22 de fevereiro de 2015

Roland de Vaux - Os altos oficiais do rei

OS ALTOS OFICIAIS DO REI

1. OS MINISTROS DE DAVI E DE SALOMÃO

Possuímos duas listas dos altos oficiais de Davi e uma dos de Salomão, lílas remontam certamente a documentos de arquivos, mas foram retocadas e seu texto deve ter sofrido alguma alteração. A primeira lista, II Sm 8.16-18 = I Cr 18.14-17, vem depois da profecia de Natã e do resumo das vitórias de Davi e antes da grande história da sucessão ao trono. Ela apresenta, pois, o estado do reino definitivamente constituído. O comando militar está dividido entre Joabe, chefe do exército e Benaia, chefe da guarda. Josafá é arauto, Seraías (Sausa em Cr) é secretário. Zadoque e Abiatar são sacerdotes, mas acrescenta-se, ao final da lista, que “os filhos de Davi eram sacerdotes”. A ordem, em seu estado atual, parece arbitrária: chefe do exército, arauto, sacerdotes, chefe da guarda e, finalmente, os filhos de Davi. Joabe e Benaia, Zadoque e Abiatar aparecem com as mesmas funções na história do reino. O arauto Josafá não desempenha nenhum papel, assim como os filhos de Davi, cuja menção é bem estranha: não são dados seus nomes, indicação que pare¬ce essencial nesse gênero de documentos, e sua qualidade de “sacerdotes” é enigmática: no máximo, pode-se imaginá-los como assistentes ou substitutos de seu pai nas funções sacerdotais, ocasionalmente desempenhadas pelo rei. 


O paralelo de I Cr 18.17a: “Os filhos de Davi eram os primeiros ao lado do rei”, testemunha um escrúpulo levítico, mas não esclarece nada. Com relação aos dois sacerdotes titulares, o texto é incerto. A leitura do texto hebraico “Zadoque, filho de Aitube, e Aimeleque, filho de Abiatar”, deve pelo menos ser corrigida para “e Abiatar, filho de Aimeleque”, segundo o siríaco, 1 Sm 22.20 e II Sm 20.25. E talvez até reconstituída assim: “Zadoque e Abiatar, filho de Aimeleque, filho de Aitube”, segundo I Sm 22.20, o que faria de Zadoque um recém-chegado, sem ascendência israelita. Essas questões serão tratadas em conexão com a história do sacerdócio. Aqui basta notar que os chefes do culto são contados entre os funcionários reais.

A segunda lista davídica, II Sm 20.23-26, sem paralelo em Crônicas, encontra-se bem no fim da história do reinado de Davi. Compreende os mesmos nomes, mas em uma ordem mais lógica: chefe do exército, da guarda, o arauto, o secretário, chamado aqui Sheya ou Seva, e os sacerdotes. Entretanto, antes do arauto põe-se Adorão, chefe da corvéia, e, ao final, substituem-se os filhos de Davi “sacerdotes”, por Ira, o jairita, “sacerdote de Davi”. A repetição de uma lista dos altos funcionários é justificada depois do retorno de Joabe ao posto do qual havia sido afastado, II Sm 19.14; 20.22, e depois da repressão da revolta de Seba, II Sm 20.1-22. E mais difícil justificar as novidades que ela apresenta. É duvidoso que Adorão, que ainda estará exercendo sua função depois da morte de Salomão, I Rs 12.18, já estivesse sob Davi como superintendente da corvéia, que parece ter sido instituída por Salomão, I Rs 5.27; 9.15. A menção de um “sacerdote de Davi”, junto com Zadoque e Abiatar, é obscura, e o tal Ira, o jairita, poderia ser, segundo uma leitura do texto grego, um duplo de Ira, o jatirita, um guerreiro de Davi, II Sm 22.38. Não se exclui que a lista apresente verdadeiramente a situação administrativa ao final do reinado de Davi; mas também é possível que o texto seja o resultado de uma compilação posterior.

A lista de Salomão, I Rs 4.1-6, estabelece difíceis problemas de crítica textual e literária, que ainda não encontraram solução satisfatória. O exame dos testemunhos do texto e seu estudo interno sugerem a supressão do v. 4 acerca de Benaia, Zadoque e Abiatar, e a adição ao v. 6 da menção a Eliabe, filho de Joabe, como chefe do exército. Ficam, pois, mesmo que com nomes próprios freqüentemente incertos, os seguintes: o sacerdote Azarias, filho de Zadoque; os secretários Eliorefe, ou Eliafe, e Aias, filhos de Sisa, evidente¬mente o secretário de Davi; o arauto Josafá; o chefe dos prefeitos, Azarias ou Adonias, filho de Natã; o amigo do rei, Zabude ou Zakkur, um outro filho de Natã, ao qual uma glosa acrescentou o título de “sacerdote”; o administrador do palácio, Ahishar ou Aias (ou “seu irmão”?), sem patronímico; o chefe do exército, Eliabe, filho de Joabe; o chefe da corvéia, Adonirão ou Adorão, filho de Abda.

É evidente a continuidade com a administração davídica. Salomão empre¬ga o mesmo arauto que seu pai, o filho de um de seus sacerdotes, os dois filhos de seu secretário, o filho do chefe de seu exército, pelo menos dois filhos do profeta Natã, que aconselhou Davi e favoreceu a subida de Salomão ao trono. No conjunto, trata-se de uma nova geração que sobe ao poder, e isso prova que a lista não procede do começo do reinado de Salomão. Uma confirmação disso é a aparição de novos cargos: há um chefe dos prefeitos, o qual supõe a organização descrita em I Rs 4.7-19, e um chefe da corvéia, cuja instituição é registrada em I Rs 5.27 (com a reserva feita anteriormente a respeito da segunda lista davídica).

Podemos notar também que os nomes de alguns desses altos oficiais ou de seus pais não são israelitas, o que desconcertou os copistas ou os tra¬dutores: Adorão tem um nome fenício, assim como seu pai Abda. Os nomes de Sisa ou Sausa (I Cr 18.16) e de seu filho Eliorefe, ou Eliafe, podem ser egípcios ou hurritas. De fato, é normal que o jovem reino israelita tenha recrutado parte de seus funcionários nos países vizinhos que possuíam uma tradição administrativa. Para sua própria organização, precisou buscar modelos no estrangeiro. O estudo de certos cargos manifestará influências de instituições egípcias, sem que se possa decidir com certeza se tais influências foram exercidas diretamente ou por intermédio dos Estados cananeus que Israel suplantara. Uma influência direta parece mais provável, já que os reinos de Davi e Salomão excedem em muito os estreitos quadros das pequenas cidades-estados de Canaã.

O “amigo” do rei, que tem um título essencialmente honorífico e provavelmente de origem egípcia, bem pode ser um intruso nessa lista de funcionários. A função do chefe do exército e do chefe da guarda será estudada com as instituições militares. O chefe dos prefeitos e o chefe da corvéia serão apresentados ao estudarmos os serviços que eles dirigiam. Aliás, eles não aparecem mais depois de Salomão. Ficam, pois, três ministros cujos cargos se mantiveram até o final da monarquia, e são citados em conjunto em uma circunstância importante, o ataque de Senaqueribe no ano 701, cf. II Rs 18.18: o administrador do palácio, o secretário e o arauto. Os três merecem um estudo especial. 

2. O ADMINISTRADOR DO PALÁCIO

Na lista de Salomão, Ahishar é aser ‘ai habbayt, o administrador do palácio. O mesmo título é dado a Arsa, que tinha uma casa em Tirza, no tempo de Elá, rei de Israel, I Rs 16.9; a Obadias, ministro sob Acabe, I Rs 18.3; a Jotâo quando substituiu seu pai enfermo, o rei Uzias, II Rs 15.5; a Sebna, que foi administrador do palácio sob Ezequias, Is 22.15, depois substituído por Eliaquim, Is 22.19-20; este Eliaquim discutiu com o enviado de Senaqueribe sob os muros de Jerusalém, II Rs 18.18 = Is 36.3. Fora da Bíblia, encontramos o título na inscrição de um túmulo de Siloé (o nome está incompleto: seria o túmulo de Sebna?, cf. Is 22.16) e em uma impressão de sinete do nome de Gedalias, que é sem dúvida a personagem que Nabucodonosor instaurou como prefeito em Judá, depois da tomada de Jerusalém, II Rs 25.22; Jr 40.7, e que teria sido inicialmente administrador do palácio sob o último rei de Judá, Zedequias. Recentemente supôs-se que o cargo era hereditário e que Gedalias era descendente de Eliaquim, administrador sob Ezequias. Mas não parece que isto possa ser deduzido dos textos. No vocabulário de Crônicas, o equivalente poderia ser negid habbayt, chefe do palácio, título dado, sob Acaz, a um certo Azricão, II Cr 28.7.

O correspondente semântico exato é, em assírio e babilónico, o sha pân êkalli, e em egípcio o mrpr. Trata-se de altos funcionários cuja autoridade parece limitar-se à administração do palácio real: eles são os intendentes do rei, seus mordomos. Em Israel, os poderes do administrador do palácio se estendiam muito mais, e mais que essas semelhanças verbais, deve-se levar em conta a analogia de suas funções com as do vizir egípcio. Este apresentava-se cada manhã diante do faraó e recebia suas ordens. Ele mandava abria as “portas da casa real”, isto é, os diferentes departamentos do palácio, e então começava a jornada oficial. Pelas suas mãos passavam todos os negócios do país, todos os documentos importantes recebiam seu selo, todos os funcioná¬rios estavam a suas ordens. Governava verdadeiramente em nome do faraó e, na ausência deste, o substituía. Esta é, evidentemente, a dignidade com que o livro de Gênesis nos apresenta José investido: não há ninguém superior a ele fora o faraó, e ele foi estabelecido sobre todo o país do Egito, ele detém o selo real, Gn 41.40-44; ora, para expressar essa dignidade a Bíblia diz que o faraó o pôs “à frente de sua casa”, fazendo-o administrador de seu palácio, Gn 41.40; 45.8.

O administrador do palácio tinha funções análogas na corte de Judá. Ao anunciar a promoção de Eliaquim, diz Is 22.22: 

Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá.

As instruções do vizir egípcio se expressam de maneira muito semelhante: a cada manhã “o vizir fará abrir as portas da casa do rei para fazer entrar a Iodos aqueles que devem entrar e fazer sair a todos os que devem sair’. Podem ser comparadas com isso as palavras de Jesus a Pedro, vizir do Reino dos Céus, Mt 16.19. Como o vizir egípcio, o administrador do palácio é o mais alto funcionário de Estado: é o primeiro a ser nomeado na enumeração de I Rs 18.18; ele aparece sozinho ao lado do rei em I Rs 18.3, e Jotão leva tal título quando desempenha a regência do reino, II Rs 15.5, como fazia o vizir na ausência do faraó.

Entretanto, parece que o administrador só progressivamente foi subindo até a categoria de primeiro ministro, e talvez, no princípio, tenha sido apenas o intendente do palácio e dos domínios reais. Isso justificaria o título que ele tem e explicaria porque não é nomeado entre os altos oficiais de Davi, nem esteja no topo da lista dos funcionários de Salomão. Sob Davi e sob Salomão, o secretário e o arauto do rei eram seus representantes imediatos: não havia lugar para um vizir.

Em Is 22.15, o administrador do palácio, Sebna, é chamado também soken. Essa palavra é encontrada na forma de zukinu em duas glosas cananéias das cartas de Amarna para designar o comissário do faraó. Em acádico, saknu designa, em primeiro lugar, o prefeito de Asur (sakin mâti), depois os governadores dos países anexados, e o termo é usado pelos faraós na sua correspondência em acádico. Não obstante, em Ras Shamra, o skn (em escrita alfabética) ou o sakin mati (em acádico) é um funcionário de Ugarit, aparentemente o primeiro funcionário do reino, o que corresponde em Judá à posição de Sebna, soken e administrador do palácio.

3. O SECRETÁRIO REAL

Vimos que a lista dos altos oficiais de Davi compreendia um secretário, cujos dois filhos exerceram o mesmo ofício sob Salomão. Um edito de Joás confia ao secretário real o cuidado de recolher as contribuições destinadas à reparação do Templo, II Rs 12.11; cf. II Cr 24.11, e foi desempenhando esse ofício, que um século mais tarde que o secretário Safa se inteirou do descobri¬mento do livro da Lei, II Rs 22.3,8-10,12; II Cr 34.15,18,20. O secretário Sebna é um dos três ministros que discutem com o mensageiro de Senaqueribe, I Rs 18.18,37; 19.2; Is 36.3,11,22. Os últimos secretários da monarquia nos são conhecidos. Já dissemos que Safã ocupava o posto no ano 622; foi substituído por Elisama no ano 604, Jr 36.12,20, e, em 588, o secretário era Jônatas, Jr 37.15,20.

Órgão indispensável do poder a partir de Davi, esse funcionário era, ao mesmo tempo, secretário particular do rei e secretário de Estado. Ele redige a correspondência externa e interna, anota a soma das contribuições, II Rs 12.11; desempenha um papel importante nos negócios públicos. É inferior ao administrador do palácio: Sebna, que ocupava esse último posto, Is 22.15, é rebaixado ao de secretário, Is 36.3, etc., mas ele vem imediatamente depois do administrador do palácio em II Rs 18.18s; Is 36.3s, e a missão que ambos realizam em conjunto põe em jogo a sorte do reino. O secretário Safã leva ao rei o livro da Lei encontrado no Templo, o lê para ele e vai consultar, em seu nome, a profetiza Hulda, o que determina a reforma religiosa, II Rs 23. É na casa do secretário Elisama que se reúnem os altos dignitários e mandam ler as profecias de Jeremias, Jr 36.11-20. A “sala do secretário” onde acontece a reunião, Jr 36.12,20,21, é evidentemente seu escritório oficial, a chancelaria de Estado. Durante o cerco de Jerusalém, o domicílio do secretário Jônatas se converteu em prisão pública, Jr 37.15.

No Egito do Novo Império, o título de “escriba real” é freqüente, seja só, seja unido a outras funções. Mas, acima dos inumeráveis dedicados à escrita, alguns escribas reais ocupam funções de primeiro plano e participam em todos os negócios do Estado. O “escriba dos documentos reais” era um dos quatro detentores do selo durante a XIII dinastia; o “escriba real” realiza, junto com o vizir e o arauto, a investigação sobre pilhagem dos túmulos na época de Ramsés IX. O mesmo funcionário transcreve o grande edito de Horemheb ditado pelo próprio faraó. Não há dúvida de que o cargo israelita seja uma cópia reduzida do cargo que havia na corte do Egito.

4. O ARAUTO REAL

Durante os reinados de Davi e Salomão, Josafá é mazkír, e tal cargo perpetuou-se até o final da monarquia, pois conhecemos um Joá, mazkír de Ezequias, II Rs 18.18,37; Is 36.3,11,22, e um outro Joá, mazkír de Josias segundo II Cr 34.8. Ele não é o arquivista ou analista do rei, como se traduz freqüentemente. Segundo o sentido da raiz e seu emprego no hifil, o mazkír o que chama, nomeia, recorda, informa. O equivalente exato se encontra entre os títulos egípcios: o whm.w é o que repete, chama, anuncia”, o arauto do faraó. É ele quem regulamenta as cerimônias do palácio e introduz as pessoas nas audiências; mas seu cargo ultrapassa em muito ao de um moderno chefe de protocolo: anuncia ao rei os assuntos relacionados ao povo e ao país e, Inversamente, transmite ao povo as ordens do soberano, do qual ele é o intérprete autêntico. Quando o faraó viaja, ele o acompanha, cuida de sua pessoa e prepara as estalagens no caminho.

Da mesma maneira, em Israel o arauto é um funcionário muito importante: a missão encarregada de receber o emissário de Senaqueribe, personagem também importante, compreende somente o administrador do palácio, o secretário e o arauto do rei, II Rs 18.18. Merece ser notado que no grave incidente da violação dos túmulos no tempo de Ramsés IX, os três dignitários egípcios correspondentes, o vizir, o escriba real e o arauto, sejam nomeados na mesma ordem como encarregados de presidirem sozinhos a investigação. Esse paralelismo confirma as comparações feitas e salienta a influência egípcia na organização do reino de Judá.


VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.