25 de janeiro de 2015

J. M. Houston - O pano de fundo geral do Antigo Testamento

O pano de fundo geral do Antigo Testamento

J. M. HOUSTON

Os estudos do pano de fundo geral da Bíblia já passaram por várias fases de desenvolvimento. Um dos principais interesses tem sido naturalmente a descrição da terra da Palestina. A ciência da geografia só amadureceu nos últimos 50 anos, de forma que uma síntese satisfatória entre a paisagem e a cultura é um desenvolvimento recente. Mas o interesse topográfico na identificação dos locais bíblicos; uma apreciação ampla, mesmo que obscura, da situação da terra em relação ao assentamento do povo, o clima e os recursos da agricultura; e outras considerações sobre o ambiente há muito tempo têm atraído as atenções. Jerônimo expressou isso no início do século V, quando no prefácio da sua tradução latina do texto grego Onomasticon de Eusébio escreveu o seguinte:

Assim como os que viram Atenas entendem melhor a história grega, e assim como os que viram Tróia entendem as palavras do poeta Virgílio, assim vai entender as Sagradas Escrituras com uma compreensão mais clara aquele que viu a terra de Judá com os seus próprios olhos e chegou a conhecer as referências das cidades e lugares antigos e os seus nomes, tanto os nomes principais quanto os que mudaram.


Por essa razão, Jerônimo incumbiu-se de sua tarefa. Mas a verificação precisa, empírica dos nomes de lugares foi impossível até os primeiros estudos sistemáticos do dr. Edward Robinson, no século XIX, que no período entre 1838 e 1856 identificou 177 do total de 622 nomes de lugares na Bíblia. Em 1889, 469 nomes de lugares tinham sido localizados, em grande parte como resultado das pesquisas do Palestina Exploration Fund. O desenvolvimento do mapeamento topográfico, inclusive os levantamentos geológicos, tornou possível então que fosse publicada a primeira geografia histórica, a de sir George Adam Smith. Desde então, novos estudos geográficos como os de Abel, du Buit e Baly, e inúmeras descrições em atlas acrescentaram muito à compreensão popular do seu terreno, mas raramente contribuíram com percepções realmente novas.

Uma segunda fase de pano de fundo geral e ambiental começou na verdade em 1890 com a escavação de sir Flinders Petrie em Tell el-Hesy e o uso cuidadoso da cronologia da cerâmica. Agora, buscas arqueológicas de distritos inteiros, como as iniciados por Nelson Glueck e seus sucessores, nos ajudam a reconstruir as paisagens enterradas de épocas passadas, iluminando o estudo dos processos de assentamento de grandes regiões. Isso foi intensificado alguns anos atrás por meio das questões controversas levantadas por Alt, Albright e Mendenhall. O seu sentido de Territorialgeschichte [história territorial] contribuiu para muitas reavaliações dos pressupostos tradicionais acerca do assentamento dos hebreus na Palestina. Eruditos israelenses como Yohanan Aharoni e Samuel Abramsky aumentaram muito a nossa compreensão das circunstâncias físicas nas quais a vida social e religiosa de Israel se desenvolveu.

Uma terceira evolução foi passar a ver os dois ambientes do homem como um: o ambiente social das realizações culturais do homem mesclado e combinado com o ambiente físico em que ele está inserido. Ou seja, enxergar os inter-relacionamentos entre história e natureza como um todo no qual para os hebreus a iminência de Deus nos eventos está associada à transcendência de Deus no ambiente físico. Para os hebreus, não havia abstrações como história ou natureza, pois a presença de Deus era reconhecida nos acontecimentos e na qualidade das duas. Mas os estudiosos da Bíblia debatem há muito tempo sobre se a singularidade da fé do povo de Israel era absoluta ou somente derivada das diferenças com seus vizinhos e a cultura destes. Além disso, será que as diferenças são atribuíveis aos respectivos contextos físico- sociais, ou será que a singularidade da fé e da cosmovisão de Israel é um evento da revelação? A resposta depende em grande parte das pressuposições dos estudiosos da Bíblia.

As pressuposições dos estudiosos incluem dois aspectos da interpretação dos dados. O primeiro está relacionado à causalidade. Será que este mundo é um sistema fechado de causa e efeito, de forma que a única coisa que se tem de buscar são as explanações “naturais”, em termos de compreensão racional? Em épocas passadas da pesquisa, era mais fácil identificar os estudiosos que adotavam um método positivista ou evolucionista em virtude das preocupações pela origem da consciência religiosa e pela origem dos textos. Mas atualmente predominam as questões teológicas, e a própria teologia bíblica transformou-se em um escudo útil atrás do qual o estudioso pode esconder seus pontos de vista ao explicar as convicções e perspectivas dos israelitas. Muitas vezes o leitor leigo não está interessado em saber o que os israelitas acreditavam com relação ao fenômeno da criação, mas se na década de 1980 este ou aquele autor crê na criação. O vento soprando sobre o “mar Vermelho” é uma explicação insuficiente para a libertação de Israel do Egito na época do êxodo. As vezes chegamos a pedir que as armadilhas míticas das explanações contemporâneas sejam completamente desnudadas, para que possamos afirmar no espaço e no tempo o que cremos que literalmente aconteceu. No entanto, as perspectivas historicistas e geográficas têm uma percepção concreta e específica dos eventos que a mente moderna considera desconcertante, se não frontalmente ofensiva, para o sistema de pensamento fechado do evolucionista e do que não crê na soberania transcendente de Deus. 

A segunda preocupação dos estudos modernos de pano de fundo é ligar as esferas dos ambientes físico e social. Homem-hábitat-cultura são inextricavelmente um campo. Pois o homem percebe do seu ambiente o que a sua cultura o treina a ver, de modo que a sua cultura é um filtro ou uma série de filtros pelos quais ele seleciona o que lhe é significativo no seu contexto. Assim, em certa época era popular seguir Gunkel e Gressmann na suposição de que as ideias mitológicas da criação e da escatologia veterotestamentária refletiam empréstimos de fontes babilónicas. Agora está claro que as perspectivas teológicas e as do contexto estavam sendo coerentemente contrastadas.  Da mesma forma, assim como as ideias distintivas e a vida religiosa de Israel são progressivamente admitidas, também a antiguidade da sua expressão é deslocada mais para trás, em vez de para a frente. De forma que a legislação “mosaica” de Wellhausen, considerada uma inovação do período pós-exílico agora é descartada em favor de uma datação mais tradicional. Por trás dessa forma de procedimento, está a interpretação geral de tantos eruditos bíblicos de que a religião dos israelitas é um resultado do ambiente do Antigo Oriente Médio. Alguns estudiosos apontam para tendências monoteístas entre outros povos semitas; outros apontam para o que consideram elementos pagãos na religião de Israel. Esse ponto de vista deve ser rejeitado completamente. A fé do povo de Israel é uma criação original de Deus, e a sua cosmovisão monoteísta não tem antecedentes no paganismo. O mundo de Israel era singular, não obstante sua utilização de materiais pagãos antigos como elementos de polêmica e defesa da sua fé.

Uma terceira preocupação contemporânea por maior clareza em relação às questões de pano de fundo é investigar a unidade formidável do Antigo Testamento em relação às responsabilidades éticas de Javé-Israel-terra prometida. Elas nos fornecem novas ideias e percepções acerca da crise ecológica do nosso mundo atual, pois a perspectiva de como o mal no coração do homem influencia e multiplica fontes do mal no mundo físico era um aspecto bem percebido e reconhecido pelos profetas.

O homem na sua liberdade está aberto para o mundo, e não instintivamente preso como estão todos os animais. O homem está aberto para a escolha, aberto para o significado, de forma que ele tem de traçar o seu rumo através da realidade como um cosmólogo que monta espaço e tempo em uma cosmovisão que lhe proporciona coerência e significado, legitimidade moral e orientação. Como ele se relaciona com o mundo, com a sociedade e com Deus ou os deuses faz parte do mesmo todo, de modo que a forma fragmentada em que o pensamento analítico moderno subdivide a natureza coesa da existência humana é algo estranho ao Antigo Oriente Médio como contexto da religião de Israel.
Essas perspectivas contribuem para as principais questões de pano de fundo que podemos tratar nesta análise do Antigo Testamento. São elas: o ambiente geográfico da Bíblia no Oriente Médio e o papel especial da terra de Israel; as perspectivas culturais dos seus povos, suas religiões e seduções para o povo de Deus; o assentamento dos hebreus na terra e a realidade teológica da terra prometida; e os temas relacionados ao ambiente recorrentes nas questões de pano de fundo na história do Antigo Testamento.

O AMBIENTE GEOGRÁFICO DA BÍBLIA NO ANTIGO ORIENTE MÉDIO

Suspenso entre Europa, Ásia e África, e entre os mares Mediterrâneo, Vermelho e o golfo Pérsico, o Oriente Médio é uma das áreas mais estratégicas do mundo. Se o homem surgiu primeiro aqui ou não, as suas primeiras civilizações certamente existiram aqui entre as bacias da Mesopotâmia e do baixo Nilo. Embora desertos ocupem o sul e o leste dessa região, há também gradações de regiões com melhores índices pluviométricos em direção ao norte e ao oeste. Aliás, há seis tipos principais de terreno e solo no Oriente Médio, com suas respectivas distinções ecológicas e culturais. Em primeiro lugar, há as terras às margens de rios no sul da Mesopotâmia e no baixo Nilo, que são quentes e têm baixa média anual de chuvas, mas cujo solo aluvial recompensa grandemente o agricultor quando se usa a irrigação. Aqui se desenvolveram após o quarto milênio a.C. as duas grandes civilizações ribeirinhas da Mesopotâmia e do Egito. Em segundo lugar, ao sul e oeste da Mesopotâmia e em volta do filete do vale do Nilo está a região desértica que tem sido negativa em grande parte na história do Oriente Médio, uma região de nômades e comércio, e em geral uma região da ausência da lei em relação aos poderes estabelecidos. Em terceiro lugar, temos o “Crescente Fértil", assim chamado por Breasted, em virtude de ser uma faixa estreita começando à beira do Mediterrâneo na Palestina e na Síria ao longo das regiões de colinas mais irrigadas próximas ao mar, junto com as terras na base das montanhas a noroeste de Alepo e a leste além de Kirkuk, que consiste em grande parte de colinas e vales cobertos de grama, preferidos por criadores de animais e agricultores da Antiguidade. Mas a leste e ao sul dessa região, está, em quarto lugar, a estepe infértil da Síria, em Jezira, e as terras a leste do Jordão, tradicionalmente uma região de nômades. Em quinto lugar, temos as encostas justapostas das montanhas do norte que ligam as formações da Anatólia e de Zagros e as planícies dos vales entre as montanhas, bem irrigadas e antigamente cobertas de uma mistura de matas de carvalhos e pastos naturais; provavelmente era a região em que cereais como a cevada e o trigo foram primeiramente cultivados para uso doméstico. Nas montanhas da Galiléia e da Síria, há um hábitat semelhante. Finalmente, há as regiões montanhosas da Anatólia e de Zagros, onde estão as nascentes dos rios que formam o Eufrates e o Tigre, e os seus habitantes exercem economias mais características de regiões montanhosas.

Após tentativas iniciais de ajuntar plantas, os povos tinham se concentrado nessa região. Entre 10000 e c. 5000 a.C., pequenas comunidades e vilas se desenvolveram nas colinas em volta do Crescente Fértil, na região sul da Anatólia, Síria, Palestina e nos planaltos do Iraque e do Irã. Ali, as chuvas do inverno para os grãos, pastos para ovelhas, cabras e gado bovino e uma gama ampla de condições ecológicas forneceram a base para a experimentação cultural. Quase 1.500 anos depois do estabelecimento de antigos sítios como Jarmo e Jericó, migrantes entraram nas regiões ribeirinhas. E possível que a vida em comunidade tenha levado mais 1.000 anos para se estender ao sul até Cartum (3300— 3400 anos a.C.), e mais 2.300 quilômetros para o sul. Entrementes, em torno de 3200 a.C., o período da dinastia antiga tinha começado no sul da Mesopotâmia, e a primeira dinastia do Egito começou um pouco mais tarde, c. 3100 a.C.

Embora tenha existido um desenvolvimento comparável da irrigação nessas duas bacias, a sua natureza hidrológica é fundamentalmente diferente, sendo sem dúvida uma grande causa dos muitos contrastes reconhecidos entre as culturas do Egito e da Mesopotâmia. O Egito é a dádiva do Nilo, um único rio que flui em espaço aluvial estreito, nunca mais largo do que 50 quilômetros, ao longo de aproximada mente 800 quilômetros entre o delta e os platôs do Sudão. As águas do Nilo vêm de duas grandes fontes: o Nilo Azul, alimentado pelas chuvas de monções do planalto da Etiópia, e dos outros rios do leste da África, regulados pelos pântanos do Sudd e os grandes reservatórios dos lagos Vitória e Albert. As enchentes do baixo Nilo são incrivelmente previsíveis, estabelecendo o calendário agrícola anual em três estações: “inundação”, da metade de julho até a metade de novembro; “águas vindouras” (i.e. da semente no reaparecimento de terras inundadas) da metade de novembro até a metade de março; e o período da seca, da metade de março até julho. O homem tinha um sentimento maior de confiança nas forças da natureza, enquanto o isolamento da área por meio dos desertos protegia a civilização egípcia de forma mais eficiente de influências externas. A disposição dos assentamentos era principalmente em torno do canal central do Nilo, em cuja margem estavam localizadas muitas vilas e as capitais temporárias que tendiam a mudar de acordo com o reinado de cada faraó.  A partir da primeira dinastia, foram mantidos registros anuais da altura do Nilo em cada inundação, e registros de impostos distinguiam as regiões baixas, inundadas regularmente, das regiões elevadas que só ficavam inundadas em enchentes excepcionais. Assim, o pulso sazonal do Nilo era a medida da soberania egípcia, para pro-mover um regime e uma mente totalitários e a divinização dos faraós; tudo isso era estranho à vida na Mesopotâmia.

No âmbito da Mesopotâmia, o baixo Eufrates e o baixo Tigre juntavam-se para irrigar a bacia, de forma mais incerta e oscilante. As águas sobem anualmente em maio e junho quando a neve derretida da Armênia se junta com chuvas fortes da primavera no leste da Anatólia, para alimentar os cursos baixos dos rios na enchente. Dependendo da sincronização dessas duas variáveis climáticas, pode haver inundações consideráveis na planície da baixa Mesopotâmia. Mas a irregularidade das inundações ao longo dos anos tornam o seu controle mais difícil do que no Egito, enquanto o pico elevado de água no auge do verão (maio—junho) minimiza o uso eficiente da água. Na Mesopotâmia, os cereais já estão crescendo quando chegam as inundações, enquanto no Egito os campos cultiváveis só recebem a semente após as inundações, tendo então a estação fresca em que podem crescer. Sabe-se agora que ocorria grande salinização do solo, com altos níveis do lençol de água e intensa evaporação. O professor Jacobsen considera a salinização a principal causa de mudança da civilização para o Norte, e a substituição da civilização suméria pela babilônica.  Mais uma característica da Mesopotâmia é a sua exposição a invasores e salteadores de regiões montanhosas e à migração de diversos grupos étnicos, de forma que as linhagens raciais foram mais híbridas e mistas do que no Egito. Em geral, há um clima de insegurança em termos físicos, ideológicos e culturais maior na sociedade da Mesopotâmia do que na do Egito.

Entre essas civilizações e continentes, está a ponte de terra da Palestina. Ela é o flanco ocidental do Crescente Fértil, formando fronteira com a margem oriental do Mediterrâneo, embora totalmente alienada dos caminhos do mar. Com extensão de aproximadamente 500 quilômetros no sentido norte—sul e raramente com mais de 100 quilômetros no sentido leste—oeste antes de se encontrar com o deserto, essa terra vai das montanhas Amnus e Taurus, no norte, até o Sinai, no sul. Com um clima ameno típico do mediterrâneo, com chuvas de inverno suficientes e calor moderado do verão,  além de uma grande diversidade de formações topográficas, essa área, embora pequena em tamanho, tem uma diversidade extraordinária de nichos e ambientes ecológicos. A não ser o Jordão, seus rios fluem de forma intermitente, mas suas colinas porosas de pedra calcária são abençoadas ricamente com fontes, e os suprimentos subterrâneos de água são um fator importante na sobrevivência de suas sociedades. A costa do mar teve relativamente pouca influência sobre a sua cultura, com exceção do norte, em que as montanhas estão em posição transversal à costa marítima e assim produziram algumas enseadas e portos naturais como Tiro e Arvade. Mas limitando-nos estritamente à Palestina, vemos que a linha costeira desprotegida não favoreceu ancoradouros e refúgios naturais.

Como zona de passagem entre as duas grandes civilizações da Mesopotâmia e do Egito, e também como teatro de batalhas entre povos do deserto e povos assentados na terra, as transações comerciais em épocas de paz alternaram-se com invasões militares ou inimizade local entre nômades e agricultores em épocas de agitação.  A pressão contínua por parte de nômades semitas do deserto influenciou a natureza predominantemente semítica dos seus habitantes. Mas pelo menos dois deslocamentos enormes de povos tiveram um impacto atordoante sobre a região nos tempos bíblicos: os povos amorreus, no final do terceiro milênio a.C., e a onda de invasores hebreus e arameus, nos últimos séculos do segundo milênio a.C.

Duas grandes estradas internacionais atravessavam a Palestina no período bíblico, “o Caminho do Mar” (Via Maris) e a “Estrada do Rei”. O Caminho do Mar foi importante em todas as épocas bíblicas, e foi ao longo dessa estrada que muitas cidades importantes da região se desenvolveram. Ela não seguia estritamente pela costa, e por isso o seu nome mostrava uma perspectiva setentrional como em Is 9.1, refletindo no seu acesso ao mar Vermelho. As cidades de Arvade, Tiro, Aco (Acre), Jope e Gaza estavam situadas ao longo dessa estrada. Mas uma via secundária seguia no interior na borda ocidental da Sefelá via Afeque até Megido e dali para Hazor e depois até Damasco. A segunda estrada principal, a Estrada do Rei, ia de Damasco ao norte ao longo dos platôs acima do Jordão via Astarote, Rabá-Amom, Bosra, para Elate no extremo norte do golfo de Acaba, com ramificações para o Egito e para a Arábia. De acordo com cada época, rotas menos importantes ligavam as regiões interioranas, das quais Aharoni listou 25 com alguma importância.  A sua distribuição, influenciada pela acessibilidade física de desfiladeiros, vales secos e o aparecimento de poços e fontes importantes, fixou o quadro geral e a hierarquia em importância das cidades e vilas da Palestina.

As influências geográficas sobre a história bíblica foram paradoxais. Por um lado, a Palestina sempre foi uma terra de unidades isoladas, dividida em insignificantes unidades e reinos tribais, rachados, separados e isolados pela cultura e por composições étnicas diversificadas. Assim, o regionalismo associado a nomes e áreas como Galiléia, Gileade, Amom, Moabe, Edom, Filístia, Judá, Samaria etc. tem sido profundo e duradouro. No terceiro milênio a.C., na idade do bronze antigo, já existiam diferenças culturais significativas entre os povos da região montanhosa e os das planícies. Em textos como Js 12, há uma lista de 31 “reis”, cada qual governando não mais do que uma cidade real e as vilas satélites, numa estrutura topárquica refletida nos Evangelhos na parábola dos talentos. Mas lado a lado com esse paroquialismo intenso e essa fragmentação cultural, havia também o impacto maciço das Volkerwanderungen (migrações de povos), as marchas dos exércitos, as oscilações constantes das influências internacionais entre Egito e Mesopotâmia e o surgimento ou colapso de povos inteiros. A Palestina era de fato o cockpit do mundo antigo.

Favorecida como terra agrícola desde o terceiro e segundo milênios a.C., ela exportava azeite e vinho para o Egito. Uma referência egípcia a essa terra no segundo milênio a.C. falava dela como “uma terra boa, que contém figos e vinhas [...] o seu mel (tâmaras) é abundante, e o seu azeite é imenso; nas suas árvores, há todo tipo de frutas; tem cevada e trigo, e os seus rebanhos são incontáveis”.  Assim, também, o autor de Dt 8.7-9 estava em condições de escrever de forma otimista e grandiosa da sua produtividade, enquanto suas florestas nas montanhas eram especiais (Js 17.14,19), e os seus recursos minerais de ferro e cobre já eram explorados no Neguebe, em Edom e no Líbano. E mesmo assim era uma terra pobre, quando comparada às civilizações às margens dos grandes rios, com frequência atingida por secas, tendo de enfrentar a distribuição desigual de chuvas em regiões contíguas (Am 4.7). De fato, a incerteza com relação às chuvas encorajava o seu povo a confiar em Deus, e não nos recursos do meio em que viviam (Dt 11.12).

AS PERSPECTIVAS CULTURAIS DOS SEUS POVOS

As fronteiras naturais da Palestina são realidades geográficas.  A fronteira ocidental é o Mediterrâneo; no leste, temos uma fronteira climática, o deserto sírio-arábico, delimitada mais especificamente pelo divisor de águas entre as águas que escoam para o Jordão e as que escoam para o leste. A sudoeste, é o rio do Egito, o uádi el-Arish. Somente no norte, a fronteira natural não está definida em toda a sua extensão, passando pelo rio Litani (Leontes), Hermom e o divisor de águas entre o rio Jarmuque e o oásis de Damasco. Mas é essencialmente uma região de trânsito para comércio e influências militares.

As características do relevo da Palestina foram o palco de diferentes dramas culturais. A planície costeira, em grande parte reta e sem entradas, enseadas ou portos naturais, nunca deu origem a uma civilização marítima como ocorreu em outras partes do Mediterrâneo Oriental. Mas, na agricultura e no comércio, tem sido a região mais rica, com a maior diversidade de culturas. No interior, a Sefelá representa as colinas no pé das montanhas de Judá, antigamente cobertas com florestas e cenário das lutas entre os israelitas e os filisteus. A espinha dorsal de pedra calcária das montanhas da Palestina contrapõe-se à Sefelá, divisível em quatro partes distintas: o Neguebe, as montanhas no sul, as colinas da Judéia, de Efraim e para o norte na Galiléia. Adiante disso, está a vala linear do vale do Jordão, dividida em três partes: a fenda do Jordão, que inclui o mar da Galiléia e o lago Hula; a bacia da fenda do mar Morto; e o deserto da Arabá, a região mais inóspita do país. A leste da vala do Jordão, estão os platôs montanhosos da Transjordânia, divisíveis entre as montanhas de Seir, Moabe, Gileade e Basã. Eles formam uma região semidesértica uniforme e ondulada. Esses sulcos e trechos em sentido norte—sul proporcionaram uma formação física de grande influência sobre a conquista e a vida da Palestina bíblica. Já no terceiro milênio a.C., existiam diversidades étnicas consideráveis nessa região, e características culturais independentes desenvolveram-se no período cananeu. Após a conquista israelita e, em particular, durante a monarquia de Israel, três elementos étnicos tornaram-se acentuados nos seus contrastes: os fenícios na costa norte, os filisteus nas costas central e sul e os israelitas na Sefelá, nas colinas ocidentais de Judá e Samaria, no vale do Jordão e na parte ocidental dos platôs a leste do Jordão.

A perspectiva cultural acerca do Antigo Testamento precisa levar em conta três realidades: a antiguidade dos seus povos e as migrações antes dos tempos bíblicos; a diversidade impressionante das culturas cujas diferenças se tornam cada vez mais apreciáveis à medida que prossegue a pesquisa; e as pressões extraordinárias sobre a singularidade da fé e da religião de Israel — e portanto também da sua preservação miraculosa no meio dos povos. O período bíblico na era dos patriarcas começa em aproximadamente 2000 a.C., mas as grandes civilizações do Egito e da Mesopotâmia, entre as quais as peregrinações dos patriarcas estavam suspensas, tinham existido 1.500 anos antes de Abraão. A colonização israelita na terra da promessa já encontrou cidades e vilas antigas, como sem dúvida também criou muitas novas. Mas Jericó já existia como povoado em aproximadamente 8000 a.C.

A diversidade cultural do Oriente Médio é comprovada na Lista das Nações (Gn 10), um atlas étnicogeográfico singular na literatura antiga, datando possivelmente já de 1000 a.C. ou até 1400 a.C.  Israel via-se como uma comunidade de povos, grupos representativos de diversos clãs e famílias. Foi a singularidade da aliança de Israel com Deus — não há evidências de que outros povos tenham feito uma aliança com os seus deuses — com as suas raízes no evento histórico da redenção do êxodo que deu origem a Israel como “nação”.  Subsequentemente foram formados os elementos necessários da nacionalidade por meio da fé e de costumes comuns, do governo e de um território definido (Dt 32.8,9). A exigência por parte do povo de um rei como o de todas as nações em volta (ISm 8.5) conduziu à demarcação territorial e à diplomacia entre Estados. Assim, na época do reinado de Salomão, Israel entrou em contato com os muitos povos vizinhos do seu território e tornou-se dependente deles.

A erudição bíblica mostrou a importância de separar os conceitos “hebreus” e “israelitas”.  A identificação dos dois termos ocorre na história de José (Gn 39.14; Êx 10.3). Mas em outras passagens a narrativa de Êxodo indica que um grande grupo misto de não-israelitas também participou do êxodo (Êx 12.38; Nm 11.4). “Hebreus”, sugere-se, é um termo mais social do que étnico, e depois de Saul ele praticamente desaparece da língua bíblica falada. Presumivelmente, depois do reinado de Davi, que construiu sua organização de Estado por assimilação, a natureza democrática e religiosa dos israelitas como “filhos de Israel” tornou-se mais real. Assim, a sua identidade surgiu primeiramente como um fenômeno sociológico, e não como um grupo étnico, e então mais tarde sua consciência de si mesmo é desenvolvida em torno de três questões principais: sua aliança com Deus, o incomparável; a experiência histórica da redenção do êxodo; e sua percepção de ser a comunidade de Israel.

O interesse crescente nas cosmologias antigas indica como a fé israelita era fundamentalmente diferente do paganismo dos povos vizinhos, mesmo que houvesse também contrastes acentuados entre as teologias da Mesopotâmia e do Egito. J. J. M. Roberts recentemente defendeu o aspecto de que o contraste radical entre “os deuses politeístas da natureza e o deus israelita da história tem de ser suavizado consideravelmente”, com respeito ao senso de história e da prática da divinização entre esses povos antigos. Mas é o golfo entre Israel e as outras nações que é muito mais óbvio, em campos e aspectos que ainda hoje separam profundamente as mentes do homem moderno. Pois todo o pensamento antigo existia em um sistema fechado das realidades primordiais da coexistência entre o bem e o mal, e do determinismo como o princípio máximo que influenciava e dispunha dos deuses como também dos homens. Isso é incompatível com a visão aberta de um Deus transcendente que é anterior a todas as outras coisas, que governa acima e além de todos, que fez uma criação boa, na qual o mal é uma intrusão posterior. Como Paul Ricouer e outros demonstram, isso gera um profundo contraste entre a fé bíblica e todos os outros sistemas de pensamento e fé. Além disso, a preocupação pessoal de Deus para com seu povo, a singularidade dos que reagem de forma positiva a ele, quebra a inevitabilidade do destino, a natureza cíclica do tempo e o materialismo que supõe a supremacia da matéria sobre o espírito. Nessas questões de fé e religião, o homem científico moderno está tão sujeito à escravidão da natureza e de suas forças quanto os devotos dos panteões da Mesopotâmia e do Egito. Pois o cientificismo é somente uma forma agressiva do paganismo.

Por isso, há uma consciência crescente de que a maior parte das alusões e do ensino acerca da fé israelita na criação eram polêmicas quando contrastadas com as falsas cosmogonias e cosmologias do mundo antigo. Essa é a chave para a interpretação bíblica de Deus criando a luz antes do estabelecimento dos céus estrelados (Gn 1.3,14), e as polêmicas contra a astrologia são numerosas no AT (Gn 1.14-18; Dn 2.10-19; Is 47.13). Às vezes, as referências a Leviatã, Raabe e outros monstros marinhos míticos sugerem a negação propositada de sua existência como divindades (SI 74.12-15; 89.9-10; Jó 3.8; 7.12; 9.8; 26.12-13; 38.8-11; 41; Am 9.3; Hc 3.8-15), mas com maior frequência são mencionados alegoricamente como não sendo mais do que criaturas de Deus. As descobertas de Ras Shamra enriqueceram grandemente nossa compreensão da religião cananéia, a sua obsessão com o culto da serpente que projeta muito do pano de fundo do AT, e a sua preocupação com os ritos de fertilidade de um ambiente com clima severo e insegro. Mas a postura pública de Elias contra os sacerdotes de Baal é somente uma das muitas disputas do AT contra Baal e a forma de atuar da natureza. Elias também aprendeu (lRs 18) que Deus, como Criador de todas as coisas, de forma nenhuma pode ser identificado ou confundido com as obras da criação; o Senhor, portanto, não estava no vento, nem no terremoto, nem no fogo (lRs 19.11). Assim também, Oséias reconheceu que o trigo, o vinho e o azeite, que o povo pressupunha serem dádivas de Baal, eram de fato provisão de Deus (Os 2.8-9); as videiras e as figueiras não eram pagamentos dos amantes dos deuses cananeus (Os 2.12).

Parece, portanto, que Israel enfrentou três perigos que forneceram um conjunto tríplice de motivações para a vida moral e sociopolítica de Israel: a sedução dos deuses cananeus locais e a sua constante ameaça à fé nacional; o Deus transcendente que chamou Abraão da Mesopotâmia e se comprometeu com ele por meio de um remanescente fiel; e a libertação de Israel do Egito, cujo totalitarismo e traços monolíticos eram tão implacavelmente hostis a tudo que a fé do povo de Israel implicava que somente a redenção e o evento histórico do êxodo poderiam salvar Israel.

O ASSENTAMENTO DOS HEBREUS EM CANAÃ

No futuro, quando mais dados arqueológicos se tornarem disponíveis, a geografia histórica do assentamento em Canaã vai assumir uma profundidade de perspectiva que ainda é sombria e incerta. Mas algumas questões já estão claras. Em primeiro lugar, a invasão dos israelitas não foi um evento isolado; estava relacionada às grandes ondas de expansão realizadas pelas tribos dos hebreus e dos arameus que exerciam pressão sobre todas as terras do Crescente Fértil. Pois foi também nessa época que os amonitas, os moabitas e os edomitas se estabeleceram na Transjordânia, e outros povos fizeram o mesmo na Síria e no vale do Eufrates. Em segundo lugar, a historicidade do êxodo está mais clara. A menção de Ramessés entre as cidades construídas por escravos israelitas (Ex 1.11) aponta para o início do reino de Ramsés II quando ele escolheu Tânis como sua nova capital. A Estela de Merneptá indica que os israelitas estavam em Canaã c. 1220 a.C.  As buscas arqueológicas de Glueck indicam que houve um novo assentamento na parte sul da Transjordânia somente no século XIII a. C., depois de longo intervalo.  A infiltração pacífica dos israelitas ou a violência da sua conquista variou de região para região, e variou também de acordo com a sequência histórica.

Alt imaginou as divisões territoriais da Palestina no período de Amarna da seguinte maneira: unidades territoriais relativamente grandes e população mais esparsa nas colinas da Galiléia, Palestina Central e Judéia; cidades-Estado ao longo da costa; cidades- Estado na Sefelá (Laquis, Gezer e Queila); e uma cadeia de cidades-Estado desde Aco até Bete-Seã nas planícies de Megido, Jezreel e Bete-Seã, e mais uma cadeia de cidades- Estado a partir da planície costeira em direção a Jerusalém via Zorá e Aijalom. As pressões militares, portanto, variavam de distrito para distrito, com uma expansão relativamente pacífica da colonização nas colinas e resistência muito maior nas planícies. A interpretação arqueológica de Albright é de violência e de destruição de muitas cidades da Palestina. A abordagem mais literária de Wright às conquistas sugere que a ocupação israelita ocorreu em dois estágios. O primeiro estágio foi a destruição de cidades da Palestina nas campanhas israelitas sob o comando de Josué contra a parte sul da Palestina Central (Gilgal—Jericó—Betel/Ai—Gibeom), contra o sul da Palestina (Libna—Laquis—Eglom— Hebrom—Debir) e contra a Galiléia (Hazor). Isso deixou áreas-chave intocadas e grande quantidade de habitantes com quem os israelitas tiveram de lidar mais tarde. O segundo estágio ocorreu durante o período dos juízes, quando a penetração pacífica de Israel das colinas cobertas de matas continuou, mas quando também ocorreram ataques planejados em muitos conflitos locais (e.g. Js 1—12).

Embora os estudiosos discordem acerca do modelo da conquista e dos estágios em que ela ocorreu, a expressiva conquista da região de colinas foi sem dúvida facilitada por três fatores. Em primeiro lugar, existia a organização social patriarcal-tribal dos israelitas que permitia táticas de defesa de guerrilha, mais apropriadas para assentamentos pequenos e não fortificados e grupos dispersos de colonizadores. Em segundo lugar, o uso de ferramentas de ferro substituindo as ferramentas menos resistentes de bronze na transição da idade do bronze para a idade do ferro ajudava na tarefa de remover as matas e preparar o terreno para a agricultura.  E verdade, o ferro ainda era monopólio dos filisteus, mas os filisteus estavam dispostos a ceder ferramentas agrícolas de ferro aos israelitas, embora não lhes cedessem armas de ferro (ISm 13.19-22). Em terceiro lugar, a invenção de cisternas com paredes rebocadas na idade do bronze tardio,  adotada dos cananeus, revolucionou a possibilidade de mudar os centros de densidade populacional das planícies ricas em fontes e poços para as colinas e região montanhosa e assim cultivar terras nunca aradas (v. alusão a essa tecnologia em Jr 2.13).

Aharoni foi o pioneiro na geografia histórica dos assentamentos, ao usar as listas bíblicas para mapear as áreas e cidades dos cananeus não conquistadas pelos israelitas, como também definir os limites tribais.  Mas há muito ainda para ser aprendido acerca da história e da natureza sociológica desse período. Então por aproximadamente 150 anos os filisteus dominam o cenário, especialmente na Sefelá e nas planícies costeiras, no período entre os juízes e a monarquia sob a regência de Davi. Os filisteus chegaram algumas gerações após os israelitas e pertenciam à onda dos “povos do mar” que estavam migrando para o leste, com origem nas terras e ilhas gregas, para a Síria e Canaã.  A volúpia das suas mulheres é a triste história que está por trás da vida de Sansão. A vitória de Davi sobre Golias é muito mais do que uma epopéia, pois reflete a adaptação profunda da teologia e da cultura de Israel para estar em condições de enfrentar o conceito egeu da vitória resultante do confronto de dois guerreiros, em si um desafio ao conceito israelita da personalidade coletiva do povo de Javé. Mais tarde, durante o seu reinado, Davi incorporou totalmente os filisteus sob o seu domínio.
Durante os reinados de Davi e Salomão, o Estado israelita alcançou seu apogeu político e econômico. Em termos geopolíticos, isso pode ser explicado por meio de seu controle tanto da Via Maris quanto da Estrada do Rei, exercendo então domínio absoluto sobre as principais rotas comerciais do Oriente Médio. Assim, as evidências arqueológicas mostram uma elevação repentina do padrão de vida. Mas as denúncias proféticas também deixam transparecer nos períodos subsequentes o declínio moral em virtude desse materialismo. No entanto, as rotas comerciais eram também as rotas dos exércitos, e assim as campanhas assírias de Tiglate-Pileser III e de Senaqueribe, a invasão do Egito de 609 a.C. e depois a vitória do babilônio Nabucodonosor em 604 a.C. apagaram os últimos vestígios de independência judaico-israelita.

A TERRA PROMETIDA

No entanto, no exílio como na ocupação da terra, os israelitas desenvolveram uma teologia da terra cujas características não são claramente compreendidas hoje. Mesmo assim, a sua aplicação tem duas consequências muito fortes: a relevância do sionismo no Estado de Israel e o desafio dos ambientalistas de que a tradição judaico-cristã é responsável pela crise ecológica atual. A primeira implica uma realidade que talvez seja mal orientada pela leitura do AT, visto que é a promessa de Deus — que reflete o caráter dele — que é a base, e não a estrutura geo- política. A segunda acusação é infundada se a compreensão teológica da criação e do domínio do homem como mordomo é biblicamente compreendida.

Há outros aspectos que também precisam ser negados. Ao seguir perto demais os pontos de vista de Mircea Eliade acerca da santidade religiosa,  W. D. Davies no seu importante livro The Gospel and the Land [O Evangelho e a terra] formula a noção de que Israel se imaginava como o centro da terra.  E verdade que o termo omphalos é usado uma vez (Ez 5.5), mas o ponto de vista mitológico pagão segundo o qual o templo ou a terra tinham significado cósmico e santidade per se é totalmente estranho à Bíblia. A centralidade de Jerusalém e de seu templo era geográfica, e não cosmológica. O templo era uma casa feita por homens, na qual Deus se tornava presente, embora o céu dos céus não fosse capaz de contê-lo (lRs 8.27). Da mesma forma, embora os semitas tivessem um “sentimento de conexão real e íntima com a terra”, e ocasionalmente os colonizadores babilônios em Israel fossem atacados por leões e outras feras porque “não conheciam as suas [do Deus da terra] exigências” (2Rs 17.24ss), mesmo assim não há evidência alguma de que os israelitas pensassem de Javé como uma divindade local. Antes, o exilado israelita na Babilônia, olhando para a terra de Canaã, podia declarar: “Levanto os meus olhos para os montes e pergunto: De onde me vem o socorro? O meu socorro vem do SENHOR, que fez os céus e a terra” (SI 121.1,2).

No entanto, há também a reivindicação de Javé, de que a terra em que Israel vivia era dele, de modo que os israelitas não eram proprietários mas “estrangeiros e imigrantes [‘peregrinos’, ARA]” (Lv 25.23). Israel não possuía e não tinha de reivindicar nada. Além disso, como disse Buber, “a própria natureza da terra de Canaã testemunha da providência ininterrupta de Deus. E é a sua natureza que a qualifica para ser o penhor da aliança”.  Deus se importa com a terra, abençoando-a com chuva (Dt 11.10-12), pois o conceito de natureza é totalmente estranho à fé bíblica, e tampouco há um sistema abstrato de mundo, seja ele chamado cosmo ou Universo.  O radicalismo de pensamento que considera o Deus Criador a fonte e o sustentador de todos os fenômenos não dá espaço a qualquer sistema físico e autônomo chamado “natureza”.
Em vez disso, a terra prometida dependente da fidelidade de Javé pode ser vista num relacionamento triangular.

Javé
Israel \ Canaã

Sem Javé, não poderia haver nenhuma promessa para Abraão, nenhuma promessa de terra, nenhum cumprimento. Israel também era uma variável na situação, pois, como benfeitor da aliança de Deus, era o receptor da Lei, de modo que seu desfrute da terra era condicionado aos regulamentos para a sociedade e a terra. Se Israel desobedecesse aos mandamentos, seria expulso da terra (Lv 10). Mas a terra em que Israel viveria não estava baseada em recompensa pela legalidade, mas na vontade e na graça de Deus (Dt 6. 20ss). Assim, a terra, ganha pela conquista com a ajuda de Javé, também poderia ser perdida se Javé retirasse o seu apoio (Js 23.3,9,15,16).

Um relacionamento justo com Javé e a terra também se refletia numa sociedade justa, orientada segundo o governo da Lei (Dt 21.5; 16.18). O poder deveria estar equilibrado entre os produtores de alimentos e os legisladores, de modo que os levitas como administradores da Lei eram proibidos de serem proprietários de terras (Nm 26.57,62).

Em vez disso, eles foram separados em algumas cidades (Nm 35.1-8), sustentados em parte por sacrifícios e impostos (Nm 18.21, 24). Os dízimos para os pobres ajudavam a redistribuir a riqueza, e, além disso, as leis de respiga proporcionavam assistência aos necessitados (Lv 19.9-10; Dt 24.19-21). Taxas de juro zero também ajudavam a controlar o acúmulo de capital em toda a sociedade, o que também ocorria por meio dos anos sabáticos e do ano do jubileu (Dt 15.1-10; 23.19, 20). Era uma sociedade marcada pela ética do trabalho e do lazer, em que o tempo de lazer era gasto com questões espirituais e educacionais da sociedade para dar significado ao trabalho e à existência da pessoa, e não o contrário, como ocorre numa sociedade compulsivamente viciada em trabalho (Ex 20.9; Dt 6.6-9; 31.9-13). Robert North duvida de que alguma vez essa legislação tenha sido implantada, embora esteja claro que o rei Ezequias colocou novamente em vigor a antiga legislação no seu reinado (Jr 34).57 Isaías também tinha a visão de que a renovação do povo de Deus e a renovação da história ocorreriam na forma de um jubileu (Is 58.6-12).

Mendenhall destacou, no entanto, que uma comunidade fundamentada em valores e na aliança é fortemente contrastada por um sistema de controle social organizado e mantido pela lei. Isso significa dizer que o Reino de Deus não é um Estado político. Não está fundamentado em poder, dinheiro ou prestígio, mas na prática do amor, da justiça e da equidade em escala pessoal, e não na organização coletiva. E uma comunidade, chamada em graça, que responde por gratidão, ativa por livre vontade, comprometendo cada indivíduo não pela organização social mas pelo “temor do Senhor”, que olha para a frente, para a esperança futura, independentemente de todos os outros controles sociais e culturais. E aqui que a fé e a prática bíblicas transcendem os controles ambientalistas, quer geográficos quer culturais, capacitando o povo de Deus com uma singularidade e com um impacto duradouro e inextinguível sobre toda a história. Foi o que Jesus pregou e incorporou.

Entrementes, a realidade do governo de Deus é obscurecida pelo mau uso por parte do homem da ordem que recebeu de dominar sobre a terra. No cântico dos sete milagres, o salmista louva a Deus por colocar muitas coisas à disposição do homem: o céu, a terra, a água, os produtos da terra, o sol e a lua, o mar e, acima de tudo, o presente da vida (SI 104). Ao receber a tarefa de cultivar as coisas dadas na criação de Deus, como um jardineiro o homem cuida da terra (Gn 2.15) e ouve a seguinte exortação: cuide para que a terra esteja preparada para sustentá-lo, quando os seus dias e os dias dos seus filhos se multiplicarem (Dt 11.16-21). Assim, inúmeras precauções para a manutenção da criação de Deus são listadas (e.g., Dt 20.19,20; 22.6-8). Mas na queda do homem, na sua avareza e lascívia, o mal do homem reflete-se na deterioração ambiental (Is 22.9-19; 24.1-13). Soluções exclusivamente econômicas, ecológicas ou políticas hoje não podem remediar as questões da crise ambiental global que estamos enfrentando, como claramente o demonstram os princípios bíblicos do AT.

OS TEMAS RELACIONADOS AO AMBIENTE NO AT

Como conclusão, podemos fazer referências breves aos temas relacionados ao ambiente que encontramos no AT. Esse é um tópico confuso que às vezes sugere um determinismo da matéria sobre o espírito, da geografia sobre a história, que é estranho à fé hebraica na transcendência de Deus. Além disso, fica ainda mais confuso com o poder hipnótico que a “natureza” tem exercido sobre a mente humana desde a aurora da civilização. As características e o conteúdo do Universo físico são formulados em metáforas elaboradas pelo homem, e não na realidade em si. Assim, o homem não fez progresso algum na escolha humana entre a creatio ex nihilo de Deus como o início do Universo, ou o movimento cíclico do tempo. A matéria infinita incriada da cosmogonia babilónica, em perpétua evolução e expansão, não é diferente da crendice do homem moderno na “natureza” e da fé nas “forças da natureza”.  Grande parte da teologia também está confusa no seu modo de pensar acerca do “natural” e do “sobrenatural”.  Não é estranho que o ambiente natural esteja preparado para mediar Deus como transcendente na sublimidade do mundo físico e como gracioso ao sustentar o homem na precariedade da existência humana.

Esse então é um tema da Bíblia, o da precariedade em que Israel foi colocado, entre o deserto e o jardim. Há muitas palavras no hebraico para deserto, estepe e região árida, que servem para descrever as características predominantes do seu meio ambiente. Além disso, as suas ameaças são mais do que físicas, sendo vistas como evidências de um estado moral, e da morte. E o domínio dos demônios, do mal e o palco do juízo de Deus (SI 106.26,27; Jr 25.38; Is 34.13,14). Mesmo assim, é a esfera da aliança de Deus em relação a dois aspectos: como lugar de felicidade redentora e de provação e instrução (Dt 32.10, 11; Os 2.14,15; Jr 2.2). As peregrinações do Êxodo são assim integradas em uma série completa de lições que Israel pode aprender, tanto coletivamente como povo de Deus quanto como indivíduos. Hoje, esse é um tema teológico muito importante para os que vivem no ambiente da cultura norte-americana, visto que grande parte da identidade dos EUA foi formada com base no tema do deserto que os pais puritanos fundadores certamente conheceram.


A ascensão e a queda de empreendimentos e instituições humanos no contexto do Oriente Médio também estão claramente formuladas no AT. O conflito entre Caim e Abel, agricultor e pecuarista, é tipificado. Invasões e conquistas de povos nômades interromperam o desenvolvimento bem ordenado da irrigação e da agricultura. A destruição da vegetação, a erosão do solo e o declínio da capacidade hidráulica em virtude do assoreamento são bem conhecidos nesse contexto. A compreensão holística da ecologia tem transformado radicalmente a mente moderna nos últimos anos com respeito à interdependência da vida. Mas essa é a atmosfera do AT, aliás muito mais fundamentalmente, pois no final das contas reconhecemos que a desobediência às ordens de Deus e o orgulho humano são a causa de todos os males. Pois o pensamento semítico do AT não é pensamento grego, que tanto domínio exerceu sobre o cristianismo ocidental e latino, mas é pensamento voltado ao todo, expresso concretamente e seguido de ação. De modo que o homem em comunidade e a comunidade sob o governo de Deus são quadros referenciais abrangentes e integrados para proporcionar shãlôm, aquele sentimento tipicamente bíblico de paz, saúde e completude que vem da justiça e da fé. Pois no final das contas, ó sentido bíblico de controles e consequências ambientais não é o da natureza, mas do Deus Criador-Redentor.

FONTE: BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Vida, 2008.