9 de fevereiro de 2015

Gleason L. Archer - Introdução ao livro de Salmos

SALMOS

O título hebraico deste Livro é Tehillím ou “Cânticos de Lou-
vor”; a tradução grega Psalmoi na LXX literalmente significa “cânticos a serem acompanhados por instrumentos de cordas”. Os 150 Salmos que compõem esta coletânea tratam duma variedade de temas muito diferentes, e é difícil fazer generalizações válidas. Provavelmente não há dúvida em poder-se dizer que todos eles incluem pelo menos um elemento de resposta pessoal da parte do crente perante a bondade e a graça de Deus. Freqüentemente incluem um registro dos próprios sentimentos íntimos do salmista, de desencorajamento, ansiedade ou jubilosa gratidão por causa da oposição dos inimigos de Deus ou tendo em vista a variada providência de
Deus. Seja, porém, que o salmista se ocupe com um tema triste, ou seja de alegria sua canção, sempre se exprime como quem se sente na presença do Deus vivo. Há alguns salmos também, naturalmente, que contêm, na sua maior parte, os pensamentos e revelações do próprio Deus, tais como o Salmo 2, mas estes constituem uma exceção.


As Divisões do Saltério

Desde tempos antigos o Saltério parece ter sido dividido em
cinco livros, talvez para corresponder aos cinco livros da Torá. As
divisões são as seguintes:

Livro I: Salmos 1-41.
Livro II: Salmos 42-72.
Livro III:     Salmos 73-89.
Livro IV: Salmos 90-106.
Livro V: Salmos 107-150. 

Autoria e Data da Composição dos Salmos

Na maioria dos casos, o próprio texto dos Salmos não indica o
autor nominalmente. Salmo 72:20 parece constituir uma exceção,
mas é possível explicar o versículo como sendo uma adição editorial
feita à coletânea original dos Salmos de Davi, da qual o Salmo 72
era a última unidade. De maneira geral, a única informação defi-
nida sobre a autoria acha-se nos títulos dos Salmos. Não são todos
os títulos que contêm os nomes dos autores, mas quando consta
o nome, produz-se o seguinte quadro tradicional: um Salmo de
Moisés (SI 90); setenta e três de Davi (a maioria se acha nos
Livros I e II); doze de Asafe (50, 73-83); dez dos descendentes de
Coré (42, 44-49, 87-88); um ou dois de Salomão (72?, 127); um de
Hemã o Ezraíta (88); um de Etã o Ezraíta (89).

Destes Salmos, o mais antigo seria naturalmente o Salmo 90,
escrito por Moisés, presumivelmente cerca de 1405 a.C. Os Salmos
davídicos devem ter surgido entre 1020 e 975 a.C.; os de Asafe de
aproximadamente o mesmo período; o Salmo 127 do período do
reinado de Salomão, possivelmente 950. É difícil atribuir uma data
aos descendentes de Coré e aos dois ezraítas mencionados; supõe-se
que fossem escritos antes do Exílio. Dos Salmos sem títulos, alguns
eram inconfundivelmente davídicos (e.g. 2 e 110), e os outros per-
tencem a diferentes períodos posteriores até a Restauração do Exílio
(tais como 126 e 137, este último pertencendo ao Exílio, senão
depois). Nenhuma evidência convincente, porém, tem sido oferecida
para atribuir uma data de depois de 500 a.C. a qualquer Salmo.

Autoria dos Salmos Davídicos

Conforme passaremos a ver, os críticos racionalistas adotam
um ponto de vista muito cético quanto à veracidade dos títulos
dos Salmos, e desconsideram seu valor como sendo meras espe-
culações dos rabinos de épocas posteriores. Tendo assim liqüidado
com a evidência dos títulos, os críticos tendem a rejeitar a possi-
bilidade, por motivos teoréticos, de que Davi pudesse ter composto
qualquer dos Salmos do Saltério. (Eissfeldt lhe permite só um ou
dois). Estes são os principais argumentos levantados para rejeitar
as reivindicações de autoria davídica:

1. Alguns dos Salmos atribuídos a Davi falam do rei na ter-
ceira pessoa e não na segunda pessoa (e.g. 20, 21, 61, 63, 72, 110).
Seria mais natural esperar que o autor se referisse à sua própria
pessoa como “eu” ou “tu” e não “ele”. Há, porém, evidências abun- 
dantes de que os autores antigos se referissem a si mesmos com o
freqüente emprego da terceira pessoa. Na literatura clássica, e.g.,
não pode haver dúvida de que Xenofonte fosse autor da Anábasis; e
mesmo assim, é referido sempre na terceira pessoa na sua própria
obra. O mesmo se diz de Guerras Gálicas de Júlio César. Repe-
tidas vezes no Antigo Testamento o Senhor é citado referindo a Si
mesmo na terceira pessoa. Mesmo os Dez Mandamentos, que co-
meçam na primeira pessoa: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te
tirei da terra do Egito, da casa da servidão”, contêm algumas mu-
danças ocasionais para a terceira pessoa (“porque o SENHOR não
terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”). Não há, por-
tanto, a mínima possibilidade de ventilar-se o assunto do emprego
da terceira pessoa como critério para ser negada a identidade do
autor.

2. Alguns dos Salmos atribuídos a Davi alegadamente se re-
ferem ao santuário de Israel como sendo a estrutura de um templo
já edificado (e.g. 5, 27, 28, 63, 68, 69, 101, 138), embora a constru-
ção não fosse feita antes do reinado de Salomão, sucessor de Davi.
Este argumento, porém, tem origem em uma má interpretação dos
termos “casa do Senhor”, “o santuário”, ou “o templo” (hêykãl).
Ocasionalmente encontramo-los em literatura que pretende perten-
cer a uma época antes da de Davi; e.g., “santuário” (qõdesh) se apli-
ca ao tabernáculo em Êxodo 28:43, “casa do Senhor” (bêyt Yahweh)
em Josué 6:24; “a casa de Deus” (bêyt Elõhim) em Juizes 18:31;
e até “templo” (hêykãl) em I Samuel 1:9; 3:3. Ao mesmo tempo,
deve ser observado que o santuário mencionado nos Salmos atri-
buídos a Davi é freqüentemente aludido em termos que nunca po-
deriam ser empregados na descrição do templo de Salomão. Assim,
no Salmo 27, o santuário não somente é referido pela expressão
“templo” (hêykãl) e “casa do Senhor” (bêyt Yahweh), mas tam-
bém pela palavra sukkáh “choupana” e ’õhel “tenda”. A julgar,
pois, pela evidência interna dos próprios Salmos, os hebreus às
vezes se referiam ao tabernáculo em forma de tenda, como sendo o
“santuário”, a “casa de Deus”, “a casa do Senhor”, ou “templo”.
Não se entendia necessariamente qualquer estrutura de madeira
ou de pedra, ao empregar-se estas expressões.

3. Levanta-se a objeção que alguns dos Salmos atribuídos a
Davi contêm aramaísmos que indicariam uma autoria séculos mais
tarde, depois do Exílio. Um exemplo disto seria o Salmo 139, no
qual o versículo 2 contém a preposição le (“para”) como sinal do 
objeto direto (ao invês de ,êt); o versículo 4 emprega millah, sig-
nificando “palavra”, e o versículo 8 emprega o verbo sãlaq, “subir”.
Alguns críticos até levantaram objeções contra o sufixo pronominal
nas suas formas poéticas, tais como -alki, que é uma variação da
forma hebraica mais comum -ayik, “de ti” (f.). Deve ser lembra-
brado, porém, que Davi tinha contatos extensivos com os princi-
pados de língua aramaica ao norte de Israel, e que muitos dos seus
leitores das dez tribos estariam bem familiarizados com palavras
emprestadas de além da fronteira com os territórios de Damasco.

A poesia de muitas nações revela uma tendência de incorporar
formas raras ou de dialetos para enriquecer o vocabulário, e não há
motivo para se supor que o Hebraico tenha sido uma exceção. Não
pode ser negado que a poesia cananítica de Ras Shamra (Ugarite),
do século quinze a.C., demonstra fortíssimas influências aramaicas.
A presença dalguns poucos aramaísmos não pode, por si mesma,
ser evidência conclusiva de autoria posterior à época de Davi. As-
sim, enquanto Salmo 139 pode ter sido incorretamente atribuído a
Davi (pois não podemos garantir a infalibilidade dos títulos dos
Salmos hebraicos por si só), seria necessário aduzir provas muito
mais extensivas, para comprovar isto, do que a mera presença de
aramaísmos aqui ou ali.

I O Davi histórico, segundo muitos críticos tais como Sellin,
dificilmente teria tido tempo para compor poesias, sendo que sua
vida era repleta de atividades práticas; além disto, ele não teria
nenhuma inclinação a interesses poéticos que exigiriam a mais
refinada cultura. Respondendo, devemos reconhecer que não so-
mente os próprios títulos dos Salmos, como também evidências
abundantes de outros registros vetero-testamentários, revelam a
importância da música e da poesia, na carreira de Davi. O Livro de I Samuel o descreve como tocador perito de harpa na corte do
rei Saul. Em II Samuel 22, achamos, em forma ligeiramente dife-
rente, a substância do Salmo 18, citada como sendo uma compo-
sição do rei Davi. A passagem em II Samuel 1:19-27 contém uma
lamentação poética composta por Davi na ocasião da morte de Saul
e Jônatas na batalha do Monte Gilboa. Já que esta composição não
ocorre no Livro dos Salmos, não pode ter sido emprestada deste.
O fato de que Saul e Jônatas são nominalmente citados de maneira
direta, indica que não se pode oferecer a explicação de ter sido
uma composição de data posterior, falsamente atribuída a Davi;
só poderia ter sido composto por um contemporâneo vivendo cerca
de 1010 a.C. 

Se Davi tinha a capacidade de compor uma elegia sublime-
mente artística como esta, certamente teria a capacidade de compor
os demais salmos cujos títulos o apontam como autor. Em I Samuel
16:18 percebemos claramente que, segundo o antigo autor hebreu,
era possível para um homem de grandes talentos combinar as pro-
fissões de guerra e de música: “Conheço um filho de Jessé, o bele-
mita, que sabe tocar, e é forte e valente, homem de guerra, sisudo
em palavras, e de boa aparência; e o SENHOR é com ele”. Em II
Samuel 23:1, depois duma descrição completa das proezas de Davi
nas guerras, e da sua eficácia na administração do governo, ele é
chamado “o mavioso salmista de Israel”. Aparentemente se inte-
ressava na melhoria de instrumentos musicais, e fez várias inova-
ções próprias. Amós 6:5 (cerca de 755 a.C.) refere-se a ele como
sendo um inventor ou tocador de instrumentos musicais. Mas foi
conhecido não somente como solista, mas também como organiza-
dor de coros e de corporações musicais. Este fato é atestado em II
Samuel 6:5: “Davi e toda a casa de Israel alegravam-se perante o
SENHOR, com toda sorte de instrumentos... com harpas, com sal-
térios, com tamboris, com pandeiros e com címbalos”; e também
no versículo 15: “Assim Davi, com todo o Israel, fez subir a arca do
SENHOR, com júbilo, e ao som da trombeta”. Em I Crônicas 16:4,5; II Crônicas 7:6 e 29:25 há relatórios das atividades de Davi na
organização de corporações de levitas cantores, que haveriam de
desempenhar um papel tão importante na liturgia do templo em
Jerusalém.

Tratando-se deste assunto, vale a pena notar que o Novo Testa-
mento repetidas vezes refere-se a Davi como sendo autor dos Salmos
citados por Cristo e pelos Apóstolos. Em nenhum caso, o Salmo
assim citado é atribuído pelo título do Salmo a qualquer autor a
não ser Davi (embora alguns, como o Salmo 2, estão desprovidos
de título hebraico). Críticos freqüentemente asseveram que o Livro
de Salmos era simplesmente conhecido pelo título “de Davi” na épo-
ca neo-testamentária; e que referências ao Saltério que emprega seu
nome não indicam necessariamente crença na sua autoria pessoal.
Um estudo cuidadoso, porém, das numerosas instâncias deste tipo
leva quase inevitavelmente à conclusão que tanto Jesus como Seus
discípulos sem dúvida alguma entenderam que Davi fosse pessoal-
mente o autor. Senão, perderia qualquer razão de ser a pergunta
de Cristo em Mateus 22:45: “Se Davi, pois, lhe chama de Senhor,
como é ele seu filho?”. O assunto em debate era se o Messias ha-
veria de ser um mero ser humano ou uma personalidade divina; 
somente no caso dum ser divino seria apropriado ao grande rei
Davi o chamar-lhe de “Senhor”. Em Marcos 12:36, Jesus diz explici-
tamente: “O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo ” (SI 100:1).
O testemunho dos Apóstolos ocorre em passagens tais como Atos
4:24, 25: “Tu, Soberano Senhor,... que disseste por intermédio do
Espírito Santo, por boca de nosso pai Davi, teu servo...” — e
então citam Salmo 2:1,2. Outras citações no Novo Testamento
incluem Lucas 20:42-44 (SI 110); Atos 1:20 (SI 69); Atos 2:25-28
(Salmo 16); Atos 2:34 (SI 110); e Romanos 4:6-8 (SI 32).

A Veracidade dos Títulos dos Salmos Hebraicos

Os críticos geralmente consideram os títulos hebraicos dos Sal-
mos muito incertos, e de data avançada, sendo inferências tiradas
da evidência interna dos próprios Salmos. Esta conclusão se baseia
freqüentemente em dois tipos de evidências: as ocasionais discre-
pâncias entre os títulos no TM e os na LXX, e a falta de correspon-
dência entre as declarações da situação histórica e a situação pres-
suposta nos próprios Salmos. Um exemplo desta suposta discre-
pância acha-se no Salmo 7, cujo título declara que Davi cantou
este Salmo ao Senhor, “concernente às palavras de Cuxe, benja-
mita”; ou, igualmente, pensa-se que o título do Salmo 34 condiz
muito mal com o tom e o sentimento que aparece no texto.

A reflexão madura, porém, deve levar o investigador a uma con-
clusão bem oposta. É impossível explicar por que qualquer “rabino
de tempos posteriores” teria se aventurado a aplicar títulos deste
tipo a Salmos que não parecem obviamente ter pertencido às si-
tuações na vida de Davi que, segundo os títulos, são o pano de fundo
das composições. Muitos dos títulos contêm alusões a incidentes
na carreira de Davi dos quais não temos outros conhecimentos.
Por exemplo, no Salmo 60, aparecem detalhes biográficos concer-
nentes a batalhas travadas contra os sírios da Mesopotâmia e os
sírios de Zobá, e contra Edom, que não são registradas nos Livros
de Samuel. Conforme indica Wilhelm Moeller (GATE 273), estes
detalhes novos e suplementares constituem um argumento pode-
roso em prol da antiguidade do próprio título do Salmo. Um redator
de uma época posterior nunca teria se aventurado a fabricar novos
detalhes não contidos nos livros de Samuel ou Crônicas. É igual-
mente significante que vários dos Salmos sem título estão cheios
de alusões históricas e referências a eventos recentes e situações
contemporâneas que teriam oferecido ricos subsídios às conjectu-
ras dos rabinos duma época posterior. 

A LXX dá evidência conclusiva de que os títulos foram acres-
centados ao Saltério Hebraico muito antes da época helenística. Isto
quer dizer, há vários termos técnicos que aparecem nos títulos he-
braicos cujo significado tinha sido completamente esquecido antes
da data desta tradução alexandrina (cerca de 150-100 a.C.). Por
exemplo, a expressão “Ao mestre de canto” é traduzida, sem fazer
sentido, como “até ao fim” (eis to telos) na LXX. (Cf., e.g., SI 44,
equivalente ao SI 43 da LXX). Parece que o estudioso de Alexandria
conjecturou a vocalização le-min-nêsah “até-desde-fim”. Jerónimo,
no seu comentário de Daniel (§ 620) sugere que a tradução certa
desta expressão hebraica deve ser: “Ao vencedor”; sem dúvida foi
influenciado pela tradução de Teodósio, eis to nikos, “até à vitória”;
ou talvez pela tradução de Áqüila tõ nikopoiõ “ao que ganha a vi-
tória”; ou talvez por Símaco: epinikion “cântico de triunfo”. Outro
exemplo é o título de Salmo 80, que contém le-shõshanním, “Aos
lírios”, que é traduzido pela Septuaginta, “Para os que sofrerem
alteração” (hyper tõn alloiõthêsomenõn) como se tivesse sido deri-
vado de le-sheshshõním (“aos que mudam”) — interpretação erró-
nea seguida por Jerónimo em Daniel (§ 653). Um terceiro exemplo
é ’al-alãmõt (SI 46), que provavelmente significa “Segundo as vir-
gens”, i.é., para ser cantado em soprano. A LXX traduz: Concer-
nente às coisas escondidas” (hyper tõn kryphiõn) como se tivesse
sido derivado do verbo ’ãlam, “esconder”.

O fato que estes termos técnicos hebraicos já não eram enten-
didos, só pode levar à conclusão que estas palavras tinham caído em
desuso tanto tempo antes do segundo século a.C., que o verdadeiro
significado tinha sido completamente esquecido. Tendo em vista
o fato que muitos estudiosos tais como Duhm, Eissfeldt e Pfeiffer
confiantemente atribuíram muitos dos Salmos ao período dos ma-
cabeus (isto é, cerca de 165 a.C.), é importante entender o signifi-
cado desta evidência da versão grega. Reconhece-se que os títulos
dos Salmos foram acrescentados depois da composição dos Salmos
aos quais foram adicionados; mas os próprios títulos, pelo menos
os que contêm as frases supra citadas, devem pertencer a um pe- 
ríodo tanto tempo antes da tradução da Septuaginta que seu sig-
nificado, já havia muito, tinha sido esquecido. Segue-se natural-
mente que os próprios Salmos forçosamente tinham sido escritos
muito tempo antes do período grego.

Quanto à teoria da origem macabéia de Salmos, que já tem
sido tão favorecida, é interessante notar que em I Macabeus 7:17,
uma passagem é citada do Salmo 79:3, como sendo Escritura Sagra-
da. Isto indicaria que já havia uma coletânea canônica de Salmos
na Bíblia Hebraica até a época dos Macabeus. A tendência mais
recente entre os críticos racionalistas tem sido evitar os extremos
ao atribuir datas. Bentzen (IAT II, p. 190) declara: “O resultado da
investigação feita desde o início do século vinte, demonstra que é
necessário deixar para trás a pressuposição a priori de que os Sal-
mos fossem pós-exílicos. A salmodia era conhecida em Israel desde
os primórdios. A poesia israelita mais antiga que conhecemos e
que podemos datar aproximadamente, i.é., o cântico de Débora
(Jz 5), é um salmo, e salmos estavam sendo compostos no estilo
dos que há no Antigo Testamento em outras partes do Oriente Pró-
ximo, antes de existir qualquer notícia de Israel”. Bentzen continua,
citando Engnell (Studies in Divine Kingship “Estudos na Monar-
quia Divina”, 1943, p. 176, nota 2): “Falando candidamente, há
meramente um Salmo no Saltério inteiro, cuja composição é pós-
exílica segundo minha firme convicção: o Salmo 137. E, pelo que
posso determinar, nenhum outro Salmo pode ser comparado com
ele quanto ao conteúdo e ao estilo. Isto seria mera coincidência?”
Oesterley, A Fresch Approach to the Psalms — “Uma Nova Abor-
dagem aos Salmos” (1957), cita os numerosos paralelos babilônios e
egípcios aos Salmos, como sendo indicadores da necessidade de
achar uma origem pré-exílica para a maior parte do Saltério.

A evidência mais significativa da antiguidade do gênero lite-
rário dos Salmos, acha-se nas poesias de Ugarite. Talvez a lista
mais digna de confiança dos seus paralelos na fraseologia poética e
na estrutura dos versos acha-se nas notas do rodapé da parte uga-
rítica de Pritchard: Ancient Near Eastem Texts — “Textos Anti-
gos do Oriente Próximo”. Exemplos típicos são: 

Salmo 104:3: “Tomas as nuvens por teu carro”; cf. o título
comum de Baal de Aleya: rkb ’rpt (i.é. rãkib ’urpãti ou “Aquele
que cavalga nas nuvens”).

Salmo 6:6: “todas as noites faço nadar o meu leito” se asseme-
lha a Krt 28*30: “Suas lágrimas são derramadas como siclos para
a terra, como quintas-partes de siclos na cama enquanto chora”.

O ugarítico “Teu reino é eterno, teu poder (perdura) até todas
as gerações”, é uma fórmula que faz lembrar Salmo 145:13: “O
teu reino é o de todos os séculos, e teu domínio subsiste por todas
as gerações”.

“Ó El, apressa-te, ó El, ajuda-me” é muito semelhante a Salmo
40:13: “Dá-te pressa, ó SENHOR, em socorrer-me”.

Estes são apenas uns poucos exemplos do número muito grande
de paralelos marcantes, e levam à conclusão de que os hebreus
tinham adotado um estilo poético que já encontraram em estado
altamente desenvolvido entre os povos cananitas por eles conquistados.

História da Compilação dos Salmos

Além dos setenta e três salmos cujos títulos são atribuídos a
Davi, há, conforme já visto, muitos outros que são atribuídos a
autores contemporâneos ou que pertenciam a um período um pouco
depois de Davi. O Salmo 90 é atribuído a Moisés; doze Salmos são
atribuídos a Asafe; mais dez são atribuídos a descendentes de Coré;
o de número 127 é atribuído a Salomão; um a Hemã o Ezraíta
(SI 88), e um a Etã o ezraíta (SI 89). Dos Salmos anônimos, há
pouca dúvida que alguns deles indicam uma data de composição
durante ou depois do Exílio. Podemos considerar o Salmo 137 “Às
margens dos rios de Babilônia...” como sendo exílico, e o Salmo
126 “Quando o SENHOR restaurou a sorte de Sião...” pode ser
considerado como pertencente ao começo do período pós-exílico,
talvez 500 a.C.

Era, portanto, inevitável que o Saltério tenha sido acumulado
em etapas através dum longo período de tempo. Parece que a divi-
são em Livros pertence a um período recuado. Assim, o Salmo 72:20 
declara, “Findam as orações (tepillõt) de Davi, filho de Jessé”;
esta anotação, sem dúvida, marca o término duma edição menor do
Saltério, contendo somente Salmos davídicos. Pelo menos três co-
leções podem ser distingüidas.

1. O Livro I (Salmos 1-41) foi provavelmente arranjado por
Davi, ou talvez por algum outro colaborador sob sua direção. Ape-
sar de não ter nenhum título, o Salmo 1 serve como introdução
lógica à coletânea inteira, e pode muito bem ter sido composto por
Davi mesmo, ou por Salomão seu filho. O Salmo 2, que semelhan-
temente está sem título, é especificamente atribuído a Davi em
Atos 4:25. O motivo de o Salmo 10 estar sem título descobre-se,
provavelmente, no fato de que os Salmos 9 e 10 originalmente for-
maram uma unidade (a LXX trata-os como sendo uma única com-
posição) . O Salmo 33, que não tem título no TM, é atribuído a Davi
na LXX. Assim parece que o conteúdo inteiro do Livro I deve ser
atribuído a Davi. Assim, a única dificuldade é saber por que uma
coletânea apenas parcial tivesse sido feita das poesias de Davi e
incorporada neste primeiro volume. Seria difícil demonstrar que
estes Salmos tivessem sido compostos no começo da sua carreira, e
que os Salmos davídicos de Livros posteriores pertencessem à sua
velhice, sendo que em certos casos (notavelmente SI 132 e 51), al-
guns que aparecem nos demais Livros são demonstravelmente tão
antigos como os no Livro I. Tem sido sugerido por Ewald e outros,
que possivelmente a primeira edição do Saltério continha não so-
mente os Salmos 1 — 41, como também 51 — 72, e que foi só numa
época mais tardia que os Salmos de Asafe e dos filhos de Coré foram
inseridos (i.é., SI 42 — 50). Certamente é verdade que nenhum
Salmo entre 51 e 72 é atribuído no título a qualquer outro autor
senão a Davi, e o último versículo do Salmo 72 constituiria um
ponto final apropriado para a coletânea inteira conforme sua pu-
blicação original.

2. O Livro II (SI 42-72) e o Livro III (SI 73-89) podem muito
bem ter sido colecionados e publicados numa época posterior, pos-
sivelmente durante o reinado de Josias, para fornecer matéria adi-
cional à expressão devocional durante seu movimento de reaviva-
mento. Por outro lado, é igualmente possível que esta compilação
tenha sido feita antes, durante o reinado de Ezequias (cerca de
710 a.C.). É sabido que Ezequias tinha um comitê bíblico ativo
(“os homens de Ezequias” — Pv 25:1) como parte das suas re-
formas. Estes dois livros podem ter sido preparados para a publica-
ção e uso litúrgico no templo sob o patrocínio de Ezequias. 

3. Os demais Livros, III e IV, são uma coletânea de vários
tipos de Salmos, de data incerta, alguns dos quais remontam até
Davi ou ainda até Moisés, e alguns são tão recentes como o retomo
do Exílio. Sem dúvida, esta compilação foi feita na época de Esdras
e de Neemias, quando se levava adiante com vigor a reconstrução da
vida política e religiosa da segunda comunidade. É razoável dizer
que não há nenhuma alusão, ou situação pressuposta nos Salmos 90
a 150 que não se harmonizem com eventos da história dos hebreus
anteriormente a 430 a.C.

A alta crítica racionalista não chegou a nenhuma medida de
acordo significativa quanto à época na qual vários salmos indivi-
duais foram compostos. Estudiosos do fim do século 19 e do começo
do século 20 tendiam a tratar com cada salmo individualmente se-
gundo seus méritos, conjecturando sua idade pelo estágio no desen-
volvimento do pensamento religioso de Israel que parecia refletir,
e assim chegavam a uma data aproximada segundo princípios evo-
lucionistas. Ou, também, o crítico poderia procurar possíveis alusões
históricas, e então examinar a possibilidade de um conjunto de
circunstâncias na história de Israel no qual caberiam as alusões.
Os que aceitavam a teoria macabéia da composição de muitos dos
Salmos freqüentemente seguiam esta metodologia.

Com o advento de Hermann Gunkel, uma abordagem comple-
tamente diferente veio a ser efetuada. Começando com Ausgewáhlte
Psalmen — “Salmos Escolhidos” (1904) começou a aplicar a Críti-
ca de Forma à análise do Saltério. Classificou os Salmos em várias
categorias ou tipos (Gattungen) e procurou identificar a situação
histórica geral (Sitz iin Leben) que lhes deu origem. Por meio
dum estudo cuidadoso de matéria semelhante das civilizações an-
tigas do Egito e da Mesopotâmia, Gunkel procurou recapturar o
ponto de vista hebraico antigo, analisando os Salmos de maneira
mais válida e apropriada do que tinha sido possível pela maneira
antiga. (Cf. Rowley OTMS 163 e segs.). A grande maioria dos
Salmos foi dividida por ele em cinco tipos principais:

1. Os hinos que tinham o propósito do culto comunitário,
exprimindo a adoração pessoal e devoção por Deus do próprio autor.

2. As lamentações da comunidade em face dalguma catástro-
fe ou desastre sofrido pela comunidade (e.g. SI 44; 74; 79; 80; 83).

3. Salmos reais que focalizam sua atenção especial no rei
israelita como servo do Senhor. 

4. A lamentação individual — um tipo que formava a base
do Saltério — na qual o autor individual se achava em angústia,
ameaçado pelos seus inimigos, e injustamente perseguido; porém,
com uma renovação de fé, exprime a certeza de que será ouvido,
muitas vezes fazendo um voto de expressão tangível como sinal da
sua gratidão pela libertação que aguarda com segurança.

5. Canções individuais de gratidão (tais como SI 18; 30; 32;
34; 41; 66; 92, etc.), nas quais repete-se com gratidão a libertação
e as bênçãos que o autor recebeu, ao aproximar-se do altar de ações
de graças. A preocupação principal dè Gunkel não era cronológica,
mas sua tendência era colocar uma parte maior do Saltério numa
época anterior ao Exílio (especialmente no caso dos Salmos reais).

Esta abordagem da crítica de forma foi adotada e estendida
por muitos estudiosos recentes tais como Eissfeldt, Bentzen, Eng-
nell, Oesterley, Robinson, e E. A. Leslie (The Psalms, “Os Salmos”,
1949). Sigmund Mowinckel (Psalmen Studien, 1921-1924) também
seguiu o método de Crítica de Forma, com a importante modifica-
ção, porém de que virtualmente nenhum Salmo era genuinamente
pessoal no sentido individualístico, mas que todos pertenciam à
comunidade dos adoradores. Muitos dos Salmos “de entronização”,
segundo se crê, tinham sua origem em conexão com a celebração
anual do Senhor que, segundo supunha Mowinckel, acontecia du-
rante a festa do Ano Novo (na analogia da entronização de Mar-
duque feita pelos babilônios, na época do Ano Novo). Até entendeu
que a expressão “Dia do Senhor” se referisse originalmente ao dia
do culto da entronização de Deus, então projetada para o futuro
como sendo a época quando o Senhor viria com poder asseverar
Sua posição de Rei sobre toda a terra. Muitos destes salmos de
entronização considerou como pertencentes à época da monarquia
judaica. Norman Snaith se opôs vigorosamente à teoria de que sal-
mos deste tipo tivessem sido compostos para a celebração do sábado
ou que a maioria deles fosse pós-exílica na sua origem. (Estas supo-
sições engenhosas não serão levadas a sério por qualquer pessoa
que não aceite as pressuposições humanísticas dos que as inven-
taram) .

A Numeração dos Salmos

Tanto o TM como a LXX contém um total de 150 Salmos. Se
esta foi a cifra original não se sabe com certeza. O Talmude (Sá-
bado 16) menciona 147, um para cada ano da vida do patriarca 
Jacó. Não se sabe com certeza como os Salmos eram originalmente
divididos. O Talmude (Berachote 9b) descreve os Salmos 1 e 2 como
sendo uma única composição. Por outro lado, Atos 13:33 explici-
tamente refere-se a Salmo 2:7 como sendo um trecho do “Salmo
segundo”.

Nossas versões modernas seguem o TM quanto à numeração
dos Salmos. Diferentemente da prática hebraica, porém, não conta
os títulos, na enumeração dos versículos. Por esta razão, há usual-
mente uma divergência nos números dos versículos da versão da
Sociedade Bíblica para a Bíblia Hebraica, quando o Salmo tem um
título. (Isto é, o número hebraico seria sempre um a mais com-
parado com nossa numeração; no caso do SI 51 e alguns outros,
há títulos que constam como dois versículos no Hebraico). Con-
forme foi indicado, há uma diferença entre os números dos Salmos
da LXX e os do TM (e das nossas Bíblias) porque: 1) conta o
Salmo 10 como sendo uma parte do Salmo 9; 2) conta o Salmo 115
como sendo uma parte do Salmo 114; 3) divide o Salmo 116 em
dois Salmos separados; e 4) divide o Salmo 147 em dois Salmos
separados. A LXX também acrescenta Salmo 151, com a anota-
ção, “fora do número”. Sendo que a Vulgata segue a numeração
da LXX, as traduções Católicas modernas fazem o mesmo.

O Conteúdo dos Títulos dos Salmos

Não é completamente certo que o arranjo atual dos títulos dos
Salmos no TM reflita acuradamente sua posição original. J. W.
Thirtle, na sua obra The Titles of the Psalms — “Os Títulos dos
Salmos” (1905), tem argumentado de maneira convincente que
muitos dos Salmos possuem não somente um título como também
um pós-escrito. Numa época posterior, porém, os pós-escritos de
alguns Salmos foram confundidos com títulos de Salmos seguintes,
onde foram colocados pelos escribas. Considerou-se que os seguin-
tes tipos de material pertencessem à anotação no fim da compo-
sição: 1) a anotação “ao mestre de canto”; 2) direções musicais
indicando que tipo de instrumento deve ser tocado (assim como
neginõt ou “instrumentos de cordas”; nehílõt, ou “instrumentos
de sopro”) ; e 3) a ocasião (ou melodia) que se aplicava ao Salmo
em questão, e.g. 'al müt lab-bên no Salmo 9 e ’al-ayyelet hashshahar
no Salmo 22. Noutras palavras, se elementos deste tipo aparecem 
num título dum Salmo, então, segundo Thirtle, foram transferidos
do pós-escrito original no fim do Salmo anterior. Quando se re-
move tais elementos, então parece que o título original contém
apenas três elementos, como segue: 1) a descrição do gênero, tal
como mizmõr ou “salmo”; maskíl ou “instrução”; shír ou “cântico”;
mikhtãm ou “cântico de expiação”, etc. 2) a designação do autor,
“de Davi”, “de Asafe” etc.; 3) a ocasião (e.g. “quando fugia de Absa-
lão”, ou “que cantou ao Senhor concernente às palavras de Cuxe”,
etc.). Thirtle indicou que alguns dos hinos egípcios e acadianos
terminavam com uma anotação final incluindo a expressão “até
ao fim” — que pode ter sido um fator que influenciou a LXX a tra-
duzir lam-menassêah como eis to telos (“até ao fim”). (Neste as-
sunto, deve ser mencionado que no caso dos títulos de Thirtle há
cerca de 25 discrepâncias entre os títulos dos Salmos da LXX e do
TM. Por exemplo, sete vezes há salmos onde o TM não diz mizmõr;
sete têm õdê onde não há shír no TM; e cinco na LXX têm allêlouia
onde o Hebraico não tem halleluyah).

Termos Técnicos nos Títulos dos Salmos

Tipos de Salmos

1. Mizmõr ou “salmo” era um cântico feito para ser acom-
panhado por música de instrumentos, originalmente um instru-
mento de cordas; deriva-se de zãmar “tanger” (mas cf. também
o Árabe zamara “tocar taquara”). 57 dos Salmos recebem esta de-
signação.

2. Shír ou “cântico” não diz nada acerca do acompanha-
mento musical. É simplesmente um termo geral da música
vocal. 27 Salmos se descrevem assim; 15 destes são chaados shír
hamma’aloth ou “cântico de subidas”.

3. Maskíl ou poema didático, ou poema contemplativo (o ver-
bo do qual o nome foi derivado, hiskíl pode significar dar atenção,
considerar, pensar profundamente; dar introspecção, ensinar al-
guém). Consta como título de 13 Salmos. Sendo que o conteúdo
destes Salmos não é, de modo nenhum, unicamente didático, prova-
velmente deveríamos preferir a interpretação “contemplativo”.

4. Miktãm é um termo disputado. Se é derivado da raiz que
significa “cobrir” (cf. Árabe katama e Acadiano katãmu, ambos os
quais significam “cobrir”), pode significar “cântico de cobrir ou
expiar o pecado” (assim Mowinckel). O Hebraico posterior enten- 
deu que esta palavra significava “epigrama” (daí a LXX stêlogra-
phia) ou “gravação”, como se se referisse a uma composição feita
para gravar pensamentos memoráveis, expressões sábias, ou refrãos
eloqüentes. Seis Salmos receberam este título.

5. Tepillah simplesmente significa “oração”. Cinco Salmos
são designados assim.

6. Tehillah significa “cântico de louvor”, e se acha no título
de cinco Salmos. Note-se que esta palavra no plural, Tehillim, for-
nece o título Hebraico do Livro inteiro dos Salmos.

7. Shiggãyõn pode talvez significar “cântico irregular ou
errante” (de shãgah “vaguear”); uma ode irregular ditirâmbica.
(Só o SI 7 tem este termo, mas o salmo em Hc 3 também o tem).
Termos Musicais nos Títulos

1. Lam-menassêah, conforme explicação acima, significa “Ao
mestre do canto”. Tem sido plausivelmente sugerido que este termo
foi acrescentado àqueles Salmos que formavam uma antologia es-
pecial feita pelo líder do coro do templo para a conveniência dos
cantores — ao invés de incluir o grupo inteiro de 150 Salmos no
repertório normal dos seus grupos corais. 55 dos Salmos recebem
este título.

2. Negínõt significa “instrumentos de cordas”, ou “cânticos
a serem cantados com o acompanhamento de instrumentos de
cordas”.

3. Nehillõt significa “instrumentos de sopro” (cf. hãlíl,
“flauta”).

4. Shemínít parece ser ou “alaúde de oito cordas”, ou, pos-
sivelmente “uma oitava” (i.é. uma oitava mais baixo do que o so-
prano ou ’alãmõth).

5. ’alãmõth ou “virgens” pode significar “soprano” ou “tom
alto” (cf. I Cr 15:20).

6. Mahalath quer dizer “doença/tristeza”, e pode, portanto,
sugerir um cântico de lamentações.

Indicadores de Melodia

Algumas das palavras críticas no Salmo e nos seus títulos
podem indicar a ocasião na qual o Salmo foi composto; ou, mais 
provavelmente, as primeiras palavras duma melodia então bem co-
nhecida, segundo a qual o Salmo devia ser cantado, assim como
diríamos hoje, “Cantar com a música do Hino 365”.

1. ’al müt lab-bên no Salmo 9 pode indicar alguma canção
bem conhecida, começando com as palavras, “A morte de um fi-
lho. ..” (a preposição ,al é interpretada “segundo”).

2. ’al ayyelet hash-shahar significa “segundo a gazela da
manhã” (SI 22).

3. Shüshãn ou ’al shõshanním refere-se ao lírio, e significa-
va “Aos lírios”.

4. ,al taschêt parece significar “Não destrua”, ou “Não cor-
rompa”. Aparentemente estas palavras iniciavam uma canção bem
conhecida, cuja melodia tinha que ser seguida aqui.

5. ’al Yõnat ’êlem rehõqím significa, segundo parece, “Pomba
de silêncio os que estão longe...” Tem havido sugestões de mudar
a vocalização para ’êlím rehõqím ou “terebintos longínqüos”.

Um termo técnico que não ocorre nos títulos dos Salmos é a
palavra desconcertante selah. Enquanto muitas explicações têm
sido dadas para esta palavra, a mais plausível é aquela que se de-
riva da raiz sãlal que significa “levantar”. A LXX traduz diapsa-
lama, que quer dizer “interlúdio musical”. Selah pois, não é uma
palavra a ser lida a alta voz, mas simplesmente um aviso ao reci-
tante que deve fazer uma pausa na sua leitura, para permitir
um período para o acompanhamento musical; senão, é um sinal
para ele erguer a voz para uma intensidade ou tom mais alto.
Salmo 67:1,2 contém selah no meio da frase, e isto dificulta a inter-
pretação de ser uma pausa para o interlúdio musical. Porém, na
maioria dos outros casos, esta interpretação parece ser bem apro-
priada.

Salmos 120 — 134 contêm nos seus títulos a expressão “cân-
tico de subidas” (“de romagem” em português) — Hebraico shír
hama’alót. Uma antiga tradição judaica explica que é uma refe-
rência a uma escadaria semicircular subindo à corte dos homens
no templo (Misná: Middoth 2:5). Uma explicação mais provável
é que estas “subidas” se referissem às etapas da romagem até Jeru-
salém (a palavra ma’aiót sendo derivada do verbo ’ãlah “subir”, i é. a Jerusalém). Alguns preferem interpretar como “procissões”
(de peregrinos), por metonimia de “subida”. Daí, seriam cânticos 
de peregrino, a serem cantados no caminho de Jerusalém para os
dias anuais de festas. Esta explicação parece preferível à de Gese-
nius e Delitzsch, que referem a palavra ao movimento progressivo,
passo a passo, dos pensamentos expressos nos próprios Salmos;
infelizmente para esta teoria, alguns Salmos do grupo não revelam
nenhum traço desta característica (e.g. Salmos 125 e 133).

Os Salmos Messiânicos

Um dos aspectos mais notáveis do Saltério é sua alusão fre-
qüente ao Messias vindouro. O Salmo 2:7, que chama o rei de Israel
de Filho de Deus, é citado ou aludido em Mt 3:17; At 13:33; Hb 1:5;
5:5; 7:28; II Pe 1:17, como sendo uma referência a Cristo. Jesus
citava Salmo 22:1 enquanto estava pendurado na Cruz, aproprian-
do o Salmo à Sua própria Pessoa. Quanto a outros Salmos messiâ-
nicos, compare SI 110:1 com Mt 22:44; Mc 12:36; Lc 20:42; At 2:34;
Hb 1:13. Compare também SI 45:6,7 com Hb 1:8,9; SI 69:4 com
Jo 15:25; SI 69:9 com Jo 2:17; SI 16:10 com At 2:25-28 e At 13:55;
SI 8:5,6 com Hb 2:6-9; SI 8:2 com Mt 21:15,16; SI 118:22,23 com
Mt 21:42. Exemplos de outros Salmos, geralmente classificados como
messiânicos, são os Salmos 40, 41, 68, 72, 102 e 109.

Os Salmos Imprecatórios

Vários Salmos contêm apelos para que Deus derrame Sua ira
sobre os inimigos do Salmista. Estes apresentam certa dificuldade
para serem reconciliados com o pensamento cristão. Mesmo assim,
é uma explicação falha, dizer que estas expressões são sentimentos
degenerados e sub-cristãos que foram permitidos no cânon sagrado
através do princípio de “revelação progressiva”. A revelação pro-
gressiva não deve ser considerada como sendo um progresso do
erro para a verdade, mas como um progresso do parcial e obscuro
para o completo e claro. Um evangélico consistente precisa sus-
tentar que todas as partes da Palavra de Deus são verdadeiras no
sentido tencionado pelo autor original sob a inspiração do Espírito
Santo, mesmo quando expressas em linguagem que talvez tenha
sido mais compreensiva e relevante ao povo de Deus na época da
sua composição do que em épocas posteriores.

É importante reconhecer que antes da primeira vinda de Cristo,
a única maneira palpável pela qual a verdade das Escrituras pode-
ria ser demonstrada aos observadores humanos, seria o teste prag-
mático do desastre acontecendo aos que estavam errados, e do 
livramento dado aos que se apegavam à verdade. Enquanto os
maus continuavam a triunfar, sua prosperidade parecia refutar
a santidade e a soberania do Deus de Israel. Um hebreu que cria,
na época do Antigo Testamento, só podia sentir grande aflição de
espírito enquanto aquele estado de coisas continuava. Identifican-
do-se completamente com a causa de Deus, só podia considerar os
inimigos de Deus como seus próprios inimigos, implorando a Deus
que sustentasse Sua própria honra e justificasse Sua própria justiça,
ao impor uma destruição esmagadora sobre aqueles que, na teoria
ou na prática, negassem Sua soberania e Sua lei. Só depois da
exibição suprema da ira de Deus contra o pecado, demonstrada pela
morte do Seu Filho na Cruz, veio a ser possível ao que crê, esperar
pacientemente enquanto a longanimidade de Deus permitisse aos
maus gozar dos seus sucessos temporários. Além disto, a própria
longanimidade de Deus não foi corretamente entendida até que
Jesus veio à terra ensinar Seu amor aos homens. 

Fonte: ARCHER, Gleason L. Merece Confiança o Antigo Testamento? 4º ed. São Paulo : Vida Nova, 2003.