18 de fevereiro de 2015

DAVID J. A. CLINES - Introdução ao Pentateuco

Introdução ao Pentateuco

DAVID J. A. CLINES

Forma

Os cinco primeiros livros do AT, o Pentateuco, constituem basicamente uma narrativa que descreve o período desde a criação do mundo até a morte de Moisés. Essa forma imediatamente chama a nossa atenção para a natureza desses livros. Embora contenham uma grande porção de leis, não são essencialmente livros legislativos; embora contenham genealogias e discursos (este aspecto está principalmente em Deuteronômio), não servem simplesmente como um registro do passado ou uma fala dirigida ao presente. Basicamente, esses livros contam uma história em que as ações de Deus com a humanidade, e mais especificamente com o seu povo Israel, são relatadas. E essa história não existe para entretenimento, nem para satisfazer a curiosidade acerca do passado, mas para instruir o povo de Deus sobre a natureza do seu Deus com o qual eles ainda mantêm um relacionamento.


Esses livros são chamados de Torá pelos judeus. Esse termo é tradicionalmente traduzido por “lei”, e tem prevalecido desde os tempos pré-cristãos o ponto de vista de que o Pentateuco é essencialmente isso. Visto que tem sido reconhecido universalmente, tanto por judeus como por cristãos, que o Pentateuco é a mais importante das três divisões do cânon hebraico (Torá, Profetas e Escritos), o AT como um todo às vezes é considerado lei. Assim, por exemplo, Lutero escreveu em seu Preface to the OT (1523): “Saibam então que o AT é um livro de leis, que ensinam o que os homens devem e não devem fazer, e dá, além disso, exemplos de como essas leis são obedecidas ou violadas; assim como o NT é um livro do evangelho, ou livro da graça”. Mas esse ponto de vista fundamenta-se numa compreensão errônea da “torá”; ela não significa primeiramente “lei”, mas “orientação” ou “instrução”. Assim, as histórias de Jacó e José são “torá” tanto quanto o são os mandamentos dados no Sinai, a narrativa da travessia do mar Vermelho (Ex 14) e o discurso de encorajamento de Moisés às tribos que estavam prestes a entrar na terra (Dt 31).

“Torá” como “orientação” aparece de diversas formas no Pentateuco. As vezes, de fato, a “torá” é explicitamente diretiva, como nos Dez Mandamentos, que têm a forma de um chefe se dirigindo à sua tribo, ou um rei que fala a seus súditos, ou como nas muitas leis sociais, quer no estilo de máximas legais (e.g., Ex 21.17) quer no estilo de casos hipotéticos (e.g., Ex 21.2-6). Mas outras vezes aparece em estilo de inventário, na forma de uma lista de nações (e.g., Gn 10) ou de genealogias (e.g., Gn 5) ou de listas de despojos (Nm 31.32-47), e, com mais frequência, em forma de narrativa, como na maior parte de Gênesis e Ex 1—19. A “orientação” proposta pelos trechos de narrativa da Torá é indireta e não explícita. Em alguns casos, nos são apresentados modelos para imitação (como no caso da fidelidade de Abraão ou da retidão de José), mas até mesmo aqui (e mais especificamente nas histórias como a de quando Abraão se apavorou ou da farsa de Jacó) o narrador é mais do que um mero moralista; sua história com frequência é uma “orientação” menos didática acerca do comportamento pessoal do que “orientação” para a realidade de que Deus está realizando os seus propósitos por meio de homens bons e maus.

Assim, a Torá não se ocupa primeiramente com a tarefa de dar “orientação” por meio de um conjunto amplo e abrangente de regras para a vida; nem por meio de um sistema teológico coerente; nem ao contar a história do passado com repetidas aplicações claras de lições morais para o presente. A sua orientação é múltipla, e em grande parte indireta, pois o leitor nunca pode esquecer que até mesmo a “orientação” mais diretiva está assentada no quadro geral da narrativa de Gênesis a Deuteronômio. Tudo está ligado a algum ponto do tempo e do espaço, não para tornar o seu ensino meramente local e temporário, mas para mostrar que ele proporciona “orientação”, e não “lei”.

Tema

A nossa primeira pista para o tema do Pentateuco vem da forma em que ele e seus diversos livros são concluídos. E extraordinário que eles não terminem em um ponto de descanso ou de satisfação, mas com um tom de expectativa e tensão. Assim, Deuteronômio, e com ele todo o Pentateuco, conclui com Israel prestes a entrar na terra prometida. No seu final, aponta para o futuro por meio do discurso de despedida de Moisés (31.2-6) e a apresentação de Js (31.7,8; 34.9), que iria conduzir Israel para Canaã. Ele não deixa o leitor com uma história completa, concluída pela morte do herói da obra, antes olha para o desenvolvimento da história que acaba de começar. Em todo o livro de Deuteronômio, e não somente no seu início, essa perspectiva futurista é evidente: suas duas frases mais repetidas são “entre e tome posse” (35 vezes) e “a terra que o SENHOR seu Deus lhe está dando” (34 vezes).

Se nos voltarmos agora para o final de Gênesis, embora pareça, à luz do último versículo do livro (“Morreu José com a idade de cento e dez anos. E, depois de embalsamado, foi colocado num sarcófago no Egito”, 50.26), que chegamos a um ponto de repouso, no contexto do versículo precedente isso francamente não é o caso. Pois, antes da sua morte, José garantira a seus filhos: “Quando Deus intervier em favor de vocês, levem os meus ossos daqui” (50.25). Assim, o caixão no Egito não é nada permanente, mas significa, paradoxalmente, direcionar a visão do leitor para o futuro.

O livro de Êxodo também conclui com uma frase aberta: “De dia a nuvem do SENHOR ficava sobre o tabernáculo, e de noite havia fogo na nuvem, à vista de toda a nação de Israel, em todas as suas viagens” (40.38): Israel ainda está a caminho, ainda está na jornada. O êxodo (a “saída”) já foi concluído, mas ainda não houve o eisodos (a “entrada”).

Levítico e Números, embora aparentemente estáticos e imóveis com o seu peso acumulado de leis e prescrições para o culto, mesmo assim mantêm, por meio de suas conclusões, essa impressão de movimento. Assim, Levítico são “os mandamentos que o SENHOR ordenou a Moisés, no monte Sinai, para os israelitas” (27.34), enquanto Números traz o local ainda mais perto da terra prometida, pois é constituído de “mandamentos e [...] ordenanças que o SENHOR deu aos israelitas por intermédio de Moisés nas campinas de Moabe, junto ao Jordão, frente a Jericó” (36.13). Deuteronômio, embora assentado no mesmo local de Números, marca um progresso em relação a Números em virtude de seu aspecto mais direcionado para o futuro, como já observamos.

Assim, no Pentateuco lidamos com uma história que tem certa qualidade dinâmica e que, apesar de seu ritmo vagaroso e de suas frequentes paradas, está constantemente olhando para o futuro. Qual é então o estímulo que inicia esse padrão de movimento?

O motivo principal da ação do Pentateuco não deve ser encontrado na “história primeva” (Gn 1—11) com a qual abre a narrativa, pois aí a dinâmica das histórias é proporcionada pela iniciativa humana (pecaminosa) que é correspondida por atos ainda mais generosos do perdão divino. Gn 1—11 somente serve para mostrar que as iniciativas do homem o afundaram cada vez mais no pecado.

Mas no cap. 12, com a promessa a Abraão, a iniciativa passa totalmente para as mãos de Deus. A partir de agora, a história não vai ser de iniciativas humanas abençoadas ou julgadas por Deus, mas do cumprimento da promessa que o próprio Deus fez, apesar da incredulidade e do antagonismo humanos.

A promessa de Gn 12.1ss contém três elementos: uma posteridade (“Farei de você um grande povo”), um relacionamento (“e o abençoarei”) e uma terra (“a terra que eu lhe mostrarei”). Em outras passagens da narrativa de Abraão, a promessa é repetida, com ênfases diversas: em 13.14-17, a terra e a posteridade são destacadas (“toda a terra que você está vendo darei a você e à sua descendência para sempre”, v. 15); em 15.5, a posteridade (“conte as estrelas [...]. Assim será a sua descendência”); em 15.7-20, a terra (“Eu sou o SENHOR, que o tirei de Ur dos caldeus para dar-lhe esta terra como herança”, v. 7), que será dada à posteridade de Abraão (“Aos seus descendentes dei esta terra”, v. 18); no cap. 17, o relacionamento, na forma da aliança (“Estabelecerei a minha aliança entre mim e você”, v. 2; “Estabelecerei a minha aliança como aliança eterna entre mim e você e os seus futuros descendentes, para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes”, v. 7) e a terra (“Toda a terra de Ganaã, onde agora você é estrangeiro, darei como propriedade perpétua a você e a seus descendentes; e serei o Deus deles”, v. 8). E o cumprimento (e o não cumprimento parcial) dessas três promessas que pode ser considerado o tema do Pentateuco.

A posteridade é claramente o tema de Gênesis. Para começar, todo o ciclo das narrativas de Abraão gira em torno desse tópico. Nessas narrativas, o tema aparece principalmente na forma de perguntas angustiantes. Primeira: Será que vai haver um filho? Segunda; O que será dele? Ele viverá para gerar uma posteridade (cf. Gn 22)? As outras histórias dos patriarcas continuam a se ocupar essencialmente com o tema da família e de sua preservação. Aqui está o significado da narrativa tríplice da “ancestral em perigo” (Gn 12; 20; 26); é importante porque o perigo para a esposa do patriarca é uma ameaça para o cumprimento da promessa. Aqui está também o significado da esterilidade das esposas dos patriarcas (Sara, Rebeca, Raquel) e o significado das épocas de fome na terra de Canaã (Gn 12.10; 26.1; 41.54) que ameaçam a sobrevivência da família patriarcal. E mesmo assim a promessa da posteridade para Abraão não é vazia: já se cumpriu no nascimento de Isaque (Gn 21) e, em certo sentido, no nascimento de Ismael (Gn 16). Apesar disso não se cumpriu totalmente-, quantas gerações ainda são necessárias para que o número dos descendentes de Israel seja como o pó da terra?

Os temas da terra e do relacionamento também aparecem em Gênesis com um papel menos importante: a terra que é dada para que Abraão a possua é de fato explorada e ocupada pelos patriarcas, mas continua como propriedade dos cananeus — com exceção de um túmulo (Gn 23.17-20)! As narrativas dos patriarcas ocorrem fora da terra prometida quase tanto quanto dentro dela, e o livro chega ao final registrando que a família patriarcal está fora da terra, estabelecida firmemente no Egito. Só em pequena medida é que esse elemento da promessa começou a ser cumprido. Em relação à promessa do relacionamento entre Deus e a família patriarcal, esse de fato começou a se cumprir, mas de diferentes maneiras: Abraão desfruta de uma intimidade com Deus que lhe permite até discutir com o Todo-poderoso (Gn 18.22-33) e se encontra muitas vezes com ele; acerca de Isaque, sabemos somente que a bênção de Javé está sobre ele (26.12,24); no caso de Jacó, talvez possamos detectar um relacionamento com Deus que está amadurecendo, que no entanto inclui um voto por parte de Jacó que não revela reconhecimento algum da promessa divina (28.20,21); acerca de José, embora Javé esteja “com” ele (39.2,21) e ele “tema” a Deus (42.18), percebemos que o relacionamento parece distante. Em suma, no livro de Gênesis não fica claro de forma alguma qual deve ser a natureza da promessa desse relacionamento divino—humano.

Esse elemento do relacionamento entre Deus e os descendentes de Abraão é evidenciado mais claramente nos livros de Êxodo e Levítico. Tanto no êxodo quanto no Sinai, torna-se claro o que significa a promessa das palavras “eu o abençoarei”, “farei a minha aliança com você”, “serei o seu Deus”. A bênção de Deus vem em forma de salvação da opressão no Egito e por meio do presente da Lei; a aliança com os patriarcas fornece a motivação para que Deus liberte Israel do Egito (Êx 2.24,25; 6.4,5) e ela é ratificada pela aliança do Sinai (caps. 20—23; cf. 19.5; 24.7,8); a promessa “eu serei o seu Deus” é tornada definitiva pelo êxodo (6.6,7) e é ampliada pelas palavras do Sinai que começam com “Eu sou o SENHOR [Javé], o teu Deus” (20.2). Levítico explana em detalhes como o relacionamento que agora foi estabelecido por Deus com Israel deve ser mantido: o sistema sacrificial deve existir não como um meio humano de acesso a Deus, mas como o método ordenado por Deus pelo qual violações da aliança possam ser reparadas. Ao longo de todo o “código de santidade” (caps. 17—26) de Levítico, é exatamente essa questão do relacionamento entre Deus e Israel que é destacada na fórmula recorrente “Sejam santos, porque eu, o SENHOR, O Deus de vocês, sou santo” (e.g., 19.2). A santidade aqui não consiste tanto em pureza ética, mas na sua distinção das nações da terra por ser propriedade de Javé. Acima de tudo, Levítico ocupa-se do relacionamento com Deus, como mostra a sua conclusão resumida: “São esses os mandamentos que o SENHOR ordenou a Moisés, no monte Sinai, para os israelitas” (27.34).

No entanto, apesar dos cumprimentos da promessa de um relacionamento que devemos encontrar nesses livros, essa não é uma promessa que possa se cumprir totalmente em época alguma. Pois o que é prometido não é um contrato que pode ser assinado, selado e entregue, e então depositado e guardado nas caixas-fortes do passado, mas um relacionamento pessoal. “Relacionamento” é uma palavra dinâmica, pois o relacionamento não pode permanecer estático. Assim, no êxodo algo é colocado em marcha antes de ser realizado; o êxodo é apenas uma saída, e, portanto, um começo; as palavras de Deus do Sinai dizem: “façam isso, não façam aquilo”. Portanto, tanto Êxodo quanto Levítico apontam para o futuro como ainda não realizado, um futuro em que Israel ainda vai precisar descobrir o que essa promessa de relacionamento, “eu serei o seu Deus”, vai significar.

Com relação à promessa da terra, é em Números e Deuteronômio que esse elemento da promessa patriarcal aproxima-se mais da superfície. O censo do povo com que se inicia o livro de Números não é uma brincadeira ou um jogo inútil feito para matar o tempo na monotonia da peregrinação pelo deserto. É retratado como o preparativo inicial para a ocupação da terra, pois é um censo de todas as pessoas do sexo masculino, “todos os homens que possam servir no exército, de vinte anos para cima” (1.3); está claro desde o início que a terra que foi prometida mesmo assim terá de ser conquistada. E, após esse censo no Sinai, toda a atenção se volta para a terra como o destino de toda a jornada israelita. Moisés diz a seu sogro: “Estamos partindo para o local a respeito do qual o SENHOR disse: ‘Eu o darei a vocês’ ” (10.29); e partiram, com a arca da aliança e a nuvem de Javé à frente deles (10.33,34). Alguns capítulos depois, Israel está parado na fronteira de Canaã, e os espiões são enviados e de fato entram na terra (cap. 13). Após isso, o livro gira em torno da questão de se e quando Israel vai entrar na terra. Há uma tentativa de voltar para o Egito, e há também um novo compromisso — tarde demais — para entrar na terra (cap. 14); há mandamentos relacionados ao tempo “quando entrarem na terra que lhes dou para sua habitação” (cap. 15; cf. 15.2); há movimento em direção da terra por uma rota tortuosa (caps. 20—24); há instruções acerca da extensão e divisão da terra (cap. 34). Acima de tudo, ocorre a real ocupação da terra — isto é, aquela parte que está a leste do Jordão — por parte das tribos de Gade e Rúbem e metade da tribo de Manasses (cap. 32; cf. 32.33). Portanto, em Números a promessa não continua como simples promessa para o futuro: é parcialmente cumprida, embora em grande parte ainda não esteja cumprida.

Em Deuteronômio, como já observamos, o destaque está na terra em que Israel está prestes a entrar; as suas leis são “os decretos e ordenanças que vocês devem ter o cuidado de cumprir enquanto viverem na terra que o SENHOR, o Deus dos seus antepassados, deu a vocês como herança” (4.1; cf. 12.1). Israel é tratado como um povo que “está atravessando o Jordão para entrar na terra e conquistar nações maiores e mais poderosas do que você” (9.1). Ao chegar perto do final, Israel recebe instruções acerca de atravessar o Jordão “para entrar na terra que o SENHOR, o seu Deus, lhes dá, terra onde manam leite e mel, como o SENHOR, o Deus dos seus antepassados, lhes prometeu” (27.3), e recebe também a ordem de entrar na terra de forma corajosa (31.1-6), enquanto Moisés finalmente tem um vislumbre da terra em que ele mesmo nunca vai entrar (32.48-52; 34.1-4). A promessa da terra começa a ter efeito, mas para a maior parte do povo o seu cumprimento ainda está no futuro.

Assim, toda a estrutura do Pentateuco é modelada pelas promessas a Abraão e o seu cumprimento, que nunca são definitivos e finais mas sempre apontam além delas mesmas para um futuro que ainda vai ser realizado. O Pentateuco como um todo dá testemunho de um Deus que está à frente do seu povo, chamando-o para o futuro; o Deus de Abraão, Isaque e Jacó não é um Deus dos mortos, mas dos vivos.

Origem

Questões acerca da origem do Pentateuco ocupam muitas páginas na maioria das “introduções” ao Antigo Testamento. Isso é fato em obras de erudição “crítica”, como as de O. Essfeldt e G. Fohrer, e em obras conservadoras ou fundamentalistas, como as de R. K. Harrison ou E. J. Young. Pode-se argumentar, no entanto, que, visto que as soluções para os problemas da origem do Pentateuco em grande parte continuam especulativas ou pelo menos hipotéticas, na ausência de quaisquer documentos dos quais o Pentateuco possa ter sido compilado, muito da atividade erudita nessa área tem sido mal direcionada. Assim, é mais importante, tanto do ponto de vista religioso quanto do literário, tentar interpretar o Pentateuco assim como o temos do que debater questões acerca de sua pré- história literária. Com isso, não estamos negando que a origem do Pentateuco seja um legítimo campo de pesquisa, nem que hipóteses aceitáveis do processo de sua formação possam esclarecer o texto na sua forma final. O ponto em questão é o das prioridades.

Embora o Pentateuco veio a ser conhecido como os “livros de Moisés”, especialmente no contexto de fala inglesa e alemã (visto que Moisés é mais proeminente do que qualquer outra personagem na sua narrativa, e visto que a Lei foi transmitida a Israel por meio dele), o próprio Pentateuco dá crédito explícito a Moisés como seu autor de somente uma parte relativamente pequena do seu conteúdo (Ex 24.4-8, referindo-se aos caps. 21—23, o “Livro da Aliança”; Nm 33.2, referindo-se ao cap. 33, o itinerário de Israel no deserto; Dt 31.19,22, referindo-se ao cap. 32, o cântico de Moisés; e Dt 31.24ss, referindo- se provavelmente aos Dez Mandamentos de 5.6-21). Isso não quer dizer que Moisés não possa ter sido responsável por uma parte muito maior da composição dos cinco livros, mas simplesmente que nos faltam indícios conclusivos. O costume, presente na época do NT e dos escritos rabínicos, de se referir a todo o Pentateuco como palavras de Moisés (e.g., Mt 8.4; Lc 20.37; At 3.22) não necessariamente apóia o ponto de vista de que Moisés escreveu o Pentateuco, visto que “Moisés” tinha se tornado uma forma conveniente de se referir aos cinco primeiros livros da Bíblia (cf. Lc 24.27; 2Co 3.15). No entanto, parece ceticismo desnecessário negar que a obra e o ensino de Moisés tenham sido o estímulo inicial para a composição do Pentateuco e que uma boa parte do seu conteúdo, além das passagens explicitamente atribuídas a ele, seja de fato da autoria de Moisés; quanto do Pentateuco é representado por isso deve permanecer como uma questão de opinião.

No entanto, a tendência preponderante dos estudos do AT é a de ignorar o papel de Moisés na composição do Pentateuco e explicar a sua origem como o resultado do processo de compilação de diversos documentos de diferentes períodos da história de Israel. Um dos primeiros passos em direção às atuais teorias da origem do Pentateuco foi dado em 1753 pelo autor francês Jean Astruc, na sua obra Conjectures on the original memoirs which Moses seems to have used in composing the Book of Genesis [Conjecturas sobre as memórias originais que Moisés parece ter usado para compor o livro de Gênesis], Embora não negasse a autoria mosaica de Gênesis, Astruc concluiu que dois documentos — um usando o nome divino Yahweh (Javé), e o outro, o nome divino Elohim (“Deus”) — estavam por trás do atual livro de Gênesis. Ao longo de todo o século XIX, várias teorias documentárias foram desenvolvidas, com atenção especial para o uso linguístico diferenciado e as aparentes discrepâncias narrativas nas diversas unidades do Pentateuco. Alcançou-se um estágio importante na obra de W. M. L. de Wette (1807), que estabeleceu o primeiro elo sólido entre a fonte do Pentateuco e a história de Israel quando identificou Deuteronômio como o Livro da Lei usado por Josias na sua reforma (2Rs 22 e 23) e conjecturou ainda que Deuteronômio provavelmente fora escrito naquela época (621 a.C.). A forma clássica da teoria documentária do Pentateuco foi desenvolvida em vários livros, entre 1876 e 1883, pelo crítico alemão Julius Wellhausen. De acordo com Wellhausen, a fonte mais antiga do Pentateuco foi o documento J (assim chamado de acordo com o seu autor, o javista, que usava o nome Javé para Deus) do século IX a.C. O documento E (do eloísta, que empregou o termo Elohim para Deus) veio do século VIII a.C., e as fontes J e E foram reunidas por um editor na metade do século VII a.C. O livro de Deuteronômio (D), uma fonte separada datada de 621 a.C., foi acrescentada ao material JE na metade do século VI a.C. A última das fontes principais, a obra sacerdotal (P, de priester, em alemão), foi escrita na primeira metade do século V a.C. e composta com as fontes anteriores em torno de 400 a.C. Assim, o Pentateuco como o conhecemos não veio a existir antes do final do século V a.C.

Essa teoria da composição do Pentateuco talvez ainda seja considerada o consenso entre os eruditos do AT, mas muitas críticas sérias são levantadas contra ela, e o coro da dissenção tornou-se cada vez mais marcante nos últimos anos. Entre os que ainda a defendem na sua essência, há a tendência de datar o javista um século mais cedo, no tempo da monarquia unida, para favorecer uma data no século VIII e não no século VII a.C., para a composição de pelo menos um cerne de Deuteronômio, e para permitir que a obra sacerdotal (P), colocada em forma escrita durante o exílio no século VI a.C., em vez de após o exílio no século V, possa acomodar material bem mais antigo.

Críticas muito mais severas vêm de vários cantos. Eruditos conservadores, entre eles autores protestantes, católicos e judeus, argumentam repetidamente que os critérios usados pela escola documentária na análise das diversas fontes por trás do Pentateuco são altamente questionáveis, e que outros fatores que não diferentes fontes poderiam explicar as variações linguísticas e aparentes incoerências narrativas no Pentateuco. No entanto, os estudiosos evangélicos não estão comprometidos em negar a adequação de se buscar fontes que possam estar por trás do Pentateuco nem de afirmar que o Pentateuco como o temos hoje vem diretamente da mão de Moisés. Outro tipo de crítica da hipótese documentária vem daqueles eruditos, principalmente escandinavos, que destacam o papel da tradição oral na transmissão de narrativas antigas e consideram anacrônico o conceito de composição do Pentateuco como um processo essencialmente literário. Embora algumas de suas críticas sejam exageradas, sua contribuição tem pelo menos o efeito de estimular o interesse pela fase pré-literária, da transmissão oral do texto.

Um aspecto mais positivo da crítica das fontes relativa ao Pentateuco, que no passado teve muitas vezes um tom negativo e destrutivo, é o desenvolvimento nas últimas duas décadas da preocupação com os autores das supostas fontes do Pentateuco como teólogos que transmitiram, por meio da sua apresentação da história tradicional de Israel, uma mensagem a seus contemporâneos. Assim, a obra do javista é considerada uma mensagem dirigida à época de Salomão, instando Israel a ser bênção para as nações de acordo com a promessa a Abraão em Gn 12; a obra do eloísta é um apelo ao Israel do século IX para viver no “temor” de Javé em contraste com os cultos estrangeiros que tanto fascínio exerciam sobre Israel; a obra do deuteronomista é um programa de reforma nacional, destacando a unidade de Israel e chamando o povo à adoração unificada de Javé; enquanto a obra sacerdotal (P) é dirigida aos exilados na Babilônia, reiterando a autenticidade da religião de Israel e suas tradições cúlticas e renovando a promessa divina da bênção e da fartura na terra (Gn 1.26) a uma geração que tinha quase perdido a esperança no futuro.

Mesmo assim, até essa insistência positiva na mensagem teológica do Pentateuco ainda está fundamentada na análise das fontes e na datação que lhes é atribuída na hipótese documentária tradicional ou numa leve modificação dela. Todos os sinais no momento apontam para o fato de que essa hipótese está sendo lançada novamente no crisol e que atualmente ninguém pode predizer com certeza o que vai ser a forma da crítica do Pentateuco nas próximas décadas.

BIBLIOGRAFIA

Do ponto de vista conservador

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FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.