19 de fevereiro de 2015

Roland de Vaux - A Casa do Rei

A CASA DO REI

1. O HARÉM

Em uma sociedade que admitia a poligamia, ter um harém numeroso era sinal de riqueza e poder, mas era também um luxo custoso que poucos podiam permitir-se. Isto tornou-se um privilégio real. Saul tinha pelo menos uma con­cubina, II Sm 3.7, e se fala em outras passagens de “suas mulheres”, II Sm 12.8. Quando Davi reinava só em Hebrom tinha já seis mulheres, II Sm 3.2-5, e em Jerusalém tomou outras concubinas e esposas, II Sm 5.13; cf. II Sm 19.6, entre elas Bate-Seba, II Sm 11.27; em Jerusalém deixou dez concubinas quando teve que fugir de Absalão, II Sm 15.16; 16.21-22; 20.3. Roboão teve dezoito esposas e sessenta concubinas, segundo II Cr 11.21; Abias teve quatorze mulhe­res, segundo II Cr 13.21. Joás tinha pelo menos duas mulheres, II Cr 24.3, o mesmo tinha Josias, cf. II Rs 23.31,34,36. Ben-Hadade exige que Acabe lhe entregue suas mulheres, I Rs 20.3-7, e Nabucodonosor deporta a Joaquim e suas mulheres, II Rs 24.15. A mesma sorte alcança as mulheres de Jeorão, II Cr 21.14 e 17, e as de Zedequias, Jr 38.23. Segundo seus próprios Anais, Senaqueribe recebeu em tributo as mulheres do harém de Ezequias. O “rei” de Cantares tinha sessenta rainhas e oitenta concubinas, Ct 6.8. Mas tudo isto é eclipsado pelo fabuloso harém de Salomão que, segundo I Rs 11.3, tinha sete­centas esposas e trezentas concubinas. Independentemente do que se deva pensar desses últimos números, havia muitos motivos para que Dt 17.17 reco­mendasse ao rei não multiplicar suas mulheres.


É provável que existisse uma situação análoga nos pequenos Estados vizinhos de Israel, mas temos poucas informações sobre isto. Na época de Amarna sabemos incidentalmente que o rei de Biblos tinha pelo menos duas mulheres, e o rei de Alasia (Chipre) fala de “suas mulheres”. Entretanto, nos séculos VIII-VII antes de nossa era, os Anais assírios atribuem aos reis de Ascalom, Sidom e Asdode somente uma mulher; talvez a rainha titular, o que não excluiria outras esposas ou concubinas. Com relação aos grandes impérios, estamos melhor informados. Entre os hititas não havia mais do que uma rainha titular, mas o rei tinha, além dela, um harém de mulheres livres e de concubinas escravas. O mesmo ocorre na Assíria, onde, ao lado da rainha, a "dama do palácio”, havia outras mulheres, muitas vezes princesas proceden­tes de países vassalos. No Egito, o faraó tinha somente uma “grande esposa real”. Cinco pessoas receberam, sem dúvida sucessivamente, esse título durante o longuíssimo reinado de Ramsés II; mas seus cento e sessenta e dois filhos provam claramente que ele não se restringia às esposas oficiais. Segundo as cartas de Amarna, o harém de um faraó é o que mais se aproxima ao harém que a Bíblia atribui a Salomão. Assim, a princesa de Mitanni, desposada por Amcnófis III, chega com trezentas e dezessete moças, e o mesmo soberano encomenda ao rei de Gezer quarenta “mulheres formosas” ao preço de qua­renta siclos de prata por cabeça. O faraó recebe trinta mulheres jovens como presente do rei de Mitanni, vinte e uma do rei de Jerusalém e vinte ou trinta de um príncipe sírio.

Desses haréns faziam parte, freqüentemente, mulheres estrangeiras, que serviam ao mesmo tempo para os prazeres do rei e para sua política: tais matri­mônios selavam alianças, ajudavam a manter as boas relações, garantiam a fidelidade das nações submetidas. Vimos como Amenófis III desposou uma princesa de Mitanni; o mesmo tomou também uma irmã do rei de Babilônia. Antes dele, Tutmósis IV havia desposado igualmente uma filha do rei de Mitanni, e, depois dele, Ramsés II desposa uma filha do rei hitita. Outro rei hitita dá sua filha a Mativaza, de Mitanni. Asaradom, da Assíria, dá a sua a um rei cítio. Uma filha do rei de Amurru torna-se rainha em Ugarit. Os exemplos poderiam se multiplicar.

Da mesma maneira, Davi havia se desposado com Maaca, filha do rei urameu de Gesur, II Sm 3.3. Salomão tomou-se genro do faraó, I Rs 3.1, e se tomou mulheres dentre os moabitas, amonitas, edomitas, sidônios e hititas,I Rs 11.1; cf. 14.21, foi sem dúvida para conservar aliados ou tributários. C) casamento de Acabe com Jezabel, a filha do rei de Tiro, I Rs 16.31, foi concluído por seu pai, Onri, a fim de reforçar mais a aliança com os fenícios.

Alguns textos indicam que, pelo menos no princípio da monarquia, o harém do rei passava a seu sucessor. Em II Sm 12.8, Natã diz que foi o próprio Iahvé que, estabelecendo Davi como rei de Israel, pôs em seus braços as mulhe­res de seu senhor Saul. Absalão possuiu publicamente as concubinas que Davi havia deixado em Jerusalém: com isso queria afirmar que era rei, II Sm 16.21-22. A posse do Harém era um título para o trono. A cólera de Is-Baal contra Abner, que tinha se apropriado de uma concubina de Saul, II Sm 3.7-8, pode ser com­preendida se tal concubina tivesse sido passada a Is-Baal por herança e se a ução de Abner significasse que este disputava o poder. Adonias deseja Abisaguc, que fazia parte do harém de Davi, mesmo que este, segundo I Rs 1.4, não a tivesse conhecido, e havia passado ao harém de Salomão, de quem Adonias a quer obter. Mas Salomão responde a sua mãe que lhe apresenta a súplica de Adonias: “Pede também para ele o reino”, I Rs 2.13-22. Um costume seme­lhante não é atestado até agora entre os vizinhos de Israel. Devemos notar, entretanto, que existia entre os persas. Heródoto 3, 68, conta que o falso Esmerdis havia usurpado ao mesmo tempo o trono de Cambises e todas as suas mulheres. Entre os antigos árabes, as mulheres formavam parte da heran­ça, e tal costume não foi prontamente suprimido pela proibição do Corão. Em Israel, também a religião se opôs a essa prática incestuosa. Rúben perde a primogenitura por ter tomado a concubina de Jacó, Gn 35.22; 49.3-4, e as leis de Lv 18.8; Dt 23.1; 27.20 se dirigiam tanto ao rei quanto ao resto do povo; mas o povo também não as observava sempre, cf. Ez 22.10.

Entre as mulheres do harém, uma tinha a preferência do rei. Tal era evi­dentemente o privilégio de Bate-Seba com Davi, de Jezabel com Acabe, de Atalia com Jorão, e explicitamente se diz de Maaca que Roboão “a amou mais que todas as suas outras esposas e concubinas”, II Cr 11.21. Mas o favor do rei não era suficiente para dar a tal esposa título e linhagem oficiais. É digno de nota que o Antigo Testamento usa o feminino de melek, “rei”, a palavra “rai­nha”, só uma vez a respeito de Israel, e isso em um texto poético e no plural para designar as “rainhas” do “rei” de Cantares, como distintas de suas concubinas, Ct 6,8. Em outras ocasiões, o singular se aplica a rainhas estran­geiras: a rainha de Sabá, I Rs 10, a rainha da Pérsia, Et passim, especialmente Et 2,17: o rei preferiu Ester a todas as outras mulheres (comp. II Cr 11.21) “e a escolheu como rainha” (nada semelhante em II Cr 11).

2. A SENHORA NOBRE
Por outro lado, há um posto oficial na corte de Judá para a gebira. Na lin­guagem comum, a palavra significa a “senhora” como oposto à criada, e é para­lelo a 'adon, “senhor”, cuja forma feminina não se usa em hebraico, II Rs 5.3; Is 24.2; SI 123.2; Pv 30.23. Em I Rs 11.19, ela se aplica à esposa titular do faraó, mas em nenhum texto designa a esposa de um rei de Judá. Sob Asa, a gebira é sua avó Maaca, I Rs 15.13; II Cr 15.16. A gebira conduzida ao Exílio, Jr 29.2, é a mãe do rei, segundo se depreende do paralelo de II Rs 24.15. Os filhos da gebira, mencionados em II Rs 10.13 junto com os filhos do rei, devem ser diferentes destes: aqueles são os filhos da rainha-mãe, ou seja, os irmãos do rei. Em Jr 13.18, o rei e a gebira são Joaquim e sua mãe. Segundo a etimologia e o uso, o título pode ser traduzido como “senhora nobre”.

O  título tinha uma dignidade e poderes especiais. Bate-Seba era certa­mente gebira sob Salomão: este a recebe com grande honra e a faz sentar-se a sua direita, I Rs 2.19. O poder da senhora nobre não se baseava unicamente no crédito que uma mãe tem com seu filho, como no caso de Bate-Seba, mas ia muito mais longe; por abusar de tal poder, Maaca foi privada da dignidade de Senhora nobre por Asa, I Rs 15.13. Essa autoridade da rainha-mãe explica o fato de Atalia ter se apoderado tão facilmente do poder com a morte de Acazias, II Rs 11.1 s. Essa posição oficial dentro do reino justifica que os livros dos Reis mencionem sempre o nome da mãe do rei na apresentação de cada reina­do de Judá, exceto para Jeorão e para Acaz, em que não se menciona nenhuma mulher, e para Asa, em que o nome da avó substitui o nome da mãe. É possível que a dignidade de senhora nobre fosse conferida no momento da entronização do filho. É o que parece indicar o destino de Hamutal, esposa de Josias, que foi rainha-mãe no tempo de Jeoacaz, deixou de ser no tempo de Jeoaquim e de Joaquim, e voltou a ser sob Zedequias, irmão de Jeoacaz, II Rs 23.31,36; 24.8,18. É possível também que a mãe recebesse o título de gebira desde o momento em que o filho era designado para a sucessão, como parece sugerir II Cr 11.21-22. A história de Bate-Seba nada permite concluir, pois a consa­gração de Salomão seguiu imediatamente à sua designação, mas ao menos prova que, antes da designação, a mãe de Salomão não tinha a mesma dignida­de que teve depois, comparar I Rs 1.15-16,31 com 2.13-19. Bate-Seba foi a primeira senhora nobre de Israel. Parece, por outro lado, que a senhora nobre podia conservar sua dignidade mesmo depois da morte de seu filho. Assim, Maaca, esposa de Roboão, continua gebira sob seu neto Asa, depois do curto reinado de seu filho Abias, I Rs 15:13. Do mesmo texto se deduz que a gebira podia ser destituída pelo rei: Maaca havia favorecido o culto de Asherá.

Essa complexa situação é esclarecida pelos paralelos hititas. A tavannana é a rainha titular, mãe do príncipe herdeiro, e tem grande influência política e religiosa. Se ela sobrevive ao rei, conserva a mesma posição durante o reinado de seu filho ou de seus filhos, no caso em que dois irmãos se sucedam no trono; é só na sua morte que a dignidade passa a sua nora, a esposa do rei em exercício. Como Maaca, ela pode ser destituída por causa de uma falta grave contra o rei ou contra o Estado; como em Judá, esse caso parece ter sido algo excepcional. A rainha-mãe devia ocupar uma posição análoga em Ugarit, onde foram encontradas muitas cartas oficiais dirigidas à mãe do rei, chamada tam­bém a ’adat, feminino de ’adôn, e por conseguinte equivalente a gebira. Os tex­tos acádicos de Ras Shamra indicam que a rainha-mãe intervinha na política e eles falam também de uma senhora nobre em Amurru. Quanto à Assíria, os testemunhos são menos claros; contudo, devemos recordar a função desem­penhada pelas rainhas Samuramat e Naquía durante os reinados de seus mari­dos e, mais tarde, de seus filhos. Essa tradição conservou-se nas lendas gregas de Semíramis e de Nitócris. Assinalemos também a influência de Adad-Gupi, a mãe de Nabonides.

A existência da senhora nobre no reino do norte não é comprovada por nenhum testemunho direto. Na apresentação dos diversos reinados, não se menciona nunca o nome da mãe do rei. Sem dúvida II Rs 10.13 menciona uma gebira que só pode ser Jezabel, mas a palavra é posta na boca de príncipes de Judá. A instituição supõe, aliás, uma estabilidade dinástica que geralmente faltou ao reino de Israel. Entretanto, é necessário assinalar a existência de um termo raro, que é talvez o equivalente israelita da gebira de Judá. No SI 45.10, a shegal aparece à destra do rei, diferente das outras mulheres do harém: é a rainha titular. Ora, o salmo 45 foi interpretado como um epitalâmio, composto primeiramente para um rei de Israel. Por outro lado, é verdadeiramente tenta­dor restaurar a palavra shegal no cântico de Débora, no final de Jz 5.30, em vez do impossível shalal, “saque”. A palavra é paralela a Sísera e designaria a rainha, ou a rainha-mãe, cf. v. 28. E também o cântico de Débora é uma com­posição do Israel do norte. As outras duas vezes que se emprega o termo no Antigo Testamento, Ne 2.6 (a rainha da Pérsia) e Dn 5.2,3,23 (forma aramaica plural: as mulheres de Belsazar), não provam que a palavra tivesse um empre­go oficial em Judá antes do Exílio.

3. OS FILHOS DO REI

As únicas informações que temos da situação das filhas do rei procedem da história de Tamar, filha de Davi. Dela podemos concluir que as prince­sas, até o dia de seu casamento, viviam no palácio sob a tutela de mulheres, ISm 13.7. Elas usavam uma vestimenta que as diferenciava de todas as demais, II Sm 13.18,19, consistindo, provavelmente, em um vestido de man­gas compridas, como a túnica dada por Jacó a José, seu filho predileto, Gn 37.3,23,32, O pai as dava em casamento a seus altos oficiais, I Rs 4.11,15, ou a reis amigos, II Rs 8.18.

Os filhos do rei eram criados no palácio por amas de leite, II Rs 11.2, depois eram confiados a tutores escolhidos entre os grandes da cidade, II Rs 10.1,6; cf. I Cr 27.32. Nos é dito que Acabe tinha setenta filhos. O número é sem dúvida simbólico, de uma família numerosa, cf. Jz 8.30; 9.2,5, mas esse para­lelo nos mostra que devemos entender “filhos” em sentido próprio, e não interpretá-lo como a descendência em geral ou como parentes afastados. Sabemos aliás que Acabe teve um harém, I Rs 20.2,5,7, que podia ser numeroso. Igualmente, os filhos do rei na história de Absalão e de Aninom, II Sm 13.23-38, «foi certamente os filhos de Davi. Segundo parece, deve ser entendido também em sentido próprio quando em II Rs 10.13 se fala dos filhos do rei e dos filhos da senhora nobre; Não há razão bastante para interpretar tais termos como filhos honoríficos. Quando crescidos, e casados sem dúvida muito jovens, os filhos do rei levavam uma vida independente e recebiam um dote de seu pai, IICr 21.3; cf. Ez46.16. Amnom vive fora do palácio, II Sm 13.5, e Absalão tem casa própria, II Sm 13.20; 14.24, rebanhos e terras, II Sm 13.23; 14.30. NAo obstante, os filhos adultos continuavam submetidos à autoridade de seu pai, o rei, II Sm 13.27.

Além do designado como herdeiro, que tinha prerrogativas especiais, II Cr 11.22, os filhos do rei podiam desempenhar certos cargos na corte, II Sm 8.18; ICr 18.17. Mas a expressão ben hammelek, “filho do rei”, é empregada mui­tas vezes em um contexto que parece indicar que não se trata de um filho em sentido próprio. Em I Rs 22.26,27 = II Cr 18.25-26, o “filho do rei”, Joás, é citado depois do governador da cidade e ambos são encarregados de encarce­rar o profeta Micaías. Em Jr 36.26, o “filho do rei”, Jerameel, é encarregado com outras duas pessoas de prender Baruque e Jeremias. Em Jr 38.6, Jeremias é lançado na cisterna do “filho do rei”, Malquias. Em II Cr 28.7, o “filho do rei”, Maaséias, foi morto junto com dois oficiais do rei. Além disso, nenhuma dessas personagens aparece como membro da família real. Parece, pois, que a expressão “filho do rei” indica, nesses quatro casos, um nome de função e isso é talvez confirmado por um selo e uma marca de sinete encontrados na Pales­tina e que levam impresso um nome próprio seguido da expressão “filho do rei”, no lugar onde outros selos indicam a função de seu possuidor. Tais fun­cionários não eram de uma categoria muito elevada, pois Joás é citado depois do governador da cidade, e em três de quatro casos, intervêm a respeito de pri­sioneiros. E por isso provável que o ben hammelek fosse simplesmente um oficial de polícia. A explicação do título pode ser a seguinte: antigamente tal oficial seria escolhido entre os filhos do rei.

Podemos aduzir um texto paralelo egípcio: “filho real de Cush” é o título do vice-rei da Etiópia, que nunca foi um descendente do faraó, a não ser, tal­vez, o primeiro titular, que teria sido um neto do fundador da XVIII dinastia.

4. A CORTE DO REI

À família real estava vinculada uma corte de oficiais e criados, I Rs 10.4-5. Qualquer que fosse seu cargo, todos eram chamados “servos” do rei, desde os homens da guarda, I Rs 1.33; II Sm 11.9,13; 20.6, até os mais altos funcionários, IRs 11.26; II Rs 19.5; 22.12; II Cr 34.20; cf. para as cortes estrangeiras, II Rs 5.6; 25.8; II Cr 32.9.

Pergunta-se se a expressão “servo do rei”, ‘ebed hammelek, emprega­da no singular, não significava algumas vezes uma função especial. Efetiva­mente, o ‘ebed hammelek Asaías, é citado junto com o “secretário” Safã, IRs 22.12 = II Cr 34.20. Por outro lado, há certo número de selos que trazem um nome próprio seguido de ‘ebed hammelek ou ‘ebed e o nome de um rei.

O mesmo tipo é documentado por selos de origem fenícia, amonita, edomita e talvez filistéia. É certo que o título ocupa o lugar que costuma ser ocupado por um nome de função, mas isso não prova que designa uma função particular. De fato, em II Rs 25.8, o título é dado a Nebuzaradão, a quem se denomina, ao mesmo tempo, comandante da guarda de Nabucodonosor. Por fim, o número relativamente grande de selos encontrados até agora seria espantoso se seus possuidores tivessem ocupado todos o mesmo cargo. Deve-se antes concluir que se tratava de um título geral que diversos funcionários tinham e cujo selo servia para autenticar os atos oficiais. A expressão assíria correspondente com­preende também diferentes funções.

Quando da conquista de Jerusalém, no ano 587, os caldeus fizeram prisio­neiros cinco homens “que viam a face do rei”, II Rs 25.19 (no texto paralelo de Jr 52.25, eles são sete). Com freqüência traduziu-se a expressão por “con­selheiros”, e, de fato, as mesmas palavras designam em Et 1.14 os sete mem­bros do conselho real da Pérsia. Não obstante, a expressão tem em si mesma um sentido geral: os admitidos à presença do rei, cf. II Sm 14.24,28,32, e pode-se comparar com a expressão “ver a face de Iahvé” que significa “ir ao templo”, Dt 31.11; SI 42.3. A frase inclui os que estão a serviço do rei e tam­bém a seus familiares, a seus cortesãos, todos os que “estão perante o rei”,I Sm 16.21 s; Jr 52.12; cf. o que se diz sobre os anjos em Mt 18.10. A expres­são se encontra em assírio com o mesmo sentido vago. É aliás normal que o rei peça conselho aos seus cortesãos, I Rs 12.6; cf. a corte celestial, I Rs 22.19s; Jó 1.6s; 2.1 s. O título explícito de “conselheiro”, yô‘ets, é dado sob Davi a Aitofel, II Sm 15.12; cf. 15.31; 16.23 e depois, também a um tio de Davi, ICr 27.32-33.0 título é novamente encontrado no tempo de Amazias, II Cr 25.16.

Junto com os servos do rei, I Sm 8.15 menciona os sarisim. Eles são nomeados juntamente com os notáveis em Jr 34.19, com os homens de guerra, as mulheres e as crianças em Jr 41.16. Acabe envia um saris em busca do profeta Micaías, filho de Inlá, I Rs 22.9 = II Cr 118.8, um outro é encarregado de restituir os bens da sunamita, II Rs 8.6. Dois ou três sarisim participam na morte de Jezabel, II Rs 9.32. Os sarisim de Joaquim são levados cativos, IRs 24.12,15; Jr 29.2. O saris Natã-Meleque tinha uma câmara no templo, IRs 23.11. Quando da tomada de Jerusalém, um sarís tinha a seu cargo homens de guerra, II Rs 25.19; Jr 52.25. Comumente se traduz por “eunuco”; e tal é otido se que tem certamente a palavra em outros textos, Is 56.3-5; Eclo 30.20, ? possivelmente em II Rs 20.18 = Is 39.7; provavelmente em Et 1 e 2 passim\ l)n 1 passim. Mas é mais que duvidoso que tal sentido seja verificado nos textos precedentemente citados, em que os sarísim desempenham simples­mente papel de funcionários ou cortesãos. Fora de Israel, a Bíblia denomina assim o chefe da guarda, o copeiro e o padeiro mor do faraó, Gn 37.36; 39.1; 40.2; menciona-se também o grande sarís de Senaqueribe, II Rs 18.17 (falta no paralelo de Is 36.2), e o de Nabucodonosor, Jr 39.3,13; ambos participam nas expedições guerreiras.

A palavra é um empréstimo assírio: ela é uma transcrição de sha-reshi, "o que está à frente”, simplesmente um dignitário, um cortesão que vai adiante do rei, um de seus homens de confiança. Para certas missões, como o cuidado do harém ou dos filhos do rei, eram escolhidos eunucos, e a palavra assume esse sentido, atestado em muitos textos cuneiformes. Esse desenvolvimento semântico explica igualmente todos os usos bíblicos. A palavra passou ao egípcio tardio, na forma de srs, para designar os funcionários persas.

Para sua recreação e a de sua corte, o rei mantinha cantores e cantoras.
O caso de Davi chamado junto a Saul para tocar a cítara é especial, I Sm 16.14-23; 18.10; 19.9. Mas Barzilai se declara muito velho para ir escutar os cantores e cantoras no palácio aonde lhe convida Davi, II Sm 19.36. A recordação dos músicos de Salomão se conserva em Ec 2.8. Senaqueribe, em seus Anais, fala ilos cantores e cantoras de Ezequias, que ele recebeu como tributo.

Tais músicos alegravam os banquetes. Considerava-se favor insigne ser aceito à mesa real “como um dos filhos do rei”, II Sm 9.7,11,13; 19.29,34; cf. Lc 22.30. A mesa de Salomão foi célebre pela riqueza do serviço e a qua­lidade de seu cardápio, 1 Rs 10.5. Mas a abundância de provisões que chega­vam cada dia, I Rs 5.2-3,7, não servia somente para a mesa pessoal do rei, ela alimentava todos os habitantes do palácio e os pensionados do rei, como os descendentes de Barzilai, I Rs 2.7, e mais tarde as centenas de profetas que “comiam da mesa de Jezabel”, I Rs 18.19; cf. Daniel e seus companheiros, Dn 1.5-15, e a mesa de Neemias, Ne 5.17-18. As grandes monarquias do Orien­te tinham funcionários encarregados da mesa do rei, copeiros, padeiros, trin- chadores, como a monarquia francesa tinha seus “oficiais de boca”. O Antigo Testamento fala do copeiro e padeiro mor do faraó, Gn 40.1 s, do copeiro mor de Senaqueribe, II Rs 18.17s; Is 36.2s, onde o contexto indica que tais títulos podiam ser honoríficos e associados a outros cargos, o que é abundantemente confirmado por documentos assírios. Pelo contrário, Neemias é copeiro do rei da Pérsia e desempenha efetivamente tal função, Ne 1.11; 2.1. É possível que as pequenas cortes de Israel e de Judá tenham conhecido também semelhantes ofícios, mas não são mencionados na Bíblia. Em I Rs 10.5 = II Cr 9.4, o termo traduzido comumente por “copeiros” significa na verdade “serviço de bebida”.

O  rei, que tem suas obrigações militares e faz com freqüência a guerra em pessoa, tem seu escudeiro. Este foi chamado, a princípio, “porta armas” do rei: é o título de Davi quando se pôs ao serviço pessoal de Saul, 1 Sm 16.21. Outro escudeiro de Saul tomou parte na batalha de Gilboa, I Sm 31.4-6. Abimeleque, rei de Siquém, tinha seu escudeiro, Jz 9.54. Naturalmente, os oficiais superiores também tinham o seu, I Sm 14.6s; II Sm 23.37. Quando Salomão introduziu os carros de guerra, o escudeiro passou a ser chamado de shalish, literalmente o “terceiro”. Efetivamente, os carros hititas, assírios e israelitas eram ocupados por três homens: o cocheiro, o combatente e o shalish, que levava o escudo e as armas. É o equivalente do assírio shalshu. Em Êx 14.7; 15.4, a palavra se aplica impropriamente ao exército egípcio, cujos carros não levavam mais que dois ocupantes. Em Israel, todo carro tinha seu shalish. Mas o escudeiro do rei era uma personagem importante, seu ordenança ou seu ajudante de campo, “em cujo braço o rei se apoiava”, II Rs 7.2,17,19; cf. II Rs 5.18 conhece-se o escudeiro de Jeú, II Rs 9.25, e o de Pecaías, Peca, que assassinou seu senhor e reinou em seu lugar, II Rs 15.25. A palavra é empregada duas vezes no plural, ao lado de “guardas do rei”, I Rs 9.22; IRs 10.25. Nome e função desapareceram quando desapareceram os carros, com a queda de Samaria, no reino do norte; e depois da invasão de Senaqueribe, no reino de Judá.

No reinado de Davi, Husai é chamado o “amigo” do rei, 11 Sm 15.37 (expressão que deve ser lida também no v. 32, segundo o texto grego); 16.16.

O  termo foi interpretado por I Cr 27.33 como nome de função, pois conta Husai entre os altos funcionários de Davi e, de fato, a lista dos funcionários de Salomão contém também um “amigo”, I Rs 4.5. A palavra re4eh é geralmente explicada como forma diferente de rela, “companheiro”, que é encontrada precisamente em I Cr 27.33. Entretanto, é possível que os dois termos não tenham nenhuma relação, e que re4eh seja um empréstimo estrangeiro. Nas cartas de Amama, o rei de Jerusalém se declara ruhi do faraó. Ora, existe um título egípcio rh nsw.t, o “conhecido do rei”, título nobiliário que se dava a quem o faraó queria honrar. O termo hebraico poderia ser sua transcrição, por intermédio do cananeu, e assim II Sm 16.16 jogaria com as duas palavras: Husai é o re‘eh, o “conhecido” de Davi, e Absalão lhe pergunta por que não foi com seu rela, seu “amigo”. O título não incluía nenhuma função determi­nada e, depois de Salomão, já não aparece mais. Entretanto, é possível que lenha sido substituído por uma tradução dessa expressão egipcia: assim se explicaria o sentido de “conhecidos”, os meyudda^m, da corte de Acabe, IRs 10.11. O equivalente múidu encontra-se já em Ugarit.

5. AGUARDA REAL

Davi tinha um corpo de mercenários estrangeiros, recrutados na Filistéia e nas regiões limítrofes, os queretitas e os peletitas. Eles não estavam sob o mesmo comando que o exército recrutado em Israel, II Sm 8.18 = I Cr 18.17; ISm 20.23. O papel guerreiro desempenhado por essas tropas mercenárias, cf. 11 Sm 20.7, será estudado quando estudarmos as instituições militares. Mas, eles formavam também a guarda pessoal do rei. Acompanham Davi quan­do foge de Absalão, II Sm 15.18; escoltam Salomão no dia de sua coroação, IRs 1.38,44. Eles são os “servos de seu senhor”, II Sm 20.6; l Rs 1.33, que habitam à porta do palácio, II Sm 11.9,13. A partir da subida ao trono de Salomão, não são mais mencionados. Contudo, mercenários estrangeiros, os cários, estão a serviço do palácio no momento da sublevação contra Atalia, I] Rs 11.4,19.

Nessa ocasião, os cários são mencionados junto com os ratsim, os “cor­redores”. Estes forneciam o pelotão de escolta, que corria adiante do carro do rei. Absalão, e depois Adonias, em suas pretensões à realeza, adquiriram car­ro e cavalos e cinqüenta corredores, II Sm 15.1; I Rs 1.5: isto fazia parte do cerimonial régio. Os corredores aparecem desde o reinado de Saul, I Sm 22.17; onde o contexto parece indicar que eles eram recrutados entre os israelitas. Segundo informação de I Rs 14.27,28 = II Cr 12.10-11, tinham sua sala de guarda à entrada do palácio, onde conservavam os escudos de bronze que levavam quando acompanhavam o rei ao Templo. Tais escudos de bronze haviam substituído os escudos de ouro que Salomão havia mandado fabricar. O grande rei havia colocado seiscentos escudos na galeria do bosque do Líba­no, 1 Rs 10.16-17, o que sugere que esta galeria era a sala de guarda do palácio de Salomão. Os corredores asseguravam por turnos a vigilância do palácio e do Templo, e tomaram parte preponderante na deposição de Atalia e na entronização de Joás, II Rs 11. Os reis de Israel tinham igualmente sua guarda; os corredores de Jeú o acompanharam a Samaria e participaram na extirpação do culto de Baal, II Rs 10.25.

6. AS PROPRIEDADES DO REI

Todos os reis do antigo Oriente foram grandes proprietários. As terras que possuíam eram administradas diretamente, em arrendamento, ou concedidas como feudos em troca da prestação de tributos ou de certos serviços pessoais. Isso acontece, sobretudo, no Egito, onde a maior parte do país pertencia ao rei e aos templos, e onde são amplamente confirmadas as indicações de Gn 47.20-26 por documentos nativos. Em menor grau se dá o mesmo fenômeno na Mesopotâmia: o Código de Hamurabi, os documentos de Nuzu e os do perío­do cassita destacam a importância dos feudos, e os textos de todas as épocas falam das propriedades do rei. O mesmo vale para os pequenos reinos da Síria, como o provam os arquivos recentemente descobertos em Alalakh e em Ugarit.

O mesmo ocorreu em Israel. Samuel adverte os israelitas de que o rei que desejam fará com que seus súditos cultivem suas terras e seguem seus campos e se apoderará de suas vinhas e olivais para entregá-los a seus servos, I Sm 8.12,14. Isso se realiza já no reinado de Saul: antes de ser rei, ele tinha somente um pequeno patrimônio familiar, I Sm 9.1 s; 11.5, mas muito rapidamente pôde distribuir campos e vinhas a seus oficiais, I Sm 22.7, e, ao morrer, deixa uma grande propriedade, II Sm 9.9-10. Não havia uma distinção clara entre os bens pessoais do rei e os bens da coroa, e todos passavam a seu sucessor, mesmo que este não pertencesse à família do rei falecido. Davi herdou o harém de Saul e sua “casa”, II Sm 12.8. Se são “restituídas” as terras do avô a Meribaal é por simples favor, II Sm 9.7, e mesmo nesse caso Davi conserva certo direito sobre elas: ele regula sua administração, II Sm 9.9-10; mais tarde, os retira de Meribaal, II Sm 16.4, e depois reparte-as entre Meribaal e Ziba, II Sm 19.30.

O poder do rei sobre os bens de seu predecessor se conservou também no reino do norte, onde as usurpações foram freqüentes. Em Judá, onde a suces­são dinástica foi ininterrupta, a transmissão do patrimônio real não apresenta­va nenhuma dificuldade.

Tal patrimônio podia formar-se e aumentar de diversas maneiras. O rei adquiria terras; assim Davi compra a eira de Araúna, II Sm 24.24; Onri, a colina de Samaria, I Rs 16.24. Acabe tenta comprar ou trocar a vinha de Nabote, IRs 21.2. A continuação da história de Nabote poderia indicar que os bens dos condenados à morte por crime público eram entregues ao rei, I Rs 21.15. É possível também que o rei tomasse posse dos bens deixados pelos donos que abandonavam o país: assim se explicaria a história da sunamita, II Rs 8.1-6, especialmente v. 3 e 6. Por outro lado, é evidente que um rei injusto não tinha o menor escrúpulo em confiscar os bens de seus súditos. Isso já havia sido anunciado por I Sm 8.14 e basta para explicar a história de Nabote. O rei podia igualmente receber doações. Gezer, presente de casamento da filha do faraó, IRs 9.16, passou ao patrimônio da coroa, o que explica que seu território seja omitido na organização administrativa dos tributos, I Rs 4.8-19, onde se esperaria sua menção no v. 9. Os árabes enviam rebanhos a Josafá, II Cr 17.11.

Os benefícios que Salomão obteve de seus empreendimentos comerciais favoreceram certamente a ampliação e o aproveitamento das posses reais, líc 2.4-7 põe estas palavras na boca de Salomão: “Plantei para mim vinhas. Fiz jardins e pomares para mim, e nestes plantei árvores frutíferas de toda espécie. Fiz para mim açudes para regar com eles bosques verdejantes. Com­prei servos e servas; também possuí escravos nascidos em casa, bois e ovelhas mais do que possuíram todos os que antes de mim viveram em Jerusalém.”

Alias, conforme II Cr 26.10, que confirma as observações arqueológicas, havia construído torres no deserto e cavado cisternas, tinha um numeroso arrenda­mento de gado, lavradores e vinhateiros. Conforme II Cr 32.28-29, Ezequias linha depósitos para seu trigo, seu vinho e seu azeite, campos para seus reba­nhos, muito gado. As posses do rei ainda são mencionadas em II Cr 31.3; 35.7. É muito significativo que Ezequiel, em sua profecia do futuro, reserve a parte do príncipe e regulamente seu estatuto, Ez 45.7; 46.16-18; 48.21: a tradição secular das posses reais se impunha a ele.

Não estamos bem informados sobre a administração dessas posses. O Cro­nista apresenta uma lista dos superintendentes dos bens de Davi, I Cr 27.25-31; cf. 28.1: há superintendentes para os campos e as vinhas, para o vinho e para o azeite, para o gado maior e menor, para os camelos e os jumentos. Essa lista não é algo inventado, como provam os nomes próprios não israelitas que estão contidos nela, mas não podemos verificar seus detalhes nem a data.

A administração geral das posses estava nas mãos de um funcionário especial. É, ao que parece, o que está “sobre a casa do rei”, ’asher *al habbayt, o mordomo do palácio. É o título que o faraó conferiu a José, Gn 41.40; cf. 45.8, e José cuida efetivamente das posses reais, 47.20-26, e de seus rendimentos, 41.48-49,55-56; 42.6s. Com seu mordomo de palácio, Obadias, Acabe vai, no período de seca, buscar capim para seus cavalos, suas mulas e para seu gado, IRs 18.5. Entretanto, o resto da história de José e os outros textos sobre o mordomo do palácio indicam que suas funções ultrapassavam em muito as de um intendente real. Ele era também mordomo e acabou sendo primeiro minis­tro do rei. Existe talvez outro título que designa o funcionário encarregado das posses. Ziba, que é intendente dos bens de Saul, é chamado seu na1 ar, ou o   na*ar de sua “casa”, II Sm 9.9; 19.18. Da mesma maneira Boaz tinha um na‘ar, que comandava seus segadores Rt 2.5s. Agora, foram descobertos três impressões de selo do fim da monarquia com o nome de Eliaquim, naar do rei. O título não aparece nos textos que mencionam os mais altos funcionários do reino: estaria reservado ao intendente dos bens?

Essas informações podem, talvez, ser completadas pelas descobertas arqueológicas. Nas ruínas do palácio de Samaria foram encontradas uns setenta cacos de vasilhas inscritos que têm a indicação de entregas de azeite ou de vinho com os nomes do destinatário e do entregador e, freqüentemente, com uma indicação da procedência. São recibos administrativos que datam do rei­nado de Jeroboão. É muito provável que tenham a ver com a administração das posses reais próximas à capital; o Egito proporcionou documentos com­pletamente análogos. Muito mais duvidoso é que as jarras judaicas cujas alças têm uma estampa “do rei”, lammelek, se refiram à exploração das posses: elas podem ter evidentemente servido para o pagamento de impostos, mas a estam­pa que têm é explicada de uma forma mais simples e com mais segurança como marca da oficina real.

Na administração do reino, o rei era assistido por altos funcionários que residiam perto dele e formavam seu governo, isto é, eram seus ministros. Por um lado, são os “servos” do rei, mas, em relação ao povo, são chefes, saftfíi IRs 4.1, e têm o nome de sua função ou o título de “encarregado de tal ou tal oficio”. Como nas demais cortes orientais, suas atribuições são difíceis de definir. A Bíblia oferece somente um quadro incompleto dessa administração central.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.