27 de fevereiro de 2015

L. O’B. DAVID FEATHERSTONE - Introdução aos livros históricos

Introdução aos livros históricos

L. O’B. DAVID FEATHERSTONE

Na metade do século V a.C., Heródoto escreveu uma história das guerras entre a Grécia e a Pérsia que lhe conferiu o título de “Pai da História”, mas cerca de cem anos antes uma história de Israel foi publicada, que milhões de pessoas já leram com grande proveito. Os livros que na nossa Bíblia têm os títulos de Josué, Juízes, 1 e 2Samuel ele 2Reis já estavam na presente forma em hebraico logo após o último evento que registram (2Rs 25.27ss), que ocorreu no trigésimo sétimo ano do exílio, ou 561 a.C. Eles contêm uma oração a favor dos que estavam no exílio (lRs 8.46-53), mas não há pista alguma acerca da proclamação que Ciro fez em 538 a.C. (Ed 1.1-4) autorizando o retorno deles para Jerusalém, e isso nos leva a crer que a data em que esses livros foram publicados está situada no período de dez anos após 550 a.C.

Uma edição anterior desses livros quase certamente foi publicada logo antes da morte trágica do rei Josias em 609 a.C. (2Rs 23.29; segundo Snaith, IB), ou de qualquer maneira antes do exílio que começou em 597 a.C. (segundo a introdução de Gray ale 2Rs). Com base na suposição de que o livro encontrado no templo em 622 a.C. (2Rs 22.8) contivesse o que temos em Deuteronômio, a coleção
inteira tem sido denominada história deuteronômica de Israel, (cf. G. Ernest Wright e Reginald H. Fuller, The Book of the Acts of God, 1960, e Peter R. Ackroyd, Exile and Restoration, 1968.) Ela ilustra de forma vívida os princípios enunciados em Deuteronômio 28. “Se vocês obedecerem [...] todas essas bênçãos virão sobre vocês [...] entretanto, se vocês não obedecerem [...] todas estas maldições cairão sobre vocês” (v. 1,2,15).

Os livros na nossa Bíblia são denominados segundo o(s) herói(s) principal(is) de que falam. Esses títulos não devem ser entendidos como sinônimo de autoria. Josué supostamente não escreveu acerca da sua própria morte (24.29). Jz 18.30 deve ter sido escrito pelo menos 300 anos após a morte da maioria dos juízes. A morte de Samuel é registrada no começo do cap. 25 do seu primeiro livro, e os livros de Reis evidentemente foram escritos a respeito dos reis, e não por eles.

O livro de Josué alista os sucessos alcançados na conquista da Palestina sob a liderança dele — primeiramente Jericó e o planalto central (1—9), depois o sul (10) e finalmente o norte (11 e 12). A isso segue-se a afirmação (13.1): “ainda há muita terra para ser conquistada”. Em seguida, é estabelecida a responsabilidade de cada uma das 12 tribos (13—22). Nos dois discursos no final do livro (23 e 24), a correlação entre a obediência e a bênção e entre a transgressão e o ser consumido é claramente afirmada.

O primeiro capítulo do livro de Juízes pinta um retrato semelhante de sucessos, embora afirme explicitamente que sete tribos não expulsaram os habitantes originais do seu território. O plano para os capítulos seguintes é esboçado em 2.11-19. “Então os israelitas [...] abandonaram o SENHOR [...] ele os entregou aos inimigos [...]. Então o SENHOR levantou juízes, que os libertaram [...]. Mas quando o juiz morria, o povo voltava a caminhos ainda piores”. Isso foi verdade em relação a Otoniel, Eúde e Sangar (3), Débora e Baraque (4 e 5), Gideão (6—8), Tola e Jair (10), Jefté (11 e 12), Ibsã, Elom e Abdom (12) e Sansão (13—16).

No caso de Débora, temos uma versão em prosa da história (4) e um relato em poesia que parece ter sido composto na época da vitória que ele descreve. A forma em que fala de Débora, Jael e a mãe de Sísera e suas damas sugere que o poema foi composto pela própria Débora.

Os juízes talvez tenham exercido sua jurisdição em grande parte dentro do território de suas tribos. Qualquer sobreposição significa que o período mencionado para cada um não fornece um método absoluto para cálculo da data da queda de Jericó como John Garstang tentou fazer em 1931. A maioria dos eruditos aceita uma data do século XIII para o êxodo e a conquista da terra, embora isso torne difícil a interpretação cronológica das afirmações de Jz 11.26 e lRs 6.1.

A razão dada pelo historiador sagrado para o sucesso e o fracasso não foi uma razão arbitrária imposta sem justificativa. As 12 tribos que constituíam a nação de Israel eram mantidas unidas principalmente por sua lealdade a Javé, e, quando essa lealdade enfraquecia, sua unidade e força desapareciam. A maneira em que as tribos eram chamadas para ajudar, mas poderiam não atender ao chamado, é ilustrada em Jz 5.16,17; 19.29—21.12 e ISm 11.7. Encontros regulares provavelmente aconteciam três vezes por ano (Ex 23.17; 34.23 e Dt 16.16), mas os pais de Samuel provavelmente representam o hebreu típico que vinha uma vez por ano ao santuário central (ISm 1.3 e 2.19).

O tema básico dos últimos cinco capítulos de Juízes aparece em 17.6; 18.1; 19.1 e 21.25. “Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo”. Isso não quer dizer, no entanto, que o historiador deuteronômico acreditava que os problemas do povo e da nação seriam automaticamente resolvidos com a introdução da monarquia. As passagens que retratam a aprovação divina da indicação de Saul (ISm 9.1—10.16; 11), ele acrescenta advertências dadas por Samuel nos caps. 8; 10.17-27 e 12.

Embora a análise de 1 e 2Samuel feita por A. R. S. Kennedy na Century Bible em 1904 tenha sido muito criticada, ainda apresenta uma hipótese de trabalho que muitos aceitam como adequada. Isso nos assegura de que 2Sm 9—20 e lRs 1—2 vieram até nós virtualmente intocados da forma em que foram relatados por uma testemunha ocular que escreveu a história da corte de Davi e da sucessão de Salomão como rei. Dois nomes foram sugeridos para essas testemunhas oculares. Para Duhm, Budde e Sellin, seria Abiatar, mas a sugestão de August Klostermann de que tenha sido Aimaás é uma boa alternativa, com base em 2Sm 17.17-21 e 18.19-32. Cada uma delas é possível, nenhuma é certa, mas, seja quem for, escreveu um relato franco e esclarecedor das intrigas da corte de tal forma que comunica uma mensagem espiritual e moral que nenhum historiador do século VII a.C. ou do século VI a.C. precisaria modificar ou expandir.

Hoje, é fato geralmente aceito que houve grande atividade literária no reinado de Salomão. Antes da sua morte, é quase certo que a história da arca (ISm 4—6) e a maior parte da história da origem da monarquia tenham sido registradas mais ou menos na sua forma atual. O relato é real e inclui coisas erradas que Saul fez, mas em meio a tudo isso ele continua sendo o “ungido do SENHOR”. Parece que comentários e histórias de outras fontes que eram mais críticos em relação à monarquia foram acrescentados a esse material básico. O resultado é que temos um retrato mais amplo de Samuel, Saul e Davi do que teríamos de qualquer fonte isolada. E. J. Young e outros demonstram que é desnecessário falar de “relatos conflitantes”. E possível que um autor colocasse em versículos consecutivos (ISm 12.12,13) dois pontos de vista diferentes. Os dois eram verdadeiros!

Tanto Js 10.13 quanto 2Sm 1.18 se referem ao Livro de Jasar, e lRs 8.12,13 talvez tenha vindo da mesma fonte. Alguns estudiosos tentam identificá-lo com o “Livro das Guerras do Senhor” de Nm 21.14, mas a sua extensão e escopo são conjecturas. Primeiro Reis 11.41 menciona os “registros históricos de Salomão”, lRs 14.19; 15.31 e uma dezena de outros versículos mencionam os “registros históricos dos reis de Israel”, enquanto lRs 15.7 e outra dezena de versículos mencionam os “registros históricos dos reis de Judá”. Eles eram ou os registros oficiais ou um resumo deles. Não devem ser confundidos com os livros bíblicos de 1 e 2Crônicas.

A maior parte do material incluído a respeito de Salomão fala dele de modo favorável, mas há críticas a ele embutidas em lRs 9, e elas tornam-se explícitas no cap. 11. Se não tivesse havido nada digno de crítica, o reino não teria se dividido em dois logo após a morte de Salomão.

Ao descrever os 200 anos que seguiram, 1 e 2Reis dedicam mais espaço às atividades do Reino do Norte, de Israel, inclusive as dos profetas Elias e Eliseu, do que aos reis de Judá, os descendentes de Salomão que continuaram a reinar em Jerusalém. Todos os reis do Norte fizeram “o que era mal aos olhos do SENHOR”, e o resultado, de acordo com 2Rs 17, foi o exílio de Israel, o Reino do Norte. Entre os critérios mais importantes na avaliação dos reis, estava o de eles permitirem ou não a adoração proibida em Dt 12.2-6. O lugar que o Senhor escolhera como “sua habitação” era, aos olhos dos que apoiaram a reforma de Josias, claramente Jerusalém. Assim, a condenação dos que estabeleceram ou apoiaram lugares alternativos de adoração era praticamente inevitável, mas a imoralidade associada à adoração era mais um motivo de advertência. Os fatos registrados foram cuidadosamente escolhidos. Onri, que não somente fundou uma nova dinastia mas também a cidade de Samaria, é descartado em oito versículos, enquanto seu filho Acabe, em virtude do seu envolvimento com questões religiosas, é mencionado em oito capítulos consecutivos.

Dentre os reis de Judá, Asa e o seu filho Josafá são elogiados em lRs 15.11 e 22.43, enquanto em 2Reis Joás (12.2), Amazias (14.3), Azarias ou Uzias (15.3) e Jotão (15.34) fizeram “o que era certo”, mas são criticados por permitirem sacrifícios em outros lugares que não o templo em Jerusalém. Somente Ezequias (18.3) e Josias (22.2) recebem a aprovação completa em relação a isso.

A extensão do reinado de cada rei é dada e relacionada ao ano do reinado do seu contemporâneo no Norte ou no Sul. Para encaixar esses reinados com eventos conhecidos nos registros assírios, é necessário admitir que alguns reis reivindicaram como período do seu reinado alguns anos incluídos também no reinado dos seus predecessores. Edwin R. Thiele faz um exame detalhado desse problema em The Mysterious Numbers of the Hebrew Kings [Os números misteriosos dos reis hebreus], e suas conclusões são adotadas tanto no NBD quanto no comentário de Peake (p. 71-2, 1962). As datas apresentadas nos quadros cronológicos no final da História de Israel de John Bright são oito ou nove anos posteriores entre Jeroboão I e Zinri, e sete anos posteriores desde Jeroboão II até a ascensão de Menaém. Os dados de Bright não se encaixam tão facilmente com os dados bíblicos como os de Thiele, mas têm a vantagem de serem lembrados com mais facilidade. As datas-chave no seu sistema são a ascensão de Davi em 1000 a.C., a de Salomão em 961, e a duração do Reino do Norte de 922 a 722 a.C. Há concordância completa em relação a outras datas-chave, como o ano de 701 a.C. para a invasão de Senaqueribe (2Rs 18.13) e o de 597 a.C. para o exílio de Joaquim e o início do reino de Zedequias, o último rei de Judá (2Rs 24).

Tradições judaicas afirmam que Isaías e Jeremias escreveram cada um uma parte de 2Reis. A ideia talvez tenha surgido da semelhança entre 2Rs 18.13—20.19 e Is 36—39 e entre 24.28ss e Jr 52. Em cada um desses casos, parece que as informações históricas relevantes foram incluídas como um apêndice às palavras do profeta, mas não há evidência de que ele tenha sido responsável por fazer o registro. Segundo Crônicas 26.22 diz que Isaías escreveu os atos de Uzias do primeiro ao último, mas em 2Rs 15 somente o v. 5 contém informações acerca de Uzias que não são de natureza rotineira. 

Primeiro Crônicas 29.29 menciona os registros históricos de Samuel, os registros do profeta Natã e os registros do vidente Gade. Segundo Crônicas 9.29 acrescenta a história de Natã, a profecia de Aias e as visões de Ido, e 2Cr 12.15 acrescenta os registros de Semaías e de Ido, enquanto 2Cr 13.22 fala dos relatos do profeta Ido. Alguns estudiosos consideram que esses acréscimos nada mais são do que partes diferentes dos livros canônicos de Samuel e de Reis, mas, como o vidente Ido não é mencionado naqueles livros, parece preferível aceitar que existiu outro material já não mais disponível. Essas referências não necessariamente significam que os profetas mencionados na realidade eram os que escreviam as profecias, mas, visto que cada parte de Samuel e de Reis fala da atividade de Javé, é fácil entender por que os judeus falam dos seus livros históricos como dos “Profetas Anteriores”.

O incidente final da história deuteronomista (2Rs 25.27ss) transmite uma mensagem de esperança. Joaquim, que reinou somente três meses em Jerusalém e depois passou 36 anos como prisioneiro, é liberto e recebe um lugar de honra entre outros reis na Babilônia. A humilhação fora seguida de exaltação. Logo outros seriam libertos com alegria e conduzidos em paz.

A história é expandida pelo “cronista” cuja publicação de 1 e 2Crônicas, Esdras e Neemias é geralmente datada de alguma época do século IV a.C. Ele inicia a sua obra com um sumário dos eventos desde 1000 a.C., em grande parte na forma de genealogias. As informações dadas no seu primeiro capítulo são tiradas de Gn 5, 10, 11, 25 e 36. O cap. 2 resume informações de Gn 35, 38, 46, Nm 26 e Rt 4 e acrescenta nomes que não são conhecidos em nenhuma outra fonte. Os filhos de Davi alistados no capítulo incluem aqueles mencionados em 2Sm 3, 5 e 12 e outros também mencionados em lCr 14.4ss. Os descendentes de Salomão são traçados até pelo menos seis gerações depois de Zorobabel, e tanto a RSV quanto a NEB seguem o texto grego no v. 21, o que dá o total de 11 gerações, e nos levaria ao século III a.C. Não podemos omitir a possibilidade de que a lista foi ampliada para que fosse atualizada em alguma época depois que foi publicada a obra principal.

Segundo Crônicas 36.21 fala da confiança expressa em Jr 25.12 e 29.10 de que após os “setenta anos” os exilados teriam permissão para retomar. Dn 9.2 e Zc 1.12; 7.5 também mencionam essas profecias, mas para o cronista o seu cumprimento estava na proclamação que Ciro, rei da Pérsia, fez em 538 а.C. Segundo Crônicas conclui com ela, Esdras começa com ela, e uma versão um pouco mais detalhada é citada em Ed 5.13ss, e o decreto completo está escrito em aramaico em Ed 6.3-5. O Cilindro de Ciro, uma inscrição da época, mostra que os judeus não foram os únicos a se beneficiarem dessa política iluminada.

Esdras registra o lançamento dos alicerces do templo (c. 536), mas, como mostra б.15, a construção só seria concluída 20 anos depois. O encorajamento de Ageu e Zacarias, mencionado em Ed 5.1,2, é plenamente confirmado pelos livros que levam o nome desses profetas.

O cronista tinha uma afeição muito grande pelo templo, e o fato de que os levitas são mencionados 160 vezes nos seus escritos contra apenas três ocorrências em Samuel e Reis, e de que os cantores também recebem mais menção nos seus livros do que em qualquer outro lugar, sugere fortemente que ele mesmo era levita e cantor. As genealogias dos levitas preenchem 81 versículos de lCr 6 e ocupam a maior parte dos caps. 23-26. A tradição judaica identificou Esdras como o cronista, mas a maioria dos comentaristas modernos rejeita isso. Mas as palavras de Esdras foram preservadas em Ed 7.27—9.15, e as palavras de Neemias, em Ne 1.1—7.15; 13.6-31.

A data da viagem de Neemias a Jerusalém é indubitavelmente 445 a.C., mas há três datas possíveis para a chegada de Esdras. Numa preleção da série Tyndale em 1958, J. Stafford Wright defendeu com afinco a data tradicional, 458 a.C., o sétimo ano de Artaxerxes I, contra aqueles que achavam que deveria ser 398 a.C., o sétimo ano de Artaxerxes II. Em sua História de Israel John Bright mostra que, se em Ed 7.7,8 pudéssemos ler “o trigésimo sétimo ano”, i.e., 428 a.C., as dificuldades associadas a cada um dos outros pontos de vista estariam resolvidas. Essa é uma solução atraente, mas significa pressupor que em cada um dos versículos havia originariamente três palavras consecutivas, cada uma começando com a letra hebraica shin, tendo a primeira caído fora.

Independentemente da data que for aceita, as palavras “depois dessas coisas” indicam um intervalo de pelo menos duas gerações e, possivelmente, três ou quatro. Seria útil ter a indicação desse intervalo em versões impressas do livro.

Na Bíblia hebraica, os escritos do cronista normalmente estão no final, e Esdras-Neemias está situado antes de 1 e 2Crônicas. Isso sugere que a parte da sua obra que cobria o período pós-exílico foi a primeira a ser aceita como digna de um lugar entre as Escrituras Sagradas, e depois o valor do restante dos seus escritos foi reconhecido. A tradução grega que nos foi preservada nos apócrifos com o título de lEsdras confirma que 2Cr 36.21 foi originariamente seguido de Ed 1. Se uma pessoa lê Ed 1.1-4 em voz alta enquanto outras observam 2Cr 36.22,23, fica claro que 2Cr 36, o último capítulo da Bíblia hebraica, termina no meio de uma frase. As palavras “e que o SENHOR, O seu Deus, esteja com ele” são boas para concluir um texto, mas o fato de que a frase pode ser continuada é um lembrete da presença e da atividade contínuas de Deus.

Há somente dois livros do AT que levam o nome de mulheres. O livro de Rute conta uma história situada “na época dos juízes”, mas aqueles dias e seus costumes (e.g., Rt 4.7) passaram antes que o livro fosse escrito. Uma mudança semelhante ao longo do tempo é indicada em ISm 9.9, e há uma série de paralelos entre o livro de Rute e o livro de Juízes que o precede em todas as Bíblias, a não ser na Bíblia hebraica. Mesmo assim, o fato de o livro de Rute estar entre os Escritos e não entre os Profetas Anteriores levou muitos estudiosos a sugerir que a publicação mais provavelmente ocorreu na época do cronista, e não no tempo dos outros historiadores. Alguns sugerem que o livro tinha como propósito ser um panfleto acerca das relações entre as raças ou um protesto contra a exclusão de mulheres estrangeiras da comunidade judaica recomendada em Ed 10.44 e Ne 10.30. Não importa quando ou por que a história foi escrita, ela continua digna de ser lida, e sua heroína tem menção merecida e justificada na genealogia do Messias no NT (Mt 1.5; cf. Rt 4.18-22).

O livro de Ester na maioria das Bíblias segue o de Neemias, mas Assuero, o rei persa mencionado em todo o livro, deve ser identificado com Xerxes, que precedeu o Artaxerxes ao qual Neemias serviu. A versão grega de Ester que é traduzida na sua totalidade nos apócrifos da NEB confunde os dois. Entre o seu terceiro (1.3) e sétimo (2.16) anos, Xerxes estava fora combatendo os gregos. O clímax da história ocorre no seu décimo segundo ano (3.7), i.e., 475/4 a.C.

A versão hebraica de Ester não menciona Deus nem prática religiosa alguma, a não ser o jejum, ao passo que a versão grega menciona repetidas vezes a oração. Uma nota de rodapé grega (Et 11.1 nos apócrifos) menciona a tradução da “carta anterior do Purim” por Lisímaco sendo trazida do Egito em 114 a. C. Não sabemos quanto tempo antes disso a história canônica foi escrita em hebraico. L. E. Browne, no Comentário Peake (1962), faz menção crítica a ela como um “romance sem base histórica alguma”. A maioria dos seus argumentos estão baseados no silêncio, e em contraste com isso Joyce Baldwin (NBCR, 1970) faz uma lista de cinco fontes de informação acerca de questões persas durante o século V a.C. e conclui que o autor sabia o tanto que nós sabemos “e talvez um pouco mais a respeito do rei, da cidade e da situação acerca da qual estava escrevendo”. Tentativas de identificar Mardoqueu com Marduk e Ester com Ishtar foram abandonadas pela maioria dos estudiosos. Os nomes podem até ser explicados dessa forma, mas as personagens são seres humanos, e não deuses pagãos.

O livro de Ester não é citado no NT, mas é lido regularmente nas sinagogas judaicas na festa de Purim em fevereiro ou março de cada ano. As crianças são ensinadas a mostrar o seu desprezo por Hamã cada vez que o nome dele é mencionado. Os que aceitam os ensinos de Cristo provavelmente vão censurar o pedido de Ester por mais um dia de execuções (9.13), mas não podem deixar de admirar a coragem dela e a forma em que a história é contada.

Muitos dos nossos vizinhos devem achar estranho que encontremos ajuda e encorajamento na leitura de livros primeiramente publicados há mais de 2 mil anos, mas esses livros foram escritos para a nossa instrução (Rm 15.4) e podem ajudar-nos a entender um pouco melhor os caminhos de Deus e a servi-lo de forma mais eficiente.

BIBLIOGRAFIA

Ackroyd, P. R. Exile and Restoration. SCM, 1968. Anderson, G. W. The Historical Books of the OT.
In: Peake's Commentary on the Bible. Nelson, 1962. Anderson, G. W. A Critical Introduction to the OT. Duckworth, 1959.
Bright, J. History of Israel. 2. ed. SCM, 1972 [Histó¬ria deIsrael, Editora Paulus, 2004]. Clements, R. E. Isaiah and the Deliverance of Jerusalem. Sheffield, 1980.
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Wright, J. S. The Date ofEzra’s Comingto Jerusalem. Tyndale Press, 1958.
Young, E. J. An Introduction to the OT. Tyndale Press, 1964.
V. tb. artigos relevantes em IB, ICC, NBC, 3. ed., NBD [O novo dicionário da Bíblia, 2. ed., Edições Vida Nova, 1995] e OTL.

FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.