21 de fevereiro de 2015

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Provérbios

PROVÉRBIOS

O título hebraico deste Livro é Mishelêy Shelõmõh — “Os Provérbios de Salomão”. O termo de “provérbio” é mãshãl, que vem duma raiz que significa “paralelo” ou “semelhante”, e significa “uma descrição comparativa”. O termo então se aplica à linguagem epigramática ou de tipo profético, tais como os oráculos de Balaão (Nm 23:7).

Esboço de Provérbios

I - Título e Propósito, 1:1-6


O objetivo do Livro é ser prático, sendo aplicável à edificação moral (w. 3-5) e à verdade intelectual (v. 6).

II - Quinze Lições de Sabedoria, 1:7 — 9:18

Um livro para admoestar a juventude. A forma que prevalece é a canção mãshãl extendida.
1. 1:7-19 6. 3:27-35 11. 6:12-19
2. 1:20-33 7. 4:1 —. 5:6 12. 6:20:35
3. 2:1-22 8. 5:7-23 13. 7:1-27
4. 3:1-18 9. 6:1-5 14. 8:1-36
5. 3:19-26 10. 6:6-11 15. 9:1-18

Não há uma coerência interna de todas estas canções, mas,
de certa forma, possuem uma unidade interna, com uma
multiformidade bem-arranjada.

Provérbios Adicionais de Salomão, 10:1 — 22:16

Uma série de aproximadamente 375 máximas curtas. Não são agrupadas conforme um plano compreensivo, excetuando-se seções que são vinculadas por características comuns.
Todos estes meshãlím são dísticos predominantemente antitéticos de natureza, embora haja também alguns paralelismos sinônimos (cf. 11:7, 25, 30; 12:14, 28; 14:19). Há vários que são sintéticos ou integrais, especialmente os com o mínimo de comparação (e.g. 12:9; 15:16,17; 16:8,19; 17:10,
etc.), ou com a frase ’aph kiy, “muito mais” (11:31; 15:11:
17:7; 19:7, etc.).

IV. Ditados dos Sábios, Primeira Série, 22:17 — 24:22

Esta seção inclui todos os tipos de mãshãl: dísticos (22:18;
23:9; 24:7,8,9,10), tetrásticos (22:22 e segs., 24 e segs., 26
e segs.; 23:10 e segs.; 23:15,17; 24:1 e segs., 3 e segs., etc.),
pentásticos (23:4 e segs.; 24:13 e segs.), e hexásticos (23:
1-3, 12-14, 19-21, 26-28; 24:11 e segs.).

Talvez o “sábios” refira-se aos que estão mencionados em I Rs 4-31.

V. Ditados dos Sábios, Segunda Série, 24:23-34.

Esta seção contém um hexástico (24:28 e segs.), uma ode mãshãl sobre o preguiçoso (24:30-34).

VI. Provérbios de Salomão, registrados pelo comité de Ezequias, 25:1 — 29:27.

Esta seção não segue qualquer plano perceptível, mas con-
tém algumas séries de provérbios relacionados (e.g. 26:1-12,
13-16, 20-22). Nos capítulos 25-27 o tipo prevalecente de pa-
ralelismo não é antitético, mas sim, parabólico (do tipo
“assim... também”, como em 26:1) e o emblemático (omitindo as partículas “assim... também”; cf. 25:4 e segs.).
Paralelismos antitéticos são mais freqüentes nos capítulos
28 e 29, mas há muitos do tipo comparativo ou figurativo.
É digno de nota que vários provérbios ou partes de provérbios são repetidos da seção III. Alguns são perfeitamente
idênticos (25:24 = 21:19; 26:22 = 18:8; 27:12 = 22:3; etc.),
enquanto outros têm significado idêntico embora com diferenças de fraseologia (26:13 = 22:13; 26:15 = 19:24;
28:6 = 19:1, etc.).

VII. Ditados de Agur, filho de Jaque, 30:1-33
Este capítulo contém um número excepcional do tipo middah (que significa “medida” ou “número previsto”) tais como os versículos 15-17: “Há três coisas que nunca se fartam, sim, quatro que não dizem, Basta, etc.”).

VIII. Ditados de Lemuel, 31:1-9

Advertência aos soberanos contra o uso de bebidas alcoólicas e uma exortação à integridade no juízo.

IX. A Esposa Perfeita, 31:10-31.

Os padrões de virtude e talentos pelos quais uma esposa piedosa pode aquilatar sua vida.


Termos Significando “Sabedoria” em Provérbios

O propósito dum livro de provérbios é instruir nos princípios de sabedoria. Há três termos principais representando a sabedoria que se empregam nesta obra inteira: hokhmah, bínah e tüshiyyah.

1. Hokhmah, “sabedoria”, o termo empregado mais freqüentemente, pertence não tanto ao campo de conhecimento teorético ou filosófico como a uma compreensão certeira dos assuntos básicos da vida e do relacionamento de Deus com o homem como agente moral. Este tipo de “sabedoria” inclui um correto discernimento entre o bem e o mal, entre o vício e a virtude, entre o dever e o fazer sua própria vontade. Inclui também a prudência em assuntos seculares, e capacidade de tratar de assuntos de negócios e de conviver com pessoas. Subentende a capacidade de aplicar consistentemente aquilo que sabemos àquilo que temos que fazer.

2. Bínah, “compreensão”, conota a capacidade de discernir inteligentemente entre o falso e o real, entre a verdade e o erro, entre as atrações vãs da hora e os valores de longo alcance que governam uma vida que é realmente um sucesso. A idéia que há na raiz deste termo acha-se na preposição relacioinada, bêyn, que significa “entre”; daí há sempre um fator analítico ou de julgamento envolvido, e a capacidade de distinguir entre o válido e o sem valor.

3. Tüshiyyah, ou “sabedoria sadia”, “sabedoria eficiente”, ou, por derivação, “sucesso permanente”. Este termo concebe a sabedoria como sendo uma introspecção, ou intuição, de verdades psicológicas ou espirituais. Focaliza a capacidade da mente humana, de levantar vôo lá debaixo para atingir a realidade divina, por assim dizer, diferentemente da sabedoria duma revelação profética que desce dos céus com visões sobrenaturais. Indica a atividade da mente do que crê, pela qual pode deduzir daquilo que Deus revelou, a maneira pela qual devem ser aplicados estes princípios às situações cotidianas (cf. Pv 3:21; 8:14; 18:1; e também no sentido de socorro ou livramento, Pv 2:7).
Deve ser notado que o tipo característico do provérbio ou mãshãl, neste Livro, é a antítese balançada que incisivamente contrasta o sábio e o néscio, o bom e o mal, valor real e falso, de tal maneira a demonstrar os dois lados da verdade na mais clara oposição um ao outro, e assim cumprir uma função didática incisiva.

A preocupação constante do Livro é com os antagonismos elementares; a obediência contra a rebelião, o trabalho contra a preguiça,

a prudência contra a presunção, e assim por diante. Estes são apresentados perante o leitor, que tem uma escolha bem definida, não sobrando nenhuma lacuna para o compromisso vil ou a vacilante indecisão.

Autoria e Data da Composição de Provérbios

1. As seguintes seções de Provérbios parecem ser atribuídas
a Salomão, filho de Davi: a) 1:1 — 9:18, segundo 1:1; b) 10:1 — 22:16, segundo 10:1; c) 25:1 — 29:27, segundo 25:1, embora fossem selecionados e publicados por um comitê nomeado pelo rei Eze-
quias (726-698 a.C.). Devemos lembrar que, segundo I Reis 4:32, a coletânea original dos Provérbios de Salomão tinha nada menos do que três mil provérbios. Sendo que o Livro canônico dos Provérbios contém apenas 800 versículos, é óbvio que os escritos originais de Salomão (seções I, II e III) continham bastante matéria para ser selecionada.

2. Duas seções são atribuídas aos “sábios” (hakhãmJm), que não são especificados detalhadamente, mas que sem dúvida pertenciam à mesma classe referida em I Reis 4:31. Há muitos motivos para se crer que pertenciam a uma data anterior ao próprio Salomão, e que este foi responsável por colecionar esta antologia (seções IV e V) sob sua própria redação.

3. Os ditados de Agur, filho de Jaque, são de origem incerta, sendo que não possuímos quaisquer informações quanto à situação histórica, geográfica ou até étnica de Jaque.

4. Os ditados do rei Lemuel são certamente de origem não israelita, mas é razoável supor que ele fosse um príncipe do norte da Arábia, possivelmente vivendo numa área não longe de Uz, que ainda conservava a fé no único Deus verdadeiro. Quanto a Provérbios 31:10-31, há dúvida se esta bela descrição duma esposa perfeita é atribuída ao rei Lemuel, ou a qualquer outro. O fato, porém, de ser composta como poesia acróstica ou alfabética de vinte e duas linhas demonstra que é uma composição separada, e sen estilo tem pouca semelhança aos primeiros nove versículos do capítulo 31.

Teorias Críticas quanto à Autoria e à Data de Provérbios

Utilizando como seu critério principal a teoria do desenvolvimento do pensamento hebraico, os críticos liberais tendiam a negar que uma grande parte, senão a totalidade da matéria que o texto atribui a Salomão, tenha pertencido ao período de Salomão. Assim, Driver, Nowack e A. B. Davidson consideravam que os capítulos 1— 9 tivessem sido compostos pouco antes do Exílio, cerca de três séculos e meio depois do reinado de Salomão. Assim, concedem que Salomão pudesse ter escrito algumas partes dos capítulos 10 — 22, que consideram o núcleo mais antigo do Livro, mas consideram que a coletânea chegou à sua presente forma no oitavo século a.C. A seção 22:17 — 24:34, segundo pensam, surgiu no período pós-exílico (supondo que fosse derivado da Sabedoria de Amenemope, que será considerado abaixo). Possivelmente os capítulos 25 — 29 foram compostos cerca da mesma época. Finalmente, os capítulos 30 e 31 foram acrescentados num período substancialmente mais tardío. Nesta conexão deve ser notado que alguns críticos conservadores moderados, tais como Genung (ISBE) colocou os capítulos 22 — 24 num período anterior ao dos capítulos 1 — 9. Mas não percebem nenhum motivo pela datagem da completação do Livro além do reinado de Ezequias. Mesmo os capítulos 30 e 31 podem ter sido acrescentados no mesmo período, sendo que sua origem estrangeira explicaría suficientemente bem as diferenças em linguagem e tom, comparadamente com o restante do Livro.

Críticos mais radicais como C. H. Toy, autor do Comentário ICC, de Provérbios (1899), chegam à conclusão de que nada em Provérbios data dum período anterior a 350 a.C., e que o material posterior foi contribuído durante o segundo século. Toy apoia seus argumentos com as seis seguintes considerações:

1. Sendo que Salomão, segundo a tradição judaica, foi considerado autor de Provérbios, Cantares (cf. I Reis 4:30-34), Eclesiastes e dois Salmos, é aparente que se tornara o padroeiro de toda a poesia filosófica e não-litúrgica, e símbolo de sabedoria (assim como Moisés, e.g. se tornara símbolo da Lei hebraica). Na passagem do tempo, tornou-se convencional atribuir composições deste tipo a Salomão, mesmo quando pertenciam a uma época posterior, para lhes garantir uma aceitação mais ampla entre o público judeu crédulo. Esta, certamente, deve ter sido a motivação de se atribuir o livro apócrifo, a Sabedoria de Salomão, que foi obviamente composto em Grego, ao antigo padrão da filosofia hebraica.

É perfeitamente claro, portanto, que, durante o período intertestamental, veio a ser moda compor obras didáticas ou apocalípticas que se atribuíam, pelo menos ostensivamente, a patriarcas antigos tais como Enoque ou os doze filhos de Jacó. Mas não há nenhuma boa evidência que tal procedimento fosse seguido em qualquer circunstância no Israel pré-helenístico. A principal questão a ser resolvida seria de como Salomão chegou a obter esta reputação de escritor de literatura sapiente e proverbial, se nunca compôs nada deste tipo? É muito mais lógico concluir que ganhou a reputação porque foi ele o primeiro a compor este tipo de literatura como padrão clássico, do que pressupor que a tradição fosse inteiramente errônea e sem fundamento. Assim, na literatura grega, a existência de poesias épicas de data avançada, falsamente atribuídas a Homero, não comprova, de modo algum, que Homero nunca escreveu nada deste gênero (i.é. os Ilíadas e a Odisséia).

O mesmo se pode dizer da grande quantidade de poesia lírica atribuída a Anacreontes. A existência de tais produções não comprovam que Anacreontes nunca existiu, e que não compôs aquelas poesias mais antigas que recebem seu nome. Dificilmente, portanto, pode-se entender como o Salomão do décimo século pode ter adquirido a reputação tão alta de ser o modelo clássico da literatura hokhmah se ele nunca compôs obras deste gênero.

2. Toy também levanta o assunto da pressuposição de monoteísmo puro que permeia o Livro de Provérbios, dizendo que é um sinal de origem pósexílica. (Os altos críticos liberais sempre acreditavam no passado que, através dum processo de evolução religiosa, o monoteísmo apareceu tarde na história de Israel). Esta abordagem necessariamente inclui uma total desconsideração da
abundante evidência textual dos relatórios do Antigo Testamento de que o povo israelita era estritamente monoteístico desde os dias dos patriarcas, sempre considerando a idolatria ou desvio do seu relacionamento com o Senhor, firmado na Aliança.

3. Há uma falta notável de traços nacionais distintivos no texto de Provérbios. Disto, Toy deduz que· a nação já havia sido espalhada entre nações estrangeiras, como foi o caso depois da destruição de Jerusalém. Por outro lado, é muito mais provável que esta falta de traços nacionais se explique a) como parte do estilo hokmah, que se preocupa com os indivíduos como tais, e não com nações, tratando com leis de comportamento humano que se observavam em quase todos os povos do Oriente Próximo; b) como sendo resultado da localização central de Israel entre as culturas da Mesopotâmia, da Síria, da Fenícia, da Arábia do norte e do Egito. Foi inevitável que tenha havido extensivos intercâmbios culturais desde os primeiros estágios da vida de Israel como nação.

4. Supõe-se que Provérbios reflita as maneiras sociais e os vícios que existiam, conhecidamente, depois do Exílio, especialmente nos centros urbanos de Judá. Esta, porém, deve ser considerada uma generalização muito duvidosa. Nunca foi levantada uma prova de que qualquer costume ou vício mencionado em Provérbios fosse desconhecido à cultura de Jerusalém ou de qualquer outra das grandes cidades de Israel durante o reinado de Salomão.

5. A pressuposição constante, em Provérbios, de que a virtude se identifique com o conhecimento, e a maldade à ignorância seria um sinal do ponto de vista helenístico, quanto à filosofia moral, exemplificada por Platão, nos seus Diálogos (cerca de 370 a.C.). Declara-se que o conhecimento desta atitude grega para com os problemas da ética teria chegado ao Oriente Próximo só depois da conquista de Alexandre Magno (330 a.C.). Esta interpretação, porém, envolve um mal entendido básico da distinção fundamental entre a sophia grega e a hokhmah hebraica. A filosofia grega tendia a ser especulativa e se preocupava com a cosmogonia e os princípios constituintes que subjazem ao universo. A filosofia hebraica, porém, conforme sua formulação no Antigo Testamento, se preocupava mais com a compreensão das implicações que a vontade divina revelada trazia aos problemas e às escolhas da vida diária. Enquanto a filosofia grega tendia a uma dedução dialética de princípios, através de indução puramente intelectual, a filosofia hebraica era mais intuitiva e análoga, e procurava interpretar a ordem moral à luz do Deus pessoal, onisciente e onipotente, que revelara Sua vontade quanto à vida ética dos homens.

Quanto ao relacionamento entre a ignorância e o pecado, o conceito platônico de ignorância moral era intelectual e mental, enquanto o conceito salomónico em Provérbios envolvia uma escuridão da alma, resultando duma prévia escolha imoral do coração. A filosofia moral entre os gregos nunca se confrotava profundamente com o problema da maldade radical do homem, ou da sua capacidade de reconhecer as verdadeiras reivindicações da retidão enquanto deliberadamente escolhia o mal por causa do seu egoísmo perverso. Um dos termos característicos da “estultícia” em Provérbios é nebãlah, que sugere o exemplo de Nabal, cuja história é narrada em I Samuel 25. O versículo 25 daquele capítulo o define como “tolo” (nãbãl), não por ser insuficientemente inteligente para perceber que a virtude é o caminho melhor para obter felicidade pessoal do que a maldade, mas por causa de ter feito uma escolha errada em assuntos morais: retribuiu a amizade de Davi com ingratidão vil e miserável.

6. Toy repudia o Livro de Provérbios como sendo o produto duma casta de sábios profissionais, que redigiam também Eclesiastes, Sabedoria de Salomão, e Eclesiástico. Mas, conforme já indicamos, a existência dum grupo posterior pressupõe a existência dum fundador. Assim como seria inconcebível entender a existência dos Profetas sem a prévia existência da obra de Moisés, cuja Lei interpretavam e aplicavam aos problemas da sua própria geração, assim também deve ter havido um modelo clássico de literatura escrita de provérbios, antes de surgir um grupo de especialistas no assunto. Compare Jeremias 18:18, que cita os sábios como sendo uma classe de peritos no mesmo nível dos sacerdotes e profetas na geração pré-exílica. Não há dúvida que a literatura de sabedoria surgiu bem cedo na história do Egito, remontando, no mínimo, até Ipuwer na Sexta Dinastia (cerca de 2500 a.C.). Torna-se evidente, pela leitura de 1 Reis 4:30, que havia uma longa tradição de sábios em Israel antes da época de Salomão, sendo, portanto, completamente injustificável sustentar que o décimo século foi cedo demais para este tipo de literatura ter surgido no meio do povo hebreu.

Neste assunto, seria apropriado citar as considerações de W. F.  Albright (Wisdom in Israel and in the Ancient Near East, “A Sabedoria em Israel e no Antigo Oriente Próximo”, 1955, p. 4): “No decurso dos últimos cem anos um mito curioso tem surgido: que a Época dos Sábios, que, segundo se supõe, eram ativos nos períodos acameniano e helenístico antigo, data entre o quinto e o terceiro século a.C. Sem supor que qualquer matéria pós-exílica é incluída no Livro, podemos reconhecer que o Livro de Provérbios não atingiu seu arranjo final até o quinto século a.C. Mas o conteúdo do Livro é consideravelmente mais antigo, e é inteiramente possível que aforismos e até seções mais longas remontem até a Idade de Bronze substancialmente na sua forma atual. Cullen I. K. Story demonstrou, num estudo com John Hopkins (cf. Journal of Biblical Literature, 64, 1935, págs. 319-337), que o estilo métrico de Provérbios freqüentemente concorda no seu todo com o dos poemas épicos ugaríticos, conforme analisados por C. H. Gordon (idem, págs. 321- 324). Story tem dado exemplos numerosos das categorias diferentes; o número pode ser facilmente multiplicado”.

Albright continua citando uma série de paralelismos, e.g. Provérbios 10:26 (“Como vinagre para os dentes/ e fumo para os olhos,/ assim é o preguiçoso para aqueles que o mandam”) e o Épico de Baal I Ab, Gordon N.° 49 (“Como o sentimento da vaca selvagem pela sua cria,/ Como o sentimento da ovelha campestre pelo seu cordeirinho,/ Assim era o sentimento de Anate por Baal”). Temos aqui em cada caso uma frase em três partes, cuja terceira parte produz um efeito climático. Outro tipo é duplo, omitindo na segunda parte, a palavra-chave da primeira parte, e.g. Provérbios 27:2 (“Seja outro o que te louve, e não a tua boca,/ o estranho e não os teus lábios”) e I Aqhat I 1:13 (“Da sua boca saia a mensagem,/ dos seus lábios a palavra”).

Deve ser mencionado que neste mesmo artigo Albright nota que estas formas poéticas compartilhadas em Provérbios e na literatura ugarítica são totalmente ausentes da literatura sapiencial Aramaica do 7.° século a.C., representada pelos Ditados de Ahíqar. Declara (idem, p. 6): “Assim, teremos que colocar a data de Provérbios como um todo bem antes de Ahíqar, procurando nas fontes cananíticas mais antigas a sua estrutura estilística métrica, além de prototipos cananíticos diretos de muitos provérbios individuais e de corpos de matéria”. Menciona em seguida que Umberto Cassuto isolou quarenta pares de palavras em paralelismos, que aparecem tanto na literatura sapiencial hebraica como nos textos ugaríticos. Estes ainda foram aumentados pelos trinta exemplos adicionais indicados pelo aluno de Cassuto, Moshe Held.

Albright assevera que Provérbios 8 e 9 contém muitas expressões cananíticas, inclusive a descrição da origem da sabedoria em 8:22 e segs. Assim, o versículo 22 tem quatro palavras que parecem semelhantes à forma cananítica: “Ele me criou no começo do seu domínio”. Aqui temos o verbo qãnah com o significado raro de “criar” (sentido no qual o verbo é empregado comumente, porém, em Cananita) e o substantivo derek é empregado de tal maneira que sugere a palavra cananita drkt, que significa “domínio”. Albright encerra suas considerações com o seguinte parecer: “Resumindo, pois, minha opinião quanto à origem e à data de Provérbios é que seu conteúdo inteiro é provavelmente préxílico, mas que uma boa parte do livro foi conservada por tradição oral até o quinto século a.C., quando, à luz dos Papiros de Elefantina, sabemos que os judeus se interessavam por literatura dum tipo diferente”.

O Relacionamento dos Capítulos 22-24 com A Sabedoria de Amenemope

Um manuscrito hierático da obra egípcia comparativamente recente, A Sabedoria de Amenemope (ou Amen-em-apt) foi descoberto por E. A. Wallis Budge em 1888 e, provisoriamente datado por ele como pertencente à 18.a Dinastia. Datado assim, não haveria dificuldade em se supor que Salomão conhecia esta obra egípcia, adaptando-a aos seus propósitos em Provérbios 22:17 — 24:34. Mas estudos subseqüentes por Erman, Spiegelberg, Griffith e Lange reajustaram a data para cerca de 1000 a.C., então para a 22.a Dinastia, e finalmente, para a 26.a Dinastia, ou até ao período persa ou grego. A maioria dos críticos supunha que o relacionamento demonstravelmente estreito entre os textos egípcios e hebraicos, só se explicavam pela dependência do Hebraico; isto quer dizer, os hebreus podiam tomar emprestado trechos da sabedoria dos egípcios, os egípcios nunca copiariam nada da Palestina. Por meio deste raciocínio, estes capítulos de Provérbios teriam que pertencer ao período grego ou persa. Apesar de a maioria dos estudiosos liberais ainda conservarem esta opinião, um exame detalhado dos dados lingüísticos comprova de maneira conclusiva que, neste caso, foram os egípcios os que copiaram. Na revista da Sociedade de Pesquisas Orientais (Nov. 1930, págs. 123-125), R. O. Kevin (seguindo a liderança de Oesterley no seu Comentário dos Provérbios, 1929) levanta as seguintes considerações:

1. Há aproximadamente muito mais semitismos no texto egípcio de Amenemope do que em qualquer outra obra egípcia de moral; pelo menos dezenove destes semitismos são indisputáveis, e mais dezesseis são altamente prováveis.

2. Casos numerosos de palavras egípcias deturpadas ou sem sentido, podem ser explicadas de maneira satisfatória como sendo corrupções dum texto que traduzia os termos hebraicos empregados nas passagens correspondentes.

3. Há vários casos de o tradutor egípcio ter entendido erroneamente a palavra hebraica correspondente; assim, a palavra t-h-sh-w-k, “segurar para trás”, libertar”, em Provérbios 24:11, tem sido traduzida em Amenemope XI, 7 como se fosse t-h-sh־y-k, que significa “esconder” (e assim o egípcio escreve h’pw, “esconder”). Ou também, o Hebraico shã'ar “pensar”, “achar”, tem sido entendido falsamente em Amenemope XIII, 1, 2 como se fosse o Hebraico s-’-r “tempestade” (egípcio sn’) que no caso não faz sentido algum, embora o Hebraico seja perfeitamente claro e coerente no seu próprio contexto. Ou, talvez, o autor egípcio solucionou os problemas de textos hebraicos obscuros, apelando a uma paráfrase banal. Por exemplo, Provérbios 23:4 declara: “Não te fatigues para seres rico; não apliques nisso a tua inteligência”: isto aparece assim em Amenemope IX, 14-15: “Não se esforce a obter demais quando suas necessidades lhe são seguras”. Noutras  palavras, o sentimento não-egípcio “desiste da sua própria sabedoria” foi alterado para “quando suas necessidades lhe são seguras”, ou conforme traduz Kevin, “quando suas propriedades estão intactas”. É importante observar que enquanto reconstruções satisfatórias podem ser feitas do Egípcio, com a ajuda do texto hebraico original, jamais seria possível reconstruir o texto hebraico com a ajuda dum suposto original egípcio (idem, p. 144).

4, Deve ser notado também que a palavra sh-l-sh-w-m em Provérbios 22:20, que provavelmente quer dizer “ajudante” (lit. “o terceiro homem no carro”), tem sido erroneamente interpretada como sendo a palavra mais comum sh-l-sh-y-m, que significa “trinta”. Entendida assim, o resultado é que a palavra indicaria a presença de trinta provérbios nessa seção (Provérbios 22:17 — 23:12), embora possam ser achadas apenas vinte e sete unidades separadas nessa seção. É evidente que Amenemope interpretou a palavra como tendo o significado de “trinta”, declarando em XXVII, “Eis os trinta seguintes capítulos”, tomando então o cuidado de fazer um número de trinta provérbios seguidos. (Note-se que o texto Hebraico vocalizado de Provérbios 22:20 dá o significado: “Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de conselhos e conhecimentos?” — sendo que a palavra “excelente” é vocalizado Shãlíshím. O texto consoantal, conforme indicado acima, termina a palavra com w-n. Muitos estudiosos modernos seguem a emenda de Amenemope e interpretam a palavra como sendo “trinta”. Entre estes constam Erman, Eissfeldt, e a Revisão Americana: “Não te escrevi trinta coisas de admoestação e conhecimentos?”) Talvez deva ser acrescentado que apenas uma terça parte da matéria em Provérbios 22-24 mostra qualquer relacionamento com o texto de Amenemope; este parece ter tirado uma boa parte da sua matéria de fontes não hebraicas (embora Kevin perceba sinais do Salmo 1 também, cf. obra citada, pág. 150). 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.