26 de fevereiro de 2015

ROY B. ZUCK - Uma teologia de Eclesiastes

UMA TEOLOGIA DE ECLESIASTES

No transcurso dos séculos, muitos têm questionado se o livro de Eclesiastes pertence ao cânon da Bíblia, e especialmente ao corpo sapiencial. Considerando que realça a futilidade e inutilidade do trabalho, o triunfo do mal, as limitações da sabedoria e a impermanência da vida, Eclesiastes não se encaixa bem com a canonicidade bíblica.

Pelo fato de contradizer outras porções da Bíblia e apresentar uma perspectiva pessimista da vida, em estilo de desespero existencial, muitos vêem que Eclesiastes choca-se com os demais livros da Bíblia ou concluem que apresenta apenas raciocínio humano sem a revelação divina. Smith escreveu: “Não há exaltação espiritual nestas páginas. [...] Eclesiastes [...] só traz uma coisa: confusão. Ao longo da obra, a razão é elevada como a ferramenta com a qual o homem busca e acha a verdade”. Scott afirma que o autor de Eclesiastes “é racionalista, cético, pessimista e fatalista, f...] Em muitos aspectos, sua visão é contra os judeus tementes a Deus”. Crenshaw fala do “caráter opressivo” de Eclesiastes que transmite a visão de que “a vida é inútil; totalmente absurda”. 

Considerando que “a virtude não traz recompensa” e visto que Deus “está distante, abandonando a humanidade à própria sorte e à morte”, este livro, assevera Crenshaw, se diferencia “radicalmente dos ensinos expressos no livro de Provérbios”. “O Koheleth não discerne nenhuma ordem moral”, pois “a vida não vale nada” Estes são os elementos no livro que supostamente propõem esta perspectiva de desespero secularista: (1) Os refrões repetidos: “Tudo é vaidade” (Ec 1.2; 2.11,17; 3.19; 12.8); “também isso é vaidade” (2.15,19,21,23,26; 4.4,8,16; 5.10; 6.9; 7.6; 8.10); “aflição de espírito” (1.14,17; 2.11, 17,26; 4.4,6,16; 6.9); e “debaixo do sol” que ocorre 29 vezes; (2) a finalidade da morte, que retira vantagem ou ganho que o homem tenha adquirido na vida (2.14,16,18; 3.2,19,20; 4.2; 5.15; 6.6,12; 7.1; 8.8; 9.2-5,10; 11.7,8; 12.7); (3) a natureza passageira e transitória da vida (6.12; 7.15; 9.9; 11.10); (4) as injustiças da vida, inclusive a natureza frustrante do trabalho (2.11,18,20,22,23; 4.4), a inutilidade do prazer (1.17; 2.1,2,8,10,11), as insuficiências da sabedoria (1.17,18; 2.14-17; 8.16,17; 9.13-16) e a injustiça não corrigida (4.1,6,8,15,16; 6.2; 7.15; 8.9,10; 9.2,11; 10.6-9); e (5) o quebra-cabeça da vida com os seus muitos enigmas de elementos incognoscíveis (3.11,22; 6.12; 7.14-24; 8.7,17; 9.1,12; 10.14; 11.2,5,6).

Este é o quadro total da mensagem de Eclesiastes? Será que é verdade que o livro não apresenta “nenhum princípio discernível de ordem” na vida? Como esta abordagem cética se relaciona com declarações (1) de que a vida é uma dádiva de Deus (2.24; 3.13; 5.19; 8.15; 9.7,9); (2) e ela tem de ser desfrutada (2.24,25; 3.12,13,22; 5.18-20; 8.15; 9.7-9; 11.8,9); (3) que as injustiças serão corrigidas (3.17; 8.12,13; 11.9; 12.14); (4) que Deus está no controle (3.14; 5.2; 7.14; 9.1); e (5) que o homem é incentivado a agradar a Deus (2.26), lembrar-se dEle (12.1,6,7) e temê-lo (3.14; 5.7; 7.18; 8.12,13; 12.13)? Podemos ignorar essas idéias contrabalançadas? Quando o Koheleth ordenou os leitores cinco vezes a temer a Deus, estamos fazendo justiça à mensagem do livro dizendo que só apresenta raciocínio humano, que ele não dá resposta às anomalias e enigmas da vida? Será que é adequado considerarmos que Eclesiastes apresenta pensamentos e contra-pensamentos que estão em tensão irresoluta, ou que declara contradições sem resolvê-las, de forma que a vida é vista como absurda e irracional? Concluir que o Koheleth só recomendou o prazer da vida com a intenção de tornar a existência suportável na “viagem para o nada” não explica o lado positivo do livro.

Por que Eclesiastes pinta um quadro escuro da vida? Por que o escritor apresenta a escuridão e destruição da vida? Como os aparentes elementos contraditórios no livro podem ser reconciliados? Podemos dar quatro respostas a essas perguntas.

Primeiro, Koheleth estava demonstrando que a vida sem Deus não tem significado. Estava demolindo a confiança nas realizações e sabedoria baseadas no homem para mostrar que metas terrenas “como fins em si mesmas levam ao descontentamento e vacuidade”. Salomão registrou a futilidade e vacuidade das suas experiências para fazer os leitores desejarem ardentemente Deus, para mostrar que a busca pela felicidade não se satisfaz pelo próprio homem.

Koheleth “nos estimula para vermos a vida e a morte estritamente em nível básico e chegarmos às únicas conclusões deste ponto de vista que a honestidade permitira .

Segundo, Salomão estava confirmando que, visto que não podemos entender grande parte da vida, temos de viver por fé e não por vista. Enigmas inexplicáveis, anomalias insolúveis, injustiças incorrigíveis — a vida é cheia de muitas coisas que o homem não pode compreender ou controlar. Como o livro de Jó, Eclesiastes afirma a finitude do homem e o fato de que o homem
tem de conviver com o mistério. A vida “debaixo do sol”, quer dizer, aqui na
terra, “não fornece a chave para a própria vida”, pois o mundo em si mesmo
“está falido”. O homem tem de ter mais que perspectiva horizontal; tem
de olhar para cima, para Deus, temendo e confiando nEle. O que nos são
enigmas e injustiças têm de ser deixados nas suas mãos de Deus para que Ele
solucione e corrija.

Terceiro, Eclesiastes, em sua visão realista da vida, contrabalança o otimismo inadequado da sabedoria tradicional. De acordo com Provérbios 13.4, “a alma dos diligentes engorda”, mas Eclesiastes 2.22,23 desafia a veracidade dessa declaração. O texto de Provérbios 8.11 exalta a sabedoria, ao passo que Eclesiastes 2.15 questiona o seu valor. A passagem de Provérbios 10.6 afirma que a justiça é repartida aos justos e injustos, mas Eclesiastes 8.14 observa que isso nem sempre é assim.

Essas idéias são contraditórias? Não. Como declaramos na seção em Provérbios, este livro olha, em geral, os opostos na vida, sem notar as exceções.

Eclesiastes, porém, mostra que ainda que haja uma ordem justa, como afirmada
em Provérbios, nem sempre é evidente ao homem enquanto ele vê a vida “debaixo do sol” da sua perspectiva finita. “Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra” (Ec 5.2). Jó e Eclesiastes, ambos livros sapienciais, demonstram exceções ao que Provérbios declara preto no branco. Os livros são complementares e não contraditórios. Embora as afirmações em Provérbios sejam verdades, existem exceções, como as observadas em Jó e Eclesiastes. Como bem observou Williams:
Provérbios afirma pelavez (náo por vista como comumente se presume) que existe
uma ordem justa no mundo, mas Koheleth defende que não podemos discernir
essa ordem justa por vista. Esta última premissa, que nem o sábio pode explicar
a visível desordem no mundo, é a maneira de Koheleth comentar as limitações da
sabedoria. Mas até os intelectuais admitiram estas limitações: ‘Tens visto um homem que é sábio a seus próprios olhos? Maior esperança há no tolo do que nele’ (Pv 26.12). [...] O propósito de Eclesiastes era equilibrar o otimismo da fé com o realismo da observação.

Jó e Eclesiastes apresentam as frustrações e futilidades dos sábios e ricos.
Ambos os livros demonstram que riqueza não dá satisfação duradoura, que
muitas pessoas sofrem injustiças, que a morte é inevitável, que os homens têm
de viver com o mistério do sofrimento.

Quarto, Eclesiastes afirma que a única resposta para o significado da vida
é temer a Deus e desfrutar da sorte da vida. Koheleth mostra que o homem,
deixado às próprias maquinações, descobre que a vida é vazia, frustrante e
misteriosa. O livro não quer dizer que a vida não tem resposta, que ela é totalmente inútil ou sem significado. O significado está, explicou ele, em temer
a Deus — ponto que claramente justifica o lugar de Eclesiastes na literatura
sapiencial da Bíblia — e desfrutar da vida. Aceitar o que Deus dá e alegrar-se
com esses presentes, proporcioan sentido a uma vida que seria vista como sem
esperança e desesperadora. O contentamento toma o lugar das frustrações.

Ainda que reconhecesse a vaidade das buscas humanas vazias, Salomão deu
um passo além e afirmou que “não há verdade maior pela qual viver” do que “fixar o coração não nas vaidades terrenas, mas no nosso Criador”. A vida
tem seus quebra-cabeças, mas com Deus ela vale a pena. A vida é passageira e a morte está se aproximando, mas com Deus podemos aceitar a vida e
desfrutá-la.

DEUS

Quarenta vezes Eclesiastes usa a palavra 'Elohim e nenhum outro nome
para referir-se a Deus. Como o Deus transcendente (“Deus está nos céus”, Ec 5.2), ele é o Criador (12.1), o “Deus, que faz todas as coisas” (11.5). Entre as obras da sua criação está o homem, dando-lhe vida (8.15; 9.9) e um
espírito (3.21; 12.7), tornando-o reto (7.29) e colocando a eternidade no
seu coração (3.11). Na sua soberania, Deus planejou o tempo de todas as coisas (3.1-8), cuja execução é linda (v. 11), embora incompreensível (3.11; 8.17; 11.5) e inalterável pelo homem (v. 14; 7.13). Os acontecimentos e
atividades que Deus tem sob controle incluem-se os elementos positivos da
vida como o nascimento, a plantação, a cura, a construção, a alegria, a busca, a manutenção, o conserto, a fala, o amor e o desfrute da paz, e todos os opostos negativos (3.1-8). Tudo da vida está sob designação e tempo divino.

O Koheleth não estava aprovando o homem matar, rasgar, odiar ou guerrear;
estava afirmando que estas coisas acontecem na experiência humana (por
causa do pecado do homem, 7.29) e que o homem não pode alterar o que
Deus planejou.

Deus, na sua soberania e providência, controla o nascente e o poente do
sol, os movimentos cíclicos do vento, a correnteza dos rios e a evaporação da
água (Ec 1.5-7). Ele é chamado Pastor, termo usado só algumas vezes para
referir-se a Deus no Antigo Testamento (Gn 48.15; 49.24; SI 23.1; 28.9;
80.1; Ec 12.11).

Eclesiastes diz dez vezes que Deus dá e dez vezes que Deus faz. O fardo
do homem, por causa da sabedoria finita, é dado por Deus (Ec 1.13; 3.10).
Deus dá ao homem oportunidade de desfrutar da comida e do trabalho
(2.24; 3.13; 5.19,20; 9.7). Dá ao homem sabedoria, conhecimento, felicidade (2.26), riqueza, posses e honra (5.19; 6.2). O trabalho de Deus, que
o homem não pode entender completamente (11.6), inclui tempos bons e
tempos ruins (7.14). O que Ele faz tem permanência (3.14) e não pode ser
alterado (7.13).

Outros atributos divinos evidentes em Eclesiastes são a personalidade
(Ele ouve, Ec 5.2; menospreza, 5.2; pode ser agradado, 2.26; 7.26; ou enfurecido, 5.6), a bondade (2.24-26; 3.13; 5.18,19; 6.2), a santidade (5.1,2) e a
inescrutabilidade (3.11, 8.17; 9.1; 11.5) de Deus. A sua justiça é exercida contra a maldade. Até o fato de Ele julgar os justos e os injustos está incluído no
controle de Deus do tempo dos acontecimentos (3.17). Ainda que o castigo
dos maus pareça tardar, acontecerá (8.13). Os jovens, incentivados a desfrutar
da energia dos dias da sua juventude, também devem ficar cientes de que eles
são responsáveis pelas ações que fazem sob o escrutínio do julgamento de
Deus (11.9). Todo ato, público ou particular, bom ou mal, será julgado por Deus (12.14) e recompensado ou castigado.

Embora não possamos entender completamente Deus, alguns motivos
para as suas ações são mencionados em Eclesiastes. Esses motivos fazem
com que as pessoas temam a Deus (3.14) e mostram ao homem o quanto
ele é finito (v. 18).
Todas estas verdades sobre Deus estão relacionadas com os demais livros
bíblicos, confirmando a validade do lugar de Eclesiastes na Bíblia.

O HOMEM

A natureza do homem. Vemos a finitude do homem no fato de que ele é
criado (Ec 11.5; 12.1), material (5.2) e sujeito à morte (3.19,20; 6.6; 7.2; 9.5).
E criatura racional, porque pode ser guiado pela mente (2.3), avalia (2.11),
entende (1.17), investiga (1.13), observa (1.14; 2.12,24; 3.10; 5.13; 6.1; 7.15;
8.9,10; 9.11,13; 10.5,7), reflete (1.16; 2.1,12,15; 8.9; 12.9) e tira conclusões
(2.14,15; 5.18).

As emoções humanas, de acordo com Eclesiastes, são a alegria (2.10;
9.7,9; 11.9), o amor (9.1,6,9), o ódio (2.17,18; 9.1,6), o contentamento
(4.8), o desespero (2.20), a aflição (2.23), a inveja (4.4), a raiva (7.9) e a tristeza (7.4).
Koheleth se referiu a parte material do homem usando a palavra hebraica
basar, normalmente traduzida por “carne” ou “corpo”. O corpo pode experimentar “dificuldades” (Ec 11.10) e cansaço (12.12). Também pode alegrar-se, falando figurativamente (2.3), ou arruinar-se (4.5), quer dizer, dissipar-se. A tradução “me” em Eclesiastes 2.3 é entender basar como metonímia (uma parte pelo todo): “Busquei no meu coração como me daria vinho (regendo, porém, o meu coração com sabedoria) e como reteria a loucura, até ver o que seria melhor que os filhos dos homens fizessem debaixo do céu, durante o número dos dias de suas vidas”.

A parte imaterial do homem inclui a alma (nepes), o espírito (ruah) e o coração (leb). A alma é o centro do desejo de realização (6.2,3,7,9), o lugar da satisfação interior (literalmente, “faça gozar a sua alma do bem do seu trabalho”, 2.24) ou da alegria (literalmente, “privando a minha alma do bem”, (4.8), ou o lugar da contemplação interior (“causa que a minha alma ainda
busca”, 7.28).

O espírito é usado para referir-se ao humor ou temperamento (literalmente, “longânimo”, 7.8; literalmente, “apresses no teu espírito a irar-te”, v. 9). “Espírito” também fala do princípio animador de vida do homem que volta a Deus na morte (3.19,21; 12.7).

Eclesiastes se refere ao “coração” do homem mais vezes que a alma ou o
espírito. Consistente com o uso em outros textos do Antigo Testamento, o “coração” representa a parte interna do homem, ou o seu intelecto, as suas emoções ou a sua vontade. O intelecto é sugerido em Eclesiastes 1.13,16,17, que em hebraico diz: “Eu disse em meu coração”, traduzido por “Apliquei o meu coração” ou “Falei eu com o meu coração”. A idéia nestes versículos é a determinação interior de completar a busca intelectual. O texto de 7.25; 8.9,16 (“coração”) são versículos que claramente indicam um exercício intelectual. “Os vivos o aplicam ao seu coração” (7.2), “o teu coração também já confessou muitas vezes” (v. 22) e “o coração do sábio discernirá” (8.5) são frases que dão a entender o intelecto. “Revolvi todas essas coisas no meu coração” (9.1), outro exemplo do exercício da mente.

“Coração” também fala do lado emocional da parte imaterial do homem,
como vemos em Ec 5.2 (“nem o teu coração se apresse”), Eclesiastes 7.3 (“A tristeza do rosto se faz melhor o coração”), v. 4 (“o coração dos sábios está na
casa do luto, mas o coração dos tolos, na casa da alegria”), Eclesiastes 9.7  “com bom coração”), Eclesiastes 11.9 (“anda pelos caminhos do teu coração”) e v. 10 (“a ira do teu coração”).

Vemos o aspecto voluntarioso do coração nestes versículos: Eclesiastes 7.7 (“o suborno corrompe o coração”), Eclesiastes 7.26 (“a mulher cujo coração são redes e laços”), Eclesiastes 8.11 (“o coração dos filhos dos homens está inteiramente disposto para praticar o mal”), Eclesiastes 9.3 (“o coração dos filhos dos homens está cheio de maldade”) e Eclesiastes 10.2 (“coração do sábio está à sua mão direita, mas o coração do tolo está à sua esquerda”).

O pecado do homem. O pecado é universal (7.20) e interior (“cheio de maldade”, 9.3). O impulso do homem interior se apressa para o pecado se ele
perceber que, como os outros, pode escapar com o sem castigo imediato (8.11).
A natureza pecaminosa se mostra em atos específicos de pecado. Em Eclesiastes, estes atos são a opressão aos pobres (4.1,3; 5.8), a inveja (4.4), a ganância (v. 8; 5.10), a insensibilidade na adoração (w. 1,2), os votos não cumpridos (w. 4,5), a conversa descontrolada (v. 6), o orgulho (7.8), a raiva (v. 9; 10.4), o descontentamento (7.10), a sedução sexual, o adultério (v. 26) e a conversa tola (10.13). Várias vezes, Eclesiastes descreve a injustiça do homem aos outros (3.16; 4.1; 5.8; 7.7; 8.9,14).

Esta literatura sapiencial destaca repetidamente a finitude humana, apontando a ignorância do homem. Ele não conhece os caminhos de Deus (3.11; 8.17; 11.15) nem conhece o futuro (6.12; 7.14; 8.7; 9.1,12; 10.14; 11.2,6).

O pecado tem suas conseqüências. Mantém os pecadores presos em suas
garras (Ec 8.8), traz dificuldades para eles (8.13), pode desfazer muita coisa boa
(2.26; 9.18; 10.1) e pode até levar a uma morte intempestiva (7.17; 8.13). Depois que o homem morrer, Deus lhe castigará o pecado (3.17; 11.9; 12.14).

O trabalho do homem. A palavra ’amai (“labor”, “dificuldade”, “tumulto”, “trabalho”) ocorre muitas vezes em Eclesiastes. Não há lucro duradouro
(yitron, “ganho” ou “vantagem”, Ec 1.3; 3.9; 5.8-19,15; 7.12; 10.10,11) proveniente do trabalho ou labuta (1.3; 3.9). O fato de que o trabalho traz dor (2.17,23) se diz que é hebel, ou seja, é sem sentido ou enigmático, como é o fato de que os resultados dos trabalhos têm de ser deixados para outra pessoa (2.19,21,26; 4.7,8). Muitas pessoas não acham fim para as labutas da vida
(2.22,23; 4.8; 8.16), às vezes porque são dirigidas por inveja do que os outros têm (4.4). Embora o trabalho possa trazer desespero (2.20), pode ser bem
desfrutado (2.10,24; 3.22; 5.18,19; 8.15; 9.9) quando visto como dádiva de
Deus.

A morte do homem. A vida é passageira (2.2; “poucos dias”, 6.12, ARA), e
a morte é certa. Todos morrerão (2.14-16; 3.18-20; 6.6), inclusive os pecadores
(8.10,12,13; 9.2,3). Considerando que Deus designou o tempo da morte de
cada pessoa (3.2), o homem não pode influenciar quando ocorrerá (8.8) ou
mesmo saber quando acontecerá (9.12). Nada pode ser levado desta vida quando a pessoa morre; a saída é como a entrada (5.15,16). Os mortos vão para o
Sheol (9.10), quer dizer, para a sepultura, onde não têm mais oportunidade de participar das atividades desta vida (9.5,6). A morte é cabal. Diz Eclesiastes
que estar morto é preferível a uma vida de opressão (4.1,2) ou ao não-desfrute
da prosperidade (6.3-5); mesmo assim, os vivos têm uma vantagem sobre os
mortos (9.4). Os mortos acabarão sendo esquecidos (1.11; 2.16; 9.5). A idade
avançada traz problemas físicos (12.1-5) e resulta na morte (12.6,7), mas o
espírito da pessoa vai para Deus (3.21; 12.7) e entra em consciência eterna (“à sua eterna casa”, 12.5).

Muitas verdades sobre o homem em Eclesiastes têm relação com verdades
expostas em outros pontos da Bíblia, particularmente nos primeiros capítulos
Gênesis. Originalmente, o homem foi criado bom (Gn 1.31; Ec 7.29), mas caiu
em pecado (Gn 3.1-19; Ec 3.16; 4.1; 7.29), com a conseqüência da labuta (Gn 3.14-19; Ec 1.3,8; 2.11,17,22) e da morte (3.19,24; 4.5,8; Ec 2.14-16; 3.20;
4.2; 9.5; 12.6,7). Feito de pó e fôlego (Gn 2.7; 3.19; Ec 3.20; 12.7), o homem
tem conhecimento limitado (Gn 2.17; Ec 8.7; 10.14; 11.5). Foi criado para
viver em companhia de outros (Gn 1.27; 2.21-25; Ec 4.9-12; 9.9).

As responsabilidades do homem. Que responsabilidades o homem tem
considerando as futilidades e mistérios da vida? Que ações o Koheleth disse
que ajuda o homem na busca da vida? O livro oferece pelo menos seis sugestões.
Seja sábio. Embora a sabedoria tenha suas desvantagens (1.18), possa ser
anulada por pequena insensatez (10.1), seja transitória (4.13-16; 9.13-16) e não
previna a morte (2.14), ela tem vantagens. E melhor ser sábio que insensato (2.13) ou famoso (4.13-16), pois ajuda a preservar a vida (7.11,12), dá forças
(v. 19), faz o indivíduo refletir acerca da seriedade da vida e da morte (v. 5) e lhe faz brilhar o semblante (8.1). A mera sabedoria humana, adquirida por buscasintelectuais, é inadequada, mas a sabedoria divina capacita o homem a confiar nos caminhos soberanos de Deus e em sua infalível providência (v. 5).

Adore e agrade a Deus. A adoração apropriada requer um senso de atenção
e apreensão na presença de Deus (5.1,2). Assumir um compromisso com o Senhor deve ser feito refletidamente e sem pressa, mas tendo sido feito, o adorador deve cumprir o que prometeu (w. 4-6). Agradar a Deus deve ser o desejo mais profundo do homem (2.26; 7.26). 

Lembre-se de Deus. Mais que um exercício mental, significa reconhecer a
sua autoridade e responder com lealdade (Ec 12.1,6) e obediência (“guarda os seus mandamentos”, v. 13).
Tema a Deus. Como já discutido, temer a Deus está no centro da literatura
sapiencial. Por conseguinte, náo admira que Eclesiastes ordene cinco vezes que o homem tema a Deus (3.14; 5.7; 7.18; 8.12,13; 12.13), reconheça quem é Ele e responda de forma adequada em adoração, reverência, amor, confiança e obediência.

Seja Diligente. A vida com as suas muitas incertezas (9.11,12) significa que o homem sabe comparativamente pouco. “Não sabes” é declarado três vezes (w. 2.5,6) para demonstrar a ignorância do homem sobre quais desastres podem vir e quando, para onde o vento soprará, como o embrião humano se desenvolve no útero materno ou qual empreendimento ou investimento terá êxito. Esta ignorância não precisa nos paralisar ou nos sufocar na preguiça. Temos de parar de tentar mudar coisas que não podem ser mudadas (v. 3) ou predizer o que não pode ser conhecido (w. 4,6). Devemos trabalhar duro todo o dia (v. 6), trabalhando de todo o coração (9.10) e deixando os resultados com o Senhor. A preguiça resulta em mais problemas (por exemplo, tetos que desabam e telhados com goteiras, 10.18).

Desfrute a vida. O fato de Salomão prevenir os leitores a não procurar a resposta da vida nos seus prazeres não torna impossível que ele os encoraje a aceitar a sorte (.beleq) na vida e alegrar-se com os prazeres simples dela, inclusive comida, calor, casamento e fazer o bem. Este tema ocorre sete vezes no livro: (2.24-26; 3.12,13,22; 5.18-20; 8.15; 9.7-9; 11.8,9). “Estes prazeres modestos não são metas pelas quais viver, mas gratificações ou consolações a serem agradecidamente aceitas”. O fato que estes prazeres são para a alegria e contentamento do homem exclui o asceticismo, e o fato de que são dados por Deus exclui o hedonismo pecador.

Castellino resume muito bem a mensagem de Eclesiastes: “Portanto: (a) ponha de lado todo esforço e labor ansioso {‘amai¡·, (b) evite todas as especulações sobre o governo de Deus no mundo; e (c) seja grato a Deus por toda satisfação que Ele lhe der, valorizando e avaliando tudo como uma dádiva dEle e desfrutando disso tudo, nunca esquecendo que você terá de prestar contas exatas ao próprio Deus”.

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.