28 de janeiro de 2015

ROBERT B. CHISHOLM.JR - Uma teologia de Salmos: As Funções Régias de Deus

JUIZ

Plano de fundo do antigo Oriente Próximo. Preservar a ordem e a justiça era
responsabilidade principal dos reis no antigo mundo do Oriente Próximo. Os
nomes régios egípcios da décima segunda dinastia contêm os elementos ma’at, “justiça”, ou ma‘a, “justo”.’6 Os reis mesopotâmios se referiam à justiça nas suas
fórmulas de ano régio. Por exemplo, o segundo ano de Hamurábi era conhecido
por “o ano em que ele estabeleceu a justiça na terra”.  Em benefício da justiça,
proclamava-se uma liberação de dívidas.  Os reis também eram responsáveis em
ajudar os elementos fracos e destituídos da sociedade, entre eles as viúvas, os ór-
fãos e os pobres. Richard Patterson escreve: “Existem nas estipulações legais e na
literatura sapiencial babilónicas a ordem para cuidar das viúvas, órfãos e pobres,
visto que se esperava que o rei ideal, como representante vivo do deus da justiça, o
deus sol Samas, cuidasse dos elementos oprimidos e necessitados da sociedade”. 
Em um texto de Ugarite, Yassib denunciou o rei Keret da seguinte maneira: “Tu

não julgas a causa das viúvas, não processas o caso dos inoportunos. Tu não banes
os extorsivos dos pobres, não alimentas os órfãos diante de ti (nem) as viúvas atrás
de ti”  No papel de guardião da justiça, o rei era considerado pastor do povo. 

Por exemplo, o assírio Tukulti-ninurta I declarou: “Quando Assur, meu senhor,
fielmente me escolheu para ser seu adorador, deu-me o cetro para o ofício de
pastor, (presentou)-me com o cajado para o ofício de pastor... (Naquele tempo),
pus meu pé no pescoço das terras (e) pastoreei o povo de extensas pústulas como
animais. Ele (Ashur) me ensinou a tomar decisões sábias”. 

Deus como juiz universal. De modo típico do antigo Oriente Próximo, mui-
tos hinos no saltério descrevem o Senhor como um juiz régio que preserva a ordem
e executa a justiça ao longo do reino universal. Ama a retidão e a justiça (33.5; 99.4), que formam “a base do seu trono” (97.2). O Senhor executa justiça em
favor dos necessitados e/ou oprimidos, entre eles os pobres (113.7), as mulheres
estéreis (v. 9), os cativos famintos presos em calabouços escuros (146.7,8), os que
moram como estrangeiros em terras estranhas, os órfãos e as viúvas (v. 146.9).
Infelizmente, a realidade conflita com essas afirmações hínicas da justiça
de Deus. Encontramos evidências da preocupação de Deus com os necessita-
dos ao longo de toda a história da humanidade, mas os exemplos de injustiça
fragrante e opressão cruel são mais abundantes. Como harmonizar a realidade
com as afirmações dos salmistas? Será que os escritores dos hinos antigos eram
culpados de generalizar Deus de forma exagerada, enquanto fechavam os olhos
e os ouvidos à miséria do mundo ao redor?

Não há solução fácil ou completamente satisfatória para este problema.
Entretanto, temos de considerar pelo menos três fatores nesta análise. Primei-
ro, apesar do tom universal dos hinos (cf. 113.4,5; 146.6), eles derivam de um
contexto israelita em que o envolvimento de Deus na vida do povo do concerto
era exclusivamente pessoal e revelador, colocando esta comunidade à parte do
mundo em geral. Sob este aspecto, é digno de nota afirmar que dois dos hinos
são endereçados aos “servos do Senhor” (113.1) e a Sião (146.10), que repetida-
mente experimentara a ajuda divina (v. 5).

O tema da mulher estéril fornece boa ilustração de como a experiência e,
portanto, a perspectiva de Israel podiam diferir das da humanidade em geral.
Muitas mulheres estéreis jamais tiveram a alegria do parto, mas na história do
povo do concerto de Deus as mulheres estéreis eram os instrumentos do Senhor
no cumprimento das suas promessas e libertação do povo. Deus miraculosa-
mente capacitou que a estéril Sara (Gn 11.30) tivesse um filho, mesmo depois,
segundo ela própria disse, “de haver envelhecido” (Gn 18.12). Outras mulheres
estéreis deram à luz importantes personagens na história de Israel: Rebeca (Gn 25.21), Raquel (Gn 29.31), a mãe de Sansão (Jz 13.2,3) e Ana (1 Sm 1 ;2). Com
esta tradição em vista, não admira que o autor do Salmo 113 lembrasse os ser-
vos do Senhor que Deus “faz com que a mulher estéril habite em família e seja
alegre mãe de filhos” (v. 9).

Vários outros elementos hínicos também espelham a experiência dos israe-
litas. Deus os libertou da prisão no Egito (cf. 146.7,8) e lhes deu comida no de-
serto (v. 7). Pela lei mosaica, ele expressou a preocupação pelos pobres, estran-
geiros, viúvas e órfãos (113.7; 146.9; cf. Êx 22.21-23; 23.6,11; Lv 19.33,34; Dt
15.7-11; 24.14).

Segundo, temos de reconhecer o caráter literário destes hinos. Não são
narrativas históricas, mas canções compostas para celebrar a realeza de Deus
em termos grandemente típicos do antigo Oriente Próximo. Neste gênero, ca-
racterizado como está pela linguagem estereotípica e hiperbólica, não podemos
esperar uma correspondência exata com a realidade em todos os detalhes. Os
salmistas estavam convencidos de que o seu Deus é o rei justo do mundo, porque lhes era adequadas evidências factuais e históricas desse fato. As afirma-
ções não precisam insinuar que eles criam que a justiça se realizava em cada caso
em escala mundial.

Terceiro, os Salmos — e a Bíblia como um todo — mostram que Deus
delegou a tarefa de manter a justiça aos regentes humanos que, em sua maioria,
não implementaram os desejos divinos e, por conseguinte, estão destinados a
julgamento. O Salmo 82 trata diretamente deste tema. Este Salmo denuncia
um grupo de regentes injustos por mostrar favoritismo pelos iníquos (v. 2) e não fazer caso dos direitos dos pobres e necessitados (w. 3,4). Por não promoverem
a justiça, “todos os fundamentos da terra vacilam” (v. 5) e estes regentes, apesar
da posição elevada, morrerão (w. 6,7). O Salmo conclui com uma oração pedin-
do que Deus pessoalmente assegurasse a justiça no seu reino mundial (v. 8).
A identidade precisa dos governantes tratados no Salmo 82 é tema de de-
bate. Certas características do Salmo dão a entender que são deuses pagãos. São
citados especificamente por ’elohim, “deuses”, e a frase “congregação dos pode-
rosos” (v. 1, ’adat‘el, literalmente, “assembléia de Deus/El”) lembra uma assem-
bléia divina da mitologia cananéia presidida pelo sublime deus El. Os versículos
6 e 7 também apóiam esta interpretação, visto que chamam tais regentes de
“deuses”, mas depois declaram que “como homens morrereis” (“como simples
homens” e “como qualquer outro governante” [NVI; grifos do autor] são termos
interpretativos), insinuando talvez que não são realmente humanos. Se seguir-
mos esta abordagem, então o Salmo seria uma polêmica ousada contra a religião
cananéia, descrevendo Deus marchando contra a assembléia e denunciando os
deuses como regentes impróprios. Talvez inclua a confissão de um ex-adorador
dos deuses cananeus que viera a perceber a impotência deles em comparação ao
Deus de Israel (cf. v. 6,7).

Uma interpretação mais tradicional entende que os regentes são reis hu-
manos. Os versículos 2 a 4 apóiam esta visão, pois no contexto do Antigo Tes-
tamento a responsabilidade de manter a justiça é mais naturalmente associada
a reis humanos do que a deidades pagãs. Também a preposição comparativa
hebraica k- nem sempre indica uma verdadeira comparação de objetos distin-
tos, mas tem a força de “sob todos os aspectos”.  Por conseguinte, a tradução
de “como simples homens” e “como qualquer outro governante” (v. 7, NVI),
embora interpretativa, é gramaticamente possível, no caso de os regentes serem
entendidos como humanos. Por fim, os proponentes desta visão tentam mos-
trar que os juizes humanos aparecem como os referentes de 'elohim. em várias
outras passagens (cf. nota 17).

A solução mais provável para o problema combina as forças destas duas
visões. Os regentes são reis humanos (cf. 82.2-4) que, para efeito retórico e de
acordo com a autopercepção arrogante, são tratados como se fossem membros da assembléia divina conhecidos da mitologia cananéia (SI 82.1,6,7). Paralelos
a este fenômeno ocorrem em Isaías 14, em que o rei da Babilônia é comparado
a um deus insignificante que tentou subir a montanha de El para usurpar-lhe a
autoridade, e em Ezequiel 28, onde o orgulhoso rei de Tiro é descrito em termos
de querubim que tem acesso à montanha santa de Deus, mas é lançado abaixo por
ser insolente. O Salmo 82 comprova o fracasso geral dos governantes humanos
em cumprir adequadamente o desejo de Deus por justiça. O salmista almeja o dia
em que Deus tomará a questáo nas próprias mãos (ver também o 58).
A verdade é que os ditos salmos de entronização prevêem, quase que em
estilo profético, um tempo em que Deus virá e estabelecerá justiça na terra. Sal-
mos 96.13 declaram que o Senhor “vem, vem a julgar aterra” (cf. 96.10; 98.9).
Este advento é saudado por uma explosão de cânticos e louvores na natureza
(w. 11-13; 98.7,8) e pelo reconhecimento mundial da soberania divina (w. 1-8;
98.4-6).

Resumindo esta seção, os Salmos, de acordo com o ideal típico do antigo
Oriente Próximo, mostram que Deus é aquEle que preserva a ordem e a justiça
no mundo e defende a causa dos necessitados e oprimidos. Embora este retrato
conflite com a dura realidade de um mundo povoado de homens maus e infes-
tado com governantes injustos, é consistente com a preocupação de Deus por
justiça e espelha os seus decretos e ações justos, especialmente conforme foram
revelados e experimentados pelo povo do concerto. Está chegando o dia em que
Deus estabelecerá a justiça pessoalmente na terra e as descrições generalizadas,
hínicas e um tanto quanto hiperbólicas do seu governo justo terão cumprimen-
to total em escala universal.

Deus como juiz de Israel. Ter Deus como rei justo foi uma espada de dois
gumes para Israel. Deus executava justiça através do povo do concerto, pro-
tegendo-o de pretensos opressores hostis. Quando Israel se rebelava contra a
autoridade de Deus, ele era forçado a julgar disciplinarmente o povo. Mesmo
quando o povo de Deus experimentava as justas conseqüências da rebelião, con-
tinuavam confiando que o Senhor os protegeria das nações zombeteiras.
Ao longo da história de Israel, Deus protegeu o povo de nações hostis. O
autor do Salmo 95 exortou os ouvintes: “Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos!
Ajoelhemos diante do Senhor que nos criou. Porque ele é o nosso Deus, e nós,
povo do seu pasto e ovelhas da sua mão” (w. 6,7; cf. 100.3). Como “pastor de
Israel” (80.1), o Senhor tirou o povo da escravidão no Egito, guiou-os segu-
ramente pelo deserto e os instalou na Terra Prometida (136.10-22). Plantou-
os como uma vinha na terra e capacitou-os para que se espalhassem, como os
ramos de uma vinha, e enchessem a terra (80.8-11). Como bom agricultor,
ergueu um muro de proteção em volta da “vinha” para que o produto esti-
vesse protegido de passantes e animais selvagens (cf. v. 12). O Senhor cuidou
incessantemente de Israel (121.4) e destruiu as nações hostis pelos próprios
esquemas delas (9.5,6,15). Tendo observado o castigo justo de Deus vir sobre tais nações, o autor do Salmo 9 concluiu: “O Senhor é conhecido pelo juízo
que fez; enlaçado ficou o ímpio nos seus próprios feitos” (v. 16). Muitas nações
procuraram oprimir e humilhar o povo de Deus, mas em retrospecto Israel pôde
declarar: “O Senhor é justo; cortou as cordas dos ímpios” (129.4).

Os Salmos contêm orações nacionais pela proteção de Deus em face de ata-
ques injustos feitos por nações inimigas. Por exemplo, Salmos 59.5-8 fala que as
nações hostis são como cães selvagens cruéis que procuraram a destruição de Isra-
el. O salmista clamou a Deus, que é rei justo, e rogou-lhe que castigasse as nações
opressivas.  O autor do Salmo 83, depois de descrever os enredos das nações cir-
cunvizinhas (dez das quais especificamente citadas) para destruir o povo de Deus
(w. 1-8), pediu ao Senhor que interviesse mais uma vez a favor de Israel de modo
poderoso, exatamente como ele fizera nos dias de Gideão e Débora (w. 9-18).
Enquanto muitos salmos louvam ou olham para Deus como rei e protetor
justo de Israel, outros indicam que esta proteção divina era ocasionalmente sus-
pensa por causa das ações rebeldes do povo. Quando os israelitas eram culpados
de pecado, o Senhor, como regente justo, era forçado a pagá-los pelo mal que
cometiam. O Salmo 78 recita os atos poderosos de Deus em favor de Israel, mas
também lamenta que a nação tivesse sido “contumaz e rebelde” (v.8). Embora
o povo tivesse experimentado uma libertação poderosa pelo mar Vermelho, eles
reclamaram no deserto, provocando a ira de Deus contra eles (w. 9-31). As ge-
rações subseqüentes seguiram os passos pecadores dos pais, despertando a ira de
Deus e fazendo-o permitir que as nações circunvizinhas conquistassem o povo
(cf. esp. versículos 56 a 67). O Salmo 106 descreve igualmente como Israel se
rebelou no deserto e na Terra Prometida (w. 13-39), forçando Deus a castigá-
los com vigor e logo depois entregá-los a governantes estrangeiros opressivos
(w. 41,42). No Salmo 81, o próprio Senhor lamenta que Israel perdera a pro-
teção por desobedecer-lhe a vontade: “Mas o meu povo não quis ouvir a minha
voz, e Israel não me quis. Pelo que eu os entreguei aos desejos do seu coração,
e andaram segundo os seus próprios conselhos. Ah! Se o meu povo me tivesse
ouvido! Se Israel andasse nos meus caminhos! Em breve eu abateria os seus ini-
migos e voltaria a minha mão contra os seus adversários” (w. 11-14).

Muitos salmistas, tendo testemunhado os efeitos do julgamento disciplinar
de Deus sobre Israel, continuavam esperando que Ele defendesse e restabelecesse
a nação. Quando reconheciam que Deus estivera irado com o povo do concerto,
rogaram pela cessação da ira (74.1; 79.5; 80.4; 85.5) e aguardavam esperançosa-
mente pelo perdão misericordioso (79.8; 85.2-7; 130.1-8). Lembravam Deus do 
antigo compromisso com Israel ligado ao concerto (74.2,12,19,20) e enfatizavam
as atrocidades executadas pelas nações (74.21; 79.2,3,7,10; 137.7-9). Os inimigos
profanavam o Templo (w. 3-9; 79.1), ridicularizavam o povo (79.4; 80.6) e até
escarneciam do próprio Deus (w. 10,18,22,23; 79.6,10). Tais ações exigiam uma
resposta do justo rei do universo. O autor do Salmo 79 apelou pela justiça divina em
termos incisivos: “Por que diriam os gentios: Onde está o seu Deus? Torne-se mani-
festa entre as nações, à nossa vista, a vingança do sangue derramado dos teus servos.
Chegue à tua presença o gemido dos presos; segundo a grandeza do teu braço, pre-
serva aqueles que estão sentenciados à morte. E aos nossos vizinhos, deita-lhes no
regaço, setuplicadamente, a sua injúria com que te injuriaram, Senhor” (79.10-12).
O autor do Salmo 137 foi tão longe quanto pronunciar uma bênção ao instrumento
de vingança que o Senhor usou contra os cruéis babilônios (w. 8,9).

Detis como protetor dos seus servos justos. No papel de juiz, Deus também
protegia os indivíduos justos na comunidade do concerto dos homens maus
que se opunham e procuravam destruir os servos do Senhor. Este conflito entre
o bem e o mal é desempenhado dramaticamente nas páginas do saltério. Mui-
tos Salmos (conhecidos por lamentos) contêm as orações dos justos, nas quais
descrevem as ameaças dos ímpios, protestam a inocência e clamam a Deus por
justiça. Cânticos de ação de graças recordam a intervenção de Deus em tais si-
tuações difíceis e o louvam pela libertação. Os salmos sapienciais contrastam os
estilos de vida e os destinos de justos e injustos.

Na visão mundial dos salmistas, havia somente duas categorias de homens — os
justos e os injustos. Os justos exibem temor genuíno do Senhor obedecendo-lhe os
mandamentos (112.1; 128.1; cf. SI 1.2; 18.20-24; 37.31). Suas palavras e ações são
caracterizadas por justiça e integridade (15.2-5; 24.4; 34.12-14; 37.30; 112.5) e dão
generosamente aos que estão em necessidade (37.21,26; 112.5,9). Evitam a compa-
nhia e práticas dos homens maus e irreligiosos (1.1,2; 17.3-5; 26.4,5; 31.6; 139.19-
22). Em contrapartida, os injustos são arrogantes e vivem como se Deus e a sua lei fos-
sem inexistentes (10.2-11,13; 12.3,4; 14.1; 31.18; 36.1,2; 73.6,9,11; 75.4,5; 94.4,7;
119.155). Muitos Salmos contêm citações dos ímpios que ilustram o ateísmo prático.
O ímpio pensa de si mesmo: “Deus esqueceu-se; cobriu o seu rosto e nunca verá isto.
[...] Tu não inquirirás” (10.11,13). Ele pergunta: “Como o sabe Deus? Ou: Há conhe-
cimento no Altíssimo?” (73.11) e declara com confiança: “O Senhor não o verá; nem
para isso atentará o Deus de Jacó” (94.7). Confiantes de que Deus não está ativamente
envolvido no mundo e que não serão considerados responsáveis pelas ações que prati-
cam, os ímpios promovem os interesses próprios sem atenção pelo bem-estar dos ou-
tros. Não pagam as dívidas (37.21) e acumulam riquezas às custas dos outros (52.6).
Usam difamação e engano para destruir e explorar os outros (5.6,9; 10.2; 12.2; 28.3;
31.18; 36.3,4; 37.7,12; 52.2-4; 73.7; 109.2) e não pensam duas vezes para recorrer à
violência e matança (5.6; 10.8-10; 73.6; 94.5,6; 140.4).

No mundo dos salmistas, os justos e injustos não coexistem pacificamente
em prol do pluralismo. Os injustos elaboram toda a astúcia e poder no empenho 
de aniquilar os justos (31.13; 56.5,6; 71.10; 143.3). Imagens vívidas são em-
pregadas para descrever os seus ataques. Os injustos são como arqueiros que es-
peram as vítimas desatentas de emboscada (11.2; 64.3,4) e como caçadores que
armam armadilhas e laços para apresa (35.7; 38.12; 57.6; 64.5; 140.4,5; 141.9; 142.3).
São comparados a touros perigosos (22.12), cães selvagens (22.16,20)
e leões ferozes (10.9; 17.12; 22.13,16 [cf. Texto Massorético], 21; 57.4). Suas
palavras enganosas são tão mortais quanto o veneno de uma cobra peçonhenta
(58.3,4; 140.3).

Porque representam ameaça mortal aos justos, os ataques dos injustos
são vistos como um ataque da própria morte. No Salmo 18, Davi compara os
ataques dos inimigos (w. 3,17,18) a laços e armadilhas de morte (w. 4,5; cf. 116.3).
Para salvá-lo, o Senhor teve de abrir à força o inferno com um brado
poderoso para tirá-lo das águas furiosas e caóticas (w. 15,16). O autor do Salmo
69 (Davi, de acordo com At 1.16,20 e Rm 11.9) comparou os inimigos (cf. v.4)
às águas súbitas que tinham lhe alcançado o pescoço e ameaçavam submergi-lo
(w. 1,2). Desesperado, clamou a Deus: “Tira-me do lamaçal e não me deixes
atolar; seja eu livre dos que me aborrecem e das profundezas das águas. Não me
leve a corrente das águas e não sorva o abismo, nem o poço [um nome para a
morte e o inferno que consta nos Salmos; cf. 30.3; 88.3,4] cerre a sua boca sobre
mim” (69.14,15).

Confrontado por tais inimigos hostis e aparentemente invencíveis, os jus-
tos apresentaram a sua causa a Deus. Para enfatizar a seriedade da situação e a
urgência do pedido, descreveram os efeitos físicos e emocionais do ataque do
inimigo em termos visuais e às vezes exagerados (6.2,3,6,7; 22.14,15; 31.9-13;
42.10; 55.4,5; 109.24; 143.4). Para deixar claro que eram merecedores da jus-
tiça de Deus, referiram-se a si mesmos como fracos, desamparados e oprimidos
(10.2,9,17; 12.6; 25.16; 69.33), e compararam-se aos elementos socioeconomi-
camente empobrecidos, como os órfãos (10.14,18) e os pobres (35.10; 37.14;
40.17; 86.1; 109.16,22; 140.12). Apesar de serem falsamente acusados pelos
inimigos (27.12; 35.11,20) e até rejeitados pelos amigos (31.11,12), os justos
protestam a inocência e apelam a Deus por defesa e proteção. Por exemplo,
o autor do Salmo 17, quando cercado por inimigos orgulhosos e cruéis (w.
10-12), orou: “Saia a minha sentença de diante do teu rosto; atendam os teus
olhos à razão. Provaste o meu coração; visitaste-me de noite; examinaste-me e
nada achaste; o que pensei, a minha boca não transgredirá. [...] pela palavra dos
teus lábios me guardei das veredas do destruidor. Dirige os meus passos nos
teus caminhos, para que as minhas pegadas não vacilem” (w.2-5). De maneira
semelhante, o autor do Salmo 26 pediu: “Julga-me, Senhor, pois tenho andado
em minha sinceridade; tenho confiado também no Senhor; não vacilarei” (v. 1).
Como prova da sua afirmação, ele mostrou que rejeitara as más companhias e
oferecido ao Senhor adoração genuína (w. 4-7).

Para que Deus defendesse e livrasse os justos, os inimigos tinham de ser mor-
tos. Por isso, os justos rogavam que Deus lhes vingasse os atormentadores. O autor 
do Salmo 5 pediu: “Declara-os culpados, ó Deus; caiam por seus próprios conse-
lhos; lança-os fora por causa da multidáo de suas transgressões, pois se revoltaram
contra ti” (5.10; cf. SI 3.7; 7.6-9; 28.4; 31.17,18; 35.26; 54.5; 58.6-8; 140.7-11). O
SI 109 contém uma imprecação (ou maldição) prolongada, na qual o autor (Davi,
de acordo com Atos 1.16) roga que Deus julgue os inimigos (109.6-10). Em estilo
tipicamente semítico, ele orou que os inimigos fossem liquidados já no início da
vida e que suas famílias fossem reduzidas à pobreza e subseqüentemente extintas. 
Os salmistas colocavam o destino nas mãos de Deus, porque estavam conven-
cidos de que Ele não era “um Deus que tenha prazer na iniqüidade” (5.4), contudo,
mais exatamente, era um “justo Deus” que prova “o coração e a mente” (7.9,11) e
defende “ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, não pros-
siga mais em usar da violência” (10.18; cf. 140.12). O autor do Salmo 11 fala que
Deus é como o regente soberano, entronizado nos céus, que cuidadosamente prova
os filhos dos homens e retribui os ímpios por suas ações violentas (11.4-6; cf. 28.5; 94.23). No Salmo 18, Davi declarou que o Senhor trata os justos e injustos de ma-
neira apropriada (18.25,26; cf. 62.12). Os que são fiéis descobrem que o Senhor é
fiel, mas os que são enganosos descobrem que Ele não se deixa enganar.  
Digressão aos protestos de inocência e orações de maldição dos sal-
mistas. Certos elementos destas orações estão, ao que parece, em confli-
to com outras porções da Bíblia. Os protestos de inocência dos salmis-
tas (ver, por exemplo, 17.3; 18.20-24; 26.1) soam afirmações farisaicas
de perfeição inocente e estão aparentemente em conflito com a doutrina
bíblica de que todos os homens são pecadores e culpados diante de Deus
[cf. Rm 3.23]. As maldições contêm várias declarações problemáticas
[ver, por exemplo, 109.9-12], sobretudo quando colocadas ao lado de
injunções bíblicas de abençoar os inimigos (cf. Mt 5.44; Lc 6.28; Rm
12.14; 1 Co 4.12). Será que dá de harmonizar estes aspectos das ora-
ções dos salmistas com outros ensinos bíblicos, ou temos de descartá-los
como características excessivas de homens desesperados que viviam em
uma era menos esclarecida?

Protestando a inocência, os salmistas não estavam fazendo propo-
sições teológicas universais (como as colocadas pelo apóstolo Paulo na
carta aos Romanos). Estavam afirmando que possuíam um grau prático
e relativo de justiça, especialmente em comparação aos opressores injus-
tos. De acordo com o Salmo 15, a justiça, como viam os escritores dos
salmos, exigia falar com honestidade e não com calúnia, tratar o seme-
lhante com justiça, menosprezar os irreligiosos, mas dar aos religiosos
o respeito próprio, cumprindo a palavra e rejeitando todas as formas de
ganho desonesto (15.2-5). Para o autor do Salmo 17, a justiça signifi-
cava ter motivos puros, vigiar a língua e evitar as práticas do mau (w.
3-5). De acordo com o Salmo 26, levar uma vida sincera significa evitar
as más companhias, oferecer ao Senhor o devido louvor e desejar estar
na sua presença (w.4-8). Estes salmos deixam claro que esses que pro-
testavam inocência não estavam tratando do tema paulino da situação
espiritual da humanidade diante de Deus. Estavam afirmando que o seu
estilo de vida e valores eram evidência de devoção essencial a Deus e aos
seus padrões. Como tais, eram inocentes das acusações difamadoras dos
inimigos e eram dignos da proteção de Deus.

Para prova adicional de que os salmistas não estavam dizendo que
eram impecáveis em sentido absoluto, precisamos apenas considerar os
Salmos em que os justos reconheceram que foram corrompidos pelo
pecado que, em alguns casos, ocasionara a situação difícil que enfrenta-
vam. Por exemplo, o autor do Salmo 25, quando atacado pelos inimi-
gos ferozes (v. 19), declarou a confiança em Deus (w. 1,21), pediu que o
Senhor não guardasse os pecados da juventude contra ele (v.7) e implo-
rou perdão (w.11,18). O autor do Salmo 38, embora tenha afirmado 
que procurou o que é bom (v.20), confessou o seu pecado (w.3,18)
junto com o pedido de ser liberto dos inimigos (w. 16,19-22). Seme-
lhantemente, o autor do Salmo 40, ao mesmo tempo em que afirmava a
devoção irresoluta ao Senhor em termos vigorosos (w. 6-10) e pedia que
fosse liberto dos opressores (w. 15-17), admitiu que os seus pecados o
tinham “prendido” (v. 12). O autor do Salmo 41 referiu-se tanto ao seu
pecado (v.4) quanto à sua integridade (v. 12).

As maldições dos salmistas contra os inimigos apresentam um de-
safio maior para o teólogo bíblico. Jesus ordenou que os seus seguidores
abençoassem e orassem pelos que os amaldiçoassem. Pelo menos super-
ficialmente, tal resposta é exatamente o oposto do que se encontra no
saltério, onde oração após oração há o pedido para que Deus ocasione a
morte dos inimigos. Talvez Jesus estivesse exigindo um novo modo de
reagir aos maus-tratos, mas antes de nos precipitarmos em rejeitar ou
condenar as orações imprecatórias dos salmistas, certas observações se
fazem necessárias.

Primeiro, não devemos entender que os salmistas estavam expres-
sando índole vingativa. Mais exatamente, as expressões comprovam a
confiança dos salmistas no justo caráter de Deus. Os salmistas, ao en-
contrarem inimigos que lhes ameaçavam a reputação e a vida, recusa-
ram tomar a questão nas próprias mãos, mas se voltaram com fé a Deus
como justo juiz e defensor. Desta forma, a resposta estava de acordo
com o ensino de Moisés e de Provérbios (cf. Lv 19.18; Pv 20.22; 24.29),
que por sua vez influenciou o ensino de Paulo sobre o assunto (cf. Rm 12.17,19). Os salmistas estavam tão preocupados com a reputação de
Deus quanto pelo próprio bem-estar. Se Deus era realmente o justo rei
do universo, então ele tinha de interceder pelos inocentes e oprimidos.
Caso falhasse a este respeito, haveria razão para questionar a sua sobe-
rania e os ímpios ficariam mais complacentes e arrogantes (140.8). Isso
explica por que o autor do Salmo 58, depois de pedir que Deus quebras-
se os dentes dos ímpios (v.6), declarou: “O justo se alegrará quando vir a
vingança; lavará os seus pés no sangue do ímpio. Então, dirá o homem:
Deveras há uma recompensa para o justo; deveras há um Deus que julga
na terra” (w. 10,11). De modo semelhante, o autor do Salmo 35 previu
que a sua libertação e a morte dos inimigos levariam os observadores a
declarar: “O Senhor, que ama a prosperidade do seu servo, seja engran-
decido” (w.26,27).

Segundo, os julgamentos específicos invocados a sobrevirem aos
ímpios, ainda que soem indevidamente severos e indiquem um espírito
vingativo, comprovam o sentimento forte de justiça dos salmistas e a sua
preocupação pelo caráter de Deus. A morte dos ímpios teve de ser termi-
nante e adequada, de forma que os observadores ficassem impressionados
com a certeza e exatidão da justiça divina. É por isso que o autor do Salmo 
109 amaldiçoou os inimigos e pediu que os filhos fossem reduzidos à po-
breza (w.9-12). A forma da oração e a punição desejada são apropriadas,
pois o ímpio “amou a maldição” e “perseguiu o varão aflito e o necessita-
do, como também o quebrantado de coração” (w.16,17).

Terceiro, tais apelos à justiça divina não estão limitados ao saltério
ou até mesmo ao Antigo Testamento. Apocalipse 6.10 diz que as almas
dos mártires estão clamando a Deus para vingar-lhes o sangue derrama-
do. Neste mesmo livro, Deus é louvado por vingar as injustiças cometi-
das contra os santos (Ap 16.5,6; 19.2) e o povo é exortado a alegrar-se
com o fato (Ap 18.20). Na segunda carta aos Tessalonicenses, Paulo en-
corajou os crentes perseguidos dizendo-lhes que Deus é justo e pagaria
tribulação aos inimigos no dia do julgamento (2 Ts 1.6-9). Na segunda
carta a Timóteo, o apóstolo declarou que o Senhor pagaria a Alexandre,
o latoeiro, pelos males que ele lhe causara (2 Tm 4.14).

O saltério dá ampla evidência de que a confiança dos salmistas na justiça de
Deus não era inapropriada ou sem recompensa. Eles testemunharam que Deus
lhes ouviu as orações e os livrou dos inimigos (22.24; 34.4-7,17-20; 92.10,11; 116.1-6), muitas vezes de modo dramático (18.3-19; 30.1-3; 40.1,2). Proclama-
ram que Ele é o salvador e protetor (18.1,2; 25.5; 27.9; 31.4; 38.22; 40.17; 54.4;
59.16; 62.6; 91.9), comparando-o a um pássaro que abriga os filhotes sob as asas
(17.8; 36.7; 57.1; 91.4), a um escudo (5.12; 7.10; 18.2; 28.7) e a um rochedo ou
fortaleza (18.2; 27.1; 28.1; 31.2,3; 59.16,17; 61.3; 62.7; 71.3). Protegidos das
ameaças dos inimigos, os justos têm acesso à presença de Deus (SI 11.7; 15.1,5;
16.11; 23.6; 26.12; 27.6; 73.23-26; 140.13) e desfrutam das bênçãos de paz,
prosperidade e vida longa (1.3; 37.11,18,19,29; 52.8; 112.2,3).

Em contraste com os justos, os injustos são exterminados pelo julgamento
de Deus como a palha ao sabor do vento forte (1.4; 35.5). Embora os injustos
prosperem durante certo tempo (10.5,6; 52.7; 73.3-5), Deus envia destruição
súbita sobre eles (64.7; 73.18-20) como fogo vindo do céu (11.6; 140.10) e se-
cam como relva murcha (37.1,2,20). No vigor dos seus anos, eles desaparecem
no inferno (31.17; 37.10,35,36; 52.5; 55.15,23; 141.7) e a sua descendência é
cortada da terra (34.16; 37.28,38; 69.25; 109.13).

Muitos salmos enfatizam a natureza apropriada da morte dos malfeitores.
Em muitos casos, os salmistas os descrevem sendo destruídos por suas próprias
maquinações e instrumentos. Por exemplo, o autor do Salmo 7 (Davi, de acordo
com o título) observou: “Cavou um poço, e o fez fundo, e caiu na cova que fez.
A sua obra cairá sobre a sua cabeça; e a sua violência descerá sobre a sua miolei-
ra” (w.15,16; cf. SI 35.7,8; 57.6; 141.9,10). De acordo com Salmos 37.15, “a
sua espada lhes entrará no coração, e os seus arcos se quebrarão”. O Salmo 64
combina ironia e trocadilho para enfatizar a natureza adequada do castigo de
Deus dado aos ímpios. Os ímpios destemidamente ficam à espreita do salmista
inocente para atacá-lo de repente com flechas (w. 3,4). São confiantes que nin- 
guém os descobrirá (w. 5,6). Mal sabem eles que o arqueiro divino os matará
de repente com as suas flechas (v. 7). Ironicamente os que se vangloriam que
ninguém os vê sofrerão humilhação pública quando os passantes sacudirem a
cabeça com desprezo (v. 8). Embora os ímpios não temam o castigo, os que tes-
temunharem a morte deles ficarão tomados de medo ao considerarem as ações
justas do Senhor (SI 64.9).

Algumas das declarações que falam da proteção oferecida aos justos foram
tomadas como provas de que os salmistas previram a regozijadora vida após a
morte na presença do Senhor e a consequente ressurreição. Por exemplo, o autor
do Salmo 49, depois de contemplar o destino dos orgulhosos (w.13,14), afirmou:
“Mas Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá” (v. 15).
Semelhantemente, o autor do Salmo 73, depois de descrever a morte dos ímpios
(w. 18-20), corajosamente afirmou: “Todavia, estou de contínuo contigo; tu me
seguraste pela mão direita. Guiar-me-ás com o teu conselho e, depois, me recebe-
rás em glória” (w. 23,24). Para nós que vivemos depois da ressurreição de Cristo
é tentador e natural interpretar estas passagens de acordo com as grandes afirma-
ções do Novo Testamento relativas à vida após a morte e ressurreição.

Há estudiosos que debatem tal interpretação destas e de outras passagens,
argumentando que o entendimento dos salmistas sobre a realidade depois da
morte era limitado e que declarações de confiança como as supramencionadas
espelham a esperança de proteção nesta vida. Arrazoam que só mais tarde no
progresso da revelação foi que o povo de Deus recebeu um quadro mais detalha-
do e positivo do que esperar depois da morte.

Antes de examinarmos mais de perto os Salmos fundamentais, é necessário
observarmos a atitude geral dos salmistas para com a morte. Com isso, logo fica
evidente que eles não olhavam a morte com a mesma expectativa e confiança
como o apóstolo Paulo (cf. Fp 1.21-23). Pelo contrário, os salmistas em muitos
dos seus lamentos imploraram ao Senhor que os livrasse da morte às mãos dos
inimigos. Apresentando o caso diante de Deus, o autor do Salmo 6 declarou:
“Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro quem te louvará?” (v. 5).
Semelhantemente, o autor do Salmo 30, pelo dispositivo literário da pergunta
retórica, indicou que os mortos estão cortados da comunidade de adoradores:
“Que proveito há no meu sangue, quando desço à cova? Porventura, te louvará
o pó? Anunciará ele a tua verdade?” (30.9; cf. 115.17). Com outra série de per-
guntas retóricas, o autor do Salmo 88 indicou que os mortos não testemunham
ou louvam as ações poderosas de Deus: “Mostrarás tu maravilhas aos mortos,
ou os mortos se levantarão e te louvarão? Será anunciada a tua benignidade na
sepultura, ou a tua fidelidade na perdição? Saber-se-ão as tuas maravilhas nas
trevas, e a tua justiça na terra do esquecimento?” (w.10-12).  Será que esta
atitude geralmente negativa em relação à morte representa uma visão menos 
esclarecida da vida após a morte que conflita com as declarações de confiança ci-
tadas acima? Ou será que é uma indicação interpretativa para entendermos que
essas expressões de confiança dizem respeito a esta vida? Para responder essas
perguntas temos de examinar os Salmos fundamentais mais detalhadamente.
Como indicado acima, a afirmação de confiança em Salmos 49.15 é usada
como prova de que pelo menos alguns salmistas previram a ressurreição.  Nes-
te Salmo sapiencial (cf. w. 1-4), o autor observou que todos os homens, até os
ricos e os sábios morrem como animais (w.7-13). Por conseguinte, os ricos não
devem ser temidos ou invejados (w.5,6,16-20). Virá o tempo em que “os retos
terão domínio sobre eles na manhã” (SI 49.14). Levando em conta esses fatos, o
salmista expressou a certeza de que Deus o resgataria da sepultura (v.15). 

O que faremos com as afirmações de confiança nos versículos 14 e 15? E
possível que o salmista esteja olhando para as realidades escatológicas últimas,
prevendo a própria ressurreição e um tempo em que os justos, não os ricos, rei-
narão na terra. É mais provável que o predomínio dos justos se refira à proteção
deles nesta vida, um tema bem comprovado no saltério, especialmente nos Sal-
mos sapienciais (ver, por exemplo, SI 1; 34; 37; 112, como também a discussão
acima). Neste caso, Salmos 49.15 se refere a Deus preservar o salmista nos “dias
maus” (cf. v. 5), guardando-o da morte prematura e violenta às mãos dos ricos
opressivos e da calamidade lhes que sobrevêm.  A “manhã” (v. 14), que traz à
mente o amanhecer de um novo dia depois de uma noite de escuridão, habil-
mente simboliza a o fim desses “dias maus”.

E comum entendermos Salmos 73.24 como alusão à vida após a morte na
presença de Deus. O autor deste Salmo recordou como ele invejava os ímpios
porque eram prósperos (w. 2-12). Questionou se realmente valia a pena seguir
os caminhos da justiça, até que entrou no santuário do Senhor (w. 13-17). Quer
por um oráculo divino ou por reflexão sobre as verdades proferidas lá pelos ado- 
radores, o salmista percebeu que a prosperidade dos ímpios era efêmera, pois
o julgamento de Deus sobreviria sobre eles de repente (w.18-20). O salmista
entregou-se novamente a Deus e declarou a confiança na mão protetora dEle
(w. 23-28).

Existem duas opções interpretativas para a declaração de confiança regis-
trada pelo salmista em Salmos 73.24b. E possível entendermos a declaração
como referência ao salmista ser levado à presença de Deus no céu logo após
à sua vida na terra.  Pelo contexto dos Salmos é mais provável que ele esteja
se referindo ao poder de Deus preservá-lo durante o tempo da calamidade
que destruiria os ímpios. Embora “glória” se refira figurativamente ao céu ou
à vida após a morte no linguajar poético e hínico cristão, a palavra hebraica
assim traduzida no versículo 24 (kabod) não é usada deste modo. No contexto
do Salmo 73.24, a palavra traz o significado comumente atestado de “honra”
(cf. NTLH; NVI). Em contraste com os orgulhosos, que são aniquilados em
julgamento, o salmista estava confiante de que a mão protetora de Deus o
conduziria a um lugar de honra.  Os versículos 25 a 28 se conformam bem
com esta interpretação. No versículo 25, o salmista afirmou que nada mais no
universo (observe a merisma “céu” e “terra”) poderia substituir Deus como
objeto de desejo.  Mesmo que o seu corpo ficasse fraco e ele estivesse à beira
da morte,  Deus o sustentaria e o protegeria (w.26,28), ao passo que os ím-
pios pereceriam (v. 27).

Outras supostas referências à crença da vida após a morte na presença de
Deus também são mais bem interpretadas ao longo das linhas de ação sugeridas
acima para os Salmos 49.15 e 73.24. Por exemplo, o autor do Salmo 17 con-
cluiu a oração afirmando com confiança: “Quanto a mim, contemplarei a tua
face na justiça; eu me satisfarei da tua semelhança quando acordar” (v. 15). E
improvável que a linguagem idiomática se refira ao despertar do sono da morte
para ver a face do Senhor. O salmista exigiu que o Senhor examinasse os seus
motivos durante as horas escuras da noite (v. 3), pleiteou inocência e pediu a
retribuição divina contra os inimigos. Assegurado de que o exame de Deus do 
seu coração só revelaria retidão, ele estava confiante de que o amanhecer de um
novo dia traria novas experiências da presença e bênçãos de Deus (cf. v. 14).

Também é improvável que o Salmo 23 se refira à vida após a morte na presen-
ça de Deus, embora os versículos 4 e 6 sejam entendidos dessa forma em particular.
O versículo 4 refere-se ao pastor divino guiando a ovelha (o salmista) por um vale
escuro e perigoso (símbolo do perigo esposado pelos inimigos, cf. v. 5).  No ver-
sículo 6, o salmista expressa a confiança de que, ao longo da vida, ele teria acesso à
presença de Deus (a “casa do SENHOR” se refere ao Tabernáculo ou Templo terreno;
cf. Juizes 19.18; 1 Sm 1.7,24; 2 Sm 12.20; 1 Reis 7.12,40,45,51). “Para todo o sem-
pre” (ARA) é tradução de uma frase hebraica {’orekyamim, lit., “longura de dias”)
que, quando usada em outros textos bíblicos acerca de homens, diz respeito a um
período prolongado de tempo (como a duração da vida de um ser humano), e não à
eternidade (cf. Dt 30.20; Jó 12.12; SI 91.16; Pv 3.2,16; Lm 5.20). 

Por causa do uso no Novo Testamento, é comum entendermos Salmos 16.10
em alusão à ressurreição. Entretanto, o Novo Testamento atribui as palavras a Cris-
to e não ao salmista (Davi, de acordo com o Antigo Testamento). Se o Salmo é con-
siderado exclusivamente messiânico, então de forma única comprova a confiança do
salmista na ressurreição do Messias, e não é uma expectativa do Antigo Testamento
em geral acerca da ressurreição (sob este aspecto, note que Pedro e Paulo contras-
taram as experiências de Davi com Jesus: At 2.29-31; 13.35-37). Se entendermos
que o Salmo é indiretamente messiânico (ou seja, é aplicável em menor sentido ao
salmista e em maior sentido ao Messias), então Davi, como tantos outros salmistas,
estava expressando a confiança de que Deus o guardaria de morte violenta e prema-
tura e lhe daria acesso ininterrupto à sua presença (cf. 16.11).  

Concluindo, os salmistas tinham uma visão limitada e um pouco negativa
da vida após a morte. Para eles, a morte era uma intrusa indesejável, porque
separava o indivíduo das ações reveladora de Deus e da comunidade de adora-
dores. Em vez de ser exceções a este conceito de morte que exibe uma visão mais
positiva da vida após a morte, as declarações de confiança examinadas acima
pertencem mais provavelmente à defesa dos justos nesta vida, tema amplamente
atestado no saltério e na literatura sapiencial em geral.

Este tema, como os outros que examinamos nesta pesquisa da teologia dos
Salmos, conflita com a realidade em muitos aspectos. Apesar das afirmações
dos salmistas, os ímpios normalmente prevalecem sobre os justos neste mundo
pecador, onde a sobrevivência do mais adequado, não o mais espiritual, é o
princípio operacional. A experiência de muitos é exatamente o oposto do autor
aparentemente ingênuo do Salmo 37, que declarou: “Fui moço e agora sou
velho; mas nunca vi desamparado o justo, nem a sua descendência a mendigar
o pão” (v. 25).

No progresso da revelação a tensão entre a realidade e o ideal expressos nos
Salmos é atenuada. Nova revelação, especialmente passagens que lidam com
eventos escatológicos, deixam claro que a fé dos salmistas não era inapropriada.
Sabemos que haverá um julgamento final por meio do qual Deus examinará e
recompensará as ações dos ímpios. Eles realmente serão aniquilados pela ira de
Deus e os justos serão defendidos. Os justos não precisam ter medo da morte,
pois ela não pode separar o indivíduo de Deus e até mesmo o poder que ela
exerce sobre o corpo físico é temporário. Em suma, as declarações de confiança
expressas pelos salmistas são blocos construtivos importantes no desdobramen-
to gradual do princípio bíblico de que os justos serão defendidos pelo Justo
regente do universo.

É natural o cristão ver mais nas declarações de confiança do saltério do que
os salmistas pretendiam dizer. Embora o autor do Salmo 23 tivesse confessado
ter confiança no poder de Deus para protegê-lo dos inimigos que encontrou
nesta vida, o crente que entende que a proteção de Deus se estende além desta
vida, acha as palavras consoladoras e pertinentes em todas as circunstâncias,
sobretudo quando a realidade inevitável da morte física lhe invadiu a família ou
está prestes a ser experimentada pessoalmente. Ainda que o salmista não esteja
falando especificamente da vida após a morte na presença de Deus, no progresso
da revelação suas palavras expressam tamanha esperança para o povo de Deus,
que agora entende as plenas ramificações da afirmação do Salmo de que Deus
protege os que lhe pertencem. Da mesma maneira, as declarações nos Salmos
17.15; 49.15 e 73.24 se tornam, nos lábios do cristão, um testemunho de fé na
defesa final de Deus pelos justos, até mesmo além da sepultura.  

O cumprimento messiânico do tema do sofredor justo. No retrato de Je-
sus como Servo sofredor de Deus, o Novo Testamento utiliza muitas declara-
cões dos Salmos que descrevem a agonia, a lealdade e a defesa dos seguidores
justos de Deus. Os Salmos usados deste modo são apropriadamente rotulados
de messiânicos, mas, como ocorre com os salmos régios analisados acima, esta
classificação precisa ser qualificada e explicada. Pela própria natureza como la-
mentos e cânticos de louvor, não devemos entender que estes salmos sejam
predições diretas do ministério de Jesus. Um exame minucioso do conteúdo
mostra que eles se referem diretamente às experiências dos antigos autores e
não às dos seguidores de Jesus. Eles apresentam o ideal do sofredor inocente que
é perseguido por causa da justiça mas, no final, é defendido por Deus — um
ideal que o profeta Isaías ligou a uma figura escatológica e que se cumpriu em
Cristo. Quando os escritores do Novo Testamento refletiram sobre os ensinos
e experiências de Jesus, eles o identificaram corretamente como o Servo sofre-
dor de Isaías e perceberam que Ele trouxe à culminação a longa linhagem de
justos sofredores, muitos dos quais constam nas páginas do saltério. Aplicando
declarações dos Salmos a Jesus, eles seguiram a direção do próprio Senhor e em-
pregaram um princípio hermenêutico reconhecido em seus dias, que envolvia
raciocínio do menor para o maior. Certas descrições do sofrimento, esperança e
defesa dos salmistas eram até mais aplicáveis a Jesus, o Servo sofredor de Deus
acima de toda comparação. Quando aplicadas a Jesus, tais declarações assumem
um sentido mais literal ou elevado, como que a dirimir qualquer dúvida de
que Ele é aquele que eles apontam. Levando em conta a análise precedente,
denominemos os salmos mencionados pelo Novo Testamento de indiretamente
messiânicos. Façamos uma análise desses salmos.

O Salmo 22 começa com um lamento prolongado no qual o autor las-
timou o fato de que Deus aparentemente o abandonara (w. 1-10). Embora o
salmista, como as outras gerações de israelitas fiéis, tivesse outrora experimen-
tado o favor de Deus, agora se sentia abandonado quando os atormentadores
lhe escarneciam a fé em Deus. Depois de um breve grito de ajuda (v. 11), ele
descreveu a situação desesperadora em detalhes vívidos (w. 12-18). Os inimigos
o cercaram como touros poderosos, leões rugidores e cães selvagens ferozes. A
força física estava se esvaindo e os observadores tinham tanta certeza de que
ele morreria de um momento para o outro que estavam ansiosos para dividir
as posses dele entre si. Por fim, respondendo ao seu pedido (w. 19-2la), Deus
o livrou dos inimigos (v. 21b; cf. NVI; ARA). Agradecido pelo poderoso ato de
salvação de Deus, o salmista promete louvar ao Senhor na assembléia de Israel
(w. 22-26). Na sua alegria, até previu um tempo em que todas as nações reco-
nheceriam a grandeza de Deus (w. 27-31). 

Quando estava pendurado na cruz, Jesus usou as palavras do Salmo 22.1
para expressar a agonia e o abandono que Ele sentia (Mt 27.46; Mc 15.34).
Porque o próprio Jesus associou a sua experiência com à do antigo salmista,
não é de admirar que os escritores do Evangelho vissem que certos aspectos da
crucificação de Jesus fossem cumprimento da linguagem e imagem do Salmo
22. Os passantes lançavam insultos a Jesus, balançavam a cabeça de um lado
para o outro e lhe escarneciam a fé em Deus Pai (Mt 27.39,43; Mc 15.29; cf.
22.7,8), enquanto os soldados repartiam entre si as roupas de Jesus e lançavam
sortes para determinar quem ficaria com a roupa de baixo sem costura de Jesus
(Mt 27.35; Mc 15.24; Lc 23.34; Jo 19.23,24; cf. SI 22.18). 

O Salmo 69 é outro indiretamente messiânico que é amplamente usa-
do no Novo Testamento. O autor pediu ao Senhor que o livrasse dos inimigos
que ameaçavam subjugá-lo como águas furiosas (w. 1-4,13-18). Reconhecen-
do a insensatez e culpa (v. 5), também ratificou o zelo por Deus e pelo templo
(v. 9). Lamentou a rejeição que sofreu pelos parentes (v. 8) e a humilhação lançada
sobre ele por aqueles que testem unhavam o seu suplício (w. 10-12). Quando procurou
alívio, só recebeu desprezo, como alguém que passa fome e sede e lhe é dado fel e vina-
gre (w. 19-21). Invocou a ira de Deus sobre os inimigos, pedindo que as suas tendas
ficassem desertas (w. 22-28, esp. o v. 25). Concluiu com outro pedido de ajuda e outra
promessa de louvar a Deus quando a libertação sucedesse (w. 29-33).

O Novo Testamento traça muitas comparações entre as experiências do
salmista e Jesus. Quando Jesus expulsou os cambistas do Templo, os discípu-
los lembraram as palavras do Salmo 69.9 (Jo 2.17). A noite anterior à crucifi-
cação, o Senhor explicou aos discípulos que o ódio injustificado que o mundo
tinha por ele cumpriu as palavras do Salmo 69.4 (Jo 15.25). Enquanto estava 
na cruz, ofereceram a Jesus fel e vinagre de acordo com as palavras do Salmo
69.21 (Mt 27.34,48; Mc 15.23,36; Lc 23.36; João 19.28-30). Paulo viu a
devoção auto-sacrifical de Jesus a Deus como ilustração das palavras do SI
69.9b. (Examinaremos mais adiante a aplicação de Pedro do versículo 25 a
Judas [At 1.16,20].)

Duas observações são pertinente. Primeiro, certas declarações do Salmo 69
׳ cf. a admissão de imperfeição no versículo 5 e a maldição formal nos w.22-28)
deixam claro que o antigo salmista (Davi; cf. At 1.16,20; Rm 11.9) estava des-
crevendo a situação difícil dele e não a de Jesus. Mesmo assim, visto que Jesus é o
exemplo e cumprimento perfeito do sofredor típico apresentado no Salmo, algu-
mas declarações do salmista podem ser aplicadas à experiência de Jesus. Segundo,
a aplicação dos Salmos 69.21 à experiência de Jesus na cruz ilustra como a ima-
gem poética pode se concretizar quando o ideal do Antigo Testamento se cumpre
em Jesus. O salmista estava comparando o desprezo dos inimigos à comida e
bebida amargas (cf. 69.19,20). Estes itens foram oferecidos literalmente a Jesus,
como demonstrando que a rejeição do salmista pressagiava a de Jesus.

Os Salmos 22 e 69 são os mais extensivamente usados na descrição neo-
testamentária do sofrimento de Cristo. Contudo, declarações de outros Salmos
também são utilizadas. O apóstolo João aplicou Salmos 34.20 à crucificação de
Jesus. Depois de descrever como as pernas de Jesus, ao contrário dos criminosos
crucificados com Ele, não foram quebradas, João declarou: “Isso aconteceu para
que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado”
(Jo 19.31-37, esp. o v. 36).

O Salmo 34, atribuído a Davi (cf. o título), é um cântico de ação de graças
pela libertação concedida por Deus. O salmista recordou o seu tempo de neces-
sidade e louvou ao Senhor por salvá-lo (SI 34.4,6). Exortou os ouvintes a confiar
no Senhor, prometendo-lhes que a fé não se perderia (w.8-10). Advertiu-os que
evitassem o mal (w.12,13), pois os malfeitores são cortados da terra (w.16,21).
Em contrapartida, os justos têm a proteção de Deus (w. 15,17-20,22). O ver-
sículo 20 descreve em termos figurativos como o Senhor protege os justos das
dificuldades que lhes sobrevêm.

Superficialmente, a aplicação de João no versículo 20 à experiência de Je-
sus na cruz, soa esquisita. João deu à passagem um sentido literal que é estranho
ao contexto literário aplicando a promessa de proteção divina a um homem que
há pouco fora brutal e injustamente crucificado pelos inimigos. Levando em
conta a terrível situação de Jesus, a observação de que as pernas não lhe foram
quebradas soa irrelevante.

Contudo, reflexões adicionais mostram que a observação de João é bastan-
te pertinente. A interpretação literal da linguagem figurativa do Salmo, como
vimos em outros casos, tem o efeito de chamar para atenção a Jesus como aquele
em quem se cumpre o ideal apresentado no Salmo. Neste caso, João viu Jesus
como o Justo que está acima de toda comparação. Quando o valor simbólico é
devidamente avaliado, os ossos não quebrados de Jesus testemunham este fato e 
tornam-se a garantia da sua defesa última, um evento que João passou a descre-
ver no contexto que vem imediatamente a seguir.

O autor de Hebreus usou Salmos 40.6-8 na descrição da obra sacerdotal de
Cristo (Hb 10.5-7). Embora reconhecesse prontamente o seu pecado (40.12), o
autor deste Salmo também afirmou a devoção sincera a Deus (w. 6-10). Louvou
a Deus pelos atos salvíficos no passado (w. 1-3) e pediu que fosse livre daqueles
que queriam tirar-lhe a vida (w. 11-17). Nos versículos 6 a 8, que são parte da
confissão de lealdade, ele enfatizou que Deus deseja devoção genuína e não
ritual vazio (cf. 51.15-17).

Na aplicação neotestamentária destas palavras a Jesus, vemos os mesmos
princípios comentados acima com respeito ao Salmo 69. Primeiro, certas decla-
rações no SI deixam claro que o orador é o antigo salmista e não Jesus (cf. v. 12).
Não obstante, porque Jesus cumpre o ideal do Justo sofredor retratado no Salmo,
as palavras do salmista também eram as palavras de Jesus, como se dá em Hebreus
10.57. Segundo, quando faladas por Jesus, as palavras dos versículos 6 a 8 assu-
mem um sentido elevado. No contexto do Antigo Testamento, a declaração do
salmista não indica uma rejeição do sistema sacrifical, mas comprova a prioridade
de lealdade genuína. Nos lábios de Jesus, as palavras assumem nova significação
e indicam que o sacrifício totalmente suficiente de Jesus pelos pecados tornou o
sistema sacrifical do Antigo Testamento obsoleto (cf. Hb 10.8-14).

Considerando que Jesus é o cumprimento do justo sofredor ideal, então os ini-
migos de Jesus são a culminação da longa linhagem de malfeitores que se opunham
aos servos fiéis do Senhor. Tendo em vista que Judas possuía muitas das caracterís-
ticas destes homens maus (especialmente a ganância, o engano e a infidelidade), ele
cabia muito bem como seu representante. Nesta função, certas descrições que os
salmistas fizeram dos seus inimigos se ajustavam perfeitamente nele.

Foi o que Jesus fez na noite anterior à crucificação. Indicou que um
dos doze o trairia (Jo 13.10,11,18a) e depois citou as palavras dos Salmos
41.9: “O que come o pão comigo levantou contra mim o seu calcanhar”
(Jo 13.18b). No contexto original, essas palavras não se referiam a Jesus e a
Judas. Mais exatamente, o salmista falava como alguém infestado por uma
doença física séria (41.3,8), que aparentemente fora ocasionada pelo seu
próprio pecado (v.4). Lamentou o fato de que os inimigos, incluindo um
que outrora fora seu amigo chegado, o caluniaram e avidamente espera-
vam que o ele morresse (w.5-9). Implorou por livramento e afirmou a sua
integridade e lealdade essencial a Deus (w.la, 10-12). Como incomparável
servo perseguido de Deus (diferente do salmista, Jesus não tinha pecado),
que também foi traído por um amigo, Jesus destinou a si as palavras do ver-
sículo 9. Fazendo isso logo antes da refeição na qual ele compartilhou pão
com Judas (cf. Jo 13.26,27), Jesus deixou claro que a linguagem do Salmo se
referia ao fato de Ele ser traído por Judas.

Pedro também aplicou a linguagem dos Salmos a Judas. Observou que
a Escritura falara da queda de Judas com muita antecedência. Para apoio de 
sua observação, citou os Salmos 69.25 e 109.8 (cf. At 1.15-20). Nos contextos
literários, ambas as declarações são maldições formais pronunciadas por Davi
contra os inimigos. Argumentando do menor para o maior, Pedro aplicou
as maldições a Judas, o inimigo no mais alto grau que sintetizava a horda
de malfeitores que se opusera aos justos ao longo da história. Para facilitar a
aplicação dos Salmos 69.25 a Judas, Pedro alterou a forma gramatical do tex-
to, mudando para o singular as formas plurais da passagem. Ainda que haja
quem acuse Pedro de ser irresponsável e insincero com o texto, o tratamento
da passagem está em harmonia perfeita com o princípio hermenêutico de que
a morte de Jesus às mãos dos inimigos era a culminação da luta entre os justos
e injustos desempenhada nas páginas do saltério. Como tal podemos aplicar
(e até mesmo adaptar) o linguajar que descreve as primeiras fases nessa luta
até ao seu episódio final.

O Novo Testamento também utiliza a linguagem do saltério para procla-
mar que Deus defendeu Jesus pela ressurreição. Falando aos irmãos israelitas no
dia de Pentecostes, Pedro anunciou que Jesus ressurgira dos mortos de acordo
com as palavras de Davi registradas em Salmos 16.8-11. Presumindo que as pa-
lavras dos salmistas se referem à ressurreição, ele explicou que elas não podiam
se aplicar à experiência de Davi, porque há muito que ele morrera e o túmulo
era conhecido por todos. Davi, sendo profeta, falara da ressurreição de Cristo
(cf. At 2.22-31). De modo semelhante, o apóstolo Paulo proclamou que a res-
surreição de Jesus cumpriu as palavras dos Salmos 16.10. Como que a demons-
trar que as palavras do Salmo, entendidas neste sentido, não se referiam a Davi,
ele também contrastou Davi, cujo corpo sofrera decomposição, com Cristo que
escapara da morte pela ressurreição (At 13.35-37).

Levando em conta as declarações de Pedro e Paulo, é tentador e talvez correto
entender o Salmo 16 como um Salmo diretamente profético, no qual Davi, falando
em nome do seu Descendente, previu a ressurreição do Messias. Afinal de contas,
Pedro intitulou Davi especificamente de “profeta” e declarou que Davi “sabendo
[...] nesta previsão, disse da ressurreição de Cristo” (At 2.30,31, grifos meus).
Alguns intérpretes preferem entender que o Salmo 16, como tantos outros
Salmos usados pelo Novo Testamento, é indiretamente messiânico. Levando
em conta as declarações devidamente claras de Pedro, tal interpretação é pos-
sível? Para responder essa pergunta, temos de examinar mais cuidadosamen-
te o Salmo e as passagens pertinentes no Novo Testamento, tendo em mente
princípios observados em nossa análise dos salmos indiretamente messiânicos
discutidos acima.

Podemos classificar o Salmo 16 como cântico de confiança. Na primeira
seção do Salmo o orador pede proteção divina (v. 1), afirma lealdade a Deus
em contraste com outros que se afastam dele (w. 2-4), fala em termos figurati-
vos das ricas bênçãos de Deus (w.5,6) e promete louvar ao Senhor (v. 7). Nos
versículos 8 a 11 (a porção citada por Pedro), ele declara confiança na presença
protetora de Deus. Ele não se abalará, porque o Senhor está à sua mão direita,

permitindo-lhe ter alegria e segurança (w. 8,9). Deus náo o deixará no “infer-
no” ou que “veja corrupção” (v. 10; respectivamente, “sepulcro” e “sofra decom-
posição”, NVI). Antes, ele desfrutará de vida na presença de Deus (v.l 1).
O versículo 10 é o versículo-chave, necessitando de atenção especial. Várias
observações são pertinentes à sua interpretação. Primeiro, o paralelismo poético
do versículo é sinônimo, com cada um dos elementos na primeira linha corres-
pondendo a um elemento na segunda. A declaração “não deixarás” corresponde
a “nem permitirás”, enquanto que “a minha alma” (lit., “a minha vida”) e “o teu
Santo” são paralelos, como são “inferno” e “corrupção”, por causa da estrutura
paralela do versículo, é praticamente certo que “o teu Santo” é o próprio orador
e não um indivíduo distinto.

Segundo, o termo hebraico traduzido por “Santo” não é um termo técnico
para referir-se ao rei, mas é usado nos Salmos acerca dos servos fiéis de Deus em
geral.  Portanto, não podemos entender como inerentemente messiânico.
Terceiro, traduzir a palavra hebraica sahat por “decomposição” é pro-
blemática. Essa tradução presume a existência de um substantivo sahat “cor-
rupção” (derivado do verbo sahat, “ser corrompido”, “ser destruído”), que se
compreende que é homônimo do bem atestado sahat, “cova”.  Considerando
que sahat (“cova”) se refere figurativamente à morte ou sepulcro, faria sentido
excelente em Salmos 16.10 paralelo ao “sepulcro”.  Se lermos “cova” em vez
de “decomposição”, fica mais difícil ver uma referência à morte e sepultamento
literal no texto.

Quarto, os verbos usados (“deixarás” e “permitirás”) diriam respeito teori-
camente ou a ser liberto da morte física (sobretudo se lermos “cova” em vez de
“decomposição”) ou a ser liberto do sepulcro depois da morte física. No contex-
to do saltério, a primeira opção é mais provável (ver a discussão acima sobre a
visão que os salmistas tinham da vida após a morte). Em suma, um exame dos 
Salmos 16.10 no contexto literário não exige que entendamos como referência
à ressurreição. Exceto pelo uso neotestamentário da passagem, o versículo 10 é
mais facilmente compreendido (no contexto do saltério como um todo) como
a declaração confiante do salmista de que ele seria protegido de uma morte
prematura, violenta e injusta às mãos daqueles que são hostis a Deus e seus
servos.

Claro que, possuindo o cânon completo da Bíblia, não podemos separar o
Salmo do seu uso no Novo Testamento. Ao considerarmos o Novo Testamento,
temos de ter cuidado para não fazermos suposições gratuitas sobre a natureza do
uso do Salmo e assim negligenciarmos injustamente outras opções interpretati-
vas. O que exatamnte o Novo Testamento assume como certo sobre a natureza
do Salmo 16? Até que ponto podemos pressionar legitimamente as suas decla-
rações? O tratamento que o Novo Testamento dá ao Salmo exige que este seja
entendido exclusiva e diretamente como messiânico?

Como já comentado, o Novo Testamento presume que a ressurreição está
em vista em Salmos 16.10 e que Jesus Cristo é o orador, como também o refe-
rente do “Santo”. Entretanto, isso por si só não significa necessariamente que o
Salmo seja exclusivamente messiânico ou diretamente profético. Podemos ex-
plicar a aplicação cristológica que o Novo Testamento faz ao Salmo pelos prin-
cípios hermenêuticos já comentados em relação aos salmos indiretamente mes-
siânicos. Considerando que os sofredores justos do saltério foram defendidos
ao serem libertos da morte às mãos dos inimigos, esperamos que Jesus, o Justo
sofredor por excelência, também fosse defendido. Quando ameaçados pelos ini-
migos, os salmistas não passaram pela morte física, embora ficassem face a face
com os seus horrores antes de serem salvos das suas garras. Como o epítome
do sofredor ideal, Jesus deu um passo a mais descendo realmente ao sepulcro e
depois ressuscitando. Quando recebe o sentido elevado dado pelo Novo Testa-
mento, Salmos 16.10 descrevem a experiência de Jesus. Em seu sentido elevado,
a linguagem aplica-se exclusivamente a ele, mas não significa necessariamente
que o Salmo, compreendido em sentido menor e mais tipicamente do Antigo
Testamento, não possa se referir a Davi, ou seja, também aplicável aos leitores.
Os apóstolos estavam preocupados com a significação cristológica do Salmo.
Por isso, não esperaríamos que mencionassem um sentido mais imediato (e
relativamente mundano!) que as palavras do salmista poderiam ter possuído. O
fato de não terem feito assim não significa que tal sentido não exista.

Apesar do que acabamos de comentar, temos de admitir que certos ele-
mentos na declaração de Pedro se diferenciam de outros contextos do Novo
Testamento que utilizam os Salmos em sentido indiretamente messiânico. Nos
outros casos, não temos declarações claras e explícitas de que o salmista en-
tendia que as palavras possuíam um sentido sublime e profético. Entretanto,
de acordo com Pedro, Davi estava ciente de que as palavras dos versículos 8 a
11 eram aplicáveis (quer exclusivamente ou em última análise) a um dos seus
descendentes. Davi entendeu as ramificações da promessa de Deus que dos seus 
descendentes cumpriria o ideal messiânico e ocuparia o trono (At 2.30). Como
profeta (At 2.30), Davi deve ter visto que isso exigia a vitória divina sobre o
poder da sepultura que transcendia ao mero livramento de uma morte prema-
tura e injusta às mãos dos inimigos (o sentido das palavras caso aplicável ao
próprio Davi). Embora não saibamos exatamente a clareza com que ele viu estes
desenvolvimentos futuros, uma coisa é certa em retrospecto — ao falar que
este futuro descendente ideal triunfaria sobre a morte, Davi estava falando da
ressurreição do Messias (At 2.31).

Para resumir, levando em conta as declarações de Pedro, é possível ver-
mos o Salmo 16 exclusivamente como e diretamente messiânico. Nada no
Salmo ou no Novo Testamento exige essa interpretação. Não é impossível
que em Salmos 16.10 seja a declaração de confiança de Davi em Deus que
o livraria de uma morte violenta às mãos dos inimigos e, ao mesmo tempo,
a confissão profética de que o Messias escaparia da morte de modo até mais
dramático. Neste caso, podemos intitular o Salmo 16 de indiretamente mes-
siânico, embora as declarações de Pedro sobre Davi estar ciente do seu senti-
do elevado o diferencie dos outros assim acima categorizados. Neste caso, a
significação da experiência do salmista que previa a experiência do Messias
não esperava descerramento no progresso da revelação, mas foi compreendida
pelo próprio autor.

GUERREIRO

Um dos papéis primários dos reis do antigo Oriente Próximo era ser guer-
reiro. Os reis se vangloriavam da coragem militar. Por exemplo, o governante
assírio Asurnasirpal II disse que ele era como o “grande rei [...] subjugador de
todos os príncipes, destemido na batalha, dragão feroz, aquele que quebra as
forças dos rebeldes, [...] que pisa no pescoço dos príncipes insubmissos, é como
enchente poderosa cujo conflito não há comparação, [...] aquele que (provoca) a
batalha (e) o conflito, que força os príncipes insubmissos curvarem-se a ele, que
domina todos os povos, rei forte, que destrói as fortificações dos inimigos, que
esmaga as armas dos príncipes”.54

Os Salmos afirmam que Deus é um guerreiro-rei poderoso, que protege o
povo e, na função de juiz, executa justiça a favor deles. Quando ameaçados pelos
inimigos, os indivíduos apelavam a Deus como guerreiro. Por exemplo, o autor
do Salmo 35 orou: “Pega do escudo e da rodela e levanta-te em minha ajuda.
Tira da lança e obstrui o caminho aos que me perseguem” (v. 2,3a). Os reis
davídicos testemunharam que Deus os treinara na arte da guerra e os equipara
especialmente para a batalha (18.34,35; 144.1). Os cânticos de Sião descrevem
que Deus é um Guerreiro impressionante, que devasta as forças hostis (cf. 47.2; 76.7,12). O Senhor traz “desolações [...] na terra”, “quebra o arco”, “corta a 
lança” e “queima os carros no fogo” (46.8,9; cf. SI 75.3). Quando os exércitos
inimigos marcham contra a cidade escolhida, Deus, dando o seu poderoso grito
de guerra, coloca terror nos corações (76.5,6; cf. 48.4-6).  Da mesma maneira
que o vento forte despedaça veleiros, assim ele despedaça os inimigos fora dos
muros de Sião (48.7). Salmos 24.7-10 falam que Deus é “o Rei da Glória” vol-
tando à cidade depois de ter obtido uma vitória arrasadora. Ele é chamado “o
Senhor forte e poderoso” (ou “Deus dos Exércitos”) que é “poderoso na guerra”.
Neste contexto militarista, a “glória” de Deus é o brilho físico que Ele exibe em
batalha (cf. 29.3; 97.6). De modo semelhante, o Salmo 68 diz que o Senhor,
acompanhado por milhares de carros, sobe ao seu santuário com cativos e tribu-
tos (w.17,18,24-31) logo após ter vencido reis e exércitos (w.12,14).

As descrições mais vívidas de Deus como guerreiro constam em passagens
denominadas teofânicas, que mostram o Senhor vindo em esplendor e poder a
para lutar pelo povo. A imagem um tanto quanto estereotipada usada nestas des-
crições teofânicas foi expressivamente influenciada pelas teofanias históricas do
Senhor (ver, por exemplo, Ex 19; Js 10; 1 Sm 7; 2 Sm 5), antigos relatos poéticos
das ações poderosas de Deus (cf. Ex 15; Dt 33; Jz 5), e pelas antigas representações
do Oriente Próximo de guerreiros-reis e deuses, especialmente Baal, o deus das
tempestades. Embora esses textos poéticos náo relatem aparições literais dEle,
espelham que os salmistas tinham consciência da intervenção real de Deus na
história e mostram que eles tinham fé no envolvimento pessoal contínuo de Deus
na vida da nação.

Salmos 18.7-16 é o mais detalhado destes textos teofânicos. Davi disse
que o Senhor vem do céu a toda velocidade para defendê-lo nas asas do vento,
personificado aqui como um querubim (18.9,10). Exalando fumaça e fogo (v.
8), Ele troveja do céu e espalha os inimigos com relâmpagos (w. 13,14).  O
cosmo treme diante dEle (v. 7) e até o inferno é escancaradamente aberto pelo
seu grito de guerra (v. 15). Esta exibição de poder é em benefício do seu servo
escolhido, a quem Ele tira em segurança das águas furiosas do caos (v. 16).
Estes mesmos elementos aparecem em outras descrições teofânicas.
De modo vívido e amedrontador, o Salmo 29 fala que Deus usa os elementos do
temporal com trovões quando batalha pelo seu povo (cf. 29.11). Como no Salmo 
18, o cosmo treme diante dEle. O Salmo 68 fala que Deus como “vai montado sobre os céus dos céus, desde a antiguidade” (cf. 104.3) e “envia a sua voz e dá um brado
veemente” (68.4,33). Os versículos 7 e 8 desse Salmo usam imagem teofânica (tirada
de Jz 5.4,5) junto com a conquista de Canaá (cf. Jz 5.9,10). O mesmo Deus que fez
tremer o monte Sinai marchou à frente do povo para conduzi-lo à Terra Prometida.
Salmos 77.16-19 usa imagem teofânica recordando a travessia do mar Vermelho. A
aparição de Deus na tempestade sacode a terra e incapacita o mar para que ele condu-
za o povo com segurança através de suas águas violentas (cf. também 114.3-7). Nos
Salmos 97.3-5, a chegada de Deus para defender o povo (cf. v. 10) é acompanhada por
fogo destrutivo (cf. 104.4) e relâmpagos, causando perturbações cósmicas generaliza-
das. Usando linguagem e imagem rememorativas do Salmo 18, o autor rei do Salmo
144 pediu ao Senhor que descesse do céu, atirasse relâmpagos como flechas e o livrasse
do inimigo, que o ameaçava como águas tempestuosas (144.5-7).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.