18 de março de 2015

Gerard Van Groningen - Aspectos dos Termos Masah e Masiah

Aspectos dos Termos Masah e Masiah

Ato de ungir

Uma questão específica está diante de nós: com que intenção, nos tempos do Velho Testamento, o ato de ungir era praticado? Um estudo cuidadoso dos vários contextos e dos atos de unção praticados revela quatro intenções espe­cíficas.

Designar, apontar ou eleger. Se alguém considera a designação, o apontaento, a eleição como pré-requisitos ou como aspectos da unção depende de quão estritamente concebe a idéia de unção. Se o termo ungir refere-se estrita­mente ao ato de derramar óleo, esses são pré-requisitos. Se o termo é entendido como referindo-se ao fenômeno como um todo, os atos de designação, aponamento ou eleição estão incluídos no termo ungir. Uma das afirmações mais claras do Velho Testamento, que expressa a idéia de designação, é encontrada em 1 Sm 16.3.[1] Samuel foi enviado à casa de Jessé para preparar e oferecer um sacrifício e ungir um dos filhos de Jessé para ser rei. Samuel não foi informado a respeito de qual era o filho que ele deveria ungir. Pelo contrário, ele recebeu ordem de preparar o sacrifício e aguardar as instruções do Senhor, que no momento próprio "apontará" ou "designará" quem deve ser ungido (’ãmar, v. 12). Quando o Senhor tiver declarado o filho escolhido, o derramamento de óleo em sua cabeça indicará publicamente sua escolha como rei (1 Sm 16.1-13).

O ato de ungir traz a idéia de designação, apontamento ou eleição em outros contextos também. Quando Samuel derramou óleo sobre a cabeça de Saul e informou-o de que o Senhor o tinha ungido rei, a primeira e principal idéia foi a de informar Saul que ele fora nomeado pelo Senhor (1 Sm 10.1). De maneira semelhante, a unção de Davi como rei sobre Judá (2 Sm 2.4,7) e sobre todo Israel (2 Sm 5.3,17) indica o apontamento, ou pelo menos o reconhecimento do apontamento ou eleição.[2] A indicação de Salomão como sucessor de Davi ao trono foi feita por unção (1 Rs 134-45). A escolha, pelo povo, de Absalão como sucessor de Davi foi também indicada por unção (2 Sm 19.10). A idéia de designação ou apontamento é claramente expressa em relação a Hazael como rei da Síria (1 Rs 19.15) e a Jeú como rei de Israel (2 Rs 9.3; 2 Cr 22.7).

Além da designação, apontamento ou eleição de um rei, a unção pode ser aplicada também a um profeta. Em 1 Rs 19.16-21 lemos a respeito das instruções do Senhor a Elias para ungir Eliseu como profeta e seu sucessor. Esta informação devia ser especificamente comunicada por palavra e pelo ato de lançar seu manto sobre Eliseu (v. 19; 2 Rs 2.13,14). Em Êx 29.7; 40.13, lemos sobre o apontamento de Aarão como sumo-sacerdote e de seus filhos como sacerdotes. Aqui também isto foi feito especificamente pelo ato da unção. Finalmente, em Is 61.1-3 o apontamento do grande servo ministrante é indica­do pela frase "o Senhor me ungiu".

Quanto a quem tinha a prerrogativa de designar, apontar ou eleger pessoas para serem reis, profetas ou sacerdotes, algumas distinções cuidadosas devem ser feitas. No caso de Absalão, é evidente que ele apontou-se a si mesmo, mas manobrou para motivar o povo a apoiá-lo. Assim, também pode ser dito que o povo o elegeu e apontou como rei, embora não seja dito quem realmente derramou óleo sobre ele em nome do povo.

O Velho Testamento deixa muito claro que o único legitimamente designa­do para ser ungido é aquele que o Senhor escolheu. Este foi o caso de Aarão como sumo sacerdote, dos sacerdotes (Êx 29.7; 40.15), de Eliseu, o profeta (1 Rs 19.16), bem como dos reis (1 Sm 9.16; 163). No caso de Salomão, Davi afirmou especificamente que ele tinha escolhido Salomão, mas ele fez assim jurando pelo Senhor que seu filho seria rei (1 Rs 134). O sentido desta passagem é que Davi estava cônscio do propósito do Senhor para Salomão (cf. 2 Sm 12.24; 1 Rs 37). A unção do jovem Joás (2 Rs 11.12) foi também por apontamento do Senhor, ainda que isto não seja explicitamente afirmado. Entretanto, o sumo sacerdote Joiada, representando o Senhor, ungiu o único descendente vivo da casa real de Davi. Foi por apontamento do Senhor que os descendentes de Davi foram postos no trono (2 Sm7.15,16). Assim, Joiada estava executando fielmente a promessa do Senhor

É interessante notar que na discussão acima foi feita referência aos profetas Samuel e Elias e ao sacerdote Joiada; e também poderiam ter sido mencionados o sacerdotes Zadoque e o profeta Natã como indivíduos que derramaram óleo quando os reis foram ungidos. No caso da unção do sumo sacerdote e dos sacerdotes, Moisés realizou o ato. Não há nenhum registro de um rei ungindo- se a si mesmo, ou a seu sucessor, ou a um outro rei.

Separar ou consagrar. Quando se lêem os relatos da fuga de Davi diante do rei Saul, levanta-se a questão: por que Davi não se aproveitou da oportunidade para matar seu perseguidor quando esta se apresentou? A resposta, nas duas ocasiões, é que Davi não queria tocar no ungido do Senhor (1 Sm 24.6-11; 26.9-24). Quando um amalequita disse a Davi que tinha matado Saul, Davi perguntou-lhe por que não temera destruir o ungido do Senhor (2 Sm 1.14-16). E quando Simei amaldiçoou Davi, Abisai considerou Simei merecedor de morte, porque amaldiçoara o ungido do Senhor (2 Sm 19.22). Por que o ungido deve ser considerado inviolável, estar a salvo de ataques e ser preservado de degradação? A resposta está no fato de que, uma vez ungido, o indivíduo está posto à parte ou consagrado ao Senhor. Um laço específico era estabelecido com Deus, na separação dos homens e mulheres, em geral, e dos aspectos comuns da vida, em particular.

A unção do sacerdote, o lugar de reunião e os objetos a serem usados no culto dão expressão definida aos conceitos de pôr à parte e consagrar. Em Êx

29.1- 37 lemos como devia Moisés consagrar (lèqaddes) sacerdotes (v. 1). Depois que os sacrifícios fossem preparados, os homens eram apresentados à porta da tenda da congregação e vestidos com as vestes sacerdotais (vs. 4-10). Finalmen­te, vinha a unção com óleo (v. 7). Esta unção era o clímax da cerimônia, o ato que a selava. Uma vez ungidos os sacerdotes eram postos à parte do resto do povo. Tendo sido purificados, vestidos e ungidos com o óleo derramado sobre eles, estavam em relação estreita e específica com o Senhor. Eles estavam no lugar do Senhor diante do seu povo e representavam o povo diante do Senhor. Assim, tocar, aviltar e atacar o ungido era como aproximar-se do próprio Senhor, aviltá-lo, molestá-lo e removê-lo de seu legítimo lugar.[3]

O ato de ungir tinha o significado específico de separação e consagração quando o óleo da unção foi derramado sobre o tabernáculo e tudo o que ele continha, bem como sobre a mobília do seu pátio (Êx 40.9-11; Lv 8.10,11; Nm 7.10,11).[4] A idéia de consagração da mobília como separada, purificada e dedicada ao serviço específico de Deus é reforçada pelo fato de que somente os sacerdotes separados, purificados e consagrados poderiam servir no altar e manipular seus utensílios.

Um fato relevante deve ser destacado neste ponto. Davi estava perfeitamen­te inteirado da importância do ato da unção. Ele tinha plena consciência de que pessoas ungidas, bem como coisas ungidas, não deviam ser tocadas e muito menos atacadas ou destruídas, sem que se incorresse em culpa perante Deus (1 Sm 26.9). Se a idéia de unção começou com Davi, como se explica essa profunda e temerosa reverência para com o "ungido do Senhor"? Afirmar que há uma explicação teológica e não uma razão histórica é evitar os fatos ou manipulá-los para servir a algum objetivo.[5]

Em suma, ser ungido não era apenas ser separado das massas e da impureza, ser colocado numa relação especial de pureza e serviço ao Senhor, mas também ser colocado sob a proteção especial do Senhor Todo-Poderoso. Além disso, significava atrair a ira de Deus sobre os que procurassem manchar, ferir ou destruir o que fora ungido, tal como aconteceu com Nadabe e Abiú, mortos por oferecer fogo estranho no altar de Deus (Lv 10.1,2); é a razão da advertência de Davi a Abisai para que não matasse Saul (1 Sm 26.9) e da admoestação aos reis da terra para não tomar conselho contra o Ungido (SI 2.2,10-12). Dois outros exemplos do mandamento de não tocar os ungidos (1 Cr 16.22; SI 105.15) referem-se aos patriarcas como ungidos e, assim, divinamente protegidos.

Ordenar ou atribuir autoridade. Às pessoas que foram eleitas, designadas, postas à parte e consagradas foram atribuídas tarefas específicas.[6] Este comissionamento era também parte integrante ou função distinta da unção. Ao que é ungido é dado o direito, a capacidade e a autoridade para agir no exercício de sua função. A distinção entre a autoridade e as qualificações deve ser mantida. Por exemplo, Saul recebeu a autoridade de reinar. Davi sempre considerou, corretamente, que Saul tinha o direito de ser reconhecido como o ungido rei. Mais ainda, ele reconhecia que Saul tinha autoridade para reinar. Entretanto Saul mostrou que não tinha qualificações para reinar, o que Davi reconheceu.[7] Tendo, porém, recebido o ofício e a autoridade para reinar, Saul não podia ser removido deste ofício por homens. Somente Deus poderia fazê-lo. E até que Deus o fizesse, a despeito de sua falta de qualificações, Saul deveria ser honrado como o ungido detentor do ofício. Ser ungido era ser colocado em posição de autoridade específica.

Isto é verdade também em relação aos sacerdotes ungidos. Quando o Senhor instruiu Moisés quanto à maneira própria do culto, ordenou-lhe que ungisse Aarão e seus filhos de modo que eles se tomassem sacerdotes (Êx 3030; 40.13,15).[8] A ênfase nessas passagens não é, primeiro que tudo, sobre o que esses homens ungidos deviam fazer, mas o que eles deviam ser. Ao serem ungidos eles adquiriam a posição de sacerdotes, uma posição dada por Deus. Era seu direito e eles tinham a autoridade de funcionar na presença de Deus, em seu favor e em favor do povo. Deve ser acrescentado, entretanto, que, uma vez postos nessa posição de autoridade, eles teriam também de cumprir os deveres relativos à posição. Há também outra frase que expressa a idéia de "dar autoridade" aos sacerdotes ungidos. É millê’ yadam (encher a mão deles; Êx 28.41; Nm 33), geralmente traduzida pelo termo ordenar?[9] Tem havido muito debate sobre o significado exato desta frase. Pelo fato de que a mão no Velho Testamento é freqüentemente associada ao exercício da autoridade, deve preferir-se a idéia de delegação de autoridade ou de conferisse o símbolo da autoridade àquele que é ungido sacerdote.

A idéia de dar autoridade a um profeta está presente na transferência do ofício profético de Elias para Eliseu. O lançamento do manto profético sobre Eliseu por Elias traz essa idéia.[10] É um fato bem conhecido que no Velho Testamento o manto era um símbolo de ofício e autoridade.[11] Eliseu demonstrou que tinha realmente herdado o ofício e a autoridade de Elias, o profeta, quando, invocando o nome do Senhor, feriu as águas (2 Rs 2.14,15). A divisão das águas confirmou seu ofício e sua autoridade.

Em relação à unção dos reis, o conceito de autoridade é inequivocamente claro. Como dissemos, Davi compreendeu que Saul, em virtude de sua unção, era separado e protegido por Deus e, assim, possuía uma posição ímpar no reino de Israel. Saul detinha o ofício de chefe (nagid, cabeça, pessoa preemi­nente). Quando Samuel ungiu Saul, disse-lhe que ele fora ungido governante (1 Sm 10.1); e quando Samuel lembrou a Saul que o Senhor lhe dera a missão de ungi-lo para "ser rei sobre o povo" (lèmelek 'ál-ammim, cf.l Sm 15.1,17), a mensagem é clara. O Senhor dera a Saul autoridade para representá-lo como cabeça, governante, príncipe e rei sobre seu povo (1 Sm 15.17). A frase sobre Israel (ál-yisrã’êl) é usada repetidamente, ela seria inteiramente sem sentido se não expressasse a idéia de autoridade divina sobre o povo.

Qualificar ou equipar para o ofício e suas tarefas. Deve ser destacado que a idéia de unção no Velho Testamento implica a incapacidade inerente daque­les que são eleitos, designados, apontados, separados, consagrados, ordenados e colocados em posição de autoridade para praticar os deveres de seus ofícios específicos.[12] As pessoas têm de ser equipadas, têm de receber as qualificações para funcionar de maneira aceitável.

A concessão de qualificações por Deus à pessoa eleita é ilustrada pelo caso de Saul. Quando ungido, ele tornou-se qualificado pela presença do Espírito (1 Sm 10.6). Entretanto, quando o Espírito se retirou dele (1 Sm 16.14), embora ele ainda permanecesse em posição de autoridade, não mais estava qualificado, segundo as exigências do Senhor, para servir como rei.

Nem sempre se dá expressão definida à qualificação e capacitação dos ungidos. Entretanto, isto deve ser entendido como um elemento integrante da preparação dos que são ungidos para ministrar como sacerdotes. Depois da purificação dos sacerdotes, o derramamento de óleo sobre eles significa a capacitação divina para servirem como mediadores entre Deus e o homem.

Isaías dá expressão definida à capacitação do profeta (Is 61.1-3). É o Espírito de Deus quem capacita aquele que é consagrado para proclamar, administrar cura e fazer da liberdade uma realidade.

O próprio Senhor capacita aqueles a quem elege, aponta, consagra e coloca em posição de autoridade para funcionar em seu favor. E o Senhor qualifica dando de si mesmo, isto é, de seu Espírito, aos representantes humanos não qualificados que escolheu para servir a Ele e a seu povo.

O óleo Usado para Ungir

O termo hebraico geral para óleo é Semen, que é também traduzido por "gordo" (Sãmên em Gn 49.20; Nm 13.20; 1 Cr 4.40), "gordura" ou "coisas gordas", bem como "ungüento".[13] Sãmen é usado para designar várias espécies de óleos, que, por sua vez, são usados para diversos fins. De interesse específico é o fato de o termo Semen, quando se fala do ato de ungir, ser usado às vezes com o adjetivo mishâ (de ungir, relativo a unção); por exemplo, Êx 25.6.[14]

A composição do óleo usado para ungir nem sempre é indicada.[15] Entretanto, há base para admitir que, quando profetas e sacerdotes foram enviados para ungir alguém como rei, o óleo teria sido preparado da maneira prescrita por Deus mesmo. Moisés recebeu instruções sobre o preparo desse óleo.[16] Este óleo de unção, composto de especiarias, mirra, cinamomo, cálamo, cássia e azeite de oliveira, cuidadosamente medidos e misturados, não poderia ser empregado para uso pessoal; seria santo para o Senhor (Êx 30.22-38).[17]

O óleo especificamente preparado para unção, como sugerido no parágrafo anterior, poderia ser usado somente para separar e consagrar objetos e homens para o serviço do Senhor.[18] Esse óleo docemente perfumado servia para tomar santos os objetos do culto e os sacerdotes oficiantes.[19] Se, como presumido acima, esse óleo especial era empregado para unção de reis, pode-se compreen­der tanto mais facilmente porque Davi não queria tocar no ungido do Senhor.

Muito tem sido escrito sobre o significado e a designação do óleo. Será suficiente sumarizar os pontos principais.

De início, deve ser destacado que o óleo sempre representa o positivo (não o negativo), o bom (não o mau), o forte (não o fraco), o que cura (não o que destrói), o que capacita (não o que restringe), a riqueza (não a pobreza), e a bênção do pacto (não as suas maldições).

Primeiro, o óleo representa prosperidade, plenitude e abundância para todo o povo que habita em certa área, seja na Terra Prometida (Dt 8.8), no deserto (32.13) ou nas montanhas (Is 25.6; cf. 28.1). O óleo permitiu à viúva de Sarepta assar muitos bolos (1 Rs 17.12-16) e a outra viúva pagar seus credores (2 Rs 4.1-7). Parte das provisões para o exército de Davi consistia de óleo (1 Cr 12.40); Salomão prometeu óleo a Hiram por sua ajuda na construção do templo (2 Cr 2.15). O óleo representa as bênçãos do pacto.

Segundo, o óleo representa poder, capacidade, eficiência. Davi lamenta o fato de o escudo de Saul não ser mais ungido com óleo (2 Sm 1.21); o salmista regozija-se porque foi derramado óleo sobre ele (SI 92.10); Deus promete que rios fluirão como óleo (Ez 32.14).

Terceiro, o óleo era fonte de luz no tabernáculo e no candelabro (Êx 25.6; 35.8,14,28; Nm 4.9).

Quarto, o óleo servia como base para alguns alimentos, era um ingrediente enriquecedor (1 Rs 17.12) e tomava o alimento agradável: bolos eram "mistu­rados com óleo" (Êx 29.2,23); a farinha era "misturada com óleo" (Nm 7.13,19,25,37).

Quinto, o óleo representa saúde e beleza e era usado nos cuidados com o corpo. Tinha poderes curativos (SI 55.21; 109.18); amolecia (SI 104.15; Is 1.6) e purificava (Ez 16.9). Sobretudo, era um artigo embelezador (Et 2.12; Ct 4.10).

Sexto, o óleo era um elemento prescrito nos sacrifícios. Representava a saúde de uma pessoa, suas qualificações e suas preparações para servir ao Senhor com oferta de grãos (Lv 2.4,5; 7.10), sacrifícios de ação de graças (v. 12), sacrifícios pacíficos (9.4) e sacrifícios pelo pecado (14.12).

Sétimo, o óleo representa uma fonte de alegria e regozijo (SI 235; cf. 45.8), um símbolo de unidade (133.1,2), uma fonte de alegria ao coração (Pv 27.9) e um incentivo a partilhar com aqueles que estão de luto (Is 613).

O óleo representa o melhor em cada aspecto da vida. O óleo, em sentido real, representa vida—plena, rica, forte, vibrante, ativa, útil e benéfica. O óleo representa o incomparável bom, puro, o limpo, agradável e capacitador poder de Deus. Por isso, o óleo era derramado sobre o que representava o próprio Deus, sua presença e seu ministério entre seu povo. Depois de ver o que o óleo é, representa e traz, pode-se compreender porque, ao ser ungido com óleo, Davi recebeu o Espírito de Deus com poder a partir daquele dia. O óleo representa o Espírito de Deus (1 Sm 16.13). À medida que a revelação de Deus progredia, a pessoa e a obra do Espírito Santo iam sendo postas mais claramen­te em foco. Quando isto ocorreu, tomou-se cada vez mais evidente o fato de o óleo ser considerado o símbolo mais apropriado para o Espírito Santo.

A Aplicação do Óleo para Unção

O óleo era aplicado, como regra, por derramamento.[20] Entretanto em alguns casos o óleo era aspergido sobre um objeto[21] ou aplicado por fricção ou esfregamento.[22] Assim, um escudo era esfregado com óleo ou gordura para tomar-se pronto, qualificado e eficiente para a batalha (2 Sm 1.21; Is 215). Bolinhos feitos de pão não levedado eram também untados com óleo (Lv 2.4; 7.12). Isto era feito para prepará-los como ofertas de cereal, o que deve ser considerado um ato de qualificação. Mais freqüentemente lemos sobre a fari­nha misturada com óleo.[23] Os bolos, embora não levedados ("não levedados" sugere falta de desenvolvimento completo), eram propriamente qualificados pelo óleo como ofertas de cereal.

Objetos inanimados eram ungidos para que pudessem servir de forma aceitável na adoração de Deus por seu povo. De particular importância é o fato de que objetos utilizados numa posição mediadora tinham de ser preparados, qualificados e santificados para servir em tal posição. Assim, os bolos mencionados acima eram uma parte da oferta de cereal a ser trazida. O tabernáculo ou tenda da congregação, utilizado como lugar da presença, testemunho e reunião com Deus, tinha de ser adequadamente preparado para servir nesse papel mediador.[24] A mobília do tabernáculo e do seu pátio de igual modo tinha de ser ungida com óleo especial, pois cada peça tinha seu fim mediatorial específico.[25] Os utensílios empregados pelos sacerdotes no altar tinham também de ser preparados; portanto, eram qualificados para o serviço por meio da unção.[26] O vestuário dos sacerdotes[27] tinha de ser purifi­cado, consagrado e receber um aroma aceitável; eram qualificados para o serviço por meio da unção.

A unção de objetos a serem usados no ritual do culto seria inteiramente sem sentido se os oficiantes não fossem também ungidos para o serviço. Portanto, há instruções pormenorizadas quanto à unção do sumo sacerdote e dos sacer­dotes. Na próxima seção discutiremos a posição ou ofício. A questão diante de nós agora é: que pessoas eram ungidas?

O Velho Testamento fala de pessoas ungindo-se a si mesmas, tanto mulhe­res quanto homens. Era um ato de limpeza, embelezamento e preparação para o culto. O Velho Testamento também se refere ao povo de Deus como os ungidos (SI 105.15; Lm 4.20; Hc 3.13). O termo ungidos é equivalente ao povo escolhido da aliança, escolhido por Deus e chamado para ser povo santo, sacerdócio real (Êx 195,6), servindo como o povo mediador de Deus entre todos os povos e nações da terra (Gn 12.3). O Velho Testamento, entretanto, concentra-se na unção de certas pessoas.

Os indivíduos ungidos eram ou diretamente designados pelo Senhor ou mediante representantes qualificados.[28] Assim foram ungidos Aarão, seus filhos e descendentes homens. Quando uma das linhas dos descendentes se mostrou infiel (de Abiatar), outra (de Zadoque) foi ungida (1 Rs 1.7; 18; 2.27,35).

Saul e Davi foram ungidos. Os filhos de Saul não o foram, mas os descendentes de Davi foram (2 Sm 7.12-16). Homens que buscavam a unção para si mesmos trouxeram desgraças sobre si, como Abimeleque (Jz 9.53-57) e Absalão (2 Sm 18.14-18). Jeroboão e Jeú foram ungidos, não como canais de bênção, ao contrário, como instrumentos de julgamento contra Salomão e Acabe, respec­tivamente (1 Rs 11.26, cf. 12.20 e 1 Rs 19.16; 2 Rs 9.6-9).[29]

Somente em circunstâncias extraordinárias eram ungidas pessoas não adul­tas; o jovem Davi foi ungido enquanto Saul ainda era rei (1 Sm 16.12,13), Joás o foi quando seu pai foi morto (2 Rs 11.12) e Joacaz quando Josias morreu em combate (2 Rs 23.29,30). Mais interessante é o fato de que mulheres nunca eram ungidas para funcionar em papéis mediadores específicos dentro da comuni­dade do pacto. Não há nenhuma sugestão de mulheres servindo como sacer­dotisas ungidas ou rainhas reinantes. Três mulheres são referidas como profe­tisas . Miriam guiou as mulheres em cântico, logo após uma poderosa libertação (Êx 15.20); Débora serviu como juíza quando homens, como Baraque, se recusaram a lutar contra os cananeus (Jz 4.4); e Hulda proferiu ao jovem Josias a palavra de julgamento (2 Rs 22.19). Mas não há nenhuma indicação de que essas mulheres tenham sido ungidas.

Os Ofícios do Ungido

O Ofício de Sacerdote. O texto bíblico apresenta claramente o caso da colocação de homens no ofício sacerdotal como o ato inicial da unção.[30] A idéia de unção para o propósito da consagração era conhecida antes do tempo de Moisés, o que é evidenciado pela ação de Jacó.[31] Moisés recebeu instruções para ungir, ordenar e consagrar Aarão e seus filhos, de modo que eles pudessem ser reconhecidos, autorizados e qualificados para servir no sacer­dócio (Êx 29.41).

O ritual preparatório para a unção, a fórmula do óleo para ungir e o ato da unção são prescritos em pormenores.[32] Os deveres a serem cumpridos estrita­mente pelos sacerdotes são também especificados. Deve ser destacado que, pela unção prescrita, o ofício de sacerdote era iniciado e estabelecido dentro da comunidade da aliança (Êx 19.24).

A função de sacerdote tinha sido conhecida e praticada antes disso. Abraão ofereceu sacrifícios (Gn 22.9,10). Moisés sacrificou em favor do povo antes de ser instruído a estabelecer o ofício do sacerdócio.

O Ofício de Profeta. O ofício de profeta é o que aparece a seguir na comunidade da aliança. Mais uma vez, devemos lembrar que já havia profetas antes de Israel tomar-se uma nação[33] Abraão era conhecido como profeta (Gn 20.7). Moisés é informado de que Aarão, seu irmão, ser-lhe-á um profeta (porta-voz) diante de Faraó.[34]

Moisés serviu como profeta em Israel ao longo de toda a sua vida. Não há prescrição para este ofício. Há, entretanto, uma clara afirmação de que Israel poderia esperar um grande profeta (Dt 18.15), o qual deveria exercer o ofício da maneira como o fez Moisés. A capacitação de Moisés para exercer a função de profeta pode originar-se de Números 11. O Espírito que estava sobre Moisés foi também concedido aos setenta anciãos. Josué também tinha o Espírito, de modo que pôde servir como líder e porta-voz (Nm 27.18-22).

Samuel foi chamado e comissionado como profeta (1 Sm 3.11,19). Não se menciona nenhuma ordenação específica ou rito de unção. Entretanto, 1 Sm 3.20 mostra claramente que o ofício de profeta era conhecido e que o homem que o possuía agia com autoridade e poder.

Pela falta de prova bíblica não se deve concluir que os profetas não eram ungidos, isto é, designados, separados, autorizados e capacitados para seu trabalho. O fato de não haver relato de um rito de unção prescrito não significa a inexistência de um rito. O fato de haver referências à unção de profetas leva-nos à suposição de que um rito poderia ter sido conhecido, mesmo que não fosse praticado sempre da mesma forma.

Os profetas eram considerados ungidos, como claramente inferimos das ordens de não "tocar" os ungidos de Deus e de não "maltratar" seus profetas (SI 105.15 e 1 Cr 16.22 — paralelismo sintético). As referências são aos patriar­cas. Não se sabe como e quando eles foram ungidos, mas os patriarcas eram profetas, servos ungidos de Deus. O fato de o Senhor mandar Elias ungir Eliseu (1 Rs 19.16) certamente significava que os homens foram feitos cônscios de sua designação, consagração, autoridade e capacitação para um ofício.[35]

Finalmente, o ofício profético era plenamente estabelecido pelo ato da unção, como afirma o profeta Isaías (61.1-3). Não é descrito o ritual da unção, mas há referência a ele e o resultado é claramente expresso nas seguintes palavras: "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu." (Is 61.1).

O Ofício de Rei. A unção do rei na comunidade do pacto é reconhecida por todos os estudiosos do Velho Testamento. Como mostraremos em outros capítulos, há muita diferença de opinião sobre o ambiente, os motivos e a intenção do ritual da unção, bem como em relação ao próprio ofício. Em discussão subseqüente, as afirmações divinas referentes ao ofício de rei (Dt 17.14-20), a unção inicial, a continuidade do ofício (2 Sm 7 a 23) e o reconhecimento desse ofício (vários salmos) serão tratados amplamente.

A Inter-relação dos Três Ofícios. A íntima relação entre os três ofícios deve ser reconhecida.[36] Três são os fatores que a ilustram. Primeiro, Moisés e Samuel funcionam nesses ofícios simultaneamente. Moisés era um profeta que transmitia a vontade de Deus (por exemplo, no recebimento do Decálogo, Êx 20.18-20; cf. 34.27,28), um sacerdote que consagrou Aarão e os demais sacerdo­tes (Lv 8,9) e um líder do povo (embora não fosse rei). Samuel, de modo semelhante, era um profeta (1 Sm 3.19,20; cf. At 13.20), um sacerdote que oferecia sacrifícios a Deus (1 Sm 7.9; cf. SI 99.6; Jr 15.1) e um juiz (embora não um rei, 1 Sm 7.6,15,17). Segundo, sacerdote e profeta oficiavam, separadamente ou em conjunto, no ritual de unção. E terceiro, havia uma relação estreita entre reis, profetas e sacerdotes quando os três grupos eram servos da aliança, honrando a Deus. Por outro lado, havia forte oposição quando um desses era infiel, como, por exemplo, o profeta Jeremias opondose ao rei Zedequias (Jr 38). É fora de dúvida que os três ofícios deviam complementasse entre si e cumprir papéis que eram vitais para cada um dos outros dois. Este fato esclarece por que os três ofícios eram cumpridos por homens designados como "ungidos do Senhor".

As Funções Cumpridas pelo Ungido

Além da unção de que partilhavam sacerdote, profeta e rei, eles exerciam também uma obra mediadora, cada qual executando uma atividade que lhe era afim ao ofício. Este papel de mediador é de grande significação; ignorálo, perdê-lo de vista ou recusar-se a reconhecê-lo implicará perder um fator chave na compreensão do lugar e do propósito dos termos bíblicos mõSah e mãSiah, Em capítulos sub- seqiientes este papel será explicado e seus vários aspectos serão traçados. Antes, porém, que as funções sejam enumeradas e discutidas, é bom frisar que cada uma das funções específicas realizadas pelos ungidos era, por sua própria natureza, mediadora.

As Funções do Ofício Sacerdotal. Primeiro, o sacerdote ungido tinha de fazer expiação (Lv 4.26,31,35; 5.6,10; 14.31 etc.). O ato de expiar envolvia a matança do animal trazido para o sacrifício pelos adoradores, a aspersão do sangue (Lv 17.6) e a oferta sobre o altar (3.16). Fazer expiação envolvia inter­cessão em favor do adorador pecaminoso e a proclamação de que ele fora perdoado.

Segundo, os sacerdotes tinham a obrigação de santificar o povo perante o Senhor e de manter essa santidade. O impuro tinha de ser declarado impuro (Lv 13.11), os lares tinham de ser inspecionados (14.15) e os casos de adultério, submetidos à prova (Nm 5.11-31).

Terceiro, os sacerdotes tinham o dever de ouvir a confissão de fé por parte dos adoradores e de receber seus sacrifícios de ação de graças ao Senhor (Dt 26.1).

Quarto, os deveres do sacerdote incluíam a supervisão do tabernáculo e de seu mobiliário, sua montagem, desmontagem e remoção.

Quinto, os sacerdotes representavam a obra da misericórdia; por exemplo, em casos de homicídio não intencional (Dt 19.1-13) e do auxílio ao forasteiro (cf. Êx 23.9).

Sexto, os sacerdotes tinham os deveres específicos de instruir ou supervisionar a instrução do povo de Deus (Ml 2.7).

Sétimo, os sacerdotes tinham de ser guardiães do Livro do Pacto e de mantê-lo acessível ao rei, de modo que este o pudesse ler regularmente (Dt 17.18; cf. 2 Rs 22.11; 23.2).

Oitavo, os sacerdotes tinham de ouvir os casos de desavença e tomar decisões sobre eles (Dt 17.8-13).

Note-se que algumas dessas funções são de caráter mais especificamente mediador do que outras. Entretanto, em cada caso os sacerdotes representam Yahwéh, o Senhor do povo da aliança. Mas eles também representam o povo da aliança e agem em seu benefício. Para cumprir este duplo papel mediador os sacerdotes tinham de ser, por assim dizer, "um com o povo", mas também deviam ser "um com Deus". Esta dupla representação era expressa pelo ritual da unção. Os sacerdotes—os ungidos—permaneciam na relação mais estreita possível com Deus e eram ao mesmo tempo membros da comunidade do pacto.

As Funções do Ofício Profético. O profeta era o porta-voz de Deus: "Susci- tar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos... em cuja boca porei as minhas palavras, e ele falará tudo o que eu lhe ordenar" (Dt 18.18). O contexto desta declaração é o pedido do povo no sentido de não ter de ouvir diretamente a voz de Deus: "Disseram a Moisés: fala-nos tu, e ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos" (Êx 20.19).

O profeta devia ouvir a Deus e então falar as palavras de Deus ao povo. Samuel foi introduzido em seu papel profético por ter o Senhor falado com ele, para que ele, por seu turno, falasse a Eli, a seus filhos e ao povo (1 Sm 3). De modo semelhante, o Senhor falou a Natã que, por sua vez, falou a Davi (2 Sm 7.4). A fórmula profética familiar "assim diz o Senhor" está inteiramente em harmonia com o estabelecimento divino do ofício profético.

O aspecto mediador do ofício profético é muito claro. Os profetas eram membros (filhos) da comunidade do pacto (Am 2.11). Entretanto, o Senhor chamava e separava os verdadeiros profetas para si mesmo, autorizava-os e dava-lhes o seu Espírito, de modo que, propriamente capacitados, podiam ser identificados como homens que estavam em tão íntima relação com Deus que suas palavras eram consideradas a própria Palavra de Deus.

A obra mediadora dos profetas incluía três outras tarefas correlatas. Em primeiro lugar, os profetas repetiam, explicavam e aplicavam a Palavra do Senhor, algumas vezes por meio de ações e símbolos.[37] Alguns deles foram registrados nas Escrituras. Em segundo lugar, os profetas deviam guiar o povo à resposta apropriada à palavra falada e explicada.[38] Os salmos de Davi, em grande parte, consistem em responsos proféticos inspirados, de louvor e oração (2 Sm 23.1-7). Terceiro, os profetas serviam como agentes no ritual de unção.[39]

As Funções do Ofício Real. As três funções do rei ungido eram tipicamente mediadoras. O rei representava o Senhor e agia em favor do povo e, às vezes, o representava perante o Senhor, cabendo-lhe assisti-lo como ungido do Senhor.[40]

Primeiro, o rei era ungido como libertador do povo do pacto (1 Sm 9.16). Esta libertação incluía diversos papéis: luta, resistência, quebra do jugo de servidão, batalha e condução do povo vitoriosamente da guerra à paz. A obra libertadora envolvia a derrota e, às vezes, também a destruição das forças oponentes (1 Sm 153; SI 2.4-9).

Segundo, o rei era ungido para governar sobre a comunidade do pacto, como Samuel tão propriamente expressou em sua pergunta a Saul: "Não te ungiu, porventura, o Senhor por príncipe sobre sua herança, o povô de Israel?" (1 Sm 10.1).

A tarefa de governar exigia que ele regulasse sua própria vida pela vontade revelada de Deus (Dt 17.18) e também guiasse o povo de Deus segundo essa vontade (1 Rs 3.8,9).

Terceiro, o rei era ungido como pastor do povo de Deus (SI 78.71). Em alguns aspectos, governar pode ser considerado uma expressão de pastorear. Entretanto, pastorear inclui, além de guiar com mão hábil (SI 78.72), o trabalho de buscar, alimentar, zelar, cuidar, curar (Ez 34.1), que o rebanho de Deus requer. Esta idéia de o rei servir como um pastor é encontrada também em outras literaturas do Oriente Médio.

Tinha o rei uma função cúltica? Como demonstraremos, ele não tinha um papel especificado nos ritos diários e anuais. Participava entretanto, às vezes, de algumas atividades religiosas. Davi, por exemplo, guiou a procissão que conduzia a arca a Jerusalém (2 Sm 6.12-15) e Salomão dedicou o templo (1 Rs 8.22-53; 2 Cr 6.12-42).

A Interdependência dessas Funções

Mostramos que a estreita relação existente entre a tarefa do rei de governar e a de pastorear não deve ser subestimada. Mas não é somente entre essas duas funções que há interação e sobreposição. A obra de libertação tinha de ser feita porque a do pastoreio não podia ser feita sem ela. A obra do rei era intimamente relacionada com a do profeta. Todo o seu trabalho tinha de ser motivado, dirigido e avaliado segundo a revelação divina que o profeta proclamava. Muito apropriadamente os profetas têm sido chamados de guardiães da teo­cracia e, particularmente, de seu trono.

Nem deve ser subestimado o trabalho do sacerdote. Ele cumpria sua tarefa segundo os regulamentos revelados. Uma boa parte de sua obra, o aspecto sacrificial, tinha um significado diretamente libertador. Não há libertação do mal e do cativeiro sem a obra sacrificial do sacerdote (Hb 9.22).

Concluindo este estudo dos vários elementos expressos pelos termos hebraicos íriõSah e rriãsiah, não me parece necessário repetir sucessivamente os aspectos dos cinco fatores principais. Os termos mãSah e mãSiah não podem ser limitados a um dos aspectos de um dos fatores principais (por exemplo, o rei reinante). Em outras palavras, dizer que os termos se referem somente a uma realeza sacra (o rei-sacerdote) é incorreto. Posição que tal não é sustentada pela evidência textual. No cap. 2 discutiremos e avaliaremos mais amplamente a idéia da realeza sacra. 



[1] O quase incrível preconceito de Hesse expressa-se em sua afirmação de que todas essas unções, feitas em nome de Yahweh, devem ser contestadas em bases históricas. Ele só aceita como válidos os atos de unção que surgem de um processo aparentemente humano e histórico. A rejeição do aspecto sobrenatural da Escritura vicia toda a sua discussão do termo. 


[2] Hesse (TDNT, 9:498) dá especial ênfase às referências bíblicas sobre o fato de os homens de Judá ungirem Davi (2 Sm 2.7) e os anciãos de Israel o ungirem rei sobre eles (5.1-3). Em vez de considerar esses atos como a ocorrência iniciai da unção, as duas passagens deixam claro que Davi fora ungido anteriormente por Samuel (cf. Sm 16.11-13). A ação dos líderes do povo deve ser considerada como confirmatória do que Yahweh já havia ordenado. A unção de Salomão deve ser encarada da mesma forma, isto é, o sucessor de Davi é o rei indicado por Deus para Judá. 


[3] Hesse mostra como o uso das consoantes hebraicas l e w indica o intento preciso ou explica a idéia exata do ato de ungir (7T?NT, 9:497) (p. ex., cf. Êx 40,11 para o uso deue 29.36 para o uso de / [cf. 30 30]). 


[4] Unção era também realizada por meio da aspersão de óleo (Lv 8.10,11)- Isto indica, como também outras passagens, que nenhuma distinção básica se fazia quanto ao significado e à eficácia entre derramar, aspergir, imergir, esfregar ou untar. O fator importante era o toque ou contato entre o óleo e o ungido. 


[5] Cf. cap. 1, n. 9. Mettinger diz que uma relação muito estreita se forma entre Deus e o ungido. Tocar o ungido é tocar Deus (King andMessiah), pp. 198-203. Não explica, porém, porque a unção estabelece essa relação tão íntima. 


[6] Cf. o subtítulo "Aspectos dos termos Mõicü} e MÕSÍoh", neste capítulo. 


[7] Cf. os relatos da perseguição de Saul contra Davi (1 Sm 19; 24.1-3; 26.1,2) e da atitude de Davi para com Saul (1 Sm 24.4-16; 26.7-20). 


[8] Várias versões traduzem lèkÒhSn como "sacerdotes" (1 Cr 29.22), enfatizando a função, não o ofício. 


[9] A versão Almeida traduz mÜW yõdãm como consagrado, em ambas as passagens citadas (n.t.). 


[10] Cf. 1 Rs.19,19-21; 2 Rs 3.9-14. 


[11] SI 93.1,2 dá eloqüente expressão a isto. A frase "revestiu-se de majestade" e o termo "trono" são sinônimos aí e expressam a autoridade do Senhor que reina. 


[12] Ver neste capítulo o subtítulo "Aspectos dos Termos A^Bèaí} e Adolfo/i" para estudo de alisar, untar e ungir objetos para prepará-los para o uso. 


[13] Outro termo para traduzir "óleo" é méSah (Ed 6.9; 7.22), e tambémyia/úir (usado umas vinte vezes, sempre em conexão com prosperidade). Em Zc 4.14 ocorre a línica exceção, onde a frase bènê-hayytshãr traduz-se como "os ungidos". 


[14] Encontrado exclusivamente em Êxodo, Levítico e Nümeros. 


[15] Cf. Gn 28.18; 35.14, onde não há indicação do tipo de óleo usado. O mesmo se dá do óleo de Samuel (1 Sm 10.1; 16.1,13) e do óleo de Zadok (1 Rs 1.39). Convém lembrar que na unção o óleo é também usado como emoliente (Is 1.6; Ez 16.9). 


[16] Não havia necessidade de a prescrição ser repetida, desde que o Livro da Lei estava disponível para consulta no tabernáculo, no templo ou na casa do rei (Dt 17.18-20). 


[17] Êx 3022-38. A prescrição para o incenso a ser usado no culto é também dada nesta mesma passagem. Se alguém argüir que esse preceito para óleo e incenso foi estabelecido no tempo de Esdras, a resposta é que não há referência ao "óleo da unção" nos escritos pós-exílicoe. De fato, o termo iemen é usado somente seis vezes em Crônicas e uma vez em Esdras, Ester e Ageu. Esses cinco livros não falam de atos de unção. 


[18] O tabernáculo, a arca, os utensílios, o candelabro, os altares do incenso e das ofertas queimadas e a bacia são mencionados como itens importantes a serem ungidos (Êx 30.26-30). 




[19] Êx40.9 (cf.Lv 8.10,11;Nm 7.1). 


[20] Os dois termos empregados para designar este ato são súk (derramar sobre) eyãçoq (derramar). 


[21] Cf. cap. l,n. 24. 


[22] Lembrar que mãáafi tem a idéia de esfregar ou alisar ou untar (Êx 29.2; Lv 2.4; 7.12; Mq 6.15 [passava-se óleo nos pães sem fermento; KJV usa a expressão "ungir"]). 


[23] BSlal é traduzido como "misturar", "confundir" (p. ex., Êx 29.2; Lv 2.4; 7.12; Nm 6.15). 


[24] Cf. Êx3026; 40.9-11; Lv 8.10,11;Nm 7.1 


[25] Cf. Êx 2936; 40.9-11; Lv 8.10,11; Nm 7.1,10,84,88 


[26] Cf. Êx40.8-11; Lv 8.10,11;Nm 7.1 


[27] Cf. Êx40.13 


[28] Cf. o subtítulo "Aspectos dos termos Mõio}} e Maãlah", 


[29] Não se afirma explicitamente que Jeroboão foi ungido, mas isto está implicado no ato de ser feito rei (1 Rs 1220). 


[30] É bem conhecido o fato de vários eruditos que têm adotado uma abordagem fortemente crítica e histórica 


[31] Gn28.18; 31.13. 


[32] Cf. Êx 29,30,40; Lv 6.8-lfi. Referências a esta unção podem ser encontradas em outras passagens (Nm 33; 3525; 1 Cr 29.22). 




[33] Por exemplo, Abraão foi identificado como profeta (Gn 20.7); ver Edward J. Young, M/Servants, the Prophets (Grand Rapids: Eerdmans, 1952). 


[34]Quando Aarão foi referido como profeta, o termo profeta indicava que Aarão seria o porta-voz de Moisés, como Moisés o porta-voz de Deus. 


[35] A transmissão do manto de um profeta ao recém-nomeado não deveria ser vista como um rito completo de unção. Poderia, entretanto, fazer parte dele. 


[36] É fato bem conhecido que certos eruditos têm tentado, sem êxito, postular uma divisão, e mesmo uma relação antitética, entre os dois ofídos (cf. A. Johnson, The Cultic Prophet in Ancient Israel [Cardiff: University of Wales Press, 1967]), ou uma inversão de ordem (cf. G .A.F. Knight, A Christian Theology of the Old Testament [Harden: SCM, p. 300]). Knight afirma que Davi, como rei, inidou o sacerdócio em seu tempo; daí decorre que o sacerdócio devia sua existência ao ofído real e estava subordinado a ele. Aelred Cody, A History of Old Testament Priesthood (Rome: Pontifical Biblical Institute, 1969) também fala dos modelos davfdicos como iniciais. De interesse específico é o estudo de E. O. James, "The Sacred Kingship and the Priesthood", L.R5.-TS.K., pp. 63-70. Tendo partido da hipótese de que há uma sucessão linear, do curandeiro ao rei e do mágico ao sacerdote, ele afirma que "existe uma afinidade em ofício e função entre a realeza e o sacerdócio". Embora sua abordagem e seus métodos para o estudo dos fatos sejam seriamente questionados, ele expressa algumas conclusões corretas, tais como: "Em Israel, rei, sacerdote e profeta estão inseparavelmente unidos." 


[37] Este aspecto secundário da obra profética nem sempre tem sido adequadamente distinguido do aspecto primário. As profetisas no Velho Testamento e os profetas e profetisas do Novo Testamento devem ser considerados como participantes deste aspecto secundário. 


[38] Por exemplo, quando passagens são repetidas. Entretanto, quando a explicação profética é incluída, ela participa do mesmo caráter inspirado, infalível e impositivo da palavra primária. 


[39] Cf. cap. 1, subtítulo "Aspectos dos Termos Maàah e Mõôlah". 


[40] Esta seção sobre a função real será breve porque o assunto será mais amplamente discutido nos capítulos seguintes.