27 de janeiro de 2015

Roland de Vaux - A Monarquia Dualista

Uma tradição apresenta a realeza de Davi como continuação da de Saul, com o mesmo aspecto carismático. Deus, que tinha rejeitado Saul, escolheu a Davi como rei de seu povo, I Sm 16.1; Davi foi ungido por Samuel, I Sm 16.12-13, como o havia sido Saul, e o espírito de Iahvé se apossou de Davi, I Sm 16.13, como se apossou de Saul. Mas essa Iradição, que afirma o sentido religioso profundo que o poder sempre teve em Israel, não tem contato com a história Imediata. A realeza de Davi é muito diferente da de Saul, tanto por suas ori­gens, quanto por seu desenvolvimento. Davi é um chefe de mercenários, pri­meiro a serviço de Saul, I Sm 18.5, e depois, por sua própria conta, I Sm 22.2, finalmente a serviço dos filisteus, que o constituem chefe de Ziclague, I Sm
27.6.   Depois da morte de Saul, é consagrado rei não por um profeta, mas pelos homens de Judá, II Sm 2.4”.


Desde o início, Judá teve uma história à parte. Com Simeão, os calebitas c os quenitas, ela havia conquistado seu território independentemente da casa de José, Jz 1.3-19. Na época dos juizes, os enclaves cananeus (Jerusalém, as cidades gibeonitas, Gezer e Aijalom, Jz 1.21,29,35) formavam uma barreira entre Judá e as tribos do norte. Nada disso foi obstáculo para as relações reli­giosas e pessoais, Jz 17.7-8; 19. Is, mas manteve Judá afastada da vida comum das tribos: nem sequer é nomeada no cântico de Débora, Jz 5, que elogia as tribos que tomaram parte no combate e censura as que estiveram ausentes.

O papel que Jz 20.18 atribui a Judá na liderança da coalisão contra Benjamim é uma adição que imita Jz 1.1-2. Uma aproximação se realizou sob o reinado de Saul, que residia muito perto de Benjamim, e exercia certa autoridade em Judá, cf. particularmente I Sm 23.12-19s; 27.1. Entretanto, Judá conservava sua individualidade e a divisão voltou a surgir logo depois da morte de Saul, I Sm 2.7 e 9. Se a isso acrescentarmos que, segundo todas as aparências, Davi continuou sendo vassalo dos filisteus no começo de seu reinado em Hebrom e que se apoiou em sua guarda mercenária, inclusive para a tomada de Jerusa­lém, II Sm 5.6s, e não nas tropas recrutadas em massa, como antes havia feito Saul, I Sm 11.7, podemos perceber tudo o que separa essa primeira realeza de Davi da de Saul.

Nem depois elas se tornaram semelhantes. Quando depois do assassinato de Is-Baal e ante a persistência do perigo filisteu, os homens de Israel reco­nhecem a Davi por rei, eles não aderem ao reino já constituído de Judá, como Judá também não é absorvido por Israel, que era mais numeroso. Assim como os homens de Judá haviam ungido Davi como rei da casa de Judá, II Sm 2.4, os Anciãos de Israel conferem-lhe a unção como rei de Israel, II Sm 5.3. Espe­cifica-se que Davi reinou sete anos e seis meses em Judá e trinta e três anos “sobre todo Israel e sobre Judá”, II Sm 5.4-5. Quando Davi designar Salomão como seu sucessor, ele o constituirá chefe “sobre Israel e sobre Judá”, I Rs 1.35. Sem dúvida o reino de Davi e de Salomão tem uma unidade real, no sentido de que em toda parte se reconhece a autoridade de um mesmo soberano, con­tudo, compreende dois elementos distintos. A lista dos territórios de Salomão, 1 Rs 4.7-19a, deixa de lado o território de Judá que tinha administração à parte, é “a terra” de I Rs 4.19b. A mesma distinção existe do ponto de vista militar. Quando Davi ordena fazer o censo da população para o recrutamento em massa, estabelecem-se duas contagens, uma para Israel e outra para Judá, 1 Sm 24.1 -9; no cerco de Rabá acampam Israel e Judá, II Sm 11.11. Era, pois, um regime de união pessoal, um reino unido como o é a Grã-Bretanha, uma monarquia dualista como foi a Austro-Húngara ou, para buscar uma compara­ção mais próxima no espaço e no tempo, um Estado duplo como o reino de Hamat e de La*as, na Síria, que conhecemos por uma inscrição do século VIII antes de nossa era.

Por outro lado, o Estado de Davi e de Salomão já não tem um caráter puramente nacional. Sem dúvida, alguns autores exageraram a influência que exerciam sobre a política os enclaves cananeus reduzidos à obediência, no interior das fronteiras, por Davi e Salomão. Entretanto, as guerras exteriores de Davi submeteram e anexaram ao reino populações não israelitas: filisteus, edomitas, amonitas, moabitas, arameus, II Sm 8.1-14; sobre as quais deixa­vam reis vassalos, II Sm 8.2; 10.19; I Rs 2.39, ou se impunha governadores, 1Sm 8.6,14. À noção de um Estado nacional se substitui a de um império que quer ocupar o posto deixado vago nessas regiões pela decadência do império egípcio. O êxito foi efêmero e as conquistas foram em parte perdidas pelo Niicessor de Davi, I Rs 9.10s; 11.14-25, mas a idéia de império subsistiu, pelo menos como ideal, sob Salomão, I Rs 5.1; 9.19, e se expressou efetivamente com os grandes empreendimentos comerciais e a irradiação exterior da cultu­ra. I Rs 9.26-10.29. Essa evolução acarretou um desenvolvimento administra­tivo que foi iniciado por Davi, II Sm 20.23-26, e completado por Salomão, I Rs 4.1-6 e 7-19, seguindo, ao que parece, modelos egípcios.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.