5 tem sido citado como sendo específico de Sinai e Arábia. Mas isto tem sido disputado por H. B. Tristram, que diz tê-los achado mais ao norte, até a Galiléia do Norte e
a Fenícia. Em todas estas instâncias específicas, naturalmente,
deve ser lembrado que a distribuição de animais tende a ser mais
restrita na passagem do tempo. Assim, houve certa abundância
de leões no Oriente Próximo em tempos antigos, mas hoje em dia
são limitados à índia e à África.

Quanto à geografia, o autor estava muito familiarizado
tanto com o Egito como com o Sinai. A narrativa do caminho do
Êxodo está repleta de referências locais autênticas que foram verificadas pela arqueologia moderna. Mas a geografia da Palestina
é comparativamente desconhecida a não ser pelas tradições dos
Patriarcas (nas narrativas de Gênesis). Mas, mesmo em Gênesis
cap. 13, quando o autor quer transmitir aos seus leitores alguma
impressão da verdura luxuriante da planície do Jordão, compara-a
à “terra do Egito como quem vai para Zoar” (v. 10). Semelhantemente, numa passagem atribuída a P (Gn 23:2), Hebrom recebe
seu nome anterior à época dos israelitas, Kiriate-Arba, e a data da
sua fundação é explicada aos leitores de Números 13:22 em termos
da data da edificação de Zoã no Egito (com a qual estavam familiarizados, segundo parece). Assim também há uma referência
a Siquém em Gn 33:18, declarando que “está na terra de Canaã” —׳
um tipo de referência que não pode ser explicada se o escritor tivesse
vivido na geração pós-exílica, depois de os israelitas terem passado
um mínimo de nove séculos na terra de Canaã. Em geral, o autor
do Pentateuco parece considerar a Palestina como sendo um territór io novo, comparativamente desconhecido, no qual os israelitas
vão penetrar numa época futura.

4. A atmosfera de Êxodo até Números é indubitavelmente a do deserto, e não dum povo agrícola estabelecido nas suas propriedades ancestrais há quase mil anos (segundo Wellhausen supunha).
A tremenda ênfase dada ao tabernáculo, uma grande tenda que
era o centro do culto, está completamente fora de propósito para
o caso de autores vivendo séculos depois da construção do templo
de Salomão (templo que, em muitos detalhes importantes, era diferente do Tabernáculo, especialmente na mobília). Mas seria completamente relevante para um povo nômade constantemente marchando pelo deserto. Os materiais da sua fabricação são cuidadosamente especificados no decurso de vários capítulos. Sua localização central, no meio do arraial, e a localização exata das doze tribos nos quatro lados ao derredor (Nm 2:1-31), são perfeitamente
apropriadas para a geração de Moisés, mas não se adaptam a nenhuma geração posterior. As referências ao deserto surgem a cada
passo. O bode expiatório deve ser enviado para o deserto (Lv
16:10). As instruções sanitárias são dadas para a vida no deserto
(Dt 23:12,13). A ordem da marcha se especifica em Números
10:14-20 duma maneira tal, que só teria significado enquanto a
população de Israel estava concentrada num grupo único, no processo de migração.

5. No livro de Gênesis mais especialmente, há referências a
costumes arcaicos cuja existência pode ser demonstrada para o período do segundo milênio a.C., mas que não existiam mais no primeiro milênio. Notavelmente nos documentos legais de Nuzi (onde
foram descobertos), datando do século quinze a.C., há referências ao
costume de gerar filhos legítimos através de servas (como Abraão
fez com Hagar); à validez dum testamento oral no leito de morte
(como aquele de Isaque para Jacó); à importância de se possuir
os terafins da família para se reivindicar a herança (que é a razão
de ser do furto dos terafins (= ídolos do lar) da parte de Raquel,
em Gn 31). De outras fontes, vem a confirmação da exatidão histórica da transação descrita em Gênesis 23, pela qual Abraão comprou a caverna de Macpela.

6. Há também arcaísmos significantes na linguagem. Por
exemplo, o pronome “ela” em hebraico é freqüentemente soletrado
HW’ em vez da forma regular HY\ Também encontramos N’R no
lugar da forma feminina N’RH — “moça jovem”. Ocasionalmente,
(i.é., duas vezes em Gênesis) HLZH- (hallazeh) aparece no lugar
de hallaz, o demonstrativo (“aquele”) que é a forma que aparece em Juizes, Samuel e subseqüentes. O verbo “rir” se escreve TSHQ em Gênesis e Êxodo, em vez de SHQ; “cordeiro” é KSB,
quando a forma posterior é KBS (kebes). Mas alguns estudiosos
argumentaram que há tão pouca diferença entre o hebraico da
Torá e o dos autores do oitavo século, tais como Amós, que não
há lugar para um intervalo de cinco séculos. Neste assunto, dois
fatores devem ser conservados em mente.

As possíveis mudanças na pronúncia e na forma são escondidas pelo alfabeto consoantal, sem vogais, no qual o Antigo
Testamento foi conservado até a época massorética. Afinal de
contas, até português e francês seriam bem semelhantes, removendo-se as vogais!
A importância central da Torá na educação dos jovens
depois da época de Moisés, deve ter tido uma influência no hebraico
que falavam, tão grande como aquela que o Alcorão tem tido sobre
treze séculos de árabe literário (que até hoje é essencialmente a
mesma língua que Maomé falava em 620 d.C.). Em ambos os
casos, o documento antigo forneceu uma revelação divina única,
e uma constituição que abrangia tudo, e sobre a qual a cultura
inteira foi edificada. Tal situação tende a produzir um conservadorismo extremo no desenvolvimento de linguagem literária.

Quanto à objeção de que o período mosaico tinha surgido cedo
demais para já haver o uso do artigo definido ha- (sendo que as demais línguas semíticas ainda não tinham desenvolvido o artigo tão
cedo assim), isto se explica facilmente pelo fato de que Israel tinha
sido exposto à influência do Egito. Foi justamente na 18.a Dinastia
do Egito que o artigo definido começou a aparecer até em textos literários (p;, t;, n;), mas até no período da 12.a Dinastia há ocorrências esporádicas em textos tais como “O Camponês Eloqüente”. Sem dúvida, isto refletia o costume do egípcio coloquial durante a época de Moisés, e os hebreus não poderiam ter deixado de perceber a necessidade de transportar o uso do artigo para sua
própria língua. Não é, portanto, de se estranhar o surgimento do
artigo empregado de maneira bem desenvolvida nas seções de prosa
da Torá (apesar do que as passagens poéticas fizeram pouco uso do׳
artigo — como foi também o caso da poesia hebraica posterior).

Todas estas características (1 — 6) se reconciliam facilmente
com a autoria mosaica; é quase impossível harmonizá-las com a
teoria de Wellhausen, de ter havido uma composição paulatina, etapa por etapa, do nono até o quinto século a.C. As leis da evidência exigem que se rejeite a Hipótese Documental, como sendo inadequada para explicar os dados existentes. Além disto, há ainda duas considerações que indicam, de maneira definidar a pessoa de Moisés.

7. Há uma unidade de arranjo bem marcante, que subjaz o
Pentateuco como um todo, vinculando todas as partes para produzir uma totalidade progressiva, embora os estágios sucessivos da
revelação (no decurso das quatro décadas da carreira de Moisés
como escritor) resultem num pouco de justaposição e repetição.
Por implicação, até os documentaristas foram forçados a reconhecer esta unidade, ao apelar para um redator hipotético que seria a
explicação da boa ordem e harmonia de arranjo da forma final da
Torá conforme chegou até nossa época.


C AS QUALIFICAÇÕES DE MOISÉS

Levando em conta tudo o que tem sido escrito acerca do próprio
Moisés, no Pentateuco, é evidente que este tinha todas as qualificações para ser o autor de alguma obra exatamente como o Pentateuco. (1) Possuía a educação e um passado apropriados para esta
obra, sendo que recebera dos seus antepassados aquela riqueza da
lei oral que teve sua origem nas culturas mesopotâmicas na época,
bastante recuada de Abraão (daí algumas semelhanças marcantes
ao Código de Hamurabi, do século dezoito a.C.); e dos seus tutores
na corte egípcia recebia treinamento naqueles ramos de sabedoria
nos quais o Egito da 18.a Dinastia superava o restante do mundo
antigo. (2) Dos seus antepassados, Moisés naturalmente teria recebido uma tradição oral exata da carreira dos Patriarcas e das
revelações que Deus lhes tinha feito. (3) Teria um conhecimento
pessoal do clima, da agricultura e da geografia dc Egito e da Península do Sinai tão patentemente demonstrado pelo autor do
Pentateuco. (4) Teria bastante incentivo à composição desta obra monumental, sendo que era fundador da Comunidade de Israel, e que estes seriam os alicerces morais e religiosos nos quais sua nação haveria de cumprir seu destino. (5) É certo que Moisés tinha bastante tempo, no decurso dos quarenta longos e enfadonhos anos da peregrinação no deserto do Sinai, para compor
uma obra até muitas vezes maior do que a Torá. Além disto,
acabara de sair do meio duma cultura na qual a arte da escrita
era tão largamente cultivada que até os artigos de toucador usados
pelas mulheres de casa tinham etiquetas gravadas. A escrita, tanto
em letras hieroglíficas como em letras hieráticas, era tão amplamente divulgada no Egito da época de Moisés, que parece absolutamente incrível que Moisés deixaria de registrar seus anais por escrito (que até os críticos do século vinte querem negar), sendo que Moisés tinha em suas mãos os assuntos mais grandiosos e significantes para serem registrados do que qualquer coisa que possa
existir em toda a literatura humana. Numa época na qual até os
escravos semíticos (sem o privilégio da cultura) empregados nas
minas egípcias de turquesa em Serabite el־Cadim estavam gravan-
do seus assuntos nas paredes dos seus túneis, é falta total de bom
senso supor que um líder da experiência e cultura dum Moisés seria
por demais iliterato para deixar por escrito uma única palavra.
Assim, acontece que as teorias modernas que rejeitam a autoria
mosaica impõem mais peso sobre a credulidade humana do que
se pode razoavelmente aceitar.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.