2 de março de 2015

F. F. BRUCE - A cronologia do Antigo Testamento

A cronologia do Antigo Testamento
F. F. BRUCE 

A cronologia do AT apresenta muitos problemas e incertezas, e não foi feita tentativa alguma a esse respeito de impor uniformidade aos colaboradores para este comentário.

E impossível fazer afirmações seguras a respeito da cronologia do período antes de Abraão. Na época da elaboração desta obra, é muito cedo para dizer que luz vai ser trazida (ou não) sobre essa escuridão pelos registros descobertos em Tell Mardique na Síria (a antiga Ebla). O próprio Abraão é comumente situado na idade do bronze médio, no início do segundo milênio a.C. (Essa datação, incidentalmente, foi elaborada por uma confiança cega na cronologia de James Usher. Ela traz Abraão à terra prometida no ano de 1921 a.C.)

A permanência dos israelitas no Egito só pode ser datada aproximadamente. Há amplo consenso a favor de colocar o êxodo no século XIII a.C. (preferencialmente ao século XV, que era a data mais aceita na década de 30 do século XX). A referência a Israel na esteia vitoriosa de Merneptá (c. 1230 a.C.) parece indicar que os israelitas chegaram à Palestina nessa época, mas ainda não eram reconhecidos como uma comunidade
estabelecida ali. W. F. Albright interpretou os 430 anos de Ex 12.40,41 como uma contagem segundo a “era de Tánis (c. 1720 a.C.) e por isso datou o êxodo em c. 1290 a.C., no reinado de Ramsés II. Outro exemplo de contagem de acordo com a “era de Tánis” (Zoã) foi identificado em Nm 13.22.

O número de 480 anos dado em lRs 6.1 para o intervalo entre o êxodo e a fundação do templo de Salomão pode ser considerado como o equivalente a 12 gerações.

É difícil construir um esboço cronológico das monarquias de Israel e de Judá com base somente nos dados bíblicos porque o total dos anos reais fornecidos em 1 e 2Reis para os Reinos do Norte e do Sul, desde a morte de Salomão até a queda de Samaria no sexto ano de Ezequias (2Rs 18.10), não conferem. O total para o Reino do Norte durante aquele período é de 241 anos, e para o Reino do Sul, 260 anos. Quando não havia evidências contemporâneas (como as que se tornaram disponíveis com a descoberta de registros egípcios, assírios e babilónicos) com as quais se pudessem comparar esses números, as discrepâncias podiam ser explicadas por meio de períodos interregnos no Reino do Norte ou co-regências no Reino do Sul. Assim, o total do Norte era aumentado, ou o do Sul, reduzido. Atualmente, sabe-se que as co-regências nos dois reinos eram bem mais frequentes do que pode ser inferido somente dos dados bíblicos.

A invasão da Palestina por Sisaque, que ocorreu no quinto ano de Roboão (lRs 14.25), é datada independentemente em registros egípcios e aponta para uma data c. 930 a.C. para o desmoronamento da monarquia. De acordo com isso, o reinado de Davi começou c. 1010 a.C., e o templo de Salomão foi consagrado c. 960 a.C.

A cronologia assíria, desde o início do século IX a.C. até o final do século VII a.C., é registrada com precisão nas listas limmu. O limmu era um oficial designado anualmente e que emprestava seu nome ao ano em que exercia seu ofício (como os “archon” eponímicos em Atenas e os cônsules em Roma). Essas listas possibilitam-nos fixar datas como 853 a.C. para a batalha de Carcar no final do reinado de Acabe (quando ele e outros governantes siro-palestinos resistiram ao avanço de Sal-maneser III da Assíria para o Ocidente) e 841 a.C. como um terminus ante quem para a ascensão de Jeú (que naquele ano homenageou Salmaneser III), junto com datas posteriores como 745 a.C. como o ano de ascensão de Tiglate-Pileser III (2Rs 15.19, 29; 16.7), 721 a.C. para a queda da Samaria (2Rs 17.6), 711 a.C. para a conquista de Asdode por Sargão (Is 20.1), 701 a.C. para a invasão de Judá por Senaqueribe (2Rs 18.13; Is 36.1) e 663 a.C. para o saque de Tebas no Egito por Assurbanipal (Na 3.8-10).

Quando as listas dos limmu são insuficientes, a Crônica Babilónica assume, capacitando-nos a datar a queda de Nínive (Na 3.1ss) em 612 a.C., a batalha de Carquemis (Jr 46.2) em 605 a.C., a deportação de Joaquim (2Rs 24.10-17) em março de 597 a.C., a conquista de Jerusalém por parte do exército caldeu (2Rs 25.3ss) em agosto de 587 a.C., a ascensão de Evil-Merodaque (2Rs 25.27) em 562 a.C. e a conquista da Babilônia por Ciro em 539 a.C. Os anos de reinado dos reis persas, e de Alexandre, o Grande, após eles, estão suficientemente bem estabelecidos para datar com segurança eventos que estão certamente relacionados ao reinado de qualquer um deles.


BIBLIOGRAFIA
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FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.