21 de março de 2015

A Teologia da Libertação e a narrativa do Êxodo

Por: Steven Harris

Sobre a narrativa do êxodo: o tema dominante da teologia da libertação

Para a teologia da libertação, especialmente a teologia da libertação negra, o relato do Êxodo é o tema central em torno do qual a teologia se orienta. O ato de Deus libertar o seu povo da escravidão egípcia estabelece as expectativas e a agenda atual da teologia da libertação.

Aplicar a história de resgate do Êxodo ao mundo temporal das nações e da política não começou no meio do século XX. Escravos negros americanos nos séculos XVIII e XIX foram atraídos para a narrativa do Êxodo, uma vez que ela refletia sua condição. A narrativa servia como uma prova positiva de que Deus era capaz de e desejava resgatar um novo Israel (escravos negros) de um novo Egito (América). Olhando mais além, os puritanos do século XVII que atravessaram o Atlântico consideravam estar deixando um Egito (Inglaterra) em missão divina, embarcando no que um historiador chamou “uma peregrinação pelo deserto”. Não obstante, a teologia da libertação moderna foi a primeira a tomar essa narrativa e aplicá-la como normativa às comunidades oprimidas.

A teologia bíblica expõe diversos problemas com essa pressuposição prescritiva. Primeiro, ela ignora o fato de que as pragas culminam na morte dos primogênitos e na Páscoa, um ato de julgamento que caía tanto sobre os descendentes de Abraão quanto sobre o resto do Egito. Os descendentes de Abraão, contudo, tinham um modo de escapar por meio de um sacrifício substitutivo. Os Evangelhos, depois, caracterizam Cristo como o nosso Cordeiro Pascal (por exemplo, João 1.29). Não seria correto dizer, portanto, que o caminho do nosso êxodo é por meio do sacrifício expiatório desse Cordeiro Pascal, em vez de, por exemplo, por meio da modificação de leis injustas?

Segundo, a teologia da libertação falha em reconhecer – ou, pelo menos, parece menosprezar – a realidade pactual em que o Êxodo se expressa. O Êxodo não foi um evento meramente político e socioeconômico. Em vez disso, Deus estava mantendo uma promessa pactual ao reunir para si mesmo um povo pactual: “Tomar-vos-ei por meu povo [israelitas] e serei vosso Deus” (Êxodo 6.7). A Antiga Aliança, então, foi cumprida na Nova. E em nenhum lugar Jesus faz uma nova aliança no seu sangue com os puritanos. Ou com os escravos negros. Ou com os excluídos da América do Sul. Em vez disso, ele oferece uma nova aliança por todos aqueles que se arrependem e crêem em sua obra pactual realizada.

Terceiro, a teologia da libertação falha em considerar o objetivo do evento do Êxodo. Deus diz a Faraó: “Deixa ir o meu povo, para que me sirva no deserto” (Êxodo 7.16, ênfase acrescida). O objetivo não era, em última instância, a libertação política ou econômica, mas ajuntar um povo governado por Deus, obediente e adorador. E, contudo, nós sabemos que os israelitas acabaram por fracassar em submeter-se ao governo de Deus, fracassaram em adorar e fracassaram em obedecer. Embora eles tenham sido resgatados da escravidão física, permanecem em escravidão espiritual. A teologia da libertação, portanto, põe a sua esperança num Êxodo que, literalmente, não liberta e jamais libertou.

Felizmente, o tema do Êxodo não está confinado ao Pentateuco; ele está presente em toda a Bíblia. A desobediência pecaminosa de Israel culmina com os cativeiros assírio e babilônico nos séculos VIII e VI a.C., respectivamente. Antes desses cativeiros, os profetas Isaías e Jeremias falaram de um novo Êxodo, um que iria ofuscar o primeiro. Segundo esses profetas, este Êxodo, quando plenamente realizado, não apenas incluiria o retorno dos exilados, mas, e mais importante, a libertação espiritual.

Assim, o grande descuido da teologia da libertação no que se refere à narrativa do Êxodo é que ela falha em tratar o evento do Êxodo como uma sombra da libertação que Cristo traz. À medida que a Bíblia se descortina e a Nova Aliança é estabelecida, Cristo é retratado como um superior Cordeiro pascal (1 Coríntios 5.7), como um superior Moisés (Hebreus 3.1-6) e como o verdadeiro Israel (Oséias 11.1; Mateus 2.15). Colocando de modo simples, o Êxodo é, em sua plena expressão, a salvação eterna do pecado e da condenação, salvação que só se pode encontrar em Cristo. Um novo povo de Deus está sendo moldado segundo a sua justiça, não segundo uma identidade étnica ou uma condição social.

Fonte: Voltemos ao Evangelho
Por: Steven Harris. © 2014 9Marks. Original: Biblical Theology and Liberation.