23 de fevereiro de 2015

ROY B. ZUCK - Uma teologia de Provérbios

UMA TEOLOGIA DE PROVÉRBIOS

A DOUTRINA DA SABEDORIA

Sabedoria e a ordem da criação. Como anteriormente declarado, sabedoria significa ser hábil e bem-sucedido nas relações e responsabilidades. Envolve observar e seguir os princípios de ordem no universo moral estabelecidos pelo Criador. Essa ordem manifesta a sabedoria de Deus que está disponível ao homem.

A medida que o homem a segue, torna-se sábio. Atender a sabedoria do livro de
Provérbios traz harmonia à vida. Em contrapartida, não atender o desígnio divino de Deus resulta em desordem. A não submissão aos caminhos sábios de Deus traz conseqüências desagradáveis e desastrosas para si mesmo e para os outros.


Identificando o sábio com o justo e o ininteligente com o louco, o livro
de Provérbios demonstra que sabedoria é mais do que sabedoria intelectual. 
Abrange a sabedoria moral e a sabedoria religiosa. Dois caminhos são propostos
ao leitor: o caminho (ou conduta e caráter) do justo (ou sábio), e o caminho
(ou conduta e caráter) do ímpio (ou louco ou mau ou insensato ou tolo). Cada
caminho traz certas conseqüências. O caminho da sabedoria leva à vida, e o
caminho da loucura leva à morte.

O valor da sabedoria. Por causa do valor para o caráter do sábio, a sabedoria
é comparada à prata e tesouro escondido (Pv 2.4). O valor excede ao do ouro,
prata ou rubis (3.14,15; 8.10,11,19; 16.16). O sábio entende o que é certo, justo e imparcial (2.9; 8.15,16), é protegido do prejuízo (2.8, 11,12,16; 4.6; 6.24;

7.5; 14.3) e tem prosperidade e riqueza (3.2,16; 8.18,21; 9.12; 14.24; 16.20;
21.20,21; 22.4), saúde e alimento (3.8; 4.22), favor e boa reputação (3.4; 8.34,35; 13.15), honra (3.16,35; 4.8,9; 8.18; 21.21), confiança e segurança (1.33; 3.22,23; 4.12; 12.21; 22.3; 28.26), paz (1.33; 3.17-24), confiança (3.25,26), orientação (6.22), vida (3.2,16,18,22; 4.10,22; 6.23; 8.35; 9.11; 10.16,17,27; 11.19; 16.22; 19.23; 22.4), saúde (4.22) e esperança (23.18; 24.14).

As pessoas também se beneficiam da sabedoria do indivíduo. Por exemplo, o
sábio dá alegria aos pais (10.1; 15.20; 23.15,16,24,25; 27.11; 29.3). A vida justa (ou sábia) resulta em uma árvore de vida (11.30; 13.12; 15.4; cf. Pv 3.18), quer dizer, como uma árvore que é fonte de benefício aos outros. E a sabedoria também é uma fonte de vida (10.11; 13.14; 15.27; 16.22) trazendo rejuvenescimento aos outros.

Não admira que a sabedoria tenha de ser buscada (2.3,4), alcançada (4.5,7), amada (v. 6), escolhida (v. 8), agarrada e vigiada (v. 13), ouvida (w. 32-34) e achada (v. 35). Temos de avaliar a sabedoria como um colar (1.9; 3.3,22; cf. Pv 6.21)e uma guirlanda ou coroa na cabeça (1.9; 4.9).
Semelhantemente ma’at, a antiga literatura egípcia apresenta a deusa da
justiça, ordem e verdade como garantindo proteção, dando uma guirlanda ou grinalda de vitória aos deuses, e é pintada como uma corrente no pescoço de
juizes e vizires. Além disso, maat traz um ankh, como sinal de vida, em uma
mão, e um cetro, como símbolo de riquezas e honra, na outra mão (cf. 3.16).

A sabedoria sempre traz estas e outras bênçãos? A experiência de muitas
pessoas apresenta um desafio a estas garantias de vida longa, bem-estar e prosperidade. Há três respostas para este problema.

Primeiro, estas declarações apresentam o que habitualmente é verdade. Embora nem todos que sejam “retos” (Pv 2.7) são protegidos de danos e prejuízos (w. 7,8,11), a proteção física é a experiência mais constante do sábio e temente a Deus do que do insensato e ímpio. Viver impiamente leva a assumir riscos, que resultam em danos, um sentimento de insegurança, inquietude e/ou falta de honra. Até as observações casuais dos ímpios confirmam esse fato. É verdade que notamos algumas exceções, mas os provérbios estão apontando o que é normal e habitual, o que é suficientemente recorrente para ser considerado normativo.

Segundo, muitos provérbios foram intencionalmente escritos de forma
modo contrastante para ressaltar as grandes diferenças de conduta e conseqüências. Este dispositivo pedagógico tem por objetivo motivar a ação apropriada e desencorajar a ação inapropriada.
Terceiro, as circunstâncias podem apresentar exceções às declarações vistas como absolutas. Ou a conduta da pessoa pode alterar o resultado. A teimosia ou a desobediência da criança pode alterar o que seria a declaração de garantia apresentada em Pv 22.6: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele”. Ainda que este versículo seja geralmente verdadeiro, “a estultícia”, que “está ligada ao coração do menino” (v. 15), pode introduzir uma situação que é exceção à regra.

A personificação da sabedoria. Atribuir características pessoais a objetos inanimados ou a idéias abstratas é comum no Antigo Testamento. As montanhas cantam e as árvores aplaudem (Is 55.12), a verdade tropeça (Is 59.14) e a língua odeia (26.28) são exemplos de personificação. Não é surpreendente vermos a sabedoria personificada em Provérbios. O fato de a sabedoria ser personificada como mulher é parcialmente explicado pelo fato de que o substantivo hebraico hokmah é feminino. Outra razão é que a sabedoria, como mulher, é atraente. Da mesma maneira que o homem se sente atraído e deseja a beleza da mulher, assim ele deve reagir e desejar a sabedoria. A figura personificada da sabedoria também realça o contraste entre a sabedoria e a insensatez. A insensatez, também personificada como mulher (9.13-18), procura atrair seguidores masculinos. Da mesma maneira que as mulheres imorais podem levar os homens à conduta ilícita e conseqüências terríveis (“morte”), assim a insensatez pode levar as pessoas a procurar conduta imprópria que resulta em derrota e morte.

A sabedoria é apresentada como uma profetiza (1.20-23; 8.1-21), uma
irmã (7.4), uma criança (8.22-31) e uma anfitriã (9.1-6). Como profetiza, ela
clama nas ruas onde as pessoas estão passando, nas praças públicas, onde elas
estão comprando e vendendo, e nas portas, onde as pessoas estão negociando
(1.20,21). Admoesta os “néscios” e os “escarnecedores” por causa do amor que
têm por modos ingênuos e escárnio dos outros, e os “loucos” por odiarem o
conhecimento (v. 22). Por não atenderem à repreensão e não quererem aprender
com ela (w. 23-25), ela ignorará os gritos de socorro quando eles forem colhidos pela calamidade e angústia (w. 26,27). A desconsideração dos clamores dela resultará em desconsideração dos gritos deles. Por recusarem temer ao Senhor e refutarem os conselhos da sabedoria (1.28-30), eles sofrerão as consequências das suas ações (o “fruto do seu caminho”, v. 31), inclusive a morte (v. 32).

A personificação da sabedoria como irmã dá a entender uma relação íntima (7.4). Estar estreitamente relacionado com a sabedoria é um meio de proteção
contra a adúltera (v. 5). Quando alguém se relaciona com a sabedoria como a
uma irmã, fica dissuadido pela fascinação do adultério. A sabedoria, acompanhada pela piedade, é contrastada ao adultério, o ápice da loucura e maldade.

O texto de Provérbios 8 é o capítulo clássico sobre a personificação da
sabedoria. A sabedoria, como uma profetiza, chama os “simples” e os “loucos” (8.5), exortando-os a atender as suas palavras, que são verdadeiras, justas e retas (w. 7-9) e de valor inestimável (w. 10,11). Dá discrição (w. 12-14), ódio ao mal (v. 13), justiça aos governantes (w. 15,16) e riqueza, honra e retidão (w. 17-21).

Temos de amar a sabedoria (w. 17-21), indicando mais uma vez a conveniência
de personificar a sabedoria como mulher.

A sabedoria teve um papel especial no trabalho criativo de Deus (w. 22-
31). Existia antes da criação do mundo (w. 22-26), e alegrou-se quando, ao
lado de Deus, o viu criar o mundo (w. 27-31). Há uma pletora de frases que
mostram que a sabedoria precedeu a criação do universo: “No princípio de seus
caminhos” e “antes de suas obras mais antigas” (v. 22), e “desde a eternidade”,
“desde o princípio” e “antes do começo da terra” (v. 23). A sabedoria existia
quando não havia oceano ou fontes de águas, montanhas ou montes, ou terra
com campos e pó (w. 24-26). Ela foi adquirida (ou criada, v. 22), nomeada (v.
23) e dada à luz (w. 24,25).

O verbo hebraico qanah significa “adquirir” ou “criar”, “dar à luz”? Em
outros textos de Provérbios, o versículo significa adquirir ou possuir (“adqui-
rir”: Pv 1.5; 4.7; 16.16; 15.32; 19.8; “comprar”: 23.23). Por outro lado, o verbo em Genêsis 4.1 e Salmo 139.13 significa “criar”. Estas duas passagens usam este verbo no contexto de nascimento, o que se alinha com as referências à sabedoria ter nascido em Provérbios 8.24,25. Portanto, é preferível traduzir o verbo hebraico qanah pela palavra “criar”. Metaforicamente, Deus “criou” a sabedoria.
Ela náo existia separada dEle.

Continuando a falar na primeira pessoa, a sabedoria declarou que, tendo
existido antes da criação (8.24,26), ela estava presente na criação (w. 27-31).
A sabedoria testemunhou o Senhor fazer os céus (8.27; Gn 1.1-5), separar as
águas no segundo dia da criação (8.27b,28; cf. Gn 1.6-8) e formar a terra (porção seca) e o mar no terceiro dia da criação (8.29; Gn 1.9,10).

Estando “com ele” (8.30), a sabedoria estava intimamente associada
com o Senhor como um ’amon. Alguns intérpretes traduzem esta palavra
hebraica por “artesã” (ou “artesã mestre” ou “artífice”), ao passo que outros preferem traduzi-la por “amamentadora de filhos”. Vários fatores indicam a preferência pela segunda tradução. (1) Os versículos 30 e 31 dizem
que a sabedoria se alegrou e não que trabalhou. Deus fez o trabalho criativo.
(2) O contexto do parto (w. 22-25) sugere a tradução “amamentadora de
filhos”. (3) Uma forma verbal desta palavra é usada em Lamentações 4.5
para referir-se aos que “se criaram” ou foram amamentados como crianças. (4) Maat, a deusa egípcia, é comparada a uma criança que brinca na
presença de Re-Atum. Em quiasma, o texto diz que a sabedoria (a) tinha
delícias, (b) alegrava-se na presença de Deus, (c) alegrava-se no mundo de
Deus e (d) achava delícias no gênero humano, o ápice do gênio criativo de
Deus. Dando cambalhotas como uma criança, o texto descreve a sabedoria
alegrando-se com tudo o que Deus fez.

Por causa da ascendência da sabedoria, existindo antes da criação, e visto
que ela testemunhou a criação do mundo (cf. o insulto de Elifaz contra Jó em Jó 15.7,8), a sabedoria tem autoridade inigualável para atrair os homens a segui-la.

Aqueles que a ouvem e seguem seus caminhos são abençoados e ficam sábios.
Em Provérbios 8.32-34, o verbo “ouvir” (“dar ouvidos”) e o adjetivo “bem-
aventurado” são usados alternadamente (“ouvi”, v. 32; “bem-aventurados”, v. 32; “ouvi”, v. 33; “bem-aventurado”, v. 34; “dá ouvidos”, v. 34). Achar sabedoria traz vida (v. 35) e rejeitar sabedoria traz prejuízo e, no fim, a morte (v. 36).

Quando Deus criou o mundo, a sabedoria estava com ele, quer dizer, o trabalho criativo foi um trabalho sábio. Não havia nada de tolo no que ele fez. Ele fez tudo “com sabedoria”. Esta verdade também é declarada em Provérbios 3.19,20. Isto também aponta o fato, como já declarado, de que a teologia da sabedoria é a teologia da criação. O Deus sábio trouxe o mundo criado à existência. 
Em Provérbios 8, nem uma entidade (hipóstase) separada e independente, 
nem uma deusa mítica, nem um prenúncio de Cristo é mais bem visto do que
a personificação poética do atributo da sabedoria de Deus.

Em Provérbios 9.1-6, a sabedoria é personificada como uma anfitriã virtuosa. Tendo construído uma casa de sete colunas (v. 1), quer dizer, uma casa grande e espaçosa, indicativa de prosperidade, e tendo preparado um banquete (v. 2), ela instruiu os empregados a chamar (cf. 1.21; 8.1-3) os simples para tomar parte no banquete (9.4,5). Deste modo, eles viveriam (desfrutariam a vida ao máximo) e teriam entendimento (v. 6). Três linhas (w. 7,8a) destacam os perigos de reprovar os pecadores, ao passo que três linhas (w. 8b,9) destacam, por contraste, a resposta dos sábios à reprovação e instrução. As palavras finais da sabedoria em Provérbios 9.10-12 sumariam muitas verdades expostas nos capítulos 1 a 9. (1) A essência de ser sábio é temer ao Senhor. (2) Ser sábio resulta em bênçãos, inclusive uma vida longa. (3) O oposto de ser sábio — rejeitar ativamente a sabedoria como um escarnecedor — traz sofrimento. A senhora Sabedoria é contrastada com a senhora Insensatez, que também convida os homens à casa dela, mas que é tumultuosa, enganosa e desastrosa (w. 13-18). Novamente, a morte é o resultado da insensatez (v. 18), ao passo que a vida vem da sabedoria (v. 6).

Certos estudiosos bíblicos também vêem a sabedoria personificada pela mulher de nobre caráter em Pv 31.10-31. A idéia se baseia nas declarações feitas sobre esta mulher que são iguais às declarações feitas sobre a sabedoria. O valor da mulher virtuosa “muito excede o de rubis” (v. 10) como excede o valor da sabedoria (3.15; 8.11; cf. Pv 8.10,19; 16.16). A mulher virtuosa ri (cheia de confiança e segurança) de ameaça futura (31.25), e a sabedoria também ri do desastre (1.26). A sua lâmpada (ner) não sai à noite (31.18), e a luz (ner) dos justos continua brilhando (13.9). Em Provébios 31.10-31, ela é uma mulher de virtude e dedicação, e em Provérbios 9.1-9 fala que a sabedoria é como uma jovem virtuosa que prepara um banquete para os homens jovens. Em Provérbios 31.26 a mulher nobre dá instrução, e numerosas passagens em Provérbios 1 a 9 dizem que a sabedoria dá instrução.
Também argumentam que a posição da passagem, ao término do livro de
Provérbios, sugere que a mulher nobre representa a sabedoria, o tópico do livro.

Porque a sabedoria foi personificada em outras passagens de Provérbios, defen-
dem que a mulher aqui também é uma personificação da sabedoria. E propõem que a posição da passagem torna a inclusão adequada aos capítulos 1 a 9, nos
quais a sabedoria é personificada como uma mulher. Esta visão, porém, tem
vários problemas. (1) As atividades da mulher virtuosa sugerem mais que sabedoria. Quando a sabedoria é personificada nos capítulos 1 a 9, ela não é descrita como tendo marido (31.11), ou como mulher que cose (w. 13,19,22), cozinha (31.15), compra alimentos e propriedades (w. 14-16), planta (v. 17), negocia (v. 18), vende (31.24), atende as necessidades do marido, filhos e criados (w. 12,21,27) e ajuda os necessitados (31.20). É enérgica, trabalhadora, próspera, compassiva, forte, confiante e espiritual. (2) Os capítulos de Provérbios 1 a 9 não descrevem a sabedoria como uma mãe, como é uma mulher virtuosa em Provérbios 31.15,28. (3) A mulher virtuosa fala com sabedoria (v. 26). Se esta mulher for a sabedoria, então o versículo estaria declarando que “a sabedoria fala com sabedoria”. Isto não faz sentido.

É preferível ver a mulher virtuosa de Provérbios 31.10-31 como esposa
e mãe. E uma mulher sábia, não a sabedoria personificada. Temos apoio para
esta interpretação no versículo 30, que diz: “A mulher que teme ao Senhor, essa
será louvada”. Considerando que temer ao Senhor é a essência da sabedoria, a
mulher ideal, que teme a Deus, é realmente sábia. Ela é modelo ou exemplo da
mulher sábia. Em contraste com a mulher insensata e adúltera (2.16-19; 5.20; 6.23-34; 7.4-27), esta mulher é fiel à família e é elogiada (31.30,31) pelos filhos
e pelo marido (v. 28) e pelo público (v. 31). Como mulher sábia, ela está em
contraste com a “senhora Loucura” (9.13-18). Em vez de ser uma personificação da sabedoria, a mulher de Provérbios 31.10-31 é a encarnação ou modelo da sabedoria, uma mulher que é sábia porque vive habilidosamente.

A DOUTRINA DE DEUS

Os Seus nomes. Provérbios usa o nome Senhor (Jeová) para referir-se a Deus 87 vezes; ’Elohim ocorre só sete vezes (Pv2.5 e 17; 3.4; 14.31; 25.2; 30.5, 9) e ’Eloah consta apenas uma vez (30.5). Deus também é chamado o Santo (9.10; 30.3, o Justo (21.12), o Defensor (23.11) e o Criador (14.31; 17.5; 22.2).

Os seus atributos. Os atributos de Deus apresentados no livro de Provérbios são a santidade (o “Santo”, Pv 9.10; 30.3), a onipresença (5.21; 15.3), a onipotência (como o Criador do universo [3.19,20; 8.22-31; 30.3) e dos ouvidos e olhos dos homens [Pv 20.12; 29.13] e o Criador dos
pobres [14.31; 17.5; 22.2] e dos ricos [22.2]) e a onisciência (examinando
e conhecendo a morte [15.11], a conduta [5.21; 21.2], os motivos [16.2] e
o coração dos homens [17.3; 20.27; 24.12] e vendo o bem e o mal [15.3],
e aqueles que se alegram com os infortúnios dos outros [4.16,17]).
Deus também possui soberania, trabalhando tudo para os Seus propósitos (Pv 16.4; 19.21), até determinando as decisões (16.33) e o curso de ação
(16.9) dos homens, dirigindo o coração (ou interesses e decisões) dos reis (Pv 21.1) e suplantando todo plano do gênero humano (19.21; 21.30). Deus tem
sabedoria (3.19,20) e justiça. Na sua justiça (29.26), Ele é o Justo (21.12) que impede e castiga os ímpios (3.33; 10.3; 11.8; 21.12; 22.12), os astuciosos (12.2) e os orgulhosos (15.25), e sustenta os pobres e aflitos (22.22,23; 23.10,11). A sua justiça é eqüitativa, porque Ele retribui ao homem de acordo com a conduta (20.22; 24.12), e recompensa os justos (19.17; 25.22).

Na sua justiça, Deus odeia a perversidade (3.32; 11.20), o orgulho
(6.17; 16.5), a mentira (6.17-19; 12.22), a violência (“mãos que derramam
sangue inocente”, 6.17), as tramas e ações maldosas (Pv 6.18), a dissensão
(v. 19), a desonestidade (11.1; 20.10,23), a hipocrisia (“o sacrifício dos ímpios”, Pv 15.8; 21.27; as orações do sem lei, 28.9), e a injustiça (17.15).

A personalidade de Deus é evidente em seu amor pela disciplina (Pv 3.12)e pelos procedimentos comerciais honestos (11.1); Ele se deleita na
conduta dos inocentes (v. 20 [cf. 16.7a]), nas pessoas que são verdadeiras (12.22) e nas orações e conduta íntegra dos piedosos (15.8,9).

As suas ações. Os parágrafos precedentes mostram que os atributos de Deus
revelam muitas de suas ações. São elas: criar, ver, examinar, tencionar, influenciar, dirigir, castigar, defender, recompensar, odiar, amar e deleitar-se. Outras ações são dar sabedoria (Pv 1.7; 2.6), dar graça aos humildes (3.34), proteger os justos (2.7,8; 3.26; 10.29; 14.26; 15.25; 18.10; 19.23; 29.25; 30.5), prover a subsistência dos justos (10.3), libertar os justos (20.22), abençoar os justos (3.33; 10.22; 12.2), dar vida (10.27), dar ao homem uma esposa prudente
(18.22; 19.14), dirigir os que confiam nEle (3.5,6), dar as pessoas palavras para
dizer (16.1), guiar os caminhos (“passos”, 16.9; 20.24) e decisões dos homens
(16.33) e ouvir as orações dos justos (15.29).

A DOUTRINA DO HOMEM

O livro de Provérbios usa a metáfora do caminho, como já declaramos. Por
metonímia, caminho representa a conduta da pessoa andando em certa direção
ou ao longo de certo caminho. Esta figura de linguagem indica uma escolha,
uma decisão, sobre qual de dois tipos de vida a pessoa escolherá. Os dois convites contrastantes — seguir a conduta sábia ou seguir a conduta insensata (8.1; 9.1-6,13-18) — exigem uma escolha. Esta figura também chama a atenção aos fins diferentes dos caminhos, as conseqüências resultantes dos dois tipos de conduta.

Os dois caminhos são o caminho da vida dos justos e o caminho da vida
dos ímpios, também identificados um pela conduta sábia, o outro pelo modo
insensato. Todas as pessoas ou são justas (ou sábias) ou ímpias (ou insensatas). O caminho da justiça ou sabedoria é o caminho da virtude, ao passo que o caminho da impiedade ou insensatez é o caminho da maldade. O estilo de vida dos justos/sábios leva às bênçãos, e o estilo de vida dos ímpios/insensatos leva à ruína. Considerando que a vida sábia significa viver os princípios ou normas da ordem ou padrão de Deus para a vida. A harmonia ou as bênçãos vêm à medida que a pessoa dá ouvidos às advertências e observações em Provérbios  ertinentes ao caminho da sabedoria. Reciprocamente, quando a pessoa negligencia ou faz pouco caso da vida sábia, procurando o caminho insensato, ela experimenta desordem e caos.

A impiedade leva a pessoa ao caminho das trevas e perversão (2.13-15; 4.19). É um caminho não-convencional, conduzindo à perda de bênçãos e inclusive à morte (2.18; 8.36; 11.19; 14.12). A justiça, porém, leva a pessoa ao
caminho que é reto (2.13; 4.26) e luminoso (4.18). Conduz à abundância de
vida (2.20,21; 8.35).

Provérbios destaca as muitas e diferentes circunstâncias e relações do curso de ação dos justos/sábios, e as muitas e contrastantes circunstâncias e relações do curso de ação dos ímpios/insensatos. O caminho dos justos/sábios começa com um relacionamento e resposta corretos a Deus. Como já discutido, temer ao Senhor é o ponto de partida da sabedoria e também o princípio controlador ou essência e o centro da sabedoria. O modo de vida dos justos/sábios começa temendo a Deus, quer dizer, reconhecendo-lhe a superioridade e respondendo-lhe com temor, humildade, adoração, amor, confiança e obediência. Temer a Deus resulta em vida (10.27; 14.27; 19.23; 22.4). Provérbios ordena muitas vezes confiar em Deus, que é parte da resposta em temê-Lo. Resulta em orientação (3.5), prosperidade (28.25) e segurança (29.25). Temer a Deus também envolve entregar a sua conduta ao Senhor (16.3), e odiar e rejeitar o mal (3.7; 8.13; 16.6; cf. 16.17).

Provérbios usa termos hebraicos diversos para descrever os insensatos.
Peti, usado 14 vezes em Provérbios, significa aquele que é ingênuo, crédulo,
aberto a influências, facilmente persuadido. K‘sil, usado 49 vezes em Provérbios e 21 vezes nos outros livros bíblicos, significa ser estúpido ou cabeçudo.

A palavra ’ewil, encontrada 19 vezes em Provérbios e muitas vezes em outros
textos bíblicos, fala dos insensatos que são grosseiros, endurecidos ou obstinados. Nabal, usado só três vezes em Provérbios (17.7,21; 30.22) e nove vezes no restante da Bíblia, descreve a pessoa que não tem percepção ética ou espiritual, que é moralmente insensível. Hasar leb, “falto de coração”, significa não ter sentimento. Ocorre só dez vezes, todas em Provérbios.

A probidade moral, exaltada numerosas vezes em Provérbios, origina-se
de estar corretamente relacionado com Deus (temendo-o, confiando nEle e obedecendo-lhe) e ser sábio. Exceto pela relação certa com Deus, a excelência
moral não é possível. Uma das virtudes recomendadas em Provérbios é a diligência (Pv 10.4,5; 12.24,27; 14.23; 24.27), com seus benefícios de ganho
(10.4; 14.23), comida (12.11; 20.13; 27.18; 28.19), responsabilidade (12.24),
auto-satisfação (13.4), sossego (15.19) e honra (22.29). Outra qualidade recomendada em Provérbios é a humildade, que aumenta a sabedoria da pessoa (11.2), traz honra (15.33; 29.23), riqueza, vida (22.4) e graça (3.34). “Ser humilde de espírito” é melhor do que ter riqueza com os orgulhosos (16.19).

A paciência e o autocontrole são virtudes desejáveis, pois estão associadas com sabedoria e entendimento (Pv 14.29; 17.27; 19.11; 29.11), e
ajudam a acalmar disputas (15.18). Os sábios e tementes a Deus têm as
seguintes características: a coragem (28.1); o amor (10.12; 16.6; 20.28); o
confiança (11.13; 25.13); a veracidade (12.17,19,22; 14.5,25; 16.13); a bondade (11.17) com os animais (12.10), os pobres e necessitados (14.21,31;
19.17; 31.9,20); a generosidade (11.25; 22.9); a honestidade ao testemunhar em juízo (12.17), ao responder perguntas (24.26) e nas transações
comerciais (11.1; 16.11; 20.10,23); a aptidão para aprender (10.8,17; 12.1;
13.1,13,18; 15.5,31,32; 19.20); a moderação no comer (23.1-3; 24.13; 25.16,27) e a sobriedade (20.1; 23.20,21; 31.4).

Provérbios diz muito sobre o uso adequado das palavras. Palavras certas podem encorajar e enaltecer (10.11,21; 12.18,25; 18.21), dar sabedoria
(10.13; 15.7; 16.21,23; 20.15) e proteger (21.23). As palavras devem ser ditas
com restrição (10.19; 11.12; 13.3; 15.28; 16.23; 17.27; 21.23; 29.20) e adequadas ou apropriadas para a ocasião (10.32; 15.1,23; 16.24; 25.11,15).

Muitos maus hábitos ou características indesejáveis analisados em Provérbios apresentam o oposto exato das virtudes precedentes. Por exemplo, o
antônimo da diligência é a preguiça, que é fortemente repreendida (22.13; 26.13-15), porque resulta em pobreza (6.10,11; 10.4; 13.4; 20.13), desgraça
para os pais (10.5), frustração (10.26), fome (12.27; 19.15,24; 20.4; 21.25,26; 26.15), problemas (15.19; 24.33,34) e morte (21.25). Provérbios condena repetidamente o orgulho reputando-o como pecado (21.4). Deus odeia o orgulho
(6.16,17; 16.5). Conduz à desgraça (11.2), perda de bens materiais (15.25),
queda (16.18; 18.12; 29.23), brigas e altercações (13.10; 28.25) e punição
(16.5). Orgulho é insensatez (14.16; 26.12; 30.32). Buscar a honra pessoal ou
vangloriar-se das realizações próprias são atitudes detestáveis (25.27; 27.2).

A raiva e a perda de calma são repetidamente denunciadas como procedimentos dos insensatos (Pv 14.16,17,29; 15.18; 19.19; 22.24,25; 29.11,22), pois quem não tem autocontrole é vulnerável a muitos tipos de problemas. É muito semelhante a uma cidade sem muros nos tempos bíblicos, que era insegura e sujeita aos ataques dos inimigos (25.28).

Os usos errados das palavras são a mentira (26.28), que Deus odeia (6.16,17; 12.22); a difamação (10.18; 30.10); a fofoca, que trai a confiança (11.13; 20.19), separa os amigos (16.28; 17.9) e não é facilmente esquecida (“elas descem ao íntimo do ventre”, 18.8; 26.22); a tagarelice (10.19; 19.7; 20.19); o falso testemunho (12.17; 14.5,25; 19.5,28; 21.8; 25.18); o escárnio (13.1; 15.12; 22.10; 24.9; 30.17); a conversa perversa ou dura (10.13,31,32; 12.18; 13.3; 15.1,28; 19.1,28); a ostentação (17.7; 25.14; 27.2); o bate-boca (17.14,19; 20.3); a lisonja (26.28; 28.23; 29.5); e a conversa tola (14.7; 15.2,14; 18.6,7).

São condenados a cobiça (15.27; 28.25; 29.4), a inveja e o ciúme (3.31;
6.34; 14.30; 23.17; 24.1,19; 27.4), a embriaguez (20.1; 21.17; 23.20,21,29-35;
29.4) 7), a hipocrisia (10.18; 12.20; 13.7; 21.27; 23.6,7; 26.18,19,24-26; 27.6), a opressão aos pobres (3.27,28; 13.23; 14.31; 22.22,23; 28.3,8; 29.7; 31.4,5,9), a injustiça (10.2; 16.8; 17.15,26; 18.5), o suborno (6.35; 15.27; 17.8,23; 21.14; 29.4) e a aquisição de dinheiro pela desonestidade (10.2; 13.11; 28.20,22).

Os tementes a Deus e sábios também honram ao Senhor nas relações societárias, inclusive a família. Marido e mulher têm de ser fiéis uns aos outros
(5.15-19; 31.10,11), evitar assiduamente a má conduta ou imoralidade sexual
(2.16-19; 5.20; 6.23-29,32-35; 7.4-27; 22.14; 23.27,28; 30.20). A esposa não
deve ser contenciosa ou briguenta (19.13; 21.9,19; 25.24; 27.15,16). A esposa
infame é um problema (12.4), mas a esposa prudente e nobre é uma bênção de
Deus (12.4; 18.22; 19.14; 31.10). Para a mulher, ser sábia e temente a Deus é
mais virtuoso do que possuir beleza física (11.22; 31.30).

Os filhos são convidados a atender aos ensinos do pai e da mãe (Pv 1.8,9; 4.1-9,20; 5.11,12; 6.20-22; 13.1; 15.5,32; 19.27; 23.22), inclusive a instrução dada pela mãe (1.8; 6.20; 31.1). Disciplinar a criança, ainda que doloroso para os pais, a beneficia (3.12; 13.24; 19.18; 22.6,15; 23.13,14; 29.15,17).

Filhos sábios e obedientes dão alegria aos pais (10.1; 15.20; 23.15,24; 27.11; 29.3), ao passo que filhos ininteligentes e incontroláveis causam aflição parental
(17.21,25; 19.13; 28.7; 29.15). Filhos que desconsideram ou desonram os pais
sofrerão conseqüências sérias (11.29; 15.20; 19.26; 20.20; 28.24; 30.11,17).

Os pais que vivem corretamente dão aos filhos um senso de segurança pessoal (20.7 ;14.26).
Avós que levam uma vida reta podem se alegrar por uma vida longa e netos (Pv 13.22; 16.31; 17.6; 20.29). Até os criados da casa se beneficiam por serem sábios (14.35; 17.2) e diligentes (27.18). Fora da família, temos de escolher os amigos cuidadosamente (12.26; 22.24). Os verdadeiros amigos são fiéis (17.17; 18.24; 27.10), podem dar conselhos sábios (27.9), e, quando necessário, repreender (27.6). A fofoca, por outro lado, pode deteriorar a amizade (16.28; 17.9). Devemos também tratar o próximo corretamente, evitando a traição (25.8-10), o falso testemunho (24.28; 25.18), o engano (26.18,19), a falta de atenção (27.14) e a lisonja (29.5). Buscar conselhos de  utros marca a pessoa como sábia (12.15; 13.10; 19.20), pois pode levar ao sucesso nos empreendimentos pessoais (11.14; 15.22; 20.18; 24.6).

Amigos e sócios devem ser escolhidos cuidadosamente. Os sábios evitam
estar redeados de tolos (Pv 13.20; 14.7; 17.12; 23.9), orgulhosos (16.19), faladores (20.19), ímpios (1.10-19; 22.5; 24.1,2), rebeldes (24.21), violentos (3.31; 16.29), bêbados (23.20), comilões (28.7), ladrões (29.24) e mulheres imorais (2.16-19; 5.8; 6.24-26; 29.3).
Provérbios também contém padrões para reis e governantes. As qualificações são a honestidade (Pv 16.13), a humildade (25.6), a justiça (16.10,12; 25.5; 29.4; 31.8,9), a confiabilidade (20.28), a sobriedade (31.4,5) e o autocontrole (16.14; 19.12; 20.2; 28.15).

Toda sociedade tem de negociar usando dinheiro como meio de troca. Não
é surpreendente que Provérbios, que enfatiza as relações interpessoais e societárias, diga muito sobre negócios e finanças. A fome (Pv 16.26) e o lucro (14.23) motivam as pessoas a trabalhar. O dinheiro proporciona certo grau de proteção (como uma “cidade forte”, 10.15, ARA; 18.11), mantém a pessoa viva (10.16), atrai amigos (14.20; 19.4) e concede certo grau de influência (22.7). O poder do dinheiro é limitado, pois não pode desviar a ira de Deus (11.4), e é temporário (23.4,5), especialmente se for ganho com desonestidade (10.2; 13.11; 20.17; 21.6) ou tolamente inútil (17.16). O dinheiro adquirido por meios escusos traz dificuldade (1.13,14,18,19; 15.6), ao passo que o dinheiro adquirido corretamente traz vida longa.

A riqueza não substitui a integridade (10.9; 16.8,19; 19.1,22; 22.1; 28.6),
o temor do Senhor (15.16) ou a sabedoria (16.16). E verdade que usar dinheiro
para subornar os outros exerce influência (17.8; 21.14), mas subornar é errado
(15.27; 17.23; 29.14). O dinheiro deve ser partilhado com os pobres e necessitados (11.24,25; 14.31; 19.17; 21.13; 22.9,22; 28.27), pois, quem assim faz, honra a Deus e, por sua vez, será abençoado. Métodos de enriquecimento rápido são condenados (20.21; 28.20,22), como é a parcialidade (18.5; 24.23; 28.21), o preço injusto de produtos (11.1; 16.11; 20.10,23) e a obtenção de garantias para empréstimos com taxas de juros exorbitantes (6.1-5; 11.15; 17.18; 20.16; 22.26,27).

As emoções tratadas em Provérbios são a ansiedade (12.25), o desapontamento (13.12), a satisfação de esperanças cumpridas (13.12,19), alegria e a angústia (14.10,13,30; 17.22; 18.14; 25.20; 27.6). Provérbios menciona o coração (o ser interior) do homem 70 vezes. “Alma” é citada 14 vezes; “espírito”, dez vezes; e “corpo”, quatro vezes.
Em sua teologia, o livro de Provérbios, de tópicos incrivelmente amplos
e inclusivos, delineia claramente os dois caminhos (tipos de conduta) da sabe-
doria/justiça e da insensatez/impiedade. E com variedade surpreendente, detalhando intricadamente as características e consequências dos dois caminhos.
Ninguém pode ser verdadeiramente sábio (experiente em viver) sem temer ao
Senhor e obedecer aos mandamentos diretos, advertências severas, observações
profundas e máximas perspicazes apresentadas no livro de Provérbios.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.