4 de março de 2015

F. F. BRUCE - Introdução aos livros poéticos

Introdução aos livros poéticos
F. F. BRUCE 

A POESIA NO ANTIGO TESTAMENTO

Grande parte da literatura sapiencial do AT é apresentada em forma poética. O cerne do livro de Jó é poético não somente em forma, mas também em pensamento e linguagem. O livro de Provérbios, como também partes de Eclesiastes, é poético em forma, mesmo quando a linguagem, embora incisiva e epigramática, é em prosa. O Saltério é poético de ponta a ponta, como também Cântico dos Cânticos e Lamentações de Jeremias.

Muitos dos oráculos nos livros proféticos são poéticos em forma e linguagem e acham- se corretamente diagramados em forma de poesia na NVI e outras versões recentes. E um exercício precário, no entanto, usar a alternância entre seções poéticas e de prosa nesses livros como critério para distinguir entre contribuições de autores e editores.

Fora os oráculos comuns, ocasionalmente encontramos um salmo incorporado em um livro profético, como a oração de Jonas (Jn 2.2-9) ou a oração de Habacuque (Hc 3.2¬19). Um cântico de louvor ao Criador (talvez originariamente designado para a festa dos tabernáculos) é encaixado entre os oráculos de Amós (Am 4.13; 5.8,9; 9.5,6); as suas estrofes estão marcadas e separadas pelo refrão: “SENHOR, Deus dos Exércitos, é o seu nome”.


Os poemas também aparecem ocasionalmente nos livros narrativos. A maldição tripla na história da Queda em Gn 3.14-19 assume forma poética; o mesmo ocorre com o cântico de vingança de Lameque em Gn 4.23,24, o oráculo do nascimento para Rebeca em Gn 25.23, a bênção que Isaque pronuncia sobre os seus dois filhos em Gn 27.27-29,39,40 e a bênção que Jacó pronuncia sobre os seus descendentes em Gn 48.15,16; 49.2-27. Os outros livros do Pentateuco contêm o cântico do mar em Êx 15.1-18 (uma ampliação do cântico de Miriã em Êx 15.21), os oráculos de Balaão em Nm 23 e 24, o cântico de Moisés em Dt 32.1-43 e a bênção de Moisés em Dt 33.2-29.

Em Nm 21, há alguns fragmentos poéticos relacionados à conquista da Transjordânia, extraídos de uma coletânea chamada de “o Livro das Guerras do SENHOR” (V. 14). Uma coletânea semelhante, “o Livro de Jasar”, forneceu a passagem sobre o sol ficar parado no céu em Js 10.12,13, o “lamento do arco” (o canto fúnebre de Davi acerca de Saul e Jônatas) em 2Sm 1.19-27 e o oráculo de Salomão na consagração do templo em lRs 8.12,13. Talvez tenha sido de uma coletânea assim que o autor de Juízes obteve o cântico de Débora em Jz 5, em que encontramos o hebraico mais antigo do AT. O cântico de ação de graças de Davi em 2Sm 22 é repetido em SI 18. Em 2Sm 23.1-7, temos um oráculo dinástico que abrange “as últimas palavras de Davi”. O cronista incorpora trechos do Saltério em contextos litúrgicos em lCr 16.8-36; 2Cr 5.13; 6.41,42; 7.3; 20.21; ele também preserva o oráculo de Amasai em lCr 12.18.

RITMO SILÁBICO
A poesia do AT é caracterizada por padrões rítmicos reconhecíveis que podem ser reproduzidos em certa medida na tradução. O ritmo do som e o ritmo do sentido são combinados para produzir o efeito poético. 

O ritmo do som depende principalmente de padrões repetidos de sílabas acentuadas. E provável que sílabas não acentuadas também tenham um papel, mesmo que menos importante, nesse aspecto, mas não há concordância quanto ao que seja esse papel. Em relação ao padrão de sílabas acentuadas, podemos ter uma sequência de versos (geralmente organizadas em parelhas de versos) tendo duas, três ou quatro sílabas acentuadas cada uma (2:2; 3:3; 4:4). Ou temos uma alternância de versos com quatro e três sílabas acentuadas (4:3, como a nossa métrica comum) ou três e duas sílabas acentuadas (3:2). Uma sequência desses versos alternados produz um efeito elegíaco e triste. O padrão 3:2 é conhecido como qinãh ou métrica de “canto fúnebre”, visto que é especialmente comum em lamentos, como no livro de Lamentações: Como I está deserta I a cidade antes tão cheia I de gente! ...
Há padrões mais bem trabalhados do que esses, mas esses são os que ocorrem com mais frequência.

PARALELISMO

O ritmo de sentido toma a forma de “paralelismo”. O “paralelismo” é uma figura de estilo em que o que é essencialmente a mesma ideia é expresso duas (ou até mais) vezes em versos paralelos ou grupos de versos; o pensamento é o mesmo, mas as palavras são diferentes.

Os diversos tipos de paralelismo são descritos da melhor maneira por meio de exemplos reais. Os três tipos de paralelismo que se destacam são o paralelismo completo, o paralelismo incompleto e o paralelismo em estágios.

O paralelismo completo. No paralelismo completo, temos dois versos (ou parelhas de versos) em que cada termo significativo de um corresponde a um termo significativo de outro. O paralelismo pode ser sinônimo, como em Gn 4.23 (na métrica 4:4):

Ada I e Zilá, I ouçam I -me; mulheres I de Lameque I
escutem I minhas palavras.

(Aqui “mulheres de Lameque” é sinônimo de “Ada e Zilá”, “escutem” de “ouçam” e “minhas palavras” de “me”, lit. “minha voz”.) Outros exemplos são Is 1.3b (na métrica 3:3):
Israel I nada I sabe o meu povo I nada I compreende ou SI 27.1,3 (em cada um desses versículos, temos duas parelhas paralelas de versos na métrica 3:2):

O SENHOR I é a minha luz I e a minha salvação; de quem I terei temor?
O SENHOR I é o meu I forte refúgio;
de quem I terei medo?

Ainda que um exército I se acampe I contra mim, meu coração I não temerá; ainda que se declare I guerra I contra mim, mesmo assim I estarei confiante.

Esse ritmo 3:2 não é característico somente dos cantos fúnebres (como dissemos); em outras passagens, como em Salmos 27, ele pode servir como meio de expressão de alegre confiança e louvor.

O paralelismo pode ser antitético, em que o segundo verso (ou parelha de versos) afirma o oposto do verso anterior, como em SI 20.8 (na métrica 3:3):

Eles I vacilam I e caem, mas nós I nos erguemos I e estamos firmes.
Is 1.3b (já citado) combina com Is 1.3a para formar uma estrutura mais bem elaborada de paralelismo antitético:

O boi I reconhece I o seu dono, e o jumento I conhece a manjedoura I do seu proprietário, mas Israel I nada I sabe, o meu povo I nada I compreende.

Aqui os dois versos da primeira parelha, assim como os dois versos da segunda parelha, formam um paralelismo sinônimo um com o outro; mas a segunda parelha de versos forma um paralelismo antitético com a primeira parelha.

Além disso, o paralelismo pode ser emblemático-, esse adjetivo tem sido usado para denominar uma construção em que um dos dois versos paralelos apresenta um símile ou metáfora descrevendo a situação com que o autor está de fato preocupado. Um exemplo simples é SI 103.13 (na métrica 3:3):
Como um pai I tem compaixão I de seus filhos, assim o SENHOR I tem compaixão I dos que o temem. Paralelismo incompleto. 

O paralelismo incompleto ocorre quando o segundo verso de uma parelha não traz um termo de sentido equivalente correspondente a cada um dos termos no verso precedente. Assim, na parelha já citada de Is 1.3a — O boi I reconhece I o seu dono, e o jumento I conhece a manjedoura I do seu proprietário — no segundo verso, no original hebraico, não há verbo correspondendo a “reconhece” do primeiro verso. O verbo, evidentemente, pode muito bem ser depreendido do primeiro verso; no que tange ao sentido, não há necessidade de que seja repetido (nem mesmo um sinônimo). Mas existe então a compensação métrica para a falta do termo por meio da provisão de um objeto com duas sílabas acentuadas no segundo verso (“a manjedoura do seu proprietário”) correspondendo ao objeto com uma sílaba acentuada no verso anterior (“o seu dono”). O mesmo fenômeno ocorre em SI 1.5 —
Por isso os ímpios I não resistirão I no julgamento, nem os pecadores I na comunidade I dos justos — em que, apesar da omissão de um verbo no segundo verso correspondente a “resistirão” no primeiro verso, o ritmo 3:3 é mantido por meio do uso de um termo com duas sílabas acentuadas no segundo verso (“a comunidade dos justos”) em contraste com uma sílaba destacada no primeiro verso (“no julgamento”).

Além desses exemplos de “paralelismo incompleto com compensação”, há muitos exemplos de “paralelismo incompleto sem compensação”. Se observarmos Salmos 40.2a Ele me tirou I de um poço I de destruição, de um atoleiro I de lama — não encontramos verbo na segunda unidade correspondente a “ele me tirou” na unidade precedente (pois não há necessidade de repetição de verbo), mas as palavras restantes, “de um atoleiro de lama”, têm exatamente o mesmo valor métrico que a contrapartida, “de um poço de destruição”, e cada um desses conjuntos de palavras têm duas sílabas acentuadas. A parelha é a primeira de quatro (abrangendo os v. 2,3) no ritmo elegíaco 3:2, o ritmo em que praticamente todo o livro de Lamentações foi composto.

Um belo exemplo do ritmo elegíaco 4:3 mais longo aparece na descrição vívida do caos-venha-de-novo em Jr 4.23-26:

Olhei I para a terra, I e ela era sem forma I e vazia; para os céus, I e a sua luz I tinha desaparecido.
Olhei I para os montes I e eles I tremiam; todas I as colinas I oscilavam.
Olhei, I e não I havia I mais gente; todas as aves I do céu I tinham fugido em revoada.
Olhei, I e a terra I fértil I era um deserto; todas I as suas cidades I estavam em ruínas por causa do SENHOR, por causa do fogo da sua ira.

Aqui o aspecto extraordinário das quatro parelhas elegíacas é realçado por meio do solene “olhei”, com o qual cada um começa, e pela solene coda que segue a última das quatro parelhas.

A primeira parelha de versos do canto de vingança de Lameque (Gn 4.23,24) foi citada acima como um exemplo de paralelismo completo. A segunda e terceira parelhas constituem exemplos de paralelismo incompleto — sem e com compensação respectivamente: Eu matei I um homem I porque me feriu, e um menino, I porque me machucou.

Se Caim I é vingado I sete vezes, Lameque o será I setenta I e sete. Nessas duas parelhas, a segunda unidade não tem um verbo correspondente ao verbo na primeira unidade, mas não há compensação métrica para o verbo que falta na primeira parelha, ao passo que na segunda parelha a compensação é fornecida por meio de “setenta e sete” com a acentuação duplicada em contraste com “sete vezes” com acentuação simples.

Uma permuta efetiva de linhas com três e duas sílabas acentuadas é conjugada com a estrutura quiástica em SI 30.8-10. (O quiasmo ocorre no original, e por isso transpomos aqui algumas linhas do texto da NVI para corresponder ao hebraico):

A ti, I SENHOR, I clamei, ao SENHOR I pedi misericórdia:
que vantagem haverá I se eu morrer, se eu descer I à cova?
Acaso o pó I te louvará?
Proclamará I a tua fidelidade?
Ouve, I SENHOR, I e tem misericórdia de mim;
SENHOR, I sê tu o meu auxílio.

Aqui ocorre o “quiasmo” métrico de duas parelhas 2:2 dentro de duas parelhas 3:2, e isso coincide com um “quiasmo” de sentido, em que uma série de perguntas retóricas (todas requerendo a resposta “não”) se interpõe entre a afirmação de súplica na primeira parelha e o conteúdo da súplica na última parelha.

Paralelismo formal. Ocasionalmente, com a diminuição do paralelismo de sentido e um aumento correspondente da compensação métrica atinge-se o ponto em que o paralelismo de sentido desaparece totalmente e somente o equilíbrio métrico permanece, como em SI 27.6 (na métrica 3:3; ARA):

Agora, I será exaltada I a minha cabeça acima I dos inimigos I que me cercam. 

Paralelismo em estágios. As vezes parte de uma linha é repetida na linha seguinte e se constitui ponto de início para um novo estágio; esse processo pode ser repetido da segunda para a terceira linha. Um bom exemplo disso está em SI 29.1,2 (na métrica 4:4): Atribuam I ao SENHOR, I ó seres I celestiais, atribuam I ao SENHOR I glória I e força. Atribuam I ao SENHOR I a glória I que o seu nome merece; adorem I o SENHOR I no esplendor I do seu santuário.

Aqui os primeiros três versos apresentam paralelismo em estágios; o quarto verso está em completo paralelismo sinônimo com o terceiro. Outro exemplo está em SI 92.9 (na métrica 3:3:3; ARA):
Eis que I os teus inimigos, I SENHOR, eis que I os teus inimigos I perecerão; serão dispersos I todos I os que praticam a iniquidade.

Aqui as primeiras duas linhas exibem paralelismo em estágios; a terceira está em paralelismo sinônimo com a segunda.

O “estilo arcaico” desse versículo, observado no comentário ad loc., pode ser ilustrado por uma estrofe construída de forma semelhante em um hino a Baal nos textos ugaríticos: 

Eis os teus inimigos, Baal,
Eis os teus inimigos, elimina-os,
Eis os teus oponentes, destrói-os.

Um outro exemplo ugarítico de paralelismo em estágios é citado na epopéia de Aqhat, em que o filho de Danei (cf. Ez 14.14,20; 28.3) recebe uma mensagem:

Pede vida, Aqhat, meu menino,
pede vida e eu ta darei,
vida eterna, e eu ta concederei.

Isso lembra SI 21.4, no sentido mas não na estrutura, com sua ação de graças pelo rei (na métrica 4:4; ARA):

Ele I te pediu I vida, I e tu lha deste; sim, I longevidade I para todo I o sempre. 

Outra forma de paralelismo em estágios pode ser reconhecida em SI 1.1, se “segue [...] imita [...] se assenta” representam esses estágios progressivos em se associar com os ímpios. Se, no entanto, eles são simplesmente três formas diferentes de descrever essa associação, então temos o paralelismo sinônimo comum.

ESTRUTURAÇÃO EM ESTROFES

Um exemplo bem conhecido de paralelismo em estágios está integrado numa estrutura em estrofes: é a invocação repetida de SI 24.7,9 (na métrica 3:3:3; ARA):

Levantai, I ó portas, I as vossas cabeças; levantai-vos, I ó portais I eternos, para que entre I o Rei I da Glória. 

Na primeira resposta a essa pergunta repetida de dentro (“Quem é esse Rei da Glória?”), há mais uma ocorrência de paralelismo em estágios em que “poderoso nas batalhas” retoma e torna mais específicos os epítetos gêmeos “forte e poderoso” (SI 24.8; ARA): 

O SENHOR, I forte I e poderoso,
O SENHOR, I poderoso I nas batalhas.

A sequência repetida de invocação, pergunta de dentro e resposta forma uma estrofe dupla com o seu clímax no versículo 10 (na métrica 2:2):

O SENHOR I dos Exércitos, ele é o Rei I da Glória.

Um sinal comum da estruturação em estrofes é a repetição de um refrão. O refrão triplo em SI 42 e 43 (originalmente só um salmo) marca o final de três estrofes sucessivas, nos v. 5,11 do salmo 42 e v. 5 do salmo 43. Uma estruturação estrófica semelhante está indicada em SI 46 pelo refrão nos v. 7,11: 

O SENHOR I dos Exércitos I está conosco; o Deus I de Jacó I é a nossa torre segura.

Os v. 1-7 provavelmente eram constituídos de duas estrofes. A transição de uma para outra ainda era marcada pela indicação “Selá” (pausa) no final do v. 3, sugerindo que o refrão era originariamente cantado nesse ponto também. O salmo 80 é dividido em quatro estrofes pelo refrão nos v. 3,7,14a, 19:

Restaura-nos, I ó Deus I (dos exércitos) Faze resplandecer sobre nós I o teu rosto, I para que sejamos salvos.

Refrãos semelhantes pontuam alguns dos oráculos proféticos. Uma série de oráculos em Isaías é pontuada por um refrão (Is 5.25b; 9.12b,17b,21b; 10.4b):

Apesar disso tudo, I a ira dele I não se desviou; sua mão I continua I erguida — que conduziu à tese de que em Is 5.24,25 temos a conclusão da sequência encontrada em Is 9.8—10.4 (cf. a transposição de Is 5.24, 25 depois de Is 10.4 na NEB).

Estruturação estrófica de natureza ao menos formal está incluída em alguns dos esquemas acrósticos apresentados em Pv 31.10-31, nos primeiros quatro capítulos de Lamentações e em diversos salmos — especialmente em casos em que três (como em Lm 3) ou oito (como em SI 119) parelhas que começam cada uma com a primeira letra do alfabeto hebraico são seguidas pelo mesmo número começando com a segunda letra, e assim por diante até a vigésima segunda letra. (A tradução do AT de R. A. Knox tenta representar essa estrutura acróstica hebraica por uma correspondente em inglês.)

A POESIA NO NOVO TESTAMENTO

Algumas das passagens poéticas do NT sempre são reconhecidas como tais e se tornam instrumentos tradicionais de louvor cristão, como os cânticos da natividade em Lucas — o Magnificat (Lc 1.46-55), o Benedictus (Lc 1.68-79), o Gloria (Lc 2.14), e o Nunc Dimittis (Lc 2.29-32) — e hinos no Apocalipse como “Tu és digno” e “Digno é o Cordeiro” (Ap 5.9,10,12) e o coro do Aleluia (Ap 19.6). Há boas razões para crer que os hinos cantados pelos coros celestiais no Apocalipse são ecos dos cantados pela igreja “militante aqui na terra” (ou talvez que os cantados aqui são considerados ecos dos cantados lá em cima).

Foram identificados ainda outros hinos ou confissões de fé rítmicas, com maior ou menor certeza, aqui e acolá nas epístolas. A métrica e o fraseado em Ef 5.14 sugerem que essa citação (introduzida por “foi dito”) vem de um antigo hino batismal cristão. E questionável se devemos reconhecer poesia em passagens como Fp 2.6-11, Cl 1.15-20, lTm 3.16 ou o prólogo do evangelho de João. A estrutura dos trechos de Filipenses e Timóteo apontam nessa direção, mas os seus ritmos, como os das outras duas passagens, são ritmos de prosa. Pode-se reconhecer com mais segurança a poesia no NT quando os ritmos reconhecidos da poesia hebraica e grega estão presentes. Os únicos exemplos da métrica poética grega são citações de poetas gregos, como em At 17.28 (Arato, e possivelmente Epimênides), ICo 15.33 (Menander) e Tt 1.12 (Epimênides). As formas características da poesia hebraica são claramente reconhecíveis nos cânticos de Lucas e nas palavras da anunciação (Lc 1.32,33,35). 

Entretanto as formas da poesia hebraica aparecem principalmente no ensino de Jesus, especialmente como está registrado nos evangelhos Sinópticos. Talvez uma das razões de Jesus ter sido reconhecido tão prontamente como profeta, acima da evidente autoridade com que falava, tenha sido o fato de que o seu ensino era tão frequentemente organizado nos mesmos moldes dos oráculos proféticos do AT. Isso também contribuía para que fossem memorizados com maior facilidade, porém, e mais importante do que isso, torna crível o fato de que passagens que apresentam esse tipo de estrutura preservam — ao menos na tradução — a ipsissima verba de Jesus. Poderíamos dar muitos exemplos, mas alguns serão suficientes, os dois da versão do Sermão do Monte do evangelho de Mateus.

O primeiro é a estrofe em Mt 6.19-21: 

Não acumulem para vocês tesouros na terra,
onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus,
onde a traça e a ferrugem não destroem, e onde os ladrões não arrombam nem furtam.
Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.

Aqui temos paralelismo de sentido, estrutura métrica (a-b-c, al-b'-c\ d-e) e até ritmo (quando se faz a tentativa de traduzir o grego novamente para o aramaico).

O outro é mais breve, mas é interessante porque inclui um quiasmo (Mt 7.6):

Não deem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes [os porcos] as pisarão
e, aqueles [os cães], voltando-se contra vocês, os despedaçarão.
O padrão é a-b-b-a.

E lastimável que algumas das traduções bíblicas mais recentes, que fizeram tanto para tornar visíveis as passagens poéticas do AT, não fizeram o mesmo com o ensino de Jesus nos Evangelhos.

BIBLIOGRAFIA

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Stuart, D. K. Studies in Early Hebrew Meter. Missoula, Montana, 1976.

FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.