24 de março de 2015

EUGENE H. MERRILL - Uma Teologia de Ezequiel

Uma Teologia de Ezequiel

Ezequiel, o grande profeta do exílio, entregou mensagens de calamidade e
consolação entre 592 a.C. e 570 a.C., de acordo com a informação cronológica
fornecida por ele.[1] Fora levado ao cativeiro babilónico na segunda onda de deportação em 598 a.C. e evidentemente passara o resto da vida entre os exilados na
Mesopotâmia junto ao rio Quebar.[2] Somente em visão ele voltou ocasionalmente
à pátria para testemunhar que o povo abandonara tragicamente as responsabilidades pertinentes ao concerto, deserção esta que resultou na destruição de Jerusalém
em 586 e na terceira e culminante fase de deportação da população judaica.

Como sacerdote bem como profeta, Ezequiel estava particularmente preocupado com questões sobre o templo e o culto como expressões da relação especial
de Israel com o Senhor. Teve encontros com o Senhor em epifania e teofania,
denunciou incisivamente a liderança religiosa de Jerusalém pelo abuso das estruturas e formas de adoração, lamentou a idolatria que se fazia até mesmo no
templo sagrado e viu a partida da glória do Senhor do templo como equivalente à
sua partida da terra e a quebra do concerto entre Deus e o povo. Por outro lado,
o profeta descreveu a restauração escatológica total de Israel em termos da reconstrução do templo, tema obviamente querido ao coração de um sacerdote.

A frustração das esperanças de uma dinastia davídica contínua ocasionada
pelo colapso do reino de Judá levou a entender que as promessas incondicionais do
Senhor a Abraão e Davi têm de cumprir-se em uma época posterior e pós-exílica.
O surgimento simultâneo de grandes potências imperialistas como a Babilônia e a
Pérsia desestimulou Judá a pensar em recuperar a glória dos dias de Davi e Salomão
por meios ordinários ou no transcurso dos acontecimentos da história comum. O
que era necessário era uma subversão radical das estruturas existentes do governo
humano a favor do reino universal de Deus, sobre o qual o descendente de Davi
reinaria. Isto tem de ser feito pelo próprio Senhor e só nos fins dos tempos, no “dia
do Senhor”, quando todas as instituições humanas cairiam sob o domínio divino.

Este modo cataclísmico de perceber a conclusiva soberania do Senhor e a elevação do povo de Israel como cabeça de todas as nações tem melhor descrição pelo modo
apocalíptico.[3] Podemos usar o termo com referência aos meios pelos quais os propósitos de Deus são alcançados e ao tipo de literatura que os descreve. Considerando que
a descrição apocalíptica, entre outras coisas, dá extensão universal à atividade de Deus
na história (atividade necessária em face da incapacidade e desespero humano), é compreensível que o modo apocalíptico fosse intensificado precisamente no contexto do
exílio. Em nenhuma época, mesmo na queda de Samaria em 722 a.C., as promessas
do concerto estiveram em tamanho perigo, pois até 586 a.C. ainda restavam pelo menos o templo e a realeza davídica. Mas os ataques babilónicos criticaram severamente
estas promessas até que ficou claro que a única esperança de cumprimento estava no
dia escatológico do triunfo final do Senhor.

A mensagem de Ezequiel se expressa em grande parte de forma e imagem
apocalíptica. Temos de admitir que houvera precursores deste procedimento nas
profecias de Joel[4] e Isaías,[5] mas só com Ezequiel a mensagem essencial foi de tema apocalíptico. Daniel, contemporâneo mais jovem e companheiro exílico de Ezequiel, também expressou a esperança de Israel nestas categorias como fez o ilustre
profeta pós-exílico Zacarias. A mensagem do Novo Testamento de consumação
apocalíptica saiu dos lábios do próprio Jesus e alcançou vitória culminante na
visão do apóstolo João em Patmos, o livro do Apocalipse.

A esperança de Israel estava somente no Senhor e não no poder humano. Por
isso, Ezequiel focou a Pessoa e reputação do Senhor de maneira inigualável no Antigo
Testamento. A frase “e sabereis que eu sou o Senhor” e outras semelhantes podem ser
muito bem o tema teológico central do livro.[6] Acima de tudo, Ezequiel estava preocupado em demonstrar que o Senhor não é somente o Senhor de Israel (ou de Judá),
mas também de toda a terra, e que a sua fidelidade às promessas do concerto com os
israelitas comprovará a sua soberania sobre a criação no dia em que ele os defender.
Tudo que ele fez na história, todos os seus atos poderosos no presente e as exibições magníficas da sua glória por vir atestam quem ele é e o que ele fez em todos os lugares,
de forma que todos os homens lhe confessarão a incomparabilidade e singularidade.


DEUS: SUA AUTO-REVELAÇÃO

Este foco central do profeta emerge já no começo do tratado, em Ezequiel 1.13. Em uma das revelações mais impressionantes da glória divina em toda a
Bíblia, o Senhor, em imagem intensamente apocalíptica, manifesta-se ao profeta
no trigésimo ano do profeta, o quinto ano do cativeiro de Joaquim (ou seja, 592
a.C.). Ezequiel afirmou: “Eu vi visões de Deus” (Ez 1.1), visões acompanhadas
por palavra interpretativa (v. 3) e pelo poder capacitador do Senhor (v.3).

Estes três elementos — visão, palavra e mão (ou poder) — apareçam espalhada-
mente nas descrições que Ezequiel fez da sua chamada e da auto-revelação do Senhor.
A visão é a própria mensagem abstrata, a palavra é sua interpretação e a mão (ou poder) é o meio pelo qual a mensagem é eficazmente comunicada. A mão do Senhor em
direção ao profeta significa dar-lhe a garantia da afirmação e capacitação do Senhor.

A epifania do Senhor — a vinda em glória transcendente — na forma de
nuvem parecida com fogo, uma forma característica de tais manifestações em
outros textos bíblicos. Os elementos apocalípticos da epifania constam primeiramente em Ezequiel. Consistem em seres viventes antropóides que têm quatro
asas e quatro rostos — de homem, leão, boi e águia (Ez 1.4-11). Em outros
textos descritos como querubins (Ez 10.1-14,20), é óbvio que estas criaturas representam o Deus invisível.[7] Eram eles que faziam sombra na arca do concerto
no tabernáculo (Ex 25.16-22) e que podem ter sido o trono e os carros no qual
o Senhor figurativamente descansava (SI 80.1; 99.1).

A idéia do querubim como um carro da realeza é sugerida pelo movimento
rápido (Ez 1.12-14) e pela associação com as rodas unidirecionais (Ez 1.15-21).[8]
O espírito de vida das criaturas estava nas rodas, identificando-os assim como
unidade (Ez 1.20). Quando mais tarde Ezequiel teve uma visão da glória de
Deus, ele viu essa glória sobre os querubins, montando como se formassem um
carro (Ez 10.18,19; cf. 2 Reis 2.11,12; 6.17).

Vemos a natureza semelhante a trono dos querubins na descrição que o profeta faz da aparência de “um homem” (Ez 1.26), que estava sentado num trono
sobre as cabeças deles (cf. Ap 1.13). Tal ser de brilho indescritível foi identificado
por “o aspecto da semelhança da glória do Senhor” (Ez 1.28). Quer dizer, é o
Senhor que está entronizado sobre os querubins, que são ao mesmo tempo o seu
carro e o seu trono. Na visão de Ezequiel 10, o profeta observa que “se levantou a glória do Senhor de sobre o querubim para a entrada da casa” (Ez 10.4). Os querubins como um trono são claramente importantes para a sua identificação.

A despeito da complexidade desta visão com todo o simbolismo implícito,
o propósito da epifania é claro: apresentar o Deus vivo de Israel e engrandecer a
sua glória terrível. O povo pecara gravemente contra ele e por isso naquele mesmo momento ainda estavam padecendo no exílio. Agora tinham de encontrar
aquele cuja confiança eles ofenderam e aprender que passos medicinais deviam
ser dados para a restauração.

A visão conduz à palavra, pois a pura epifania, embora inspirasse temor, não
oferece mensagem de redenção ou mesmo de julgamento.[9] Pensando nisto, o Senhor
se revelou em linguagem (Ez 2.1—3.11). Esta é “a palavra que veio” (Ez 1.3; 6.1;
7.1; 12.1; etc.). A mensagem é que ambas as casas de Israel se rebelaram e tinham de
ser confrontadas por esta apostasia. O Senhor encheria o profeta de mensagens (Ez
2.8—3.3; cf. Ap 10.8-11), com palavras de “lamentações, e suspiros, e ais” (Ez 2.10).

O público-alvo inicial não era o remanescente de Judá deixado para trás
em Jerusalém, mas os cativos entre os quais o profeta fazia parte (Ez 3.4-6; cf.
Ez 3.11). O Senhor disse que eles não receberiam a mensagem (Ez 3.7-9), mas o
profeta, como porta-voz de Deus, tinha de falar (Ez 2.8) e divulgar as novidades
fielmente apesar de todos os obstáculos.

A habilidade de Ezequiel fazer isto era muito pequena em vista da intransigência e hostilidade dos ouvintes. Por isso, o Senhor trouxe o terceiro elemento da chamada e comissão — ele colocou a mão sobre ele (Ez 3.14; cf. Ez 1.3; 8.1; 33.22; 37.1). A “mão do Senhor” sempre é uma metáfora do seu poder. [10] Neste caso, a
mão ergueu o profeta (Ez 3.12; cf. Ez 8.3; 11.24; 40.1; 43.5) para transportá-lo ao
lugar onde os cativos moravam (Ez 3.15) e dar-lhe encorajamento apesar da amargura da tarefa (v. 14). Quando se sentiu desanimado pela expectativa da tarefa e do
encargo de ser o guarda do Senhor (w. 15-21), Ezequiel foi novamente reanimado
pela mão de Deus que o elevou (v. 22), revelou-lhe a glória divina (v.23) e prometeu
encher-lhe a boca de palavras quando viesse o tempo da proclamação (v.27).


ISRAEL: VIOLAÇÃO DO CONCERTO

Embora o linguajar técnico do concerto seja esparso em Ezequiel, a noção
do concerto está pressuposta em todos os lugares. As demonstrações epifânicas gloriosas do Senhor servem o propósito de apresentar o Deus do concerto,
o soberano a quem Israel e todas as nações da terra têm de prestar contas. A
hediondez da deserção pecadora de Israel fica ainda mais evidente sob a luz da
glória e majestade do Senhor (cf. Is 6.1-5). O próprio significado da repreensão do Senhor a Israel está na asserção clara de que Israel se rebelou, conceito
que é central ao pensamento do concerto (cf. Ez 2.3-5; 3.5-9,26,27). 

Ezequiel descreveu a desobediência de Israel ao concerto divididos em três
títulos: violação como prostituição, violação como idolatria ou apostasia e violação como quebra da lei ou estipulação. Disse que desde o começo da história
nacional o povo fora caracterizado por infidelidade ao Senhor. O que tinham
feito em tempos recentes era pouco diferente do que os antepassados fizeram no
deserto, nos dias de Moisés (Ez 20.1-32). Em linguagem cheia de conotações
ligadas ao concerto, o profeta detalhou esse relato medonho.

Do dia em que o Senhor os escolhera (v. 5) e afirmara que era o seu Senhor, eles
tinham se rebelado rejeitando os primeiros dois mandamentos do código do concerto
(Ez 20.7,8; cf. Êx 20.2-6). Ameaçara deserdá-los, mas por causa da sua reputação ele
os perdoara (Ez 20.9). Continuaram, porém, quebrando os decretos e as leis, particularmente os sábados, de forma que a geração de adultos morreu no deserto. Tempos
depois, até os mais jovens se rebelaram, ocasionando a promessa do Senhor de um
exílio final para o seu povo e a transformação das bênçãos do concerto em ritual sem
sentido (w.23-25). Portanto, de Moisés até o dia da ruína de Jerusalém, o povo do
concerto recusara submeter-se ao Senhor. Mas da mesma maneira que Zedequias quebrara o concerto com Nabucodonosor e fora castigado por isso (Ez 17.11-15), assim
Israel, tendo se mostrado infiel ao Senhor, sofreria as conseqüências (w. 16-19).

Como já comentado, uma das metáforas da violação do concerto era a
prostituição,[11] uma ilustração desenvolvida detalhadamente em Ezequiel 16.1-59
e 23· 1-49. Na primeira passagem, Israel é mencionado como nativo de Canaã, um descendente dos amorreus e hititas (Ez 16.3). Foi abandonada ao nascer até que
o Senhor teve pena dela, tomou-a para si e lhe tornou sua esposa (ou seja, fez um
concerto com ela, v. 8). Enfeitou-a com um vestuário elegante e suntuoso até que
se tornou célebre em todo lugar por sua beleza (Ez 16.14). Foi então que assumiu
uma vida de prostituição e, em violação dos votos do concerto, correu atrás de
amantes estrangeiros inclusive os egípcios, assírios e babilônios (w. 26-29).

Embora Judá pudesse afirmar que esta acusação só era dirigida a Israel, Ezequiel imediatamente mostrou que Judá era tão culpada quanto à irmã mais velha
que já fora em cativeiro. A verdade é que Judá era pior que a vizinha do norte e até
de Sodoma, ao sul (v. 46). A infidelidade matrimonial que levara tal julgamento
para Israel produziria repercussões mais severas até mesmo para Judá.

Em termos mais vívidos, Ezequiel fala que os dois reinos são irmãs do
Egito, que desde o princípio era prostituta (Ez 23.1-3). Uma irmã (Samaria)
foi chamada Oolá (“a tenda dela”), ao passo que a outra (Jerusalém) era Oolibá
(“minha tenda está nela”). Ambos os nomes indicam a relação do concerto do
Senhor com Israel, especialmente com o Reino do Sul.

Oolá, por causa do galanteio com os assírios, já fora para o exílio (v. 9).
Aprendendo pouco ou nada com isto, Oolibá também se dedicou não só com
os assírios, mas também com os babilônios, violando o concerto com o Senhor para formar alianças com estes povos pagãos. O resultado seria catastrófico.
Judá seria exposto vergonhosamente para o mundo inteiro (v. 29) e beberia do
cálice de deportação da irmã (v. 32). Foi assim por causa da sua prostituição,
uma figura interpretada pelo profeta como profanação do templo e violação do
sábado, quer dizer, repúdio ao concerto como um todo.

A quebra do concerto ocorreu, em segundo lugar, em resultado da idolatria
e apostasia. Estas duas idéias não podem ser dissociadas, porque apostasia é fundamentalmente deserção da verdade. No caso do Israel do Antigo Testamento,
foi um afastamento do Deus vivo e verdadeiro para adorar (ou em conseqüência
de adorar) falsos deuses, em geral representados iconicamente.

No primeiro oráculo relativo à idolatria, Ezequiel fala aos montes, outeiros, ribeiros e vales — lugares onde se faziam adoração ilícita — e prediz a subversão da parafernália religiosa (Ez 6.1-7). As suas práticas abomináveis seriam
dizimadas e os participantes, mortos entre os mesmos ídolos que, obviamente,
não podiam protegê-los (w. 11-14).

Israel adorar ídolos não era apenas um costume, como vemos claramente
em Ezequiel 14.3, onde o profeta escreveu que “estes homens levantaram os seus
ídolos no seu coração”. A apostasia foi completa.[12] Havia esperança, porém, para
o indivíduo que se separasse da idolatria e voltasse de todo o coração ao Senhor
(Ez 14.6). Mas caso persistisse na rebelião e fosse tão longe quanto buscar em um profeta o endosso para a apostasia, o Senhor eliminaria o idólatra e o profeta que
o encorajou a permanecer na incredulidade (w. 7-11). Todo membro da comunidade do concerto, compendiado por Jerusalém, cairia sob o aterrador julgamento
de Deus por causa da infâmia das abominações praticadas (Ez 22.1-5).

A ilustração mais vívida destas práticas detestáveis está registrada em Ezequiel 8.1-18, onde o profeta fala sobre a profanação do templo do Senhor. Ele
fora transportado em visão a Jerusalém (Ez 8.1-3), onde viu, no pátio do templo, “a imagem [...] que provoca o ciúme” (v. 3). A identidade exata desta deidade é desconhecida, embora possa ter sido a deusa Aserá.[13] O fato de provocar
ciúme ao Senhor mostra como lhe era afrontoso, visto que ele se descreveu por
“Deus ciumento” (cf. Ex 20.3), um Deus que não tolera rivais. Mais uma vez
vemos que a violação do concerto é, em primeiríssimo lugar, infidelidade ao
Senhor soberano, pois só Ele tem o direito legítimo de exigir adorar.

Dentro do próprio templo, Ezequiel viu uma multidão de imagens representando toda forma de criatura (Ez 8.7-13). Essa presença era violação direta
do mandamento que proibia a representação de qualquer criatura em forma tangível (Ex 20.4-6). Ezequiel também viu, no lado norte do templo, mulheres
chorando por Tamuz (Ez 8.14,15), o deus sumério-babilônico da fertilidade.[14]
O fato de estar sendo feito junto as portas da casa do Senhor dá a entender não
só idolatria aberta e descarada, mas também a atribuição a Tamuz as bênçãos da
fertilidade que só o Senhor dá. Neste sentido, era violação do mandamento que
proíbe o uso do nome do Senhor de maneira vazia, pois o que deveria ter sido
designado a ele era designado a Tamuz.[15]

Os líderes religiosos de Judá adoravam o sol dando as costas ao templo (Ez 8.16), atitude que comprovava terminantemente a profanação do templo observada por Ezequiel. Prestando homenagem ao sol, apenas parte da criação material de Deus, estes apóstatas eram culpados de quebrar o quarto mandamento,
que exigia que o sábado fosse observado como lembrança que Deus criara todas
as coisas (Êx 20.8-11).

Em total descaso dos grandes princípios do concerto que eles tinham jurado cumprir, o povo de Deus haviam tomado para si outros deuses e feito outras alianças. Não admira que o Senhor levantasse Ezequiel e outros profetas para
confrontar o povo por essa apostasia. Para piorar as coisas, muitos dos próprios
profetas conduziram ao caminho do declínio espiritual. É verdade que na maioria dos casos eles eram autodesignados portas-vozes sem terem a mensagem do
Senhor (Ez 13.1-7). Tinham tampado as rachaduras dos muros de segurança
do concerto de Israel, muros que estavam em desintegração (v. 10), anunciando
paz onde não havia paz (v. 16). Por fim, estes charlatões, com todos os instrumentos de adivinhação, seriam expostos ao que verdadeiramente são — cegos
que guiam cegos — e cairiam na arruinar (w. 8,9, 17-21).

Por fim, a quebra do concerto se manifestou em desobediência simples às
estipulações do concerto. O Senhor repreendeu o povo com a acusação: “Nos
meus estatutos não andastes, nem executastes os meus juízos; antes, fizestes
conforme os juízos das nações que estão em redor de vós” (Ez 11.12). A referência aos “estatutos” e “juízos” traz à lembrança as múltiplas estipulações dos
textos do concerto mosaico às quais Israel jurara obediência (Ex 19.8).

Exemplos específicos destes estatutos aparecem em Ezequiel 22.6-12. O
profeta acusou o povo de descuido das leis relativas ao homicídio, respeito aos
pais, cuidado dos vulneráveis e abandonados, profanação do sábado e fornica-
ção e adultério, entre outras coisas. Tudo isso, disse ele, mostrava que Israel se
esquecera de Deus (Ez 22.12). Será que um povo que se esquece destas coisas
pode esperar ser abençoado pelo Senhor? Será que pode manter a esperança de herdar a terra (Ez 33.23-26)?


DEUS: SUA PROCLAMAÇÃO

Proclamação relativa a Israel. Deus, revelado em teofania e epifania como
o Soberano glorioso de Israel, levara o servo Ezequiel a chamar a atenção à relação do concerto que ligava o Senhor ao povo e atenção às violações notórias
dos mandamentos divinos. E importante examinarmos em detalhes a resposta
de Deus a essa infidelidade ao concerto. Essa resposta toma a forma de quatro
temas principais: julgamento, remanescente, restauração e realeza messiânica.
Em primeiro lugar, veremos cada um destes temas somente com referência a
Israel. Em seguida, faremos breve análise das mensagens de Deus às nações da
terra, porque elas também têm de prestar contas a ele.

A Mensagem de Julgamento. Julgamento é um tema dominante em todos
os profetas de Israel. Mas ninguém excede Ezequiel na abundância e intensidade
das mensagens de punição divina. Nenhum profeta reitera tanto quanto Ezequiel
os propósitos pedagógicos das visitações do Senhor: “E [Israel e as nações] saberão
que eu sou o Senhor”. O julgamento, então, não é apenas punitivo, mas redentor.
O propósito de Deus no julgamento não é destruir as nações que Ele criou, mas
colocá-las de volta em harmonia com os propósitos iniciais quando Ele as criou.

Já a primeira palavra de Ezequiel é de julgamento (Ez 4.1-3). Por meio de
representação teatral, o profeta recebeu a ordem divina de colocar um prato de
ferro entre ele e um desenho da cidade de Jerusalém, representando o sítio iminente da cidade que os babilônios fariam. Esta é a primeira fase do julgamento.
Depois, ele tem de deitar-se no lado esquerdo por 390 dias e no direito por 40
dias, indicando a extensão da apostasia de Israel e de Judá, respectivamente, e
oferecer em si mesmo esperança de fuga das conseqüências (w. 4-8).[16]

O sítio produziria, no próximo passo, fome e escassez (w. 9-17). Seria
tão severa a privação que excremento humano seria usado como combustível
para assar pão. Com a devida aversão, o profeta objetou veementemente a este
afastamento total das rígidas exigências da lei dietética (Ez 4.14; cf. Lv 11; At 10.14). Em um gesto de graça, o Senhor condescendeu e permitiu o uso de
esterco de vaca no lugar de excremento humano. Era também cerimonialmente
imundo, mas relativamente menos. A lição é óbvia. O julgamento era inevitável e seria severo, mas mesmo no julgamento havia motivo para esperança no Deus
que se deleita na misericórdia.

O julgamento do sítio abriria caminho para o julgamento da destruição.
Foi o que ocorreu, como bem sabemos, em 586 a.C., sendo assistido por fogo,
espada e exílio. O agente humano da ira de Deus foi Nabucodonosor, rei da Babilônia, que chefiou os exércitos conquistadores para o ocidente uma vez após
a outra até que ele, na pessoa do chefe Nebuzaradã, capturou Jerusalém e a arrasou. A descrição deste fato em Ezequiel é o assunto do capítulo 21. O Senhor
fala especificamente que o rei da Babilônia é a sua “espada” (Ez 21.3; cf. Ez 21-911,19), o instrumento que ele controlou a tal ponto que todas as nações
têm de reconhecer (Ez 21.5). O povo de Judá poderia não fazer caso da espada
(Ez 21.13), mas de nada adiantaria, pois ela realizaria os propósitos destrutivos.
Só então ela seria retirada da matança e voltaria à bainha (w. 17,30).

A espada da conquista também aparece na dramatização na qual Ezequiel
cortou os cabelos, queimou um terço, feriu um terço à espada, espalhou um
terço ao vento, exceto uma sobra que estava queimado (Ez 5.1-4). O significado
é claro: “Uma terça parte de ti morrerá da peste e se consumirá à fome no meio
de ti; e outra terça parte cairá à espada em redor de ti; e a outra terça parte espalharei a todos os ventos e a espada desembainharei atrás deles” (v. 12). Tudo
foi feito visando um propósito: Eles “saberão que sou eu, o Senhor, que tenho
falado no meu zelo” (v. 13).

O julgamento do fogo, descrito nesta passagem, ressoa com mais detalhes
em Ezequiel 15· Em outros textos, Israel aparece no Antigo Testamento sob a
metáfora da vinha (SI 80; Is 5.1-7; Jr 2.21; Os 10.1). E singularmente apropriado falar da sua destruição como a de um pedaço de madeira inútil. Já quebrado
e arruinado como a madeira estava por causa das depredações assírias e babilónicas na história recente, era de pouca ou nenhuma utilidade. Quanto menos
proveitoso seria depois de ter sido consumido na ira incandescente do julga-
mento divino (Ez 15.5). Esta parábola de Jerusalém torna clara a inutilidade
dos seus cidadãos desobedientes. Eles pereceriam nas chamas da punição, mas
mesmo assim surgiria algum bem, pois “sabereis que eu sou o Senhor’ ’ (v. 7).

Uma metáfora semelhante consta em Ezequiel 20.45-49. Judá (“o Sul”)
é comparado a uma floresta na qual toda árvore viva seria devorada pelo fogo
inextinguível. Mais uma vez a verdade sublime ecoaria muito claramente: é o
Senhor que fizera tal julgamento e não a poderosa Babilônia. Na morte como
também na vida ele demonstra a Soberania sobre todas as coisas.

As conseqüências mais devastadoras do fracasso de Judá em cumprir o
concerto foram, sem dúvida, o despovoamento ocasionado pelo exílio. Praticamente toda a liderança política e religiosa da nação foi desarraigada e forçada
a ir ao cativeiro infame junto com os recursos culturais, físicos e materiais que
controlava. Enquanto houvesse um remanescente do reino com qualquer descendente de Davi no trono haveria esperança. Agora Jerusalém, o centro do
foco teocrático, estava em cinzas e o seu fraco governante Joaquim mofava no encarceramento babilónico. O exílio comprovara eficazmente a finalidade da
quebra do concerto, pois como a promessa podia ter significado fora da terra
da promessa?

A cena na qual Ezequiel profetizou o exílio cortando os cabelos (Ez 5.12)
é detalhada em outras passagens em que a devastação e a deportação vão de
mãos dadas. O texto de Ezequiel 11.1-12 diz, em termos vívidos, que a cidade
de Jerusalém é uma panela e seus habitantes, a carne (Ez 11.3). A panela seria
esquentada, mas nem todo o povo permaneceria para ser “cozinhado”. Mais
exatamente, os que fugissem da cidade iriam ao encontro do castigo pela espada. Nem todos morreriam, claro, pois alguns, inclusive o rei Zedequias, terminariam os dias na Babilônia (Ez 12.11-13; cf. Jeremias 39.4-7). Outros seriam
espalhados da Babilônia aos confins da terra (Ez 12.14). Só um remanescente
sobreviveria para declarar às nações que o Senhor é Deus (v. 16).

Empregando mais uma vez a figura da vinha, Ezequiel compara Israel a
uma planta enraizada em solo fértil e de produção abundante (Ez 19.10-14).
Entre outros frutos, produziu cetros reais, reis e príncipes de poder e renome.
Violentamente desenraizada por causa do pecado, a vinha agora lutava pela sobrevivência na terra seca e estéril do exílio. Já não podia produzir ramos de reis
para reinar sobre o povo do Senhor (Ez 19.14).

Ezequiel resume a mensagem de julgamento na linguagem fortemente
apocalíptica do “dia do Senhor”.[17] Embora não esteja tão profundamente desenvolvida aqui quanto nos escritos dos outros profetas, a idéia desse dia como
dia de intervenção cataclísmica pelo Senhor é inconfundível. O tema se expressa
mais longamente no capítulo 7 de Ezequiel.

Primeiro, Ezequiel, falando da iminente conquista babilónica de Jerusalém, a intitula de “o fim” (Ez 7.2,3,5,6). Para a nação do concerto, esta palavra
comovente deve ter sugerido não apenas o fim da atual existência política da
nação, mas também o fim da graciosa relação redentora de Deus com ela. Pelo
visto, até Ezequiel compartilhava desta visão pessimista, pois quando Pelatias,
príncipe de Judá, morreu, o profeta perguntou: “Darás tu fim ao resto de Israel?” (Ez 11.12). O desânimo desta palavra terrível não foi aliviado pela elaboração nos versículos seguintes. O fim seria um dia de destruição (Ez 7.7), um
tempo em que o Senhor derramaria a sua ira sem piedade (v. 9).

A cidade já estava sitiada, portanto o dia do Senhor já estava presente. Era
tarde demais para a vida cotidiana prosseguir como sempre. Tratava-se de uma
conclusão necessária que as rotinas da existência dos cidadãos de Jerusalém seriam dramaticamente revertidas e que nenhum indivíduo permaneceria intacto.
Como falou o profeta, o sítio estava em andamento e a fome e a praga começavam a avançar lentamente. Todas as riquezas do povo não teriam a menor serventia. Não dava de comer os metais preciosos e, em todo caso, quando o dia da
ira atingisse o clímax, tudo que tinham os hierosolimitas acabariam perdendo
para os captores. O pior de tudo é que os saqueadores babilônios invadiriam o
recintos sagrados do templo, profanando-o e saqueando-o (Ez 7.21,22).

O resultado seria a desapropriação das propriedades, a profanação dos santuários, o silêncio dos profetas, sacerdotes e anciãos, e a humilhação da casa do
rei. Só depois que este terrível dia do Senhor tivesse vindo e passado é que o
povo saberia que Ele é o Senhor (v. 27).

Embora a nação como um todo fosse culpada da violação do concerto
e fosse julgada como entidade coletiva, a mensagem do profeta foi endereçada especialmente aos elementos da população que, como indivíduos,
eram particularmente culpáveis. Em outras palavras, Ezequiel começou,
pela primeira vez, a articular em termos inconfundíveis o princípio de que
o indivíduo é responsável pelo próprio pecado e tem de arcar sozinho com
as conseqüências.

Ezequiel principia o ensino sobre esta verdade importante citando um provérbio antigo: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (Ez 18.2). Este ditado, acrescenta o profeta, já não seria citado durante
o dia do julgamento de Deus, pois “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4; cf. Rm 6.23). Ezequiel ilustra o ponto, declarando que o homem que fielmente
observa os estatutos do concerto do Senhor, desta forma demonstrando a sua
justiça, viverá (Ez 18.5-9). Em linha com a teologia soteriológica do Novo Testamento, tal pessoa “viverá da fé” (Rm 1.17; cf. Hb 2.4). Se tal homem tivesse um filho mau e incrédulo, esse filho, apesar do parentesco com um pai temente a Deus, pereceria pelo seu descaso aos mandatos de um Deus santo (Ez 18.10-13). Se ocorresse o contrário — um pai mau tivesse um filho temente a Deus —, esse descendente temente a Deus náo seria condenado por causa da perversidade do pai (w. 14-18).

Este princípio, embora claro desde o princípio da revelação do Antigo
Testamento, fora sufocado na distorção do conceito de solidariedade pertinente
ao concerto. Israel entrou coletivamente em relação de concerto e, de modo coletivo, tinha de servir ao Senhor como povo vassalo. Mas, como Ezequiel (aqui e
em Ez 33.10-20) deixou perfeitamente claro, o coletivo consiste em indivíduos. A
nação é inocente ou culpada na medida em que os seus cidadãos o são. O injusto
que se volta à justiça viverá (Ez 18.21), mas o justo que se volta à maldade morrerá
(v. 24). Naquele dia da ira, o justo individual será defendido diante do Senhor.

Especialmente selecionados para a condenação são os idólatras cujos corpos
mortos seriam espalhados em volta dos seus ídolos e altares (Ez 6.1-7,11-14). Estes
seriam reconhecidos como indivíduos e, como indivíduos, dariam conta de si e da sua
apostasia. Aqueles que Ezequiel vira em visão no templo de Jerusalém e pela cidade e
que participavam nas práticas abomináveis que ele descreveu (Ez 8.6-17) sofieriam a
punição impiedosa de Deus, dos anciãos para baixo (Ez 9.5,6). Aqueles, porém, que
se recusaram a participar e que lamentavam as transgressões dos seus concidadãos
receberiam uma marca na testa identificando-os como indivíduos justos (w. 4,6).

Os líderes de Israel, tanto as autoridades religiosas quanto as políticas,
tiveram uma responsabilidade particular e extremamente grande, pois através
de suas iniciativas e exemplos fixaram o curso de ação para a vida da nação.
A mensagem de julgamento foi concentrada neles de modo mais aguçado e
intenso do que no indivíduo comum. Por exemplo, quando alguém se voltava
para a idolatria e buscava apoio ou endosso profético para a sua adoração
aberrante, o profeta que colaborava era tão culpado quanto aquele que buscava os seus serviços. Ambos têm de arcar com as conseqüências (Ez 14.7-11).

Os sacerdotes maus também tinham de esperar o desgosto divino. “Entre o santo e o profano não fazem diferença”, disse o Senhor (Ez 22.26), e
fecharam os olhos à corrupção da fé pertinente ao concerto. Igualmente culpados eram os “pastores de Israel”, quer dizer, os reis e outros líderes políticos.
Tinham deixado de apascentar o rebanho e só se preocupavam com o próprio
bem-estar (Ez 34.2). Não resgatavam as ovelhas fracas e desgarradas, mas, antes, as brutalizavam. As ovelhas estavam espalhadas e indefesas contra os animais selvagens dos campos e das montanhas (Ez w. 5,6). Os pastores inúteis
não ficariam impunes. Seriam responsabilizados por não cuidar do rebanho de Deus e perderiam o privilégio como sub-pastores do Senhor (w. 9,10).

O julgamento é nitidamente um componente principal na teologia de Ezequiel. O povo de Deus pecara contra a soberania onipotente a quem prometeram fidelidade perpétua relacionada ao concerto. Violaram os termos do concerto pela
idólatra e atitudes apóstatas e pelo repúdio aos direitos que diziam ter sobre eles.
Tinham de esperar as maldições que acompanham tamanha deserção notória do
concerto. Mas o indivíduo justo — que amava e servia ao Senhor apesar do curso
da nação como um todo — encontraria salvação no dia do Senhor.

Mas será que o julgamento seria o fim do assunto? As promessas de Deus
não eram incondicionais e eternas? Realmente eram, por isso o profeta Ezequiel
se voltou à mensagem de redenção, a palavra que anuncia haver esperança gloriosa de restauração no meio da calamidade e exílio.

A Mensagem do Remanescente. A garantia de restauração dizia era que nem
todo Judá seria destruído. Um remanescente sobreviveria e se tornaria o núcleo em
torno do qual as promessas do Senhor relacionadas ao concerto continuariam.

O ensino relativo a um remanescente não se originou em Ezequiel, mas
claro que o profeta do exílio acrescentou a sua contribuição. Em Ezequiel 6.8-
10, ele mostra que o Senhor pouparia algumas pessoas do povo durante o dia
da ira e que no cativeiro, longe de casa, eles se lembrariam dele. Perceberiam
finalmente que o julgamento que lhes sobreviera fora ocasionado pela idolatria
apóstata, e tendo se dado conta disso, eles se arrependeriam profundamente.
Entenderiam que a situação aflitiva há muito fora ameaçada e que tinha o objetivo de levá-los a este ponto: “E saberão que eu, o Senhor” (Ez 6.10).

O mesmo sentimento é expresso em Ezequiel 14.21-23. Depois que o Senhor
trouxera espada, fome, animais selvagens e pragas a Jerusalém — desta forma, dizimando a população —, alguns sobreviveriam para dar testemunho ao profeta de que há esperança no meio do desespero. O remanescente que sobrevivesse se tomaria o
catalisador em tomo do qual a promessa de restauração e glória futura se realizaria.[18]

A Mensagem de Restauração. O maior ato de redenção na longa história
de Israel foi o êxodo. Neste acontecimento grandioso, Deus libertara os descendentes dos patriarcas da escravidão a um soberano hostil no Egito e os levara
ao monte Sinai, onde foram constituídos como a nação do concerto, um “reino
sacerdotal” (Ex 19.6), cuja lealdade agora tem de ser exclusivamente a ele.

Como marco decisivo da vida nacional de Israel, este complexo de salvação
se tornou o paradigma da graça salvadora de Deus permanente e futura a favor
dos israelitas. Quando a necessidade de libertação surgia ocasionalmente, os
profetas relembravam o êxodo como ponto de referência, no qual se fundamentava toda libertação futura. Na realidade, o tema integrativo de Isaías 40 a 66 é o
segundo êxodo que o Senhor efetuaria para salvar os israelitas da Babilônia — o
“segundo Egito” — e os traria de volta à terra da promessa.[19]

Ezequiel também utilizou extensivamente este tema, em nenhuma parte
mais incisivamente que em Ezequiel 20.33-44. Em uma inversão de imagem,
o Senhor diz que Ele guiará o povo ao deserto da escravidão egípcia (aqui, o
deserto das nações, Ez 20.35), onde os julgará pelos pecados cometidos.[20] Aqueles que se rendessem à sua graça disciplinar, ele faria um concerto com eles
como fizera no Sinai. Os que se rebelassem, não entrariam na terra da promessa.
Quando este segundo êxodo acabar e o povo do novo Israel estiver na terra, eles
confessarão diante de todo o mundo que Ele é o Senhor (Ez 29.42) e oferecerão
a si mesmos e as suas dádivas a Ele como expressões de adoração e louvor.

Por meio de outra metáfora, a do pastor e das ovelhas, o Senhor compara
o reajuntamento e restauração de Israel ao pastor que vai por todo lugar em
busca do rebanho espalhado (Ez 34.11-16). Pouco importando aonde forem, o
Senhor as trará de volta ao aprisco, quer dizer, à terra da promessa. Lá pastarão
em pastagens férteis e abundantes sob o olhar vigilante e beneficente do Senhor.
Quer estejam perdidas, feridas e doentes, ele lhes ministrará em justiça.

Os temas do reajuntamento como ovelhas e do concerto se unem em Ezequiel 34.25-31. O Senhor promete fazer um concerto de paz com as ovelhas reunidas. Este não é o concerto que fez delas o seu povo, mas a promessa solene de
preservá-las e abençoá-las como o seu povo.[21] Assim, jamais precisam ter medo
dos animais selvagens, e podem depender do Senhor para lhes dar a abundância
de bênçãos (Ez 34.26). As árvores e a terra produzirão com fartura, os poderes
hostis nunca ameaçarão e jamais serão causa de medo. Elas serão as ovelhas do grande e bom pastor. Serão o seu povo e elas serão o seu Deus (v. 31).

O aumento da população do povo de Deus acompanhará o aumento da
prosperidade da terra (Ez 36.10,11). Falando às montanhas de Israel, o Senhor
promete cobri-las mais uma vez de homens e animais e torná-las para sempre
a herança de Israel. A terra, que para as nações vizinhas era uma devoradora de
habitantes, nunca mais agiria assim, e o povo, uma vez restabelecido, nunca
mais será desarraigado (Ez 30.14,15).

A comunidade redimida reconstruirá as cidades destruídas e replantará os
campos abandonados (Ez 36.33,34). Como nova criatura, Israel se assemelhará
ao jardim do Eden. Quando tudo isso acontecer, as nações ao redor se maravilharão e saberão sem dúvida que o Senhor, o Deus de Israel, fez estas coisas pelo
seu poder (Ez 36.36). Esta também será a confissão de Israel, o povo redimido
(v. 38).

A restauração se tornará ocasião para a demonstração do poder e fidelidade
soberana do Deus de Israel. Acontecerá não apenas para o benefício do povo, mas
antes de tudo como meio de educar as nações acerca de quem o Senhor é e o que
Ele exige delas. O reajuntamento de Israel fará com que o Senhor seja reverenciado entre o povo de tal modo a atrair as nações (Ez 28.25) e Israel seja protegido quando
o Senhor exigir a prestação de contas destes vizinhos insubmissos (v. 26).

Mais importante até que as novas habitações e a nova prosperidade será
o coração novo e espírito novo que acompanharão o estabelecimento do novo
concerto entre o Senhor e o Israel reconstituído. Este conceito é central ao que
Ezequiel entende por restauração, formando a ligação entre a expressão dessa
restauração nos tempos históricos e pós-exílicos e os tempos do novo concerto
em Cristo, tanto hoje quanto nos fins dos tempos. A restauração no sentido
físico e material durante o reinado de Ciro foi importante. Mas somente tipificava a abundância da restauração a ser realizada pela obra redentora do Espírito
que restabeleceria o povo eleito através de uma regeneração totalmente nova.[22]
As antigas promessas permaneceriam intactas assim como permaneceriam as
exigências relacionadas ao concerto do povo-servo. As diferenças seriam que o
povo teria um coração novo e um poder novo que o capacitaria a cumprir sem
falta a responsabilidade de guardar o concerto.

Evidências de tudo isso emergem de muitas e diversas passagens em Eze-
quiel. E melhor examinarmos primeiro a promessa do novo concerto e depois
vermos como esse concerto se manifesta em um coração novo e um espírito
novo. Em seguida, será instrutivo vermos como a comunidade redimida e recriada vivenciará futuramente a existência histórica e escatológica.

Ezequiel 16.60-63 deixa claro que o Novo Testamento está integralmente
relacionado e emana do Antigo Testamento (ou seja, o concerto no Sinai). Falando com Judá como filha promíscua e infiel, o Senhor diz: “Contudo, eu me lembrarei do meu concerto que contigo fiz nos dias da tua mocidade; e estabelecerei
contigo um concerto eterno” (Ez 16.60). Como recebedor central deste concerto
de graça, Judá estará em posição de mediar a salvação para as suas irmãs teimosas,
Sodoma e Samaria (Ez 16.61; cf. Ez 16.53,54). O Senhor tomará a iniciativa neste
concerto perpétuo, porque só Ele faz expiação pelo povo para que fiquem livres
para sempre da infâmia do pecado (Ez 16.63; cf. Jr 31.31-34).

A razão para esta transformação extraordinária está na natureza do concerto e seus benefícios. Será feito com um povo que, apesar de degradarem o nome
santo, o Senhor os remirá do cativeiro por causa do seu nome e não do deles
(Ez 36.22). De todas as nações da terra (não apenas a Babilônia e, portanto,
não somente nos tempos do Antigo Testamento), os israelitas irão para a Terra
Prometida. Lá serão limpos de toda a impureza, receberão um coração novo e
receberão o próprio espírito de Deus que os capacitará a cumprir o concerto
perfeitamente (w. 24-27). Novamente o Senhor fala: “Não é por amor de vós
que eu faço isso, diz o Senhor Jeová; notório vos seja” (Ez 36.32). E para a sua
glória e por causa da sua reputação que o Senhor cumprirá esta promessa antiga
ao povo de fazer concerto com eles para sempre.

O coração novo de carne impedirá para sempre que o povo reunido sucumba novamente à idolatria (Ez 11.18). Voltarão à terra e removerão dela todo
vestígio da adoração pagã, porque terão lealdade indivisa ao seu Deus (v. 19).

Não há dúvida de que o novo concerto envolve um coração novo e um espírito novo, mas tal concerto está profundamente enraizado na história e Terra
Prometida.[23] A promessa para Abraão era incondicional e incluía em seus benefícios uma herança geográfica — na verdade, não um território qualquer, mas
especificamente a terra de Canaã (Gn 12.1,7; 13.15-17; 15.18,19; 17.8). E essa
terra que está em vista ao longo das perspectivas históricas e escatológicas de
Ezequiel, pois a menos que a terra seja o foco do cumprimento do concerto de
Deus as antigas promessas perdem a significação planejada para elas.

Em todo o Antigo Testamento, a junção do novo concerto com a terra
renovada está mais bem explicada em Ezequiel 37. O profeta conta a visão que
teve de um vale cheio de ossos secos, os ossos secos de pessoas mortas há muito
tempo. O Senhor lhe disse que informasse estes ossos que o Espírito de Deus
entrará neles e os reavivará de volta à vida. Quando isso acontece, Ezequiel fica
espantosamente admirado e, em um instante, os esqueletos se enchem de carne
e tendões e um ser vivo — de fato, um exército — se põe de pé.

A interpretação é dada. Estes ossos são Israel, morto em pecado e no exílio.
O reavivamento é o ato gracioso de Deus reavivar o povo e estabelecê-lo de volta
na Terra Prometida.[24] Este é um povo, Israel e Judá, pois não será apenas Judá que voltará do exílio babilónico (Ez 37.15-17). Quer dizer, este é o Israel escatológico, a nação reunida desde os confins da terra nos últimos tempos (v. 21). O
povo de Israel se tornará um povo na terra e terá somente um rei, o descendente
de Davi (v. 24). Nunca mais os israelitas cairão na desobediência idólatra, porque são um povo limpo que para sempre permanecerá assim.

A linguagem apocalíptica destes “textos da restauração” e da própria história
ensina que o reajuntamento e a reconstituição de Israel acontecerão nos tempos
escatológicos. Embora em certo sentido a metáfora dos ossos secos se cumprisse no
retorno dos judeus do exílio babilónico, a atenção ao contexto geral de Ezequiel 37,
inclusive os capítulos 38 e 39, deixa claro que em nenhum momento na história
todas as condições ocorreram para dar para à profecia cumprimento completo.

Por outro lado, a presença contínua de nações más com a sua hostilidade
constante ao Senhor e ao seu povo impede que estas passagens tenham referência ao estado eterno, aquele dia do domínio inigualável de Deus. E necessário,
em linha com a sã exegese histórico-gramatical como também com a contextualização do Antigo e do Novo Testamento, situar estes textos no milênio. Este
será um tempo de transição, no qual todas as promessas do Senhor a Israel se
cumprirão e o reino eterno se iniciará.[25]

Uma base para fundamentar a restauração de Israel no período do milênio
é, como já dissemos, a mensagem claramente escatológica de Ezequiel 38 e 39.
O profeta descreve uma invasão de Israel, “a terra das aldeias não muradas” (Ez

38.11) , pela coalizão de poderes hostis chefiados por “Gogue, terra de Magogue, príncipe e chefe de Meseque e de Tubal” (Ez 38.2).[26] Este chefe espantoso virá “das bandas do Norte” (Ez 39.2) com um exército enorme. Não virá totalmente por vontade própria, mas como instrumento do soberano Senhor de Israel (Ez 38.4). O propósito é óbvio: o Senhor usará as nações de homens para obter a sua autoglorificação (Ez 38.16,23; 39.7,21,27,28).

Conforme Gogue for se aproximando da terra santa, se juntarão a ele a Pérsia, Etiópia, Pute, Gomer e a casa de Togarma. Juntos cercarão o povo indefeso de Israel, que voltou de todas as nações da diáspora para viver em paz e segurança na terra da promessa. A intenção das nações atacantes será saquear a terra, despojá-la de todas as riquezas que seus cidadãos acumularam no exílio e na volta do exílio.

Nada disso causará surpresa ao Senhor, porque há muito tempo ele profetizou que isto aconteceria (Ez 38.17; cf. Is 5.26-30. 34.1-7; 63.1-6; 66.15,16; J1 3.9 -14). Predisse também que os saques maldosos de Gogue fracassariam. Com o julgamento cataclísmico, o Senhor sacudirá toda a criação e todos os povos da terra tremerão de medo. Com intervenção direta, ao estilo de guerra santa, o guerreiro divino desde os céus derramará a sua ira e derrotará os que buscam fazer mal à nação eleita (Ez 38.22).

Quando os cadáveres de Gogue e seus aliados estiverem espalhados
pelos montes e planícies da terra santa, o povo da terra verá nessa aniquilação o poder e glória impressionante do Senhor — “e saberão que eu sou o
Senhor” (Ez 39.6). Em reversão dramática dos acontecimentos, os protegidos de Israel usarão como combustível as próprias armas dos inimigos (w. 9,10). Será tão vasta a carnificina que o povo da terra levará sete meses para
enterrar os mortos. As aves e animais de rapina serão arregimentados para
ajudar na tarefa de limpar a terra da carne em deterioração dos mortos em
batalha. Como um sacrifício enorme os cadáveres do exército servirão de alimento para estas criaturas que se alimentam de carne putrefata até ficarem
mais do que satisfeitas.

O propósito de tudo isso é claro. Israel fora ao exílio por causa do seu pecado (Ez 39.23,24), mas fora trazido de volta e libertado da destruição por causa da compaixão de Deus. Este poderoso ato de redenção resultará em uma metamorfose espiritual, uma mudança de coração que levará Israel esquecer-se da infidelidade passada e entender profundamente que Ele é o Senhor, o seu Deus (Ez v. 28). Isto transcende muitíssimo o retorno do exílio babilónico ou de qualquer outro da história, como está claro pela promessa do Senhor: “[Não] esconderei mais a minha face deles, quando eu houver derramado o meu Espírito sobre a casa de Israel” (v. 28).

Não podemos diferenciar este derramamento do Espírito do fraseado semelhante de Ezequiel 36.26,27, onde o Senhor afirma: “E vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo. [...] E porei dentro de vós o meu espírito e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”. Os capítulos 36 e 39 descrevem esta obra regeneradora do Espírito no contexto da restauração dos dispersados de Israel à Terra Prometida, uma restauração expressa no linguajar da intervenção cósmica e escatológica do próprio Deus (Ez 36.29,30,34-36; 39.3,21-24).[27] Esta não é descrição dos que voltaram para a terra do registro histórico, incluindo os que voltaram sob a tutela de Zorobabel e Esdras. E uma restauração de tamanha natureza radical e cabal que só pode ser situada no dia do Senhor, o dia final do estabelecimento da soberania do seu Reino.

A Mensagem da Realeza. Isto tem apoio em Ezequiel 17.22-24, onde o Senhor diz que tomará uma muda de cedro real e a plantará em um alto monte. O broto diminuto vai dar uma árvore gigantesca, tão impressionante que todas as outras árvores se maravilharão por Deus fazer tanto com tão pouco. Nesta parábola está a verdade de que o remanescente de Israel será plantado na terra e se tomará tão poderoso que vai superar a nação da qual saiu. Isto só pode se referir ao Israel escatológico.

Temos evidências adicionais em textos que falam da renovação da realeza
davídica nos últimos dias. Em denúncia amarga de Zedequias (Ez 21.24-27), o
profeta clamou que o seu dia chegara, o dia no qual ele tinha de abdicar e entregar o trono. No seu lugar estará um homem humilde que será exaltado, um
sacerdote-rei a quem com justiça pertence o reino. Esta última frase (v. 27) relembra a bênção de Jacó a Judá: “O cetro não se apartará de Judá, nem o bastão de comando de seus descendentes, até que venha aquele a quem ele pertence, e a ele as nações obedecerão” (Gn 49.10, NVI). Que este texto messiânico se refere a Davi e à dinastia davídica é quase universalmente entendido.[28]

Em uma seção que descreve a restauração de Israel em termos de ajuntamento de ovelhas (Ez 34), o profeta diz nas palavras do Senhor: “E levantarei sobre elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as há de apascentar; ele lhes servirá de pastor. E eu, o Senhor, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas” (w. 23,24). De certo modo, é Jesus, o bom Pastor e o Filho de Davi, que está em vista aqui. Mas a orientação escatológica da passagem remove o cenário do período do ministério terreno de Jesus no século I para o cenário do segundo advento, quando Ele voltará para assentar-se no trono de Davi. Em outras palavras, o profeta olhou para o reino milenar, cuja elaboração plena fica evidente no apocalipse do Novo Testamento (Ap 20.4-6).

Um exemplo até mesmo mais extraordinário da dimensão escatológica do
reino é a passagem de Ezequiel 37.24-28. Continuando na ilustração do pastoreio, o profeta fala de Davi como rei, da plena conformidade com os decretos do Senhor pertinentes ao concerto e da ocupação perpétua da Terra Prometida. Mais interessante é a promessa do Senhor: “E porei o meu santuário no meio deles para sempre. E o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Ez 37.26b,27).

A ênfase no santuário como lugar de habitação de Deus entre o povo leva
logicamente a uma breve consideração sobre Ezequiel 40 a 48. Aqui o profeta
fala em muitos detalhes sobre o templo que será construído nos últimos dias.
O santuário (ou seja, o templo) já foi identificado como sinal da presença de
Deus entre o povo (Ez 37.26,27). Agora Ezequiel, que testemunhou em visão o
padrão e construção do templo por vir, observa que “este é o lugar do [...] trono
[de Deus] e o lugar das plantas dos [...] pés [de Deus]”. O Senhor prometeu: “E
[...] onde habitarei no meio dos filhos de Israel para sempre” (Ez 43.7).

O templo como lugar da habitação do Senhor será a fonte de bênçãos para o mundo inteiro. Desta fonte, águas de refrigério curativo fluirão, de forma que “viverá tudo por onde quer que entrar esse ribeiro” (Ez 47.9). Este é um quadro das bênçãos milenares, quando os desertos florescerão como a rosa e as fontes brotarão na terra seca e sedenta. Em torno do templo estarão as partilhas de terra das tribos. Os antigos limites da promessa entrarão em vigor (Ez 47.15-20), e nesses limites as tribos tomarão seus respectivos lugares (Ez 48.1-29). O templo estará no meio da cidade que, por sua vez, estará entre as partilhas de Judá e Benjamim. Assim se cumprirão as promessas do concerto davídico sobre o Príncipe que sairá de Davi para reinar eternamente sobre o povo de Deus. Não admira que o nome da cidade venha a ser conhecido desde
então por Yahweh shammah: “O Senhor Está Ali” (Ez 48.35).

Proclamação relativa às nações. A segunda metade de Ezequiel começa
no capítulo 25 com uma série de oráculos dirigida às nações circunvizinhas de
Israel. Em linha com os oráculos dos outros Profetas Maiores (e muitos dos
Profetas Menores também), estas mensagens não só revelam a preocupação do
Senhor pelo povo do concerto, mas também pelo mundo inteiro. O Deus de
Israel também é o Deus das nações. Na realidade, a escolha de Israel tinha o
propósito expresso de fornecer por ele um povo-servo que mediaria a salvação
do Senhor a todo o gênero humano. 

O primeiro oráculo na série diz respeito a Amom, a nação imediatamente a leste da Palestina central (Ez 25.1-7). Amom, com Moabe, era da descendencia de Ló e suas filhas, com as quais este se envolveu incestuosamente
(Gn 19.38). Esta relação de sangue com Israel, descendente de Abraão, tio de
Ló, tornou a alegria de Amom pela profanação do templo do Senhor ainda
muito mais odiosa do que já era.[29] A fim de que Amom reconheça a realeza do
Senhor e o seu favor especial para Israel, Amom cairá diante dos exércitos do
leste, presumivelmente os babilônios (Ez 25.4)[30]

Moabe, irmão de Amom, é o próximo na acusação do profeta (w. 8-11).
Junto com Amom, Moabe será derrotado por invasores vindo do leste desta vez,
porque Moabe menosprezou os escolhidos de Deus os comparou a todas as outras nações. Isto relembra o julgamento do concerto abraâmico: “Amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” (Gn 12.3).

Em seguida, Ezequiel volta a atenção a Edom, a terra ao sul de Moabe e a leste do mar Morto (Ez 25.12-14). Ao término da série há uma passagem mais longa endereçada à mesma nação (Ez 35.1-15) e por essencialmente razão a mesma, qual seja, a amarga hostilidade há muito existente de Edom para com Israel, a nação irmã.

O motivo particular para o julgamento de Deus em Edom registrado no
capítulo 25 de Ezequiel é o fato de que “Edom se houve vingativamente para
com a casa de Judá” (Ez 25.12). Este mesmo ato de hostilidade pode estar refletido em Amós 1.11 e Obadias 10-16, mas a ocorrência histórica de modo algum pode ser determinado com exatidão.[31] Nem é necessário, pois a mensagem teológica neste caso é pouco afetada pelo específico ponto histórico de referência.

A mesma circunstância está presumivelmente em vista no capítulo 35 de
Ezequiel. O julgamento é futuro, diz o Senhor, “pois que guardas inimizade
perpétua e abandonaste os filhos de Israel à violência da espada, no tempo da
extrema iniqüidade” (Ez 35.5). Junto a isto está a informação de que era a intenção de Edom tomar posse de Israel e Judá, “sendo que o Senhor se achava ali” (v. 10). O ódio que Edom tinha de Israel era não menor que o ódio que Edom tinha de Deus. A desolação de Israel também abrangerá Edom (v. 15). Isto dará uma conseqüência para Edom: “E saberão que eu sou o Senhor” (v.15).

Em seguida, o profeta se volta ao sudoeste e se dirige aos filisteus (Ez 25.15-17). Como os edomitas, eles se vingaram “com malícia, para destruírem
[Judá] com perpétua inimizade” (v.15). Novamente, o referente histórico não está claro, mas a razão para o julgamento é: quem ofende o povo de Deus será
alvo de punição pronta e certa.

Continuando no sentido horário, Ezequiel olha para o noroeste e traz em
perspectiva Tiro, a cidade-estado fenícia. O oráculo se divide em duas seções,
uma endereçada à própria entidade política (Ez 26—27) e a outra ao príncipe
de Tiro (Ez 28.1-19). Tratemos estas divisões separadamente.

Ezequiel data a profecia contra Tiro “no undécimo ano” (Ez 26.1),
quer dizer, em 586 a.C. Este foi o ano que Jerusalém caiu diante da Babilônia, e a reação alegre de Tiro a essa tragédia provocou a ira do Senhor
contra Tiro (Ez 26.2). Nabucodonosor, que acabara de devastar Jerusalém,
marcharia contra Tiro e lhe faria o mesmo. Depois que esta cidade orgulhosa e inconquistável caísse, os estados vizinhos comporiam uma lamentação
deplorando a destruição inesperada e total de Tiro (Ez w. 17,18). O próprio
profeta canta um canto fúnebre sobre Tiro (Ez 27.3b-36), no qual detalha o
sucesso econômico e comercial dessa cidade magnífica (Ez 26.3b-26a), e em
seguida, proclama o dia da destruição dela (Ez 26.26b-36).

Agora o profeta se dirige em uma profecia poética ao príncipe de Tiro, mostrando primeiramente a arrogância jactanciosa do rei (Ez 28.2b-5) e depois a sua ruína violenta e morte súbita (w. 6-10). Conclui com outro canto fúnebre de lamenta-
ção (Ez 28.12b-19), que fala sobre a revisão das antigas glórias do rei (w.l2b-15a), a tentação e queda (w. 15b-l6a) e a subseqüente destronização e morte (w. 16b-19).
A linguagem deste canto fúnebre está repleta de referências a temas primordiais, como “Éden, jardim de Deus” (v. 13), “querubim ungido para proteger” (v.14) e o lançamento para fora “do monte de Deus” (v. 16). São tantas as referências que é impossível não vermos que a queda do gênero humano está por baixo da queda do príncipe de Tiro.[32] Esta é a intenção provável do oráculo, pois toda a maldade, quer de um príncipe ou de um homem comum, tem a fonte última em Adão, o “querubim ungido” que caiu por orgulho. O oráculo contra o príncipe de Tiro se torna uma declaração teológica sobre a origem de toda rebelião e insubordinação.

Imediatamente ao norte de Tiro estava Sidom, o assunto da próxima mensagem do profeta (w. 20-23). Não consta nenhuma razão explícita para o julgamento de Sidom, mas visto ser um reino vizinho a Tiro, Sidom está incluído no sumário dos versículos 24 a 26. Com referência a Sidom, como também as outras nações contíguas, o Senhor disse: “E a casa de Israel nunca mais terá espinho que a pique, nem espinho que cause dor, de qualquer que ao redor deles os roubam; e saberão que eu sou o Senhor Jeová” (v. 24).

O propósito do julgamento das nações é bastante evidente. Elas difamaram
o povo escolhido de Deus, desta forma amaldiçoando-os (cf. Gn 12.3), e em linha com a própria promessa do concerto de Deus aos patriarcas, estas nações devem ser amaldiçoadas também.

O profeta ainda tem mais uma mensagem para entregar, desta feita ao Egito (Ez 29—32). Ambivalente desde o início em sua relação com o povo escolhido — hoje, um benfeitor e, ontem, um opressor —, o Egito tipificava o mundo em geral.

A primeira mensagem data do décimo ano (587 a.C.), um ano antes da
queda de Jerusalém (Ez 29.1-16). E dirigida especificamente a faraó, que, naquela época, era Ofra. Durante as últimas décadas da história de Judá anteriores à queda, os reis tinham buscado o apoio do Egito para terem livramento, mas o Egito fora um aliado incerto, um bordão de cana quebrada (Ez 29.6,7; cf. Is 36.6). Porque o Egito ferira o povo de Deus em vez de apoiá-lo e porque se vangloriou em sua auto-suficiência, ele, como Judá, cairia diante dos invasores e seus habitantes seriam espalhados pela terra (Ez 29.12; cf. Ez 30.20-26). Mesmo depois que voltasse, o Egito jamais seria novamente uma nação poderosa.

No vigésimo sétimo ano (570 a.C.), o Senhor revelou a Ezequiel que Nabucodonosor, que não conquistara Tiro, desabafaria sua frustração e fúria no Egito (Ez 29.17-20). Pelo fato de estarem os babilônios servindo ao Senhor (cumprindo a profecia de Ezequiel 29.1-16), ele obteria sucesso e se apropriaria dos tesouros do Egito para uso próprio.[33] A soberania do Deus de Israel sobre todas as nações e reis é mais uma vez comprovada.

Em linguagem mais apocalíptica, Ezequiel se dirige novamente ao Egito com uma palavra de julgamento (Ez 30.1-19). O dia do Senhor está vindo, um dia de destruição para o Egito e seus aliados. Nabucodonosor e seus exércitos estão a ponto de sobrevir para destruir e dispersar os povos do sul. Com essa operação, eles libertarão da idolatria as terras conquistadas, queimarão até aos alicerces as grandes cidades e, de uma vez por todas, reduzirão à fraqueza o poderoso Egito. Tudo isso será feito com este objetivo: “E saberão que eu sou o Senhor” (Ez 30.19).

Voltando-se à ilustração parabólica, Ezequiel compara primeiro a Assíria
e depois o Egito a um cedro muito alto (Ez 31.1-18). Alimentado por corren-
tes de águas refrescantes, a árvore crescera tanto que todos os pássaros do céu
faziam ninhos nos ramos e os animais da terra descansavam à sua sombra. Não
havia árvore que a igualasse, nem mesmo as árvores do jardim do Éden. Esta
planta gigantesca, estando muito acima de todas as outras, ficou orgulhosa.
Por isso, foi entregue ao lenhador que a cortou. Nunca mais uma árvore cresce-
ria a tal altura e largura, pois semelhante orgulho jamais encontraria meios de
expressar-se novamente.

Esta narrativa do surgimento e queda da poderosa Assíria tinha o propó-
sito, diz o Senhor, de mostrar ao Egito que esta nação também, embora sobres-
saindo acima das nações, cairia estatelada ao chão (Ez 31.18). Mais uma vez o
domínio universal do Senhor estará evidente a todos.

Em um oráculo de lamentação (Ez 32.1-16) datado do décimo segundo ano
(585 a.C.), Ezequiel já descreve o Egito na agonia da morte. Como um gran-
de monstro marinho, o Egito fora enlaçado na rede do Senhor e será arrastada
à praia. Sua carcaça em decomposição será carne putrefata para aves e animais,
sendo a causa de grande consternação entre todos os povos da terra. Esta rede o
Senhor identificou como a Babilônia (v. 11), o agente divino de ira e destruição.

A última mensagem contra o Egito (w. 17-32), também no décimo se-
gundo ano, continua no tema inflexível de julgamento e desolação. Ezequiel
recebeu a ordem de lamentar pelo Egito e seus exércitos, porque em breve esta
nação se juntaria às outras grandes nações que estavam na cova (w. 18,21). A
Assíria, Elão, Meseque, Tubal, Edom, Sidom e muitas outros povos já estavam
lá por causa do uso arrogante do terror. O Egito estava a ponto de fazer-lhes
companhia, porque ele não era melhor do que os outros (w.19,28). Ele também
pecou contra Deus vivendo de forma independente e recusando-se a reconhecer
que o Senhor é Deus.


CONCLUSÃO

Fundamentalmente, a teologia de Ezequiel gira em torno dos temas bipolares de julgamento e restauração. Julgamento, para o profeta, já era uma
conclusão passada, porque ele estava morando entre os exilados judeus na
Babilônia e era constantemente lembrado de que o estado das coisas era resultado direto do julgamento de Deus sobre seu povo teimoso. Tudo que os
antigos profetas tinham previsto em relação à apostasia e deportação de Judá
ocorrera. Tudo que restava agora era Deus se lembrar das suas promessas
eternas e incondicionais e restabelecer o remanescente arrependido à pátria e
tarefas pertinentes ao concerto.

A habilidade para fazer isto dependia diretamente do tipo de Deus que
Israel confessava. Era o Deus de Israel somente ou de todas as nações? O seu poder se limitava a reprovar os israelitas e ter a disposição de deixá-los cair diante da Babilônia, ou também incluía o domínio sobre a Babilônia e a libertação de Judá do controle babilónico? Para responder estas perguntas, o Senhor se revelou a Ezequiel em esplendor e glória teofânicas quase incomparáveis no Antigo Testamento. O quadro de Deus que emerge destas auto-revelações estupendas é suficiente para demonstrar que Ele é o Criador, o Onipotente, que pode e altera o curso dos acontecimentos para efetivar a redenção dos seus escolhidos.

Este Deus não agiu caprichosamente punindo o povo com exílio e morte, pois os israelitas quebraram o concerto com Ele através do comportamento apóstata e idólatra. Tudo que aconteceu, eles mereceram amplamente. Mas
Deus também não será caprichoso na salvação, porque Ele fez um concerto
perpétuo com o povo de Israel e, por amor do seu nome, tem de criar neles
um coração regenerado e disposto a conhecê-lo e amá-lo. Assim que isso ocorra, eles, como comunidade restaurada, podem retomar as responsabilidades do
concerto para as quais foram originalmente chamados.

A restauração tomará duas formas ou acontecerá em duas fases. Ocorrerá
na história durante a política beneficente do persa Ciro. Mas este é apenas um
tipo, um antegozo da renovação e reconstituição total que têm de ocorrer nos
fins dos tempos. A ressurreição espiritual, na realidade a renovação espiritual,
será parte integrante daquele dia de graça. Israel, triunfalmente recriado, será o
foco do domínio do Senhor na terra. Através do seu rei, o Messias de Davi, será
afinal em todos os sentidos um povo santo e um reino sacerdotal adequado para
administrar as bênçãos de salvação para todos os povos da terra. Estas nações
que agora existem em rebelião contra o Senhor serão visitadas com julgamento
aterrador até que chegue o dia em que elas também saberão que Ele é Deus.






[1] Ver Ezequiel 1.1,2 e 29.17, respectivamente. Para inteirar-se de uma defesa destas datas, ver
Anthony D. York, “Ezekiel I: Inaugural and Restoration Visions?”, em: Vetus Testamentum 27
(1977): pp. 82, 92,93. York, porém, prefere o ano de 567 a.C. como a verdadeira (se é que está
implícita) data expirante. 


[2] A frase hebraica ríhar kbar (“rio Quebar”) reflete a frase babilónica nar kabari e o atual satt en-
nil, um canal que flui do rio Eufrates, perto da Babilônia a leste da cidade de Nippur, e depois
volta ao rio Eufrates. Ver Walther Zimmerli, A Commentary on the Book ofthe Prophet Ezekiel,
Chapters 11-24 (Filadélfia: Fortress, 1979), p. 112. 

EUGENE H. MERRILL (M.A., M.Phil., Ph.D.) é professor de Estudos do Antigo Testamento
no Seminário Teológico de Dallas. 


[3] Para inteirar-se de Ezequiel como livro apocalíptico e as características do pensamento e lit-
eratura apocalíptica em geral, ver D. S. Russell, The Method and Message ofjewish Apocalyptic
(Philadelphia: Westminster, 1964), pp. 89,90, 104-139. 


[4] H.W. Wolff afirma que "Joel está no limiar entre a escatologia profética e apocalíptica”, mas
data Joel “entre o século 445 e 343” (A Commentary on the Books ofthe Prophets Joel and Amos
[Philadelphia: Fortress, 1977], pp. 12,5, respectivamente). Segundo descrição de Douglas Stu-
art, Joel é “apocalipcista”, mas permite tema apocalíptico e data (Joel) já no começo do século
VII (“Hosea-Jonah”, em: Word Biblical Commentary [Waco, Texas: Word, 1987], volume 31,
pp. 225-227). Para inteirar-se de data mais recente, ver A. F. Kirkpatrick, The Doctrine ofthe
Prophets (London: Macmillan, 1892), pp. 57-72. 


[5] Isaías 24 a 27 são universalmente considerados capítulos apocalípticos, até o ponto de certos
estudiosos que defendem as origens exílicas ou pós-exílicas desses capítulos apocalípticos terem
de negar-lhes a autoria isaítica. (Ver Russell, The Method and the Message ofjewish Apocalyptic,
p. 91.) Para inteirar-se de uma defesa da autoria de Isaías destes capítulos e, por conseguinte,
apocalíptica pré-Ezequiel, ver Edward J. Young, lhe Book of Isaiah, 2 Volumes (Grand Rapids:
Eerdmans, 1969), vol. 2, pp. 146, 147. 


[6] Segundo Walther Zimmerli, “Knowledge of God according to the Book of Ezekiel”, em: I Am
Yahweh, editor Walter Brueggemann (Atlanta: John Knox, 1982), p. 88. 


[7] Ralph H. Alexander, “Ezekiel”, em: The Expositors Bible Commentary, editor Frank E. Gaebe-
lein (Grand Rapids: Zondervan, 1986), volume 6, p. 757. 


[8] Moshe Greenberg, “Ezekiel 1-20”, em: The Anchor Bible (Garden City, Nova York: Doubleday,
1983), pp. 56-58. 


[9] Para inteirar-se da conexão entre palavra e ação como revelação, ver Dale Patrick, The Render-
ing ofGod in the Old Testament (Philadelphia: Fortress, 1981), pp. 90, 91. 


[10] Theological Dictionary ofthe Old Testament, s.v. b y yad, P. R. Ackroyd, volume 5, pp. 418-423. 


[11] Walther Eichrodt, Ezekiel: A Commentary (Philadelphia: Westminster, 1970), pp. 210-212. 


[12] Como disse C. F. Keil: “Deus não permite que aqueles cujo coração está ligado a ídolos o
busquem e o achem” (Biblical Commentary on the Prophecies of Ezekiel, 2 Volumes [Grand Rap-
ids: Eerdmans, n.d.], volume 2, p. 178). 


[13] Como Greenberg destaca, a palavra hebraica semel usada aqui é semelhante a pesei em 2 Reis
21.7, onde a deidade em vista é Aserá (Ezekiel 1-20, p. 168). Segundo Crônicas 33.7,15 com-
bina as duas palavras hebraicas (pesei hassemel) para referir-se à mesma deusa. Este é o ídolo que
Manasses colocou no Templo. 


[14] Ver especialmente Thorkild Jacobsen, The Treasures ofDarkness (New Haven, Connecticut: Yale
University, 1976), pp. 47-63. 


[15] Esta interpretação encontra apoio na proposta de Brownlee de que o artigo definido junto
de Tamuz (ou seja, “o Tamuz”) indica que era um título e que, portanto, está se referindo ao
Senhor por esse epíteto. Neste sentido, estaria verdadeiramente ocorrendo tomar o nome do
Senhor em vão (William H. Brownlee, “Ezekiel 1-19”, em: Word Biblical Commentary [Waco,
Texas: Word, 1986], volume 28, p. 136). 


[16] Até hoje estes números desafiam uma solução adequada. Meramente somar 390 com 40 dá
592, que talvez seja a data do oráculo, ou mesmo que dê 586, a data da destruição de Je-
rusalém, leva a resultado pouco significativo. Os dois números 390 e 592 somados dão 982
a.C., e 390 mais 586 = 976, mas nenhuma destas opções tem significado. As equações 40 + 592
= 632 e 40 + 586 = 626 também não dizem nada. Talvez a resposta esteja, como propõe Zim-
merli, em somar 390 a 40 e ver no total, 430, uma analogia ao 430 anos que Israel passou na
peregrinação egípcia (.Ezekiel, p. 167). Entretanto, esta solução ainda não explica os números
de anos 390 e 40. 


[17] Para inteirar-se de uma definição teológica do “dia do Senhor”, ver Gerhard von Rad, Old
Testament Theology, 2 Volumes (Nova York: Harper & Row, 1965), volume 2, pp. 119-125. 


[18] O estudo autorizado da doutrina do remanescente ainda é de Gerhard Hasel, The Remnant
(Berrien Springs, Michigan: Andrews University, 1972). 


11 Ver, por exemplo, Bernhard W. Anderson, “Exodus Typology in Second Isaiah”, em: Israel’s
Prophetic Heritage: Essays in Honor of James Muilenburg, editors Bernhard W. Anderson and
Walter Harrelson (Nova York: Harper & Row, 1962), pp. 177-195· 


[20] Eichrodt, Ezekiel, pp. 279, 280. 


2’ Walter C. Kaiser, Jr., Toward an Old Testament Theology (Grand Rapids: Zondervan, 1978), p. 241. 


[22] William J. Dumbrell, The End of the Beginning (Homebush West, Australia: Lancer, 1985),
pp. 95,96. 


[23] Elmer A. Martens, God’s Design (Grand Rapids: Baker, 1981), pp. 242-247. 


[24] E C. Fensham apresenta argumentações convincentes a favor de que os ossos secos indicam
um corpo abandonado em virtude de maldição e que a ressurreição é a reversão da maldição
(quer dizer, é uma bênção). Israel sofrera a maldição da violação do concerto, mas desfrutará da
bênção da renovação do concerto (“The Curse ofthe Dry Bones in Ezekiel 37:1-14 Changed to
a Blessing of Resurrection”, em Journal of Northwest Semitic Languages 13 [1987]: pp. 59, 60). 


[25] Walter C. Kaiser, Jr., “Kingdom Promises as Spiritual and National”, em: Continuity and Dis-
continuity^ editor John S. Feinberg (Westchester, Illinois: Crossway, 1988), pp. 300-303. 


[26] A identificação de Gogue e da maioria destes outros nomes de pessoas e lugares tem sido tema
de debates que não levam a uma conclusão auspiciosa. Para inteirar-se de diversas opiniões a
respeito, ver Alexander, “Ezekiel”, pp. 929,930. 


[27] Segundo Russell, The Method and the Message ofjewish Apocalyptic, pp. 190,191. 


[28] Para inteirar-se de uma pesquisa da exegese, ver Zimmerli, Ezekiel, vol. 1, pp. 447,448. Von
Rad admite que “a visão geralmente aceita é que os versículos [Gn 49.8-12] constituem um
oráculo profético que diz respeito à realeza de Davi”, embora ele se equivoque no assunto (Old
Testament Theology, volume 2, p. 12). 


[29] Embora este oráculo (e os próximos três) não tenham data, a referência à profanação do templo
pressupõe uma data posterior a 586 a.C. 



Isto pode ser documentado em Jeremias 52.30 (como 582 a.C.) em uma inscrição não datada
de Nabucodonosor. Ver John Bright, A History of Israel, Third Edition (Filadélfia: Westminster,
1981), p. 352. [Edição brasileira: História de Israel (São Paulo: Paulus, 2003).] 



Para inteirar-se das possibilidades, ver Eugene H. Merrill, Kingdom of Priests: A History of Old Testa-
ment Israel (Grand Rapids: Baker, 1988), p. 382. [Edição brasileira: História de Israel no Antigo Testa-
mento: O Reino de Sacerdotes que Deus colocou entre as Nações (Rio de Janeiro: CPAD, 2001).] 


[32] Embora muitos estudiosos vejam neste texto a queda de Satanás, isto é improvável, porque a
expulsão é do jardim do Éden e não do céu. Para inteirar-se de argumentos que apóiam este
canto fúnebre como reflexo da queda de Adão, ver J. Barton Payne, The Theology ofthe Older
Testament (Grand Rapids: Zondervan, 1962), pp. 294,295· 


[33] Para inteirar-se de detalhes históricos, ver Bright, A History of Israel, p. 352. [Edição brasileira:
História de Israel (São Paulo: Paulus, 2003).]
ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.