31 de janeiro de 2015

Roland de Vaux - A Concepção de Estado: Os Reinos de Israel e de Judá

OS REINOS DE ISRAEL E DE JUDÁ

Essa monarquia dual e essa tentativa de império duraram somente duas gerações. Com a morte de Salomão, Israel e Judá se separaram e formaram dois Estados nacionais, com províncias externas cada vez mais reduzidas. Mas a concepção de Estado é bastante diferente de uma e outra parte. Em Israel revive o aspecto carismático da época de Saul. Um profeta que fala em nome dc Iahvé, I Rs 11.31,37, promete o trono ao primeiro rei, Jeroboão, e este é logo reconhecido pelo povo, I Rs 12.20. Do mesmo modo Jeú é designado rei por Iahvé, I Rs 19.16, ungido por um discípulo de Eliseu, II Rs 9.1 s, aclamado pelo exército, II Rs 9.13. Deus é quem põe e tira os reis em Israel, I Rs 14.7s;
16.1 s; 21,20s; II Rs 9.7s; cf. Os 13.11. Mas Oséias também repreende o povo por ter constituído reis sem o consentimento de Deus, Os 8.4. De qualquer forma, a sucessão hereditária não foi reconhecida em Israel antes de Onri, e o princípio dinástico
jamais foi estabelecido completamente: a dinastia de Onri durou uns quarenta anos, a de Jeú um século, graças ao longo reinado de Jeroboão II, depois do qual em vinte anos se sucederam seis reis, quatro deles assassinados, até a conquista do reino pelos assírios.

Há um contraste chocante com o reino de Judá. Ali, admitiu-se, desde o começo, o princípio dinástico, que foi sancionado por uma intervenção divi¬na: a profecia de Natã promete a Davi uma casa e uma realeza que subsistirão para sempre, II Sm 7.8-16. A escolha de Deus, que na época dos juizes e de Saul, e de tempos em tempos em Israel, distingue um indivíduo, fixa-se aqui em uma linhagem e, uma vez feita essa escolha, a sucessão se estabelece por regras humanas. Quando Davi está para morrer, não se discute à sua volta acerca do princípio dinástico, mas apenas sobre qual de seus filhos lhe suce¬derá, e é o próprio Davi - e não Iahvé - quem designa a Salomão, I Rs 1.28-35. Mais tarde Judá, contrariamente a Israel, aceita sem discussão a Roboão, filho de Salomão, I Rs 12.1-20. Certamente, não faltarão em Judá as revoluções palacianas, mas sempre se manterá a linhagem davídica, graças à fidelidade do “povo da terra”, da nação, II Rs 11.13-20; 14.21; 21.24; 23.30.

É provável que, se estivéssemos melhor e mais homogeneamente informados sobre os dois reinos, apareceriam também outras diferenças institucionais. De qualquer modo, um fato é evidente: Israel e Judá são ora aliados, ora inimigos, mas sempre são independentes um do outro, e o estrangeiro considera-os como elementos distintos. Entretanto, esse dualismo político não impede que os habitantes se considerem como um só povo: eles são irmãos, I Rs 12.24; cf. II Cr 28.11, têm tradições nacionais comuns, e os livros dos Reis, ao apresentar sincronicamente a história de Judá e de Israel, entendem narrar os destinos de um mesmo povo. Este é unido por sua religião. Como jà o havia feito um homem de Deus que vinha de Judá, I Rs 13.1 s, o judeu Amos prega em Betel, não obstante a oposição de Amazias, que quer mandá-lo de volta para Judá, Am 7.10-13. No templo de Jerusalém rende-se culto a “Iahvé, Deus de Israel”. O nome Israel, que as condições políticas opõem com fre¬qüência a Judá como designação particular do reino do norte, conservou sem¬pre um significado mais amplo, e Is 8.14 fala das "duas casas de Israel”. Assim, através da divisão política do período monárquico, sobrevive a idéia religiosa da confederação das doze tribos, cuja reunião futura é esperada pelos profetas.

VAUX, Roland de. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Editora Teológica, 2003.