18 de janeiro de 2015

ROBERT B. CHISHOLM.JR - Uma teologia de Salmos: As Esferas do Domínio de Deus

A ORDEM NATURAL

Como Criador e Rei soberano do universo, o Senhor sustenta e controla a
ordem natural. Por seu decreto, os corpos celestes executam suas funções designadas
(19.4-6; 104.19-23; 148.3-6), as fundações da terra permanecem imóveis (93.1;
96.10; 104.5) e o mar fica dentro dos limites estipulados (93.3,4; 104.6-9). Os
elementos naturais, inclusive o trovão, o relâmpago, o granizo, a neve, a nuvem e o
vento fazem o que ele manda (29.3-9; 104.3,4; 135.7; 147.15-18; 148.8). Como
aquele que controla a chuva, o Senhor é a fonte de vida para todas as criaturas (65.9-
13; 104.10-15). A vida e a morte estão nas mãos dEle (104.27-30) e até o inferno, o
lugar da habitação dos mortos, está dentro da sua jurisdição (33.19; 95.4; 103.4).

A soberania de Deus na ordem natural criada demonstra que Ele é infinita-
mente superior aos deuses-ídolos das nações (96.5; 97.9; 1355-7). O trabalho

do Senhor na criação é evidência da sua glória (8.1; 19.1; 96.5,6; 104.1), poder
(65.6) , sabedoria (104.24; 136.5), interesse pela ordem e justiça (96.10; 97.6),
confiabilidade (119.89-91) e bondade (104.28; 145.9). Toda criação é convo-
cada a louvá-Lo (148.1-13). Em contraste com o Criador poderoso, os deuses-
ídolos pagãos são nada mais que produtos de artesãos humanos (135.15). As
imagens têm bocas, olhos e ouvidos, mas não podem falar, ver, ouvir ou respirar.
Só causam vergonha aos seus adoradores (97.7; 135.16-18).

O controle de Deus da ordem natural é especialmente significativo no
plano de fundo das antigas crenças cananéias. Na mitologia ugarítica, Baal era
o deus da tempestade que cavalga nuvens e usa os elementos da tempestade
para levar fertilidade à terra. Ele se vangloria: “Só eu sou aquele que é o rei
acima dos deuses, que nutre os deuses e os homens, que satisfaz as multidões
da terra”. Baal era supostamente a fonte dos alimentos básicos da vida: o pão
(Ugar, Ihm), o vinho (yn) e o óleo (smn). Em contradição direta a isto, os sal-
mistas afirmaram que o Senhor amolece a terra com as chuvas (65.10) e produz
para o homem “da terra o alimento [em hebraico, helem\ e o vinho \yayin\ que
alegra o seu coração; ele faz reluzir o seu rosto com o azeite \semen] e o pão
[lehem], que fortalece o seu coração” (104.14,15).

Os mitos também descrevem os elementos da tempestade, especialmente o
trovão e o raio, como as armas de Baal. Um texto fala que o arsenal de Baal tem
“sete raios” e “oito armazéns de trovões”. Outro descreve a poderosa teofania
da tempestade de Baal da seguinte forma: “Então Baal abriu uma brecha nas
nuvens, Baal soou a voz santa, Baal trovejou dos seus lábios [...] os lugares altos
da terra tremeram. Os inimigos de Baal fugiram para os bosques, os inimigos de
Hadade [nome alternativo de Baal] tomaram as montanhas. E o conquistador
Baal disse: ‘Inimigos de Hadade, por que estais tremendo, barcos do Valente?’
Os olhos de Baal guiaram sua mão, enquanto ele balançava um cedro [ou seja,
um raio] na mão direita. Assim Baal foi entronizado na sua casa”. Em opo-
sição direta a este retrato mitológico de Baal, o Salmo 29 apresenta o Deus de
Israel como o senhor da tempestade, que se assenta entronizado sobre as águas
do caos. O salmista enfatiza o poder destrutivo da voz atroadora de Deus, que
quebra as árvores mais altas e faz a terra tremer violentamente (29.3-9). “A voz
do Senhor” é especificamente mencionada sete vezes, enfatizando a plenitude e
magnitude do seu poder grandioso.

Na mitologia ugarítica, os dois principais inimigos de Baal são Yam, o deus
do mar (ver discussão anterior), e Mot, o deus da morte e do inferno. Como o
deus da vida e fertilidade, Baal se engaja em luta contínua com Mot que ou reflete
o ciclo sazonal ou a ameaça de seca prolongada à regularidade sazonal. Inicial-
mente, Baal se submete à autoridade de Mot, sendo forçado a entrar no reino da
morte. Algum tempo depois, Baal volta e vence Mot depois de uma luta feroz. Em
contrapartida, os Salmos nunca dizem que o Senhor é servil à morte, nem consi-
deram que a morte apresente perigo real ao domínio do Senhor. Os salmos afir-
mam que a morte é uma força hostil que ameaça o povo de Deus (18.4,5; 116.3)
e um lugar onde o indivíduo é separado da comunidade de adoradores pertinentes
ao concerto e não experimenta mais os atos poderosos de Deus (6.5; 30.9; 88.10-
12; 115.17). Mesmo assim, esse reino de trevas está sob o controle soberano de
Deus, que tem nas mãos as “profundidades da terra” (95.4). Ele possui o poder
para livrar o seu povo das garras da morte (16.10; 18.15-19; 33.18 e 19; 103.4) e
só determina a extensão de vida das suas criaturas (90.3-12; 104.27-30). 

AS NAÇÕES

Como Criador da humanidade, o Senhor também domina sobre o mundo
das nações (22.28; 47.8,9; 66.7; 113.4). Ele faz tudo o que quer na terra (135.6;
cf. também 115.3), frustrando os planos das nações (33.10). Ao longo da história
de Israel, Ele demonstrou a soberania sobre as nações. Para livrar os israelitas do
Egito e dar-lhes a Terra Prometida, ele derrotou reis poderosos, inclusive faraó,
Seom, rei dos amorreus, Ogue, rei de Basã e todos os reis de Canaã (135.9-11;
136.17-20). Depois, ele capacitou Davi a conquistar as nações circunvizinhas e fa-
zer deles estados vassalos de Israel (18.43-45). Em um oráculo de salvação dirigido
a Davi, o Senhor declarou: “Moabe é a minha bacia de lavar; sobre Edom lançarei
o meu sapato; sobre a Filístia jubilarei” (60.8; 108.9). Quando o povo se rebelou
contra Ele, criou nações como instrumentos de castigo (66.12; 106.40-43). Ain-
da que as nações sejam hostis ao Senhor e adorem falsos deuses (74.10,18,22;
135.15) , o seu desejo é que elas abandonem os caminhos rebeldes, reconheçam a
soberania dEle e ofereçam-lhe adoração genuína (2.10-12; 47.1; 96.7).

ISRAEL

A posição e obrigações de Israel como o reino vassalo do Senhor. Embora seja
Rei sobre a ordem natural e o mundo das nações, Deus escolheu uma nação,
Israel, para ser o seu exclusivo povo do concerto. Israel se tornou a “herança”
(:nahalah•, cf. 33.12; 78.62,71; 94.5,14; 106.5,40) de Deus e o seu “tesouro
peculiar” (sfgullah; cf. 135.4). Essas duas palavras são usadas em Deuteronômio
como termos técnicos que indicam o estado especial de Israel como reino vassa-
lo de Deus (Dt 4.20; 7.6; 9.26,29; 14.2; 26.18). Em sentido único, o Senhor
é o “Deus de Jacó” (46.7-11).

Como nação do Senhor, os israelitas receberam a lei divina (147.19), a
qual tinham de amar e obedecer (103.18; 105.45; 111.10). A exigência mais
básica da lei era a lealdade absoluta ao Senhor. O povo de Deus tinha de colocar
a fé somente nEle (37.3,5; 44.4-8; 62.8; 115.9-11) e rejeitar os deuses das na-
ções (40.4; 81.9). Também não tinha de confiar na própria força ou em alianças
estrangeiras (20.7; 33.16,17; 118.8,9; 146.3).

O autor do Salmo 119 exemplifica uma atitude para com a lei mosaica
que era a ideal para todo o Israel (cf. também 19.7-11). Nesta oração longa, o
salmista empregou uma variedade de expressões e metáforas para descrever a
devoção aos mandamentos de Deus. Afirmou inúmeras vezes o grande amor
pela lei (w. 47,48,97,113,119,127,140,163,167) e declarou a obediência fiel
a ela (w. 17,44,55-57,60,67,69,88,100,101,106,112,115,129,134,145,146,16
6-168). Escolheu a lei do Senhor (w. 173), lembrou-se dela (v. 52), almejou-a
(w. 20,40,174), buscou-a (w. 45,94), agarrou-a (v. 31), meditou nela (w. 11
,15,23,27,48,78,95,97,99,148), deliciou-se e alegrou-se nela (w. 14, 16, 24,
47, 70, 77, 92, 111, 143,174), correu por ela (v. 32), falou dela (v. 46), achou
consolo nela (v. 52), esperou nela (w.74,81,147) e temeu-a (v. 120). No lado
negativo, não se esqueceu da lei do Senhor (w. 61, 93, 109, 141, 153,176), não
a abandonou (v. 87) ou afastou-se dela (w. 102, 110,157). Como ato de louvor,
ele levantava as mãos e agradecia a Deus sete vezes ao dia pela lei (119.48,164),
que era uma luz para guiá-lo pelo caminho traiçoeiro da vida (v. 105). Para o
salmista, a lei de Deus era mais valiosa do que as riquezas materiais (w. 72,127)
e mais satisfatória que o mel (v. 103).

A presença de Deus com o povo do concerto. Como Senhor do concerto
de Israel, Deus vivia entre o seu povo. Nos dias de Moisés, Ele os guiou e os
protegeu com uma coluna de nuvem e uma coluna de fogo (78.14; 105.39).
Mais tarde, habitava no Tabernáculo em Siló (78.60) e subsequentemente es-
colheu o Templo em Jerusalém como santuário permanente (78.68, 69; 87.1,2;
132.13,14).

Muitos salmos, especialmente os cânticos de Sião (46; 48; 76; 84; 87;
122), exaltam Jerusalém como a residência do Senhor. Safom, situado ao norte
de Israel, era a montanha sagrada dos cananeus, de onde o seu supremo deus
El supostamente reinava. Porém, Sião era o verdadeiro “Safom”, pois era aqui
que o Senhor Deus de Israel, o “Grande Rei” do universo, vivia e reinava (48.2).
Como capital do reino universal de Deus, Sião desfrutava da proteção e bênçãos
divinas. A presença de Deus na cidade a tornava imune das nações furiosas fora
dos muros (46.1-11). Quando atacavam a cidade, eram rapidamente destru-
ídas pelo poder devastador de Deus (48.3-8; 76.3-6). O monte Sião perma-
neceria para sempre, sem se abalar por causa dos seus inimigos (125.1). Deus
provia a subsistência dos residentes da cidade, levando-os a cantar com alegria
(132.15,16). As suas bênçãos abundantes eram como correntes vivificantes que
fluem pela cidade (46.5; cf. 36.8). Subsequentemente até as nações pagãs se-
riam forçadas a reconhecer a grandeza de Sião e a posição privilegiada dos seus
habitantes (87.3-7).

Sião era o foco da antiga religião e fé israelita, tanto antes quanto depois
do exílio. O povo de Deus, especialmente os peregrinos religiosos que chegavam
à cidade (84.5-7), encontravam consolo e encanto nas suas estruturas físicas
(48.12,13; 84.1; 122.3), porque eram lembranças tangíveis da presença prote-
tora de Deus. O Salmo 84 exalta o Templo em termos particularmente arden-
tes, romantizando-o como lugar de segurança para os passarinhos e seus filhotes
(v.3). Na sua alegria, o autor clamou: “Vale mais um dia nos teus átrios do que,
em outra parte, mil. Preferiria estar à porta da Casa do meu Deus, a habitar
nas tendas da impiedade” (84.10). Todos que amavam Jerusalém tinham de
orar pelo bem-estar e prosperidade contínuos da cidade (122.6-9). Até quando
foram levados cativos à Babilônia e os seus captores pediram zombeteiramente
que cantassem uma das canções de Sião, os exilados atemorizados continuaram
prestando lealdade à cidade (137.1-6). Escrevendo depois da queda de Jerusa-
lém, o autor do Salmo 102 orou pela restauração de Sião e previu um dia em
que o ideal de Sião se cumpriria (w. 13-22). Naqueles dias, as nações e seus go-
vernantes temeriam ao Senhor (v. 15) e se reuniriam em Jerusalém para adorar
o seu nome (w. 21,22).

Claro que a menção do exílio e da queda de Jerusalém nos lembra que o
ideal hínico de Sião como cidade de Deus estava em nítido contraste com a
realidade histórica da subversão violenta e ruína total da cidade. De acordo
com os Salmos examinados acima, Sião, como residência permanente de
Deus (cf. SI 132.14), era imune aos ataques das nações. Os outros Salmos
descrevem em detalhes vívidos a destruição da cidade pelas mãos de exérci-
tos pagãos. O autor do Salmo 74 lamentou que os soldados babilônios en-
traram no Templo e o despedaçaram com machados antes de queimá-lo até
aos alicerces (74.1-11, esp. w.4-8). Os que celebravam a presença protetora
de Deus em Sião eram meros pensadores levados ao extremo do ridículo por
expectativas irreais? Não denunciou Jeremias os cidadãos de Jerusalém por
colocarem falsas esperanças nas defesas da cidade e nos pátios do Templo
(Jr 7.4; 8.19; 21.13)?

Para solucionar esta tensão, temos de reconhecer que os cânticos de Sião,
com a sua linguagem extravagante e ponto de vista otimista, não são garantias
proféticas ou promessas incondicionais, mas são expressões de um ideal que
só foi parcialmente realizado no período pré-exílico. O Sião cantado nas can-
ções é o que Jerusalém deveria e poderia ter sido caso seus líderes e cidadãos
tivessem permanecidos leais ao Deus que habitava no meio deles. A libertação
milagrosa de Jerusalém dos assírios em 701 a.C. proporcionou um vislumbre
do que Deus podia e queria fazer pela cidade com respeito ao arrependimento
genuíno e fé do povo (Is 36;37). A confiança de Ezequias no Senhor naquele
momento foi uma exceção rara na história de Israel. A absoluta falta de fé
mostrada em ocasião anterior pelo seu pai Acaz (Is 7) era a norma entre o
povo de Deus. A desobediência obstinada do povo forçou o Senhor a retirar a
sua presença protetora da cidade pervertida, deixando-a aberta aos invasores
inimigos e à destruição (cf. Ez 10;11). Naqueles dias, o ideal de Sião sofreu
um retrocesso sério.

Os autores dos cânticos de Sião não deveriam ser ridicularizados como so-
nhadores ou ser associados com os rebeldes idólatras e injustos, que transforma-
ram o ideal de Sião em falsa garantia de proteção divina e lançaram a crítica dos
profetas sobre eles. Antes, devem ser admirados como seguidores leais do Senhor
que se deliciaram na realidade da presença divina na Jerusalém pré-exílica e que,
pela fé, antegozaram a realização do pleno potencial que propiciava. Embora
escolhessem focalizar no ideal, em vez dos pré-requisitos morais-éticos para a
sua realização, com certeza não negligenciaram ou repudiaram estes últimos (cf.
84.11b,12). Um dia, o ideal que almejaram e até em pequena medida haviam
experimentado, se materializará. Os mesmos profetas que também anunciaram
a queda da antiga Jerusalém esperavam o dia em que Deus purificaria e restabe-
leceria Sião e a tornaria novamente o lugar da sua habitação. Naquele tempo, a
cidade e seus habitantes receberão reconhecimento universal como a “cidade de
Deus” (cf. 87.3-7). Por isso, o ideal de Sião continuou inspirando os israelitas,
mesmo quando eles eram confrontados pelas realidades do julgamento de Deus
(cf. 102.13-22).

O presente de Deus de um mediador para o povo do concerto. Além
de dar ao povo do concerto a sua presença protetora, Deus lhes deu o rei
davídico para servir de mediador entre Ele e a nação. Tirou Davi do apas-
centamento de ovelhas e o estabeleceu para “apascentar a Jacó, seu povo”
(78.70-72; cf. 89.20), responsável por guiá-los em justiça e assegurar a paz
e a justiça na terra.

Deus estabeleceu um concerto com o seu rei ungido, que elevou Davi e
seus descendentes a uma posição especial diante dEle (2 Sm 7). O rei daví-
dico desfrutava do status de “Filho” de Deus (2.7) e “primogênito” de Deus
(89.26,27). Como vice-regente do Senhor sobre Israel, ele se assentou, por
assim dizer, à mão direita de Deus (110.1, entretanto, ver análise deste salmo
mais adiante) e até foi tratado por “Deus” (45.6).

Os estudiosos propõem vários paralelos ao fenômeno em Salmos 45.6 (um
rei ou oficial ser tratado ou chamado “Deus”). Em Exodo 4.16; 7.1, Moisés,
como representante divino de Aráo e faraó, é chamado “Deus”, mas o uso fi-
gurativo do título está claramente delineado no contexto (por conseguinte, a
tradução “como Deus”, NVI). Certos estudiosos entendem que os juizes huma-
nos são o referente de ’elohim em Ex 21.6, 22.8,9,28 e 1 Sm 2.25, mas não há
razão para não entendermos que Deus seja o referente direto nestes textos. Em
Salmos 82.1,6, os “deuses” tratados são reis humanos que entretém ilusões de
deidade para si mesmos e são, portanto, adequadamente (e sarcasticamente!)
chamados seres divinos (ver análise ainda neste capítulo). Talvez o paralelo mais
estreito em Salmos 45.6 seja Isaías 9.6, onde um dos títulos do rei guerreiro é
“Deus Forte” (’elgibbor). Ver análise de Isaías 9.6 9 (no capítulo 8, em Uma
teologia de Isaías).

O pano de fundo para o concerto davídico e a imagem de filiação associa-
do com ele é o concerto de concessão do antigo Oriente Próximo, por meio do
qual um rei recompensava um servo fiel, elevando-o à posição de “filiação” e
concedendo-lhe presentes especiais, normalmente relacionados com a terra e a
dinastia. Ao contrário do tratado condicional entre suserano e vassalo no qual
foi moldado o concerto mosaico, o concerto de concessão era incondicional e o
recebedor não podia ter seus direitos perdidos. Por conseguinte, as promessas
de Deus a Davi relacionadas ao concerto estavam garantidas por juramento
divino irrevogável (89.3,28-37; 132.11). Lógico que havia obrigações ligadas ao
concerto. Cada rei era responsável por obedecer à lei de Deus (132.12). Caso
falhasse neste aspecto, ele seria disciplinado severamente e perderia a participa-
ção plena nos benefícios da promessa de Deus (89.30-32). Entretanto, mesmo
sob essas circunstâncias, Deus não revogaria a promessa feita à casa de Davi (w.
33,34). A linhagem davídica continuaria e os benefícios ligados ao concerto
permaneceriam disponíveis aos que se mantivessem fiéis às exigências de Deus.
O juramento solene de Deus a Davi era tão certo quanto à existência contínua
do sol e da lua, que nunca deixa de aparecer regularmente no céu (89.35-37).
Deus prometeu ao seu rei escolhido uma dinastia permanente, vitória so-
bre os inimigos e domínio universal. A promessa central do concerto era de
dinastia perpétua. O Senhor declarou a Davi: “A tua descendência estabelecerei
para sempre e edificarei o teu trono de geração em geração” (89.4). Entretanto,
os reis davídicos habitavam em um mundo hostil, onde inimigos internos bus-
cavam usurpar-lhes a posição e os reis estrangeiros lhes ameaçavam o reino. O
Senhor prometeu fortalecer o rei, capacitando-o a vencer os supostos opressores
e inimigos (20.6; 21.8-12; 63.9-11; 89.21-23; 132.18). Em Salmos 18, Davi
descreveu em detalhes como Deus de modo sobrenatural lhe deu poder para a
batalha (18.29,32-35; cf. 144.1) e o capacitou a vencer os inimigos (18.36-42).
Como protetor, o Senhor era para ele um rochedo, um lugar forte, um escudo
e o chifre de boi selvagem (18.2, 30,31; cf. 144.2). Estupefatas pela grandeza
de Davi e o seu Deus, as nações se submetiam de boa vontade à sua autoridade
(18.43-45), de acordo com a promessa de Deus relacionada ao concerto de dar
ao seu ungido o domínio sobre a terra inteira (2.8; 72.8-11; 89.25).

O sucesso do rei na batalha era essencial para o bem-estar da nação. E o
que vemos claramente no Salmo 144, que registra a oração do rei pela inter-
venção de Deus a seu favor (w. 1-11, esp. w. 5 a 8) e descreve as conseqüências
nacionais de uma resposta positiva (w. 144.12-15). O rei pediu a Deus que
descesse do céu em todo o seu esplendor e o livrasse dos exércitos inimigos que
surgiram contra ele como “muitas águas”. Quando a segurança da nação esti-
vesse garantida por vitória, haveria sinais de prosperidade e fertilidade em todos
os lugares, incluindo jovens fortes, jovens bonitas, celeiros cheios de comida e
campos abundantes de rebanhos e manadas.

Os Salmos régios esboçam claramente as obrigações e responsabilidades
essenciais do rei davídico. Como comentado acima, a sua responsabilidade mais
básica era obedecer à lei de Deus (89.30,31; 132.12). Mais especificamente, o
rei tinha de promover a retidão e a justiça na terra (72.1) por meio de exemplo
pessoal e ação. É o que vemos claramente no Salmo 101, que é a confissão da
lealdade do rei a Deus (cf. também 18.20-24). O rei declarou: “Portar-me-ei
com inteligência no caminho reto. [...] Andarei em minha casa com um coração
sincero. Não porei coisa má diante dos meus olhos” (101.2,3a). Também jurou
escolher para a sua corte real homens fiéis e tementes a Deus, em vez de optar
pelos caluniadores enganosos (w. 3b-7), e fazer todo esforço para eliminar os
homens maus da terra (v. 8). O Salmo 72 descreve o rei ideal como aquele que
ativamente promove a justiça na terra defendendo a causa dos aflitos, fracos e
necessitados e exterminando aqueles que os oprimem (72.2,4,12-14). Era por
este tipo de rei que a nação teria paz, prosperidade e prestígio internacional (cf.
w. 3,5-11,15-17).

O cumprimento messiânico do ideal davídico. Como com o ideal de Sião
já analisado, os Salmos régios descrevem que o ideal de um rei davídico justo e
temente a Deus nunca foi completamente atingido no antigo Israel. Salomão
dominava sobre um reino vasto, mas a introdução de práticas religiosas estran-
geiras contribuiu para a sua queda. Quando o tolo filho Roboão buscou inten-
sificar o tratamento opressivo que o seu pai dava a força trabalhista do norte, o
reino foi permanentemente dividido, com o rei davídico exercendo autoridade
somente sobre um remanescente sulista da nação. Embora alguns reis exibissem
características piedosas, o ideal de um rei justo que trouxesse paz e prosperidade
duradoura para a nação ficou só nisso, um ideal nunca realizado.

Quando Deus julgou a nação por suas ações rebeldes, os reis davídicos até
experimentaram humilhação. O autor do Salmo 89, depois de lembrar Deus
das suas antigas promessas feitas à casa de Davi (cf. w. 1-37), lamentou a ca-
tástrofe que se abatera sobre a dinastia dos seus dias (w. 38-51). Observou que
Deus na sua ira rejeitara e abandonara o seu rei ungido e que renunciara o con-
certo. A coroa do rei jazia no pó, o palácio estava em ruínas e o rei era objeto de
desprezo. O Senhor removera o seu apoio do rei e permitira que os inimigos o
derrotassem e escarnecessem dele. Em agonia, o salmista perguntou: “Até quan-
do, Senhor? Esconder-te-ás para sempre? Arderá a tua ira como fogo? Senhor,
onde estão as tuas antigas benignidades, que juraste a Davi pela tua verdade?”
(w.46,49). Esse quadro de vergonha e ruína está em nítido contraste com o
retrato bonito e real pintado no Salmo 72. 

Embora o exílio desse a impressão de escapar do golpe fatal ao ideal daví-
dico, as palavras dos profetas continuaram ecoando pelas ruínas de Jerusalém.
Antes do exílio, Isaías, Miquéias, Jeremias e outros anunciaram a queda do tro-
no davídico. Esperavam também o dia depois do julgamento, quando Deus
levantaria um rei ideal e cumpriria as promessas feitas a Davi de domínio eterno
e universal. No período pós-exílico, Ageu e Zacarias reavivaram esta esperança
ligando as promessas davídicas à pessoa de Zorobabel, o governador de Judá sob
o Império Persa e um descendente de Davi. Subseqüentemente Deus levantou
o “Ungido" ou Messias. Jesus Cristo, o incomparável filho de Davi, veio como
Messias de Israel, mas foi rejeitado e crucificado. Um dia, porém, Ele voltará
à terra para estabelecer o reino previsto pelos profetas. Naqueles dias, o ideal
davídico dos salmos régios se tornará realidade quando Jesus reinar “de mar a
mar” e trouxer bênçãos para todas as nações (72.8,17).

Porque o ideal davídico retratado nos Salmos régios foi completa e cabal-
mente cumprido em Jesus, estes salmos são classificados como Salmos messiâ-
nicos. O título é apropriado, mas necessita de qualificação. Os Salmos régios,
por sua natureza literária, não são inerentemente proféticos e não deveríamos
entender que são predições diretas do reinado messiânico de Jesus. Como já
observado, expressam um ideal que, embora ligado com renovada esperança a
muitos reis davídicos históricos na ocasião da sua ascensão ao trono, foi total-
mente realizado em Jesus e por Ele. Por si só, devemos entender estes Salmos
como messiânicos em sentido indireto, em contraste com as predições messiâ-
nicas da literatura profética que, embora também fundamentadas no concerto
davídico ideal, podem ser classificadas como diretamente messiânicas com base
no gênero literário no qual aparecem.

Um exame mais minucioso em muitos dos Salmos régios apóia esta con-
clusão em que os detalhes dos salmos espelham mais logicamente o fundo his-
tórico do antigo Israel, e não o futuro reinado de Cristo. Ao mesmo tempo, o
ideal expresso como um todo no Salmo se realiza em Jesus, e não em um mero
rei humano.

Por exemplo, o Salmo 2 espelha o período do império davídico-salomô-
nico em que muitas nações vassalas circunvizinhas devem ter buscado liber-
tar-se do rei israelita. O Salmo começa com a descrição do desejo de as nações
se rebelarem contra o Senhor e o seu ungido (2.1-3). Os versículos 4 a 6 dão a
resposta do Senhor. Ele ri zombeteiramente e lembra aos reis que Ele instalou
o seu rei em Sião. O rei fala nos versículos 7 a 9, recordando o decreto do Se-
nhor por meio do qual ele foi elevado à posição de filiação e recebeu domínio
universal. Por fim, os reis são advertidos a exercer sabedoria, submetendo-se
ao Senhor e ao seu rei antes de serem eliminados pelo julgamento divino
(w. 10-12). Talvez o Salmo fosse usado quando os representantes das nações
súditas fossem levados a Jerusalém para prestar lealdade e pagar tributo. A
repetição do decreto de Deus teria tornado adequado o Salmo também para
cerimônias de coroação. 

Com a o decorrer do tempo e o enfraquecimento da glória do império
davídico, houve pouca correspondência entre o ideal do Salmo de domínio uni-
versal e as realidades políticas do mundo de Israel. Israel teve de esperar um
rei futuro por meio de quem o ideal seria cumprido. No progresso da história
e revelação, Jesus emergiu como esse rei (Ap 9.15 cita SI 2.9 descrevendo a
descida de Jesus dos céus para destruir os inimigos). Reconhecendo Jesus como
o Messias, o apóstolo Pedro viu a sua rejeição pelos reis dos seus dias como
uma manifestação da rebeldia descrita no Salmo 2 (cf. At 4.25-28 que cita o
SI 2.1,2). Outros entenderam que as palavras do versículo 7 são especialmente
aplicáveis ao Cristo ressuscitado e ascendido que está assentado à mão direita do
Pai (At 13.33; Hb 1.5; 5.5).

O Salmo 45 é outro exemplo de Salmo régio que espelha a situação his-
tórica do antigo Israel, mas que se aplica a Cristo, pois é por meio dEle que se
cumprem plenamente os aspectos primários do seu retrato idealista do rei daví-
dico. Ele foi escrito para o rei (cf. v. 1) na ocasião de um casamento da realeza.
Os versículos 2 a 7 elogiam o rei como “o mais formoso dos filhos dos homens”
(ARA), que vence os exércitos inimigos pela força militar e estabelece justiça na
terra. Os versículos 8 a 15 enfatizam o rei e a sua noiva, ao passo que a conclu-
são (w. 16,17) prometem ao rei uma dinastia duradoura e fama permanente.
Neste Salmo, vemos o rei davídico no seu melhor momento. É um guerreiro
bonito e robusto imbuído de justiça e certo de ter uma dinastia permanente
na ocasião do casamento com uma linda princesa. O eventual fim da dinastia
davídica ameaçava reduzir o Salmo ao estado de uma relíquia irrelevante, em-
bora romântica, do passado distante. Mas por meio de Cristo se cumprirá o seu
retrato do rei ideal. O autor de Hebreus aplicou as palavras dos versículos 6 e 7
a Jesus (Hb 1.8,9). Desta forma, ele utilizou a passagem que mais facilmente
pertence a Cristo, isto é, a porção do Salmo que lida com o status especial e ca-
ráter justo do rei. Ao mesmo tempo, o Novo Testamento evita traçar qualquer
conexão alegórica entre o antigo casamento da realeza e a relação de Cristo com
a igreja.

O Salmo 72 é outro Salmo régio indiretamente messiânico. Ele começa e
termina com orações (w. 1,15-17) oferecidas em prol do rei (talvez Salomão ou
o seu filho, cf. o título). Os versículos intervenientes descrevem as condições
que prevalecerão no reino, caso o Senhor responda positivamente a estas peti-
ções de bênçãos. O retrato idealista do rei como aquele que estabelece justiça,
paz e prosperidade no seu reino e alcança fama duradoura tem notáveis parale-
los nas inscrições semíticas ocidentais relacionadas a reis datado de princípios
do primeiro milênio a.C.” Certas características da descrição, como a extensão
geográfica do reino (v.8) e as referências a visitas e tributos vindo de terras dis-
tantes, inclusive de Sabá (w. 10,11,15), espelham a era salomónica (cf. 1 Rs
4.21; 10.1-15,23-25). O ideal expresso no Salmo nunca foi totalmente realiza-
do na história de Israel, nem mesmo durante o reinado de Salomão. Podemos
rotular o Salmo de messiânico, porque somente durante o reinado milenar de
Cristo é que Israel e as nações desfrutarão de paz e prosperidade para as quais o
autor do Salmo almejou.

Certos estudiosos rotulam o Salmo 110 de régio indiretamente messiâni-
co, mas neste caso a classificação é mais incerta por causa do modo em que é
utilizado no Novo Testamento. Para avaliarmos a complexidade do problema
precisamos examinar o conteúdo do Salmo e seu uso no Novo Testamento.
O Salmo 110 começa com um decreto formal, falado pelo Senhor (que é
tradução de yhwh, “Jeová”) ao “Senhor” (’adon) do salmista, que é claramente
uma personagem real (cf. “cetro da tua fortaleza desde Sião” e “domina”, v.2).
Nem o autor nem o “Senhor” é identificado precisamente. Se entendermos que
a frase frdawid no título indica autoria (“Salmo de Davi”), então o “Senhor”
de Davi seria alguma outra personagem real a quem ele está subordinado. Se
considerarmos o título no sentido de “para Davi” ou “relacionado com Davi”,
então o próprio Davi seria o “Senhor” citado e o salmista seria um dos súditos
de Davi, talvez um membro da corte. Seja como for, o salmista observou que o
Senhor Jeová concedeu ao seu “Senhor”, o rei, uma posição privilegiada à mão
direita divina e prometeu subjugar os inimigos do rei (v.l). Nos versículos 2 e
3, o salmista fala com o seu “Senhor”. Ele reiterou o conteúdo do oráculo pre-
cedente e previu o rei ser sustentado pelos súditos ou tropas (não está claro o
significado preciso do v.3). O versículo 4 informa outro decreto divino (cf. v.l)
por meio do qual Jeová eleva o “Senhor” do salmista ao status de rei-sacerdote
configurado de acordo com Melquisedeque. O versículo 5 a pode estar endereça-
do a Deus (cf. “à tua direita” com “à minha mão direita” no v.l), em cujo caso os
versículos 5b a 7 descrevem as vitórias do rei sobre os seus inimigos e o sustento
na batalha. Outra possibilidade é que o rei é endereçado no versículo 5a e que
“o Senhor” (’ádonay) é Jeová (yhwh). Neste caso, os versículos 5b e 6 descrevem
as ações de Deus e não as do rei. A menos que o versículo 7 seja antropomorfo,
descreve os efeitos revivificantes que a intervenção de Deus produz para o rei. 
Jesus, Pedro e o autor de Hebreus utilizaram o Salmo 110. Em um debate
com os fariseus, Jesus, presumindo que Davi falou as palavras do versículo 1
sobre o seu Deus, o Messias, perguntou para os oponentes como o Messias
poderia tanto ser filho quanto Senhor de Davi (Mt 22.41-45; Mc 12.35-38;
Lc 20.41-44). Entendendo o linguajar do versículo 1 em sentido literal, Pedro
concluiu que Davi não poderia ser o endereçado, visto que ele não ascendeu
aos céus e assentou-se à mão direita de Deus. Pedro presumiu, como Jesus,
que Davi falou estas palavras sobre o Messias e concluiu que Jesus é “Senhor e
Cristo” (At 2.34-36). O autor de Hebreus entendeu que Jesus era o recebedor
de ambos os decretos registrados no Salmo 110 (Hb 1.13; 5.6-10; 6.20; 7.11-
22) e desenvolveu uma teologia elaborada do sacerdócio de Cristo com base no
segundo oráculo. Em suma, o Novo Testamento dá como certo que o Messias
Jesus é pelo menos o referente último de “meu Senhor” em Salmos 110.1 e o
recebedor dos oráculos registrados em Salmos 110.1,4. Jesus e Pedro entende-
ram que Davi era pelo menos o orador das palavras em Salmos 110.1, se não o
autor original.

Levando em conta a evidência do Novo Testamento, concluiríamos facil-
mente e talvez corretamente que o Salmo 110 é um Salmo exclusivamente régio
e profético que contém uma predição direta do reinado e ministério do Messias
proferida pelo próprio Davi. Para sermos justos, temos de reconhecer que esta
não é a única explanação que satisfaz os dados bíblicos. Outra possibilidade é
que o Salmo é indiretamente messiânico como os outros acima examinados.
Davi pode ter escrito o Salmo para a coroação de Salomão (ou aplicado a Salo-
mão um Salmo originalmente escrito para ele) para autorizar a sucessão (que
melhor modo de fazer isto do que chamar o herdeiro escolhido de seu “Se-
nhor”?) e ligar as promessas do concerto ao filho (cf. 1 Cr 28;29 para inteirar-se
da narrativa histórica da sucessão de Salomão). Claro que, apesar da grandeza
de Salomão, o ideal retratado no SI não se materializou completa ou perma-
nentemente na história de Israel. Porque Jesus é aquele em quem se cumpriu (e
aquele que o rei histórico idealizado pressagiava), ele poderia declarar que Davi
falou dele, e Pedro e o autor de Hebreus poderiam entender que os oráculos do
Salmo 110 se dirigiam a Jesus.

Se interpretarmos que o Salmo 110 é indiretamente messiânico, então fica
claro que Pedro e o autor de Hebreus, aplicando os dois oráculos do Salmo a
Jesus, deram à linguagem um sentido elevado ou literal (o autor de Hebreus faz
o mesmo em SI 45.6; ver nota 19). Visto no plano de fundo das promessas e
ideal davídicos, o mandamento no primeiro oráculo (“Assenta-te à minha mão
direita”, 110.1) é uma expressão figurativa que enfatiza a eleição e posição es-
pecial do rei em relação a Deus. Pedro e o autor de Hebreus entenderam um
cumprimento mais literal no caso de Jesus que ascendeu aos céus e tomou lugar
à mão direita do Pai (At 2.34,35; Hb 1.3; 8.1; 10.12,13; 12.2). No contexto da
antiga realeza davídica, o segundo oráculo (110.4) se refere ao status dual do
reino davídico de líder civil e religioso, comparando-o ao de Melquisedeque,
o antigo rei-sacerdote de Salém (Gn 14.18). Embora certos deveres sacerdotais
estivessem estritamente limitados aos levitas (2 Cr 26.16-18), o reino davídico
desatendeu muitos aspectos das instituições religiosas e sistema de adoração de
Israel e, como mediador entre Deus e o povo, poderia ser chamado “sacerdote”.
No antigo contexto israelita, as palavras “Tu és um sacerdote eterno ’ (110.4,
grifo meu) eram compreendidas como hipérbole ou como promessa de deten-
ção de status sacerdotal para a dinastia do rei e não como promessa de vida eter-
na literal para o rei como indivíduo. O autor de Hebreus elevou o linguajar a
outro nível. Como o sacerdote final e ideal régio (ou “melquesidequiano”), Jesus
não exerce autoridade apenas sobre os levitas, mas, antes, os substitui e torna
obsoleta a velha ordem (Hb 7; 10). Estabelecendo o caso, o autor de Hebreus
enfatizou que Jesus é literalmente um sacerdote eterno (Hb 7.3,16,17,24,25),
em contraste com os levitas, que chegavam ao ofício por sucessão ancestral (Hb
7.16,23).

ZUCK, Roy B. Teologia do Antigo Testamento : CPAD, 2009.