11 de março de 2015

Gleason L. Archer - A alta crítica do Antigo Testamento no Século Vinte

A ALTA CRITICA DO ANTIGO TESTAMENTO NO SÉCULO VINTE

Talvez a maneira mais útil e conveniente de apresentar as
tendências das pesquisas vetero-testamentárias entre 1890 e 1950 seja demonstrar o efeito das suas contribuições sobre a estrutura da hipótese Graf-Wellhausen. Por este motivo, a ordem seguida será mais de tópicos do que cronológica.

Conforme já indicamos, a maior parte dos estudos modernos
tem seguido os métodos da análise documentária, e as inovações
têm sido principalmente limitadas a isolar mais alguns “documentos”, além dos quatro já tradicionais pelo decorrer do tempo, JEDP.
Assim, por exemplo, Otto Eissfeldt na sua Hexateuchsynopse (1922) pensou perceber dentro de J uma fonte leiga (L) — mais ou menos equivalente ao J1 de Smend (Die Erzählung des Hexateuchs auf ihre Quellen untersucht — As Narrativas do Hexateuco Pesquisadas segundo suas Fontes, 1912) — um componente de J em prol do qual Walter Eichrodt argumentara com eloqüência (Die Quellen der Genesis — As fontes de Gênesis, 1916). Este Laienshrift, Escrito Leigo, conforme Eissfeldt chamou, refletia um ideal nômade,
recabita (cf. a referência a Recabe em 2 Reis cap. 10), que era completamente hostil à maneira de vida cananítica. Concluiu que L surgiu na época de Elias (ca. de 860) e conseguiu penetrar em Juizes
e Samuel também.


Algo semelhante a L era o novo Documento K (representando
“Queneu”) descoberto por Julius Morgenstern (The Oldest Document of the Hexateuch — O Documento mais antigo do Hexateuco, 1927), e que postulou como sendo a base das reformas do
rei Asa (ca. de 890), conforme se registra em 1 Reis 15:9-15. Até
Robert H. Pfeiffer (como já foi mencionado) anunciou na sua Introdução ao Antigo Testamento (1941) a descoberta de um Documento S (representando o Monte Seir, o marco mais proeminente de
Edom) que apareceu nas seções J e E de Gênesis 1-11 e também
nas porções J e E de Gênesis caps. 14 — 38. Supostamente, surgiu
no reinado de Salomão (ca. de 950) mas adições posteriores (feitas
entre 600 e 400 a.C.) formavam um S2. Temos, portanto, como re-
sultado da indústria dos seguidores de Wellhausen, as letras adi-
cionais K, L e S, na sua maior parte tiradas de J ou de E.

Na maior parte porém, a tendência dos estudiosos do século
vinte tem sido no sentido de repudiar a teoria Graf-Wellhausen, outotalmente  ou em parte. Para classificar estes ataques, arranjando-os de maneira sistemática, podemos imaginar a Hipótese Documentária simbolizada por um belo pórtico helenístico apoiado
por cinco pilares: 1) o critério dos nomes divinos Jahweh e Elohim)
como uma indicação de autoria diversa; 2) a origem de J, E e P
como documentos escritos separados, compostos em períodos diferentes de tempo; 3) a prioridade de J e E em ordem cronológica;
4) a origem separada de E, distintamente de J; 5) a origem de D
no reinado de Josias (621 a.C.). Vamos levar em consideração as
críticas lançadas contra cada um destes pilares, na ordem acima
mencionada.

Em Oposição a Validez dos Nomes Divinos como Critério de Fontes


A. Já em 1893 August Klostermann (Der Pentateuch) rejeitou a infalibilidade do texto massorético hebraico como meio de
transmitir os nomes divinos, e criticou seu uso como meio de identificar fontes documentárias. Mas o primeiro estudioso a fazer
uma pesquisa completa do relacionamento do TM à LXX foi Johan-
nes Dahse em “Textkritische Bedenken gegen den Ausgangspunkt
der Pentateuchkritik” (“Dúvidas texto-críticas contra o Ponto de
Partida da Crítica do Pentateuco”), numa edição de 1903 de Archiv
für Religionswissenschaft, (Arquivo para o Estado de Religião).

Aqui demonstrou que a LXX tem um nome não correspondente
(e.g., theos traduzindo Jahweh ou kyrios traduzindo Elohim) em
nada menos do que 180 instâncias. Isto significa que o TM não é
suficientemente infalível na transmissão textual dos nomes (ou
a LXX foi muito descuidada em traduzi-los) para servir como base
para uma divisão de fontes tão sutil e exata que os documentaristas
tem procurado fazer. (Este apelo à LXX era tanto mais danificante por causa do alto prestígio gozado pela LXX comparada com o
TM em assuntos de emendas textuais. Sendo que os documentaristas tinham feito tanto uso da LXX para “corrigir” o texto hebraico
original, era muito embaraçoso para eles serem desmascarados
como pessoas que pressupuseram ingenuamente a infalibilidade da
transmissão dos nomes divinos na Torá hebraica).

B. Na Inglaterra, um jurisconsulto judeu chamado Harold
M. Wiener começou uma série de estudos em 1909 que tratou da
mesma embaraçosa discrepância entre a LXX e o TM. Argumentou
que esta falta de certeza quanto ao nome correto, em tantas passagens diferentes, tornou impraticável e inseguro o emprego dos
nomes para os propósitos da divisãão das fontes. Wiener também
debateu as alegadas discrepâncias entre as várias leis da legislação
pentateucal, demonstrando que estas assim-chamadas discordâncias eram passíveis de fácil reconciliação, não exigindo nenhuma
teoria de diversidade de autoria.0 Insistiu na autoria mosaica essencial do Pentateuco, sem deixar de conceder que havia alguns
elementos não-mosaicos.

C. O eminente sucessor de Kuenen na Universidade de Leiden, B. D. Eerdmans, também reconheceu a força deste argumento
derivado da Septuaginta, e asseverou definidamente a impossibili-
dade de se empregar os nomes divinos como pista para separar
documentos (Die Komposition der Genesis — A Composição de Gênesis, 1908). Nesta mesma obra, atacou a divisão de fontes feita
por Wellhausen, de um ponto de partida inteiramente diferente
do das religiões comparadas. Achou que podia perceber o pano de
fundo primitivo e politeístico subjazendo muitas das sagas em Gênesis, indicando uma antiguidade de origem muito além de qualquer J de 850 a.C. ou E de 750 a.C. Até os elementos rituais incorporados em P eram muito mais antigos do que a codificação final
das leis propriamente ditas, sendo que refletiam idéias pertencendo
a um estágio muito recuado de desenvolvimento religioso. Os sacerdotes que fizeram a codificação incluiam provisões de tão grande antiguidade que eles mesmos já não compreendiam mais o seu
significado total.

Deve ser reconhecido que foi a época mosaica que deu origem a
muita coisa no ritual levítico, e não a era Exílica ou pós-exílica
(período preferido pelos documentaristas). Além disto, do ponto de
vista da crítica literária, a unidade fundamental das sagas de
Gênesis foi flagrantemente violada pela divisão artificial em fontes, praticada pela escola Graf-Wellhausen. Por este motivo, se retirou totalmente da escola Documental, e negou a validez da teoria Graf-Kuenen-Wellhausen, no prefácio da obra supracitada.

Achou que a primeira unidade escrita no Pentateuco era um Livro
de Adão, politeístico (começando em Gênesis 5:1) que surgiu algum tempo antes de 700 a.C. (embora, naturalmente, a tradição
oral na qual se baseava, era muitos séculos mais antiga). Mais
tarde, uniu-se a este livro uma outra obra politeística, chamada
por ele a “recensão israelita”. Mas depois da “descoberta” de Deuteronômio, estes escritos foram reeditados dentro duma interpretação monoteística, e depois do Exílio esta obra inteira recebeu
mais algumas expansões. Nesta alternativa à teoria Graf-Wellhausen vemos uma recrudescência da antiga teoria suplementar, combinada com uma dependência exagerada das técnicas de religiões
comparadas. Mas pelo menos foi demonstrado por Eerdmans como
eram tênues os resultados “assegurados” das pesquisas wellhausianas sob o impacto duma nova investigação dos dados do texto
hebraico. A reverenciada tríade de J, E e P já não estava tão
segura no seu pedestal.

D: O ataque de Sigmund Mowinckel, um estudioso norueguês,
contra a divisão em fontes JE, veio dum outro ponto de vista,
aquele da Crítica da Forma (ver a próxima seção). Em dois artigos
publicados na Zeitschrifth für Altertumswissenschft (Revista Ar-
queológica) (1930), negou a independência mútua entre as tra-
dições J e E, e também negou que E se originasse no norte de Israel.
Asseverou que E era simplesmente־ uma adaptação religiosa de J,
do ponto de vista duma escola judaística. As histórias de épocas
antigas contidas em E sempre dependem das narrativas contidas
em J, e que E freqüentemente emprega Jahweh como nome de
Deus. Nesta conecção negou que Êxodo 3:14 representasse a promulgação de Jahweh como um novo nome de Deus, mas ao contrário, pressupunha que o nome Jahweh já fosse conhecido aos
hebreus. (Em The Two Sources of the Pre-Deuteronomic Primeval
History in Genesis 1-11 — “As Duas Fontes da História Prístina
pré-deuteronômica em Gênesis 1-11”, 1937, demonstra por Js
24:2-4, uma passagem “E”, que o autor sabia que Abraão vivera
na Mesopotâmia, apesar de que a matéria da narrativa deste fato
em Gênesis 11 tivesse sido atribuída a J). Mowinckel concluiu que E
não era realmente um autor, era uma tradição oral que continuava
o mesmo corpo de matéria que já tinha sido registrada por escrito
em J. E então significaria um processo protelado no decurso de
longo período, entre a época de J ter sido escrito e o tempo da inserituração final da matéria E, depois da queda da monarquia judaica.

Contra a Origem de J, E e P como Documentos Separados

A. Hermann Gunkel se associava com Hugo Gressmann como
fundador da nova escola de Formgeschichte ou Crítica da Forma.
Suas contribuições mais importantes no campo da crítica do Pen-
tateuco foram: Die Sagen der Genesis (“As Sagas de Gênesis”),
1901; uma contribuição de cinqüenta páginas sobre a literatura
israelita antiga, para Die Kultur der Gegenwart (“Cultura Moder-
na”) de Hinneberg, publicado em 1906; e sua obra de 1911, Die Schriften des Alten Testaments, “As Escrituras do Antigo Testamento”.

A Crítica da Forma, segundo a formulação de Gunkel, man-
tém: 1) Que nenhuma história exata da literatura é possível para
o período mais antigo. As tentativas de reconstruir a seqüência
do desenvolvimento de documentos escritos entraram em colapso
sob o impacto dos dados contrários provindos dos próprios textos,
e realmente não temos nenhuma informação certa quanto a
estes documentos hipotéticos das teorias Graf-Wellhausen. 2) A
única maneira prática de se tratar da literatura do Pentateuco
é sintética e criativa (e não analítica e crítica, a maneira dos documentaristas), pela qual devemos definir os vários tipos de categorias (Gattungen) às quais a matéria original pertencia no seu
estágio oral, e então seguir o curso provável de desenvolvimento
de cada uma destas unidades orais até chegarem à forma final
escrita, que assumiram no período do Exílio ou depois. (Note-se
quão completamente esta abordagem oblitera as finas distinções
que Wellhausen fizera entre J, E e P.) 3) Como praticante dos
métodos da religionsseschichtliche Schule (a escola das religiões
comparadas), Gunkel deu muita atenção aos fenômenos paralelos
da religião e literatura dos vizinhos pagãos de Israel, onde o de-
senvolvimento de Gattungen (gêneros literários) podiam ser me-
lhor discernidos e ilustrados. À luz das matérias do Egito e da Me-
sopotâmia, seria possível, pensou ele, descobrir com certa precisão
qual era a situação de vivência (Sitz im Leben) de cada exemplar
destes tipos diferentes, e perceber através de quais processos foram
evoluindo na sua história subseqüente. Assim, Gênesis seria realmente uma compilação de sagas, na sua maior parte, e todas estas foram transmitidas numa forma oral mais ou menos fluida até se-
rem reduzidas à forma escrita num período posterior.

Observa-se que esta abordagem da Crítica da Forma lança a
análise JEDP no descarte, como sendo uma tentativa artificial e
não-histórica de análise, feita por homens que simplesmente nada
entendiam de como se originava a literatura antiga tal qual a Torá.
Medida na qual demonstra a artificialidade da análise em fon-
tes, da escola Wollhausen, a maneira de Gunkel tratar o Penta-
teuco representa um certo ganho para o ponto de vista conservador.
Além disto, merece crédito por ter reconhecido a grande antigui-
dade duma grande parte da matéria de tradição oral que subjaz
o texto da Torá.

Mas a suposição de Gunkel, que os livros de Moisés chegaram
à forma escrita só na época do Exílio, parece violar a evidência
cumulativa de que os hebreus eram altamente letrados desde o período de Moisés em diante. Era verdade que o primeiro fragmento de
hebraico escrito, na ordem cronológica, que até agora tem sido
desenterrado pela arqueologia, é um exercício escolar dum menino,
chamado o Calendário de Gezer (ca. de 925 a.C.), mas quase todos
os vizinhos de Israel estavam registrando todos os tipos de literatura em forma escrita, no decurso de muitos séculos antes da data
aqui mencionada, e mesmo os mineiros semíticos, classe sem privilégios, estavam rabiscando suas inscrições alfabéticas nas minas
de turquesa na Península do Sinai, já em 1500 a.C., ou talvez antes.
Até no ponto mais recuado da área de Canaã, em Ugarite no extremo norte, os contemporâneos de Moisés estavam registrando
suas escrituras pagãs em caracteres alfabéticos. Exige uma credulidade excessiva, acreditar que somente os hebreus estavam tão
atrasados que não sabiam registrar por escrito suas instituições
legais e religiosas mais importantes, até depois de 600 a.C. A própria narrativa do Pentateuco tem abundantes referências à escrita,
e Moisés é descrito como homem de letras. Mesmo o termo comum
para “oficial”, repetidamente empregado em Êxodo 5 (uma passagem “J”) e outras passagens do Pentateuco, é o hebraico shõttr, que derivado do verbo babilónico comum shatãru “escrever”. Este
aspecto da teoria de Gunkel parece ser cerceado por insuperáveis
dificuldades quando confrontado pela evidência.

Deve ser mencionado, além disso, que a literatura comparativa
do Oriente Próximo antigo torna altamente questionáveis algumas
das pressuposições da Crítica da Forma. Assim, a premissa teórica
da metodologia Gattungsforschung (pesquisa de gêneros literários) é procurar pequenos fragmentos e expressões esparsas, que então
seriam consideradas como sendo a forma original na qual se revestia a tradição oral na sua incepção. Mas numa obra egípcia tão
antiga como as Admoestações de Ipuwer (datada atualmente
em 2200 a.C.) lemos tiradas longas e extensas, e não as apotegmas
curtas e desconexas que a Crítica da Forma nos levaria a procurar.
Nos oráculos babilónicos também (conforme Sidney Smith indica
em Isaiah XL-LV, 1944, págs. 6-16) há longas passagens conexas.
Kenneth A. Kitchen diz no “Novo Dicionário da Bíblia” (p. 478a):
Os que praticam o método Formgeschichte “deixaram totalmente
de distinguir entre as funções complementárias da transmissão escrita (i.é., divulgando aos contemporâneos numa área extensa), e
confundiram ambas com o título “tradição oral”, erroneamente
ressaltando em demasia o elemento oral na transmissão no Oriente
Próximo”.

B. Em 1924, Max Lõhr publicou a primeira da sua série sobre
“Investigações do Problema do Hexateuco”, com o nome “Der
Priestercodex in der Genesis” (“O Código Sacerdotal em Gênesis”). Por meio dum estudo exegético minucioso das assim-chamadas passagens P em Gênesis, demonstrou que não se podia estabelecer nenhuma existência independente de tal fonte. Sua matéria estava
tão inextrincavelmente envolvida nas seções J e E que nunca poderia ter existido sozinha. Lõhr então foi um passo além, rejeitando
totalmente a análise Graf-Wellhausen, e chegou à conclusão que
o Pentateuco em geral foi composto por Esdras e seus assistentes
na Babilônia, fazendo uso duma coletânea heterogênea de matérias escritas, provindas do período pré-exílico. Estas matérias incluiam leis sacrificiais e outras diretrizes rituais, narrativas seculares e religiosas de vários tipos, e diversas profecias e listas
genealógicas. Mas estas matérias pré-escritas não seriam passíveis
de serem identificadas com quaisquer documentos extensos e específicos, como seriam os J e E de Wellhausen.

C. Em 1931, Johannes Pedersen, de Copenhagen, trouxe à
lume uma crítica radical da Teoria Documental, intitulada Die
Auffassung vom Alten Testament (“A Composição do Antigo Tes-
tamento”). Nesta obra, rejeitou a crítica de fontes wellhausianas,
como sendo inadequada para explicar e descrever a cultura dos
antigos hebreus. Levantou quatro pontos específicos.

1. Em tais histórias J e E como as comunicações entre Jahweh
e Abraão, o ciclo de histórias de Sodoma, a narrativa de Jacó e de
Esaú, o episódio de Tamar e Judá — todos os históricos deste tipo são muito mais antigos do que as datas de 850 e 750 que os documentaristas dão, e ao mesmo tempo muito mais recentes, i.é.,
contemporâneas com as contribuições sacerdotais).

2. Precisa ser dito que em geral J e E não podem ser mantidos como narrativas separadas sem impor artificialmente um
ponto de vista ocidental sobre as técnicas de narrativas semíticas
antigas e sem violentar a psicologia israelita.

3. No Documento D é impossível perceber uma nítida distinção (que é o que os documentaristas procuravam fazer) entre
elementos mais antigos e mais recentes. Pelo contrário, a tendência
anticananita que percorre Deuteronômio demonstra que o livro
é o produto de condições pós-exílicas (pois só depois da volta é
que poderia ter surgido uma comunidade israelita tão unida e
auto-suficiente como aquela descrita em D). Isto quer dizer que
precisaremos abandonar a data mais antiga postulada pela composição de Deuteronômio, à data do reinado de Josias.

4. Quanto ao Documento P, demonstra sua composição pósexílica com bastante clareza por causa do seu arranjo esquematizado e pelo seu estilo de dicção; mas, por outro lado, contém muitas regulamentações legais que pressupõem condições pré-exílicas. Isto é
particularmente verdadeiro no que diz respeito às leis sociais. Em
outras palavras, todas as “fontes” da Torá são ao mesmo tempo
pré-exílicas e pós-exílieas. Não há maneira de se descobrir o documento de 850 a.C. e o de 750 a.C. que Wellhausen procurou isolar
na matéria mosaica. Só podemos conjeturar que o núcleo mais
primitivo da Torá era a saga de Moisés e a lenda da Páscoa contida
em Êxodo caps. 1 — 15.

D. Em 1945, em Uppsala, Suécia, surgiu uma obra escrita
por Ivan Engnell chamada: Gamla testamentet, en traditionhistorisk inledning (“O Antigo Testamento, uma Introdução Tradicionalistórica”), que seguiu mais ou menos fielmente a linha que
Pedersen escolhera. Engnell corajosamente condenou a estrutura
wellhausiana de crítica, como sendo um ponto de vista moderno e
anacrônico de literatura, uma interpretação puramente artificial
feita em categorias modernas que não se aplicam à matéria semítica antiga. Asseverou que um tratamento adequado desta literatura hebraica exigiria um rompimento radical com aquela abordagem no seu todo. Depois levantou os seguintes pontos:

1. Nunca houve documentos paralelos e contínuos de origem
anterior dos quais a Torá foi finalmente composta na sua forma
pós-exílica.

2. A evidência da LXX demonstra que é inseguro o critério
dos nomes divinos para dividir as fontes; e mesmo as fontes escolhidas por Wellhausen não são de modo algum consistentes no
seu emprego dos nomes de Deus. Devemos entender que a explicação verdadeira do emprego destes nomes deve ser procurada no
próprio contexto no qual ocorrem, pois é o contexto que determina
qual dos nomes é o mais apropriado.

3. Ao invés de ser considerado como tendo surgido de Judá,
Deuteronômio sugere mais fortemente um pano de fundo de Israel
do Norte. É muito improvável que D pudesse ter sido composto no
templo de Jerusalém.

4. A unica divisão certa que se pode fazer da matéria do
Pentateuco é a) uma obra P que se estende de Gênesis até Números
e que evidencia características que indicam uma escola de tradição tipo P; b) uima obra D (Deuteronômio até 2 Reis) que demonstra um estilo diferente de tratar os fatos, e indica um círculo definido de tradicionalistas tipo D. A matéria legal de Êxodo até
Números teve sua origem das funções dos vários santuários locais,
de emitir oráculos e decisões jurídicas, onde algumas tradições
antigas escritas foram cultivadas ao lado da tradição oral. Gênesis é composto dum ciclo abraâmico, um ciclo jacóbico e um complexo
sobre José. As análises que Gunkel fez das histórias individuais e
dos ciclos de lendas merecem confiança. Originalmente eram lendas de culto vinculadas a diferentes santuários. Sem dúvida, o livro
da aliança (Êx 20:23-23:19) era uma coletânea deste tipo; Êxodo
34:17-26 (o assim-chamado Decálogo Ritual) era outra; e o Código de Santidade (Lv caps. 17 — 26) representa ainda outro complexo. P. representa talvez uma tradição sulina, enquanto a obra
deuteronômica (Deuteronômio até 2 Reis) representa uma tradição nortista embora a forma final que foi imposta sobre ela reflita
o ponto de vista dos que queriam que o culto fosse centralizado em Jerusalém.

5. A tradição oral desempenhou um papel saliente em tudo
isto até que foi reduzida, finalmente, à forma escrita. Temos que
tratar, portanto, não com fontes escritas e seus redatores, mas com
unidades de tradição oral, círculos de tradição, e escolas dentro
destes círculos de tradições. Documentos escritos contínuos necessariamente teriam exibido diferenças consistentes de estilo, e
constantes puramente lingüísticas que ocorreriam somente no documento em pauta. Mas a situação é que não se pode perceber
distintivas consistentes deste tipo, e aquelas que os documentaristas alegam ter descoberto só podem se manter através de artifícios
que tomam a questão como provada, tais como redatores, glosas e
emendas posteriores. (Isto naturalmente implicava em considerar
como indigna de confiança a elaboração de listas de palavras e
tabelas, tais quais se acham em ILOT, de Driver).

E. Outro escritor interessante que talvez possa ser incluído
neste grupo é Wilhelm Moeller, que era originalmente um aderente convicto da escola wellhausiana. Mas depois de reexaminar
cuidadosamente a evidência, impressionou-se com a insuficiência
da Hipótese Documentária à luz dos dados atualmente conhecidos.
Seu primeiro ataque foi publicado em 1899 com o título (em alemão) “Considerações Histórico-críticas em Oposição à Hipótese
Graf-Wellhausen, por um Aderente Anterior”. Um assalto mais
poderoso apareceu em 1912: Wider den Bann der Quellenscheidung
(“Contra a Maldição da Divisão das Fontes”). Aqui demonstrou a
fraqueza dos argumentos em prol da Hipótese Documental, e argumentou, de maneira irresistível em prol da unidade do Pentateuco. Na sua obra de 1925, Rückbeziehungen des fünften Buches
Mosis auf die vier ersten Bücher — “Referências feitas no Quinto
Livro de Moisés aos Quatro Anteriores”, demonstrou que Deuteronômio contém numerosas referências de Gênesis até Números, que
pressupõe-se existiam antes de Deuteronômio ser composto, e que o autor os tinha disponíveis. Mas talvez Moeller não deva ser
alistado com estes outros críticos, sendo que suas investigações o
levaram de volta à posição da igreja cristã histórica no que diz
respeito à autoria do Pentateuco, e se tornou, portanto, um ade-
rente à causa conservadora. Todos os demais, é claro, eram (ou são) liberais.


Em Oposição à Prioridade de J a E


A. Na sua obra, escrita em 1920, entitulada Deuteronomy
and the Decalogue, R. H. Kennett propôs o argumento que E era
realmente o mais antigo dos documentos escritos, e não J, e que
E foi composto cerca de 650 a.C. para a população mista ou híbrida
do Israel Setentrional (subseqüentemente à deportação das dez
tribos em 722 a.C.). J foi escrito algumas décadas mais tarde, na
área de Hebrom, como tipo de golpe contrário às reformas de Josias
(com sua insistência que somente era legítimo o templo de Jerusalém); sua data seria 615 a.C. Este J seria provavelmente o documento referido por Jeremias (“A falsa pena dos escribas a converteu em mentira”, 8:8).

B. Vai sem dizer que os pontos de vista de Pedersen (pág.
104) pertencem também a esta divisão, pois, se todas as matérias
do Pentateuco são posteriores ao Exílio na sua forma final, não
se pode mais falar da prioridade de J a E. O mesmo se aplica a
Engnell (pág. 105). Se o livro de Gênesis inteiro foi composto de
ciclos de lendas preservados nos vários santuários locais, e se todo
o livro de Êxodo, de Levítico e de Números pertence a uma escola
P de tradição, então não sobra lugar para um J antes de E, nem
para qualquer J ou E escrito e separado em hipótese alguma.

Em Oposição a Existência Independente de E como Documento
Posterior a J

A. Paul Volz e Wilhelm Rudolph cooperaram em 1933 na
publicação dum estudo entitulado: Der Elohist als Erzähler: em
Irrweg der Pentateuchkritik? (O Eloísta como Narrador: Caminho
Errado na Crítica do Pentateuco?). Depois de reexaminar cuidadosamente as passagens E, estes estudiosos chegaram à conclusão
que realmente não havia nenhum fundamento realmente válido
para se distinguir uma fonte E, separada e coerente. Estas passagens seriam realmente partes de J, ou suplementos a J. Volz propôs
a abolição do conceito de J e E como fontes separadas, voltando a
uma idéia semelhante à Hipótese Suplementária antiga. Em Gênesis temos um único narrador (J) e E não era nada mais do que
um redator posterior desta obra J, que talvez interpolou algumas
seções dele mesmo. Quanto a P, nenhuma história emana dele;
apenas registrava a legislação e compunha as seções de doutrina,
tais como Gênesis 1 e 17.

B. A contribuição de Mowinckel (pág. 101) pode ser classificada também aqui. Para ele, E não seria um documento separado
de J, mas simplesmente uma adaptação religiosa judaística da matéria jeovística. E seria mais um processo do que um documento.
Semelhantemente, a abordagem de Pedersen (p. 104) envolvia uma
negação total da existência separada de J e E. Ambas representam
matéria oral que remonta até as épocas mais antigas, e juntamente
recebiam sua forma escrita depois da volta do Exílio.

Em Oposição a Data Josiânica do Deuteronômio

Desde que De Wette identificou Deuteronômio como sendo o
Livro da Lei que foi descoberto por Hilquias no templo e lido a
alta voz perante o rei Josias em 621 a.C., a data josiânica ae D foi
considerada a mais segura de todos os “resultados assegurados das pesquisas modernas” pelos seguidores da escola wellhausiana. Conforme o próprio Wellhausen declarou na sua Prolegomena (1885, p. 9): “Quanto à origem do Deuteronômio há ainda menos disputa;
em todos os círculos onde se pode aguardar a devida apreciação de
resultados científicos, reconhece-se que foi composto na mesma época em que foi descoberto, e que veio a ser a regra para a reforma
de Josias, que foi efetuada cerca duma geração antes da destruição
de Jerusalém pelos caldeus”.

Contra o pano de fundo desta confiança, seria interessante
comparar o tratamento da data josiânica (tão fundamental à Hipótese Documental inteira) dado pelos críticos do século vinte, desde 1919 em diante. Alguns destes revoltosos mudaram a data
da origem de D a um período muito antes de 621 a.C., e outros
preferiram transferi-la à época pós-exílica. Mas ambos os grupos
foram unânimes em condenar a data josiânica como׳ sendo totalmente inconcebível tendo em vista os dados do próprio texto, e as
condições que, segundo se sabe, prevaleciam naquele período.

Críticos que Preferem uma Data Anterior para Deuteronômio

1 Em 1919, Martin Kegel produziu Die Kultusreformation
des Josias (“A Reforma do Culto por Josias”), dando seus motivos
em considerar que a data 621 a.C. não era sustentável para D. Sendo que até os líderes influentes (tais como os sacerdotes dos lugares altos e a nobreza que apoiava a idolatria) não levantaram
o debate quanto à autenticidade de Deuteronômio como obra genuína do grande legislador Moisés (apesar de possuírem toda a motivação para desafiar sua autenticidade), segue logicamente que
D deve ter sido um livro muitíssimo antigo na época de Josias, e
decerto foi reconhecido como tal. (Kegel até se inclinava a duvidar
que o Livro da Lei assim descoberto fosse só Deuteronômio; sentia
que a evidência apontava na direção de se incluir todas as outras
partes do Pentateuco que já existiam por escrito).

A. Em 1924 Adam C. Welch de Edinburgo produziu The Code
of Deuteronomy (“O Código do Deuteronômio), indicando que “a
lei do santuário único” teria sido completamente impraticável no sétimo século a.C., pois não refletia as condições então prevalecentes. Além disso, demonstrou que muitos dos regulamentos legais
em D eram por demais primitivos em sua natureza para se enquadrarem na monarquia judaica posterior. Longe de demonstrar uma
origem judaica, algumas das leis indicariam uma origem de Israel
do Norte. Seria, portanto, muito mais justificável considerar a
época de Salomão (décimo século a.C.) como sendo aquela na qual
o núcleo principal, no mínimo, da legislação deuteronômica foi registrado por escrito. Só um trecho seria uma interpolação atribuível à época de Josias, e este era uma passagem que exigia o uso
do santuário central, e que Josias empregou como sanção do seu
programa de reforma: Deuteronômio 12:1-7. A finalidade primá-
ria deste livro, na sua forma original, era purificar o culto em todos
os santuários locais, e assim combater a influência contaminadora
da teologia e prática cananita.


B. Na década seguinte, uma série de artigos surgiu da pena
de Edward Robertson no Boletim da Biblioteca John Rylands, em
1936, 1941, 1942 e 1944, defendendo a tese que na época da conquista os hebreus devem ter entrado na Palestina como comunidade
organizada, possuindo o núcleo duma lei, incluindo-se o Decálogo e
o Livro da Aliança (Êxodo caps. 20 — 23). Depois de se estabelecerem em Canaã, separaram-se em várias comunidades religiosas, cada
uma com seu santuário especial. Estas várias tradições locais da Lei Mosaica foram combinadas por Samuel (cf. 1 Sm 10:25) quando a monarquia unida estava para ser estabelecida. Este pano de
fundo dá uma explicação satisfatória pelos elementos divergentes
e pelas inconsistências na matéria básica do Tetrateuco. Quanto a Deuteronômio, foi composto um pouco mais tarde, cerca de 1000 a.C., para cimentar a nova unidade política. Esta obra foi então
perdida, e não foi redescoberta até o reinado de Josias.

Críticos que Preferem uma Data Posterior para Deuteronômio

A. A obra de R. H. Kennett “Deuteronômio e o Decálogo”
já foi mencionada na pág. 107. Segundo sua tese, a legislação de D
pressupõe não somente a existência de J e E, mas também H (que,
segundo o esquema de Wellhausen não surgiu até 570 a.C., sob
a influência de Ezequiel). Isto é especialmente o caso de Dt cap.
12. A inferência, portanto, é que D não pode ter sido anterior ao
período pós-exílico. (Segundo Kennett, a ordem dos documentos
era EJHDP, i.é., E — 650, J — 615, H — 570, D — 500, P — 450.
Compare isto com a ordem JEDHP de Wallhausen.).

B. Em 1922 Gustav Hölscher produziu Komposition und
Ursprung des Deuteronomiums (“A Composição e Origem de Deu-
teronômio”). Nesta obra, Hölscher declara bem decisivamente que
D não poderia ter sido o Livro da Lei que Hilquias descobriu. A
legislação característica de Deuteronômio não se conforma de maneira alguma com as condições contemporâneas que prevaleciam
na época de Josias. Por exemplo, impor uma lei do santuário único
teria sido um idealismo completamente impraticável antes da tragédia da queda de Jerusalém e a restauração dos exilados da Babilônia para fazer um novo começo na terra. No decurso dos séculos
antes do Exílio, como é que um reformador visionário poderia seriamente pensar que comunidades inteiras em Israel, que tinham
abraçado a prática de adoração de ídolos, ou a adoração de Jeová
com imagens, poderiam ser mortas ao fio da espada, pelo governo
central (que é o que Deuteronômio caps. 13 e 17 exigiu) ? Os livros
dos Reis e Crônicas testificam o fato que quase todas as municipalidades em Judá foram contaminadas com este tipo de idolatria,
inclusive a própria cidade de Jerusalém.

Não teria ocorrido à mente dum legislador, depois de a população de Israel ter-se estabelecido em todas as partes do território
da Palestina, desde Dã até Beer-Seba, promulgar um decreto pelo qual todos os habitantes masculinos teriam que abandonar seu lar
e sua fazenda por vários dias e semanas cada vez, nada menos do
que três vezes ao ano, só para participar de ritos religiosos em algum
santuário central. A única conclusão razoável que se pode tirar
é que Deuteronômio foi codificado quando o remanescente dos judeus sob Zorobabel e Jesua acabou de chegar para povoar de novo
a terra. (Neste momento, seria apropriado sugerir que se Deuteronômio realmente aponta tão claramente a uma época na qual
os hebreus tinham chegado recentemente para povoar a terra,
e quando ainda formavam um agrupamento estreitamente unido,
então estas especificações concordam admiravelmente com a cronologia e o pano de fundo que o próprio livro de Deuteronômio define
em 1:1-4, isto é, quando todo o povo de Israel estava unido nas
planícies de Moabe pouco antes da Conquista, cerca de 1400 a.C.
Mas Hölscher nem sequer levanta esta possibilidade).

C. Johannes Pedersen (cf. p. 104) concordava com esta conclusão de Hölscher, em linhas gerais. Achava que o espírito de animosidade contra estrangeiros que prevalecia na época de Zorobabel
e de Neemias seria a origem da tendência difundidamente anticanaanita de Deuteronômio. (O que Pedersen semelhantemente deixou de considerar, é a possibilidade que tal espirito anticananita
caracterizou a época de Moisés e Josué, quando a totalidade da
cultura corrupta dos canaanitas jazia sob a condenação divina).
Como se pode caracterizar a tendência dos estudiosos do século vinte, no seu trato da crítica do Pentateuco e da hipótese de
Wellhausen? No mínimo, precisa ser considerado um período de
reação contra a estrutura compacta e bem fechada erigida pela
Teoria Documental do século dezenove. Quase todos os pilares que
a apoiavam foram sacudidos e esmigalhados por uma geração de
estudiosos que foram criados dentro da teoria Graf-Wellhausen, e
que acharam que é insuficiente para esclarecer a data do Pentateuco. Ao mesmo tempo, precisa ser reconhecido que, na sua maior
parte, mesmo os estudiosos que rejeitaram Wellhausen não demonstraram nenhuma tendência de abraçar um ponto de vista mais
conservador quanto à origem dos livros de Moisés. Minaram as defesas e derrubaram os baluartes que protegiam a Hipótese Documental, mas chegaram a gravitar marcadamente na direção de
posições ainda mais implausíveis do que as defendidas por seus
predecessores. Apesar da analogia dos vizinhos e contemporâneos
pagãos de Israel (que incorporavam suas crenças religiosas em escrituras feitas muito tempo antes da época de Moisés), os hebreus
nunca chegaram a inscrever os relatórios da sua fé antes de
500 a.C. ou ainda mais tarde, segundo os críticos. Se um pesquisador surge com tal conclusão, demonstra ter uma tremenda vontade de crer no improvável.
Encerraremos citando um trecho muito aplicável de H. F
Hahn: “Este passar em revista das atividades do campo de crítica do Antigo Testamento no decurso do último quarto dum século revelou um caos de tendências em conflito, produzindo resultados contraditórios, criando-se uma impressão da ineficácia deste
tipo de pesquisa. Parece inevitável a conclusão que a alta crítica
já há muito passou do tempo de realização construtiva”.


Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.