27 de fevereiro de 2015

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Cantares de Salomão

CANTARES DE SALOMÃO

O título hebraico deste Livro é Shír hash-shírím, i.é., “Cântico
de cânticos”, ou “O melhor dos cânticos”. A LXX traduziu literalmente asma asmatõn, e a Vulgata Canticum Canticorum, sendo que ambas estas expressões significam “cântico dos cânticos”. Do termo latino é que se deriva o título do livro.
O tema de Cantares é o amor de Salomão por sua noiva sulamita, e da profunda afeição dela por ele. Este amor é entendido como uma tipificação do caloroso relacionamento pessoal que Deus deseja ter com sua noiva espiritual, composta de todos os crentes redimidos que deram seu coração a Ele. Da perspectiva cristã, isto indica o compromisso mútuo entre Cristo e Sua Igreja, e a plenitude que deve haver entre ambos os lados.

Esboço de Cantares de Salomão


Um esboço simples e adequado tem sido oferecido por Delitzsch,
que divide o Livro em seis atos:

I. A Afeição Mútua dos Amantes, 1:2 — 2:7
II. A Mútua Busca e Descoberta dos Amantes, 2:8 — 3:5
III. A Noiva é Trazida; o Casamento, 3:6 — 5:1
IV. Amor Desprezado, mas Conquistado de Novo, 5:2 — 6:9
V. A Sulamita, Princesa Atraentemente Bela, mas Humilde,
6:10 — 8:4
VI. Ratificação da Aliança de Amor no Lar dela, 8:5-14.


Autoria e Data de Composição de Cantares de Salomão

Os primeiros versículos do livro atribuem a autoria ao rei Salomão, com a fórmula “que é de Salomão” (asher li-Shelomoh).
Alguns estudiosos interpretaram esta frase como sendo uma fórmula de dedicação e não como sendo uma atribuição de autoria
(essencialmente o mesmo debate levantado por le-Dãwíd nos títulos dos Salmos), mas deve ser entendido que esta preposição le, “a, para, de” é a única maneira de exprimir posse ou autoría em
Hebraico, quando o mesmo autor pode ter composto várias obras.

Tem sido a tradição uniforme da igreja cristã, até os tempos modernos, que Cantares é uma produção genuína de Salomão. Até
em tempos mais recentes, Delitzsch, Raven, Steinmueller e Young
têm mostrado pouca hesitação em atribuir a autoria de Cantares
a Salomão.

Isto é tanto mais digno de nota, quando se considera o que já
indicamos, que há uma considerável semelhança de vocabulário e
sintaxe entre Cantares e Eclesiastes (cuja autoria salomónica todos
os supra citados têm negado). Os estudiosos liberais usualmente
classificam juntas as duas obras como sendo representativas do
mesmo período de literatura hebraica. Certamente este relacionamento é favorecido pelos dicionários hebraicos que são tomados
como padrão, que agrupam as duas obras quanto ao assunto de vocabulário. É notável que nenhum dos dois dá a Deus o nome Yahweh; este título não aparece nem num, nem noutro. Há um número significante de palavras que só pertencem a estes dois Livros, quanto às Escrituras Hebraicas. Parece, portanto, que há uma
inconsistência básica em se negar a autenticidade de Eclesiastes
por motivos de lingüística, enquanto a afirmam no caso de Cantares apesar dos fatores lingüísticos. Os estudiosos liberais consistentemente negam a autoria salomónica de Cantares, atribuindo
a composição do livro a uma época consideravelmente depois do
décimo século a.C. Moderados como W. R. Smith e S. R. Driver
favoreceram uma data pré-exílica, isto é, antes de 600 a.C.; radicais tais como Kuenem, Cornill, Cheyne, Budde, Kautsch e Eissfeldt confiantemente colocam-no no período pós-exílico ou até no
período helenístico.

O caso em prol da composição em data avançada depende prin-
cipalmente de argumentos lingüísticos. Os seguintes fenômenos
são os mais ressaltados:

1. A prevalência de she- ao invés de asher como pronome relativo. Mas, conforme já vimos na discussão sobre Eclesiastes, o
relativo she- não é, de si mesmo, uma prova de autoria em data
avançada. Um cognato do relativo acadiano sha, que remonta até
ao terceiro milênio, aparece no Cântico de Débora (Juizes 5), e em
outras partes de Juizes; também em Jó 19:29; II Reis 6:11; uma
vez em Joñas; em Lamentações e em vários Salmos. Parece ter sido um substituto muito aceitável, no estilo poético hebraico, do relativo asher. Provavelmente foi uma característica dos dialetos de
Israel do norte. O uso abundante de she- no Hebraico posterior
pode simplesmente refletir o uso comum na língua falada, e que o
Hebraico literário evitava até o período pós-exílico. Na época intertestamental, naturalmente, o uso freqüente da partícula aramaica
di tendia a encorajar os judeus, que naturalmente conheciam bem
o Aramaico como sua língua de conversa diária, a empregar she-
nas suas composições hebraicas.

2. A presença de vários aramaísmos como nãtar (cognato
do verbo Heb. nãsar “vigiar, guardar”), berõt (cognato do Hebraico berõsh, “cipreste”) e setãw (“inverno”) é considerada um indício
de autoria pós-exílica. Conforme já foi mencionado no capítulo 7
desta obra, porém, devem ter sido importados para a língua hebraica desde tempos antigos, ou talvez indiquem uma influência
do norte de Israel. (Nota-se que se a Sulamita era de Sunem,
conforme indica a transliteração da LXX, Sounamitis, então a
noiva pertencia ao território de Issacar, tribo do norte). Significativamente, até o Léxicon de Brown, Driver e Briggs define berõt como
palavra do norte da Palestina e não como aramaísmo.

3. Alega-se que o Livro contém duas palavras emprestadas
do Grego, ’appiryõn (3:9) = “palanquim” do Grego phoreion, e
pardês (4:13) = “pomar”, ou do Grego paradeisos ou do Persa
pairideça (Zenda pairizaèza) = “área cercada”. Mas, conforme já
foi indicado em conexão com Eclesiastes, tais palavras como estas
podem ter chegado a Salomão através de seus contatos comerciais
com a Índia, sendo que a palavra sanscrítica de “área cercada” é
parídhis (cf. o Assírio posterior pardísu, “parque, reserva”.)

Evidências Positivas da Autoria de Salomão

O autor demonstra um interesse marcante pela história natural, e isso corresponde aos relatórios acerca do conhecimento enciclopédico que Salomão tinha neste campo (I Reis 4:33). Assim,
a flora mencionada em Cantares inclui vinte e uma espécies de
plantas (tais como as flores de hena em 1:14; a rosa de Sarom, o
lírio do vale em 2:1; macieiras, romãzeiras, alçafrão, cálamo, canela,
mandrágoras). Entre a fauna, há nada menos do que quinze espécies (cervos, gazelas, pombas, cabritos, ovelhas etc.). Menciona-se também com destaque a cavalaria de Faraó em 1:9, que condiz com a declaração em I Reis 10:28, onde a cavalaria aparece como item importante no exército de Salomão e também no seu
comércio. O Livro demonstra muitas evidências de luxo real, e
da abundância de produtos caros importados, tais como o nardo de
1:12; a mirra de 1:13; o incenso de 3:6; palanquins de 3:9; pós
cosméticos, prata, ouro, púrpura, marfim e berilo.

As referências geográficas decididamente favorecem uma data
anterior a 930 a.C. O autor menciona de maneira indiscriminada localidades tanto do reino do norte como do reino do sul: Engedi,
Hermom, Carmelo, Líbano, Hesbom e Jerusalém. São mencionadas
como se pertencessem a uma única área política. Nota-se que Tirza
é mencionada como sendo uma cidade de especial glória e beleza,
e isto juntamente com Jerusalém (6:4). Se estas palavras tivessem
sido escritas depois de Tirza ter sido escolhida como primeira capital do norte depois de ter sido rejeitada a autoridade da dinastia
davídica, é difícil crer que teria sido citada em termos tão favoráveis. Do outro lado, é altamente significativo que Samaria, cidade
fundada por Onri, algum tempo entre 885 e 874, não tenha rece-
bido nenhuma citação em Cantares.

A julgar da evidência interna, o autor nada sabia duma separação da monarquia hebraica em reino do norte e reino do sul. Isto
se reconcilia facilmente com uma data de composição no décimo
século, antes de 931 a.C. Mesmo depois da volta do Cativeiro,
nenhum judeu da província da Judéia teria se referido de maneira
tão indiscriminada a localidades destacadas nas áreas não-judaicas
da Palestina que já estavam sob o domínio de gentios ou de samaritanos. É verdade que a área inteira foi reunida sob o reinado dos
reis hasmoneanos, João Hircano e Alexandre Janeu, mas a evidência dos fragmentos da quarta caverna de Cunrã indica que
Cantares já existia na sua forma final, escrita antes do começo da
revolta macabéia em 168 a.C. É interessante notar que mesmo um
estudioso liberal como R. Gordis sente que é justificável asseverar
que Cantares 3:6-11 é “a poesia mais antiga da coletânea inteira,
sendo composta na ocasião de um dos casamentos de Salomão com
uma princesa estrangeira” (JBL 63, 1944, págs. 262-270).

A Canonicidade de Cantares de Salomão

Já tem sido notado no Capítulo 5 que este Livro (juntamente
com Eclesiastes) foi alistado com os cinco Antilegomena, não por
ter sido negado que Salomão fosse seu autor, mas por causa de
se duvidar do seu valor religioso. O judeu de Alexandria, Filom, que fazia tantas citações do Antigo Testamento, não mencionou
Cantares em qualquer escrito seu hoje existente. Não parece haver
referência ao Livro no Novo Testamento. A primeira referência
identificável a ele se acha em IV Esdras 5:24-26; 7:26 (este livro foi
composto entre 70 e 130 d.C.), e em Ta’anith 4:8 (um tratado no
Misná), que declara que certas porções de Cânticos eram empregadas em festivais celebrados no templo, antes de 70 d.C. A questão
de ter sido certo o aceitar o livro no cânon foi calorosamente debatida no Concílio de Jâmnia em 90 d.C., mas a tradição da inspiração
divina foi defendida com sucesso pelo Rabino Aquiba, que empregou a interpretação alegórica para justificar seu valor espiritual.

Teorias de Interpretação de Cantares de Salomão

1. Interpretação Alegórica. Esta interpretação prevalecia
desde tempos antigos até o surto de métodos modernos de estudo.
Identificou Salomão com o Senhor (com Cristo, segundo os cristãos) e a Sulamita com Israel (ou com a Igreja). Segundo estes
expositores, a historicidade deste amor de Salomão é de importância mínima. Tendem a interpretar todos os detalhes de maneira
simbólica; assim, as oitenta concubinas de Salomão, segundo alguns, representam as oitenta heresias que haviam de afligir a
igreja. De maneira geral, até os conservadores do século XIX tendiam (com Hengstenberg e Keil) a apoiar a linha alegórica de interpretação (sem, é claro, apoiar identificações imaginativas) e
indicavam os aspectos alegóricos do Salmo 45 e Isaías 51:1-7 (definem-se a si mesmos como sendo alegóricos) para justificar seu ponto de vista. Não há dúvida que o relacionamento do casamento fosse
considerado pelos profetas como fornecendo uma analogia à posição
do Senhor para com Israel (cf. Is. 54:6; 61:10). Correspondentemente, consideravam a apostasia como sendo adultério ou fornicação espiritual (cf. Jr 3:1; Ez 16; 23; Os 1 - 3). Compare na Torá
Êx. 34:14-16, que chama a idolatria de prostituição; semelhantemente Lv 20:5,6.

Deve ser reconhecido que estas passagens estabelecem no mínimo um relacionamento típico entre o amor e casamento humanos,
e a relação entre Deus e Seu povo estabelecida pela Aliança. Mesmo
assim, o ponto de vista alegórico defronta-se com certas dificuldades, e uma delas é que o Livro parece falar dum episódio histórico
na vida de Salomão, e isto condiz com a situação deste rei, pelo
menos na primeira parte do seu reinado (a julgar do número comparativamente pequeno das suas concubinas). Além disto se o método alegórico for aplicado de maneira consistente, exige um
equivalente espiritual de cada detalhe físico. Certamente, há algo
objetável na idéia de equacionar Salomão e seu vasto harém com a
figura do Senhor Jesus Cristo, mesmo de forma alegórica.

2. A interpretação literal. Esta teoria literal considera o poema como um cântico secular de amor, sem se tratar duma mensagem espiritual com matizes teológicos; é uma expressão lírica de
amor humano num plano alto e romântico. Defensores desta teoria, tais como E. J. Young e H. H. Rowley, defendem a canonicidade do Livro, explicando que implica numa sanção divina do relacionamento do amor nupcial, em contraste com as perversões degeneradas ou polígamas do casamento que eram correntes na época de Salomão (cf. Rowley, Servant of the Lord and Other Essays — “Servo do Senhor e Outros Ensaios” — p. 233; Young IAT, p. 351).

Young continua, dizendo (idem, p. 351): “O olho da fé, enquanto
vê este quadro de amor humano exaltado, verá também aquele
único amor que está acima de todas as afeições terrestres e huma-
nas — a saber, o amor do Filho de Deus à humanidade perdida”.
Mesmo assim, deve ser reconhecido que, supondo que o amante
que aqui temos é Salomão, marido de 700 esposas e 300 concubinas
(I Reis 11:3), e difícil perceber como este poema, entendido como
mera expressão de amor humano, pode ser considerado um padrão
muito alto de devoção e afeição conjugal. O melhor que se pode
dizer é que foi a única experiência que Salomão tivera de romance
puro, e mesmo assim, pouca influência exerceu na sua conduta
subseqüente. (Franz Delitzsch propôs o ponto de vista de que
Cantares é um drama no qual o rei Salomão se apaixona por uma
moça sulamita, e depois de levá-la para seu harém em Jerusalém,
suas afeições passam por uma purificação, i.é., de concupiscência
para o amor puro. Zoeckler favoreceu essencialmente este ponto
de vista).

Esta teoria literal assume várias formas especializadas, das
quais as duas mais importantes são a Hipótese do Pastor e a Hipó-
tese Erótica. A Hipótese do Pastor introduz uma outra figura masculina, que não é o rei, mas sim, o noivo da Sulamita na sua cidade
natal de Sunem (assim Jacobi, Umbreit e Ewald). Por um método
arbitrário de atribuir as expressões de caloroso sentimento ao pastor, e os discursos mais formais ao rei, pode ser feita uma distinção, mesmo se isto signifique recortar o diálogo de maneira pouco natural. Assim, no capítulo 4, os versículos 1-7 são atribuídos a Salomão, e os versículos 8-15 ao pastor, apesar de não haver absolutamente nada no texto que indique uma mudança de pessoa.

Algumas passagens altamente inapropriadas para um amante bucólico são atribuídas ao pastor, tais como: “O meu amado desceu
ao seu jardim, aos canteiros de bálsamo, para pastorear nos jardins,
e para colher os lírios” (6:2). É pouco provável que os pastores
israelitas tivessem os meios, o tempo, ou a inclinação para luxos
tais como jardins de especiarias, ou o cultivo de lírios.

A hipótese erótica é defendida por estudiosos tais como Budde,
Eissfeldt, Pfeiffer e Dussaud, que entende Cantares como sendo
uma antologia de canções de amor do tipo wasf. Wasf ou “descri-
ção” era um tipo de canção cantada por hóspedes numa festa de
casamento sírio, na qual a beleza da noiva e as qualidades do
casal seriam descritas de maneira calorosa. Este costume vem sendo praticado no Oriente Próximo até na época moderna, segundo J. G. Wetstein. Não há, porém, qualquer indício literário da existência do gênero wasf em qualquer época na Palestina hebraica (fora do próprio Livro de Cantares), e a estrutura coesa de
toda poesia, certamente não apoia a teoria de ser ela uma antologia
de líricos originalmente independentes.

3. A interpretação típica. Em muitas maneiras, esta parece
ser a teoria mais satisfatória (embora Young a afaste com uma
única frase deprecatória — IAT, p. 350). Esta interpretação é
defendida por Raven e Unger, que entendem que o poema foi baseado num incidente realmente histórico na vida de Salomão. Em
contraste com algumas das esposas mais deslumbrantes de Salomão,
tais como a filha de Faraó, a Sulamita era uma moça do campo,
com uma alma bela além dum belo corpo. Através da sua sinceridade radiante e seus encantos pessoais, ensinou a Salomão, pelo
menos por um breve tempo, a entender o significado do verdadeiro
amor monógamo — um amor pelo qual de boa mente ele trocaria o esplendor corrupto da sua corte. 

Este cântico transfigura o amor
natural, elevando-o até um nível sagrado. Porém (e aqui há um
contraste com os literalistas) o autor pretende que este casal represente um relacionamento típico, refletindo o amor do Senhor
para Seu povo, sendo um prenúncio da afeição mútua de Cristo e
Sua Igreja. Segundo o ponto de vista típico, as linhas da analogia
não serão achadas em todos os detalhes subordinados (contrastando-se aqui o ponto de vista alegórico) mas só nas linhas gerais.

Apesar das suas falhas pessoais grandes, o rei Salomão é representado em outras partes das Escrituras (II Samuel 7:12-17; 23:1-7;
SI 72; cf. Mt 12:42) como sendo um tipo de Cristo como rei da dispensação milenar, sentado no trono de Davi. Compreendido assim,
Cantares é rico em matizes espirituais que têm oferecido consolação e encorajamento a estudantes devotos das Escrituras durante
todas as épocas da história da Igreja. Mesmo assim, requer uma
alma realmente madura para apreciar as belezas espirituais laten-
tes nesse Livro. Não é sem justificativa a existência da antiga regra
rabínica, que nenhum judeu deveria ler Cantares antes de ter atin-
gido a idade de trinta anos.

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.