14 de fevereiro de 2015

ROY B. ZUCK - Uma teologia dos livros Sapienciais e Cantares de Salomão: Introdução

INTRODUÇÃO

Jó, Provérbios e Eclesiastes são comumente chamados os livros sapienciais
da Bíblia. É por causa da freqüente ocorrência nestes livros de palavras como
hokmah (sabedoria) e hakam (sábio), e dos tópicos relacionados à sabedoria ou
do viver sábio. Cantares de Salomão, nem sempre considerado parte da litera-
tura sapiencial bíblica, é incluído no corpo da sabedoria porque a sua autoria,
como a de Eclesiastes e grande parte de Provérbios (ver Pv 1.1; 10.1; cf. Pv
25.1), é atribuída a Salomão, tendo em vista que o livro cita o sábio rei seis
vezes (Ct 1.5; 3.7,9,11; 8.11,12), e considerando que trata de como viver sa-
biamente no namoro e no casamento.

A ordem dos livros em muitas Bíblias hebraicas é Jó, Provérbios, Rute,
Cantares de Salomão e Eclesiastes. A ordem na Vulgata Latina é Jó, Salmos, Pro- 
vérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão. Talvez a Vulgata considerou esses
três livros uma coleção salomônica, seguindo uma ordem cronológica ligeira-
mente livre —Jó (nos tempos patriarcais), Salmos (principalmente escrito por
Davi) e Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão (compostos em grande
parte por Salomão, filho de Davi).


Certos estudiosos também atribuem a autoria do livro de Jó a Salomão, 
argumentando que isso justifica sua inclusão no corpo sapiencial. A autoria de Jó
é muito debatida. Há fatores que indicam que o livro foi escrito séculos antes. 
Sua inclusão na literatura sapiencial bíblica não deve ser fundamentada na su-
posta autoria salomônica, mas na luta com as perplexidades da vida — fator que
também explica a razão de Eclesiastes ser chamado livro sapiencial, embora desa-
fie repetidamente o valor da sabedoria (Ec 2.13-16; 7.11,12,19; 9.1,2,11,12,16;
10.1).

Alguns salmos incluem temas sapienciais, sendo chamados “salmos sa-
pienciais”. São pelo menos os Salmos 1; 19; 32; 34; 37; 49; 73; 78; 112;
119; 127; 128 e 133. Bullock sugere que certos temas nestes salmos mos-
tram por que os eles são considerados sapienciais. Estes temas são a justiça
retribuidora (SI 37, 49, 73), a recompensa da justiça (SI 1; 112; 127; 128;
133; 144.12-15) e a ênfase na lei do Senhor como base para a instrução de
vida (SI 1; 19; 119). O Salmo 49 também tem vários paralelos com as de-
clarações em Eclesiastes.

Temos de distinguir os livros sapienciais bíblicos dos livros poéticos. Os
últimos são mais inclusivos, abrangendo o livro de Salmos, que é totalmen-
te poético, mas que, como já declarado, só ocasionalmente lida com temas
sapienciais. Há várias partes dos livros proféticos escritos em estilo poético,
como deixa claro o formato usado em algumas versões bíblicas, por exemplo,
a NVI. Como propõe Hubbard, a literatura sapiencial era “um gênero literá-
rio comum no antigo Oriente Médio, no qual constam instruções para a vida
bem-sucedida ou observam-se as perplexidades da existência humana”. As
instruções estão escritas em declarações expressivas, como em Provérbios e nos 
livros sapienciais especulativos (Jó e Eclesiastes). De acordo com Crenshaw,
a literatura sapiencial consiste em um casamento de certa forma (“sentença
ou instrução proverbial, debate, reflexão intelectual”) com o conteúdo (“ins-
truções para dominar a vida”, “tenteio dos segredos da vida com relação ao
sofrimento dos inocentes, luta com a finitude e busca pela verdade oculta na
ordem criada”).

Os livros sapienciais têm atração universal, tratando de tópicos de interes-
se e relevância a pessoas de todos os lugares e de todas as eras da história. O livro
de Provérbios trata de assuntos relacionados ao cotidiano, inclusive as relações
e padrões de conduta própria. Cantares de Salomão lida com uma destas áreas,
isto é, o amor e a fidelidade conjugal. Jó e Eclesiastes falam mais do significado
último da experiência humana. Jó enfrenta o problema da existência do mal e
do sofrimento. Provérbios discute como ter uma existência próspera. Eclesias-
tes investiga o problema de uma existência significativa. As questões que esses
livros analisam são: “O que o homem tem de fazer para satisfazer a consciência
e sede de Deus?” (Jó); “O que o homem tem de fazer para ter uma vida de
sucesso?” (Provérbios); “O que o homem tem de fazer para tornar a existência
suportável?” (Eclesiastes). “Provérbios, ao que parece, diz: ‘Estas são as regras
da vida; siga-as e veja se funcionam’. Jó e Eclesiastes dizem: ‘Nós as seguimos,
e elas não funcionam!’” Os assuntos tratados nestes livros são de extensão
incrivelmente ampla, de escopo intrigantemente profundo e de natureza extra-
ordinariamente prática.

O SIGNIFICADO DA SABEDORIA

Hokmah. No Antigo Testamento, o substantivo hebraico kokmah (sabe-
doria) e suas formas relacionadas (o adjetivo hakarn, sábio; o verbo hakam,
ser sábio; e o substantivo abstrato plural hokmot, sabedoria) são muito usados
no Antigo Testamento, sendo especialmente proeminentes em Jó, Provérbios
e Eclesiastes. De acordo com Whybray, a raiz hebraica hkm ocorre nestes três
livros sapienciais 189 vezes das 346 ocorrências no Antigo Testamento (incluin-
do as 22 ocorrências dos termos aramaicos hoknfta e hakkim). Esta freqüên-
cia — mais da metade (54,6%) — explica por que esses livros sáo chamados
“literatura sapiencial”. 

Nos livros não sapienciais, a sabedoria refere-se a aptidões em relação ao
funcionamento das artes, ao aconselhamento ou deliberação astuta, à admi-
nistração de pessoas ou tarefas ou à sagacidade intelectual. Os alfaiates que
confeccionaram as roupas para o sacerdote Arão (Êx 28.3) e os trabalhadores
que construíram o Tabernáculo — inclusive os trabalhadores com metais, os
escultores de pedras, os gravadores em madeira (xilógrafos), os bordadores, os
tecelões e os designers (Ex 35.30-36.2), e as mulheres que fiavam tecidos e linho
(Ex 35.25,26) —, tinham sabedoria para as suas respectivas tarefas. “Sábios de
coração” em Êxodo 28.3 e “sábias de coração” em Êxodo 35.35 são traduções
literais do termo hebraico hokmat-leb (ou “peritos/peritas de coração”). “Sábio
de coração” em Êxodo 36.1,2 é tradução do termo hebraico semelhante hakam-
leb.

Hirão de Tiro, contratado por Salomão para trabalhar na construção do
Templo, era artesão perito (possuindo hokmah) em artigos de bronze (1 Rs 7.13,14). Os artesãos e artífices para a construção do Templo eram igualmen-
te qualificados (1 Cr 22.15; 2 Cr 2.7,13,14). Os trabalhadores que faziam
ídolos (Is 40.20; Jr 10.9) também eram sábios, por causa da sua habilidade
especializada. Os marinheiros da Fenícia eram “sábios” (Ez 27.8). Os ma-
rinheiros quando estão passando por uma tempestade em alto-mar, “esvai-
se-lhes toda a sua sabedoria” (SI 107.27, literalmente, “toda a sua sabedoria
[hokmah] foi engolida”). A habilidade habitual de pilotar navios era inútil
nos apuros da tempestade desastrosa. Mulheres hábeis (hakamot) em prantear
eram contratadas para chorar em tempos de desolação (Jr 9.17). Hokmah se
referia não só à habilidade ou perícia, mas também à habilidade de aconselhar
e/ou administrar. Os anciãos das tribos (Dt 1.13,15), José e Daniel nos seus
altos cargos administrativos (Gn 41.33-39; Dn 5.11,29), Josué (Dt 34.9) e o
rei Salomão (1 Rs 3.12,28; 5.7,12; 10.23,24) eram homens de sabedoria, com
a responsabilidade de exercer justiça, tomar decisões certas e proporcionar
liderança. O rei de Tiro também possuía sabedoria (Ez 28.4, 5,17).

Hokmah às vezes conota astúcia ou sagacidade, como no conselho dado por
Jonadabe (2 Sm 13.3), pela mulher de Tecoa (2 Sm 14.2) e pela mulher de Abel-
Bete-Maaca (2 Sm 20.14-16). O Egito tinha sábios nos dias de José (Gn 41.8) e
nos dias de Moisés (Ex 7.11) e a Babilônia tinha sábios nos dias de Daniel (Dn
2.12-14, 18, 24 e 48; 4.6 e 18; 5.7, 8,15). Estes homens na corte do rei estavam
associados com feiticeiros e adivinhadores, homens que aprenderam a habilidade
de interpretar sonhos e usar poderes do oculto. Faraó também teve conselheiros
sábios tempos mais tarde (Is 19.11).

Hokmah também é usado acerca de agudeza intelectual como, por exemplo,
Salomão compor provérbios e cânticos, e ensinar botânica e zoologia (1 Rs 4.29-
34). Faraó reconheceu a inteligência de José (Gn 41.33,39). Essas ocorrências de
hokmah fora dos livros sapienciais falam da “arte prática, de ser hábil e próspero 
na vida”, da “inteligência superior que sabe alcançar sucesso”.’ Como ainda
discutiremos neste capítulo, esta perícia nos assuntos práticos da vida constitui
um elemento essencial na sabedoria em Jó, Provérbios e Eclesiastes.

Sinônimos de hokmah. Vemos outras indicações do significado de sabedoria
examinando os sinônimos de kokmah, palavras que destacam nuanças de pensa-
mento de significado próximo ao de hokmah. Btnah, “entendimento”, ocorre 22
vezes nos livros sapienciais (oito vezes em Jó e 14 vezes em Provérbios) e 15 vezes
em outros textos bíblicos. O adjetivo nabon, “inteligente” ou “perspicaz”, consta
nove vezes em Provérbios, uma vez em Eclesiastes e 11 vezes em outros livros bí-
blicos. Na maioria das ocorrências (18 de 21), nabon é usado em paralelo ou em
associação íntima com hokmah. Por exemplo, José era um homem “inteligente”
(nabon) e “sábio” (hakam, Gn 41.33,39). Vemos claramente a idéia de inteligên-
cia em Davi, que era, literalmente, “inteligente \nabon] de fala” (1 Sm 16.18).

Das 42 ocorrências, tebunalh, “entendimento” (ou insight), é usada 23 vezes
nos livros sapienciais (quatro em Jó e 19 em Provérbios). Como hokmah, tebunah é
usado para referir-se a habilidades manuais. Ocorrem juntas em Éxodo 31.3; 35.31;
36.1 e 1 Reis 7.14. Nas duas primeiras referências de Éxodo e de Reis, tebunah foi
traduzido por “entendimento” (“inteligência” na terceira referência de Éxodo), um
análogo estreito de hokmah, “sabedoria”. Nas 17 de suas 42 ocorrências, tebunah é
usado em paralelo ou em associação íntima com hokmah.

Das 90 ocorrências de da‘at, a palavra comum para referir-se a “conhecimen-
to” (àeyada, “saber”), 59 estão na literatura sapiencial: 11 em Jó, 40 em Provérbios
e oito em Eclesiastes. O texto de Provérbios 1.2-7 usa várias destas palavras (hokmah
nos w. 2,7; binah no v. 2; da'at nos v. 4,7; e hakam e nabon no v. 5). Outros sinô-
nimos na passagem são musar, “instrução”, “disciplina” (w. 2,3,7); ’sakel, “entendi-
mento” (v. 3); ’ormah, “prudência” (v. 4); mfzimmah, “bom siso” ou “planejamento
sábio” (v. 4); e tahbulot, “sábios conselhos”, “orientação” (literalmente, “direções”,
como o equipamento para pilotar um navio (v. 5). Este vocabulário rico para aludir
à sabedoria — habilidade, aptidão, entendimento, compreensão, discernimento,
perspicácia, insight, conhecimento, disciplina, prudência, astúcia, sagacidade, pla-
nejamento, orientação — aponta a natureza prática sapiencial do Antigo Testamen-
to. E utilitário, não teórico. Fomenta a orientação pelo labirinto das experiências da
vida.

Definição de sabedoria. Há muito que os estudiosos lutam para definir sa-
bedoria tendo em vista seus usos matizados. A definição clássica de Von Rad diz
que sabedoria é “a essência da qual o homem precisa para uma vida apropriada” e 
“o conhecimento prático das leis da vida e do mundo, baseado na experiência”. 
Já em 1933, Fichtner falou que a sabedoria é a busca do homem por um domínio
de vida, uma busca que foi transmitida oralmente e por escrito na forma de ad-
moestações. Schmid relacionou este conceito de domínio com a idéia egípcia de
maat, “justiça”, “verdade”, “ordem”. Quando o homem vive em harmonia com
ma ‘at, ele ajuda a manter a ordem divina no mundo, e encontra ordem na sua
própria vida. Von Rad reconheceu a existência de ordem no universo, mas náo
a fundamentou no conceito egípcio de ma ‘at. Ele escreveu: “A sabedoria consistia
em saber que no âmago das coisas há uma ordem em açáo, de maneira silenciosa
e, na maioria das vezes, raramente notada, ocasionando um equilíbrio de aconte-
cimentos. Devemos esperar por isso, e também buscar vê-lo”. Von Rad também
escreveu que a meta de procurar sabedoria é “arrancar do caos dos acontecimentos
certa semelhança de ordem na qual o homem náo fique continuamente à mercê
do incalculável”.

Crenshaw declara que descobrindo esta ordem oculta no universo, o sábio
“garante a sua existência agindo em harmonia com a ordem universal que sus-
tentou o universo”. A conduta apropriada fortalece a ordem, ao passo que a
conduta imprópria a ameaça. Sabedoria é “a procura do homem por modos espe-
cíficos de assumir bem-estar [...] na existência diária”. Na sabedoria, o homem
mantém “uma atitude apropriada para com a realidade, uma visáo mundial”. 
Crenshaw também propõe que sabedoria é “a busca por auto-entendimento em
termos dos relacionamentos com as coisas, as pessoas e o Criador”.

Whybray rejeita a noção de que sabedoria seja a procura de ordem com a
finalidade de dominar a vida. Sabedoria, diz ele, é “um conjunto de idéias, ou
uma atitude àvida”. É inteligência, capacitando o indivíduo a enfrentar a vida.
Murphy também discorda que sabedoria bíblica seja a procura por ordem na 
vida humana. Sua proposta é que seria “melhor falar da imposição do homem
a uma ordem (ainda que provisória) na experiência caótica da vida”, pois as
declarações sapienciais transmitem “um respeito pela complexidade do que é, e
não uma procura por uma ordem (oculta)”. Em outras palavras, como declara
Bergant, o ponto de Murphy é que o homem sapiencial bíblico não procura por
ordem na vida humana; ele busca colocar ordem na vida humana. Contudo,
pode o homem colocar ordem na vida sem primeiro procurar e observar o que
contribui para a ordem?

A idéia de que sabedoria é a procura por ordem da criação para dominar a
vida é resumida por Kenworthy como “a habilidade para enfrentar”. Outros vão
além do sentido de meramente enfrentar a idéia mais positiva de ter sucesso. Para
Hubbard, sabedoria é “a arte de ser próspero”, e Cazelles escreve que é “a arte
de ter sucesso na vida humana”. Certamente os usos de hokmah em relação a
habilidades indicariam que a sabedoria bíblica inclui a arte de ser hábil e próspe-
ro nas relações e responsabilidades pessoais na vida. Sabedoria, de acordo com
Paterson, é “uma capacidade; ser sábio é possuir a capacidade necessária para uma
tarefa em particular”. A habilidade ou proficiência conduz ao sucesso, sucesso
no sentido de realização ou facilidade de operação ou conduta.

O indivíduo é “bem-sucedido” quando dirige a vida de acordo com o de-
sígnios de Deus, os planos divinos para o mundo. Vendo a ordem moral de
Deus, sentindo pela revelação divina o que Deus deseja e planeja para o gênero
humano, somos desafiados pela literatura sapiencial a administrar a vida em li-
nha com esses princípios estabelecidos pelo Criador. A medida que o indivíduo
segue estes princípios ou regras da ordem ou padrão de Deus para a vida, até 
a esse ponto ele pode enfrentar as realidades e desfrutar a ordem e harmonia
interior. Negligenciar a ordem de Deus conduz à desordem e caos; atender ao
desígnio de Deus resulta em satisfação e paz.

Fonte da sabedoria. Proverbios encoraja o homem a buscar sabedoria. Ele
tem de ouvi-la (1.33; 2.2), adquiri-la (Pv 4.6,7), amá-la (v. 4.6; 8.17) estimá-
la ou avaliá-la (4.8) e buscá-la (8.17).

Onde está esta sabedoria? Fazendo esta pergunta duas vezes (Jó 28.12,20),
Jó respondeu que só Deus sabe (v. 23). A sabedoria pertence a Deus, dissera Jó
anteriormente (12.13). A sua sabedoria é profunda (Jó 9.4). Ele possuiu sabedo-
ria no princípio (Pv 8.22), criou a terra com sabedoria (3.19) e conta as nuvens
na sua sabedoria (Jó 38.37). A sabedoria é mais que uma característica humana-
mente inventada. É a habilitação divina, a habilidade de enfrentar e ter sucesso
baseado nas providências de Deus. Só Ele “pôs a sabedoria no íntimo” (Jó 36).
Esta fonte divina de sabedoria significa que a vida não deve ser dicotomizada
entre o intelectual e o prático, entre o religioso e o secular. “A totalidade da vida
foi conotada em termos de experiência religiosa, e a sabedoria foi mantida para
ser pertinente a todos os pontos da existência.” A literatura sapiencial trata da
conduta ética, conduta vista levando em conta a relação do homem com Deus. A
vida assume uma dimensão espiritual, pois a piedade é a chave para a vida prática.
A relação do indivíduo com a sua família, vizinhos, empregados, estranhos é afe-
tada pela relação com o Criador e Deus. A pessoa com sabedoria bíblica tem mais
que perspicácia secular e intelectual; tem uma perspectiva espiritual que impregna
toda a sua vida. A pessoa verdadeiramente sábia é a pessoa piedosa.

O LUGAR DA SABEDORIA

Como os livros sapienciais se relacionam com os demais livros do Antigo
Testamento? Diferem tão significativamente em termos de conteúdo e estilo
da lei e dos profetas que muitos estudiosos bíblicos ponderam colocar a lite-
ratura sapiencial no cânon hebraico. Considerando que os livros sapienciais
enfatizam temas mais universais e individualistas do que nacionais (israelitas)
e são mais refletivos que proféticos, à primeira vista parecem estar fora de lu-
gar. Temas como a relação do concerto de Deus com Israel, o Êxodo, as men-
sagens dos profetas para Israel e nações circunvizinhas relativas a julgamento e
arrependimento estão ausentes nos livros sapienciais. Em razão dessa observa-
ção, Zimmerli escreveu que “a sabedoria não tem relação com a história entre
Deus e Israel”. Em 1952, Wright escreveu que “o lugar próprio para tratar 
da literatura sapiencial é até certo ponto um problema”, pois, ao que parece,
não há lugar no fluxo geral da teologia do Antigo Testamento uma ênfase à
sabedoria. Gese, em 1958, e mais tarde Preuss, em 1970, perceberam que
a literatura sapiencial era estranha ao pensamento do Antigo Testamento.
Esse ponto de vista pode ser confirmado? Não há um jeito de ver os livros
sapienciais como parte integrante do Antigo Testamento? Há um foco ou “cen-
tro” na teologia do Antigo Testamento que abrange a literatura sapiencial? Os
livros sapienciais podem ser vistos como essenciais à revelação do Antigo Testa-
mento em vez de serem opcionais ou contraditórios? Não há nada que ligue Jó,
Provérbios e Eclesiastes com a lei e os profetas?

Sabedoria e o temor do Senhor. Há quem proponha que o temor do Senhor
atua como princípio unificador na teologia do Antigo Testamento, “como um
dos conectores formais entre os escritores sapienciais e a teologia da Torá e dos
profetas”. “O temor do Senhor” é central à literatura sapiencial, ocorrendo
14 vezes em Provérbios e várias vezes em Jó. Este “temor” (yirat) do Senhor
é o “princípio” (resit) da ciência ou conhecimento (Pv 1.7), e o “princípio”
(ifhillat) da sabedoria (9.10; SI 111.10). Além de ser o ponto de partida ou
início da sabedoria, o temor do Senhor também é “o princípio primeiro e
controlador”, ou “a essência e o coração” da sabedoria.

Provérbios também se refere a “o temor do Senhor” em Provérbios 1.29;
2.5; 8.13; 9.10; 10.27; 14.27; 15.16,33; 16.6; 19.23; 22.4,23.17. O manda- 
mento para temer ao Senhor ocorre em Provérbios 3.7 e 24.21, e quatro vezes
aparece a forma verbal “teme ao Senhor” (Pv 14.2, 16, 26; 31.30). Jó 28.28
equipara o temor do Senhor à sabedoria, e a forma verbal é usada várias vezes
(“temente a Deus”, Jó 1.1,8; 2.3; “teme [...] a Deus” Jó 1.9; “temo-me”, 23.15;
“temem”, 37.24), bem como frases nominais relacionadas (“o temor do Todo-
poderoso”, 6.14; “temendo o seu esplendor”, 31.23, NVI).

Eclesiastes usa o substantivo hebraico yir’ah e o verbo hebraico yare seis
vezes (“haja temor diante dele”, Ec 3.14; “teme a Deus”, Ec 5.7 [hebraico, v.
6]; “teme a Deus”, 7.18; “temem a Deus”, 8.12; “teme diante de Deus”, 8.13; e
“teme a Deus”, 12.13). A conclusão ou resumo (sop) das discussões em Eclesias-
tes é que o homem deve temer a Deus. A literatura sapiencial vê com excelência
o temor ao Senhor, e várias vezes o temor do Senhor está associado com a
sabedoria (Jó 28.20; Pv 1.7,29; 2.5; 8.13; 15.33).

Temer ao Senhor significa reconhecer a sua superioridade sobre o homem,
reconhecer a sua deidade e, assim, responder em temor, humildade, adoração,
amor, confiança e obediência. O temor do Senhor, “corretamente compreen-
dido, não era mera ‘atitude’, pois envolvia a plena gama de respostas da huma-
nidade à deidade”. Tal resposta a Deus resulta em sabedoria, em vida sábia e
habilidosa.

O assunto do temor do Senhor está limitado à literatura sapiencial? Claro
que não! O temor ao Senhor reverbera ao longo do Antigo Testamento, come-
çando com o patriarca Abraão. Tendo obedecido a diretiva de Deus para sacrifi-
car o filho Isaque, Abraão ouviu as palavras de aprovação de Deus: “Porquanto
agora sei que temes a Deus” (Gn 22.12). Jó, que pode ter vivido nos tempos
patriarcais, temia a Deus (Jó 1.1,8,9; 2.3).

José falou aos seus irmãos: “Eu temo a Deus” (Gn 42.18). As parteiras he-
braicas temiam a Deus (Ex 1.17,21), mais do que temiam faraó. Vendo o grande
poder de Deus ao libertá-los pelo mar Vermelho em solo seco e destruindo os
soldados egípcios, “temeu o povo [de Israel] ao Senhor e creu no Senhor” (Ex
14.31). Uma das qualificações dos líderes a quem Moisés delegou responsabili-
dade para lidar com disputas era que fossem “tementes a Deus” (18.21). Depois 
de ter dado a Moisés os dez mandamentos, Deus disse que temê-lo impediria
que os seus seguidores pecassem (20.20). Cinco instruções em Levítico contra
tirar vantagem dos outros estão acopladas com o mandamento: “Mas terás te-
mor do teu Deus” (Lv 19.14,32; 25.17, 36; 43).

Em Deuteronòmio, o Senhor, por Moisés, desafiou o povo repetidamente
a temê-lo (Lv4.10; 5.29; 6.2,13e24;8.6; 10.12,20; 13.4; 14.23; 17.19; 28.58;
31.12,13). Os israelitas também eram responsáveis por comunicar aos filhos
esta resposta ao Senhor (4.10; 5.29; 6.2; 31.12,13). Temer a Deus estava asso-
ciado com obedecer aos mandamentos da lei (5.29; 6.2 e 24; 8.6; 13.4; 17.19;
28.58; 31.12,13) ou com servi-lo (6.13; 10.12,20) ou amá-lo (10.12).

Referências a temer ao Senhor aparecem no tocante aos principais acon-
tecimentos na história de Israel. Logo após à travessia do rio Jordão e entrar
na Terra Prometida (Js 2.24), no discurso de despedida de Josué na renovação
do concerto em Siquém (24.14), no discurso de despedida de Samuel à nação
(1 Sm 12.14,24), na oração de Salomão na ocasião da dedicação do templo
(1 Rs 8.40,43; 2 Cr 6.31,33), nos reinados de vários reis (Josafá, 2 Cr 17.10;
20.29; Uzias, 2 Cr 26.1-5; Ezequiel, Jr 26.19), e na comunidade pós-exílica (Ne
1.11; 5.9).

Vários profetas falaram sobre o temor do Senhor (Is 50.10; Jr 5.22,24;
10.7; Ag 1.12; Ml 3.16). Isaías disse que o Messias se deleita no temor do Se-
nhor (Is 11.2). Quatro profetas falaram de povo de diversas nações temendo ao
Senhor durante o Milênio (Is 25.3; 33.6; 59.19; Jr 32.39,40; Mq 7.17; Ml 4.2).
De forma interessante, Miquéias associou o temor a Deus com sabedoria: “É
verdadeira sabedoria temer-lhe o nome” (Mq 6.9, ARA).

O temor do Senhor não é um conceito dominante apenas na literatura
sapiencial, consta também ao longo do Antigo Testamento. Serviu para unir
estes segmentos do Antigo Testamento que, caso contrário, pareceriam discre-
pantes.

Sabedoria e a lei. Em vez de vermos a sabedoria como algo distante da
Torà, deveríamos vê-la como algo estreitamente alinhada com ela. Obedecer à
lei é evidência da sabedoria: “O testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos
símplices” (SI 19.7); “Quem é sábio observe estas coisas” (SI 107.43). Moisés
falou para o povo: “Guardai-os [os decretos e as leis de Deus], pois, e fazei-os,
porque esta será a vossa sabedoria e o vosso entendimento” (Dt 4.6).

A literatura sapiencial é abordada em pelo menos cinco dos dez manda-
mentos. Por exemplo, a verdade do quinto mandamento: “Honra a teu pai e
a tua mãe” (Ex 20.12), é tratada de forma negativa e positiva em versículos
como Pv 15.20; 19.26; 20.20; 23.22; 28.24; 30.11,17. O ato do assassinato (o
sexto mandamento, Ex 20.13) é mencionado em Jó 24.14 e Pv 28.17. As con-
seqüências do adultério, que é proibido pelo sétimo mandamento (Ex 20.14),
é mencionado muitas vezes (Jó 24.15; 31.1-12; Pv 2.16-19; 5.3-6, 20 e 23;
6.23-29, 32-35; 7.1-27; 22.14; 23.27; 30.20). O roubo (o oitavo mandamento, 
Êx 20.15) é mencionado em Jó 24.14,16 como ato pecador. Dar falso testemu-
nho contra o próximo (nono mandamento, Êx 20.16) é denunciado em Provér-
bios (Pv 6.19; 12.17; 14.5,25; 19.5,9,28; 21.28; 25.18).

Aceitar suborno é proibido na lei (Êx 23.8; Dt 16.19; 27.25) e os livros
sapienciais também o vêem como pecado (Jó 15.34; 36.18; Pv 15.27; 17.8,23; 29.4). Exercer justiça, um padrão na Torá (Êx 23.2,6; Lv 19.15; Dt 16.19,20;
24.17; 27.19), é assunto freqüentemente mencionado na literatura sapiencial
(Jó 29.14; 31.13; Pv 8.20; 17.23; 18.5; 19.28; 21.15; 24.23-25; 28.5; 29.4,
7,26; Ec 3.16; 4.1; 5.8; 8.9). A bondade para os pobres, exortada em Deute-
ronômio 15.11; 24.14, é tratada em Jó 24.4,14; 29.16; 31.19; e Provérbios
14.21,31; 19.17; 31.9,20.

O texto de Ec 12.13 claramente relacionou o princípio da sabedoria —
temer ao Senhor — com a lei: “Teme a Deus e guarda os seus mandamentos”.
Não há dúvida de que muitos temas na Torá têm elaboração adicional nos livros
sapienciais, demonstrando que estes têm um lugar essencial e unificado no câ-
non do Antigo Testamento.

Sabedoria e a teologia da criação. A literatura sapiencial também está uni-
da ao restante do cânon do Antigo Testamento pela ênfase na criação. Como
Zimmerli propôs na sua frase clássica e freqüentemente citada: “A sabedoria
pensa resolutamente dentro da estrutura da teologia da criação”. Vemos esta
relação de vários modos.

Primeiro, a sabedoria, como já discutido, está envolvida na busca do ho-
mem por ordem (ou regularidade e propósito) no reino natural e na experiência
humana. Ser bem-sucedido em enfrentar a realidade (ou seja, ser sábio) envolve
(1) ver o desígnio que Deus colocou no reino criado e (2) viver de acordo com
esse desígnio. Por exemplo, muitos provérbios estão baseados em observações dos
fenômenos múltiplos da natureza e nas complexidades da experiência humana.
Esses provérbios enunciam verdades gerais baseadas nessas observações. Notar os
padrões na criação de Deus tornou possível a formulação de provérbios.

Segundo, o mundo veio à existência pela sabedoria de Deus. “O Senhor,
com sabedoria, fundou a terra; preparou os céus com inteligência. Pelo seu
conhecimento, se fenderam os abismos, e as nuvens destilam o orvalho” (Pv
3.19,20). (Cf. SI 104.24: “Ó Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as
coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas”). Em Provér-
bios 8, a sabedoria é personificada como estando com Deus na hora da cria- 
cão: “Quando ele preparava os céus, aí estava eu [a sabedoria]” (Pv 8.27). Os
versículos 27 a 29 referem-se a cinco aspectos da criação de Deus que foram
acompanhados pela presença da sabedoria. O texto descreve a sabedoria dan-
do cambalhotas com Deus, “folgando perante ele em todo o tempo, folgando
no seu mundo habitável” (w. 30,31). Quando estabeleceu o vento, as águas,
a chuva e os temporais (Jó 28.25,26), Deus “viu [a sabedoria] e a manifestou;
estabeleceu-a e também a esquadrinhou” (v. 27). Quando Jó falou das maravi-
lhas de Deus no universo criado (Jó 9.5-10), ele iniciou o assunto afirmando: “A
sua sabedoria é profunda” (v. 4, NTLH). Deus disse a Jó que ele, não o homem,
por sua sabedoria conta as nuvens (Jó 38.37), e dá aos falcões o instinto para
voar para o sul (Jó 39.26).

Terceiro, na literatura sapiencial o homem aprecia a beleza e diversidade
do mundo criado. As lições da natureza animada e inanimada são abundantes
nos livros sapienciais. Como escreveu Salomão: “Tudo fez formoso em seu tem-
po” (Ec 3.11). O louvor pelas obras criativas de Deus origina-se da consciência
que o homem tem da natureza que o cerca.

Quarto, a ordem na criação se escora na crença e na justiça divina. Como
Criador, Deus vê tudo que Ele fez e tudo que o homem faz e “criou o universo
de tal modo que o pecado é punido e a virtude recompensada”, ainda que
este exercício da justiça possa ser retardado ou aparentemente pervertido. Jó
lutou com a suposta injustiça de Deus, e Salomão, em Eclesiastes, estava trans-
tornado pelas muitas injustiças que ele observou na vida. Mesmo assim, nem Jó,
nem Salomão, amaldiçoaram a Deus ou o abandoram.

Quinto, a ordem da criação induz o homem a reconhecer as suas insufici-
ências e limitações. Ele, junto com a natureza, foi criado. E, portanto, incapaz
de compreender tudo que Deus fez e planejou, e não pode entender plenamente
os caminhos do Criador infinito. Apesar da harmonia observada no universo,
muita coisa permanece imprevisível e incompreensível. Jó disse a Deus: “O que
faz coisas grandes, que se não podem esquadrinhar” (Jó 9.10). Zofar pergun-
tou: “Alcançarás os caminhos de Deus” (11.7). Depois de ouvir os discursos de
Deus, nos quais falou extensivamente sobre a natureza, Jó respondeu: “Falei do
que não entendia; coisas que para mim eram maravilhosíssimas, e que eu não
compreendia” (42.3). Salomão escreveu que o homem náo pode “descobrir a
obra que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec 3.11). Este fato das limita-
ções do homem não contradiz o conceito de ordem, pois, como explica Bergant,
“a sabedoria não nos capacita a transcender o ambíguo, mas a lidar adequada-
mente com ele. Nem a contingência, nem a ambigüidade, precisam minar a
teoria versátil da ordem. [...] Há uma ordem cósmica, mas a mente humana não
consegue entender todas as suas ramificações”. 

Sexto, embora a teologia da criação apresente o homem como um ser cria-
do — um ser que pode observar a ordem, questionar e lutar com as aparentes
contradições nessa ordem, e tem de admitir a sua finitude e limitação —, ela
também o apresenta como um ser que é desafiado a venerar, amar, obedecer e
confiar no Senhor, que, em sua soberania, trabalha todas as coisas de acordo
com os seus propósitos (Jó 42.2; Pv 16.4; Ec 3.14,15).

Sétimo, a literatura sapiencial vê a obra criadora de Deus como provedora
do prazer do homem. Trabalho, prazer, relaxamento e alegria são parte do desíg-
nio de Deus para o homem.’ Os justos, embora façam parte do mundo finito
e humano pertinente à criatura, podem ter alegria como parte do desígnio de
Deus na criação (Jó 33.26,28; Pv 5.18; 10.1,28; 11.10; 12.20; 13.2; 15.20, 23 e
30; 21.15; 23.16, 24 e 25; 27.9; 27.11; 29.2 e 3; Ec 3.22; 5.19; 8.15; 9.9; 11.8
e 9; Ct 1.4; 3.11). Como observa Hoppe, “o ceticismo do Koheleth não termina
em amargura ou resignação. Ele chama os leitores a agir apesar das incertezas da
vida (Koheleth 11.1-6)”.

A literatura sapiencial se relaciona inexoravelmente com a doutrina da
criação. E nesta ligação, a literatura sapiencial se mantém parte integrante da
teologia do Antigo Testamento. Sem os livros sapienciais, o cânon bíblico seria
lamentavelmente pobre.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.