20 de fevereiro de 2015

ROY B. ZUCK - Uma teologia de Jó

UMA TEOLOGIA DE JÓ

DEUS

O livro de Jó trata essencialmente da relação do homem com Deus, centra-
lizando-se em duas perguntas. A primeira pergunta é: “Por que o homem adora
a Deus?”. Satanás sugeriu que o motivo por trás da adoração de Jó era engran-
decimento centrado em si mesmo (Jó 1.9-11). Esse assunto atinge o cerne da re-
lação entre o homem e Deus. O que Satanás queria dizer era que Deus não tem
meio de induzir o homem a adorá-lo, exceto subornando-o, recompensando-o
pela devoção oferecida. Se isso é verdade, então a adoração é adulterada; já não
é adoração voluntariosa do homem a Deus. Adoração egoísta não é adoração.


A segunda pergunta é: “Como o homem pode reagir a Deus se Ele não se
interessa pelos problemas do homem?” Jó, o modelo do sofrimento imerecido,
apresenta respostas certas e erradas a Deus em tempos de adversidade. Ele ques-
tionou Deus, almejando uma explicação da sua experiência dolorosa. Mas ele
não amaldiçoou a Deus como Satanás predissera duas vezes (1.11; 3.4). A ati-
tude de Jó foi, a princípio, elogiável: “Bendito seja o nome do Sehnor” (1.21);
e: “Receberemos o bem de Deus e não receberíamos o mal?” (2.10). Imediata-
mente após os dois ataques de Satanás, Jó “náo pecou” (1.22; 2.10). Mais tarde,
porém, a atitude para com Deus ficou áspera e pecadora. Ele acusou Deus de
ficar olhando para ele estupidamente (7.17,19; 13.27), oprimi-lo e aterrorizá-lo
(9.33; 10.3; 13.21,25; 16.7-14; 19.8-11; 23.14-16; 30.18,19,21,22), conside-
rá-lo o seu inimigo (13.24; 19.11, 12), esconder-se dEle (13.24), ser injusto
(19.6,7; 27.2) e ignorá-Lo (30.20). Porque Jó desenvolveu uma atitude amarga
para com Deus, Ele o confrontou com as suas insuficiências e ignorâncias, levan-
do em conta o poder e a sabedoria soberana de Deus. Mais tarde, Jó reconheceu
que o seu pecado o levara a uma atitude de orgulho, arrependendo-se das suas
atitudes (42.1-6). O livro de Jó indica que podemos aceitar a dor imerecida,
ainda que náo compreendida, como proveniente da máo de Deus. A experiência
de Jó demonstra que quando o crente enfrenta o mistério da desgraça inexplicá-
vel e imerecida, ele náo deve rebelar-se ameaçadoramente contra Deus, pois Ele
tem propósitos para os sofrimentos que não são imediatamente visíveis. 

Os três amigos de Jó afirmaram repetidamente que o seu soírimento podia
ser explicado de um único modo — como castigo por algum mal que cometera.
Ao apegarem-se tão firmemente a este conceito, estavam sem perceber limitando
os caminhos de Deus. Estavam truncando a soberania divina, sugerindo que o
Senhor usa o sofrimento apenas para um propósito, isto é, disciplina por causa do
pecado. Por isso, cada um deles sugeriu que Jó se arrependesse (5.8; 8.5; 11.13,14;
22.21-24). Jó insistiu que era inocente de todo pecado conhecido (6.24; 9.21;
10.7; 13.18,19; 16.17; 23.11,12). O assunto da relação do homem com Deus —
em adoração, submissão e arrependimento — é supremo no livro de Jó. E adequa-
do examinarmos a visão de cada protagonista em relação a Deus.

Deus na visão de Elifaz. Na opinião de Elifaz, Deus existe nos céus (22.12),
é justo e puro (4.17), estava ciente do pecado por parte dos anjos (4.18,19;
15.15), criou o homem (4.17), é superior aos homens (4.17), é independente e
não-influenciado pelo homem (22.2,3), julga os ímpios e os faz perecer (4.9,18-
21; 15.30), julga os tolos (15.2-7), tem poder para realizar milagres (5.9), faz
justiça invertendo a sorte dos inocentes e dos maus (5.11-16), dá bênçãos aos
homens (5.18-26; 22.18-21), responde às orações (5.8; 22.27), disciplina os
homens (5.17) e beneficia a terra com chuvas (5.10).

Deus na visão de Bildade. O segundo antagonista de Jó enfatizou a justiça
de Deus (8.3), particularmente punindo o pecado (8.4). Tratando o destino dos
ímpios, Bildade no segundo discurso fala das calamidades e perdas que os ím-
pios têm (18.5-21). Neste discurso ele não disse que Deus faz esse julgamento,
mas está implícito (por exemplo, “A luz dos ímpios se apagará”, 18.5; “afugen-
tá-lo-ão do mundo”, 18.18). Deus só é mencionado uma vez no capítulo 18.
Deus é justo, sustenta Bildade, porque Ele não rejeita os inocentes e não
abençoa os pecadores (Jó 8.20), e oferece misericórdia aos arrependidos (8.5-7).
Deus também é soberano em reger o universo (25.2) e os anjos (v. 3), e é onipresente (v. 3). Deus é justo e puro (v. 4), destacando-se sobremaneira da sua
criação no céu (a lua e as estrelas, v. 5) e da sua criação do homem (v. 6). As
palavras de Bildade em Jó 4 sobre o homem ser menos justo do que Deus e não
ser puro são eco das palavras de Elifaz em Jó 4.7.

Deus na visão de Zofar. Para Zofar, Deus é tolerante (Jó 11.6), esquecendo
alguns dos pecados de Jó. Deus é misterioso acima da compreensão do ho-
mem (w. 7,8), é inabordável (v. 10) e observa os pecados dos homens (v. 11).
Responde à devoção dos homens a Deus e quando abandonam o pecado (w.13,14), abençoando-os (w. 15-20). De acordo com o terceiro suposto amigo de
Jó, Deus faz com que o rico ímpio renuncie as suas riquezas (20.14,15; cf. w.
20-22), exatamente quando ele está desfrutando delas (w. 13,14). Na sua ira
pelos ímpios (w. 23,28), Deus lhes pune os pecados severamente (w. 23-28),
pois o julgamento deles é determinado (20.29).

Deus na visão de Eliú. Eliú, mais novo dos amigos, e irado com os três e Jó (32.2,3,5), tinha muito a dizer sobre Deus. Jó questionara o silêncio de Deus, mas
Eliú defendeu o direito de Deus falar aos homens (33.13-16) como também o direi-
to de estar calado (34.29). Considerando que Jó questionara a justiça de Deus, Eliú
defendeu a justiça divina (34; 36.3; 37.23). E considerando que os três disseram
que o único propósito de Deus no sofrimento é castigar por causa do pecado (por
exemplo, Jó 4.8,9; 8.4), Eliú destacou outro propósito para o sofrimento, qual seja,
ajudar a impedir os homens de pecarem e destruírem-se (36.16-18, 29,30).
Eliú citou os atributos de Deus. O primeiro atributo é a soberania. Ele
é maior que os homens (33.12), soberano acima dos indivíduos e das nações
(34.29; 36.22) e é grande (34.26) e majestoso (Jó 37.22). Vemos também a sobe-
rania divina na natureza, inclusive na evaporação (36.27), chuva (36.28; 37.6),
nuvens e trovão (36.29-33; 37.2,4,5,15,16), relâmpago (36.30,32; 37.3,11,12),
neve (37.6), gelo (37.10) e céus deverão (37.17,18,21).

O segundo atributo mencionado por Eliú é a imensidão de Deus, porque Ele
não pode ser entendido (Jó 36.26; 37.5,15,16) ou visto pelos homens (34.29). O
terceiro atributo é a eternidade (36.26,29). O quarto é a justiça de Deus (34.12,17;
36.3,23; 37.23). Ele julga o pecado (34.11), pune os pecadores (Jó 34.26), quebra
os poderosos (v. 24), leva os pecadores à morte (v. 20; 36.6), corrige os reis que
oprimem os justos (36.7), julga os regentes irreligiosos (34.30) e castiga a lisonja
(32.22). O quinto atributo é a santidade, porque Ele não pratica o mal (Jó 34.10).
Deus é imparcial (v. 19), e não recompensa segundo os termos humanos (v. 33).
O sexto atributo, Deus é onisciente, porque Ele vê cada um dos passos dos
homens (v. 21) e jamais precisa examinar-lhes o coração (v. 23). Os pecadores
não podem esconder-se de Deus (v. 22), porque Ele vê as ações dos homens (v.
25; 35.15). Vê também os justos o tempo todo (Jó 36.7). Não admira que Eliú
tenha se referido a Ele duas vezes como “perfeito em conhecimento” (Jó 36.4;
37.16; cf. ARA; NVI).

Onipotência é o sétimo atributo divino que Eliú mencionou. Deus é o
Criador dos homens, pois os homens sáo “obra de suas mãos” (Jó 34.19), e
Ele é o “Criador” (35.10, NTLH; 36.3), que fez todos os homens “do lodo” (33.6). Seis vezes Eliú chama Deus o “Todo-poderoso” (32.8; 33.4; 34.10,12;
35.13; 37.23), e três vezes ele disse que Deus é “poderoso” (34.17; 36.5, duas
vezes: “grande”). Duas vezes ele disse que Deus é “grande [...] em poder”
(36.22, ARA; 37.23). Referindo-se seis vezes a Deus como o “Todo-pode-
roso”, o jovem protagonista usou a palavra hebraica sadday. De forma inte-
ressante, sadday é usado em Jó 31 vezes e só 17 vezes nos demais textos do
Antigo Testamento. Jó usou a palavra 14 vezes; Elifaz, sete (em todos os três
discursos); Bildade, duas vezes (8.3,5); Zofar, uma vez (Jó 11.7); Eliú, seis;
Jó 14 (nos cinco discursos); e Deus, uma vez (40.2). O vocábulo sadday pode
estar relacionado ao vocábulo acadiano sadu, que significa “montanha” ou
“seio” ou ambos. Como título de Deus, diz respeito ou à sua força (como a
estabilidade de uma montanha) ou o seu cuidado providencial (como o da
mãe pelo filho).

Eliú declarou vários fatos sobre as relações de Deus com os homens. Ele
dá vida aos homens (33.4) e os mantém vivos (34.14,15). Fornece alimentos
(36.31) e dá aos homens perspicácia (32.8,9). Estabelece normas (34.24) e
menospreza os orgulhosos (37.24). Vemos na natureza o amor pelas pessoas,
como também a punição ao pecado (v. 13). Ouve os clamores dos necessita-
dos (34.28), mas se recusa a responder às orações dos pecadores arrogantes (35.12,13). Comunica-se com os homens por sonhos (33.14,15), dando-lhes
avisos para afastarem-se do pecado (w. 16,17) e da morte (w. 18,22,30).
Mas também pode se calar, caso prefira (34.29). Deus usa as dificuldades para
afastar os homens da angústia (36.16), abençoa os necessitados (v. 6) e os que
lhe obedecem (v. 11), dá canções à noite (35.10), ensina os homens (v. 11; 36.22) e restaura os que se arrependem (33.26), livrando-os da morte (v. 28).

E óbvio que Eliú tinha um entendendo profundo do caráter e ações de Deus.
As suas declarações acerca de Deus são muito mais sublimes que as dos três
amigos.

Deus na visão de Jó. Jó disse mais sobre Deus do que os seus conselheiros.
Nos seus discursos, é freqüente ele deixar de responder aos três conselheiros e
falar diretamente com o Senhor. Dirigindo-se a Deus, ele fez um comentário
acerca dos atributos e ações divinas, particularmente em relação ao próprio Jó.
Os atributos apresentados a seguir foram citados pelo sofredor de Uz.
Soberania. Ninguém pode deter Deus ou desafiar o que Ele está fazendo
(Jó 9.12) ou frustrar os seus planos (40.2), reconheceu Jó. Ninguém pode se
opor a Ele, porque faz o que quer (23.13). Está acima dos homens, de forma que
Jó sentia que não podia contender com Ele, embora desejasse (9.14-16,32,35).
Onisciência. Jó percebia que Deus o observava constantemente, seguindo-
lhe os passos para acusá-lo (Jó 7.19,20; 10.14; 30.20). Contudo, Jó se consolava
no conhecimento de Deus, porque sentia que Ele sabia da sua inocência (23.10;
31.4,6) . Deus vê os “caminhos” dos homens (24.23) e “vê tudo o que há debaixo dos céus” (28.24).

Onipotência. Jó menciona o poder de Deus muitas vezes. Disse que o poder de Deus é “poderoso” (Jó 9.4), “maravilhoso” (10.16, ARA) e “grande” (30.18). Vemos o seu poder em dar ou reter chuva (12.15; 26.8), sacudir as montanhas (9.5,6), cobrir o sol, as estrelas e a lua com nuvens (v. 7; 26.9) e depois limpar o céu (v. 13), despojar os líderes do seu poder e sabedoria (12.16-21,24,25; 24.22), edificar e destruir nações (12.23), fazer milagres (9.10), causar terremotos (26.11) e agitar o mar (v. 12). Porque Deus é poderoso, Jó disse que Deus podia ensinar os três oponentes a respeito do poder de Deus (Jó 27.11). De acordo com Jó, vemos também o poder de Deus na obra da criação. Ele fez as estrelas (Jó 9.9) e o vento, a água, a chuva e os temporais (28.25,26). Três vezes Jó atribuiu a Deus o fato de tê-lo formado no útero materno (10.8-12,14,15; 31.15). Deus sustenta a vida das criaturas dando-lhes respiração (12.10; 27.3), e  ele toma a vida (Jó 27.8). Depois dos dois discursos de Deus a Jó, o homem de Uz respondeu reconhecendo o poder do Senhor: “Bem sei eu que tudo podes” (42.2). O uso freqüente do título “Todo-poderoso” também indica a força de Deus (Jó 6.4; 21.20; 27.2,10,11,13; 29.5; 31.2,35). Jó também falou de Deus como ,Eloah, ao que tudo indica forma mais antiga de ’Elohim (“Deus”). Jó usou essa palavra para referir-se a Deus 23 vezes, ao passo que os outros no livro a usaram com menos freqüência (Elifaz, seis vezes; Bildade, nenhuma vez; Zofar, três vezes; Eliú, seis vezes; e o próprio Deus, duas vezes). De forma interessante, estes usos respondem por 40 das 45 ocorrências de ’Eloah no Antigo Testamento.

Ira. A raiva e ira de Deus são contra os ímpios (21.17,20) e contra Jó
(10.17; 14.13; 16.9; 19.11). Em sua raiva, Deus destrói montanhas (9.5) e se
opõe aos “auxiliadores soberbos” (v. 13, ou “séquito de Raabe”, NVI).
Justiça. Três vezes Jó se refere a Deus como Juiz (9.15; 21.22; 23.7). Mas
Jó vacilou na sua opinião sobre a justiça de Deus. Às vezes, percebia que Deus
estava agindo com justiça em castigar pecado e pecadores (9.4; 10.14; 13.16;
23; 31.2,3). Outras vezes, Jó sentia que Deus não estava exercendo justi-
ça (10.3; 12.6; 21.7-15,17-28; 24.12), nem na vida dos outros (21.7-15,17,18;
24.12) ou na sua própria experiência. Ele clamou: “Deus é que me transtornou”
(19.6) , “Não há justiça” (v. 7) e “Vive Deus, que desviou a minha causa” (27.2). Deus ignorou os planos de Jó por justiça: “Não sou ouvido” (19.7) e “Clamo a ti, mas tu não me respondes” (30.20).
Sabedoria. Embora Deus fosse aparentemente injusto com Jó, o sofredor
reconheceu a sabedoria de Deus (“ele é sábio de coração”, 9.4). Os homens
não podem achar sabedoria por meio de maquinações próprias (28.12,13) nem
comprá-la com jóias preciosas (w. 15-19), porque está oculta (v. 21). Só Deus
sabe onde ela se acha (v. 23).

Outros. Mais alguns atributos do Senhor mencionados por Jó são a retidão (9.2), a santidade (como sugere o título “Santo” em 6.10), a eternidade (10.5), a bondade (v. 12), a distância (23.3,8,9) e a vida (19.25).

Ações. Na visão de Jó, Deus dá e toma bênçãos (1.21) e dá dificuldades como também bens (2.10). Ele abençoara Jó nos dias anteriores à calamidade, quando Deus tomava conta dele (29.2), o abençoava (“fazia resplandecer a sua candeia sobre a minha cabeça”, v. 3) e tinha comunhão íntima com ele (w. 4,5). Deus perdoa e absolve (7.21; 14.16,17). No lado negativo, Jó disse que Deus despe os regentes de poder e sabedoria (Jó 12.14-21,24,25), levanta nações e as destrói (12.23), reprova a parcialidade (13.10), sobrepuja os homens (14.20) e os leva à morte (w. 21,22).

A maioria dos comentários de Jó sobre as ações de Deus pertence à opressão do Senhor contra ele. Jó queixava-se de que a sua situação triste era o resultado da oposição do Senhor contra ele. Deus era contra ele! Isto está expresso de várias maneiras: restringindo-o (3.23), atirando setas envenenadas contra ele (6.4; cf. “alvo” em 7.20; 16.12,13), amedrontando-o (7.14; 9.34; 11.19; 13.21; 23.16), mantendo a sua mão de opressão sobre ele (6.9; 12.9; 13.21; 19.21; 23.2; 30.21), esmagando-o (9.17,18; 16.12), olhando para ele estupidamente (7.18-20; 10.14; 13.27; 31.4), consumindo-o (16.7), devastando a sua família (16.7), despedaçando-o como um animal (v. 9), atacando-o como um guerreiro (v. 14; 19.12), bloqueando-lhe o caminho (v. 8), despojando-lhe da armadura (v. 9), fazendo dele um provérbio (17.6), esgotando o seu arco (ou seja, deixando-o indefeso, 30.11), reduzindo-o a pó e cinzas (v. 19), voltando-se contra ele (v. 21), sacudindo-o (como uma folha) em uma tempestade (30.22) e considerando-o seu inimigo (13.24; 19.11; cf. 33.10). Deus continuava observando Jó (7.19,20; 10.14; 30.20), sondando os seus pecados (13.26) e estava aborrecido com ele (14.13; 16.9; 19.11). Lógico que Jó sentia intensamente o antagonismo de Deus contra ele. Esta ação da parte de Deus continuava confundindo e frustrando Jó na sua agonia. Vemos este problema inexorável quando ele falou da hostilidade de Deus em quase todos os seus discursos.

Deus na visão de Deus. Quando falou com Jó (38; 41), Deus revelou verdades sobre si mesmo. Falou do seu poder na criação, inclusive a criação da terra (38.4-7), a separação da terra do mar (w. 8-11) e o estabelecimento do dia e da noite (w. 12-15,19-21). Fez os oceanos (v. 16), e os elementos atmosféricos, inclusive a neve, o granizo, o relâmpago, o vento, a chuva, o trovão, o orvalho e o gelo (w. 22-30,34,35,37,38). É também o Criador das estrelas (w. 31-33), do homem, dando-lhe sabedoria (v. 36) e dos animais, inclusive os animais selvagens e os pássaros (38.39; 39.30; 40.15; 41.34). Dá força ao boi selvagem (39.9-12), velocidade incomum à avestruz aparentemente estúpida (w. 13-18), força e vivacidade ao cavalo (w. 19-25), instinto ao falcão e à águia (w. 26-30), força física incomum ao beemote (Jó 40.15-19) e ferocidade e força ao leviatã (41.1,9,12,22,25).

As dezenas de perguntas que Deus fez a Jó tinham o propósito de apontar a
ignorância de Jó em contraste com o conhecimento de Deus. O Senhor declara o
seu cuidado providencial dedicado ao mundo animal. Ele alimenta os leões e os corvos (38.39-41), cuida dos filhotes de cabras e cervos (39.1-4), dá regiões desérticas e montanhosas para os jumentos selvagens vagarem (w. 5-8) e provê comida para o beemote (40.20). Vemos a sua providência regulando o levante do sol (38.12-19) e os movimentos dos corpos celestes por meio das “ordenanças dos céus” (v. 33).

As perguntas que Deus faz a Jó também revelam a soberania do Senhor.
Deus é soberano sobre o mundo, porque o criou e cuida dele. Jó reconheceu essa soberania admitindo a própria indignidade (40.3-5) e ignorância (“falei do que não entendia”, 42.3) e arrependendo-se (v. 6). Ao questionar o o comportamento de Deus, Jó se colocara como rival de dEle. Mas quando Deus questionou repetidamente Jó, o demandante reconheceu que desafiar Deus e defender a própria inocência era impróprio e inútil. Jó acusara Deus de “privação injusta” ilegalmente tomando-lhe a riqueza, a família e a saúde. Jó acusara Deus de ter cometido uma transgressão (hamas, Jó 19.7, um ato de conduta ilegal).

Deus respondeu a acusação, afirmando que Ele tem o direito de propriedade por causa da obra da criação: “O que está debaixo de todos os céus é meu” (Jó 41.11). As muitas referências de Deus à criação são altamente apropriadas, porque por elas estava discursando para a sua propriedade do universo, ao mesmo tempo refutando a acusação de privação levantada por Jó.  Deus não privou Jó de nada, porque, como Criador, possui tudo que está no universo. O Fundador é o Dono; o Criador é o Regente.

Deus também revelou a sua justiça: “Porventura, também farás tu vão o
meu juízo [mispatY’ ou me condenarás, para te justificares?” (40.8). Mispat
aqui indica soberania ou governo, como também posição de juiz. Em outras
palavras, temos de ver a justiça divina como um sistema judicial humano, mas
também como um sistema de realeza divina. “O que Jó aprende é que a jus-
tiça divinamente ordenada no mundo é o governo de Deus.” Acusar Deus de
injustiça era presunção, porque Deus como Rei tem um sistema de justiça que
excede o que Jó percebia no foro legal humano.

Por que Deus fala do beemote (40.15-24) e do leviatã (41), normalmente considerados o hipopótamo e o crocodilo? No antigo Oriente Próximo, esses animais eram símbolos de poder e caos cósmico. Por meio de numerosas perguntas retóricas e declarações irônicas, Deus demonstrou a Jó que ele não podia subjugar estas criaturas sinistras e ferozes. Portanto, não tinha o direito de desafiar Deus. Considerando que ele pensou que Deus permitia o caos na sua vida e considerando também que ele questionou o que Deus estava fazendo, Jó foi desafiado a derrotar os símbolos do caos. Só então ele teria o direito de duvidar de Deus e substituir o caos moral na sua vida com ordem e justiça. Considerando que Jó não podia conquistar os símbolos do caos, meros animais, ele não poderia assumir o papel de Deus e trazer ordem ao reino moral. “Se Jó não podia subjugá-los, ele não tinha condições em posição de duvidar de Deus, o Criador e Formador, por tratá-lo injustamente.”
Jó aprendeu que o orgulho não tem lugar diante de Deus. Até um crocodilo
despreza o arrogante (41.34), levando medo ao coração do homem (w. 9,25).

Como Jó podia pensar em se desafiar a Deus, o Criador do crocodilo? Como Deus perguntou: “Quem é, pois, aquele que pode erguer-se diante de mim?” (v. 10).

O HOMEM

O livro de Jó levanta numerosas perguntas sobre a natureza e destino do
homem. Considerando que o homem é mero mortal, como ele pode ter uma
relação com Deus? Que efeito o pecado tem na vida da pessoa e na sua relação
com Deus? Que relação existe entre pecado e sofrimento? E possível adorar e
servir a Deus desinteressadamente? Como o homem pode conciliar o sofrimento com o amor e cuidado de Deus? Há esperança além da sepultura?

O homem na visão de Jó. O sofrimento de Jó o levou a refletir de modo intensivo e agonizante sobre a natureza, o destino e a relação dos homens com Deus.
A origem do homem. Jó reconheceu que ao nascer ele estava “nu” (1.21),
quer dizer, não possuía bens terrenos. Gemendo em agonia física e emocional,
ele desejou nunca ter nascido (3.3-10), ou ser um natimorto (w. 11-19), de
forma a ter evitado as dificuldades da vida na terra e estado em paz na sepultura. Considerando que nada disso aconteceu, ele desejou morrer (w. 20-26). A
morte terminaria com a sua desgraça e amargura (v. 20), e ele seria feliz (v. 22).
Caso contrário, continuaria sem paz, tranqüilidade e descanso (v. 26).

Pensando sobre Deus ter formado Jó cuidadosamente no útero materno,
Jó perguntou a Deus como Ele poderia destruí-lo agora (10.8). Considerando
que Deus, como oleiro, moldara Jó no útero (v. 9) e visto que esse desenvolvimento embrionário complicado foi como a coalhadura de leite em queijo e como um tecelão tecendo-o com pele, carne, ossos e tendões, como, perguntou Jó, Deus poderia se virar contra ele agora (w. 10,11)? Era inconsistente, parecia a Jó. Uma vez mais, ele lamentou ter nascido (v. 18). Ser um natimorto (“desde o ventre seria levado à sepultura!”, v. 19) teria sido preferível a essa desgraça.

A natureza do homem. Ser “nascido da mulher” (14.1) fala da fragilidade
humana (cf. 15.14; 25.4). Contudo, ele é a criatura de Deus (14.15), tendo sido
feito pelas suas mãos (v. 15; cf. “mãos” em Jó 10.3,8) no útero (31.15), e tendo
de Deus a respiração (27.3). Na mortalidade do homem, ele não pode descobrir
sabedoria sem temer a Deus (28.12,13,21,28). Quando Jó falou que o homem
é “mortal”, usou a palavra hebraica ’enos, palavra usada 30 vezes no livro de Jó e que significa o homem em sua fraqueza, finitude ou fragilidade. Jó reconheceu
que diante da santidade de Deus, o homem é impuro (14.4). E o homem é mau
(3.17; 9.22,24; 10.3; 16.11; 21.7,16,28; 24.6; 27.7,13; 29.17; 31.3), irreligioso
(13.16; 27.8) e sem esperança (Jó 6.11; 7.6; 14.19; 17.15; 27.8). Jó reconheceu
que o pecado pode ocorrer no coração (1.5; 31.7,9) ou nos pensamentos (31.1).
O pecado pode tomar a forma de engano (27.4; 31.5), injustiça (31.13,16,21),
falta de compaixão (v. 17) ou alegrar-se com o mal alheio (v. 29).

A brevidade da vida. Jó falou repetidamente e de muitas formas sobre a
brevidade da vida humana. Comparou a brevidade da vida aos movimentos rápidos do tecelão (7.6), uma respiração (v. 7.7), uma nuvem (7.9), um corredor
veloz (9.25), um barco de papiro (v. 26), uma águia que se lança sobre a presa
(v. 26), e uma flor e uma sombra (14.2). Sua vida, disse ele, parecia alguns dias
(10.20) , alguns meses (21.21) e alguns anos (16.22). Considerando que avida
lhe foi encurtada (17.1), com o número dos dias já determinado para ele (14.5), sua impressão era de que a vida estava se escoando (30.16).

O sofrimento do homem. O sofrimento de Jó era multifacetado. Era físico, social, emocional e espiritual. Estava em dor e tormento (13.25; 16.6; (30.17) e tinha grandes dificuldades {’amai, “tristeza”, “desgraça”, 3.10; palavra
também usada em 4.8; 5.6,7; 11.16; 15.35). No âmbito físico, teve insônia (7.4) , perdera peso (16.8), ficou com os olhos vermelhos e olheiras profundas
(v. 16), emagreceu (17.7; 19.20), tinha calafrios (21.6), dores nos ossos (30.17);
a pele enegrecera e descascara (w. 28,30), tinha febre (v. 30) e furúnculos que
coçavam (2.7). Socialmente, as pessoas o rejeitavam. Zombavam e escarneciam
(12.4; 16.10; 17.2,6), e até as crianças debochavam dele (30.1,9-11). Por isso,
não tinha alegria (9.25; 30.31). Na sua angústia e amargura (7.11; 10.1), sentia
que estava na escuridão (19.8; 30.26) e em desespero (6.14,20). Todos os seus
amigos e parentes o abandonaram (19.17-29).

Diante de Deus, Jó estava espiritualmente sem esperança (14.13; 19.10).
Deus estava calado e aparentemente desinteressado em Jó (19.7; 30.20), embora o sofredor clamasse por ajuda (30.24,28). Apesar de todos esses sofrimentos,
Jó insistia que não merecia tais calamidades, que o seu sofrimento excedeu de
longe qualquer pecado conhecido merecedor de tais calamidades (6.10,29,30;
13.19; 16.17; 23.7,11,12; 27.4-6; 31.6).

A relação do homem com Deus. O foco do livro de Jó é a relação do homem com Deus, e especialmente, como já declarado, a questão de como o homem deve relacionar-se com Deus, quando a injustiça, na forma de sofrimentos imerecidos, prevalecer. O homem é capaz de adorar a Deus (Jó 1.20), baseado no temor que ele tem dEle (w. 1.1,8; 2.3; ou seja, reconhecendo todo o esplendor divino e reagindo de acordo) que é a essência da sabedoria (28.28). Deus aceita os sacrifícios do homem feitos em nome de outros (1.5; 42.8). Embora
o homem possa amaldiçoar a Deus (1.5,11; 2.5,9), Jó nunca amaldiçoou. Ele
desafiou a Deus, depreciando-lhe a aparente injustiça, mas jamais renunciou
Deus ou o amaldiçoou como Satanás predissera.

Deus castiga os homens pelo pecado? Os três autodesignados conselheiros
de Jó afirmaram repetidamente que Deus castiga o pecado — prontamente e
nesta vida. Jó desafiou essa visão, declarando que os ímpios continuam vivendo
prosperamente com visivelmente nenhuma experiência de julgamento (21.7-
15,17,18) e continuam pecando de muitas formas sem serem castigados (24.1-
17). Jó, porém, afirmou que subseqüentemente os ímpios terão o que merecem
(24.18-24; 27.13-23; 31.2,3). Muitos estudiosos entendem que as passagens de
Jó 24.18-24 e 27.13-23 foram palavras ditas por Bildade ou Zofar, porque, ar-
gumentam, esses versículos contradizem as declarações de Jó sobre a indiferença de Deus aos pecadores. O que Jó quis dizer é que, embora os ímpios continuem existindo (21.7, em oposição às palavras de Zofar em 26.5 que diz que os ímpios morrem jovens), no final das contas os pecadores serão castigados. “A posição de Jó era que tanto os justos quanto os ímpios sofrem e ambos prosperam. Este conceito difere drasticamente da insistência dos três disputantes que só os ímpios sofrem e que só os justos prosperam.”

Morte. Considerando que o sofrimento de Jó, como já declarado, resultou em tamanha dissipação física, ele sentia que morreria logo. Na verdade,
ele preferia a morte ao intenso sofrimento que estava tendo (6.8,9; 7.15). A
morte é final, declarou Jó, pois não há retorno (7.9; 10.21; 16.22), e na morte o
homem já não existe (7.21; 14.10), “passa” (14.20) e não tem esperança (w. 10-
12; 17.15,16) de voltar à vida anterior. Os dias de “todos os viventes” (30.23)
“perecem” (7.6) e os vivos não se lembram (24.20). Tanto os prósperos quanto
os pobres morrem (21.23-26). Jazendo morto no pó (7.21; 17.16; 21.26), o homem está na escuridão (10.21,22; 17.13) e o corpo está sujeito à decomposição pelos vermes (17.14; 21.26; 24.20).
“Os mortos”, que “tremem” (Jó 26.5), são literalmente os repaim (a palavra
também ocorre em Is 14.9: “mortos”). Os refdins, descendentes de Rafa, eram um grupo étnico (Gn 14.5; 15.20; Dt 2.11; 3.13; Js 17.15) de estatura alta (Dt3.11; 2 Sm 21.16,18-20). Em ugarítico, os refains eram deuses importantes ou guerreiros nobres. Quando usada em ugarítico para referir-se aos mortos, a palavra denotava a elite entre os mortos. O que Jó quer dizer é que até mesmo os mortos da elite “tremem”, porque Deus está acima deles. Isso indica o tormento consciente na morte. Os versículos que falam que os mortos estão nas trevas indicam o aspecto físico da morte. Em Jó 26.6, Jó declarou que “o inferno está nu perante [Deus]”, quer dizer, Ele vê tudo que acontece no Sheol, o lugar dos mortos.

Outra referência à morte proferida pelos lábios de Jó está registrada em Jó
19.26. A palavra morte não é usada, mas ele disse: “Depois de consumida a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus”. Consumida significa “esfolada” ou “desnudada”. Quer dizer, ele morreria do descascar constante da pele (Jó 2.7; 30.30). Certos estudiosos propõem que significa que, depois que a pele tivesse secada ou desfigurada a ponto de ficar irreconhecível, enquanto ainda estivesse vivo, ele veria Deus defender-lhe a causa. Outros dizem que Jó quis dizer que ele veria a Deus em um corpo ressuscitado. Se este é o significado depende da palavra hebraica min (“em”). Se for traduzido por “em”, então a idéia é “do ponto privilegiado de”, e o versículo significa no corpo ressuscitado ou na carne enquanto ainda vivesse. Se for traduzido “de”, então o versículo significa “à parte da” sua carne (ou seja, depois da morte). Favorecendo a segunda visão é que em geral min significa “sem” (cf. 11.15), e visto que Jó 19.26a fala de morte, teríamos o versículo 26b em paralelismo hebraico também se referindo à morte. Jó não estava
dizendo que ele veria a Deus na carne, mas sem ou à parte da carne. Ele veria Deus no estado da morte. Isto não indica a ressurreição depois da morte, mas a consciência consciente depois da morte. Ele mesmo veria a Deus (19.27), cara a cara, e Deus lhe seria o defensor. Tal fato predito era um grande clímax da fé no meio da agonia da dor física e emocional e do ostracismo social de Jó.

O homem na visão dos conselheiros de Jó. Considerando que o ponto de vista de Jó sobre o homem focou a brevidade e as desgraças da vida, cada um dos componentes do trio hostil concentrou-se no pecado do homem e suas conseqüências (embora também mencionassem a brevidade da vida). E compreensível, porque os três se dedicaram a explicar as circunstâncias de Jó como o resultado da sua má conduta.

Elifàz. Elifàz disse que o homem planta o mal (Jó 4.8), é injusto e impuro (v. 17; 15.14), é culpado de ressentimento e inveja (5-2), é astucioso e capcioso (w. 12,13), vil e corrupto (15.16), iníquo (w. 16,35; 22.15), ímpio (v. 20), desafiante de Deus (w. 25,26; 22.17), hipócrita (15.34) e enganoso de nascença (v. 35). Elifàz acusou Jó de pecar com palavras (w. 5,6,13), de ser ignorante de Deus (15.7-9), de enfurecer-se contra Deus (v. 13), de não ser de nenhum beneficio para Deus (22.2,3) e de ser culpado de grande
maldade (v. 5). Acusou Jó de exigir penhora dos outros por nenhuma razão (v. 6) e de ignorar as necessidades dos cansados, famintos, viúvas e órfãos (w. 7,9). Na lei mosaica, exigir penhora pertencia à prática do credor que aceita a capa do tomador de empréstimo como garantia de pagamento, caso não lhe pudesse pagar a dívida. A roupa, porém, tinha de ser-lhe devolvida antes do pôr-do־sol (Êx 22.26,27). Acusar Jó de exigir penhora e não devolvê-la à noite dava a entender que ele era insensível, ganancioso e ladrão. De forma interessante, Elifàz não tinha base para fazer essas alegações em Jó 22.6-9. A verdade é que Jó, mais tarde, negou essas acusações (31.16-22,32).

As dificuldades, a conseqüência do pecado, são ocasionadas pelo próprio homem, e não pelas condições externas (Jó 5.6), e são tão inevitáveis quanto o vôo das faíscas de uma fogueira ao ar livre (v. 7). Na realidade, o homem concebe as dificuldades (15.35, ’amai, a mesma palavra usada em 3.10; 4.8; 5.6,7). Elifaz, como Jó, também falou sobre a fragilidade do homem, sugerido pelo fato de que ele “nasce da mulher” (15.14).

O mais idoso dos inimigos verbais de Jó fez numerosas reivindicações e declarações para descrever as conseqüências do pecado. Falou sobre os pecadores que perecem e são destruídos (4.7,9; 22.20), são esmagados tão facilmente quanto se esmaga uma traça (4.19), são “despedaçados” e passam despercebidos (4.20) e sofrem tormentos (15.20). A palavra hebraica para referir-se a “se dar pena a si mesmo” pode ser traduzida por “estorcer-se de dor”, referindo-se às dores de parto da mulher. Os filhos dos
maus são indefesos (5.4), e a astúcia dos ímpios é frustrada (w. 12-14). Os irreligiosos serão atacados (15.22), terão fome (v. 23), ficarão apavorados (v. 24; 22.10), sem-lar (15.28), inseguros e confusos (15.30; 22.16) e serão arruinados e escarnecidos (v. 19). As suas riquezas e posses desaparecerão (5.5; 15.29-34; 22.20). Elifaz comparou o estado confuso dos maus às trevas (5.14; 15.22,23,30; 22.11), e declarou que o fogo e as águas de enchente destruiriam as suas posses (15.34; 22.11,16,20).
Bildade. Bildade, como o conselheiro mais velho Elifaz, acentuou que as calamidades são conseqüências do pecado do homem. O homem é frágil (“nasce da mulher”, 25.4; cf. 15.24), fraco (’enos, 25.4,6, e “filho do homem”, v. 6), impuro e injusto (w. 4,5; cf. 8.6), e tão inútil e asqueroso quanto uma larva de inseto ou verme (25.6). A sua vida é breve, movendo-se rapidamente da nascença à morte como uma sombra (8.9). Os ímpios são destruídos, murchados como papiro sem água ou morrendo como uma planta bem enraizada arrancada pelas raízes (8.11-19; 18.16). As tendas lhe são queimadas (18.15) e desaparecem (8.22), e eles morrem (falado como que estando na escuridão, Jó 18.5,6,18). São apanhados em todos os tipos de dificuldades (w. 8-10), enfrentando o terror, o desastre, a insegurança e a doença (18.11-14). Ninguém se lembra deles (v. 17), e não têm sobrevivente (18.19).

Zofar. Elifaz falou da distância dos maus, Bildade disse que os maus são
apanhados, mas Zofar acentuou que os maus perdem a riqueza. Zofar acusou Jó de dois pecados: afirmar injustamente que é inocente (Jó 11.4) e desprover os
pobres (20.19). Este terceiro disputante, mais sarcástico que os dois companheiros, disse que o homem é enganoso (11.11), mal (w. 11,14), estúpido (v. 12), irreligioso (20.5) e orgulhoso (v. 6). Por isso, os pecadores passam por dificuldades (v. 16; 20.22), têm terrores (v. 25), para eles a alegria é fugaz (v. 5) e a vida é passageira e efêmera como um sonho (v. 8). Jó era ignorante de Deus (11.7,8), e os ímpios morrem sem esperança (v. 20) e perecem como o seu próprio esterco (20.7). Sob a raiva e ira de Deus (w. 23,28), os ímpios têm escuridáo, fogo e inundação (20.26,28), as mesmas três calamidades que Elifaz mencionara (5.14; 15.34; 22.11). As riquezas dos irreligiosos, adquiridas injustamente, se perderão de repente (20.10,15-18) e completamente (v. 21) antes que possam desfrutar delas (v. 18).

Eliú. Com os críticos de Jó presos em um impasse, falou Eliú, um espectador. Jovem e enfurecido pelo impasse dos debates, Eliú estava pasmo
que eles, homens mais velhos que ele, não eram sábios (32.6,7). Falou também da natureza pecadora do homem, embora acentuasse a inabilidade de o
homem saber e influenciar Deus. Falando menos dos resultados do pecado
que os outros três, viu um propósito diferente no sofrimento, isto é, impedir
o homem de destruir-se (33.17-28,30; 36.16). O sofrimento pode ajudar
a proteger o homem do pecado em vez de ser uma punição pelo pecado.
Para Eliú, o sofrimento de Jó conduziu a uma atitude de orgulho diante de
Deus. A reclamação de Jó a Deus (v. 13; 34.17) significava que ele precisava
humilhar-se diante de Deus (33.27; 36.23; 37.24).

Criado por Deus (33.6; 34.19; 35.10; 36.3; 37.7), o homem é dependente
dEle até para respirar (33.4; 34.14,15), e é obviamente inferior a Deus (“maior é
Deus do que o homem”, w. 12,13). O homem é responsável a Deus e não vice-
versa (v. 13). O homem não pode condenar Deus (34.17,29), ver a Deus (v. 29;, desafiar a Deus (36.23), alcançar Deus (37.23) ou entender Deus (36.26)
e os seus caminhos na natureza (v. 29; 37.15,16). O jovem conselheiro-teólogo
disse que Jó percebeu as comunicações de Deus com ele, embora ele falasse em
sonhos (33.15-18) e por meio da dor (w. 18-22; 36.15). Contudo, Deus vê o
homem (34.21,22; 36.7).

Além de não entender Deus, Eliú apresentou Jó como pecador. Era culpado de orgulho (33.17; 35.12; 36.9; 37.24), maldade (34.36,37), rebelião (v.
37) e de falar contra Deus (v. 37). Todavia, o pecado do homem não afeta Deus
adversamente nem a justiça do homem acumula-se para o benefício de Deus
(Jó 35.6-8). Como o trio de protagonistas, Eliú associou o castigo com o mal, embora náo fosse tão específico ou severo quanto os outros foram nos pronun-
ciamentos (34.11,26; 36.6).

Eliú falou da morte, como falaram os outros quatro debatedores. A cada
dia, a alma do homem fica mais próxima da cova (33.22), uma referência à
morte, como já discutido, e o homem morre de repente (34.20-25) com o corpo
voltando ao pó (v. 15).

O homem na visão de Deus. Na primeira fala para Jó, as numerosas perguntas retóricas de Deus tinham o propósito de apontar as insuficiências e fraquezas de Jó em vista da soberania e força de Deus, e a ignorância dele, levando em
conta a onipotência de Deus. As perguntas do Senhor variaram: onde, quem,
qual, que, de que, podes, tens, sabes. Considerando que o homem foi criado no
último dia da criação, obviamente Jó não teve papel e não sabia de nada sobre
o trabalho criativo de Deus nos dias precedentes. A terra e o mar, as nuvens
e a alvorada, a escuridão e a luz, a neve e o granizo, o relâmpago e o vento, a
chuva e o orvalho, o gelo e a geada, as estrelas e os planetas (38.4-38), aspectos
da natureza inanimada, foram criados por Deus sem a ajuda ou conhecimento de Jó. E inquestionável que a verdade ressalta a natureza finita do homem.

Leões e corvos, cabras-monteses e cervos, jumentos selvagens e bois, avestruzes e cavalos, falcões e águias (w. 39;39.30) foram feitos e cuidados pela mão do poder criativo e providência amorosa de Deus. Neste campo também o homem é incompetente e ignorante. Não admira que Jó respondesse a esta primeira fala reconhecendo a sua indignidade e inabilidade em responder (40.4,5).
A segunda fala de Deus, na qual ele descreveu a anatomia e hábitos do
beemote (40.15-24) e do leviatã (41), também mostrou as inabilidades de Jó
e sugeriu a necessidade de arrepender-se do orgulho. Significativamente, Jó,
tendo sido feito “semelhante ao pó e à cinza” (30.19), reduzido a uma posição
de desgraça ignóbil, agora diz: “Me arrependo no pó e na cinza” (42.6), reco-
nhecendo que ele era tão inútil quanto o pó e a cinza sobre os quais ele estava
sentado. Jó, tendo reclamado que Deus o moldara do barro apenas para mandá-
lo de volta ao pó (10.9), agora aceitou a sua posição humilde no monte de cinza como simbolismo da própria inutilidade. Resolveu mudar de atitude de
desafio a Deus e retirar humildemente as alegações contra a suposta injustiça de
Deus. Os colóquios de Deus claramente mostram que o homem é finito (40.9; 41.10,11), que o orgulho não tem lugar diante de Deus, que Ele trata do pecado
e que acusá-lo de injustiça é absurdo (40.8).

ANJOS

Os “filhos de Deus” mencionados em Jó 1.6 e 2.1 são os anjos. São
os seus filhos no sentido de que foram criados por Ele e são suas criaturas.
Embora Elifaz considerasse que os anjos são servos de Deus (4.18) e “santos” (5.1), ele não os via como seres sem erro (4.18; cf. 15.15). Têm acesso à presença de Deus para prestar contas do trabalho que fazem como cortesãos
(1.6; 2.1). Existentes antes da criação da terra, alegraram-se pelo trabalho
criativo de Deus (38.7). As estrelas da alva, mencionadas em paralelismo
poético neste versículo, também se referem a anjos, ou podem ser planetas
como Venus e Mercúrio citados figurativamente como se cantassem.
Elifaz dissera que nenhum anjo podia atender a necessidade de Jó (5.1),

mas Eliú discordou (33.23,24). Disse que na doença Deus pode enviar um
anjo como mediador para fazê-lo lembrar do que é certo (ou seja, o caminho
certo que o leva de volta a Deus) e pedir a Deus para mantê-lo longe da cova
(morte). Como “um dos milhares” este é um anjo especial enviado para restabelecer o que se desviou, e pagando um resgate (uma expiação não especi-
ficada para satisfazer a justiça de Deus) dirigir os anjos da morte (chamados
os “portadores da morte” em 33.22, ARA) de tirar-lhe a vida.
Satanás também tem acesso à presença de Deus (1.6; 2.1) junto com
os anjos. Ele perambula por toda a terra, procurando a quem acusar diante de Deus. Satanás, incapaz de questionar a avaliação que Deus fez de Jó
como homem inocente e reto que temia a Deus e evitava o mal, desafiou a
razão para Jó ser justo. Em vez de impugnar o caráter de Jó, Satanás atacou
os motivos de Jó, sugerindo que estava servindo a Deus com interesse por
ganho monetário.

O livro de Jó traz uma excelente contribuição para a teologia de Deus e do
homem. Vemos que Deus é soberano, onisciente, onipotente e carinhoso. Em
contrapartida, vemos que o homem é finito, ignorante e pecador. Entretanto,
mesmo em face do sofrimento, o homem adora a Deus, confiante de que os
caminhos divinos são perfeitos e que o orgulho não tem lugar diante dEle.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.