17 de janeiro de 2015

Roland de Vaux - A Instituição da Monarquia

Já fazia muito tempo que os reinos relacionados de Amom, Moabe e Edom estavam constituídos quando a federação israelita continuava ainda politicamente amorfa. De repente, ela se constitui em Estado, e Saul torna-se o primeiro rei de Israel. Os livros de Samuel conservaram sobre a instituição da monarquia dois relatos paralelos, um dos quais lhe é favorável, I Sm 9.1-10.16; 11 e 15, que continua em 13-14 (salvo os acréscimos), e outro que lhe é contrário, I Sm 8.1-22; 10.18-25, que continua em 12 e 15. Segundo a primei¬ra tradição, a iniciativa vem de Deus, que escolhe Saul como libertador de seu povo, I Sm 9.16; conforme a segunda, é o povo mesmo que pede um rei para ser “como as outras nações”, I Sm 8.5,20; cf. Dt 17.14.



A evolução foi precipitada pelo perigo filisteu que ameaçava todo Israel e exigia uma ação comum. Assim se justifica a primeira tradição. Nela apare¬ce Saul como o que deu continuidade à obra dos juizes; como eles, ele é um salvador designado por Deus, I Sm 9.16; 10.1; ele recebe o espírito de Iahvé, Sm 10.6,10; 11.6, e como eles, liberta efetivamente seu povo, I Sm 11.1-11; 13-14. Mas pela primeira vez, esta escolha de Deus tem o reconhecimento de todo o povo: imediatamente depois da vitória contra os amonitas, Saul foi aclamado rei, I Sm 11.15.0 “líder carismático”, o nagíd ,1 Sm 9.16; 10.1, se converte em melek, “rei”, I Sm 11.15.

Isso foi uma grande novidade: a confederação israelita se torna um Estado nacional e se amolda, enfim, aos reinos próximos da Transjordânia. Aqui é onde a imitação das outras nações desempenhou seu papel, de que fala a segunda tradição. Pois esse Estado necessitava de instituições. O “direito do rei” que Samuel proclama, I Sm 8.11-17, e que se põe por escrito, I Sm 10.25, é um alerta contra essa imitação estrangeira. Como em Edom, Gn 36.31 -39, o principio dinástico não foi admitido imediatamente em Israel: nada foi deter¬minado para a sucessão de Saul e foi a autoridade pessoal de Abner que fez de Is-Baal um rei fantoche, II Sm 2.8-9, enquanto que os de Judá consagravam
Davi, II Sm 2.4. Como nos Estados nacionais, Saul convoca o povo de Israel para a guerra, I Sm 11.7; 15.4; 17.2; 28.4, mas aos comandos filisteus opõe tropas do mesmo gênero, menos numerosas e mais aguerridas que o exérci¬to popular, I Sm 13.2,15; 14.2, que recruta especialmente, I Sm 14.52, com um corpo de oficiais, I Sm 18.5,13, a quem presenteia com feudos, I Sm 22.7. f{ o começo de um exército profissional, no qual podem alistar-se mercenários estrangeiros, como o edomita Doegue, I Sm 21.8; 22.18. ls-Baal herdaria a guarda de seu pai, II Sm 2.12, e de seus dois chefes de tropas, Baaná e Recabe, que eram gibeonitas, II Sm 4.2.

Com Saul, mantém-se embrionária a instituição monárquica, nascida da confederação das tribos. Fora de sua função militar, não se sabe que outra autoridade exercia Saul. Excetuando o líder de seu exército, Abner, I Sm 14.50, não consta que tivesse ministros. Não havia governo central e as tribos, ou melhor os clãs, conservavam sua autonomia administrativa. O reinado de Davi marcará uma nova e decisiva etapa.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.