4 de fevereiro de 2015

Gleason L. Archer - Introdução à Poesia Hebraica

Muitos críticos do século dezenove supuseram que os hebreus
fossem incapazes de cultivar a poesia de culto lírica ou didática
antes duma data bem avançada, e mesmo assim, só sob a influên-
cia dos seus vizinhos com mais cultura. Os representantes da es-
cola racionalista sentiam plena confiança não somente em negar
a autoria davídica de todo e qualquer Salmo, mas até em negar
que qualquer Salmo tivesse sido escrito antes do Exílio na Babilô-
nia. Não hesitaram em atribuir um número substancial deles ao
período dos Macabeus (cerca de 160 a.C.). O mesmo se diz também
dos demais Livros poéticos; Jó, Provérbios, Eclesiastes e Cantares
foram todos considerados como sendo obras indubitavelmente pós-
exílicas.

No século vinte, tem havido uma tendência de modificar este
ponto de vista, concedendo que pelo menos algumas das compo-
sições hebraicas remontassem até um período bem recuado, espe-
cialmente na sua forma oral. A descoberta de números considerá-

veis de hinos acadianos e egípcios comprovou de maneira clara a
antiga aplicação deste gênero literário pelos vizinhos de Israel, já
no segundo milênio a.C. Mais recentemente, estas informações têm
sido suplementadas pela poesia ugarítica composta numa língua
muito semelhante ao Hebraico, datando do século quinze a.C. A
maioria dos críticos modernos, portanto, hoje em dia concederia
a possibilidade de elementos antigos, remontando até a época de
Davi ou ainda antes, ter entrado nestes Livros, embora a produção
final não tivesse sido registrada por escrito até a época final da
monarquia, ou o período pós-exílico. A quantidade sempre maior
de poesia religiosa ou didática descoberta em quase todas as cultu-
ras com as quais Israel tinha contato antes do Exílio torna a tese 
pós-exílica da composição destes Livros sempre menos sustentável.
De fato, podemos dizer que estas produções não-israelitas de poesia
semítica não força a conclusão de que até os hebreus devem ter
registrado suas poesias por escrito, a não ser que fossem cultural-
mente atrasados de maneira marcante, comparados com seus vi-
zinhos.

As Características da Poesia Hebraica

A característica mais notável da poesia hebraica é seu para-
lelismo. Esta expressão refere-se á prática de contrabalançar um
pensamento ou frase por outro que contenha aproximadamente o
mesmo número de palavras, ou, pelo menos, uma correspondência
de idéias. Em tempos modernos, o primeiro tratamento sistemático
a ser feito do paralelismo hebraico foi levado a efeito pelo Bispo
Robert Lowth na sua obra De Sacra Poesi Hebraeorum Praelectiones
Academiae (Preleções sobre a Poesia Sacra dos Hebreus), publicada
em 1753. Na obra, definiu os três tipos básicos de parallelismus
membrorum como sendo sinônimo, antitético e sintético. Autores
mais recentes, tais como S. R. Driver, acrescentaram um quarto
tipo, o climático. Podemos ilustrar estes vários tipos através dos
seguintes exemplos:

Paralelismo Sinônimo
Idêntico

Salmo 24:1:
“Ao SENHOR pertence a terra e tudo que nela se con-
tém, o mundo e os que nele habitam”.

Semelhante

Salmo 19:2:
“Um dia discursa a outro dia,
e uma noite revela conhecimento a outra noite”.

Paralelismo Antitético

Salmo 1:6:
“Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,
mas o caminho dos ímpios perecerá”. 

Paralelismo Sintético ou Construtivo

Tipo de completação (que é um paralelismo mais do ritmo do
que do sentido)

Salmo 2:6
“Eu, porém, constitui o meu Rei
sobre o meu santo monte Sião”.

Tipo de comparação

Provérbios 15:17:
“Melhor é um prato de hortaliças, onde há amor,
do que o boi cevado e com ele o ódio”.

Tipo de raciocínio

Provérbios 26:4:
“Não respondas ao insensato segundo a sua estultícia,
para que não te faças semelhante a ele”.

Paralelismo Climático

Salmo 29:1:
“Tributai ao SENHOR, filhos de Deus,
tributai ao SENHOR glória e força”.

(Observe-se que a primeira linha sozinha está incompleta, e
que a segunda linha repete algumas das suas palavras para então
completar o pensamento).

Paralelismo Emblemático

(No paralelismo emblemático, a segunda linha dá uma ilus-
tração figurativa, mas o faz sem quaisquer palavras de contraste,
simplesmente ao colocar as duas idéias em justaposição. Em tal
caso, a primeira linha serve como emblema para ilustrar a se-
gunda) .

Provérbios 25:25:
“Água fria para o sedento,
e boas novas vindas dum país remoto” (tradução literal). 
Ou, sem conjunção,

Provérbios 11:22:
“Jóia de ouro em focinho de porco —
mulher formosa que não tem discrição” (tradução literal).

Outros tipos de paralelismo existem, e têm sido debatidos por
certas autoridades, mas os que foram demonstrados acima são os
que representam os tipos realmente significativos. Um paralelismo
quiástico é um subtipo do paralelismo sinônimo, mas, ao invés de
citar as idéias paralelas na mesma ordem (a-b, a^b1) apresenta-se
a ordem oposta (a-b, b^a1), assim como aparece em SI 51:1. Unger
(IGOT 365) descreve o paralelismo tipo escadaria pelo qual a se-
gunda linha repete e leva mais adiante uma parte da primeira,
como se vê em SI 139:5-7; mas isto é muito semelhante ao parale-
lismo climático. Um tratamento completo e adequado do parale-
lismo hebraico se acha em Forms of Hebrew Poetry — “Formas de
Poesia Hebraica” (1915) por G. B. Gray.

A Questão do Ritmo

Uma questão que tem sido consideravelmente debatida no que
diz respeito à poesia hebraica no Antigo Testamento é a do padrão
rítmico. Freqüentemente se pode observar uma certa cadência nos
versos hebraicos. Por exemplo, no Salmo 23 há um padrão 2:2 nos
primeiros versículos; isto quer dizer que cada metade do versículo
é caracterizada por duas acentuações fortes. Às vezes, podemos até
descobrir um grupo de versículos que demonstram uma certa uni-
formidade no número de sílabas não acentuadas que aparecem entre
as sílabas acentuadas.

Muitos críticos do século dezenove e do começo do século vinte
procederam da suposição que, na sua forma pura e original, cada
um destes textos poéticos do Antigo Testamento deve ter se con-
formado a um padrão sistemático e previsível. Mesmo em tempos
antigos, autoridades como Josefo, influenciadas pelas teorias gre-
gas da poesia, procuraram classificar passagens como Êxodo 15:1-8
e Deuteronômio 32:1-43 como sendo um tipo de hexâmetro (poesia
com linhas de seis dáctilos cada). Aderentes modernos a tais teorias,
táis como Hoelscher, procuraram descobrir uma base iâmbica (bre*
ve־longo, breve-longo). Julius Ley pensou poder achar sinais dum
metro anapéstico 3:2 (pelo qual cada dáctilo tinha sílabas dispostas
em breve-breve-longa). Budde deu a este tipo de poesia o nome de
 “metro de Qinah” (lamentação). Eduard Sievers (1901) procurou
estabelecer a existência dum ritmo 4/4 como base na poesia he-
braica, na qual unia sílaba longa ou acentuada contaria como dois
tempos, assim como acontece na poesia grega. Catalogou a se-
qüência de acentos em 2:2, 3:3, 4:4, 4:3, 3:4, 2:2:2, etc. Urna vez
determinado o padrão dominante métrico de cada passagem espe-
cífica, estes teoristas acreditavam que pudessem emendar o texto
hebraico tradicional quando não se conformava com um ritmo ideal.
Muitos dos comentários liberais dos Livros Poéticos (e especial-
mente dos Salmos), estão repletos de tais emendas conjecturais ba-
seadas na tentativa de emendar o texto tradicional para confor-
má-lo ao seu padrão métrico. Os próprios textos, segundo chega-
ram até nós, muitas vezes não seguem qualquer padrão métrico
consistente ou regular, e por isto os críticos os emendaram — às
vezes drasticamente. Em certos casos este processo de emendas foi
levado adiante a tal ponto que os críticos se sentiam com liberdade
de reorganizar versículos inteiros, ou grupos de versículos, para
conformá-los a algum padrão poético imaginado. (O padrão estró-
fico implica numa divisão em estrofes de tal maneira que a estrofe
posterior se corresponde em ritmo e em número de dáctilos com a
estrofe anterior). Só em circunstâncias muito excepcionais é que
se pode distinguir estrofes identificáveis no texto tradicional dos
Livros Poéticos.

Com a descoberta e a avaliação das Placas de Ras Shamra, a
falsidade deste ponto de vista métrico tem sido revelada. A poesia
ugarítica é da máxima relevância, porque 1) foi escrita num diale-
to cananita que se relaciona estreitamente com o Hebraico; 2) con-
tém muitos clichês poéticos e expressões que ocorrem nos Salmos
hebraicos; 3) remonta até à época de Moisés, sendo, portanto, con-
temporánea da poesia do próprio Moisés (conservada em Êxodo 15;
Deuteronômio 32 e 33; Salmo 90). Certamente, pois, se a poesia
hebraica original observasse metrificação, as mesmas formas se
operariam nos versos cananitas de Ras Shamra.

G. D. Young, no seu artigo sobre a métrica semítica e a evi-
dência ugarítica (The Bible Today — “A Bíblia Hoje”, fev. 1949.
págs. 150-155), informa sobre os resultados dum estudo completo
da poesia ugarítica sob todas as classificações e categorias conhe-
cidas à ciência métrica. Define como possíveis manifestações de
metro: 1) uma série de linhas métricas (a aparência dum padrão
uniforme de unidades de versos); 2) o número de acentos por linha 
métrica; 3) a consistência do padrão estrófico. Depois de classificar
os resultados, e depois dum estudo cuidadoso dos cinqüenta ou mais
casos de narrativas paralelas e de declarações repetidas na poesia
ugarítica, chegou à seguinte conclusão: “Em nenhum destes níveis
se pode demonstrar qualquer padrão métrico definível na poesia de
Ugarite. A repetição que se requer na expressão poética não é acen-
tual ou silábica neste caso, mas simplesmente uma muito bela re-
petição de idéias em forma paralela... A idéia que se pode achar
metrificação nesta poesia, é, segundo sentimos, uma ilusão que
surgiu dos fatos observáveis do paralelismo e da morfologia semítica.

Um tipo de poesia, da qual um aspecto marcante é o paralelismo de
pensamentos, sendo forçosamente acompanhado por linhas que têm
aproximadamente o mesmo comprimento, uma poesia escrita numa
língua na qual quase qualquer cláusula pode ser exprimida em
duas ou três palavras, é uma poesia que naturalmente se presta,
para criar a impressão de linhas de igual comprimento métrico...
Os fatos, porém, demonstram uma total falta de padrão em qual-
quer um dos níveis estudados”. Esta falta básica de metrificação
já tinha sido reconhecida há muito tempo por Franz Delitzsch
(Commentary on Psalms, “Comentários dos Salmos”, p. 28): “A
poesia hebraica antiga não tem nem rima nem metro; nenhum dos
dois foi adotado na poesia hebraica até o sétimo século depois de
Cristo”.

A literatura de Sabedoria

A assim-chamada literatura de hokhmah (hokhmah é a palavra
hebraica que significa “sabedoria”) era extensivamente cultivada
entre todos os povos antigos do Oriente Próximo. A coletânea An-
cient Near Eastem Texts — “Textos Antigos do Oriente Próximo”,
de Pritchard, contém traduções de exemplos egípcios dos mais des-
tacados, tais como: “As Instruções de Ptah-hotep”, “As Instruções
para o Rei Mer-ka-Re”, “As Instruções para o Rei Amen-em-het”,
“As Instruções do Príncipe Hor-dedef”, “As Instruções de Ani”, e
“As Instruções de Amen-em-Opet”. Há também coletâneas e pro-
vérbios e conselhos de sabedoria acadianos, que foram descobertos,
e a literatura aramaica, “As Palavras de Ahiqar”.

É comparando-se com o pano de fundo deste gênero largamente
disseminado entre os vizinhos de Israel, que se pode entender melhor
a Literatura Sapiencial dos próprios hebreus. O que representa mais
caracteristicamente a hokhmah semítica é a maneira perspicaz de 
observar as leis do comportamento humano e as regras para se
obter sucesso na vida social, comercial e política. Em geral, pode
ser dito que a “sabedoria” que interessava os antigos sábios era de
natureza prática mais do que teórica. Assim como os sophoi (“sá-
bios”) da antiga cultura grega, o hãkhãm hebreu era geralmente
uma pessoa que sabia fazer bem aquilo que outras pessoas faziam
de maneira medíocre ou até de maneira nenhuma. Derivando-se
desta maneira de aplicá-la, a palavra veio a significar a arte de con-
viver com sucesso, tanto com Deus, como com homens. Neste sen-
tido anterior, o artífice Bezaleel veio a ser chamado hãkhãm em
Êxodo 31:3. Como aspecto necessário incluía também a lei moral
que governa as relações humanas e as relações com Deus, e que
determina o grau de sucesso que uma pessoa pode atingir. Con-
forme ressalta Driver (ILOT 392, 393), a qualidade de hokhmah
era imputada especialmente às pessoas que soubessem descobrir a
resposta certa em momentos críticos. Assim é que José foi cha-
mado hãkhãm por causa da sua capacidade de interpretar o sonho
de Faraó (Gn 41:39). O mesmo se pode dizer da mulher sábia de
Tecoa que conseguiu efetuar a reconciliação entre Davi e seu filho
Absalão, II Sm 14; assim também foi o caso de Salomão no seu
estratagema de decidir entre duas mulheres, cada uma das quais
alegava ser a verdadeira mãe dum nenê acerca do qual tinham
litígio (I Reis 3).

Parece ter havido, na realidade, uma classe ou escola proemi-
nente de sábios na sociedade hebraica antiga, e, segundo a descri-
ção de Driver, “... aplicavam-se mais à observação do caráter hu-
mano em si, procurando analisar a conduta, estudando as conse-
qüências das ações, e estabelecendo a moralidade na base de prin-
cípios comuns à raça humana em geral”. Na sua forma mais alta,
a hokhmah hebraica procurava pesquisar a essência da verdade di-
vina, para entender as idéias gerais que deram à fé israelita as
dimensões que a tornavam capaz de se transformar em religião
mundial. A partir desta perspectiva, todos os fenômenos naturais e
morais e todas as experiências eram assunto de reflexão, a fim de
compreender mais perfeitamente os alicerces finais da vida e os
princípios pelos quais ela é governada. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.