27 de março de 2015

EUGENE H. MERRILL - Uma teologia de Daniel

Uma Teologia de Daniel

A queda de Jerusalém, a destruição do templo de Salomão e a deportação
da liderança e classe alta de Judá, em 586 a.C., foram o acontecimento histórico
e teológico mais devastador de toda a longa história de Israel e Judá. E suscita
uma pergunta muito importante: Quem é verdadeiramente o soberano — Nabucodonosor e seus sucessores babilônios e persas, que ocasionaram o julgamento catastrófico, ou o Senhor de Israel, que ou permitira que acontecesse ou fora impotente em evitar semelhante julgamento?[1]

Coube a Daniel, um moço exilado na primeira fase da conquista babilónica
em 605 a.C., responder esta pergunta. Depois de uma vida de serviços prestados
nas cortes babilónicas e persas (de aproximadamente 605 a 530 a.C.), ele tomou
a pena em mão e, como escriba pronto para ação do Espírito de Deus, compôs o
tratado que leva o seu nome. Trata-se de uma reflexão teológica sobre o exílio de Israel (ou Judá), o tema central do qual emana a questão da soberania.[2]


Analisemos a abordagem de Daniel sob os seguintes temas: (1) a soberania
de Deus, (2) a soberania do homem (caído) e (3) a restauração do domínio universal de Deus. E imediatamente visível que a extensão dos interesses de Daniel transcende muitíssimo a mera relação de concerto entre o Senhor e o povo escolhido, por mais importante que seja esse tema na teologia bíblica em geral e até mesmo em Daniel. Mais exatamente, o ponto de vista é universal e cósmico.
Deus é o Criador de todas as coisas, inclusive do gênero humano e das nações.
Como soberano sobre eles, haverá o dia em que ele vencerá a rebelião e a queda
e os colocará de volta sob o seu gracioso domínio. Israel, o povo que ele elegeu
para atingir historicamente este propósito, será restaurado para ir ao encalço
disso no futuro, mas não para o seu próprio bem. E o Senhor que será exaltado, e todas as naçóes serão julgadas e depois exigidas que tenham o Senhor como
objeto de adoração.

A SOBERANIA DE DEUS

Apesar do colapso e queda de Israel e Judá, o livro de Daniel deixa cristalinamente claro que o Senhor Deus permanece absolutamente soberano sobre os assuntos humanos. É o que vemos atualmente, independente das condições políticas e religiosas que indiquem o contrário, e futuramente, quando ninguém teria dúvidas a respeito.

Na linguagem dramática apocalíptica, linguagem usada mais extensiva
mente em Ezequiel, o profeta companheiro de Daniel no exílio, Daniel fala
primeiramente sobre a aparição do Senhor em teofania (Dn 10.5-9). Esta visão
da glória indizível de Deus estabeleceu, pelo menos para a satisfação de Daniel,
que o Deus que reivindicou ter domínio tinha todo o direito de fazê-lo, pois
só o seu esplendor inefável já era suficiente para comprovar a sua realidade e
incomparabilidade. Embora muitos estudiosos digam que este “homem” vestido de linho seja um anjo,[3] Gabriel ou Miguel, a extravagância da descrição e
a comparação com outros textos, particularmente no Novo Testamento (cf. Ap 1.13-16; 2.18), deixam certo que este Ser é nada mais que divino.[4] O brilho do
seu semblante e o trovão da sua voz levaram Daniel a ficar de joelhos, posição
em que ele poderia ouvir e responder à revelação aterradora que acompanhou e,
na realidade, foi o motivo para a teofania.

Esta demonstração da soberania de Deus ocorreu no terceiro ano de Ciro
(ou seja, em 536 a.C.), mas Daniel já entendera esse fato através dos longos
anos desde o seu desarraigamento de Jerusalém e chegada à Babilônia. Afirmou
que a submissão de Jeoaquim, rei de Judá, a Nabucodonosor já em 605 a.C.
era algo que era possível, porque “o Senhor entregou nas [...] mãos [de Nabucodonosor] a Jeoaquim, rei de Judá” (Dn 1.2). Não há dúvida de que Nabucodonosor atribuiu o sucesso à grande ousadia dos seus exércitos e ao poder dos seus deuses. Daniel, porém, entendeu que era o Senhor que estava usando o poderoso Nabucodonosor como instrumento de julgamento.

Esta convicção também tem apoio de modo positivo, pois o Senhor que
entregou o povo nas mãos de Nabucodonosor tinha o poder de guardá-los e
protegê-los. “Deus a Daniel graça e misericórdia diante do chefe [babilônio]
dos eunucos” (Dn 1.9); deu a Daniel e aos seus três amigos “o conhecimento e
a inteligência em todas as letras e sabedoria” (v. 17); e revelou-se e mostrou os
seus propósitos a Daniel em visão (Dn 2.19,28), algo que até Nabucodonosor reconheceu (Dn 4.9,19), assim como a mãe de Belsazar (Dn 5.11,12) e o pró-
prio Belsazar (Dn 5.14,16). Em nenhum momento Daniel estava mais ciente da
proteção soberana do Senhor do que quando saiu incólume da cova dos leões.
Corajosamente proclamaria a Dario, o medo: “O meu Deus enviou o seu anjo
e fechou a boca dos leões” (Dn 6.22).

Talvez a maior evidência do domínio do senhorio do Senhor na própria
experiência de Daniel esteja na convicção firme de que o seu Deus era quem
nomeava e depunha os monarcas dos reinos humanos. Porque estes reis e seus súditos pensavam que os seus deuses os chamaram a posições de destaque e lhes
deram privilégios e responsabilidades,[5] a afirmação de Daniel dizendo que o
Deus de Israel foi, na verdade, o originador e concessor da autoridade humana
era uma negação tácita de qualquer papel visível para os deuses das nações.

Depois que Nabucodonosor contou a Daniel o sonho que tivera e mandou
que Daniel o interpretasse, o jovem profeta, em oração fervorosa, confessou
primeiramente que Deus “muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis” (Dn 2.21). Em seguida, revelou ao rei que o significado do sonho era: “Tu, ó rei, és rei de reis, pois o Deus dos céus te tem dado o reino, e o poder, e a força, e a majestade. E, onde quer que habitem filhos de homens, animais do campo e aves do céu, ele tos entregou na tua mão e fez que dominasses sobre todos eles” (w. 37,38).

Esta delegação de domínio tem paralelos extraordinários no mandato da
criação, no qual Deus designou ao homem a bênção e tarefa de reinar sobre todas as coisas como a sua imagem ou o seu representante.[6] Deus disse ao homem e à mulher: “Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra” (Gn 1.28). E claro que Nabucodonosor, até mesmo como rei pagão caído e incrédulo, poderia desfrutar da graça de Deus que lhe permitiu participar no mandato de domínio. Ele pode ter sido a cabeça de ouro de uma imagem do desígnio humano (Dn 2.38), mas a imagem do governo humano indica que o gênero humano foi criado para ser a imagem de Deus e dominar sobre a terra para Ele.

Os reinos da criação humana não durarão para sempre, destaca Daniel, pois virá o dia em que “o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e esse reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos e será estabelecido para sempre” (Dn 2.44). Ainda neste capítulo analisaremos esse Reino eterno de Deus, associado com a restauração de todas as coisas.

Em um segundo sonho, Nabucodonosor se viu como uma árvore grandio-
sa que foi abatida e de cujo toco ele procedeu como animal irracional que pasta pelos campos. No sonho, ele ficou sabendo do propósito disso: para que ele
soubesse que “o Altíssimo tem domínio sobre os reinos dos homens; e os dá a
quem quer e até ao mais baixo dos homens constitui sobre eles” (Dn 4.17).

Obviamente aflito, Nabucodonosor se voltou a Daniel em busca do sig-
nificado pleno do sonho e, pelo homem de Deus, ficou sabendo que o reino
lhe seria tirado, mas lhe seria restabelecido “até que [ele reconhecesse] que o
Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (v. 26). Um monarca huma-
no poderia reinar e reinar em linha com os propósitos de Deus, mas ele tem de
reconhecer a fonte e limitações da sua autoridade. A soberania dos reis é uma
soberania derivada do Rei dos reis.

Belsazar, o filho (ou seja, o sucessor) de Nabucodonosor, também apren-
deu que a verdadeira base para a realeza do seu ilustre antecessor estava na
disposição do Deus de Israel. Tendo sido chamado por Belsazar para decifrar
e interpretar a mensagem misteriosa na parede do palácio, Daniel lhe mostrou
que “o Altíssimo, deu a Nabucodonosor, teu pai, o reino, e a grandeza, e a gló-
ria, e a magnificência” (Dn 5.18), mas que ele fora deposto e despojado da sua
glória quando “o seu coração se exalçou e o seu espírito se endureceu em sober-
ba” (Dn 5.20). Os reis sobem e os reis caem, tudo de acordo com as ordens do
único Deus verdadeiro de todos os homens.

Esta verdade — que o Senhor é o Senhor sobre todos — não era me-
ramente questão de afirmação teológica por Daniel, pois também encontra
eco na confissão de crentes e incrédulos igualmente. No primeiro caso, um
exemplo é a afirmação confiante dos três judeus jovens que estavam a ponto
de serem lançados na fornalha ardente: “Eis que o nosso Deus, a quem nós
servimos, é que nos pode livrar; ele nos livrará do forno de fogo ardente e da
tua mão, ó rei” (Dn 3.17). Ainda mais notáveis são os testemunhos dos reis
pagãos da Babilônia e da Pérsia, porque eles compendiam, no papel de regen-
tes humanos, a antítese entre a soberania do Deus da criação e a das criaturas
caídas que se opõem ao domínio que ele tem sobre elas. Logo após a interpre-
tação do sonho, Nabucodonosor clamou a Daniel: “Certamente, o vosso Deus
é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis” (Dn 2.47). O poder do Senhor para
salvar moveu este mesmo rei a confessar, quando os jovens foram libertos do
fogo, que “não há outro deus que possa livrar como este” (Dn 3.29).

Depois, quando contou o sonho sobre a árvore, Nabucodonosor procla-
mou publicamente em relação ao Deus altíssimo: “Quão grandes são os seus
sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é um reino sempiter-
no, e o seu domínio, de geração em geração” (Dn 4.3). Lógico que o propósito
do sonho era persuadir Nabucodonosor que o Senhor é o verdadeiro soberano
(v. 25), um propósito alcançado como atesta o próprio rei babilónico. Acerca
do Senhor, ele disse: “Cujo domínio é um domínio sempiterno” (v. 34) e “to-
das as suas obras são verdades; e os seus caminhos, juízo’ ’ (v. 37).

Dario, o medo, rei da Pérsia, também exaltou a soberania do Senhor
de Daniel em um decreto extraordinário publicado depois que Daniel saiu incólume da cova dos leões. “Em todo o domínio do meu reino”, decretou
ele, que “os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel; porque ele
é o Deus vivo e para sempre permanente, e o seu reino não se pode destruir;
o seu domínio é até ao fim” (Dn 6.26).

Lógico que com estas confissões de Nabucodonosor e Dario não devemos concluir que estes reis “se converteram” ao jeovismo e abandonaram os seus respectivos sistemas religiosos politeístas. Não há evidência histórica disso. Ao mesmo tempo, não há razão para duvidarmos da credibilidade do testemunho que Daniel dá a essas confissões, pois a atitude desses reis fazia parte da natureza da crença sincretista eles adotarem qualquer um e todos os deuses que dessem evidências de merecimento.[7] E o que mostram claramente as inscrições de Ciro onde constatamos que ele incluía muitos deuses no seu panteão, embora fosse provavelmente devoto de Ahura Mazda em particular. O registro de Esdras da proclamação de Ciro (Ed 1.2-4) que permitiu a volta dos judeus a Jerusalém é totalmente compatível com este espírito ecumênico de Ciro documentado nas suas próprias inscrições.

A soberania de Deus é não apenas um fato histórico, mas também um
tema central da escatologia. O mundo em geral pouco vê e aprecia o domínio
divino no aqui e agora. E fundamental que chegue o dia em que a soberania de
Deus, hoje amplamente secreta, se torne visível a todas as pessoas.

A SOBERANIA DO HOMEM (CAÍDO)

Um tema central da teologia bíblica é que Deus criou o homem à sua imagem para ter domínio e reger sobre todas as coisas (Gn 1.26-28). A queda do homem estragou esse propósito, que ficou temporariamente incapaz de consecução perfeita, mas o propósito jamais foi anulado. No dia do triunfo último de Deus, o homem reinará com ele e para ele para sempre. Enquanto isso, o mandato do domínio continua em pleno vigor na história, sendo o governo humano a sua expressão. Infelizmente, o orgulho pecador da raça humana escondeu do gênero humano a verdadeira função das instituições políticas — que têm de ser autoconscientemente os instrumentos do governo justo de Deus na terra. Apesar disto, o Senhor sanciona o governo dos homens por vezes aprovando-o em suas manifestações particulares.

Esta tensão entre o domínio celestial e o domínio terreno é de grande interesse para a teologia de Daniel. E o ponto de articulação no qual gira o seu argumento fundamental. O profeta se preocupa com a soberania de Deus — tratada na seção anterior — e com a soberania dos reis humanos e reinos humanos.

Nabucodonosor recebeu a atenção primeira e mais importante, porque
ele foi responsável pela queda de Jerusalém e pela deportação de Daniel. Essa
deportação, ironicamente, aconteceu no primeiro ano de Nabucodonosor, e
durante os 43 anos do reinado babilónico (605-562 a.C.) Daniel o serviu em
uma funçáo ou outra. Desta forma, ele entendeu, como nenhum outro profeta
bíblico, como este assunto da soberania humana se comportava com a realeza
do Senhor soberano.

Daniel primeiro testemunha a autoridade de Nabucodonosor sobre ele, contando a deportação e, depois, a escolha para ser servo escolhido do rei (Dn 1.3-6). Particularmente refletivo sobre a subserviência de Daniel é a mudança
de nome feita pelo rei — Daniel não era mais Daniel, mas Beltessazar (v. 7).

Mais diretamente afirmativas da posição de Nabucodonosor como monarca
são as interpretações de Daniel dos sonhos e visões que especificamente o identificam como rei, com a sanção divina. O profeta declarou que Nabucodonosor era a cabeça de ouro da grande estátua (Dn 2.38), fato que sugere que ele era o “rei de reis” (v. 36). A identificação de Nabucodonosor com a enorme árvore no meio da terra (Dn 4.10) dá apoio à sua majestade impressionante. Sem evasivas e como porta-voz de Deus, Daniel confessou que esta identificação levava à conclusão de que “tu, ó rei, [...] cresceste e te fizeste forte; a tua grandeza cresceu e chegou até ao céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra” (v. 22).

O reconhecimento do reinado universal de Nabucodonosor e a justificação
das suas bases moral e espiritual são, claro, dois assuntos diferentes. A criação e
manutenção do governo humano sob a regência de Deus não devem conduzir a
um endosso inquestionável das políticas e práticas desse governo, pouco impor-
tando que forma política seja. Pois o governo dos descrentes é inevitavelmente
um governo ideológica e teologicamente hostil aos propósitos justos de Deus.
Isto explica o paradoxo da eleição e antipatia simultâneas de Deus para com
todas as instituições humanas que não lhe reconhecem a soberania, enquanto
executam o mandato cultural para o qual foram chamadas. Explica também
como Daniel pôde confessar a realeza legítima de Nabucodonosor e condená-la
por seu orgulho arrogante e espírito anti-teocrático (w. 30,32).

Belsazar também mostrou falta de sensibilidade à sua responsabilidade
ao Deus dos céus. Em ato de blasfêmia incrível, ele recebeu convidados para
uma orgia de bebidas na qual os recipientes sagrados do templo do Senhor fo-
ram usados como serviço de mesa (Dn 5.2-4). O tempo todo Belsazar brinda-
va aos deuses da sua imaginação vil. Daniel viu isto corretamente como abu-
so inescrupuloso de poder e interpretação errônea abissal da sua verdadeira
fonte. Como fizera o seu antecessor Nabucodonosor, Belsazar (de acordo com
Daniel) não se humilhara, mas, antes, se levantara “contra o Senhor do céu”
(v. 23). Louvara os deuses inanimados de ouro e prata, mas “a Deus, em cuja
mão está a tua vida e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste’ ’(v. 23). A
questão não é a legitimidade da soberania humana, mas o reconhecimento de
um Deus mais alto a quem essa soberania está subordinada.

Esta arrogância e auto-suficiência dos reis terrenos alcançaram o ápice
em termos históricos e escatológicos no rei de Daniel 11.36-45. Universalmente identificado por Antíoco IV Epifânio (175-164 a.C.), nono rei da di-
nastia selêucida da Síria, muitos estudiosos cristãos também entendem que ele
é o Anticristo que surgirá no tempo da grande tribulação para chefiar o último
ataque da soberania humana contra a soberania do Senhor Deus e seus santos
(2 Ts 2.4; Ap 13.5,6).[8]

A rebelião da criatura contra o Criador, compendiada talvez na postura
auto-suficiente dos reis mortais, também se expressa nas estruturas políticas
e entidades nacionais sobre as quais estes monarcas reinam. Assim, reis e sú-
ditos são igualmente condenados como anarquistas corruptos que se recusam
a reconhecer e capitular diante da soberania de Deus. E o que está particular-
mente evidente em três passagens de Daniel: 7.3-8,17; 8.3-8,20-22 e 11.2-
35.

Na visão de Daniel no primeiro ano de Belsazar (Dn 7.1), ele viu quatro
animais grandes subindo do mar: um leão, um urso, um leopardo e uma cria-
tura indescritível com dentes de ferro e dez pontas. Embora nenhum destes
animais tenha sido identificado para Daniel, está claro que representam quatro
reinos sucessivos (v. 12) com os seus respectivos reis (v. 17). A visão conserva-
dora tradicional é que estes reinos são a Babilônia, a Medo-Pérsia, a Grécia e
Roma.[9] Não há explicações mais detalhadas sobre o quarto animal indefinível,
Roma, porque o próprio Daniel precedia o tempo em que Roma se tornara uma
grandiosa potência internacional.

Quanto às dez pontas que saíam da cabeça do quarto animal, Daniel
entendeu que eram reis, e que deles, por sua vez, ainda surgirá outra ponta,
um rei que substituirá três das dez pontas e que falará contra “o Altíssimo, e
destruirá os santos” (v. 25). Este, fica claro mais tarde (Dn 11.36; Ap 13.6),
não é ninguém senão o Anticristo escatológico, o símbolo humano último
de rebelião pertinente à criatura. Saindo de dez nações que são herdeiras do
legado romano político e cultural, o Anticristo desafiará Deus e o povo em
uma prova final de soberania.

A visão de Daniel no terceiro ano de Belsazar (Dn 8.1) confirma a iden-
tidade dos reinos que há pouco listamos. Aqui ele viu um carneiro com duas
pontas (w. 3,4), interpretado como a Medo-Pérsia (v. 20), empreendendo guerra com um bode (v. 5), especificado como a Grécia (v. 21). O bode tinha
uma única ponta entre os olhos, um rei comumente entendido por Alexandre, o Grande. A ponta, quebrada, é substituída por quatro outras pontas — os diádocos, ou seja, os sucessores que dividiram entre si o reino de Alexandre
(w. 8,22).[10] Por fim, surge “uma ponta mui pequena” (w. 8.9), que busca
malogradamente empreender guerra contra os representantes do Senhor (v.
25). Esta ponta não pode ser a ponta que saíra das dez pontas do quarto ani-
mal na visão anterior (Dn 7.24), pois este aqui se origina do terceiro animal.
Temos de entender que se trata de Antíoco Epifânio, que é o protótipo do
Anticristo.[11]

Em Daniel 11.2-35, o profeta forneceu mais detalhes. Foi-lhe dito que
quatro reis persas ainda tinham de vir, seguidos por um grande monarca da
Grécia. Este por sua vez seria sucedido por quatro reis, dois dos quais empre-
enderiam guerra incessante uns contra os outros até que o “rei do Norte” (Dn 11.6,7,13,15) acabaria prevalecendo. Ele abriria caminho para um “homem vil”
(Dn 11.21), cujo governo sobre a terra seria marcado por violência e blasfêmia.
A interpretação que este personagem seja Antíoco IV Epifânio quase não é de-
batida e que ele tipifica o Anticristo do fim dos tempos também é praticamente
questão de unanimidade, pelo menos nos círculos pré-milenares.

Não há dúvida de que a revelação dada a Daniel relativa à soberania do ho-
mem caído a identifica em termos dos reis e reinos contemporâneos e subseqüentes à sua época. Todas as três principais passagens, embora tratem do tema em símbolos e imagens diferentes, concordam que o curso da história humana, em si mesmo um registro da insubordinação da criatura ao Criador, culminará com um regente poderoso — o Anticristo —, que fará o esforço poderoso, embora fútil, de resistir às reivindicações soberanas do Senhor Deus. Daniel deu atenção à maneira na qual esta ameaça seria tratada e vencida nos dias do triunfo de Deus.

A RESTAURAÇÃO DA SOBERANIA UNIVERSAL DE DEUS

Considerando que as relações de Deus com o homem foram enunciadas
desde o começo segundo a metáfora do concerto, não é surpreende que Daniel
entendesse que a situação difícil da nação de Israel era o resultado da violação
do concerto e que a esperança de restauração era o ato da graça de Deus em
renovar o concerto. O que Daniel afirma com referência à continuação da sobe-
rania do Senhor sobre Israel pode ser aplicado ao domínio último de Deus sobre
toda a criação. Em todo caso, o que está em jogo é arrepender-se e depender de
Deus para ele lembrar-se das promessas do seu concerto e reativá-las em grande
demonstração de realeza.

Daniel foca a renovação do concerto como base para a restauração na-
cional (e, por extensão, universal).[12] Na grande oração em Daniel 9.4-19, ele se dirige ao Senhor por Deus do concerto (Dn 9.4) contra cujos princípios do
concerto o povo tinha pecado (Dn 9.5,6). A dispersão do povo entre todas as
nações comprova a infidelidade do povo (w. 7-12). Apesar da triste sorte, eles
náo se arrependeram (Dn 9.13), sinal de que mereciam toda a calamidade que
se abatera sobre eles (v. 14). Apelando ao fato grandiosamente redentor do êxo-
do (v. 15), Daniel ora para que o Senhor se lembre dos compromissos feitos com
o povo eleito e, por amor do seu nome, os perdoe e os restaure à posição das
bênçãos do concerto (w. 16-19).

Para que esta restauração seja obtida — quer em nível nacional ou universal —, os elementos anti-teocráticos do mundo que se opõe à soberania do Senhor têm de ser vencidos e destruídos. Como já proposto, estes tomam a for-
ma de reis e reinos não tementes a Deus compendiados pelo inimigo mortal do
domínio do Senhor, o Anticristo. Ele é a ponta que derruba três outras pontas
(Dn 7.24), que blasfema do Altíssimo e que não tem consideração com o povo
de Deus durante três anos e meio (Dn 7.25). Esse triunfo não durará, porque
ele será derrotado e perecerá (Dn 7.26; cf. Ap 17.14; 19.20).

Um quadro semelhante surge em Daniel 8. O profeta, falando de Antíoco
Epifânio como tipo do Anticristo, o descreve como a ponta mui pequena (Dn 8.9) que fica grande e, com maldade particular para com o templo e a santidade
do templo, deixa o santuário devastado por mais de seis anos (w. 13,14). Mas
ele não prevalecerá e, como o seu equivalente escatológico, o Anticristo, ele será
destruído pela mão do próprio Senhor (w. 23-25).

Daniel 11.36-45 apresenta o caráter e objetivos do Anticristo com mais
detalhes. O profeta diz que o Anticristo, descrito aqui como rei (Dn 11.36), se
exaltará como uma verdadeira deidade, impingindo os seus desígnios maus em
toda a criação do Senhor (w. 37-39). O seu governo não será inconteste, nem
mesmo pelos reis terrestres (w. 40-43). Mas, embora os subjugue um por um,
no fim, ele será chamado a prestar contas na própria terra santa. Tendo exercido
domínio temporário lá, “virá ao seu fim, e não haverá quem o socorra” (Dn 11. 45; cf.Ap 19.19-21).

O agente de Deus que realiza estes atos poderosos de conquista e restauraçãoné o Filho do Homem, a figura do Messias que aparece várias vezes na profecia de Daniel. Possivelmente em vista em Daniel 10.16-21 (“uma como semelhança dos filhos dos homens”),[13] ele é claramente a figura em Daniel 7.13,14 (“um como o filho do homem”), que vem com as nuvens do céu, uma descrição usada em outro texto bíblico acerca do Messias, Jesus Cristo (Ap 1.7).[14] Daniel o viu dirigindo-se ousadamente ao Ancião de Dias (quer dizer, Deus Pai), de cuja mão o Messias receberá o domínio eterno (Dn 7.14; cf. Dn 7.27; 1 Co 15.27; Ef 1.20-22; Fp 2.9-11; Ap 19.15,16; 20.4-6). Os reinos históricos deste mundo e o do Anticristo no final desta era abrirão caminho para esse glorioso reino de Deus prenunciado e governado pelo Filho do Homem e os santos do Altíssimo.

A referência ao “povo dos santos do Altíssimo” (Dn 7.27), se for inclusiva
e universal, pressupõe a ressurreição, pois só a renovação da vida permitirá que o povo de Deus de todas as eras participem nos privilégios gloriosos da soberania para a qual eles foram criados. Esta contingência se expressa em Daniel 12.1-3, onde o homem de Deus declara que as multidões que dormem no pó da terra despertarão, alguns para sofrer a destruição da pós-ressurreição e outros a vida eterna.[15] O povo de Deus, esses cujos nomes estão escritos “no livro” (Dn 12.1), ressuscitarão para participar no domínio que era da própria essência do mandato que o homem recebeu desde o princípio (Gn 1.26-28; cf. Ap 20.6; 22.5).

O tema teológico central de Daniel — que a soberania do homem, arro-
gante e negadora de Deus, será destruída de forma que Deus reine —, se cum-
prirá inequivocamente no domínio eterno dos santos que, apesar da aparente
evidência ao contrário, acabará prevalecendo. Seguindo na seqüência do Ancião
de Dias (Dn 7.9-12), os santos “receberão o reino e possuirão o reino para todo
o sempre e de eternidade em eternidade” (v. 18). Toda a soberania de todos os
reinos será entregue a eles, que por fim alcançarão os propósitos divinos para
eles: Serem “[coroados] de glória e de honra” com toda a criação colocada sob
os seus pés (Dn 7.27; cf. SI 8.5,6). 






[1] Para inteirar-se desta avaliação de coisas, ver Ralph W. Klein, Israel in Exile: A Theological
Interpretation (Filadélfia: Fortress, 1979), pp. 1-8. 


35 Em defesa deste ponto, ver Eugene H. Merrill, “Daniel as a Contribution to Kingdom Theol-
ogy”, em: Essays in Honor ofj Divight Pentecost, editors Stanley D. Toussaint and Charles H.
Dyer (Chicago: Moody, 1986), pp. 211-225. 


[3] Segundo, por exemplo, Gleason L. Archer, Jr., “Daniel”, em: The Expositor 's Bible Commen-
tary, vol. 7, p. 123. 


[4] Robert D. Rowe, “Is Daniel’s ‘Son of Man’ Messianic?”, em: Christ the Lord, editor Harold H.
Rowdon (Leicester: Inter Varsity, 1982), pp. 90,91. 


’2 Para inteirar-se de muitos exemplos, ver Bertil Albrektson, History and the Gods (Lund, Swe-
den: CWK Gleerup, 1967), pp. 42-52. 


[6] Eugene H. Merrill, “Covenant and the Kingdom: Genesis 1-3 as Foundation for Biblical The-
ology”, em: Criswell Theological Review 1 (1987): pp. 295-308. 


[7] Joyce Baldwin, Daniel: An Introduction and Commentary (Leicester: InterVarsity, 1978), p.
95. [Edição brasileira: Daniel: Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova/Mundo Cris-
tão, 1983 [impressão 1991]).] 


4 7 J. Dwight Pentecost, Things to Come (Findlay, Ohio: Dunham, 1958), pp. 321-323 [edição
brasileira: Manual de Escatologia: Uma Análise Detalhada dos Eventos Futuros (São Paulo: 


Vida, 1998)]; Donald K. Campbell, Daniel: Decoder of Dreams (Wheaton, Illinois: Victor,
1977), pp. 131-135. 


[10] Para inteirar-se do plano de fundo histórico, ver H. Jagersma, A History of Israelfi-om Alexan-
der the Great to Bar Kochha (Filadélfia: Fortress, 1985), pp. 16,17. 


[11] Segundo Archer, Daniel, p. 99. 


[12] Peter R. Ackroyd, Exile and Restoration (Philadelphia: Westminster, 1968), pp. 89,90. 


[13] A maioria dos estudiosos identifica corretamente esta figura como um anjo. Segundo, por
exemplo, Archer, Daniel, p. 126. 


[14] Walther Eichrodt, Theology of the Old Testament (Philadelphia: Westminster, 1961), vol. 1, pp.
487-490. [Edição brasileira: Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Hagnos, 2005).] 


[15] Para inteirar-se da esperança da ressurreição no Antigo Testamento, ver William Dyrness,
Themes in Old Testament Theology (Downers Grove, Illinois: InterVarsity, 1979), pp. 239-
242.


ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.