26 de março de 2015

Gerard Van Groningen: A Fonte do Conceito Messiânico - O Caráter Profético da Revelação Messiânica

O Caráter Profético da Revelação Messiânica

A Bíblia, como o registro escrito da revelação e da relação pactual de Deus com a humanidade, tem um profético caráter. Para uma compreensão adequa­da desse fato é bom, a esta altura, fazer um breve exame da idéia bíblica de profecia. (Para um estudo acadêmico, ver os caps. 13 e 14). Várias fontes estão disponíveis para um estudo pormenorizado da profecia.[1]

O termo profecia tem vários significados ou gradações de significado. É preciso dar atenção cuidadosa a cada vim deles.

Toda profecia bíblica é revelação porque tem sua fonte última em Deus. Daí, a profecia bíblica não deve nunca ser confundida com a previsão, prognosticação, e antecipação humanas, ou com o julgamento baseado no cálculo ou na observação da continuidade das leis ou processos naturais. Além disso, a profecia bíblica não é "instrução religiosa", especialmente se essa instrução começa após sentir-se a sua necessidade.[2] A ênfase tomar-se-ia antropocêntri­ca, em vez de teocêntrica. A profecia bíblica é divina em sua origem. Ela é, por assim dizer, uma parte do autodesvelamento de Deus como Deus do pacto.

Pode ser dito também que toda revelação bíblica pode em alguma medida ser designada como profecia. Afirmando-se isto, entretanto, é preciso imediatamente fazer algumas qualificações. A revelação bíblica é propriamente designada como profética somente quando o termo é empregado dos seguintes modos:

Primeiro, a auto-revelação de Deus como um Deus do pacto é profética no sentido de que tudo o que está registrado na palavra escrita é uma real mensagem divina. É evangelho. Fala do Deus soberano que se dá a si mesmo livre e plenamente para a salvação, restauração, paz e alegria da humanidade.

Segundo, a auto-revelação de Deus pode ser designada como profética no sentido de que tudo o que ela inclui é dado, interpretado e aplicado divinamente. Todos os aspectos da revelação divina — por exemplo, os relatos históricos do povo, o registro de atitudes obedientes ou desobedientes, as próprias manifestações divinas de ira, as relações incompreensíveis com na­ções — são aspectos significativos das relações pactuais de Deus com a huma­nidade. Tudo é revelatório e, portanto, pode ser chamado profético.

Em terceiro lugar, a auto-revelação de Deus pode ser dita profética uma vez que vem como uma proclamação divina revestida de autoridade a respeito de Deus, de sua vontade e de seu tratamento com o cosmos que exige resposta humana. Na verdade, naquilo em que a revelação de Deus é proclamativa, dirigida a pessoas de todos os tempos e em todos os lugares, ela é profética.

E importante destacar que nem toda revelação bíblica é profética.

Primeiro, nem toda auto-revelação de Deus pode ser designada como promessa. Mas, a promessa está, não obstante, no próprio coração da profecia. Quando Deus se revela em suas relações pactuais com a humanidade há um dirigir dos olhos, da mente e do coração dos homens para o futuro. Deus coloca especificamente realidades futuras diante dos indivíduos. É isto que a promes­sa é. Entretanto, designar cada parte da revelação de Deus como promessa é excedesse. Realmente, os aspectos todos estão relacionados com a promessa, mas nem todos os aspectos são parte da promessa.[3]

Segundo, nem toda revelação bíblica é previsão. Prever é tomar acessível o futuro em suas linhas gerais, apontar seus aspectos principais, seus contornos, movimentos, efeitos e a realização de metas. Realmente, é abusar do óbvio dizer que muito material, embora relacionado indiretamente com uma era futura, não fala dela diretamente.

Terceiro, nem toda revelação bíblica é preditiva. Predição refere-se a coisas específicas — o que vai acontecer, quem estará envolvido e em que tempo (p. ex., os setenta anos do exílio). Predição acrescenta certeza e segurança em relação ao futuro.

Quarto, Deus comunicou-se com seu povo por outros meios além de palavras. Ele revelou realidades presentes e futuras por meio de símbolos. Se um símbolo é usado para se referir só ao presente e não ao futuro, ele é um meio de revelação, mas não revelação profética no sentido em que esta aponta específica e concretamente para uma realidade futura. Em outras palavras, os tipos eram proféticos na medida em que "prometiam", "previam" ou "predi­ziam" o futuro. Se um símbolo era um meio de comunicação somente para um dado tempo, poderia ser referido como profético em um sentido geral, isto é, como transmissor de uma determinada mensagem.

Quinto, a auto-revelação de Deus é profética no sentido em que é sempre escatológica. Comunicações e feitos de Deus dirigidos ao povo do pacto são orientados para o futuro. Deus tem um plano; Ele tem um alvo. O tempo da consumação está estabelecido. Cada parte tem um papel no desenvolvimento para com o alvo de Deus e a realização do mesmo. Na verdade, todos os aspectos operam juntos, numa variedade de tempos e modos, para atingir o aperfeiçoa­mento da relação pactual de Deus com seus vice-regentes criados, redimidos e restaurados. Assim, toda a revelação, ainda que não se saiba em que sentido é considerada profética, é significativa dentro do contexto do reino sempre pre­sente de Deus, e é significativa de algum modo para o conhecimento, o fortale­cimento e o gozo do laço de vida e amor pactuais que liga Deus a seu povo.

Concluindo este breve exame da profecia bíblica, resta ser destacado um ponto importante, a saber, que a revelação messiânica é profética em todos os sentidos discutidos acima. O conceito messiânico revelado é uma especial mensagem, é evangelho. É interpretada e significativa. É também uma procla­mação autorizada. É uma promessa. É anunciada de antemão. É predição. É tipológica. É escatológica. A revelação messiânica é, para resumir, o próprio coração da auto-revelação pactual de Deus. É a camada central do registro escrito dessa revelação da relação pactual entre o Deus soberano e seus vice- regentes criados, redimidos e restaurados.






[1] Charles A. Briggs, Messianic Prophecy, 8* ed. (New York: Scribner, 1902). O subtítulo é: "A Predição do Cumprimento da Redenção por meio do Messias". Ele dedica o cap. 1 à profeda hebraica (pp. 1-33) e o cap.2 à profecia preditiva (pp. 34-66). 

Alíred Edersheim, Prophecy andHistoryin Relation to theMessiah (reimpressão. Grand Rapids: Baker, 1980), dedica três capítulos à profecia e refere-se a ela extensivamente através dos outros nove capítulos. 

E. Rheim, Messianic Prophecy-f trad. de J. Jefferson (Edimburgo: T. & T. Clark, 1876), discute a idéia de profecia através de todo o seu livro, mas não separadamente. Em sua introdução, refere-se à profecia messiânica como sendo profecia preditiva. 

Paton G. Gloag, TheMessianicProphedes(Ediwb\iTgo: T. &T. Clark/1879), dedica uma de suas sete preleções Baird à profecia. Ele quer particularmente distinguir profecia preditiva da predição natural humana (pp. 9-13), e profeda bíblica da dos oráculos pagãos (pp. 13-16). Dá ênfase ao elemento sobrenatural e ao método de comunicação divina implicado na profecia bíblica. 

Em contraste com estes estudiosos do fim do século XIX, Sigmund Mowinckel (He That Cometh, trad. G. W. Anderson [Oxford: Blackwell, 1959]) fala do ideal, da esperança e da escatologia messiânica. Refere-se freqüen­temente aos profetas, mas não à profecia bíblica no sentido histórico, exceto em termos negativos. Como poderia ser esperado, Ivan Engnell não lida com a profeda bíblica. Em seu índice de assuntos há referência a reis e sacerdotes, mas não a profetas e profeda. 


[2] Cf. Briggs: "Profecia aparece em qualquer religião, assim que se sente a necessidade de instrução religiosa" (Messianic Prophecy, pp. 1,2). 


[3] Muito do material legal não é essencialmente material de promessa, assim também muitos aspectos do livro de Juízes e as discussões no livro de J6.

FONTE: GRONINGEN, Gerard Van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento.Campinas : Luz para o Caminho, 1995.